21 janeiro 2013

A pregação desconseguida

Três dúzias de mulheres e uma de homens formavam a assembleia. Quase todos tossiam num ritmo alternado e em vários tons, a fazer lembrar um diálogo nocturno entre os diversos habitantes de uma floresta. O pregador animou-se com um livro da Bíblia para tocar as consciências sobre várias relações familiares e sociais. Disse mesmo que esse livro, nos tempos antigos em que foi escrito, era utilizado na escola para educar as crianças. Começou por falar exactamente da relação que os filhos devem ter com os pais: de atenção, obediência e reverência. Porém a assembleia era quase toda constituída por avós e bisavós. Os seus filhos, muitos deles já pais e avós também, nesse momento estavam quase todos muito longe, a maioria na condição de emigrantes, e os que viviam perto ficaram um pouco mais tempo na cama nessa estranha terça-feira com missa obrigatória. Depois falou dos jovens e do seu relacionamento e convívio com os mais velhos: de respeito, consideração e aceitação. Mas também não havia jovens naquela assembleia. Uns dois ou três, já maduros, tiveram a sorte de, nesse momento, estarem a pensar na azeitona que ainda tinham para apanhar, não sentindo assim o fardo de uma geração inteira a pesar nos seus ombros. Falou ainda da relação entre os esposos, mas o êxito também não podia ser grande. A maioria das mulheres e grande parte dos homens são viúvas e viúvos, e para os que ainda não são a vida é embalada dia a dia numa paz de almas sonolentas. Por fim falou das relações das pessoas no convívio social, nos divertimentos e nos negócios. Mas quase ninguém naquela assembleia teve e já dificilmente poderá ter negócios. Todos vivem de pequenas reformas convencidos de que são grandes, tal é a sua medida do dinheiro. Quanto a divertimentos, quais e como e onde? Convívio é o que algumas vezes desejam, mas onde está quem os possa visitar, ouvir ou dar-lhes atenção? Depois de quase meia hora a ouvirem o pregador num ambiente arrepiado de frio, não esboçaram qualquer expressão negativa ou de censura. Afinal já todos são mais ou menos surdos e os que ainda ouvem alguma coisa não percebem bem aquela linguagem que tranquilamente aceitam ser português. Se algum tivesse ouvido o nome do livro evocado teria dito à saída que se chama Bem-Será. Não estaria longe do conteúdo apresentado pelo pregador, mas o seu nome é Ben-Sirá (ou Eclesiástico). Ao rematar, o pregador revelava um ar satisfeito, talvez por sentir que desempenhou bem a sua função. A assembleia tinha o semblante próprio de quem cumpre um dever para depois se sentir bem com o dever cumprido. Mais umas voltas e reviravoltas num sobe e desce de joelhos emperrados e lentos, algumas inclinações de costas curvas e ombros empenados, gestos mais lentos que o adequado ao ritmo da cerimónia, e eis que se aproxima o fim. Depois de uma hora fria e pesada, e de penitente recolhimento, o padre despede os fiéis desejando-lhes que vão na paz do Senhor. Já no adro verifica-se que transportam realmente alguma paz, mas parece ser a mesma de todos os dias, que tem origem sobretudo nos males de que padecem e na muita solidão. Poucos se referiram ao que se tinha passado, só uma senhora perguntou em voz baixa: o padre que disse hoje? Eu não percebi nada! Terá cascado em alguém? Mas nem daí veio matéria para tornar o acontecimento mais picante e, assim, mais quente. Como diria aquela amiga angolana em que estou a pensar, o rapaz começou bem na bola mas depois desconseguiu. Entretanto o pequeno carro arrancou a caminho de outra freguesia. Tive de explicar que não senhor, que o senhor padre não reza muitas missas por causa do dinheiro, é um esforço que lhe é pedido para que mais gente possa ter missa. Para mim mesmo pensei que se poupasse vinte minutos em cada uma, ao fim do dia teria uma hora grande bem conseguida.
Mas ao despertar deste breve pensamento, dei-me conta de que estava a ficar sozinho. As coxas, surdas e aleijadas partiram numa lenta mas decidida corrida de cinquenta metros em bengala, em direcção ao tendeiro que às vezes acampa nesse espaço mágico entre as portas da igreja e as portas das casas. Aí, sim, houve risos, falas atropeladas, exclamações de uma alegria feliz. No meio daquela algazarra só tive um pensamento: a tenda do Senhor, de que tanto se fala na Bíblia, nem sempre é lugar de alegria, mas a tenda do senhor João, com as suas saias e camisas, batas e camisolas, chinelos de várias cores, é sempre um lugar de festa que, neste caso, espantou o frio de uma missa seca com pregação desconseguida.
Deus é Pai!
Frei Matias, O.P.
2013.01.21

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