22 novembro 2012

Primeiro viver, depois filosofar

Quando este aforismo foi inventado já se tinha filosofado muito e chegado à conclusão de que para se filosofar é preciso ter vivido alguma coisa daquilo que se pensa. É preciso ter matéria sobre a qual reflectir, sob pena de se cair num exercício mental inútil, estéril e vazio. E é necessário que o pensamento seja adequado à realidade. Por outro lado, como poderá filosofar quem não consegue sequer o mínimo para viver? Meio a propósito, ocorre-me citar um poema de A. O’Neill: “Você tem-me cavalgado, seu safado! Você tem-me cavalgado, mas nem por isso me pôs a pensar como você. Que uma coisa pensa o cavalo, outra quem está a montá-lo”. Pois é, neste caso aquilo que parece uma realidade, na verdade são duas. Aquilo que poderia parecer traduzir-se num único pensamento, na verdade exige dois e opostos. Vem isto a propósito de quê? Sei lá, se calhar de nada. Talvez palavras que, como se diz vulgarmente, perdem a oportunidade de ficarem caladas. A intenção é referir-me àquela coisa a que, na actualidade, quase toda a gente que escreve se refere: a crise. Já foram feitos muitos comentários, dadas muitas explicações, descrita a esquizofrenia entre a euforia económica e a depressão financeira. Fala-se da metáfora bíblica de tempos de vacas gordas e magras, de pensamentos de séculos passados que se referem ao mesmo problema em circunstâncias diferentes, de profetas que acertaram e de cientistas que se enganaram. Parece que ainda não se falou de Jesus, mas também se pode falar. De como ele se dirige às pessoas a partir da realidade concreta de cada uma. De como anima as suas vidas, encorajando-as a saírem do sufoco ou do caos em que outros as metem. De como as cura ou lhes dá alimento de um modo que evite o aparecimento dos missionários do negócio ou dos comerciantes do milagre. Esses que em tempos de crise têm a habilidade de criar ilusões e enganos. Hoje vivemos num mar de análises, esclarecimentos, observações, peritagens, previsões, cálculos, projecções… que nos perdoe o mar por o compararmos a tais coisas. Muita demagogia em pouca filosofia, muito escrever em pouco viver.
Isso também acontece na Igreja que, por definição, é diversa e plural. E se nós, que também somos Igreja, nos indignamos por não nos darem atenção, não nos terem em consideração, não atenderem àquilo que defendemos ou propomos, que dizer da indignação que toca o rés-do-chão da vida? Que dizer daqueles que também são homens e mulheres que querem trabalhar e não têm trabalho, que terminaram um curso e não têm um lugar onde exercer a sua profissão, que querem ter filhos e temem não terem possibilidade de os poderem criar, que são idosos e doentes e a sociedade os vai deixando para trás, que também são portugueses e vão buscar refúgio noutras pátrias! A grande maioria dos que passam por isto não tem possibilidade de filosofar sobre essas realidades. E se tem, não lhe é dado lugar onde o dizer a não ser na rua. Vive-as e sofre-as com as palavras entaladas na garganta, palavras que talvez não fossem sequer consideradas bem escritas ou bem ditas para se tornarem públicas ou serem publicadas. E os que falam e escrevem sobre essas realidades, falam e escrevem realmente sobre elas? Convém não ser injusto porque há quem o faça, mas no geral trata-se de filosofar sem viver. Mesmo na Igreja. Na Igreja há muita gente que faz o bem impelida pela sua fé e pelo conhecimento da pessoa de Jesus. E faz o bem com muito amor e beleza. Mas vejo acontecer com bastante frequência aquilo que é descrito numa pequena história já antiga: uma lenda cheia de humor popular, sempre muito realista, diz que, por volta de 1453, quando os turcos invadiram Constantinopla e entraram no palácio imperial, encontraram o imperador com a sua família e o seu círculo de teólogos, imperturbáveis, numa animada discussão sobre teoremas religiosos sem qualquer ligação a qualquer realidade. Um dos debates era sobre o sexo dos anjos, considerada uma questão que poderia ser de grande relevância para os destinos da humanidade. Entretanto o invasor ia ocupando a cidade e apoderando-se livremente dos seus bens. Sabendo nós que a lenda e a história andam juntas, Deus nos valha!
Frei Matias, O.P.

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