12 maio 2013

Hermenêutica

            
         Nesta reflexão sobre mulheres como Igreja e na Igreja, observe-se o terceiro pilar da minha proposta sobre a igual dignidade das mulheres e homens. Hermenêutica. Entenda-se a arte de interpretar as Escrituras, de as ler, compreender, absorver. Parece-nos que o Novo Testamento é muito claro. Ambos os sexos são chamados para escutar a Boa Nova. Ambos são chamados à salvação.  Jesus Cristo, o Messias, o Profeta, o Cordeiro, não neutralizou a humanidade e também não atribuiu diferenças ontológicas às mulheres e aos homens. Com todas e todos deseja viver o seu amor até ao infinito e a todos e todas quer integrar na sua mensagem. Ambos os sexos são desafiados a segui-Lo. Todas e todos são interpelados pelo Sermão na Montanha e pelo maior dos mandamentos, sem distinção de sexos. Jesus não estabeleceu hierarquias, não enunciou tarefas para uns e para outras. Antes pelo contrário. O que significa que as diferenças atribuídas ao estatuto das mulheres e dos homens na Igreja-instituição (e não na Igreja-Povo de Deus – mais uma contradição, e a teologia exige coerência) são uma construção artificial de alguns homens da Igreja-instituição, que cometeram o tradicional pecado de não quererem partilhar o poder, o serviço, com a outra metade do Povo de Deus.
         A leitura do Evangelho segundo São Mateus é esclarecedora. Não para conhecer o que Jesus disse das mulheres ou a forma como Ele as tratava. Essa análise já foi realizada por muitas pessoas. Vejamos antes alguns breves exemplos do discurso de Jesus, a fim de compreender com quem ele procurava comunicar. São numerosas as passagens que sublinham a plena igualdade e dignidade dos seres humanos. Se Jesus tivesse tido a intenção de distinguir entre homens e mulheres tê-lo-ia dito. A leitura de São Mateus também nos ensina que Jesus estava bem ciente da psicologia humana.
         Ao longo dos Evangelhos o leitor é desafiado, instruído, interpelado e chamado à salvação. O outro, o ‘semelhante’,  o ‘próximo’, é muitas vezes referido, mas nunca se fala de um ou outro sexo. O outro é a totalidade do outro, seja qual for o seu género. Nada nos Evangelhos nos permite excluir alguém do poder da graça ou do serviço ao próximo. O espírito do texto é o de inclusão e é aí que reside a sua novidade absoluta, naquele tempo como agora. No próximo mês indicaremos alguns trechos do Evangelho de São Mateus que ilustram o que aqui se diz.
         Ana Vicente
         Maio 2013
 

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