17 dezembro 2013

Um homem bom

       A Lista de Bergoglio fala do tempo em que o actual Francisco passava os dias entre o breviário e maneiras de despistar a polícia.
       B.J. Harrison (conselheiro da família Corleone, acerca do então recém-eleito João Paulo I): O Papa está a fazer exactamente o que disseste que faria, está a limpar a casa.
       Michael Corleone: Devia ter cuidado: É perigoso ser um homem honesto.
       In O Padrinho (III)
       Uma das cenas de O Padrinho que mais me marcou foi a da confissão de Michael Corleone (MC). Recordo a cena: MC vai falar de negócios com um cardeal - futuro João Paulo I - que, lendo o seu sofrimento existencial, o desafia: “Não quererá confessar-se?”. MC, perplexo, escusa-se com os 30 anos que tinham passado desde a última confissão. Aliás, de que serviria a confissão se não se arrependesse? O cardeal atalha: “Ouvi dizer que é um homem prático. Que tem a perder?”. E leva-o para um lugar do jardim, cheio de flores, onde costuma ouvir os seus padres em confissão. Depois de hesitar, MC começa: traíra a mulher (ouvem-se os sinos pela primeira vez), traíra-se a si próprio (quantos católicos conseguirão acusar-se deste pecado?), matara homens e ordenara a morte de outros, e até mandara matar o seu próprio irmão. Aqui, MC chora. A cada hesitação, o cardeal incentivara-o: “Go on, my son”.
       Já em casa, conta a boa nova à irmã: que se confessara. Perante a estranheza dela, diz-lhe: “É que era um homem bom, um verdadeiro padre. Poderá mudar as coisas”.
       Fui-me recordando desta cena à medida que, ao longo dos meses, ia lendo sobre o “novo estilo” do Papa Francisco. Não seria também ele dos poucos a conseguir que um MC se confessasse, por ser um “homem bom”? Mas uma dúvida subsistia em mim, como em muitos outros: sabendo-se que a Igreja argentina colaborara tanto com o ditador Videla (e com os que se lhe seguiram) e que, na altura do golpe de estado (1976), o agora Papa Francisco era Provincial dos Jesuítas, poderia ele estar inocente quanto a um eventual colaboracionismo com um regime que, como escreve o jornalista italiano Nello Scavo em A Lista de Bergoglio (2013), “teve como consequência o desaparecimento de, pelo menos, 30 mil pessoas, a apropriação de mais de 500 filhos[as] de condenados[as] à morte, a detenção de milhares de activistas políticos, o exílio de aproximadamente dois milhões de pessoas, além dos 19 mil fuzilados nas ruas”? Quanto à prisão e tortura de dois jesuítas, antigos professores de Bergoglio (e um deles até fora seu director espiritual), Franz Jalics (ainda vivo) e Orlando Yori, o que fizera o seu Provincial por (ou contra) eles? Confesso que a leitura de Scavo me trouxe um grande alívio e uma grande admiração pela atitude discreta mas firme do então P. Jorge. Independentemente da posição religiosa de quem a ele recorria – e por vezes, em vez de confiar apenas na oração, ajudava mesmo quem colocava resistências a uma ajuda provinda de “padres” -, dir-se-ia que ajudou todos os que pôde, escondendo-os nas instalações dos Jesuítas a pretexto da efectuação de um retiro espiritual, conduzindo ele próprio o carro quando levava suspeitos (mesmo que se tratasse de uma mulher), usando, nas cartas, linguagem críptica para iludir a censura, recorrendo aos telefones de rua para evitar escutas, tentando saber do paradeiro de desaparecidos e libertá-los, tecendo redes de ajuda em que, como é costume nas organizações de resistência, uma pessoa se limita a fazer um acto concreto, sem saber o antes e o depois. Admiro-lhe a coragem, os nervos de aço, a perspicácia, a capacidade de acolhimento e de ternura, a fé.
       Scavo fala “sobre a coragem daquelas noites sem receio da caça aos infractores. Sobre dias passados entre o breviário e os postos de bloqueio, pensando em maneiras de  evitar os controlos, de despistar a polícia, de enganar os generais. Para levar sãos e salvos, para lá da fronteira, os adolescentes destinados aos matadouros clandestinos. [...] Talvez rezasse entre uma curva e a seguinte.” E entre uma página e outra desta Lista notável, admiro também o desprendimento de quem, basicamente, só dela falou vagamente em comissões de inquérito. Um “homem bom”, que decerto conseguiria também despertar em MC o melhor de si mesmo.
       Docente aposentada da Universidade do Minho     
          (laura.laura@mail.telepac.PT)

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