02 dezembro 2012

COMBATE À RECESSÃO LITÚRGICA (II)

1. Consta que existe um movimento de retorno à missa em latim, com o padre de costas para o povo ajoelhado.
Tive aulas de teologia em latim, activas e passivas. Continuo a gostar de ler o meu querido confrade, Tomás de Aquino, na limpidez dos seus textos que falam das mil formas da misteriosa presença de Deus na evolução do mundo, sem interferir nas leis da sua inviolável autonomia, investigadas pelas diversas ciências.
A missa em latim e de costas para o povo conheço-a desde criança, como sacrifício que ia aguentando como todos, até ao fim, acompanhada da monotonia do terço, à espera do “ sed libera nos a malo” - do padre “à procura da mala” - sinal de que aquilo estava prestes a acabar.
Nunca esquecerei um colega de escola que dela só reteve e fixou o encantamento de falange, falanginha e falangeta. Com esse recurso, conseguiu ser o melhor nas respostas ao senhor abade, bastante mouco, no exame de catequese. Passou a ajudar à missa e quando o celebrante se virava para dizer “dominus vobiscum”, respondia com o seu melhor latim: falange, falanginha e falangeta.
Dir-se-á que coisas destas só eram possíveis num povo muito atrasado, da serra do Gerês. Tenho, diante dos olhos – reproduzo com a grafia da época - o Compendio de Orações e Práticas Piedosas Dedicado á Juventude Catholica, pela empresa editora do Bem Público (Lisboa 1909), com aprovação eclesiástica de António, Patriarcha de Lisboa, que, para tanto, pediu parecer a “pessoa competente”.
O assunto é litúrgico, nada menos do que a Explicação dos mysterios da missa. Não posso transcrever, na íntegra, essa peça exemplar e citadina. O começo diz o estilo de todas as outras instruções: Quando o sacerdote sae da sacristia revestido, representa Christo quando saiu do ventre virginal de Nossa Senhora ao mundo, e quando subiu ao monte Calvario a obrar os mysterios da nossa redempção. O que a seguir diz da corôa, do amícto, da alva, do cordão, do manípulo, da estola, da casula, do sebasto da casula, do templo, do altar e da pedra d’ara, da cruz, dos corporaes, pala e toalha, do cálix, da patena, da hostia e vinho, é ainda mais hilariante. Nada tem a ver com nada.
2. Textos destes situam-se no grau zero da inteligência da pré-história do soluçante movimento litúrgico em Portugal, embora já estejam registados alguns momentos do seu despertar[i].
Não espanta, no entanto, que a constituição litúrgica, Sacrosanctum concillium (4.12.1963), tenha sido o primeiro documento votado e aprovado no Concílio Vaticano II, marcando uma tal viragem nos seus debates que influenciou, de forma positiva, tudo o que veio a seguir.
Tinha sido preparada pelas grandes intuições, iniciativas e pesquisas que desaguaram no movimento de pastoral litúrgica da Áustria, Alemanha, Bélgica, França, etc., em simbiose com a renovação da arte sacra - arquitectura, pintura e música – e com as reformas do Tríduo Pascal dos anos cinquenta do século passado.
A constituição aprovada ia de encontro ao que se desejava para um concílio de renovação da Igreja que compreendesse o mundo contemporâneo e que este, nas suas contradições, alegrias e tristezas, pudesse entender o sentido da mensagem evangélica. Chegava ao fim o tempo de uma Igreja que só falava latim e de costas para o povo.
3. Sem uma língua oficial e universal, temia-se que a Igreja se tornasse uma Torre de Babel. Esta analogia não era muito feliz. Segundo o mito bíblico, foi Deus que não gostou de um mundo reduzido à ditadura de uma só cultura e de uma só língua. A Divindade pode ser escutada e louvada em todas as línguas da Terra. O Pentecostes, que abriu a Igreja ao mundo na sua diversidade e o mundo à pluralidade dos carismas do Espírito Santo, mostra que cada povo pode ouvir a mensagem da ressurreição, nas expressões da sua própria cultura.
A viragem litúrgica do Vaticano II meteu a Igreja em trabalhos e para sempre. Não há decretos, rituais, traduções de textos que possam substituir a criatividade literária, musical e artística da cultura própria das comunidades. Pensar que basta formatar um pronto a servir, com todas as indicações do que está permitido e proibido fazer, é regressar ao império do direito canónico e do rubricismo, nova edição de uma liturgia de costas para a criatividade do povo cristão. Este não está situado fora ou acima do tempo e da cultura em que vive. Os cristãos não existem para dizer ámen a tudo. Uma celebração litúrgica que não seja percorrida por uma mística e uma ética, que não seja uma energia de mudança de vida, será sempre um ritual vazio.
A ritualidade é inerente à condição humana, religiosa ou não. A liturgia é uma antropologia para Deus e uma teologia para os seres humanos. Para os cristãos, o conjunto das acções rituais é a mediação da graça de Deus a nível cognitivo, emocional e estético.
Uma missa que só investe na homilia é apenas instrução, a escorregar para o moralismo; se apenas procura emoções, assim como aquece, arrefece; se é só estética, torna-se arte pela arte.
A liturgia é convocatória de todas as artes para que a vida seja bela.

[1] Bernardino Ferreira da Costa, osb Movimento Litúrgico em Portugal, Ora & Labora, Singeverga 2009

Frei Bento Domingues, o. p.
     in Público

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