21 junho 2020

Crónicas, Bispo Ornelas na CEP & Capela do Rato


P / INFO: Crónicas, Tornar o catolicismo português mais franciscano, a tarefa do bispo Ornelas na CEP & Em memória dos defuntos falecidos em tempo de pandemia, na Capela do Rato
Frei Bento: Continuidade e ruptura
Pe. Anselmo: A pandemia. Onde está Deus?
Cardeal Tolentino: O santo António de Augustina
Pe. Vítor: Ultrapassar o medo

CONTINUIDADE E RUPTURA
Frei Bento Domingues, O.P.
O recurso à diferença histórica não pode significar o culto da indiferença perante a violência, seja de que época for.
1. Os incitamentos à violência em nome de Deus, no chamado Antigo Testamento (AT), espantam-nos por boas e ambíguas razões. Por boas razões, porque a voz que pode ser escutada, em todos os tempos e lugares, no íntimo da consciência humana, consciência ética, não desresponsabiliza ninguém. O bem é para fazer e o mal para evitar, como o próprio S. Paulo lembrou[1]. Por outro lado, o poema que abre a actual organização da biblioteca do povo de Israel é um hino à bondade e à beleza do universo coroado pela harmonia do ser humano, masculino e feminino. É o fruto da bênção criadora de Deus extasiado com o seu próprio poema cósmico[2].
 Nesta perspectiva, dizer Deus é evocar a infinita generosidade de fazer ser e de nos fazer uns para os outros, segundo o carisma de cada um, incompatível com a força demoníaca da destruição. O recurso à diferença histórica não pode significar o culto da indiferença perante a violência seja de que época for.
Mas a violência actuante no AT pode espantar-nos por ambíguas razões. A mais ambígua de todas é a proclamação comunitária de salmos que invocam Deus para massacres diabólicos. É também ambígua, porque uma desejável selecção dos salmos ou de parte de alguns salmos, para a oração comunitária – o que me parece desejável –, poderia sugerir o projecto de uma Bíblia expurgada, mutilada. Seria uma violência contra a história e um atentado contra a biblioteca de um povo.
Por outro, a presença da violência no AT é inquietante porque não gostamos de nos ver ao espelho: a violência percorre a história dos povos. As matanças e as escravaturas, devido à vontade de dominação económica e política, podem fazer-se em nome de Deus, da negação de Deus, do ateísmo ou da indiferença em relação ao valor da vida humana que não tem preço. A tentação da inveja, do desprezo e do ódio à diferença do outro toma facilmente conta dos nossos desejos distorcidos.
2. Foi por isso que, para enquadrar a crónica do passado Domingo[3], fiz uma alusão rápida a um longo estudo de Frei Francolino Gonçalves, O.P., que distingue dois iaveísmos no AT, o cósmico e o histórico baseado numa exacerbada política nacionalista que mata e manta matar.
Esse estudo exige outros textos fundamentais do mesmo autor acerca da importância que o método histórico-crítico introduziu nos estudos bíblicos que exige, por sua vez, outras abordagens ao serviço de uma interpretação que não seja nem míope, nem onde vale tudo[4]. 
Durante muitos séculos, a leitura teológica da Bíblia foi, praticamente, a única. Até meados do século XIII, não se distinguia exegese e teologia. Formavam uma só disciplina. Na segunda metade do século XVII, assiste-se ao aparecimento de uma nova leitura que começou por centrar-se no AT. Entre os seus pioneiros, devem mencionar-se o judeu de Amesterdão, de origem portuguesa, Bento Spinoza (1632-1677) e o católico francês Richard Simon (1638-1712). Sem duvidar de que a Bíblia fosse a expressão da palavra de Deus em linguagem humana, a nova abordagem não se confundia com a utilização que dela se fazia na elaboração da teologia sistemática.
Entretanto, muita água correu, debaixo e por cima das pontes, até ao dia de hoje. Francolino Gonçalves exerceu a abordagem histórico-crítica, condição para não se fazer do texto um pretexto para arbitrariedade das interpretações. Em que consiste essa abordagem?
«O único objectivo da exegese histórico-critica é a inteligência do sentido originário dos textos. Não pretende mais nada nem se arroga qualquer outra competência. Estuda os textos bíblicos como estudaria qualquer outro texto antigo, sem ter em conta o estatuto religioso que os cristãos, os judeus e até os muçulmanos lhes reconhecem»[5].
Para o cristão, resta a tarefa indispensável da hermenêutica desses textos.
«O hermeneuta cristão aferirá o sentido dos textos pela bitola da coerência do conjunto das suas Escrituras e da sua Tradição. Por exemplo, não poderá aceitar, sem mais, a ordem divina de exterminar os habitantes do país de Canaã (Dt 7, 1-6) nem a misoginia do que algumas exegetas chamam a “pornografia profética” (cf. Ez 16 e 23) para dar só dois exemplos»[6].
A Comissão Pontifícia Bíblica, à qual Frei Francolino também pertenceu, publicou um documento notável sobre A interpretação da Bíblia na Igreja (15/04/1993). Esse documento, além do método histórico-crítico, que depois de vencer muitos obstáculos conseguiu direito de cidadania na exegese, abre-se a outros métodos e abordagens que foram e vão surgindo na análise dos textos literários. Recusa as leituras fundamentalistas porque, em nome de uma fidelidade total à palavra de Deus, esquecem que esta se encarnou numa época precisa da história, num ambiente social e cultural bem determinado. Quem desejar entendê-la deve aceitar a ajuda das ciências humanas disponíveis.
3. Terminei a referida crónica com um correctivo: Jesus repudiou a violência do AT: Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem[7]. Preferiu ser morto a matar.
A Carta aos Efésios, atribuída a S. Paulo, mas de estilo muito diferente, afirma que somos poema de Deus em Cristo Jesus. Ele é a nossa paz. Destruiu o muro de separação, o muro da inimizade. Anulou, na sua carne, a Lei que contém os mandamentos em forma de prescrições. A partir do judeu e do gentio, criou em si próprio um só homem novo, fazendo a paz. Reconciliou-os com Deus, num só Corpo, por meio da cruz. (…) Os gentios são admitidos à mesma herança, membros do mesmo Corpo e participantes da mesma promessa, em Cristo Jesus, por meio do Evangelho[8].
Estas referências, a que se podiam juntar muitas outras, apresentam o cristianismo em continuidade e em ruptura com o AT.
O interessante é que se tenha atribuído a Jesus de Nazaré, um judeu, a continuidade e a ruptura. A investigação de Frei Francolino sobre os dois iaveísmos, no AT, a que já me referi, permite perceber a razão que levou Jesus a não aceitar nem rejeitar tudo em bloco.
Tagore «tal como o seu amigo Gandhi, que sabia de cor e recitava todos os dias as Bem-aventuranças, foi atraído pelo cristianismo e ambos consideravam que os Evangelhos deveriam ser considerados património universal da Humanidade»[9].
Não posso estar mais de acordo. Outra coisa foram os usos santos e perversos que os Evangelhos tiveram na história das Igrejas.
in Público, 21.06.2020





[1] Rm 2, 12-16
[2] Gn 1 – 2
[3] A Bíblia, Trump e a violência (14/06/2020)
[4] Cadernos ISTA: Estudos bíblicos hoje, nº 17, ano IX (2004), pp. 5-45; Mundos Bíblicos, nº 18, ano X (2005), pp. 7-34; A Dei Verbum, nº 24, ano XVI (2011), pp. 61-88.
[5] Cadernos ISTA, Nº 24, p. 78
[6] Ib., p. 79
[7] Mt 5, 43-44
[8] Cf. Ef 2, 8-16; 3, 3-8. É importante ler estes textos na íntegra.
[9] Cf. Maria Eugénia Abrunhosa, 7Margens, 6 Abril 2020


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A pandemia. Onde está Deus?
Anselmo Borges
A Universidade de Viena investigou a relação da religiosidade com a pandemia. Os resultados mostraram que as pessoas mais religiosas utilizam estratégias mais activas para dominar a crise. Enquanto as pessoas menos religiosas tendem a reprimi-la ou a negá-la, as mais religiosas procuram apoio social e lidam com ela de modo mais forte, mais optimista e com mais serenidade.
São dados significativos. Não houve, creio, nenhum estudo sobre o outro lado, mas estou convencido de que dele resultaria que muitos, esmagados pela pandemia, pelo sofrimento, se perguntaram: onde está Deus?
A história é um autêntico calvário. Hegel referiu-se-lhe como um Schlachtbank: um açougue, um matadouro. E lá está o famoso dilema de Epicuro: Deus tem de ser todo-poderoso e infinitamente bom. Ou Deus pôde evitar o mal e não quis, e não é bom; ou quis e não pôde, e não é omnipotente. Ou quis e pôde; então, donde vem o mal?
Mesmo teólogos de renome sentiram-se atenazados pelo dilema, de tal modo que alguns, como Jürgen Moltmann, falaram de um Deus impotente, que sofre connosco; outros, como Romano Guardini, chegaram a exclamar que "pediriam contas" a Deus pelo sofrimento dos inocentes; Karl Rahner disse que, "num tribunal humano, não sairia absolvido"; Karl Barth afirmou que, no Jardim das Oliveiras, quando Jesus rezava, suando sangue, Deus "se portou como Judas"; e Hans Urs von Balthasar disse que "se deve falar de uma descarga de ira de Deus sobre aquele que lutava no Jardim das Oliveiras." Nestas posições, a pergunta ergue-se talvez ainda mais veemente: acreditar como e para quê num Deus irado ou impotente?
A filosofia e a teologia ficarão historicamente devedoras ao filósofo-teólogo Andrés Torres Queiruga por ter desfeito o preconceito em que assenta o dilema (ver a sua obra marcante, Repensar o Mal). De facto, como escreveu, "enquanto permanecer o preconceito de que Deus poderia acabar com todo o mal do mundo, se quisesse, ninguém pode crer na bondade de Deus, sem se ver obrigado a negar o seu poder; ninguém acreditaria na bondade de um cientista insigne que, podendo acabar hoje com os estragos do coronavírus, não quisesse fazê-lo, por altos e ocultos que fossem os seus motivos".
O crente, nomeadamente o crente cristão, acredita no Deus Pai-Mãe, infinitamente poderoso e bondade infinita, que ama os seus filhos e filhas e só quer o seu maior bem. Donde vem o mal? Do mundo, que é finito e no qual há inevitavelmente mal. Não é possível um mundo finito, em evolução, perfeito e sem mal, porque isso é uma contradição; como se não pode reivindicar a autonomia criatural da liberdade humana finita e a perfeição. "Afirmar hoje que Deus não é bom ou omnipotente, porque não cria um mundo perfeito, é o mesmo que argumentar que não o é, porque não quer criar círculos-quadrados ou não pode fazer ferros-de-madeira." A primeira coisa que é, portanto, preciso clarificar é que o mundo produz mal, o finito não pode ser perfeito, tem falhas, carências, nele haverá choques, becos sem saída...
Desfeito o equívoco de um mundo finito perfeito e sem mal, avança-se para uma ponerologia (do grego, ponerós, mau): tratar do mal, antes de qualquer referência a Deus. De facto, o mal atinge a todos, crentes e não crentes, todos sofrem ao nascer, todos passam pela dor, todos morrem. E devemos todos estar unidos solidariamente na defesa da vida e na procura do real alívio do sofrimento de todos. A pergunta, agora, é outra: se o mal é inevitável, porque é que Deus criou o mundo? "Não posso responder ao ateu que diz que o mundo é absurdo, que não vale a pena. Eu não sou pessimista: creio que vale a pena e que há um referendo na humanidade: todos, no fundo, sabemos que vale a pena. Por isso, continuamos a trazer filhos ao mundo."
Aqui, começa a pisteodiceia (de pistis e dikê, justificação da fé). Há diferentes pisteodiceias, pois todos, ateus, agnósticos, crentes, têm de enfrentar-se com o mal e cada um tem, dentro de uma cosmovisão, a sua resposta para o problema, a sua fé. O crente religioso crê e pensa que é razoável crer em Deus e até pode perguntar, com o famoso teólogo Hans Küng: "O ateísmo explica melhor o mundo? A sua grandeza e a sua miséria? Como se também a razão descrente não encontrasse o seu limite no sofrimento inocente, incompreensível, sem sentido!" E crê que Deus não teria criado o mundo, se não fosse possível libertar-nos do mal. O que se passa é que o que não é possível num dado momento pode sê-lo mais tarde. A mãe sabe matemática, mas não pode ensinar matemática ao seu bebé enquanto bebé; fá-lo-á mais tarde. Alguém pode conceber-se a aparecer já adulto no mundo? A realidade é processual, e o crente em Deus como amor e anti-mal espera a salvação definitiva e plena para lá da morte.
Aqui, ergue-se outra objecção: depois da morte, não continuamos finitos? Os crentes confiam em Deus e podem mostrar, com razões, que a salvação eterna não é contraditória, pelo contrário. Sim, a pessoa é finita, mas com uma abertura infinita. Este é o mistério do homem. Nunca estamos acabados, nenhum ser humano morre definitivamente feito. Não há nada finito que possa preencher a abertura humana, não há nada finito que possa realizar a nossa capacidade de conhecer e amar. Esta é a possibilidade que se abre ao crente a partir da fé: já para lá dos limites do espaço e do tempo, Deus mesmo entrega-se-nos nesta abertura infinita e finalmente seremos nós com Ele e nEle.
Padre e professor de Filosofia. Escreve de acordo com a antiga ortografia
in DN, 21.06.2020
www.dn.pt/edicao-do-dia/20-jun-2020/a-pandemia-onde-esta-deus-12328663.html

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QUE COISA SÃO AS NUVENS
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

É MAIS COM PERGUNTAS DO QUE COM RESPOSTAS — E ESSA É TAMBÉM A RADICAL EXPRESSÃO DO PODER DA LITERATURA — QUE NASCE UMA DAS NARRATIVAS MAIS ORIGINAIS E INCLASSIFICÁVEIS

Portugal tem destas excentricidades: que um espírito crítico, torrencial e iluminador como o de Agustina Bessa-Luís se confronte com a nossa mais extraordinária figura de fronteira que é Santo António de Lisboa (ao mesmo tempo medieval e moderno; popular e cultíssimo; português e a cooperar numa mudança epocal que, segundo Jacques Le Goff “vai sacudir a religião, a civilização e a sociedade”), não parece empresa suficiente para ativar paixões. De facto, o seu “Santo António” (agora reeditado pela Relógio D’Água) é, no conjunto da sua obra, um livro injustamente esquecido. O curioso é que a escritora não contorna esta perturbadora excentricidade, antes a toma como explícito ponto de partida. Ela sabe que há duas perceções afirmadas: aquela maioritária que reduz António a “santo fácil e caseiro”, mais para ser festejado do que propriamente compreendido; e aquela marginal, ligada ao estudo da espiritualidade franciscana e ao ambiente universitário, que o perscruta, sim e bem, mas sem chegar a uma síntese amplamente partilhável pelo seu tempo.
A pergunta que Agustina neste impasse se faz é sobre o poder da literatura. E poucas vezes ela o aceitou pensar, diante do leitor, com esta disponibilidade e risco. Que pode a literatura? Que recursos específicos um romancista ativa para iluminar as faces de poliedro de uma personagem que a receção tende a tornar plana? Que inteligência aplica às passagens inexplicáveis, sejam interiores ou de conjuntura histórica, e às mil modulações, desfocagens e diatribes próprias dos processos de transmissão? No fundo, será mais com perguntas do que com respostas — mas essa é também a radical expressão do poder da literatura — que Agustina constrói uma das suas narrativas mais originais e inclassificáveis, que é uma mistura de ensaio e romance, de texto documental e relato de viagem, de filme metafísico e de making-of sobre as condições de produção, de minucioso comentário filológico do passado e de exercício fulgurante e amplo de pensamento sobre a vida.
Quem era Santo António? Um pregador inflamado e discutido, apostado num “processo moralizador” que não poucos teriam recebido como agressivo ou era o difusor entusiasta do ‘sermo humilis’, que procurava alcançar a inteligência de todos?
No Livro XI das “Confissões”, Santo Agostinho argumenta que os tempos são três: “O presente das coisas passadas, o presente das coisas presentes, o presente das coisas futuras.” Não admira que a escritora apresente o seu projeto como uma “biografia conduzida pela meditação”. Recorde-se que a mesma etimologia latina acomuna a palavra meditação e termos como medicina ou medicamento. Meditar é, por isso, curar o presente.
Quem era efetivamente Santo António? Era um pregador inflamado e discutido, apostado num “processo moralizador” que não poucos teriam recebido como agressivo ou era, ao contrário, o difusor entusiasta do sermo humilis, que procurava alcançar a inteligência de todos, doutos e não doutos? Que transformação aconteceu para que Santo António tenha chegado até nós, sobretudo sob a forma do afeto ao nível do rito quotidiano e das suas mediações, como “piedoso confidente de razões práticas”? E essa transformação foi o fruto de uma crescente maturação psicológica que se explica ou uma experiência mística que é da ordem do indizível? Mesmo defendendo que “António é um afetivo e não um místico”, consumando-se mais na compaixão do que no puro abandono do arrebatamento, Agustina ajuda-nos a mergulhar na fascinante complexidade do santo que, segundo ela, vivia “a condição metafísica dessa treva em que o conhecimento dos seres não é mais um pacto vital, mas um enigma que se respeita pela sua analogia, ou aptidão para receber o divino”.
in Semanário Expresso, 20.06.2020
https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2486/html/revista-e/que-coisa-sao-as-nuvens/o-santo-antonio-de-agustina
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À PROCURA DA PALAVRA
PE. VITOR GONÇALVES
DOMINGO XII COMUM
“Não temais os que matam o corpo,
mas não podem matar a alma.”
Mt 10, 28
Ultrapassar o medo
De entre as muitas imagens de celebrações em tempo de confinamento, certamente alguns vimos aquela em que o padre subiu a um terraço da igreja e, rodeado de prédios, com as pessoas em suas casas, celebrou a eucaristia, “à luz do dia e sobre os telhados”. Semelhantes iniciativas manifestaram inúmeros dotes musicais, jogos, saudações, e festas em varandas. Era preciso vencer o isolamento e não ficar reduzidos a écrans cheios de imagens.
Se o distanciamento social é uma forma de evitar o contágio deste vírus perigoso e de proteger a vida dos mais frágeis, não podemos ceder ao medo. É com prudência e responsabilidade que devemos caminhar. Com novos ritos de cuidado comuns, e redescobrindo a felicidade das pequenas coisas. Alguma insaciabilidade e uma certa soberba perante o mundo e os outros pode dar lugar à humildade e à solidariedade. Não é uma pandemia que termina com a violência nem com problemas mais fundos da sociedade, como os conflitos em torno do racismo e do julgamento da história trouxeram à tona da vida.
São frequentes os apelos de Jesus a não termos medo. Afinal, ele é o maior obstáculo ao amor, que supõe confiança, e incita à entrega e à coragem. O medo fecha, o amor abre; o medo isola, o amor faz encontro; o medo antecipa o pior, o amor tem esperança; o medo é egoísta, o amor é confiante; o medo prende, o amor liberta; o medo mata, o amor dá vida. Dizia Clarice Lispector: “Agora preciso de tua mão, não para que eu não tenha medo, mas para que tu não tenhas medo. Sei que acreditar em tudo isso será, no começo, a tua grande solidão. Mas chegará o instante em que me darás a mão, não mais por solidão, mas como eu agora: por amor.”
De três medos previne Jesus os discípulos ao enviá-los em missão. O medo do fracasso, e que a violência dos homens reduza a nada o esforço em levar a boa notícia do amor de Deus. Jesus pede-lhes a coragem de O anunciar em todas as circunstâncias; afinal, o Reino germina a partir do que é frágil e cresce onde menos se espera. Só fracassa quem não tenta, e o cristão tem sempre diante si o risco de não ver germinar as sementes que lançou. Adverte-os para o medo dos maus tratos e da morte. Só a confiança na vida maior que Deus dá aos seus filhos é mais forte. E se o medo do sofrimento que pode atingir os que mais queremos também é real, Jesus lembra a fragilidade dos passarinhos e a caducidade dos cabelos para falar do cuidado e do carinho de Deus. Não promete que não irá acontecer nada, ou que fará milagres para evitar o que é difícil. Simplesmente diz que valemos mais do que muitos passarinhos. E com a nossa entrega e confiança, Ele fará o que for necessário. A última palavra é sempre de Deus e é uma palavra de vitória e vida plena.
in Voz da Verdade, 21.06.2020
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Tornar o catolicismo português mais franciscano, a tarefa do bispo Ornelas na CEP (análise)
António Marujo
No dia 16 de Junho, 28 bispos elegeram os novos titulares dos órgãos da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), escolhendo o bispo de Setúbal, José Ornelas, como presidente. Até hoje, a CEP não foi muito capaz liderar dinamismos significativos de renovação da Igreja Católica em Portugal. Podem eleições como estas mudar alguma coisa? Podem, mas para tal é preciso reunir a vontade colectiva dos bispos.
A escolha da CEP foi feliz: o bispo de Setúbal é, no actual quadro, um dos poucos com capacidade de imprimir um ritmo diferente à Conferência, libertando-a de vários espartilhos históricos. Para isso, terá de conseguir que o organismo seja mais do que uma mera assembleia de partilha de reflexão e produção de documentos – apesar de ela integrar bispos empenhados em dar o seu melhor, sinceramente interessados na renovação.
Há um pecado original na criação da CEP: nascida na década de 1960, a conferência era nesse tempo liderada pelo cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, patriarca de Lisboa e personalidade forte e carismática. Mas, formado 50 anos antes, já não conseguiu, ou não quis, adaptar-se às mudanças que o II Concílio do Vaticano traçou. O que ficou, numa Igreja também sujeita à ditadura, à censura e à perseguição da discordância, foi a imagem de uma hierarquia cinzenta, com tiques de autoritarismo e monolitismo, muito próxima do ditador e do salazarismo – mesmo se este é um retrato incompleto, pois sempre houve quem quisesse um outro catolicismo para Portugal.
Desde aí, a CEP viveu quase sempre na sombra dos bispos da capital (no senso comum, quem “manda” na Igreja é o patriarca de Lisboa, ao contrário do que acontece noutros países, em que vários outros bispos se destacam). Mais grave ainda, a Conferência continuou enferma de falta de ousadia, criatividade e espírito colectivo, factores agravados pelo monolitismo vivido em Portugal durante décadas.
Timidez
Excepções? Alguns rostos dos últimos 40 anos e, sobretudo, alguns momentos: a plena adesão, liderada pelo cardeal Ribeiro e pelo então bispo do Porto, António Ferreira Gomes, à democracia implantada em 1974; a dinâmica da pastoral do domingo (finais de 1970-início de 1980), os congressos nacional e diocesanos dos leigos; o relançamento das semanas sociais; o congresso da família… Mas, se revisitarmos as conclusões dessas iniciativas, percebemos que a esmagadora maioria delas ficou no papel. O catolicismo português, preso à falta de debate interno, tem a mesma incapacidade do país de ficar muitas vezes por bons diagnósticos, sem consequências.
De fora, houve ainda um sopro de frescura em 2004, com o encontro de jovens promovido pela comunidade ecuménica de Taizé, pouco aproveitado na atenção aos jovens, espiritualidade, diálogo ecuménico e compromisso social que poderia ter provocado. E, na quarentena de que saímos, o bispo de Leiria e o patriarca de Lisboa foram assertivos na decisão de suspender celebrações comunitárias (incluindo o risco absurdo que seria o 13 de Maio, em Fátima) e de afirmar o essencial da fé.
A renovação sugerida pelo Concílio (1962-65) deu passos tímidos depois do 25 de Abril, até à mudança de século. Os bispos de então não eram muito arrojados, mas estavam alinhados com o Vaticano II e davam espaço à iniciativa de pessoas e grupos. Esses tempos esfumaram-se e os passos no sentido da renovação não foram muito longe.
Há 55 anos, a 6 de Agosto de 1965 (a poucos meses do encerramento, em Dezembro, do Vaticano II), o episcopado português publicava uma nota pastoral sobre o Concílio, onde escrevia que “reforma sem disciplina e actualização sem ordem resultariam em anarquia destruidora.” Essa tem sido, grosso modo, a atitude do episcopado em Portugal: nada de sujar as mãos e arriscar, como tem pedido o Papa Francisco, mesmo que isso implique depois repensar e corrigir. Antes manter a disciplina e a ordem – ou seja, “prudência” e “receio”, manter o que está, não dar espaço à criatividade, não enfrentar problemas sociais graves. Como diz a expressão usada em âmbitos católicos quando se quer dizer delicadamente que algo/alguém não existe, a CEP tem sido demasiado “apagada”…
Ausências
Alguns exemplos: nenhum inquérito sociológico ou da prática dominical originou dinâmicas pastorais diferentes ou opções por prioridades; não há perspectivas de uma pastoral de conjunto nas cidades; a participação dos leigos, mulheres e jovens nos processos de decisão é, muitas vezes, apenas retórica, sujeita ao poder frequentemente autoritário do bispo ou do padre; ignoram-se problemas como a solidão do clero, da profunda crise de identidade da vida religiosa ou da regressão na formação dos seminários para um modelo clerical e de “casta”, no qual a formação humana, cultural e espiritual é deficiente, e nem sequer entusiasma os seminaristas por conhecer o pensamento de teólogos ou investigadores fora dos manuais.
Olhando para o que se passa na sociedade, a voz da hierarquia quase só se faz ouvir para falar de temas como o aborto e eutanásia. E peca pelo silêncio em realidades como a violência doméstica, o desemprego, o racismo e populismo crescentes (por vezes protagonizado por quem se faz fotografar em igrejas ou faz profissões genéricas de fé)? Falta diálogo cultural (com excepção de iniciativas pontuais, como a página da Pastoral da Cultura), falta presença na questão da emergência ambiental, ainda mais tendo um “manual de instruções” espantoso como é a encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, falta formação católica de lideranças económicas, políticas e financeiras para uma economia que não mate…
Se este diagnóstico fosse exagerado, possivelmente alguns dos indicadores católicos estariam hoje melhor do que há 20 ou 40 anos e haveria mais pessoas nas missas, mais baptizados e matrimónios, universos intelectuais, políticos e sociais mais próximos e interessados no diálogo com os católicos… O catolicismo sofre uma erosão a vários níveis e não só porque o mundo mudou. Também (sobretudo?) porque a Igreja Católica não tem tido arrojo, criatividade, ousadia, nas propostas que faz, limitando-se quase só a repetir o que já se sabe, o que já se faz, o que já se pensa. Escasseiam as vozes que reflectem, debatem e propõem caminhos alternativos. E as poucas que há são olhadas de lado. Há muito.
Urgência
Este é um diagnóstico cáustico? Sim, porque há factores positivos que aqui não são referidos; num momento em que volta a haver uma nova liderança no episcopado, este é o momento de olhar para o muito que falta fazer. E as primeiras declarações do bispo José Ornelas indiciam essa vontade.
Na Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho), a sua exortação apostólica programática, o Papa Francisco diz que “a vida comunitária e o compromisso com os outros” são o “coração do evangelho” (nº 177). Na Laudato Si’, acrescenta que se devem considerar “inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior” – ou seja, as dimensões mística e espiritual (nº 10).
No primeiro destes textos, o Papa sugere consequências da renovação: recusa do clericalismo (e do narcisismo, acrescentou ele em diversas ocasiões, a propósito dos abusos sexuais), apelo à criatividade a ousadia (não serve o argumento de que “sempre se fez assim”), não querer ver inimigos em todo o lado, chamar pessoas que pensem diferente e não se limitem a lisonjear os bispos ou padres, não ficar pela moral; e, pelo contrário, propor a misericórdia, a atenção a todas as periferias, ter atenção às novas dinâmicas urbanas, aceitar o pluralismo e o debate, dar protagonismo aos leigos, às mulheres e aos jovens…
D. José Ornelas já referiu a necessidade de coordenar “solidariamente” actividades conjuntas, de dialogar com a sociedade de que a Igreja Católia faz parte, de dar atenção aos múltiplos problemas sociais. Mas nada disso serão tarefas fáceis, até porque já outras vezes houve intenções semelhantes, que esbarraram na inércia da CEP enquanto conjunto. As mudanças não se fazem com poucas pessoas, mas com uma vontade colectiva e o facto de a liderança da CEP (presidência e conselho permanente) estar, no fundamental, alinhada com o pensamento e modo de agir do Papa Francisco é uma ajuda importante para começar a mudar o rumo.
É necessária, no entanto, uma liderança firme, que rompa a sensação de que a adesão de uma boa parte do clero português ao Papa é apenas epidérmica, sem grandes consequências de ordem prática. Quando Francisco quis convencer José Ornelas a vir para Setúbal (o então superior geral dos padres dehonianos preparava-se para uma missão em Angola) disse-lhe que Setúbal também é terra de missão para um clérigo católico. E Portugal, poderia acrescentar-se. Com uma urgência: trazer “franciscanismo” ao catolicismo português. Essa é a missão, a tarefa que o novo presidente da CEP tem pela frente.
in 7Margens
https://setemargens.com/tornar-o-catolicismo-portugues-mais-franciscano-a-tarefa-do-bispo-ornelas-na-cep-analise/
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 Capela Do Rato
Em memória dos defuntos falecidos em tempo de pandemia

O Senhor D. Manuel Clemente presidirá no dia 28 de junho, na Capela do Rato, à eucaristia do XIII Domingo do Tempo Comum.  
Nesta celebração faremos memória dos irmãos e irmãs falecidos durante este tempo de pandemia, muitos deles numa profunda solidão.  

Confortam-nos e consolam-nos as palavras oportunas de Paulo, na segunda leitura: «Se morremos com Cristo, também com Ele viveremos».  
Convidamos as famílias enlutadas a indicar o nome do familiar que se quer lembrar durante a eucaristia, enviando essa informação previamente para capeladorato@gmail.com, até ao dia 26 de junho. Sugerimos também que se possam acrescentar alguns traços biográficos de modo a pessoalizar a celebração (ex. nome, idade, circunstância do falecimento…).  
No limite da presença das 40 pessoas, priorizamos a inscrição de pessoas e famílias enlutadas ( inscrição disponível aqui). Convidamos as pessoas e famílias que, por razões várias, não podem estar presentes, a seguir a transmissão da eucaristia on line, através do site da Capela e do facebook.  

Sugerimos que, em casa, se possa preparar um pequeno altar com a foto da pessoa falecida, uma vela acesa e uma pequena flor.
Inscrições para a eucaristia do XIII Domingo do Tempo Comum

Já está disponível o formulário para inscrição nas eucaristias que se irão realizar na Capela do Rato, nos dias 27 e 28 de junho. 
Em relação à eucaristia de domingo, dia 28 de junho, caso pertença a uma família em luto, agradecemos que nos indique o nome da pessoa falecida. Ver mais informações sobre a esta celebração de domingo aqui


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14 junho 2020


P/ INFO: Crónicas & Capela do Rato

Frei Bento: A Bíblia, Trump e a violência
Pe. Anselmo: Desconfinados e desmascarados 2
Pe. Tolentino: A amizade é uma pátria
Pe. Vítor Gonçalves: Chamados

A BÍBLIA, TRUMP E A VIOLÊNCIA
Frei Bento Domingues, O.P.

Não será o próprio Antigo Testamento que documenta as mais extremas e cruéis práticas de ódio e violência, não apenas em nome de Deus, mas até por ordem de Deus?

1. Donald Trump, não era obrigado, mas seguiu o costume de fazer o juramento de posse de Presidente dos EUA sobre a Bíblia. Agora, acossado pelas manifestações contra a morte do afro-americano, George Floyd, exibiu-a como autentificação divina da sua política.
As Sociedades Bíblicas Unidas e os diferentes movimentos bíblicos católicos não podem protestar contra o uso da obra mais traduzida e editada no mundo. A Bíblia não é sempre inocente em relação à guerra, ao terror, à violência.
É verdade que o movimento fundamentalista norte-americano confessa que a Bíblia é inspirada pelo Espírito Santo, razão da inerrância das suas escrituras. Servir-se dessa equívoca evocação, para cobertura da política nacional e internacional de Donald Trump que destila ódio e violência, obriga a questionar esse ambíguo biblismo.
É frequente a pergunta: não será o próprio Antigo Testamento (AT), acolhido nas edições cristãs da Bíblia, que documenta as mais extremas e cruéis práticas de ódio e violência, não apenas em nome de Deus, mas até por ordem de Deus?
Não é legítimo responder com o recurso ao contexto histórico para desculpar actuações que foram, são e serão sempre criminosas.
 Comecemos pelo mais elementar: de onde vem a palavra Bíblia?
Existia uma cidade fenícia, muito antiga, Biblos, cujas ruínas são visíveis, hoje, no Líbano. É sabido que os fenícios inventaram um dos primeiros alfabetos com 22 signos. Desde o Século XI a.C., Biblos era um importante lugar de produção do papiro e tinha uma reputada escola de escribas. Não admira que os seus escritos tenham usado o nome da cidade. A língua grega herdou a palavra biblion para designar um escrito, um livro. Em grego, o plural – livros – diz-se: ta biblia. Este plural usava-se, também, para designar uma biblioteca. Alguns séculos, antes da nossa era, os judeus de cultura grega usaram esta expressão, ta biblia, para designar a colecção dos seus livros sagrados.
Os cristãos adoptaram o mesmo termo para estes livros que, para eles, formam o AT. Só na Idade Média é que este plural grego foi transcrito em latim, tal e qual, biblia, mas tornou-se um feminino singular. O seu emprego designará, doravante, para os cristãos, o conjunto dos livros do Antigo e do Novo Testamentos. Este feminino singular resultou na palavra portuguesa Bíblia.
O aspecto “plural” desapareceu aparentemente na passagem do grego para o latim, mas não alterou a realidade. A Bíblia não é um livro, mas a “biblioteca” de um povo, formada por uma vasta colecção de livros de épocas muito diferentes e de diversos géneros literários.
Ao apresentar-se encadernada como um só livro, aparenta uma imaginária unidade e autonomia no seio da literatura mundial. Por isso mesmo, é importantíssimo insistir: mesmo encadernada num só volume, não é um livro, mas uma biblioteca de muitos estilos, de muitas épocas, escrita ao longo de vários séculos. Ao ser considerada, de modo incorrecto, como um ditado divino tudo se torna mais enigmático para quem não renuncia a pensar, a interrogar e a interpretar aquele vasto mundo[1].
2. Na sua Autobiografia publicada em 1887, Charles Darwin conta como nasceram as suas dúvidas sobre a religião e como chegou a perder a fé: «Dei-me conta de que no Antigo Testamento aparece um Deus terrível, com sentimentos de um tirano vingativo; vi que a Bíblia não era mais fiável do que os livros sagrados dos hindus, ou as crenças de qualquer bárbaro».
Darwin não foi o único a perder a fé com a leitura da Bíblia. Inúmeros cientistas, filósofos, pensadores, catequistas e até simples cristãos sentiram-se escandalizados perante este livro, onde se vê Deus a vingar-se, destruindo e assassinando quem Lhe desobedece.
Não faltou quem se desse ao trabalho de contar quantas pessoas, na Bíblia, aparecem como eliminadas por Deus. E o número é arrepiante: 2.038.334 pessoas! Sem incluir os mortos nos grandes extermínios como o dilúvio universal, a destruição de Sodoma ou a matança dos primogénitos do Egipto, cujas cifras não aparecem.
Parece que, nesse tempo, o Deus da Bíblia gostava de matar os seus opositores sem o menor escrúpulo, o que levou o inglês Derek Clayton a exclamar: «Se mais cristãos lessem a Bíblia, haveria menos cristãos»[2].
Dissemos que o AT é a biblioteca de um povo em todos os seus aspectos e dimensões. A sua identidade mais saliente é a de ser um povo liberto por Deus da escravidão no Egipto e por Ele conduzido para a terra prometida. Resultou numa aliança. Deus é o aliado deste povo que escolheu e com o qual se comprometeu, mas que lhe exige fidelidade a esta aliança. É uma teocracia política. Será interpretada como devendo coincidir os interesses de Deus com os deste povo. As ambições territoriais deste povo têm de ser defendidas por Deus, mesmo que isso implique a destruição dos outros povos.
3. A biblioteca do AT não é uma biblioteca de violência e de terror. Encerra as obras mais fascinantes da literatura. Surge uma dificuldade. É tudo considerado palavra de Deus. Muitas passagens parecem obra do diabo. Como fazer a destrinça?
Frei Francolino Gonçalves, investigador e professor da Escola Bíblica de Jerusalém, desenvolveu uma investigação considerada por grandes especialistas como muito inovadora, publicada nos Cadernos ISTA[3].
Desse longo e complexo texto, deixo, aqui, apenas uma pequena referência que não deturpa o essencial:
«O AT contém assim duas representações diferentes de Iavé. Segundo uma, ele é o Deus criador que abençoa todos os seres vivos; segundo a outra, ele é o Deus que está ligado a Israel, o seu povo, a quem protege e salva.
Os exegetas não prestaram a estas vozes discordantes a atenção que mereciam. A esmagadora maioria parece nem as ter ouvido. Por isso, ficaram sem eco, não tendo chegado ao conhecimento dos teólogos, dos pastores, nem, por maioria de razão, do público cristão. As minhas pesquisas nesta matéria confirmaram, essencialmente, o resultado dos estudos que referi e, além disso, levaram-me a propor uma hipótese de interpretação do conjunto dos fenómenos religiosos do AT que é nova. A meu ver, o AT documenta a existência de dois sistemas iaveístas diferentes: um fundamenta-se no mito da criação e o outro na história da relação de Iavé com Israel. Simplificando, poderia chamar-se iaveísmo cósmico ao primeiro e iaveísmo histórico ao segundo. Contrariamente à opinião comum, a fé na criação não é um elemento recente, mas constitui a vaga de fundo do universo religioso do AT»[4].
Jesus repudiou a violência do AT: Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem[5]. Preferiu ser morto a matar. Voltarei a este assunto.
in Público 14.06.2020
https://www.publico.pt/2020/06/14/opiniao/opiniao/biblia-trump-violencia-1920314




[1] Ver: Julio Trebolle Barrerra, Bíblia Judaica e Bíblia Cristã: Introdução à História da Bíblia, Vozes, 2000; Miguel Perez Fernández, Julio Trebolle Barrerra, José Manuel Sanchez Caro, História de la Bíblia, Trotta, 2006.
[2] Cf. Ariel Álvarez Valdés, A Bíblia incita à violência e à vingança, in Bíblica nº 388 (Maio-Junho 2020), p.99
[3] Francolino J. Gonçalves, Iavé, Deus de Justiça e de Bênção, Deus de amor e de Salvação, ISTA nº 22, ano XIV (2009), 107-152
[4] Op. Cit., p. 115. Os itálicos são da minha responsabilidade.
[5] Mt 5, 43-44
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Desconfinados e desmascarados 2
Anselmo Borges
Padre e Professor de Filosofia
Na crónica anterior, tentei reflectir sobre o desconfinamento. A crónica de hoje, que não põe de modo nenhum em causa a importância do uso da máscara no contexto da pandemia, tenta ser uma breve reflexão sobre outras máscaras e a necessidade do desmascaramento, outro desmascaramento. Não se dedica a um estudo aprofundado sobre a história e a riqueza cultural da máscara, desde as máscaras das divindades e dos guerreiros, passando pelo teatro, até aos bailes de máscaras e aos carnavais. Aqui, é aquela máscara que colocamos, umas vezes inconscientemente outras conscientemente, para parecermos o que realmente não somos, enganarmos os outros e enganarmo-nos a nós próprios. Temos medo e vergonha de nós, do que verdadeiramente somos? O desmascaramento é particularmente urgente numa sociedade como a nossa: sociedade do parecer, da pós-verdade, do espectáculo e, por isso, da mentira e da ilusão.
Quem esperava esta pandemia? Um vírus invisível chegou e invadiu o planeta e atingiu a Humanidade inteira. E foi preciso fazer uma pausa, e tudo o que parecia inadiável ficou parado, para depois, para quando for possível. Afinal, quais são as prioridades? Foi e é preciso colocar uma máscara, porque a covid-19 nos desmascarou quanto à nossa pretensa omnipotência. Afinal, não somos omnipotentes nem imortais. Fomos desmascarados. Como disse o filósofo Nicolas Grimaldi, “trata-se de um acontecimento natural como pode sê-lo um tremor de terra. Isso teria interessado a Pascal: como é que um infinitamente pequeno como um vírus pode produzir efeitos tão imensos? A Humanidade toma consciência da sua universalidade ao tomar consciência da sua mortalidade, da sua precariedade, em toda a parte no mundo, no mesmo momento. De repente, é-nos lembrado: é igual em toda a parte, porque vamos morrer.” E fomos obrigados, inevitavelmente, a pensar. Porque é a morte, o impensável, que obriga a pensar no essencial: o que é morrer?, o que é estar morto?, para onde vão os mortos?, “onde estarei quando deixar de existir?” (Tolstoi), “que morto serei para os que me sobreviverem?” (Paul Ricoeur), o que é existir autenticamente, porque é que há algo e não nada?, para quê tudo?, qual é o sentido último da minha vida?, o que sou?, quem sou?, o que é que quero verdadeiramente ser?, o que é que autenticamente vale?
E agora? Vai ser diferente para o futuro? Mudámos de forma duradoura? Contra tantos que dizem que sim, eu, mesmo fazendo figura de pessimista, temo que esteja na cabeça da grande maioria, e no mais profundo, o desejo de voltar ao antes, à vida como era. Como escreveu o filósofo Abdennour Bidar, que já várias vezes aqui citei, “passar-se-á da anormalidade extraordinária do confinamento imóvel à anormalidade ordinária do corre-corre febril. Dois confinamentos, um em casa, o outro ‘fora de si’, numa existência dispersa que nada tem a ver com o essencial.”  Desejo de voltar às máscaras da aparência, do ter, do poder, da corrupção, da sociedade da produção-consumo, que assenta a sua lógica no tabu da morte. Disso pura e simplesmente não se fala, há pudor em falar dela.
A morte desmascara e obriga a tirar as máscaras do parecer, da hipocrisia, da mentira, do medo de dizer a verdade, da cobardia, da competição feroz, das vaidades do ter e do poder pelo poder... Face à morte, como tudo o que não é essencial se torna pequeno! Martin Heidegger foi o filósofo do século XX que levou mais fundo o pensamento sobre a morte. O Homem é o ser da possibilidade, o existente para quem no seu ser a questão é esse mesmo ser, isto é, a quem o seu ser é dado como tarefa, como poder ser. Ora, a morte é a sua possibilidade “mais própria”, pois é a que mais o caracteriza, “irreferível”, pois corta a relação com tudo o resto, remetendo-o para si próprio, “intranscendível”, pois, enquanto possibilidade da impossibilidade, é a possibilidade extrema, a que se não pode escapar. A tentação permanente é distrair-se e não assumir a morte como essa possibilidade mais própria, irreferível, intranscendível, escapando-lhe pelo palavreado tagarela, pelo fazer como toda a gente faz, pelo recurso ao “toda a gente morre”, mas não propriamente eu. O Homem cai então no esquecimento de si mesmo e perde-se numa existência inautêntica.
Nas nossas sociedades tecnocientíficas e citadinas, a morte tornou-se tabu, o último tabu. Mas, ao perder o sentido da morte, perde-se o sentido da vida e o sentido da filosofia e da religião — sem a morte e a consciência dela, haveria religião e filosofia? E perde-se também o sentido ético: de facto, sem a consciência do limite no tempo, não se ergueria a questão ética na sua urgência da liberdade na definitividade. É o pensamento sadio da morte que obriga a distinguir entre o bem e o mal, entre o justo e o injusto, o que verdadeiramente vale e o que não vale, entre a superficialidade e o definitivo. E que dá o horizonte da fraternidade, como viu também o filósofo Herbert Marcuse, autor da obra célebre e marcante dos anos 1960, O Homem unidimensional, denunciando a redução do Humanum a uma só dimensão: a de consumidor entregue à cultura consumista, ao prazer e ao divertimento segundo padrões estandardizados. À beira de morrer, disse Marcuse ao amigo Jürgen Habermas: “Sabes, Jürgen? Agora, sei onde se fundamentam os nossos valores e juízos morais: na compaixão.”
Lídia Jorge, a grande escritora, marcada pela morte recente da mãe, de quem não se pôde despedir, tem razão: “Não somos nada enquanto não estivermos preparados para morrer.”
Este pensamento nada tem a ver com menosprezo pela vida e pela alegria de viver. Pelo contrário, ele remete-nos para a vida na sua exaltação exultante. Viver quando? Precisamente agora, intensamente. Que cada instante seja um hino à vida no seu esplendor, no milagre de ser e viver!... Na liberdade toda, na serenidade combativa, sem máscaras para nós nem diante de ninguém.
Poderá então erguer-se um outro pensamento, que vem de outro filósofo maior do século XX, Paul Ricoeur, que morreu há 15 anos, precisamente no dia 20 de Maio de 2005, com 92 anos. Poucas semanas antes de morrer, diz-nos Catherine Portevin, escreveu a uma amiga: “Do fundo da vida, surge um poder, um poder que diz que o ser é ser contra a morte. Acredite nisso comigo.”
in DN 14.06.2020
https://www.dn.pt/edicao-do-dia/14-jun-2020/desconfinados-e-desmascarados-2-12308043.html
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QUE COISA SÃO AS NUVENS
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

A AMIZADE É UMA PÁTRIA
A BELEZA DAS CARTAS TROCADAS POR JOSEPH ROTH E STEFAN ZEWIG NUMA EUROPA EM CREPÚSCULO 
Foi isso, ou melhor, foi mais do que isso que o escritor Joseph Roth escreveu numa carta ao seu amigo Stefan Zweig, datada do verão de 1935. Ele escreveu: “Por fim, a amizade é a verdadeira pátria.” Na verdade, dois anos antes, nos meses fatídicos em que Hitler se tornara chanceler do Reich, Roth começara a perder as suas pátrias, e percebemos melhor aquele “por fim” a encabeçar a sua afirmação. Com o estabelecimento do nazismo, Joseph Roth perdia para sempre a Alemanha, mas estava consciente de que esse seria apenas o início do irreversível processo que conduziria a tantas outras perdas: “Avizinhamo-nos a grandes catástrofes. Para lá daquelas privadas — a nossa existência literária e material está liquidada — tudo conduz a uma nova guerra... Conseguiu-se que a barbárie governe. Não se iluda. O inferno comanda.” Porém, em 1935, ainda restava a Roth uma pátria imaginária: o regresso da Casa de Habsburgo, a nostalgia por uma Áustria imperial que servisse de tampão ao avanço daquela loucura extrema. Mas, em relação a essa pátria idealizada, não havia propriamente certezas. Ele próprio balançava entre a militância e o luto, como confessa no prefácio a um dos seus grandes romances, “A Marcha de Radetzky”: “Uma cruel vontade da história estilhaçou a minha velha pátria, a monarquia austro-húngara. Amei-a, a esta pátria, que me permitiu ser contemporaneamente um patriota e um cidadão do mundo, um austríaco e um alemão... Amei as suas virtudes e qualidades e agora que está morta e perdida, amo também os seus erros e fraquezas. E tinha muitos. Expiou-os a todos com a sua morte.” Restava, portanto, a Joseph Roth o que ele, naquele verão, refugiado no Hotel Foyot, em Paris, declarou a Stefan Zweig: “Por fim, a amizade é a verdadeira pátria.”
A amizade é uma das parábolas humanas mais poderosas e inesquecíveis a que podemos aceder
A amizade epistolar daqueles dois foi uma pátria sincera, afetuosa e triste, numa Europa em crepúsculo. As quase 270 cartas que trocaram numa única década, entre 1927 e 1938, mostram-no bem. E explicam igualmente porque é a amizade uma das parábolas humanas mais poderosas e inesquecíveis a que podemos aceder. Zweig e Roth testemunham “o penetrante e emocionante aroma hebraico que tinha a Europa”, mas cada um a seu modo. Zweig desejou ser um Erasmo de Roterdão no século XX, encarnando a inviolabilidade da liberdade individual, insistindo num humanismo pacifista contra toda a evidência. Em setembro de 1937, escreve ao seu amigo: “Não, Roth, não nos devemos endurecer com a dureza dos tempos, temos de ser positivos, ser mais fortes.” E quando esta possibilidade lhe foi tirada, compreendeu que a única via para si era a fuga. Roth era, por seu lado, visceral, autodestrutivo, lúcido, fulgurantíssimo e profético. Essa pequena obra-prima que é “A Lenda do Santo Bebedor” não é apenas o seu testamento, mas também o seu autorretrato irónico e pungente, entre imigrantes desprotegidos e peregrinos sem destino, num amargo mundo em despedida. As cartas trocadas nos últimos anos acentuam os contrastes entre ambos. Zweig escreve: “Caro Roth, porquê, porque está sempre assim ofendido?” Roth responde: “Caro amigo, talvez falemos duas línguas diferentes...” Zweig acrescenta: “Você tem a sensação de que eu não o compreenda...” Roth atira: “Porque tem você tanto medo das palavras indignadas?” Até nestes duelos secos, nestas marcações intransigentemente solitárias, mas feitas ainda para o outro ver, as suas são cartas de amizade autêntica. Zweig afiança: “Não conseguirá jamais me fazer desistir de amar Joseph Roth.” E Roth assegura: “Se tivesse um irmão, não o esperaria com maior ânsia do que aquela com que espero por si.”
in Semanário Expresso 13.06.2020 p162
https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2485/html/revista-e/que-coisa-sao-as-nuvens/a-amizade-e-uma-patria

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À PROCURA DA PALAVRA
Pe. Vitor Gonçalves
DOMINGO XI COMUM
“Depois chamou a Si os seus doze discípulos
e deu-lhes poder de expulsar os espíritos impuros
e de curar todas as doenças e enfermidades.”
Mt 10, 1

Chamados

Há no acto de chamar alguém um certo sabor a criação. Como se do nada e do silêncio aquela voz fizesse surgisse algo novo. Não se trata apenas de dizer um nome mas de convocar uma pessoa. Não guardamos a memória dos primeiros tempos em que, por boas e menos boas razões, éramos convocados pela voz da mãe, do pai e de muitos outros? E por tantos outros momentos em que o nosso nome foi dito com o sabor de um sorteio da lotaria ou a ternura de uma vida que nos deseja?
Percorremos os textos da Bíblia e maravilhamo-nos com o Deus que chama. É criador chamando à vida e tudo faz com a sua palavra; convoca-nos para o diálogo e procura-nos quando fazemos o mal e nos escondemos; é íntimo de homens e mulheres que responsabiliza por todos; chama-nos porque nada quer fazer na criação sem nós. A sua omnipotência não é, sobretudo, a da força e do domínio, é a de amar, e todo o amor convoca à participação, ao gosto de “fazer juntos” à alegria de dizermos “nós” e não só “eu”. Imagino as vezes que Maria e José chamaram: “Jesus”, e Ele a acorrer aos seus apelos. Encantam-me aqueles que, assim nos contam os evangelhos, O chamaram, do cego de Jericó ao “bom” ladrão da cruz. Mas revejo-me ainda mais naqueles que Jesus chamou pelo nome e a alguns até o mudou: Pedro, Zaqueu, Marta e Maria, Lázaro. Todo o nome na boca de Jesus tem a força de uma recriação.
Não é por acaso, que no diálogo com os pais que pedem o baptismo para um filho seu, começa-se por perguntar o seu nome. O nome é uma identidade, um imenso universo de qualidades únicas e possibilidades extraordinárias. É uma porta, para algo maior do que a simples junção de letras e sons. Deus, que nos conhece para lá de qualquer nome, está sempre a chamar-nos. Não no sentido pobre com que se diz na liturgia das exéquias: “Deus chamou a Si o nosso irmão…, a nossa irmã…”. Pois, quantas vezes fica a impressão que alguém expressava assim: “Chamou, mas não devia ter ainda chamado, porque nos faz muita falta!” O que nos falta é entender cada dia como chamamento à vida mais plena que só em Deus encontra foz.
Que maravilha seria perceber o chamamento de Deus como a resposta àquele que Lhe fazemos, com tantos outros nomes. A sede da Boa notícia, da libertação do mal, da cura e da felicidade ao alcance do coração.  Não resisto ao poema de Sophia: “Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio / E suportar é o tempo mais comprido. // Peço-Te que venhas e me dês a liberdade, / Que um só dos teus olhares me purifique e acabe. // Há muitas coisas que eu quero ver. // Peço-Te que sejas o presente. / Peço-Te que inundes tudo. / E que o teu reino antes do tempo venha. / E se derrame sobre a Terra / Em primavera feroz precipitado.” É possível acreditar que o chamamento de Jesus, a investidura de apóstolos para todos os que O conhecem, a missão de graça a toda a parte, é também resposta ao apelo a Deus que a sede humana não pode calar?
in Voz da Verdade, 14.06.2020
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Nós Somos Igreja: CONVERSÃO ECOLÓGICA E DO DESEJO DISTORCIDO, Frei B...

Nós Somos Igreja: CONVERSÃO ECOLÓGICA E DO DESEJO DISTORCIDO, Frei B...: CONVERSÃO ECOLÓGICA E DO DESEJO DISTORCIDO Frei Bento Domingues, O.P. Esta crise obrigou-nos a parar. Mas suspeito que este medonho s...

19 maio 2020

JOÃO PAULO II: NO CENTENÁRIO DO NASCIMENTO, por Anselmo Borges

JOÃO PAULO II: NO CENTENÁRIO DO NASCIMENTO
Anselmo Borges
Padre e Professor de Filosofia
1. Celebra-se amanhã, 18 de Maio, o centenário do nascimento de Karol Wojtyla, que havia de ser Papa, com o nome de João Paulo II.
Fica aí um breve apontamento sobre essa figura marcante do século XX. Não é, de facto, possível escrever a história do século XX ignorando João Paulo II, que não foi apenas uma figura marcante, mas determinante, do século passado. Apresento alguns acontecimentos, um pouco à maneira de flashes, referentes concretamente ao seu pontificado, um dos mais longos da História: mais de 26 anos, de 18 de Outubro de 1978 a 2 de Abril de 2005.
João Paulo II foi um dos líderes mais influentes do seu tempo. Era um homem de convicções, corajoso, profundamente crente no Evangelho e no Deus de Jesus. Foi com ele e as suas viagens por mais de cem países que a Igreja católica tomou real consciência de ser uma Igreja mundial. Foi decisivo para o fim do comunismo no seu país natal, a Polónia, e para a queda do Muro de Berlim. Afirmou e reafirmou os Direitos Humanos. Escreveu notáveis encíclicas sobre ética social e concretamente sobre os direitos dos trabalhadores (Laborem exercens e Centesimus annus) e, se não me engano, foi o primeiro Papa a utilizar a palavra ecologia em todo o seu significado de defesa do meio ambiente. Perdoou àquele que o quis assassinar e visitou-o na cadeia. Reuniu em Assis os representantes das religiões mundiais para a oração, criando o que ficou conhecido como “o espírito de Assis”, no sentido da compreensão entre as várias religiões a favor da paz. Fez o possível para evitar a invasão do Iraque, um erro histórico brutal cujos efeitos ainda hoje o mundo está a pagar. Foi um lutador incansável pelo que considerava a sua missão: precisamente a defesa da paz, que o levou a viajar pelo mundo todo como seu mensageiro. Era humilde: ele que chegara a Papa, jovem e atleta, não teve vergonha em envelhecer sem ocultar ao mundo a sua decadência física.
Foi um dos homens mais populares do seu tempo. O mundo agradeceu-lhe, despedindo-se dele com milhões de pessoas no funeral, que teve também o maior número de representações diplomáticas de sempre. E o povo gritou que queria vê-lo rapidamente canonizado: “Santo subito!”
2. Mas João Paulo II era um homem do seu tempo e tem de ser situado nesse tempo e no seu contexto histórico. Ele vinha do Leste, com uma Igreja perseguida, e ele próprio tinha uma certa visão da Igreja, mais hierárquico-autoritária do que propriamente participativa, sinodal, em comunhão. E vivia-se então na Igreja uma forte tensão entre os chamados progressistas e os conservadores, dentro da necessidade de um novo rumo para uma Igreja conciliar, em ligação com o espírito do Concílio Vaticano II.
Neste contexto, viveu grandes contradições. Por exemplo, pediu perdão pelas culpas da Igreja ao longo da História ao mesmo tempo que continuou a condenar um grande número de teólogos (mais de 100). Defendeu os Direitos Humanos para o mundo ao mesmo tempo que reprimiu quem dissentia das suas concepções doutrinais, teológicas ou relacionadas com a organização da Igreja. Pôs travão a horizontes abertos pelo Concílio Vaticano II e concretizou esse propósito com a nomeação de bispos da sua linha conservadora no mundo inteiro. Limitou o diálogo ecuménico entre as Igrejas cristãs. Opôs-se tenazmente a uma reflexão sobre a obrigatoriedade da lei do celibato para os padres. Recusou terminantemente debater de modo sério o lugar da mulher na Igreja, pretendendo inclusivamente invocar a infalibilidade, para pôr termo definitivo ao debate teológico sobre a possibilidade da ordenação de mulheres.
Sobretudo, João Paulo II deixou uma herança dramática por causa do modo como terá lidado com os abusos de menores por parte do clero e com a figura perversa do fundador dos Legionários de Cristo, Marcial Maciel. Neste sentido se pronunciou também, numa entrevista recente ao “Der Sonntag”, o actual cardeal de Viena, Christoph Schönborn, para quem João Paulo II é certamente “um dos grandes Papas”, mas “ficou arrasado com o tema dos abusos, foi uma das suas debilidades... Esperávamos que João Paulo II encontrasse uma palavra de consolação e compaixão para os afectados, para os que tinham sofrido... Essa palavra não veio”, concretamente na sua viagem à Áustria em 1998. Do ponto de vista teológico e pastoral, Karl Rahner, um dos teólogos do Concílio Vaticano II e talvez o maior teólogo católico do século XX, morreu com a tristeza do que antevia como a caminhada da Igreja para um “inverno”.
3. Permita-se-me uma nota pessoal. Uma vez, foi-me dada a possibilidade de encontrar pessoalmente o Papa João Paulo II nos seus aposentos privados, no Vaticano. Era a primeira vez que estava com um Papa. Apertei-lhe respeitosamente a mão e disse no meu mais íntimo: “É apenas um homem”.
João Paulo II era apenas um homem. Com imensa grandeza, mas com grandes debilidades também. O que é facto é que o sucessor, que tinha sido no seu pontificado Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Bento XVI, encontrou a Igreja numa situação tal que não teve forças para continuar à sua frente e tomou aquele gesto histórico de resignar. Foi então que foi eleito o Papa Francisco, uma bênção para a Igreja e para o mundo.
in DN, 17.05.2020

CONVERSÃO ECOLÓGICA E DO DESEJO DISTORCIDO, Frei Bento Domingues, O.P.


CONVERSÃO ECOLÓGICA E DO DESEJO DISTORCIDO
Frei Bento Domingues, O.P.
Esta crise obrigou-nos a parar. Mas suspeito que este medonho susto ainda não conseguiu alterar, em profundidade, a mentalidade geral.
1. Chegam-me de vários lados, com propósitos diferentes, notícias e comentários sobre o comportamento lamentável de algumas correntes do alto e baixo clero unidas no afrontamento das medidas recomendadas pela OMS e que a DGS e os governos impõem para evitar o contágio do covid-19. Unidas também no declarado incitamento ao seu desrespeito, a nível nacional e internacional.
Essas movimentações ressurgem quando muita gente já se sente desesperada entre o apertado confinamento, o emprego perdido, a ronda da pobreza, a ameaça da morte e um futuro de pouca esperança. A agitação de algumas tendências do clero revela, no entanto, outra conhecida e renovada motivação: atacar a pastoral do Papa Francisco para que as linhas mais inovadoras do seu pontificado e do seu estilo morram e sejam enterradas com ele.
Procura-se fazer acreditar que Bergoglio é um instrumento das forças que desejam acabar com a prática religiosa, já muito enfraquecida, numa Europa laicizada. É preciso estar em sintonia com maçónicos, comunistas e ateus para proibir missas abertas ao público e impedir as grandes e tradicionais manifestações da fé católica. Este Papa, dizem os seus adversários, acaba sempre por fazer o jogo dos inimigos da Igreja, transformando-a numa banal associação filantrópica com igrejas de portas fechadas.
 Para a grande maioria dos católicos, a relevância do exibicionismo desse clero, com mitra ou sem mitra, depende, em grande parte, do acolhimento que lhe é dado em certos meios de comunicação e não pela sua real representatividade.
Por mim, não posso deixar de louvar a coragem do Bispo de Leiria-Fátima – em harmonia com a Conferência Episcopal – pela atitude exemplar, em relação à maior manifestação da religiosidade popular de Portugal e do Ocidente. Mostrou, pela sua decisão, que para Jesus Cristo a maior glória de Deus é o cuidado com a saúde e a vida dos seres humanos. Esse cuidado vale mais do que o cumprimento literal de todas as promessas e sacrifícios. Deus lê nos corações e o mal pede mais combate inteligente do que teologuemas sacrificiais, que insultam piedosamente o infinito mistério que envolve a nossa condição.
O Bispo António Marto tornou-se testemunha do sentido, para o nosso tempo, do célebre diálogo de Jesus com a Samaritana junto ao poço de Jacob[i]: os verdadeiros adoradores de Deus não são os que adoram em Jerusalém ou em Garizim, em Roma ou em Meca, em Fátima ou em Lourdes, mas aqueles que O adoram em espírito e verdade, dentro ou fora de qualquer igreja. O verdadeiro e sagrado templo da divindade é o ser humano, no acolhimento do outro como irmão. 
Com esta observação, não estou a desvalorizar a importância dos espaços sagrados nem a simbologia do calendário das celebrações da fé cristã. O espaço, o tempo e a itinerância são dimensões fundamentais da nossa condição que não pode prescindir da linguagem de ritos sagrados e profanos.
Participei, muitas vezes, no 13 de Maio na Cova da Iria e nunca senti nada de tão comovente como a imensa Procissão das Velas e do Adeus, ambas completamente inúteis, como são os grandes poemas e como é este: o de um povo sofrido que não desiste nem de partir nem de regressar. Fátima é o barco e o cais das nossas reais e míticas viagens na escuridão do mundo[ii].
2. Vivemos na civilização da velocidade, da pressa em chegar sempre antes do outro. Esta crise obrigou-nos a parar. Mas suspeito que este medonho susto ainda não conseguiu alterar, em profundidade, a mentalidade geral. Continuamos a perguntar quando poderemos regressar à vida normal. Aquilo a que chamamos vida normal já mostrou, nesta calamidade, as suas estruturais anormalidades semeadas de velhas e novas desigualdades vergonhosas. E surge a pergunta: o que é possível e desejável fazer para acudir ao presente e preparar um futuro viável?
As retóricas descrições de tudo o que está mal – à vista de quem quiser ver – e as retóricas das receitas prontas a resolver todos os problemas parecem-me que confiam demasiado no poder mágico das palavras. A eficácia da linguagem performativa é de outra ordem.
Fazer coincidir a rapidez do dizer com o acontecer das transformações sociais pertence à ordem do milagre, pouco frequente, no devir da natureza, da cultura e da investigação.
Os sistemas autoritários pretendem substituir, pelo quero, posso e mando, a lentidão das decisões democráticas de consensos alargados. No entanto, se as democracias se perderem na exibição de labirínticas discussões clubísticas acabam por cansar os cidadãos que reclamam e esperam resultados, em todos os domínios, para a construção do bem comum.
Será possível combinar as respostas às urgências maiores da população mais pobre e ir alterando o sistema económico dominante e insustentável, assente na exploração ilimitada de recursos limitados e em perpetuar escandalosas desigualdades sociais?
Há quem pense que é este o tempo certo para delinear futuras estratégias económicas baseadas na tríade inseparável: biodiversidade, alterações climáticas e saúde pública[iii].
3. Perante a tragédia que estamos a viver e pensando no futuro, é recorrente a expressão, nada pode continuar como dantes. Quem assim fala manifesta vontade de mudança, de conversão. Quem, pelo contrário, não quer perder a vida altamente privilegiada de que disfruta, até da crise procura servir-se para alargar os seus injustificados privilégios.
Em 2015, o Papa Francisco publicou a encíclica Laudato SI sobre o cuidado da Casa Comum que inscreveu no movimento ecológico mundial. É um documento minucioso e abrangente que mostra a raiz humana da crise ecológica, fruto e causa de muitas outras crises. A ecologia integral que propõe envolve múltiplas dimensões: ambientais, económicas, sociais e culturais, vida quotidiana, seguindo sempre o princípio do bem comum e da justiça intergeracional. Não se limita aos aspectos doutrinais. Apresenta também linhas de orientação e acção, para vencer a indiferença geral e os obstáculos levantados pelos interesses insensatos dos poderosos.
Nada disto, porém, é possível sem uma autêntica conversão ecológica e uma espiritualidade que alimente a paixão pelo cuidado do mundo e não pela sua dominação destruidora. Por outro lado, para chegar à conversão ecológica é indispensável a conversão do desejo distorcido. Quem deseja tudo para si próprio só pode ver, nos desejos dos outros, rivais a dominar ou abater. Não sente alegria com a diferença.
in Público 17.05.2020



[i] Jo 4, 1-42
[ii] Frei Bento Domingues, A Religião dos Portugueses, Temas e Debates – Círculo de Leitores, 2018; ver também Anselmo Borges, Fátima e a covid-19, in Público, 13.05.2020.
[iii] Maria Amélia Martins-Loução, O tempo certo, in Público, 26.04.2020.



Admiração e apreço pelas decisões tomadas pela Conferência Episcopal

A 11 de maio de 2020 enviámos o seguinte email à Conferência Episcopal Portuguesa:

Senhor D. Manuel Clemente
Presidente da Conferência Episcopal

Em nome do Movimento Nós Somos Igreja Portugal, acreditamos na importância colegial dos nossos Bispos, quando se pronunciam sobre as grandes questões da realidade contemporânea.

Queremos desta forma exprimir-lhe a nossa admiração e apreço pelas decisões tomadas pela Conferência Episcopal, desde o primeiro agravamento da pandemia no nosso país.

Queremos felicitá-lo pelo seu depoimento ao DN, em que define o seu conceito de comunhão existencial, em que anuncia o testemunho de Cristo a que toda a comunidade cristã é chamada, na urgência do cuidado aos outros, para a salvação de vidas.

Queremos confirmar o nosso apoio à decisão de D. António Marto, Bispo de Leiria e Vice-Presidente da Conferência Episcopal, quanto às celebrações dos próximos dias 12 e 13 de maio, em Fátima, assim concretizando, com firmeza, as orientações das autoridades de saúde.

Com as nossas mais cordiais saudações
P’lo Nós Somos Igreja Portugal
Alfreda Ferreira da Fonseca
Fernando Fradique
Leonor Xavier
Lisete Fradique
Luís Mah
Maria João Sande Lemos
M.Margarida Pereira-Müller
Mariana Mendes Pereira
Piedade Pinto Correia