03 novembro 2013

NÃO DEIXEM TUDO PARA O PAPA

       
1. Se uns católicos projectam sobre o novo Papa os seus desejos de mudança, outros receiam a sua desenvoltura.

Bergoglio já mostrou que conhece as diversas correntes espirituais e culturais do catolicismo, nos diversos países. O que ainda não sabemos - apesar de alguns gestos e entrevistas importantes -, é o método da sua liderança. Situando-se no seio de uma Igreja, toda ela chamada a ser aprendiza e testemunha do Evangelho no mundo, seguirá o método de João XXIII. Se passar o tempo a invocar o poder papal para exercer o seu magistério, reprimindo as correntes teológicas que não o reproduzam, será mais do mesmo. Foi esse o lamentável estilo adoptado, embora com acentos diferentes, durante 150 anos, mais precisamente, desde a encíclica programática Mirari vos, de Gregório XVI (1832), que procurava levantar um dique contra o mundo moderno.  
 
Espero que o papa Francisco vença a tentação de desenhar o futuro de modo voluntarista, apoiado apenas nas suas concepções pré-estabelecidas e invocando imperativos da divina tradição. Vimos, na crónica do passado Domingo, as consequências da tentativa de parar o tempo, mediante a declaração intimidatória de João Paulo II, sobre a “ordenação sacerdotal” das mulheres.

          Na expressão de K. Rahner, esse comportamento estava situado no Inverno da Igreja. Para este teólogo, as autoridades eclesiásticas de Roma, em 1985,  davam a impressão de favorecer mais um retorno medroso aos “bons tempos passados”, do que tomar consciência clara da situação actual do mundo e da humanidade, com espírito evangélico, no seguimento do Concílio Vaticano II.

          Se as mulheres começarem, em breve, a fazer parte da instituição do cardinalato, será um bom sinal. Ninguém poderá adiantar qualquer argumento teológico contra tal decisão e esta poderá contribuir para desbloquear o debate sobre o papel das mulheres nas comunidades cristãs. Não esperemos, no entanto, que o papa possa resolver tudo com uma penada. Embora os regimes democráticos funcionem ainda muito mal, na Igreja Católica nem sequer foram ensaiados, salvo em alguns nichos.                             

          2. O grande historiador, Giuseppe Alberigo, orientou um número especial da Concillium (108, 1975), dedicado à renovação da Igreja e à reconfiguração do serviço petrino. Naquela data, não foi tido em conta. Parece-me que chegou o momento de o revisitar com proveito. Na altura, a meta a atingir com esse dossier consistia em formular alguns pontos operacionais capazes de concretizar, no seio da Igreja, uma imagem realista e praticável daquilo que poderia ser e fazer o papado, no seio da Igreja dos últimos decénios do séc. XX. Como já foi referido, meteu-se pelo meio um longo inverno. Não se pretendia, de modo nenhum, ter identificado o ponto central e decisivo da renovação da Igreja. Pelo contrário. É necessário manter viva a consciência de que o papado romano constitui, apenas, um factor da Igreja e nem sequer é o mais decisivo. Por outro lado, parece igualmente importante abandonar o “globalismo” paralisador, muito difundido, que em nome da necessidade de levar em conta todas as componentes da problemática eclesial, nos impede de as considerar, uma a uma, com realismo e oportunidade.

Recolocar os ministérios eclesiais dentro do Povo de Deus, como fez o Vaticano II, constitui o fundamento e o critério de uma nova fase na história do papado. Torna-se incontornável e urgente a reapropriação do papado romano por parte da Igreja, superando tanto a animosidade anti-romana, como a imagem mitificada do papa.

Temos um longo e complexo caminho pela frente. Esse caminho pressupõe uma efectiva capacidade da Igreja para exprimir, mediante formas adequadas e responsáveis – sem servilismos nem arrogância – indicações pertinentes sobre o espaço e conteúdos do serviço que o Papa deve prestar.

3. Alberigo, no seu contributo, destacou e desenvolveu a seguinte tese: é preciso que a consciência eclesial se compenetre de que o estatuto do papado romano não é, nem do ponto de vista teológico nem histórico, um dado indiscutível e imutável.

Se fizermos uma reavaliação da possibilidade de modos, estilos e conteúdos diferentes daqueles que se tornaram mais habituais e constantes, ver-se-á que, quase tudo aquilo que se sabe do papado romano, depende das circunstâncias históricas. Estas sofreram repetidas e profundas modificações, ao longo dos tempos.

Quando os papas são apresentados sob um único denominador comum, figuras tão diferentes e contrastadas como as de Gregório Magno, Gregório VII, Paulo III, Pio IX e João XXIII, acabam por conduzir a história da Igreja a uma história do papado e ao triunfo de uma uniformidade construída. Nenhum papa é a Igreja. Não deixemos tudo para este iluminado e desarmante argentino.

Frei Bento Domingues, O.P.

03.11.2013

in Público

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