13 janeiro 2013

ANO DA FÉ. UM DECRETO, PARA QUÊ? (1)

1. Enquanto não chegar o fim do mundo, depois de um ano, há sempre outro. Para não o enfrentar como uma aposta no vazio, é corrente consagrá-lo a um desejo, em forma de projecto. Diz-se que, perante a crise que atravessa o país, na conjuntura internacional em que temos de nos mover, é difícil configurar um caminho, com previsões que não se confundam com adivinhas ao sabor dos palpites de optimistas ou pessimistas e segundo os interesses que cada um tenta defender.
A verdade é que uns já decretaram que Portugal não tem solução, nem dentro nem fora do Euro e que o melhor é a liquidação total, a preço de saldo. A própria ideia de país independente seria uma ficção e neste tempo, comandado pela transformação e globalização dos negócios, é uma crença ridícula. Outros continuam a falar da urgência de uma política patriótica, quando a pátria de cada um é aquela para onde se consegue imigrar. Seja como for, os velhos vão continuar a morrer e se os nascimentos continuarem a diminuir, a sorte do país é previsível. Não será preciso dar-se ao trabalho de “repensar Portugal”, como desejava o Pe. Manuel Antunes.
 Diz-se isto como se poderia dizer outra coisa qualquer. Quando tudo passou para a ordem do inevitável, já nada tem sentido. O próprio sofrimento das vítimas da história da crise não conta para nada.
       A incapacidade de questionar, em profundidade, esta versão trituradora da máquina capitalista é a vergonha do nosso tempo. O Papa relembrou-o, muito recentemente, mas os economistas, os gestores, os banqueiros, os ministros que se confessam cristãos preferem espiritualidades de chá de tília religiosa, a ouvir o clamor dos pobres e dos empobrecidos e questionar teorias que mostram a sua inadequação, pelos frutos que produzem. As teorias são para os seres humanos, não estes para teorias, onde as pessoas estão sempre a mais.
       2. As interrogações são inevitáveis: tanta ciência económica e financeira, ensinada nas Universidades Católicas, não será capaz de imaginar contributos para alternativas concretas, técnica e politicamente viáveis? A Banca é para salvar as pessoas ou serão estas, as exploradas, que devem salvar os interesses da Banca, mediante decisões governamentais? Não será possível desconstruir configurações políticas que, nos seus efeitos, resultam em grandes negócios para uns e em castigo para a maioria da população? Estaremos numa civilização esgotada a transitar de continente para continente, enquanto sistema de exploração, sem tentar curar as suas raízes?
 Os chamados regimes democráticos fazem tudo para não se distinguirem das ditaduras. O fascínio pela China é interessante.
Com isto tudo, não creio que se possam extrair dos Evangelhos ciências ou políticas confessionais, em concorrência com ciências e políticas laicas, nem aceito que se diga que quanta mais ciências menos religião. Há grandes cientistas e políticos crentes, agnósticos e ateus.
Francisco José Ayala, um dos maiores representantes do neo-darwinismo, tem uma posição que me parece muito sensata: não vejo razão para pensar que as descobertas científicas sejam incompatíveis com a fé religiosa. A ciência procura descobrir e explicar os processos da natureza: o movimento dos planetas, a composição da matéria e do espaço, a origem e a função dos organismos. A religião trata do significado e propósito do universo e da vida, das relações apropriadas entre os humanos e o seu Criador, dos valores morais que inspiram e guiam a vida humana. A ciência nada tem a dizer sobre estas matérias, nem é assunto da religião dar explicações científicas, para os fenómenos que têm lugar na natureza.
3. Daqui não se pode concluir que os cristãos possam ser indiferentes ao que se passa na sociedade. Não dispõem de uma mensagem, descida do céu, para os levar para o céu, sem se importarem com o que se passa na terra. Se a Bíblia fosse, apenas, revelação divina escrita por autores inspirados, não teria de dar contas de nada nem a ninguém, era puro ditado sobrenatural. Esta é a posição do fundamentalismo mais ignorante. Nessa perspectiva, a Bíblia poderia ser decorada, mas nunca estudada. Não é esse o pensamento católico actual. O documento A Interpretação da Bíblia na Igreja (1993) liberta a investigação de qualquer constrangimento. A Bíblia não remete para si mesma: aponta para o mistério de Deus e para o mistério do mundo. Deus não estava calado antes da Bíblia, nem emudeceu depois do último parágrafo da Sagrada Escritura. É preciso aprender a escutá-lo na experiência de cada um, nos acontecimentos da sociedade e em todas as tentativas para decifrar o sentido da vida.
Logo após o Vaticano II, E. Shillebeeckx, para lhe ser fiel, desenvolveu a perspectiva do mundo como “lugar teológico”: a história humana, em todas as suas manifestações, é o espaço e o tempo da contínua revelação de Deus, acolhida ou traída, a decifrar em cada conjuntura cultural.
O Ano da Fé não foi decretado para dizer que a Igreja tem a resposta pronta para tudo. É porque a não tem que, na humildade, tem de partir para a escuta de todos os mundos. Quais serão esses mundos?
Frei Bento Domingues, O.P.
         in Público

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