06 maio 2018

“As mulheres devem estar nos lugares de decisão da Igreja”


ENTREVISTA ENZO BIANCHI
“As mulheres devem estar nos lugares de decisão da Igreja”
O teólogo que fundou a comunidade monástica de Bose, Itália, mantém-se fiel à ausência de hierarquias. Procura a “espiritualidade a sério” e já ensinou um chef a confeccionar ovos pelo tempo de uma ave-maria. Bianchi não hesita ao dizer que “é estúpido querer saber se o inferno está vazio ou cheio”.
Ao fim de 50 anos, a comunidade monástica de Bose, em Itália, continua a ser uma experiência singular na Igreja de coexistência entre homens e mulheres de várias confissões cristãs. O seu fundador e prior, Enzo Bianchi, é uma voz activa na dignificação do papel da mulher na Igreja e diz que o papa Francisco “tem, de verdade, no coração a promoção da mulher”.
São palavras proferidas poucos dias antes de Francisco ter nomeado três mulheres como consultoras para a Congregação para a Doutrina da Fé. Pela primeira vez na história da Igreja, as mulheres ascendem a este cargo e passam a ser maioria (três em cinco) neste órgão que já foi a Inquisição.
A entrevista com Enzo Bianchi, que esteve em Lisboa com o filósofo Massimo Cacciari para uma das Lições Italianas organizadas pelo Instituto Italiano de Cultura e o Citer (Centro de Investigação em Teologia e  Estudos de Religião da Universidade Católica), é uma parceria do PÚBLICO com este centro universitário.
Qual é, para si, a principal mensagem da recente exortação apostólica do papa Francisco, Gaudete et Exsultate?
A mensagem central que eu identifico na Gaudete et Exultate é o destaque de que o verdadeiro santo cristão é um santo quotidiano, é um santo da vida normal, não é um herói, mas simplesmente quem na vida quotidiana, onde quer que se encontre, pode muito bem praticar o seguimento de Jesus Cristo, e vivê-lo a partir dos seus sentimentos, com as suas atitudes, com as suas preferências. Toda a vida humana é atravessada por fragilidade, por pecado, por contradições, mesmo aquela que tenta conformar-se à vontade de Deus. Mas é esta tentativa, este empenho, este esforço de amor que é a santidade comum. O papa chama-lhe “santidade ao pé da porta”, quase a convidar-nos a vê-la naqueles que habitam o mesmo condomínio, o mesmo alojamento, a reconhecê-la em vidas que são quase escondidas, que não têm nada de extraordinário, que não têm nada de heróico, mas podem igualmente ser vidas de observância e santidade cristã.

É isso a que papa se refere quando fala da “classe média da santidade”?
Não é que o papa peça uma vida média, no sentido de baixa, ou que não tenda verdadeiramente para uma santidade que seja plena. Porém, é como se dissesse que a santidade não é um projecto que o homem elaborou por si composto por uma construção de esforços heróicos e de méritos. A santidade é algo que Deus faz sobre as nossas vidas, as nossas vidas comuns, porque Deus purifica-nos dos nossos pecados e perdoa-nos. E dá-nos a força para arrostar as dificuldades. E nesta dinâmica, creio eu, está a classe média da santidade, como lhe chama o papa.

As duas heresias de que o papa fala na sua exortação, o gnosticismo e o pelagianismo – hoje raras de se ouvir -, são uma resposta aos críticos conservadores?
Certamente, o papa está a falar de duas tentações que estiveram sempre presentes ao longo da história da Igreja e estarão sempre presentes. Na história do cristianismo sempre se deram estas duas visões contrapostas, e ambas não correspondentes à verdade do Evangelho: de um lado, a ideia que tudo depende do homem, da vontade, simplesmente daquilo que ele faz, das suas obras; de outro lado, a ideia que a salvação é toda questão de conhecimento intelectual, de compreensão.

Ora, o papa estigmatiza estes dois vícios permanentes, que renascem sempre no seio do cristianismo, mas não lhe pertencem, diferentemente das outras religiões que não vêem problema nisso. Exactamente porque tem esta fé no amor de Deus gratuito e preveniente, o cristianismo é profundamente crítico em relação seja ao gnosticismo, como ilusão que o conhecimento possa tornar-se meio de salvação, simplesmente como compreensão, sabedoria, seja ao pelagianismo, à soberba confiança na auto-suficiência das obras do homem.
Certamente nestas duas tentações encontram-se também críticos do papa Francisco, porque de um lado ele é mal aceite por um certo intelectualismo católico que se alimenta de uma teologia decerto altíssima, mas que acaba por confiar mais em preceitos doutrinais que não na força do Evangelho e, portanto, o papa estigmatiza-os.
Por outro lado, há uma resistência contra o magistério do papa que vem de uma atitude própria de alguns sectores conservadores, os tradicionalistas, que tendem a ver a santidade simplesmente como o resultado dos esforços das pessoas. Assim, mesmo a liturgia, perdida no mundo tradicionalista, torna-se não uma via de salvação na qual Deus perdoa os nossos pecados e nos acolhe na nossa miséria, mas torna-se simplesmente um trajecto para alcançar a comunhão com Deus que devemos merecer através de uma série de ritos, de observâncias minuciosas, como se isso fosse decisivo para a salvação do homem.
Diz que o teísmo o assusta. Porquê?
O deísmo é a afirmação de Deus como uma entidade meta-histórica, alheia à contingência que, ao contrário, é núcleo essencial da encarnação de Jesus Cristo, que é algo que podia não haver, é um acontecimento de liberdade radical. Pascal dizia por isso, com razão: “É melhor o ateísmo que o deísmo .”

Ora, também nós, porém, os católicos, estamos um pouco doentes de deísmo. Estamos presos numa tradição doutrinal em que primeiro afirmávamos Deus em si e, depois, afirmávamos Jesus Cristo. Mas este dualismo vem de um modelo cultural exterior ao cristianismo, que se aninhou nele. O que constitui o cristianismo é a absoluta centralidade de Jesus Cristo, a via, o caminho aberto por Jesus – “Eu sou o caminho”. Para chegar a Deus passamos por Jesus Cristo. O nosso Deus é o Deus de Jesus Cristo. Tudo isto faz, sim, que o teísmo, quando é afirmado de uma maneira autónoma em relação à cristologia, torna-se realmente uma espécie de deísmo e assim um grande problema para a fé. E creio que hoje há sectores culturais da Igreja que estão ainda ligados a um racionalismo metafísico que contorna o tema da encarnação, não o leva a sério. A fé em Jesus Cristo morto e ressuscitado dissolve-se assim numa religião desencarnada da história, num deísmo que mata a verdade central do cristianismo, que é Deus feito homem, feito carne.
Como vê a possibilidade da comunhão dos recasados?
Este tema, que, claramente, foi tratado pela [exortação] Amoris Laetitia, pelo Sínodo e pelo papa Francisco, é um tema, sem dúvida, não fácil, porque temos por trás um tempo em que precisamente se fazia crer às pessoas que os divorciados estavam excomungados. Os divorciados nunca estiveram excomungados pela Igreja. Havia em relação a eles uma disciplina de não admissão aos sacramentos, mas excomungados nunca estiveram. No entanto, no pensamento popular, pensava-se que eles estavam excomungados. E o papa justamente, e não simplesmente por uma condição de contingência, porque hoje os católicos divorciados são muitos, mas precisamente a partir de uma reflexão sobre o Deus que é misericórdia, abriu um caminho de acolhimento que não significa que os divorciados possam fazer automaticamente a comunhão. Isto não é verdade, porque fica assente o princípio doutrinal de que a fidelidade matrimonial é um dever absoluto, com o fundamento sobre uma palavra de Jesus no Evangelho, não é alguma coisa de que a Igreja possa dispor.

O que o papa diz é que em certas condições, em certas situações, em que não se pode refazer uma história de fidelidade com o cônjuge anterior, em que se desenvolveram todas as exigências de justiça para com o outro cônjuge, e para com os filhos, e se há uma vida cristã e se há uma vida eclesial, quando todas esta condições são cumpridas, então deve ser dada ao recasados a possibilidade de iniciar um caminho que seja, antes de mais, de penitência, mas que, ao mesmo tempo, leve a usufruir dos dons que Deus nos dá nos sacramentos, e sobretudo na eucaristia, porque o papa Francisco repete o que tinha dito Bento XVI ao declarar que já o Concílio de Trento tinha estabelecido “A eucaristia não é um prémio para os bons, para os justos, mas é um dom oferecido para a salvação dos pecadores”. O Concílio tridentino, que decerto tem por trás a tradição católica, afirmou vigorosamente que a eucaristia é um sacramento para a remissão dos pecados, portanto, remite também os pecados. Tudo isto faz, assim, que, em certas condições, através do trabalho de discernimento, haja a possibilidade de os divorciados estarem na mesa da eucaristia. Mas esta não é uma lei geral e automática, prevê e requer caminhos de purificação espiritual. Para sintetizar: o que se dá é uma mudança de uma disciplina da Igreja, não uma modificação da sua fé ou da sua moral.
Qual é o significado de uma exortação apostólica que defende claramente a mulher, a exalta, falando até de um “génio feminino”, e a liga a períodos muito difíceis da história da Igreja?
Creio que o papa Francisco tem, de verdade, no coração a promoção da mulher e o desejo profundo que na Igreja haja esta possibilidade real de a mulher poder ser verdadeiramente um sujeito e não simplesmente uma destinatária, porque, de facto, está na hora de a mulher não estar na Igreja unicamente como corpo discente, mas ser parte de uma Igreja magisterial. Devo dizer francamente, todavia, que esta expressão “génio feminino”, que se deve a João Paulo II, não me satisfaz, assim como não agrada a muitas mulheres. Porque para haver um génio feminino, então deve haver um génio masculino, e entramos num jogo de distinções, algo vão.

No mundo ocidental estamos a viver um destes momentos de anestesia social e histórica. O problema é que todos, inclusive os jovens que geralmente são uma força de transformação, hoje estão muito homologados por esta cultura da sociedade de consumo.
Enzo Bianchi
Creio que devemos estar atentos à retórica que às vezes a Igreja usa, sobretudo em relação às mulheres e em relação aos jovens. A retórica é geralmente inimiga da mudança real de atitudes e um reconhecimento daquela metade do mundo que são as mulheres, não pode passar apenas por grandes palavras, mas antes de mais pelos factos.
No seu livro Jesus e as Mulheres, fala dessa espiritualidade e da dificuldade da Igreja em aceitar a mulher. De que tem medo a Igreja, ao certo?
Eu escrevi Jesus e as Mulheres exactamente para poder dizer que é absolutamente necessário procurar no comportamento e no estilo de Jesus em relação às mulheres alguma coisa que inspire também a praxis da Igreja hoje.

Jesus teve discípulos e teve discípulas, teve um discípulo amado e teve uma discípula amada, Maria de Magdala. No final do Evangelho é Maria de Magdala a primeira a receber e transmitir a mensagem da ressurreição, o que faz dela uma apóstola dos apóstolos. Mas para definir o papel da mulher na Igreja não podemos focar-nos unicamente em Maria de Magdala, mas dar adequado relevo ao conjunto da palavra e dos actos de Jesus. Jesus viveu uma vida normal, entre o seu povo, em que procurou remover todos aqueles tabus e todas aquelas proibições que impediam uma verdadeira comunicação com as mulheres e que as retinha, mesmo às crentes, numa situação de menoridade em relação aos homens. Jesus enfrentou, combateu esses tabus, rompeu barreiras e há nos evangelhos tantos exemplos desta determinação e, no meu livro, estão todos descritos e comentados. Eu estou convencido de que a Igreja deve ter a coragem de iniciar este caminho na sequela de Jesus e que o primeiro passo deve ser de dar a palavra às mulheres.
Termino, dizendo sobre a Igreja e as mulheres, que para que as mulheres façam parte da Igreja no papel de plena igualdade e dignidade que Jesus Cristo lhes reconheceu, para que as mulheres não se tornem uma parte em falta da Igreja, (o que é um risco crescente), é preciso que elas possam tomar a palavra. Isto é para mim o essencial: as mulheres devem estar nos lugares de decisão da Igreja, porque é preciso escutá-las. Há um princípio na tradição cristã: o que respeita a todos deve por todos ser tratado, meditado e deliberado. Não se pode pensar que isto não diz respeito às mulheres, que são a metade da humanidade.
Por consequência, creio que se requer uma mudança radical, que suscita um grande medo em muitos, porque a Igreja é ainda muito clerical e os homens, sem dúvida, monopolizam os postos de poder, são eles que estão habituados há séculos a decidir e a representarem eles a Igreja e a não a deixarem representar também por uma mulher. São hábitos de séculos que devem ser mudados e tudo isto faz com que o caminho seja muito, muito difícil e custoso. Mas devemos sair da retórica mais depressa e dar passos muito concretos de forma que as mulheres se sintam verdadeiramente implicadas na vida eclesial como sujeitos e em plena igualdade.
Há condições neste momento para uma mudança?
Agora, para uma mudança com vista à ordenação das mulheres, não creio que haja condições, porque isto, por um lado, é um problema ecuménico que deve ser resolvido com a Igreja Ortodoxa e hoje não há maturidade do povo cristão para pensar que haja ordenações presbiterais dadas às mulheres. Mas ao lado desta questão há todo um caminho a fazer. Penso por exemplo, em quantos organismos poderiam ser confiados às mulheres e não serem simplesmente monopólio dos homens, clérigos e leigos. Se abríssemos este caminho, dar-se-ia sem dúvida uma mudança radical da condição de sujeição das mulheres na Igreja.

A comunidade de Bose é uma comunidade monástica singular, juntando homens e mulheres de várias confissões cristãs. Quantas confissões cristãs tem hoje Bose e quantos elementos?
A comunidade de Bose compõe-se de cerca de noventa membros, homens e mulheres. Os católicos constituem certamente a maioria, mas temos também um número significativo de membros das diversas igrejas da Reforma, e um pequeno núcleo de ortodoxos. A composição da comunidade de Bose é, decerto, igual à da Igreja actual e, para nós, isto é muito importante porque, em comunidade, experimentamos uma espiritualidade a sério, que sem fazer compromissos nem sincretismos, se alimenta de todas as tradições eclesiais e se enriquece com estas. É uma grande graça, e nós, agora, fazendo isto há 50 anos, vemos que esta comunhão no pluralismo das tradições é possível, que não é só fonte de uma reconciliação, mas que é possibilidade de um caminho comum e de uma única confissão do Senhor Jesus.

Ao fim de todos estes anos, qual é a principal experiência de que Bose é testemunho?
Não creio que tenhamos um carisma especial, porque estamos no interior da regra monástica. Certamente o nosso caminho teve dois elementos característicos que foram escolhidos como resposta a uma urgência que reconhecemos na altura da nossa constiuição e que se confirmaram como aspectos centrais da nossa experiência comunitária. O primeiro é a lectio divina (leitura orante da Bíblia), que fomos efectivamente nós a redescobrir no princípio dos anos de 1970 como praxis eclesial de primária importância e que a seguir se divulgou crescentemente na Igreja até que hoje ela é expressamente recomendada pelos papas. A revitalização da antiga tradição monástica da lectio divina é reconhecida como um marco da nossa comunidade e muitos vêm ainda a Bose, porque em Bose se pratica a lectio divina, porque em Bose todos os dias há a lectio divina e porque as nossas vidas são plasmadas por ela.

A outra característica peculiar da nossa experiência é a coexistência de homens e mulheres. É decerto uma mensagem positiva, passados 50 anos desde a fundação da comunidade, não ter havido escândalos, nem situações difíceis, não houve ‘embaraços’, o que prova a nossa intuição de partida: homens e mulheres podem viver em conjunto, escolhendo consagrar-se inteiramente a Deus. O fruto deste convívio é uma certa maturidade afectiva, uma normalidade humana importante. Sermos homens e mulheres na Igreja, na comunidade, não deve tornar-se um factor de separação e de sujeição de alguns aos outros, mas deve afirmar-se como um enriquecimento recíproco, como a construção de um caminho comum.
Tudo isto tem um significado peri-monástico que caracteriza Bose como uma forma de monaquismo numa sociedade secularizada. Um monge teólogo da grande abadia beneditina de Sainte-Marie-de-la-Pierre-qui-Vire, Ghislain Lafont, creio que era jovem quando disse que o monaquismo de Bose é o primeiro monaquismo que conseguiu inculturar-se numa sociedade secular. Creio que isto será o que decerto Bose deu, dá, e esperamos que possa ainda dar nos anos próximos.
O que atrai os jovens que vão a Bose?
Temos efectivamente a presença de muitos jovens, para os quais organizamos frequentemente acções formativas, jornadas teológicas, sessões de lectio divina, retiros… E temos uma procura que supera muito a nossa oferta. Não conseguimos efectivamente acolher mais do que cem, cento e vinte jovens de cada vez. Frequentemente os pedidos de inscrição alcançam o dobro.

SEBASTIÃO ALMEIDA
É absolutamente necessário procurar no comportamento e no estilo de Jesus em relação às mulheres alguma coisa que inspire também a praxis da Igreja hoje.
Enzo Bianchi
Porque vêm? Essencialmente, creio, por duas razões. Em primeiro lugar porque em Bose nós os escutamos. Os jovens querem ser escutados. Não devem ser tratados apenas como destinatários passivos de uma mensagem, mas devem ser reconhecidos também como sujeitos, portadores de uma palavra a escutar. Estou convencido que o que faz falta aos jovens não é atenção de os considerar destinatários de mensagens e ofertas, mas a escuta, o silêncio e paciência que os põe em condição de se exprimir.
Em segundo lugar, o que atrai os jovens é o facto que a nossa proposta é extremamente simples e se articula em dois aspectos. Por um lado, o que fazemos é transmitir uma gramática humana básica para enfrentar a vida, para os ajudar a viver o caminho de humanização que deve ser a nossa existência. Porque um jovem tem absoluta necessidade de ser exercitado na escuta, na palavra, nas relações, nas histórias de amor, e é precisamente isto que nós procuramos fazer, na sabedoria possível de comunicá-lo e de verificá-lo juntos. Por outro lado, apresentamos aos jovens, simplesmente, humildemente, a palavra evangélica. Achamos que o nosso papel é oferecer aos jovens a possibilidade se se encontrarem com o evangelho, nada mais. Não insistimos noutros temas do cristianismo, nem em questões doutrinais, que eles terão tempo de percorrer e de assumir.
A comunidade de Bose é uma comunidade onde os monges e as monjas fazem votos de celibato e vida comunitária. E é uma associação laica. Isso é importante para Bose?
O monaquismo sempre foi um fenómeno de laicos, e nós não o devemos esquecer porque todos os padres do deserto eram laicos: Pacómio era laico, Basílio era laico, mesmo S. Francisco permaneceu laico, nunca se tornou diácono, como diz a lenda. Por isso, o monaquismo, por si, é laico e eu não quis de todo que fosse diferente. Devo dizer que os bispos [da diocese a que Bose pertence] que se sucederam me pediram que eu fosse ordenado padre, mas eu sempre recusei este convite, porque quero ficar um simples fiel, um simples laico como os monges. Não esqueço aquela frase dita por Pacómio ao patriarca de Alexandria, o grande patriarca que foi procurá-lo e que era Atanásio, e que perguntou: “E a comunidade?” E ele respondeu: “Somos simples laicos.”

O que eu escolhi foi simplesmente manter-me fiel a esta tradição. É claro que isto tem consequências. Por exemplo, ter menos vocações, porque muitos querem, sim, tornar-se monges, mas também padres, o que não é certo que seja possível ao escolher ser monge de Bose. Porque em Bose é só a necessidade da comunidade que determina a ordenação de um monge como padre. Se a comunidade precisa de um padre, então dá-se uma ordenação. Mas a maioria de nós fica laico para toda a vida. É uma escolha que afasta um número consistente de jovens, e todavia, vemos que há uma resposta constante, que para nós é suficiente. Não é tanto uma questão de números, quanto de qualidade da vida comunitária. Estamos contentes ao ver que a comunidade se mantém por meio desta opção como um corpo muito mais homogéneo, muito mais unido, porque somos irmãos e simples irmãos, sem hierarquias. O nosso reconhecimento jurídico, que foi feito pelo bispo, é de uma comunidade monástica, mas no nosso estatuto, como na nossa regra, a condição é laical.
Ir para um mosteiro hoje é fugir do mundo?
Não. O mosteiro deve sempre ter esta posição de estar não marginalizado, mas marginal, nas bordas, porque se o mosteiro se separa do mundo torna-se uma seita. Deve absolutamente estar sempre à escuta do mundo, ter a capacidade de estar presente no mundo, testemunhando uma diferença, que não deve ser expressão de um medo, não pode tornar-se uma contracultura, uma forma de defesa e recusa da sociedade. Dentro do monaquismo há o celibato, uma vida fraterna comum, o trabalho e a oração criam uma antropologia diversa, em comparação com a que se encontra no mundo, mas diversa não significa contrária, não significa em luta, significa simplesmente que pode ser alternativa, porque é capaz de fazer esta estrada e a sente como a sua verdade, mas não é uma estrada de perfeição, não é um caminho melhor. O título do meu livro sobre a vida religiosa [em edição espanhola, No Somos Mejores, Una Vision Renovada De La Vida Religiosa] formula precisamente este ponto central: Nós não somos melhores.

Voltando à Gaudete et Exsultate, o papa Francisco pede aos cristãos que dêem tanta atenção aos imigrantes e sobretudo aos pobres como se dá ao aborto. Surpreende-o isso?
O papa, nesta exortação apostólica, põe os pontos nos is. Um primeiro ponto é deflacionar a contraposição entre a contemplação e vida activa. Ele diz que não podemos refugiar-nos na oração e ignorarmos o irmão em necessidade, não nos pode recolher em silêncio e fugir assim daqueles que pedem ajuda. Ele recusa como um desvio este dualismo que polariza a vida contemplativa e a vida activa como formas alternativas de vida cristã, convidando a integrar estas duas dimensões na experiência de fé de cada um. Os cristãos seguem o Senhor, certamente em momentos de contemplação, de oração, de escuta da palavra de Deus, mas da mesma maneira devem escutar os homens, escutar as mulheres, escutar os irmãos, escutar os necessitados.

Um segundo ponto no i, uma segunda chamada de atenção é feita aos católicos que fazem grandes batalhas contra o aborto, pela bioética, em defesa dos “seus valores”, e não fazem absolutamente nenhuma pelos migrantes, pelos pobres, por aqueles que sofrem a opressão. Neste caso, observa o papa, há uma defesa da vida muito teórica, cultural e política, que não corresponde a uma batalha igualmente determinada em prol da vida real, dos seres humanos em carne ossos, nas suas necessidades.
Hoje há sectores da Igreja, nomeadamente nos Estados Unidos, muito empenhados em grandes batalhas identitárias, contra o aborto, contra a eutanásia, contra a moral sexual mas que não se ouvem em relação às situações de pobreza, injustiça, exploração, opressão que se vê no mundo. Isto é escandaloso, e é este dualismo que o papa denuncia de maneira muito forte.
A dificuldade em se perceber o que é o humanismo cristão vem da dificuldade de se dizer a palavra “Deus”?
Bem, sim e não, no sentido de que hoje, sem dúvida, a palavra “Deus” é uma palavra que se esvaziou muito, de forma dramática na última geração, no milénio actual. Muitos dizem que Deus já não interessa, que podemos viver a vida sem Deus. E frequentemente esta posição é associada a uma reivindicação humanista de tolerância e de convivência pacífica, porque no contexto actual de radicalismos e fundamentalismos emergentes Deus acaba por ser associado ao fanatismo, à intolerância religiosa, aparece exactamente como factor detonante do fanatismo terrorista. Deus é uma palavra que não goza de boa saúde actualmente e devemos tomar consciência disso. Mas o facto é que a fé dos cristãos não consta na confissão de um Deus em geral, de uma entidade suprema, abstracta, meta-histórica. O nosso Deus é o Deus de Jesus Cristo e Jesus Cristo revelou-nos Deus através de uma vida humaníssima. Portanto, é inspirando-nos na vida humana de Jesus que podemos avançar em direcção a Deus, um Deus inefável, indizível, de que não conseguimos dizer nada porque nunca o vimos, que é a fonte de vida, que é a fonte do amor, e que é o Pai de Jesus Cristo. Este é, na minha opinião, o caminho que devemos fazer.

O que faz falta aos jovens não é atenção de os considerar destinatários de mensagens e ofertas, mas a escuta, o silêncio e paciência que os põe em condição de se exprimir.
Enzo Bianchi
Onde há espaço para o humanismo cristão no mundo de extremismo, populismo, violência, discurso do ódio?
Certamente hoje é fácil o fundamentalismo, é fácil a intolerância, em consequência, mesmo no interior da Igreja Católica. O papa, na exortação Gaudete et Exsultate lamenta-se da violência que se manifesta e se espalha na Web, no mundo da Internet. Mas creio que o humanismo cristão, exactamente porque é esta praxis que ajuda a convivência, que ajuda um caminho de humanização, pode ser extremamente fecundo hoje. E hoje, mais do que ontem, este humanismo evangelicamente inspirado é reconhecido antes de mais pelos mesmos cristãos, como uma mensagem de reconciliação e de integração social, como uma força que contraria a solidão e a fragmentação.

O papa Francisco terá dito a um jornalista italiano que o inferno não existia. Faz sentido hoje discutirmos isto?
O debate voltou de novo e decerto Eugenio Scalfari [jornalista italiano que alega ter ouvido essa frase ao Papa] interpretou como quis as palavras do papa. Porque o que o papa pode dizer, dentro de uma fidelidade ao Evangelho, é isto: que o inferno é uma ameaça que se encontra directamente nas palavras de Jesus. Ousarei dizer que, se há uma novidade do Novo Testamento, é a possibilidade do inferno. No Antigo Testamento, esta noção não se encontra: no Além veterotestamentário há um repouso, há uma escuridão, mas não se fala de ressurreição, de vida ultra-terrena, nem propriamente de condenação eterna. O Novo Testamento, pelo contrário, anuncia a ressurreição, que implica a possibilidade do inferno. Isso é de uma condição para além da condição terrena que se confirme na escolha existencial do pecado, como opção de viver sem Deus, sem amor. Este é o núcleo da palavra evangélica, que se reveste do imaginário judaico do fogo, da desolação de lugares ultraterrenos, mas estes são apenas ícones necessários para simbolizar o mistério.

Para os cristãos, o que é isto?
Para os cristãos, o imaginário dado por Dante dentro da Divina Comédia continua predominante. Como há o reino dos bem-aventurados, há um reino na profundidade do inferno onde há tormentos, sofrimentos diversos, conforme os pecados. Na realidade, do inferno não sabemos nada. Digamos que Jesus põe diante de nós a possibilidade de um caminho mortífero, que leva ao mundo sem Deus, sem amor, e uma vida com Deus, com amor, que é chamada Reino dos Céus, que é chamada paraíso.

O que faz o cristão? O cristão sabe e deve saber que existem estas duas possibilidades diante dele e que é ele que escolhe, aqui. O que está em jogo nesta promessa de salvação e nesta possibilidade de perdição não é um segredo que nos escapa. O essencial é claríssimo para cada um: eu hoje escolho o inferno, hoje escolho o Reino de Deus, escolho por meio das minhas acções. Esta opção levar-nos-á àquilo que é um juízo diante da misericórdia de Deus e é isto, a consciência do juízo de Deus, de um Deus que conjuga misericórdia e justiça que conta e que deve condicionar o nosso discurso. Na minha opinião, é estúpido querer saber se o inferno está vazio ou cheio. O que interessa é se queremos ou recusamos o amor de Deus, vivendo-o como amor para os irmãos.
Há apenas uma consideração que considero relevante a este respeito. Um verdadeiro cristão pode pensar na sua felicidade no Reino de Deus sem que ali se encontrem os outros? Uma pessoa não se salva sozinha. Por isso, a esperança de um cristão deveria ser que para o inferno não vai ninguém, que a misericórdia de Deus abrange tudo. Para dizer a verdade, quando penso no Além, temo o inferno, mas temo-o por mim, e pergunto-me: se para o inferno vai qualquer pessoa, porque não hei-de ir eu? Sou assim tão santo? Duvido, por isso, espero que ninguém vá para o inferno.
É a atitude de Paulo que dizia: espero que a nenhum dos meus irmãos judeus aconteça que não seja salvo. É a atitude de tantos santos da tradição oriental, que diziam: se há o inferno, Senhor, manda-me a mim, para que outros não entrem no inferno. É a atitude de quem é nutrido de amor. Não pode haver um verdadeiro cristão que afirme que há inferno, porque quer mandar para lá os outros, pensando que ele não vai.
O papa Francisco disse há algumas semanas: “Queridos jovens, vocês têm o que é preciso para gritar contra a anestesia.” Cinquenta anos depois do Maio de 68, é a Igreja, o papa Francisco, a exortar os jovens a gritar. Há 50 anos a Igreja era o símbolo do conservadorismo. Não é uma ironia?
Sem dúvida, que na história, sabemo-lo bem, há estes movimentos, estes refluxos, com uma oscilação entre momentos de grande esperança e, por consequência, também de contestação da situação existente e de batalhas para a mudança e momentos de recuo e bloqueio, em que todos parecem paralisados e mesmo as vozes de mudança se mostram extremamente fracas. No mundo ocidental estamos a viver um destes momentos de anestesia social e histórica. O problema é que todos, inclusive os jovens que geralmente são uma força de transformação, hoje estão muito homologados por esta cultura da sociedade de consumo. Então o papa quer acordá-los, dizendo “Gritai, não deixeis gritar as pedras” e desafia-os a tomar consciência do seu papel na história.

Pois, também aqui estejamos atentos a que não se torne uma retórica. O que é preciso não é só dizer aos jovens “gritai”, mas é preciso dizer “Nós estamos dispostos a tomar-vos a sério e a escutar-vos. Digam-nos alguma coisa. Não basta gritar, digam-nos a nós que, juntos, queremos mudar as coisas.”
É conhecido o seu gosto pela cozinha. De onde lhe vem?
Essencialmente da minha família e da minha terra, o Monferrato, que é sabido ser uma terra de grande tradição gastronómica, refinada pelo intercâmbio com a França. A minha avó era uma cozinheira francesa e o meu avô era padeiro. Não éramos uma família de lavradores, mas de artesãos, ligados profissionalmente à cozinha ou mais em geral à alimentação. A este contexto local e familiar acrescentaram-se as circunstâncias da vida: a minha mãe morreu quando eu tinha oito anos, o que me obrigou a preparar a comida para o meu pai que voltava do trabalho. Já aos nove anos eu era responsável pelo menos para a refeição do meio-dia, todos os dias. Desde então, nunca mais deixei de cozinhar. Cozinhava para mim e para os companheiros de alojamento quando estava na universidade, no alojamento tinha de preparar a minha alimentação. Continuei a cozinhar depois de mudar-me para Bose, porque pelo menos durante os primeiros seis ou sete anos eu era o único disponível para acolher aqueles que chegavam.

Isto nunca foi para mim um peso, mas uma alegria. Por isso, quando devo fazer festa em comunidade ou quando convido amigos, a primeira coisa que gosto de fazer é cozinhar para eles, convencido de que fazer os cozinhados é a primeira maneira de dizer a alguém “quero-te bem”.
Portanto, a comida na mesa é amor?
Sim, exactamente, é a manifestação do amor. A mesa é o magistério do amor. Come-se, mas também fala-se, compartilha-se, para que haja comida para todos, dá-se atenção aos produtos que se utilizam. À mesa celebram-se todas as nossas histórias, os casamentos, os nascimentos, as mortes. A mesa é o lugar onde se iniciou a humanização, é o lugar onde nasceu a linguagem, a palavra. Então a mesa deve ser levada a sério. O problema é que hoje a mesa se tornou o lugar da máxima estranheza, quando a mesa tem a vocação para a máxima comunhão.


O chef italiano e seu amigo, Carlo Petrini, diz que o ensinou a cozer ovos com base em ave-marias. Como é que as ave-marias são mais precisas que os relógios?
A razão é muito simples: os nossos antepassados quando cozinhavam os ovos não tinham relógio e por isso tinham essa sabedoria extremamente camponesa, imbuída de religiosidade, que o tempo de fazer um ovo à la coque é exactamente o de rezar dez ave-marias, enquanto para obter um ovo cozido temos que contar o tempo de vinte pai-nossos… Hoje que temos os relógios, achamos que já não precisamos das ave-marias, mas se calhar eram as nossas avós que sabiam mais!

LURDES FERREIRA  6 de Maio de 2018
in Público
[Tradução de Rita Veiga]


A IMPERTINÊNCIA DA EVANGELIZAÇÃO


1. Encontrei, em várias intervenções de Thierry-Dominique Humbrecht[i] e no título de um dos seus livros, A evangelização impertinente, a sugestão para esta crónica, ainda que com desvios.
O autor referido pretende escrever um guia do cristão nos países pós-modernos. Teve bom acolhimento. Não se conforma com a moleza das expressões da presença cristã em algumas sociedades ocidentais. Não é preciso estar inteiramente de acordo com o seu diagnóstico nem com as suas propostas. É mais importante suscitar um debate do que apresentar soluções para cristãos apressados e preguiçosos.
Th-D. Humbrecht é um investigador da filosofia medieval e já deu provas da sua acutilância analítica. Não se resigna, porém, a viver na sua torre de marfim do passado, nem se conforma com o silêncio dos católicos nos actuais debates que percorrem a sociedade. O cristão parece intimidado, excluído da cultura, dando a impressão de que não se deixa interrogar pela gravidade do que está acontecer. Ao julgar irremediável que o país deixe de ser cristão, não se apercebe que existe uma estratégia, dita pós-moderna, interessada em libertar-se dessa herança. O niilismo exibido esconde, no entanto, um projecto de poder, por vezes, também, uma nostalgia.
Tendo em conta esse ambiente, que abrange uma grande complexidade, como é que um cristão se pode situar entre a compaixão, a cumplicidade e a contracultura? Perante os cortes na transmissão do que há de vivo no passado, o abandono de muitas heranças, a ditadura do relativismo e certo ateísmo católico, muitos cristãos têm a impressão de que o grande navio se tornou uma simples barcarola.
De facto, o próprio cristão cede muitas vezes a essa lógica: escolho o que me apetece e deixo de lado o que não me interessa. Nestas condições, como fazer ouvir o Evangelho? Pela palavra ou pelo exemplo? E onde: na família, na educação, na política, na cultura?
Entre a laicidade mal compreendida e os vãos apelos ao milagre, o caminho da providência é o que se baseia na nossa coragem pública. O cristão tem algo de insubstituível a dizer aos seus contemporâneos. Não há Igreja sem evangelizadores impertinentes, que ofereçam uma mensagem de esperança para tempos de relativismo.
Para o conseguir, é preciso desembaraçar-se de um paradoxal anti-intelectualismo. O cristão deve, pelo contrário, cuidar a sua formação e tornar-se competente sob o ponto de vista intelectual. Por isso, os jovens cristãos devem preferir profissões criativas, em todas as suas expressões, àquelas que acenam apenas com sucesso pessoal no campo financeiro.
 O filósofo dominicano Th. D. Humbrech, professor em várias universidades, inconformado com a incultura do vale tudo e o seu contrário, luta por uma viragem cultural, por um catolicismo competente no campo literário, artístico, filosófico, teológico, espiritual, ético e político.
2. Agrada-me esta vontade de acabar com um catolicismo culturalmente envergonhado e complexado. Detesto, porém, todas as derivas de compensação que vão desaguar no catolicismo fundamentalista, em nome da verdadeira doutrina da Igreja e se esgota na falsa tranquilidade dos catecismos e do Direito Canónico. A fé cristã não se fixa nas formulações dos credos. É uma entrega ao infinito amor de Deus que nenhuma expressão O pode limitar. O místico é aquele que não pode parar. É uma viagem permanente, sem apeadeiros, sem estações definitivas, até chegar à plenitude da alegria de Deus.
A fé é um activador da criatividade, não um extintor. Tomás de Aquino insistiu sempre em que uma coisa é recitar os credos da ortodoxia, outra é procurar entender Aquele a quem nos confiamos. Recitar o Credo sem procurar responder à questão: como é que é verdade aquilo que confesso ser verdade?, posso ser muito ortodoxo, mas sou uma cabeça vazia.
Também não basta ler os textos e as narrativas do Novo Testamento (NT). A letra mata, só o espírito do texto vivifica. Quando um padre ou um bispo faz uma homilia a repetir a leitura que já escutámos, bem podia ficar calado. É fundamental entrosar as narrativas bíblicas com as experiências actuais da fé, na encruzilhada dos problemas vividos na sociedade.
O Concílio Vaticano II, tão esquecido, lembrou que «é dever da Igreja investigar, a todo o momento, os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho; para que assim possa responder, de modo adaptado em cada geração, às eternas perguntas dos seres humanos acerca do sentido da vida presente e futura e da relação entre ambas. É, por isso, necessário conhecer e compreender o mundo em que vivemos, as suas esperanças e aspirações, o seu carácter tantas vezes dramático[ii]».
A criatividade da fé cristã não se pode manifestar, apenas, nas expressões teológicas e na poesia mística. Pertence-lhe activar e exprimir-se em todas as grandes formas de criatividade humana: literatura, artes plásticas, encenações teatrais, cinema, bailado, humor e, sobretudo, música. Dentro e fora da liturgia.
Não é preciso nenhum mandamento divino para justificar esta atitude. Como dizia Tomás de Aquino, o bem deve ser praticado porque é bem e o mal devia ser evitado porque é mal.
3. Não podemos esquecer a impertinência do Evangelho de Jesus Cristo. Se tivesse sido mais acomodado podia ter tido uma carreira brilhante. O diabo do poder de dominação económica, política e religiosa bem o tentou e o Nazareno não tinha o fascínio de João Baptista pela austeridade. Ele gostava da vida. Tinha o defeito de não suportar ver uns à mesa e outros à porta; uns como povo de Deus e outros não se sabe de quem; uns classificados, à partida, como santos e outros como pecadores; uns privilegiados porque eram homens e outras marginalizadas porque eram mulheres.
Tinha a impertinência de gostar da vida para todos, desenvolvendo as potencialidades humanas e os talentos, sem discutir se estavam bem ou mal distribuídos. Tinha ainda um outro defeito: detestava a ganância e o carreirismo. Os discípulos que escolheu andavam sempre a perguntar-lhe o que ganhavam na sua companhia e o lugar que lhes estava destinado. Um dia teve de pôr tudo em pratos limpos, mas sem grande sucesso.
O Evangelho de S. Mateus[iii], fruto de muita reflexão e de muita experiência pós-pascal, quis deixar, em três parábolas, algo de extraordinário: a importância da lucidez contra o deixar correr, a importância de ninguém se desculpar por não ser um génio, mas não há nenhuma ciência nem nenhuma capacidade de fazer fortuna que não tenha de olhar para o lado e ver os que ninguém cuida.  
Frei Bento Domingues, O.P.
      in Público, 29.04.2018


[i] Thierry-Dominique Humbrecht, O.P., L'évangélisation impertinente. Guide du chrétien au pays des postmodernes, Paris, Parole et Silence, 2012 (3e édition). 
[ii] Gaudium et Spes, 4
[iii] Mt 25




22 abril 2018

ARQUITECTOS E MEMÓRIA DO FUTURO

     
1. A memória viva nasce da preocupação com o futuro, do desejo de viver, de uma discreta insurreição contra o niilismo. Sem o horizonte do futuro, deixaríamos morrer o passado: foi e acabou. Como já tentei mostrar, várias vezes, nestas crónicas, o ser humano nunca está feito, acabado, é uma realidade aberta, em permanente devir, nostalgia e aventura.
Gostei de ouvir o filósofo Massimo Cacciari, em diálogo com o teólogo Enzo Bianchi, sobre Repensar o humanismo[1], mostrando que é uma quimera procurar definir o “homem”, esquecendo que somos um mundo de possibilidades. Definir é limitar. Estabelecer a lista completa das suas possibilidades, mediante a tecnociência, é o desejo da morte do desejo. É, no entanto, este que a oração acende:
«Conduz-nos, Deus,/ de questão em questão,/ de fogo em fogo,/ sem satisfações que ao tempo bastem/ e a nós assombrem// que passemos da catalogação/ do que julgamos conhecer/ ao poço dos enigmas infindáveis/ onde o rosto é para sempre fundo,/ desmentido, diferido// não nos mure a estrutura em espelho/ que escamoteia a procura da verdade,/ mas que o dom da tua palavra nos visite/ como o cantar do galo,/ a lembrar o dia novo,/ o perdão e a graça»[2].
Em 2015, publiquei aqui uma crónica com o título 800 anos é muito tempo[iii], para evocar o começo das celebrações do Jubileu do VIII Centenário da Ordem dos Pregadores (Dominicanos). Entretanto, em várias cidades do país, foram realizados congressos, conferências e eventos ligados a esta vasta história com os seus altos e baixos.
No dia 14 deste mês, foi lançada, na bela igreja do Alto dos Moinhos, uma obra importante para o conhecimento do percurso dos Dominicanos, desde a sua chegada a Portugal, em 1217, até à actualidade[iv].
No mesmo dia, a seguir à apresentação desse livro, foi projectado um vídeo sobre uma das realizações mais marcantes da renovação da Arte Sacra, fruto de um convite audacioso dos dominicanos, P. Couturier e P. Régamay, ao arquitecto Le Corbusier. Trata-se do famoso convento dominicano de Sainte Marie de La Tourette (Lyon, 1960).
Transitou-se, depois, para outros espaços do Convento, onde foi inaugurada uma extraordinária exposição sobre Dominicanos. Arte e Arquitectura Portuguesa. Diálogos com a Modernidade. A própria exposição é dedicada ao Convento de Cristo Rei (Porto, 1950-54), à Igreja de Nossa Senhora do Rosário (Fátima, 1962-65), à Capela da Escola Apostólica da Aldeia Nova (Ourém, 1964-67) e ao Convento de São Domingos (Lisboa – Alto dos Moinhos, 1989). A alta qualidade da exposição dessas significativas obras da renovação da Arte Sacra é, também ela, uma obra de arte, um regalo para os olhos e para a inteligência.
2. Não posso esconder as emoções que me provocaram todos esses momentos. Tinha diante dos olhos a minha própria história de aproximação e de membro apaixonado da Ordem dos Pregadores. Foi no Porto, numa casa perto do Hospital de Sto. António – antes da construção do Convento do Cristo Rei –, que fiz o exame de admissão à Escola Apostólica Dominicana (em Aldeia Nova). Aí vivi cinco anos espantosos, com jovens de todo o país. Merece o filme que vai fazer reviver esse Casarão de todas as alegrias e loucuras. Entrei para o noviciado no Convento de Fátima em 1953. Aí, comecei a estudar filosofia a partir dos seus debates contemporâneos, com uma equipa de professores de vários países. Procurava-se a fonte do rio a partir da amplidão da sua foz. A interrogação era a lei dessa escola, do Studium Sedes Sapientiae. Mais tarde, depois do Vaticano II, também fui aí professor de teologia e, com expressões alargadas pelo ISTA, nos Cursos de Verão e nos Encontros de Teologia para leigos, sobretudo em Coimbra e no Porto.
Depois de muitas andanças por vários continentes, regressei a Lisboa, ao Convento João XXIII, antes da construção do Convento de S. Domingos onde, além de muitas outras actividades, vou escrevendo estas crónicas desde há muitos anos.
Entrei numa ordem religiosa cuja longa história não é um peso. É uma demonstração de que as instituições podem ser um mundo de possibilidades criadoras ou de traições. Sempre me impressionou que S. Domingos não tenha deixado nada aos seguidores do seu projecto. Mandou-os estudar, fazer comunidade e testemunhar o Evangelho pela vida e pela palavra. Seriam eles que tinham de fazer e aprovar as orientações e as normas, segundo o modelo de democracia representativa. Criou um mundo de possibilidades, não um modelo de reprodução do mesmo.
3. Uma das realizações mais significativas da renovação da Arte Sacra, em França, foi obra do célebre pintor Henri Matisse, em Vence (1951). Segundo a tradição oral, respondeu ao apelo de uma freira que tinha sido seu modelo antes de entrar para o convento. Quando Matisse esteve doente, no hospital, essa freira era enfermeira e ocupou-se dele com tais cuidados que o pintor desejava dar-lhe um grande presente. Ela agradeceu: «temos uma capela de Notre-Dame du Rosaire, das irmãs dominicanas a que pertenço. Se a pintasse era o melhor presente que podia dar à comunidade». Ao procurar conhecer S. Domingos, teve a intuição genial de o pintar sem rosto. Cada dominicano ou dominicana, ao longo do tempo, não tinha de o reproduzir, mas de reinventar o seu desígnio no seio dos problemas e da cultura de cada época e de cada continente. Seja histórica ou não essa tradição oral, o resultado é admirável. Aquela capela é um céu aberto pela pintura terrena desse grande pintor.
Os arquitectos que realizaram a exposição no convento de S. Domingos (Alto dos Moinhos), que estará aberta nos dois próximos meses, não repetiram o passado. Abriram novas possibilidades de incarnação do projecto de S. Domingos em novas formas e não só de arquitectura. Esta inspira novas arquitecturas da vida.
Frei Bento Domingues, O.P.
           in Público 22. 04. 2018


[1] Este Encontro realizou-se no âmbito das atividades regulares do CITER (em parceria com o Instituto Italiano de Cultura) no Ciclo Lições Italianas sobre Estudos de Religião.
[2] José Augusto Mourão, O Nome e a Forma, Pedra Angular, Lisboa 2009, p. 170
[iii] 800 Anos é muito tempo!, Público, 08.11.2015
[iv] Coord. António Camões Gouveia, José Nunes, OP, Paulo F. de Oliveira Fontes, Os Dominicanos em Portugal (1216.2016), Centro de Estudos de História Religiosa (UCP), Lisboa, 2018. Cf A restauração da província dominicana em Portugal. Tenacitas. Coimbra. 2012. Sobre o carisma dominicano existe uma Biblioteca Dominicana em desenvolvimento


15 abril 2018

O IMAGINÁRIO PASCAL DO ALÉM-TÚMULO

      1. Uma biografia procura dar a conhecer o percurso entre o nascimento e a morte. A possibilidade de observar o desenvolvimento da vida intra-uterina é relativamente recente. Esta banalidade não pode ser esquecida na leitura das narrativas em torno da ressurreição de Cristo.
      Depois da morte, restam apenas as marcas que o falecido deixou nas suas obras e na memória dos vivos. No entanto, o imaginário da vida depois da morte sempre suscitou e alimentou insólitas “histórias” de terror e consolação[1]. Os “mapas” da geografia do Além e das crenças nos poderes invisíveis são abundantes na originalidade de cada povo e cultura. Parece que a maioria das pessoas recusa o niilismo. Não aceita que a morte seja o fim de tudo. No vocabulário cristão, a ressurreição impôs-se, mas continua a ser difícil exprimir a significação dessa gloriosa metáfora[2].
    Quando lemos e proclamamos, na Eucaristia, trechos das chamadas narrativas da ressurreição de Cristo (cujo facto ninguém presenciou, nem poderia presenciar), ficamos sempre mergulhados em muitas perplexidades.
        Por um lado, no dizer de S. Paulo, se não há ressurreição, Cristo também não ressuscitou e, se Cristo não ressuscitou, estamos ligados a nada ou, apenas, à memória do que foi e nunca mais volta.
       Recordar o exemplo que Jesus de Nazaré nos deixou – a figura mais extraordinária da humanidade – deve encher de alegria crentes, agnósticos e ateus. Para os cristãos, esvaziar a sua humanidade é um atentado contra a humanização de Deus.
         Por outro lado, as narrativas que falam de Jesus depois da morte enchem-nos de dúvidas e todas as exegeses aumentam as dificuldades. O que é contado aconteceu de facto, ou não são mais do que criações de uma imaginação delirante?
        Nessa escrita, o verosímil e o impossível parecem constituir a originalidade do seu tecido. A actuação de Jesus, umas vezes é apresentada à imagem do que aconteceu durante o seu percurso terreno, noutros casos a linguagem é de ruptura completa.
       Como mostrar que Jesus ressuscitado continua a ser o mesmo que viveu com os discípulos e que agora vive numa dimensão completamente nova e indizível? Como pode atingir-nos em todos os tempos e lugares e conviver com todos os seres humanos de todas as épocas da história?
        Os narradores tiveram de recorrer a todos os recursos da imaginação para exprimir o que supera a nossa experiência intra-histórica. A linguagem simbólica é muito mais realista do que a linguagem das ciências empíricas. Quanto mais poético mais real. A música é a sua alma e apenas ela pode sugerir o que nenhuma linguagem pode conter.
       2. Numa pequena tertúlia, surgiu a opinião de que essa observação era uma escapatória. Agora, as novas tecnologias oferecem e antecipam algo de muito mais milagroso e sofisticado do que as peripécias das narrativas e aventuras sobre a ressurreição.
     Como sou uma nulidade acerca das possibilidades das novas tecnologias, abstenho-me do ridículo de usar as suas linguagens na interpretação dos textos do Novo Testamento.
     Além disso, o uso que a liturgia católica faz desses textos não é para resolver problemas do passado nem para dar contributos à Quarta Revolução Industrial[3]. Pretende responder a esta simples questão: Jesus Cristo é ou não nosso contemporâneo? Umas vezes situamo-lo no passado, naquele tempo, ou no céu, à direita do Pai, numa espécie de férias prolongadas. Nas próprias orações das missas repete-se Ele que é Deus convosco. O Emmanuel, o Deus connosco, nessas expressões acaba por viver sem nós, situado no passado ou no “etéreo”. Não admira que as orações dos fiéis andem sempre a informar Deus acerca daquilo que por cá se passa. Não tem de ser assim.
     3. A arte de entrosar o passado e o presente foi-nos oferecida por S. Lucas[4]. Escreveu um conto – os Discípulos de Emaús – como se fosse acerca do passado para dizer o que sempre acontece numa comunidade cristã. Imaginou dois dos discípulos, tristes e desiludidos pelo que aconteceu ao seu Mestre e sem esperança na ressurreição prometida. O interessante do conto é que o próprio Jesus entrou no grupo e na discussão do que tinha sido o seu julgamento. Eles estranham a ignorância e a distracção deste forasteiro e explicaram-lhe, com todos os pormenores, o que Lhe tinha acontecido. Este mostra-se muito interessado. Acabam por acrescentar: «é verdade que algumas mulheres, que são dos nossos, nos assustaram; foram ao sepulcro e vieram dizer que tiveram umas visões e que Ele está vivo. Os homens verificaram a narrativa das mulheres, mas não O viram.»  
     Aí, o forasteiro explicou-lhes que não estavam a entender o que tinha acontecido. Não se dá por achado e explicou-lhes, a partir das Escrituras, o que a Esse personagem dizia respeito. Estando os discípulos perto da aldeia para onde iam, Jesus fez de conta que seguia viagem. Pediram-lhe para ficar com eles. Ficou e tomou conta da casa e da mesa. Tomou o pão partiu-o, distribuiu-o e deixaram de O ver. O espanto: enquanto O viram, não O viram. Quando O não viram, reconheceram-no no gesto eucarístico.
      Este é um verdadeiro conto exemplar. Jesus Cristo é o clandestino da vida humana. Não damos por Ele, mas Ele anda sempre connosco. A celebração da Eucaristia implica uma ponte entre o quotidiano e a celebração. Mas sem o acolhimento do desconhecido não acontece nada. Certamente que Jesus não tinha uma forma especial de partir pão. Mas é Ele que é o pão da vida. A celebração semanal da Eucaristia serve para não perder a memória de Jesus, a transformação do presente e a abertura à esperança.
       Frei Bento Domingues, O.P.
       in Público,15. 04. 2018


[1] José Mattoso, Poderes Invisíveis. O Imaginário Medieval, Círculo de Leitores, 2013
[2] Cf. Padre Anselmo Borges, O que é ressuscitar?, DN 06.04.2018
[3] Klaus Schwab, A Quarta Revolução Industrial, Lenoir/Público, 2017
[4] Lc 24, 13-35 

08 abril 2018

EVANGELHO SEGUNDO O PAPA FRANCISCO

       1. Um dos fenómenos mais característicos do catolicismo do século XX foram os movimentos da Acção Católica. Paulo Fontes estudou o seu papel na criação de verdadeiras elites, em Portugal[1]. Para a hierarquia eram o seu braço estendido. Chegavam onde ela não conseguia entrar. Os jovens eram desejados, encorajados, mas a sua criatividade estava limitada pelo mandato que os dirigentes recebiam dos bispos. Eram um laicado super controlado. Daí, os mil conflitos que os assistentes eclesiásticos, correias de transmissão, tinham de saber gerir até onde fosse possível. Que Deus sabe escrever direito por linhas tortas é um aforismo português. Teve muito que fazer. Se a hierarquia perdeu os jovens, e muitos se afastaram da prática religiosa oficial, o Papa Francisco não se resignou a essa debandada, aos vencidos do catolicismo.
        Na abertura da reunião pré-sinodal dos jovens[2] (19.03.18), o Papa não repetiu as asneiras controladoras do passado. Nem cedeu à ideologia aduladora da juventude, de palmadinhas nas costas. Para ele, a juventude não existe. É uma abstracção. Existem os jovens, histórias, rostos, olhares, ilusões. Dizer que importa escutá-los e dialogar, já se sabe. O Papa não tem jeito para conversa fiada. Resolveu, com o seu comportamento e o seu discurso alterar, radicalmente, o relacionamento da Igreja com os jovens. Dados os limites desta crónica, terei de me contentar com algumas passagens e um convite à leitura integral do seu atrevimento.
        2. Bergoglio conhece o terreno que pisa: «Há quem pense que seria mais fácil manter-vos à distância para não se sentirem provocados por vocês. (…)
Os jovens devem ser levados a sério! Parece-me que estamos rodeados por uma cultura que, se por um lado, idolatra a juventude, por outro, impede que os jovens sejam protagonistas. É a filosofia da maquilhagem. As pessoas procuram pintar-se para parecerem mais jovens, mas não deixam crescer os jovens. Isto é muito comum. Porquê? Porque não querem ser interpelados.
Vocês são marginalizados da vida pública normal e obrigados a mendigar ocupações que não lhes garantem um futuro. Não sei se isto acontece em todos os vossos países, mas em muitos... Se não erro, a taxa de desemprego juvenil aqui na Itália, dos 25 anos para cima, é de cerca de 35%. Noutro país próximo da Itália, é de 47% e noutro ainda, mais de 50%.
O que faz um jovem que não encontra trabalho? Adoece. É a depressão. Cai no desespero, nas dependências, suicida-se. Devemos reflectir: as estatísticas do suicídio juvenil estão todas alteradas. Ou se torna rebelde, mas é uma forma de se suicidar. Ou apanha um avião e vai para outra cidade que não quero mencionar e alista-se no EI[3] ou num desses movimentos guerreiros. Pelo menos a vida tem sentido e terá um ordenado mensal. Isto é um pecado social! A sociedade é responsável por isto. Mas eu gostaria que fossem vocês a dizer as causas, os porquês e não digam: “mas se eu nem sequer sei porquê”. Como vivem este drama? Saber o que pensam ajudar-nos-ia muito. É verdade que são construtores de uma cultura, com o vosso estilo e com a vossa originalidade. (…)  Queremos este espaço do Sínodo para conhecer e participar nessa vossa cultura».
    3. O Papa Francisco lança um desafio: « Precisamos de ousar novos caminhos. Não se assustem: ousar novos caminhos, mesmo correndo riscos. Um homem, uma mulher que não arrisca, não amadurece. Uma instituição que faz escolhas, sem arriscar, permanece criança, não cresce. Arrisquem, acompanhados pela prudência, pelo conselho, mas vão em frente. Sem arriscar, sabem o que acontece a um jovem? Envelhece! Vai para a reforma aos 20 anos! Um jovem envelhece e também a Igreja envelhece. Digo isto com sofrimento. Quantas vezes eu encontro comunidades cristãs, até de jovens, mas velhas. Envelheceram porque tiveram medo. Medo de quê? De sair, de ir rumo às periferias existenciais da vida, de ir onde se joga o futuro. Uma coisa é a prudência, que é uma virtude, mas outra é o medo. Precisamos de jovens, pedras vivas de uma Igreja com o rosto jovem, mas não maquilhado, como disse: não rejuvenescido artificialmente, mas reavivado a partir de dentro. Vocês provocam-nos a sair da lógica do: sempre foi assim. Essa lógica é um veneno. É um veneno doce, porque te tranquiliza a alma e te deixa como que anestesiado e te impede de caminhar.
     Sair da lógica do sempre se fez assim, para viver de maneira criativa no sulco da autêntica tradição cristã. De modo criativo. Eu, aos cristãos, recomendo que leiam o Livro dos Actos dos Apóstolos: a criatividade daqueles homens. Aqueles homens sabiam ir em frente com uma criatividade que se nós fizermos a tradução para o que significa hoje, ficávamos assustados! Vocês criam uma cultura nova, mas estejam atentos: esta cultura não pode ser “desenraizada”. Um passo em frente, mas preservar as raízes! Não voltar às raízes, porque se acaba por ficar enterrado: dá um passo em frente, mas sempre com as raízes. As raízes — isto, desculpem, é do coração — são os velhos, são os idosos bons. As raízes são os avós. As raízes são aqueles que viveram a vida e que são afastados por esta cultura do descartar, já não servem, rua! Os idosos têm este carisma de conservar as raízes. Falem com eles. Mas o que hei-de dizer? Tenta!
     Recordo-me de uma vez, em Buenos Aires, a falar com os jovens, disse: “Porque não vão a uma casa de repouso tocar viola para os velhinhos que lá estão?” Mas, padre... Vão só uma hora. Ficaram mais de duas! Não queriam sair, porque os velhinhos estavam assim, um pouco adormecidos, ouviram tocar viola, acordaram todos e começaram a falar. Os jovens ouviram coisas que os comoveram.
     O profeta Joel diz isto muito bem. Para mim esta é uma profecia de hoje: «Os idosos vão sonhar e os jovens profetizar». Nós precisamos de jovens profetas, mas estejam atentos: nunca serão profetas se não tiverem em conta os sonhos dos mais velhos e se não forem fazer sonhar um velhinho que está ali triste, porque ninguém o ouve. Fazei sonhar os mais velhos e estes sonhos vão-vos ajudar a ir sempre mais longe[4]. Lê isto, far-te-á bem. Deixai-vos interpelar por eles.
      A Páscoa ainda não acabou e os sonhos também não.
      Frei Bento Domingues, O.P.
      in Público 08.04.2018


[1] Cf. Paulo Fernando de Oliveira Fontes, Elites católicas em Portugal: O papel da Acção católica (1940-1941),Fundação Calouste Gulbenkian, 2011
[2]  Uma Igreja que não arrisca envilhece,L’ Osservatore Romano, 22.03.2018
[3] “Estado Islâmico”
[4] Joel 3, 1. 

01 abril 2018

FOI MORTO, MAS ESTÁ CADA VEZ MAIS VIVO!

       1. Quando alguém diz «aquele não é bem acabado», está a falar de si próprio e dos outros, porque o ser humano nunca está bem acabado. Não sabemos quem somos, pois, o que seremos é-nos desconhecido. Não somos só o passado nem só o presente, mas o futuro e esse é filho da esperança. A esperança tem muitos nomes. São frequentes as sondagens de opinião que tentam conhecer os desejos, as espectativas e as esperanças de cada um. Não é novidade nenhuma saber que todos desejam ser felizes. Varia muito, no entanto, o que cada pessoa entende por felicidade. A expressão antiga diz bem a nossa condição animal: «haja saúde e coza o forno». É saudável que todos desejem melhorar as suas condições de vida, avançar na carreira como forma de auto-estima, para além do interesse monetário. Mesmo se o dinheiro não der felicidade, dá muito jeito. Muita gente espera a vida inteira o euro-milhões. O Papa Francisco contenta-se com pouco, mas deseja para todos os três Ts, como forma mínima de dignidade: tecto, trabalho e terra. As pessoas gananciosas, para satisfazer os sonhos de riqueza, saltam por cima de tudo e de todos. A lista dos mais ricos de um país ou do mundo não é muito grande. Grande é a distância entre os poucos loucamente ricos e os muitos loucamente pobres e miseráveis. Mas não tem de ser assim.
Conta-se que, quando João XXIII chegou ao Vaticano, perguntaram-lhe: «quantas pessoas trabalham aqui?» «Mais ou menos metade»! A sua primeira medida foi a de aumentar os salários mais baixos, tendo em conta a situação familiar de cada um. Quando expôs esta medida ao gestor financeiro do Vaticano, este disse que era o caminho para a bancarrota. «Não me parece nada, porque desci todos os salários altos. As despesas são as mesmas»[1]. Tinha sido, aliás, a recomendação de S. Paulo. É tudo gente, como Jesus Cristo, que nada sabem de finanças, no dizer do nosso Fernando Pessoa.
As capacidades científicas e técnicas estão sempre a aumentar, mas raramente servem o desenvolvimento equilibrado dos povos. A ciência e a técnica andam mais depressa do que a ética e a sabedoria. A tendência é a concentração de poderes globais de dominação económica, política e bélica.
A minha ignorância, acerca dos efeitos bons e menos interessantes das realidades e das promessas da inteligência artificial, do mundo da robótica, volta a recomendar a leitura de A Quarta Revolução Industrial[2]. Se os seres humanos puderem ser libertados do mundo aborrecido de tarefas aborrecidas por essas novas criaturas, bem-vindas sejam. Se vierem para mandar em nós, agradeço que os seus inventores se reformem quanto antes.
2. Aos mais velhos foi-nos dado viver um tempo em que se disputavam desejos de um mundo novo. Se Teilhard de Chardin pensava que o mundo pertenceria a quem lhe desse a maior esperança, a Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, gostou da ideia: «podemos legitimamente pensar que o futuro da humanidade está nas mãos daqueles que souberem dar às gerações vindouras razões de viver e de esperar»[3].
Muitas pessoas deliciavam-se com o belo e terno poema de Péguy, no qual, Deus não se espanta nem com a fé nem com a caridade. Só a esperança o comove, essa que todas as manhãs nos diz: bom dia![4].
O filósofo marxista, Ernest Bloch (1885-1977), elaborou a célebre obra O princípio esperança, uma autêntica enciclopédia sobre os sonhos de uma vida melhor. Influenciou a teologia protestante e católica, a partir dos anos 60 do século passado. As perguntas do filósofo são as de sempre: Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Que esperamos? O que nos espera?
Não admira que tenham sido as utopias sociais, económicas, políticas e culturais que marcaram o Concílio Vaticano II e animaram, sobretudo, os grandes debates das teologias do Terceiro Mundo.
3. Georges Bernanos, um grande romancista católico (1888-1948), que nos deixou obras extraordinárias, não era ingénuo: «para reencontrar a esperança é preciso ter ido além do desespero. Quando se vai até ao fim da noite, reencontra-se uma outra aurora»[5]. Estava, nitidamente, marcado pelo percurso do próprio Jesus de Nazaré. Este não anunciou, apenas, a alegria de que, finalmente, o Reino de Deus estava próximo. Tudo o que dizia e fazia era já a pura gratuidade do Amor em acção. Os fiéis ao mundo velho condenaram-no. Acabou na cruz gritando: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste? Parecia o fim, mas não era.
O estilo do Apocalipse, o último livro da Bíblia, é suficientemente surrealista para alertar e consolar as Igrejas cristãs perseguidas, umas muito mais fervorosas do que outras.
Nas cartas às Igrejas da Ásia, o autor do Apocalipse apresenta Jesus Cristo como a Testemunha fiel (o mártir), o Primogénito dos mortos (o ressuscitado). Conta que João, «vosso irmão», encontrando-se na ilha de Patmos, movido pelo Espírito, ouviu uma voz forte que lhe disse: escreve o que vês num livro e envia-o às sete Igrejas: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia. Ao voltar-se para ver a voz que falava, a face dessa figura era como o sol quando brilha em todo o seu esplendor. «Ao vê-lo, caí como morto a seus pés. Ele, porém, colocou a mão direita sobre mim, assegurando: Não temas! Eu sou o Primeiro e o Último, o Vivente; estava morto, mas eis que estou vivo para sempre»[6].
S. Paulo atreve-se a dizer que, se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, anda a pregar em vão e vazia é também a fé dos seguidores de Cristo[7].
Na Carta aos Romanos, a ressurreição é postulado cósmico e existencial: «Estou convencido de que os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória que há-de revelar-se em nós. Pois até a criação se encontra em expectativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus»[8].
Quem nunca leu este capítulo, até ao fim, faça-o agora. Garanto que não ficará decepcionado. É evidente que Paulo escreveu há mais de 2000 anos. A escravidão e a corrupção do mundo em que vivia, hoje, têm novos rostos e novas vítimas. Repetem-se as denúncias de que estamos a globalizar a destruição do nosso planeta, quando temos todos os meios para fazer dele um paraíso, novos céus e nova terra[9].
Se estamos mortos, ressuscitemos!
Boa Páscoa.
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público 01. 04. 2018


[1] Cf. Henri Fesquet, Fioretti do Bom Papa João, Morais Editora, Lisboa 1964.
[2] Klaus Schwab, A Quarta Revolução Industrial, Público/Levoir, 2017
[3] Gaudium et Spes, nº 31
[4] Le porche du mystère de la deuxième vertu, in Oeuvres poétiques complètes, Gallimard, 1948, pp.169-175
[5] La liberté, pour quoi faire?, Gallimard, 1953, p. 14
[6] Ap 1
[7] 1 Cor 15
[8] Rm 8 
[9] Ap 21