19 maio 2013

O diácono Justino e suas circunstâncias

       
Sabia que as pessoas não o recebiam bem naquela terra e conhecia os motivos. Mas o pároco insistia em impô-lo aos ingratos fiéis da paróquia com uma celebração mensal da Palavra. Um dia Justino decidiu partir a loiça e pôr as coisas em pratos limpos. Distanciando-se um pouco do tema da liturgia, mas ressalvando a necessária e devida aproximação, disse: eu sei que não gostam de mim e também sei porquê, mas quero esclarecer que há muito exagero naquilo que se conta. Dizem que eu às vezes, quando ando a lavrar, desço do tractor arreliado e começo a dar pontapés nas rodas e isso não é um comportamento adequado ao lugar que ocupo. E que nesses momentos, e também quando ando com a mula, digo muitas asneiras. Não digo muitas e quanto ao tractor não seria preciso dizê-las, mas a mula parece que só percebe essa linguagem. Que hei-de fazer, deve ter sido educada assim. Também se diz que eu em casa berro com a minha mulher e às vezes lhe dou uns empurrões. O tractor e a mula não podem ser testemunhas, mas a minha mulher está aqui e pode dizer se eu faço isso. Eu faço isso, mulher, diz lá? Diz lá agora aqui! A senhora acenou com a cabeça em horizontal no gesto de dizer que não. Quase toda a gente aceitou que ela estava a dizer a verdade e a verdade era não. Mas houve alguém que interpretou de outra maneira. Que ela quereria dizer: és muito parvo, isso são conversas que se apresentem? Parece que o Justino também percebeu isso, porque no tempo de uma respiração e num golpe de rins literário virou a homilia para os sofrimentos de Job. Fiquei espantado com tal inflexão, mas era verdade. Depois de umas referências gerais, disse mais ou menos isto: Job, meus caros amigos e irmãos, foi um homem que sofreu como ninguém. Quem somos nós para nos compararmos a Job? Tinha tudo e todos contra ele. Até os amigos, até a família. Isso é o pior que pode acontecer a um homem. Pelo que lhe diziam até Deus o teria abandonado, mas nisso ele não queria acreditar. Não tinha ninguém, estava completamente sozinho, quase nem se tinha a si mesmo, por isso parecia-lhe impossível que Deus o abandonasse. Iria acreditar até ao fim apesar de não ver um fim para tantos males e sofrimentos. Job, meus irmãos, é um grande exemplo para nós. Não para aceitarmos o sofrimento, mas para que o sofrimento não nos leve a retirar Deus das nossas vidas. Se tiramos Deus das nossas vidas, as nossas vidas deixam de ter vida. Andamos por aqui, talvez sem tristezas nem sofrimentos, mas também sem grandes alegrias. Ou andamos por aqui a sofrer, tristes da vida, mais prontos para morrer que para viver. E assim foi andando, o Justino, com a sua reflexão acerca de Job e a nossa vida presente. Por momentos veio-me ao pensamento por que razão os filhos do casal nunca eram mencionados, motivo suficiente para não me aperceber de como o diácono agricultor rematou a sua sentida pregação. Mas no final da celebração, no pequeno adro da capela, as vozes que falavam eram todas de elogio: o homem afinal sabe o que diz. Que é que importa se às vezes se arrelia com a mula! As mulas são lindas de aturar, são! E da mulher também não deve ser bem como se conta! E assim por diante. Alguns dias mais tarde soube que depois disso o senhor padre terá dito: até aqui não queriam o Justino e agora não fazem outra coisa que é falar bem dele. Não se esqueçam de que, por enquanto, aqui o padre sou eu. E que nesse momento uma senhora terá exclamado: oh valha-me Deus!
         Frei Matias, O.P.
         Blogue NSI Maio 2013

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