23 dezembro 2012

SERÁ JESUS CRISTO UMA CAUSA PERDIDA? (1)

1. Em 1834, Gaia e Vila Nova juntaram-se. Em 1984 esta união passou a cidade. Porque tinha sido fronteira entre o estado árabe e o cristão, a partir do séc. VII D.C., agora diz-se, no humor da Ribeira portuense, que um “mouro” resolveu finalmente ultrapassar o rio, pois não se resigna a ficar para sempre apenas como ex-presidente do terceiro município mais populoso do país.
Antes ainda de ser vila e cidade, Gaia já estava coroada por um grande centro religioso, o Mosteiro agostinho da Serra do Pilar. Ir ao Porto e ignorar esta bendita serra, é como ir ao Rio de Janeiro e esquecer o que se vê do alto do Corcovado. Entretanto, em Portugal, a partir do séc. XIX, desenvolveu-se o fascínio militar pelo sagrado. Também este célebre mosteiro é agora uma caserna. Ainda assim, o belo edifício da antiga Igreja, de planta circular, reúne uma criativa, fervorosa e lúcida comunidade católica, não paroquial, que me acolheu num debate muito participado sobre o Concílio Vaticano II e numa admirável celebração litúrgica. É pena que esta comunidade disponha de espaços tão reduzidos para as iniciativas sociais que desenvolve, consequência de uma fé cristã empenhada na alegria dos mais carenciados.
Hoje, Vila Nova de Gaia já não é só o esplendor da vista sobre a foz do Douro, sobre as torres e telhados do Porto, ou a presença restaurada do Mosteiro de São Domingos das Donas, Corpus Christi, junto ao Cais e às memórias das caves do vinho mundialmente conhecido, assim como o novo passeio à beira rio e à beira mar que se prolonga até Espinho; é também a maior concentração de grandiosos supermercados e a nova capital da religião da prosperidade, o Cenáculo do Espírito Santo, da IURD, em construção avaliada no módico custo de doze milhões de euros (PUBLICO 17.12.12). Espero que o infigurável Espírito Santo não se esqueça das exigências da expressão humana da divina beleza.
2. Observam-me que se está apenas a retomar a velha e nova crença das religiões do Oriente e do Ocidente: se Deus é Deus, todos os gastos são poucos para afirmar a sua infinita grandeza. Quando a grandeza e a beleza dos templos é confrontada com a miséria das populações, aparece sempre alguém a dizer: os pobres morrem, a arte, mistério do tempo, fica para o futuro. Serão, muitas vezes, o único refúgio da vida alienada.
Parece evidente que a estética se consuma na beleza das formas, sem se importar com a vida concreta das pessoas. O equilíbrio entre a vida da arte e a arte da vida não parece inquietar ninguém, porque custa interrogar os poderes – económicos, políticos e religiosos - sobre a raíz dessas aparentes, e talvez falsas, incompatibilidades. Se a arte não tem, nem tem de ter, porquê nem para quê, a economia, a política e as religiões não se podem dissociar do bem comum das pessoas. Nenhuma mão invisível do egoísmo o pode guiar para o bem geral da sociedade.
Seja como for, grande parte do um património artístico é também um riquíssimo património religioso. É inevitável a pergunta: serão esses jogos simbólicos os mais adequados a exprimir a fé cristã e, sobretudo, a de quantos fizeram voto de pobreza voluntária, tornando-se disponíveis para lutarem contra a miséria e a humilhação impostas aos “sem vez nem voz”? Qual será a preferida morada de Deus, os templos da sua eleição? A conversa de Jesus com a maravilhada samaritana é incontornável (Jo 4, 21-24). Vejamos porquê.   
3. Jesus nasceu, segundo S. Lucas, numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na sala estalagem (Lc 2, 7). Nunca prometeu grandes luxos aos seus seguidores, com a desculpa de que, de seu, não tinha nem uma pedra onde reclinar a cabeça. Uma igreja “serva e pobre” será sempre um caminho pouco apetecível.
Jesus viveu em Nazaré onde trabalhou e passou a discípulo de João Baptista, por quem foi baptizado, como lembrei no passado domingo. O percurso do seu mestre desenvolveu-se à margem da religião do templo de Jerusalém. Embora tivesse grande admiração por ele, Jesus teve uma experiência espiritual que O levou a afastar-se de João e a seguir outro rumo. Jesus deu-se conta de que Deus não era uma ameaça, um deus da ira. Era, literalmente, uma bênção, uma declaração de amor incondicional, não só para ele próprio, mas para todas as pessoas do mundo, sem sair da sua terra. Só foi duas vezes ao estrangeiro.
Fazia parte de uma sociedade organizada com grupos e partidos política, religiosa e moralmente classificados.
O estatuto de subordinação total da mulher era imposto pelos homens. Tornaram-no tão detestável e arbitrário, que se compreende bem que agradecessem a Deus não terem nascido mulheres. A religião oficial era, aliás, um sistema de exclusão. Ao multiplicar as prescrições do que se devia fazer e evitar, em nome de Deus, a grande maioria não podia deixar de estar sempre em falta. Salvava-se a casta dos puros para apontar o dedo aos que eles classificavam como pecadores. A contínua acusação contra Jesus residia, precisamente, nisso: estar à mesa com pecadores e publicanos, isto é, estar em comunhão com os que, supostamente, Ele deveria excomungar.
Jesus não morreu de doença, de acidente ou de velho. Porque terá sido morto e continua vivo?
Bom Natal.
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público 23.12.2012

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