16 novembro 2012

SANTOS SEM ALTAR

Santos é um dos apelidos mais comuns em Portugal. Ser santo pelo contrário parece ser uma condição muito invulgar. É verdade que nos dois últimos pontificados se fizeram reconhecer uma genuína proliferação de santos de altar, mas esses estão no pedestal dos altares laterais das Igrejas ou apenas no calendário litúrgico.
Quanto ao uso e abuso da palavra verificamos que quando se diz de alguém que “fulano de tal é um santo homem” soa aos ouvidos menos púdicos como uma subtil dúvida sobre o exercício da sua masculinidade, ou para os ouvidos menos freudianos e mais beatíficos, como equivalente a ser um palonço, um ingénuo. Tem pois má fama, esta palavra!
Na tradição portuguesa, quer na reconstrução ideológica da identidade nacional, (“Salvé, Nobre Padroeira…”), quer especificamente na religiosidade popular, não nos compreendemos sem o recurso aos santos patronímicos das terras, das romarias, à devoção mariana a Santa Maria nas suas várias invocações, aos santos de Verão, como os ditos Santos Populares, ou aos  das outras estações do ano, como recentemente São Martinho, no Outono, que anuncia a partilha da capa com quem precisa e provavelmente das castanhas e água-pé. Virá depois São Nicolau no Inverno e assim por diante. Há muito boa gente que ao perder qualquer coisa se apressa a rezar o Responso a Stº António, confiando que há-de acontecer o milagre do aparecimento do objeto sumido. Ou a São Judas Tadeu invocado como advogado das causas impossíveis. Esta proximidade com os santos é curiosa, mas é apenas instrumental; eles são a cunha idónea para dar uma ajuda no quotidiano nos momentos de aflição e também nos de festa. Para quem desconfia de que o sistema de cunhas que vigora na terra com sucesso seja ineficaz no céu, a devoção aos santos tornou-se insignificante. Purificou-se de algum modo, mas perdeu-se.
Originalmente o conceito tem um sentido bem distinto. Paulo, o Apóstolos dos Gentios, ao escrever às comunidades da Diáspora por si fundadas refere-se aqueles que se reconhecem cristãos como “Santos”. Estão santificados em Cristo. Não são pois os mortos, mas os vivos. Não são os que receberam o título de santidade (tipo conde, marquês, etc.), o reconhecimento legal hierárquico da santidade, mas “apenas e só” aqueles que, por terem querido ser baptizados, são reconhecidos como participantes da vida em abundância do Evangelho.
Ser Santo é então ser Cristão. A questão difícil é a que vem depois; é ser capaz de viver como tal!
A falha antropológica entre o ser e o fazer revela-se precisamente na dificuldade de se viver como se pensa que se quer viver, coerentemente, entre a mensagem da Boa Nova e a incapacidade demonstrada nas obras. A esta dificuldade há quem lhe chame pecado ou apenas fragilidade humana. Seja qual for a designação mais adequada, a discrepância entre os dois planos existe. A má fama da palavra Santo vem desse uso desmesurado de bons princípios e de más práticas correntes, ou pelo menos, pouco boas, face ao que seria legitimamente expectável.
Esta expectativa é múltipla; pessoal, comunitária, eclesial e social. Quando os cristãos são atacados veementemente, por gente de fora do grupo, são-no por não serem testemunhas eficazes do amor ao próximo que Jesus Cristo viveu e anunciou. Raras vezes na praça pública se ataca o cristianismo enquanto mensagem, mas em geral a crítica incide sobre a forma como os mensageiros da Boa Nova a levam à prática. E aí cada um que “ponha a mão na consciência”! Há mesmo muitas razões de queixa por ficarmos demasiado longe do que seria necessário e credível.
Não basta a Fé, mesmo se este é o ano da Fé; pois temos muita! Não basta a Esperança e com esta crise é mesmo quase só isso o que nos resta. O que permanece é o Amor. Não confundir com caridadezinha e polémicas adjacentes. Os atos valem mais do que as palavras.
Há muitas ações concretas realizadas por gente de boa vontade, cristã ou não, em prol dos que mais precisam. Só assim o mundo se tornará mais humano, justo e solidário. Os que trabalham nas respostas de emergência social, de proximidade fraterna, na procura política de um modelo de desenvolvimento menos injusto, são esses os Santos que repõem a palavra no bom caminho pois estão a encontrar as mediações para testemunhar o que é o Reino de Deus.
Se olharmos à nossa volta reconhecemos que os Santos da nossa devoção estão bem vivos e atuantes. Precisamos deles para serem fermento da massa e nos ajudarem a sermos cristãos.
Partilhar o tempo, o que se é, o que se sabe, o que se tem é talvez uma possibilidade de Nova Evangelização mais eficaz do que as tradicionais ladainhas aos Santos. Novas vias de santificação (que palavras mais beatas!) eis alguns exemplos do que se já se faz e que importa apoiar:




Podemos pois partilhar e seremos um pouco mais santos, só que andamos demasiadas vezes distraídos a olhar para o nosso próprio umbigo, enredados nas nossas próprias dores, em vez de admirar e seguir o exemplo do samaritano da parábola que soube ver, julgar e agir sem demora! Quem faz isso hoje, são esses os Santos sem altar que encontramos todos os dias.
AFF   14-11-2012                          

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