26 maio 2019

     P / INFO: Haverá alternativas à economia que mata?, Greve das mulheres e o feminiclericalismo, Tesouros Portugueses, Ensinar e recordar, Foi há quatro anos & Photo exhibition celebrates 25 years of female priests

Haverá alternativas à economia que mata?
Frei Bento Domingues, O.P.

É muita ousadia da parte do Papa tentar destruir o dogma de que não há alternativas viáveis à economia dominante.

1. Os anos não perdoam. Os adversários das posições e das práticas do Papa Francisco confiaram, durante bastante tempo, nessa lei da natureza. Quando se deram conta de que este argentino resiste e não desiste das reformas que propôs, entraram em pânico: dada a sua popularidade, é possível que da eleição de um novo Papa surja alguém da mesma linha. Isso não pode acontecer! Daí, a reunião de pessoas e recursos da finança internacional para denegrirem a imagem de Bergoglio.
Para esses grupos – pouco numerosos, mas com muita visibilidade e acesso a inúmeros recursos –, é insuportável ter à frente da Igreja Católica alguém que denuncia a economia dominante como “economia que mata”. Supor que existem e podem crescer alternativas a esta economia é uma blasfémia, uma heresia económica sem perdão.


Até agora, o Papa Francisco agia de forma exemplar em relação aos que são deixados à margem e abandonados. Fazia incessantes apelos em socorro das vítimas da guerra que procuram, em condições miseráveis, acolhimento noutros países. Em todo esse esforço, é sempre o Papa a agir e a falar ou a nomear comissões de estudo para resolver problemas. Mesmo os três notáveis discursos sobre a injustiça social e económica, dirigidos aos movimentos populares [1], não fogem a esse estilo. Agora, porém, com a Carta convocatória para o Encontro “Economy of Francesco”, em Assis, de 26 a 28 de Março de 2020, parece ter começado uma era nova. É dirigida a jovens economistas, empreendedores e empreendedoras de todo o mundo, não como mestre em Doutrina Social da Igreja, mas como alguém que deseja participar no conhecimento das alternativas que existem à “economia que mata” e ampliar as suas potencialidades.

Antes de realçar a significação desta mudança, devo dar a palavra à própria Carta. No primeiro parágrafo resume o seu desejo: “Esta Carta é para vos convidar para uma iniciativa que muito desejei: um evento que me permita encontrar quem, hoje, está a formar-se, a começar a estudar e a praticar uma economia diferente que faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, que cuida da criação e não a degrada. Um evento que nos ajude a estar juntos e a conhecermo-nos, que nos leve a fazer um ‘pacto’ para mudar a economia actual e dar uma alma à economia de amanhã.”



Recorre à sua Encíclica Laudato si’: “sublinhei como hoje, mais do que nunca, tudo está intimamente ligado, e a salvaguarda do ambiente não pode ser separada da justiça para com os pobres e das soluções dos problemas estruturais da economia mundial. É preciso, portanto, corrigir os modelos de crescimento incapazes de garantir o respeito pelo ambiente, o acolhimento da vida, o cuidado pela família, a equidade social, a dignidade dos trabalhadores, os direitos das futuras gerações. Infelizmente, continua ainda por escutar o apelo a tomar consciência da gravidade dos problemas e, sobretudo, a concretizar um modelo económico novo, fruto de uma cultura da comunhão, baseado na fraternidade e na equidade.”

Voltando à Carta do Papa: “desejo encontrar-vos, em Assis, para juntos promovermos, através de um ‘pacto’ comum, um processo de mudança global que veja, em comunhão de propósitos, não só quantos têm o dom da fé, mas todos, mulheres e homens de boa vontade, para além das diferenças de credo e de nacionalidade, unidos por um ideal de fraternidade atento sobretudo aos pobres e aos excluídos. Convido cada um de vós a ser protagonista deste pacto, assumindo a tarefa de um compromisso individual e colectivo para cultivarmos juntos o sonho de um novo humanismo que responda às expectativas do ser humano e do desígnio de Deus.” [2]

2. É evidente que as grandes escolas de economia e gestão também gostam de jovens. Sem eles, não poderiam existir. A questão de fundo é a sua orientação. Estão ao serviço de que interesses? Não falta quem afirme que, muitas vezes, se destinam a uma lavagem ao cérebro, para que aprendam a engenharia de manter e aprofundar as desigualdades sociais. Não desejam um mundo de cidadãos, mas de consumidores que, de tão obcecados com os níveis do seu próprio consumo, acabem por fazer o jogo dos que ganham com esta economia “que mata”. Essa economia foi concebida, não para fortalecer a democracia, mas para a enfraquecer subordinando o poder político ao poder económico. A publicidade revela e esconde. Revela o que tu deves desejar e esconde o que te arruína. A máquina desta engenharia tem ao seu serviço uma grande rede de ilusionistas para mostrar que não há alternativa, ignorando aquelas que, já no terreno, estão a abrir novos caminhos de participação. Quem domina a economia também domina os grandes meios de comunicação. Não lhes interessa divulgar as iniciativas que coloquem em cheque a mentalidade e as práticas dominantes, criando um futuro diferente para as pessoas e as comunidades [3].


3. É muita ousadia da parte do Papa tentar destruir o dogma de que não há alternativas viáveis à economia dominante. Existem, são pouco conhecidas e muito pouco divulgadas. O encontro de Assis tem como primeiro objectivo partilhar o que já está a acontecer nas diferentes partes do mundo. Maior ousadia ainda é convocar, crentes e não crentes, para que as “vossas universidades, as vossas empresas, as vossas organizações se tornem estaleiros de esperança para construir outros modos de entender a economia e o progresso, para combater a cultura do descartável, para dar voz a quem não a tem, para propor novos estilos de vida”. É ousadia porque não faz uma encíclica ou cria uma comissão, mas convoca para um movimento que fermente a massa, quando normalmente à Santa Sé se pede que tenha a primeira e a última palavra. Este Papa quer entrar na escola dos jovens que investigam, quer conhecer as experiências em curso e, sobretudo, os novos projectos de economias alternativas. Não os trata como objectos do seu magistério, mas como sujeitos do percurso da Igreja.

O que diz respeito a todos deve ser tratado por todos. O próprio Jesus estremeceu de alegria ao ver chegar uma nova Era: o que durante séculos e séculos tinha sido ocultado ao povo simples, aos pequeninos, pelas interpretações rebuscadas e abusivas dos falsos sábios das Escrituras, estava, finalmente, ao alcance de todos [4].

A Igreja do Pentecostes é um processo nunca acabado de novas experiências, novas práticas e o grito dos sem vez e sem voz. O contrário do condomínio fechado de privilegiados do saber, do dinheiro, isto é, do poder de dominar.

[1] Cf. Papa Francisco, Terra, Casa, Trabalho, Temas e Debates – Círculo de Leitores, 2018
[2] Quem desejar conhecer esta Carta, na íntegra, pode recorrer ao site do Vaticano
[3] Veja-se, por exemplo, o filme Amanhã, de Cyril Dion e Mélanie Laurent
[4] Cf. Lc. 10, 17-24
in Público 26 de Maio de 2019
www.publico.pt/2019/05/26/sociedade/opiniao/havera-alternativas-economia-mata-1873586
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Greve das mulheres e o feminiclericalismo
Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

1. Escrevi aqui recentemente sobre as mulheres na Igreja, perguntando: “E se as mulheres fizessem greve na Igreja?” Uma mulher de alta estatura intelectual, espiritual e social comentou: “As igrejas ficavam vazias.”
Nem de propósito, mulheres católicas alemãs de várias dioceses acabam de boicotar durante uma semana o seu trabalho voluntário nas igrejas e fazer greve às Missas, para protestar contra o machismo e os abusos do clero. “Deploramos os casos conhecidos e desconhecidos de abuso e o seu encobrimento e ocultação por parte dos líderes da Igreja.” E exigem “o acesso das mulheres a todos os ministérios.” Facto é que, como disse Thomas Steinberg, presidente do Conselho Central de Católicos Alemães, “sem as mulheres nada acontece” e, portanto, é necessário seguir um “caminho sinodal” por parte da Igreja, operando as mudanças que se impõem. Aliás, já antes, católicas francesas tinham denunciado o machismo na Igreja, causa dos abusos contra mulheres e crianças: “na Igreja, todo o poder está nas mãos de homens solteiros, os únicos com capacidade para decidir, governar, ensinar, e que dizem ser mediadores da relação com Deus e com o sagrado.” E insistem: “Isto não pode continuar por mais tempo. Tem que mudar.”
2. As mulheres não podem ser discriminadas na Igreja. Jesus não as discriminou. A prova está em que  teve discípulos e discípulas, como testemunham muitos passos dos Evangelhos, e Maria Madalena foi determinante no cristianismo. De facto, foi ela que, depois da crucifixão, quando tudo parecia ter sido o fim, reuniu outra vez os discípulos à volta da experiência avassaladora de fé de que o Jesus crucificado está vivo em Deus, que é Amor. Voltaram a reunir-se na fé em Jesus, o Vivente, e foram anunciar que Ele é o Messias, o enviado de Deus como “o Caminho, a Verdade e a Vida.” E testemunharam-no, dando a vida por isso. De tal modo Maria Madalena foi determinante que Santo Agostinho lhe chamou “a Apóstola dos Apóstolos”.
Também São Paulo fala com imenso respeito das suas colaboradoras. Por exemplo, na Carta aos Romanos, escreve: “Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que também é diaconisa na igreja de Cêncreas, recebei-a no Senhor, de um modo digno dos santos. Saudai Trifena e Trifosa, que se afadigam pelo Senhor. Saudai Andrónico e Júnia, meus concidadãos e meus companheiros de prisão, que tão notáveis são entre os apóstolos e que, inclusivamente, se tornaram cristãos antes de mim”. Na Carta aos Gálatas, 3, 26-29, escreve: “É que todos vós sois filhos de Deus em Cristo Jesus, mediante a fé, pois todos os que fostes baptizados em Cristo revestistes-vos de Cristo mediante a fé. Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus.” Portanto, na Igreja, e não só, há uma igualdade originária.
Jesus Cristo é, sem dúvida, quando se pensa a sério no que Ele fez, disse, foi e é, a figura mais determinante da História da Humanidade. São Paulo explicitou essa influência, a partir da sua própria experiência pessoal, avassaladora, que se traduz naquela conclusão: “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher.” Que experiência foi essa, que o levou de perseguidor a Apóstolo, fazendo milhares e milhares de quilómetros, com os meios precários da altura, para anunciar o Evangelho? Há uma pergunta fundamental que Paulo faz: o que vale um morto?, o que vale um morto, concretamente um crucificado morto? Mas, ao fazer a experiência de fé de que esse Jesus crucificado está vivo em Deus, conclui que Deus o ressuscitou e, portanto, Ele vale para Deus, tem valor para Deus. E, se Jesus crucificado, morto, vale para Deus, como mostra a ressurreição, então todos valem, todos os homens e mulheres, independentemente do sexo, da etnia, da religião, da idade, da cor, valem para Deus, têm valor. Todos têm dignidade diante de Deus. Já não há escravo nem livre, nem judeu nem grego, nem homem nem mulher.
Alguém conhece revolução maior na História do mundo, de que lentamente se foi e vai tomando consciência, a ponto de se proclamar a dignidade inviolável de todas as pessoas, nomeadamente na Declaração Universal dos Direitos Humanos? As comunidades cristãs celebravam a Eucaristia, lembrando Jesus, a sua memória e reconheciam-no na partilha do pão, em refeições festivas, e, pela primeira vez, senhores e escravos, homens e mulheres, judeus e gregos se sentaram todos à mesma mesa. E quem presidia era o dono ou a dona da casa, que recebiam a comunidade. Com o tempo, a Igreja tornou-se uma estrutura de poder e aí tudo se transformou, chegando-se ao cúmulo daquelas celebrações da Ceia de Jesus que já nada têm de fraterno, pois mais parecem cerimónias das cortes imperiais. Naqueles longos pontificais com pompa imperial, adornos de ouro e pedras preciosas, vestimentas luxuosas que por vezes até rondam o ridículo, em que participam inclusivamente patifes e ladrões sem o mínimo propósito de emenda nem conversão, alguém se lembra da Última Ceia de Jesus? Quem preside? Os “senhores”, donos de Deus e do sagrado. Evidentemente, as mulheres foram ficando excluídas da presidência. E, lentamente, a revolução evangélica de Jesus, da radical igualdade de todos, teve de ser proclamada fora da Igreja oficial e ser-lhe imposta de fora, como aconteceu com as proclamações dos direitos humanos.
3. E Francisco? Ele está convencido de que “é necessário ampliar os espaços para uma presença feminina mais incisiva na Igreja. As mulheres formulam questões profundas que devemos enfrentar.” Disse às religiosas: “Não às criadas. Nenhuma de vós se faz freira para ser uma servente dos padres.” Em Julho de 2016, nomeou uma comissão igualitária de homens e mulheres para estudar o papel das mulheres na Igreja primitiva. A comissão terminou o seu trabalho sem acordo e ele acaba de comunicar no Encontro internacional das religiosas que, sobre o caso do diaconado, “temos de ver o que havia no início da Revelação. Se o Senhor não nos deu o ministério sacramental para as mulheres, a coisa não dá. Por isso, estamos a investigar a história”. Francisco não fechou a porta, mas ficou atado com a questão do diaconado como sacramento ou não para as mulheres.
Aqui precisamente, chegámos ao nervo do problema, problema nuclear da Igreja, porque está na base do clericalismo e do carreirismo, “a peste da Igreja”, na expressão de Francisco. Foi o maior exegeta católico do século XX, professor da Universidade de Tubinga, Herbert Haag, que me ensinou que Jesus não ordenou ninguém “in sacris”,  nem homens nem mulheres. Na Igreja, há ministérios (Autrag), mas não há ordenação sacra (Weihe). Todo o povo de Deus pelo baptismo é Povo sacerdotal, mas  não há sacerdotes. Toda a Igreja é ministerial, mas o Novo Testamento evitou a palavra hiereus (sacerdote) e, entre os carismas (dons do Espírito Santo), não se refere o sacerdócio.
Neste enquadramento, Pepe Mallo foi ao essencial, quando escreveu: “Porque é que se há-de sacramentalizar os ministérios? É evangélico sacralizar (ordenar ‘in sacris’) as pessoas? Não se deverá dissociar ‘ordenação’ e ministério’? É certo que Jesus não ordenou mulheres, mas também não ordenou homens, e, menos ainda, no sentido, aspecto e categorias de que desfrutam hoje os clérigos. Jesus não instituiu nenhum sacramento da ‘Ordem Sagrada’, nem para mulheres nem para homens. As funções de diáconos e diaconisas, bem como de presbíteros e bispos  de que falam as Cartas no Novo Testamento eram pura e simplesmente ministérios da comunidade e para a comunidade. Não eram dignidades e privilégios de supremacia e domínio.” Na Igreja, tem de ser respeitada a dignidade de todos, mas não há dignidades nem dignitários.
Jesus dizia no Evangelho: “Tomai cuidado com os fariseus e os doutores da Lei, que gostam de exibir longas vestes, de ser cumprimentados nas praças, de ocupar os primeiros lugares nas sinagogas e nos banquetes. Vós sois todos irmãos.” Voltando às primeiras comunidades, é preciso reconhecer o sacerdócio de todos os baptizados, homens e mulheres, e, assim, proclamar e exigir a igual dignidade de todos. Mas, se as mulheres apenas reclamarem o poder dos homens na Igreja, então teremos o mal acrescentado:  ao mal do clericalismo machista acrescentar-se-á o do feminiclericalismo. Julgo que é este o receio do Papa Francisco, quando critica algum feminismo como “machismo de saias”.
in DN 26.05.2019
www.dn.pt/edicao-do-dia/26-mai-2019/interior/greve-das-mulheres-e-o-feminiclericalismo--10940249.html
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QUE COISA SÃO AS NUVENS
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
TESOUROS PORTUGUESES
A BIBLIOTECA APOSTÓLICA VATICANA É UM ATIVO DE CIVILIZAÇÃO, CONHECIMENTO E CIÊNCIA AO SERVIÇODA HUMANIDADE

Deve-se ao Papa humanista Nicolau V (1447-1455) a decisão de inaugurar uma biblioteca pública no Vaticano que pudesse ter como finalidade “a utilidade comum dos homens de ciência”, tornando acessível a leitores externos o que, até então, era uma biblioteca para uso exclusivo da cúria papal. O Papa teve ainda o cuidado de enriquecê-la, doando não só a sua biblioteca particular, mas implementando uma política maciça de compras nos mercados livreiros do Oriente e Ocidente. O vasto plano que então germinava propunha-se construir uma verdadeira biblioteca universal, segundo critérios humanísticos. Não era, portanto, uma biblioteca especializada, por exemplo, em teologia ou ciências eclesiásticas, mas deveria cobrir todas as áreas do conhecimento humano, incluindo tanto o campo literário (com os clássicos não-cristãos latinos e gregos) como o científico (com a medicina, a astronomia, a matemática, as ciências naturais, etc). Os esforços de Nicolau V foram bem-sucedidos: à data da sua morte (1455), a Biblioteca Apostólica Vaticana era já uma das bibliotecas mais ricas do mundo, em qualidade e quantidade de textos. Esta política cultural foi mantida por seus sucessores e, em breve, tornar-se-ia imperioso, por exemplo, ampliar os espaços da própria biblioteca. Isso aconteceria por intervenção direta do Papa Sisto V, que encomendou ao arquiteto Domenico Fontana, em 1587, uma sede com as características necessárias para acolher aquela que era uma determinante instituição cultural no coração da Igreja.

O “Regimento do astrolábio e do quadrante”, o mais antigo opúsculo conhecido e impresso com regras náuticas, teve uma edição portuguesa, na oficina de Herman de Campos, nos inícios de 1500

Sendo hoje prevalentemente uma biblioteca patrimonial, com um acervo de oitenta mil manuscritos, com um milhão e seiscentos mil livros impressos, mais de cem mil desenhos, gravuras e impressões depositadas no seu gabinete gráfico e um departamento numismático que reúne cerca de trezentas e cinquenta mil moedas e medalhas, é um ativo de civilização, conhecimento e ciência ao serviço da humanidade. É, por isso, fácil que qualquer cultura ou nação encontre na Biblioteca Apostólica um seu tesouro representado e que esse seja um primeiro motivo para cultivar curiosidade, afeto e colaboração científica com este organismo. Tal acontece também com Portugal e, podemo-lo testemunhar, de uma forma esplêndida, se bem que haja tanto por descobrir e realizar. Um dos documentos portugueses mais icónicos é, sem dúvida, o “Cancioneiro da Vaticana”, que reúne 1205 composições da lírica trovadoresca galaico-portuguesa, tornando-se assim uma das fontes essenciais que documentam a emergência da nossa língua e literatura. Mas há, só para dar outro exemplo entre mil, um requintadíssimo repositório de literatura científica ligada a Portugal que tem passado inobservado. Um dos casos clamorosos que podemos citar é o do “Regimento do astrolábio e do quadrante”, o mais antigo opúsculo conhecido e impresso com regras náuticas, por onde gerações de pilotos se iniciaram nas ciências da cosmografia e navegação, e que teve uma edição portuguesa, na oficina de Herman de Campos, nos inícios de 1500. Há cem anos que a historiografia portuguesa, partindo da descoberta que Joaquim Bensaúde fez na Biblioteca estatal de Munique, fala apenas desse exemplar e de uma outra versão depositada na Biblioteca Municipal de Évora, desconhecendo o exemplar, em excelente estado de conservação, que se encontra na Vaticana. Quem sabe se uma nova geração de historiadores portugueses se interessará, com o afinco e os meios necessários, em trabalhar os fundos da Biblioteca Apostólica e do Arquivo Secreto Vaticano, tão decisivos também para a explicação de Portugal.
in Semanário Expresso 24.05.2019
https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2430/html/revista-e/que-coisas-sao-as-nuvens/tesouros-portugueses

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À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves
DOMINGO VI DA PÁSCOA Ano C
“O Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome
vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que Eu vos disse.”
Jo 14, 26
Ensinar e recordar
Partimos cedo para a Praça de S. Pedro. O céu chuvoso e nublado dos últimos dias deu lugar a um azul brilhante, com nuvens brancas de algodão que amenizam a força do sol. O anúncio dos diferentes grupos, que de tantas partes do mundo aqui confluíram, vai desencadeando aclamações. Tem um sabor único ouvir neste areópago do mundo, o nome da terra, da paróquia, do grupo que “veio a Roma para ver o Papa”. E quando “o homem vestido de branco”, que escolheu o nome de Francisco, começa a passar por entre a multidão, parando para beijar as crianças e abençoar os doentes, uma emoção percorre todos os desejam vê-lo e tocá-lo. Imagino como seriam, há dois mil anos, as multidões que desejavam ver e tocar Jesus.

Na humanidade de Jesus ressuscitado encontrarmo-nos com Deus e uns com os outros. Esse encontro manifesta-se na realidade de sermos “morada” de Deus: testemunhamos a sua misericórdia e a nossa fragilidade, o seu perdão que apaga o pecado, a sua ternura que cura as nossas feridas. Como não sentirmos esse encontro no Papa Francisco, na alegria com que tenta levar a todos o sorriso de Deus próximo, a mão afectuosa que abençoa e toca, a palavra que interpela e compromete? Como não saborear aqui a promessa do Espírito Santo que nos recorda e ensina?

Desde a Páscoa de Jesus, o Espírito nunca deixou de vir até nós. Não há lugar para o acomodamento ou a instalação na vida da Igreja. Ficar em “zonas de conforto”, em “condomínios” isolados da história e da realidade, em “seguranças” que só salvam alguns, é fechar as portas ao Espírito. A missão do Espírito de ensinar e recordar não é um trabalho arqueológico, um saudosismo de esplendores do passado, mas sim “beber da fonte”, que é Jesus Cristo, e reconhecer a sua presença no “hoje” da vida do mundo. O Espírito Santo convida-nos a viver em fidelidade e criatividade, com a memória que nos identifica, e com a ousadia que o anúncio evangélico suscita.

Por vezes acontece caminhar com que não conhecemos. Uma meta nos uniu, uma frequência nos desinstalou, e aceitámos o risco de cruzar as nossas vidas uma semana. Se “queremos ir mais longe é preciso ir com outros”, conta um dito africano. Na fonte da fé cristã está o Deus connosco que quis fazer caminho connosco, e o trajecto das nossas vidas alarga-se a todos que acolhemos. Os acasos tornam-se momentos favoráveis, “kairós” em grego, para a surpresa feliz de recebermos o Espírito Santo e nos deixarmos guiar por Ele.
in Voz da Verdade 26.05.2019
http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=8198&cont_=ver2
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Foi há quatro anos

Na sexta-feira, 24 de Maio, completam-se quatro anos da Encíclica Laudato si’. Numa carta recente, a propósito do evento intitulado “Economia de Francisco”, que se vai realizar em Março de 2020, o Papa escreveu que é preciso «corrigir os modelos de crescimento» e concretizar «um modelo económico novo, fruto de uma cultura de comunhão, baseado na fraternidade e na equidade».

É também a 24 de Maio que, em mais de 100 países, os estudantes vão voltar às ruas numa nova greve pelo clima. O jornalista George Montbiot chamou-lhe, no The Guardian, “greve mundial pelo futuro”, afirmando que «a crise ambiental tem revelado é que o crescimento sem limites é a maior ameaça ao nosso bem-estar».

Nesta altura, destacamos especialmente duas das novidades que apresentamos abaixo.

Por ocasião da celebração do Pentecostes, no dia 6 de Junho, vamos realizar uma caminhada orante, para a qual deixamos aqui o convite a todos. Será no jardim do Seminário da Luz, em Lisboa, pelas 21h00. Passe palavra, venha participar, contamos consigo.

Ao longo deste ano, em colaboração com a rede Cuidar da Casa Comum, a revista Mensageiro de Santo António tem vindo a publicar uma série de artigos sobre a Laudato Si’ e a ecologia integral. Os artigos também podem ser lidos no nosso site.
in Cuidar da Casa Comum
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Photo exhibition celebrates 25 years of female priests
Images of 12 women from Southwark diocese capture variety of a priest’s work
by Harriet Sherwood Religion correspondent

Joyce Forbes looks after her grandson five days a week and campaigns for affordable housing. Susie Simpson absorbs the anger and pain of young men locked up in prison. Helen Harknett fights for social justice and LGBTI inclusion. At 92, Ann Gurney lives quietly these days.

The link between these four women is their membership of a growing band: female priests in the Church of England. Along with eight others, they feature in an exhibition of photographs, Here Am I, celebrating this year’s 25th anniversary of women’s ordination. It opens at London’s Oxo Gallery on Wednesday.
According to C of E statistics, there were 5,950 female priests in 2017 – a third of the total. Since 2015, 18 have been appointed bishops (out of a total of 114), including Sarah Mullally, who as bishop of London is the third most senior figure in the church. Last year more than half of those beginning training to become priests were women.

The exhibition, by the photographer Jim Grover, was commissioned by the bishop of Southwark, Christopher Chessun, to showcase the contribution female priests had made in the diocese, which stretches from the River Thames to Gatwick airport.

“I had no idea what I was signing up to,” said Grover, hanging the last photographs a few hours before the exhibition’s opening. “It’s been very challenging, getting to know 12 individuals, gaining their trust, following them across south London. They are truly inspiring, committed, kind, truthful, compassionate people. It’s been a pleasure and a privilege.”

Grover’s photographs capture the extraordinary variety of a priest’s work: praying, preaching, ministering to the sick and dying, weddings, funerals, baptisms – the activities most people think of – but also moments of contemplation, clearing plates, comforting others, even cutting hair.

 Joyce Forbes as a baby
Facebook Twitter Pinterest  Forbes as a baby. Photograph: Jim Grover
Forbes, 67, was ordained as an unpaid minister in 2004 when she was still working as a social worker. “By the time I was ordained, it felt very natural. I thought women priests were the norm, I didn’t realise then the struggle there had been. I wasn’t part of that journey,” she said. “Women bring something different to the priesthood. Women tend to listen more rather than jumping to conclusions. Sometimes you need to just wait before speaking or doing something.”

She came to the UK from Jamaica in 1965 at the age of 13, sent by her parents to live with an aunt in south London in order to get a better education, leaving behind six younger siblings. “I never really thought of myself as part of the Windrush generation then,” she said. Her biggest shock was not the cold, for which she was prepared, but blocks of flats, which she mistook for factories.

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She said the revelations over the past year about the treatment and denial of rights to members of the Windrush generation had been “absolutely shocking. I can’t express how painful it is to me – and it hasn’t even happened to me.”

Forbes takes services at her church in Croydon on two Sundays a month, and fills in at other times when the vicar is away. She’s an active member of a citizen’s group campaigning for affordable housing, and she and her husband look after their youngest grandchild when his mother is at work. Although officially retired, she is as busy as ever, her energy going into “church, family and building a community”.

Simpson was ordained in 2000, and after eight years in traditional ministry she decided to become a prison chaplain. Grover photographed her in Isis prison for young offenders, next to Belmarsh prison. “If they are having a really bad time, they want their mum. Female chaplains find that an open door,” she told Grover.

It took seven years between speaking to her vicar – in a diocese where the bishop was not sympathetic to the idea of female priests – about the possibility of ordination and it actually happening. “I sometimes thought the only women who got through were persistent rather than holy,” she said.

Twenty-five years after the bruising battle over women’s ordination, a small number of C of E parishes – 4% – still opt out of having a female vicar or allowing women to preside at communion.

“There are still pockets of resistance,” said Grover, who returned to his faith a few years ago after a long absence and is now an active member of his church. “Some people just can’t accept. I can’t understand it, but I respect different views.”
 Here Am I is at the Oxo Gallery on the South Bank in London until 2 June.
in The Guardian 22.05.2019

www.theguardian.com/world/2019/may/22/photo-exhibition-celebrates-25-years-of-female-priests?CMP=Share_iOSApp_Other


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