28 dezembro 2013

As mulheres pobres do Papa Francisco

       O conteúdo e o tom da exortação A Alegria do Evangelho, assinada pelo Papa Francisco, tem tido um impacto extraordinário em pessoas de uma grande diversidade religiosa e cultural, quer em Portugal, quer em muitas zonas do mundo. É sinal que se está perante um texto escrito com o coração e com a cabeça, por uma pessoa empenhada, com uma grande autenticidade, em mudar para melhor a vida das suas irmãs e irmãos, correspondendo de uma forma apaixonada e compassiva ao espírito expresso no Novo Testamento. 
 

A exortação é densa e aborda muitas questões, mas uma das mais centrais é, visivelmente, o olhar do Papa sobre a pobreza, sobre os pobres. Pela minha conta, a palavra "pobre" ou "pobres" ocorre 66 vezes. Uma das sete grandes questões abordadas pelo Papa é precisamente “A inclusão social dos pobres” analisada com alguma profundidade nos parágrafos 186-216 do documento. Aí reconhece que é necessário resolver as causas estruturais da pobreza, afirmando com esperança que “a Igreja fez uma opção pelos pobres” (198) e que deseja “uma Igreja pobre para os pobres”. Contudo, a nível do funcionamento da Igreja como instituição, não esconde a sua preocupação com “a falta de cuidado pastoral pelos mais pobres” (70) e considera que “cada cristão e cada comunidade são chamados a ser instrumentos de Deus ao serviço da libertação e promoção dos pobres, para que possam integrar-se plenamente na sociedade.” (187)
 

Acontece que a pobreza tem cara de mulher – os estudos realizados a nível nacional e internacional indicam que cerca de 70% dos pobres são mulheres. Porquê? Com satisfação li que o Papa aborda algumas das causas desta discrepância: “Duplamente pobres são as mulheres que padecem de situações de exclusão, maus tratos e violência, porque frequentemente têm menores possibilidades de defender os seus direitos.” (212). Mas as causas são, obviamente, mais profundas e complexas, a nível internacional como a nível nacional. Entramos aqui nas desigualdades de género que tanto têm empobrecido a humanidade no seu todo, quer material, quer espiritualmente – ou seja, por razões de ordem cultural, as mulheres têm tido um menor ou nenhum acesso, em comparação com os homens, à educação, à saúde, à alimentação, à herança em igualdade com os seus irmãos de sangue em algumas culturas, à formação profissional, ao emprego remunerado (ganham menos do que os homens por trabalho de valor igual), aos meios de comunicação social, à investigação científica, aos lugares de decisão política, económica, militar e religiosa. Basta constatar que, em Portugal, a maior parte dos beneficiários do Rendimento Social de Inserção são mulheres. Em todo o mundo são esmagadoramente as mulheres as responsáveis por famílias monoparentais.
 

Onde é que a Igreja entra neste contexto? Ela (ou seja, os seus membros) é simultaneamente parte da solução e parte do problema. Da solução, porque são muitas vezes pessoas integradas na Igreja, nomeadamente freiras, que se encontram na primeira linha de apoio àquelas que são mais pobres e desafortunadas.
 

Por outro lado, as autoridades religiosas, constituídas na sua totalidade por homens celibatários, ao continuarem a proibir as mulheres católicas de utilizarem meios contraceptivos eficazes, ao pedirem aos Estados para condenarem à prisão as mulheres pobres que recorrem ao aborto, ao não apoiarem programas de saúde sexual e reprodutiva, (morrem por ano, de causas evitáveis, cerca de 280.000 mulheres em todo o mundo, por estarem grávidas ou darem à luz), ao excluírem as mulheres dos lugares de decisão na esfera religiosa, estão objectivamente a contribuir para a pobreza feminina. Isto não é ideologia de género, que tão estranhamente preocupa os bispos portugueses, mas a dura realidade (ver Carta Pastoral da Conf. Episcopal Portuguesa, Fátima, 14 Nov 2013).
 

Acredito na coerência deste Papa – mas a tarefa é árdua, pois vai ter que ser capaz de desassossegar as mentes e os corações de um número demasiadamente grande de pessoas que temem uma Igreja pobre para as pobres.
Ana Vicente  

Membro do Movimento Internacional Nós Somos Igreja

in Público

24.12.2013

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