08 novembro 2020

 

P / INFO: Crónicas, & Capela do Rato, Inscrições para as celebrações

Frei Bento: Deus não é um rival

Pe. Anselmo: O Papa Francisco confessa-se. 1

Cardeal Tolentino: Lidar com a repetição p 167

Pe. Vítor Gonçalves: Esperar é sair ao encontro

 

NOTA: O site da Capela do Rato ainda não foi actualizado.

Sugiro uma ida a: https://www.capeladorato.org/  para ter dados novos

 

DEUS NÃO É UM RIVAL

Frei Bento Domingues, O.P.

Devia ser esta a convicção da religião que recusa qualquer     espiritualidade que despreza o mundo em nome de Deus.

 

1. A Humanidade de Deus[1] é o título do primeiro volume que reúne algumas das minhas primeiras crónicas no Público. Por razões de trabalho, tive de revisitar a introdução que escrevi para a essa minha colectânea. Hoje, parece-me que foi a procura de fidelidade, à significação implicada na escolha desse título, que explica a alegria que encontro nos gestos e textos do Papa Francisco e dos quais tenho procurado dar testemunho em algumas crónicas dos últimos anos.

Encontrei, nessa introdução, a referência a um acontecimento dos agitados anos 50 do século passado, que provocou em mim, para sempre, o desassossego teológico.

 Eram anos em que se consumava a repressão das vozes livres na Igreja, retomada nos finais do século 19 e na primeira metade do século XX. Esse acontecimento, aparentemente banal, foi para mim o encontro com um texto dos anos 30, recomendado por Paul Denis, um professor que buscava as fontes dos rios filosóficos e teológicos a partir da sua foz, o mundo contemporâneo.

 Em 1935, pediram a Yves Congar O.P. para comentar os resultados alarmantes de um Inquérito realizado pela famosa revista La Vie Intelectuelle, sobre as “razões da descrença actual”!

Depois de analisar o longo processo de divórcio entre a Igreja e os movimentos científicos, culturais e sociais, que agitaram a gestação do mundo moderno, sintetizou-o numa expressão que me marcou: «a uma religião sem mundo, sucedeu um mundo sem religião».

Trinta anos mais tarde, em pleno Vaticano II, voltou a insistir no mesmo ponto: «o maior obstáculo que os seres humanos de hoje encontram no caminho da fé vem da falta de ligação que julgam verificar entre, por um lado, a fé em Deus e, por outro, o ser humano e a sua obra terrestre. É urgente mostrar o laço íntimo que os une. É na superação desse fosso que se deveria procurar a resposta mais eficaz às razões da descrença moderna»[2].

O célebre jesuíta, Teilhard de Chardin, numa breve nota, de 1920, sobre a evangelização dos novos tempos, já pressentia a gravidade do que estava a acontecer: «Cristão e humano tendem cada vez mais a não coincidir. É este o grande cisma que ameaça a Igreja».

Na mesma introdução, cito o grande medievalista dominicano, Marie-Dominique Chenu, que, sempre atento aos sinais dos tempos, continuava a verificar, em 1960, que «o novo mundo dos nossos dias ainda não tinha sido integrado no pensamento cristão».

Philippe Roqueplo, na sua tese de doutoramento, Experience du monde: Experience de Dieu?[3] –, ao percorrer o monumental Dictionnaire de Théologie Catholique (publicado entre 1904 e 1950, em 22 grandes volumes) verificou que a teologia oficial se tornara impermeável a todas as tentativas de assumir, na  experiência cristã, a construção do mundo.

Foram os considerados teólogos heterodoxos, acolhidos por João XXIII que, no Vaticano II, tentaram iniciar, de modo oficial, a superação desse divórcio. Outros, depois, procuraram fazer esquecer esse começo de revolução. Bergoglio, na linha do Cântico das Criaturas de Francisco de Assis, tem procurado retomar, concretizar e alargar a linha mais luminosa do Vaticano II e da Pacem in Terris, para eliminar os instrumentos do supremo terror.

2. O primeiríssimo capítulo que abre a Bíblia, na sua organização actual (Génesis, 1-2), é um poema que apresenta Deus a dizer, de forma extasiada: Que o mundo seja! Não é um Deus preocupado com o seu prestígio, com o seu ego, mas com a afirmação do outro, do diferente e criativo em face da divindade. Deus não se manifesta aí a querer ser tudo. A ideia de ver em Deus um rival do ser humano é uma megalomania diabólica. Deus não quer reservar para si os segredos, os enigmas do universo. Investigá-los é tarefa humana.

Devia ser esta a convicção da religião que recusa qualquer espiritualidade que despreza o mundo em nome de Deus; que fecha os olhos para a beleza e para os enigmas do cosmos, para o calor do amor humano, para a importância da criação artística, para o valor da investigação cientifica, para os trabalhos de ganhar o pão com o suor do próprio rosto, para a competência em socorrer as vítimas das doenças, para os problemas grandes ou pequenos de governar uma casa ou um país num mundo cada vez mais globalizado.

3. J. P. Audet, em 1966, no contexto das discussões em torno do sagrado, do religioso e da fé judaico-cristã, publicou um importante estudo sobre “a vingança de Prometeu ou o drama da religião e da cultura”[4]. Procura mostrar que, na Bíblia, não se encontra o equivalente do mito de Prometeu, tal como este vem apresentado em Hesíodo e Ésquilo: os deuses escondem aos homens o segredo da vida feliz. Aquilo de que os homens precisam para fazer a sua vida, por sua conta e risco, o fogo (ciências e técnicas) tem de ser arrancado aos deuses contra a sua vontade, como o fez Prometeu. Deuses e homens são rivais.

A felicidade dos deuses é a desgraça dos seres humanos e a felicidade destes é um roubo aos deuses. Nada disto existe na Bíblia. Aí, a terra é dada ao homem e à mulher para que façam dela a sua morada[5]. A pastorícia, a agricultura, a música, as técnicas, os negócios, as ciências e a sabedoria não são roubos a Deus, são acontecimentos humanos normalíssimos[6]. Não, porém, o trabalho escravizante[7], fruto de um ser humano que, quando se desorienta, desorienta as dimensões todas da vida e esquece que os outros são seus irmãos[8].

A tese de Audet não consiste apenas na contraposição do mito grego da rivalidade entre deuses e homens e o universo bíblico, em que Deus é princípio de gratuidade, de dom, e a religião da sabedoria, em Israel, uma percepção admirativa do divino.

Isto representa apenas o espaço para abrir uma outra perspectiva: a ideologia da “consagração do mundo” não deve merecer cobertura teológica porque não tem cobertura bíblica.

A relação religiosa co-habita, sem medo nem remorso, com o profano. O religioso pode ser espaço do profano e o profano, espaço do religioso. O sagrado, “o reservado para Deus”, é apenas o reservado para uma das mediações da religião, a mediação ritual.

O sagrado e o religioso não são co-extensivos. Tudo o que é percebido como sagrado (separado) tem a ver com a religião, mas nem tudo o que tem a ver com a religião tem a ver com esse sagrado. A percepção religiosa supera e enquadra, diferentemente, o sagrado e o profano. A mediação ritual tende a fechar o fenómeno religioso no seu espaço.

Daqui o perigo das preocupações com a “consagração do mundo”. Esta, sem se dar conta, consagra a perspectiva prometaica das relações entre religião e cultura. Parece beneficiar a religião, mas a religião só pode esperar pela vingança. Reencontramo-nos, assim, com o diagnóstico de Yves Congar, nos anos 30: a uma religião sem mundo, sucedeu um mundo sem religião.

in Público 08.11.2020

https://www.publico.pt/2020/11/08/opiniao/opiniao/deus-nao-rival-1938169



[1] Edição de Mário Figueirinhas, Porto 1994 – as crónicas são de 1992-1993

[2] Chrétiens en dialogue, Paris, Cerf 1964, p. XXXIII.

[3] Cerf, Paris 1968.

[4] La revanche de Promété ou le drame de la religion et de la culture, in Rev. Biblique, 73 (1966), 5-29

[5] Gn 1,28; Sl 8,9-14; 115,16

[6] Gn 4,19-22; 1Rs 5,9-14

[7] Gn 3,17

[8] Cerf, Paris 1968.

 

O Papa Francisco confessa-se. 1

Anselmo Borges

Padre e Professor de Filosofia

 

1. Francisco é o Papa que mais entrevistas deu. É claro que, ao conceder entrevistas a grandes meios de comunicação social mundiais, acaba por falar mais directa e espontaneamente de temas que nem sequer apareceriam se se mantivesse nos pronunciamentos formais de homilias e documentos oficiais. De facto, os jornalistas são curiosos e fazem perguntas que o grande público também gostaria de fazer.

Acaba de ser este o caso com uma longa entrevista concedida ao director da agência italiana AdnKronos, Gian Marco Chiocci. Concedida na sequência e no contexto da destituição do cardeal Angelo Becciu, acusado de ter desviado fundos normalmente destinados aos pobres, para beneficiar a sua família, Francisco declara que a corrupção é “um mal antigo que se transmite e se transforma nos séculos”. Na Igreja, “a corrupção é uma história cíclica, repete-se, depois vem alguém que limpa e põe em ordem, mas depois recomeça-se, na expectativa que chegue outro para pôr fim a esta degeneração.” Numa Igreja para os pobres, mais missionária, não há lugar para quem enriquece e faz enriquecer o seu círculo, vestindo indignamente a batina. “A Igreja é e permanece forte, mas o tema da corrupção é um problema profundo, que se perde nos séculos. No início do meu pontificado fui ao encontro de Bento XVI. Ao passar-me a ‘pasta’, entregou-me uma caixa grande, dizendo: ‘Está tudo aí dentro, estão os procedimentos com as situações mais difíceis, eu cheguei até aqui, afastei estas pessoas, e agora... cabe a ti.’ E eu não fiz mais do que recolher o testemunho do Papa Bento, continuei a sua obra.”

Neste contexto, e querendo desfazer dúvidas e insinuações, Francisco refere-se ao antecessor como “um pai e um irmão, escrevo-lhe por carta ‘filialmente e fraternalmente’. Vou ao seu encontro muitas vezes; se ultimamente o vejo menos é porque não quero cansá-lo. A relação é verdadeiramente boa, muito boa, concordamos sobre o que deve ser feito. Bento é um homem bom, é a santidade feita pessoa. Entre nós não há problemas, depois cada um pode dizer e pensar o que quiser. Pense nisto: até chegaram a dizer que tínhamos discutido, eu e Bento, sobre que túmulo cabia a mim e qual a ele.”

De volta à corrupção, refere o famoso bispo Santo Ambrósio: “A Igreja foi sempre uma ‘casta meretrix’, uma casta meretriz, uma pecadora. Melhor: uma parte dela, porque a grande maioria vai no sentido contrário, segue no caminho justo. Mas é inegável que personagens de vários géneros e importância, eclesiásticos e tantos leigos amigos fingidos da Igreja contribuíram para dissipar o património móvel e imóvel, não do Vaticano, mas dos fiéis.”

A situação quanto à opacidade da gestão das finanças do Vaticano, ao óbolo de São Pedro, à imprudência de certos investimentos, às actividades pouco caritativas de alguns pastores é mais grave do que suporia. Para “extirpar a erva daninha da corrupção não há estratégias particulares, o esquema é banal, simples, andar em frente e não parar, é preciso dar passos pequenos, mas concretos. Para chegar aos resultados de hoje partimos de uma reunião realizada há cinco anos sobre como actualizar o sistema judicial, depois com as primeiras investigações tive de remover posições e resistências, escavou-se nas finanças, tivemos novos directores no IOR (Instituto para as Obras de Religião, normalmente conhecido como Banco do Vaticano), numa palavra, tive de mudar muitas coisas, e muitas rapidamente vão mudar.”

E aparece a avó a dar bons conselhos: “Ela, que não era teóloga, dizia-nos sempre, quando éramos crianças: o diabo entra pelos bolsos. Tinha razão”.

E certamente não será inocentemente que Francisco venha lembrar a história da velhinha que encontrou numa imensa favela de Buenos Aires no dia em que João Paulo II morreu. Na Missa, rezou pelo Papa defunto. “Terminada a celebração, aproximou-se uma mulher muito, muito pobre, queria saber como é que se elege o Papa, falei-lhe do fumo branco, dos cardeais, do conclave. Ela interrompeu-me e disse: ouça, Bergoglio, quando for Papa, lembre-se de que a primeira coisa que tem que fazer é comprar um cãozinho. Respondi-lhe que dificilmente seria eleito Papa, mas, mesmo assim, perguntei-lhe porque é que devia arranjar um cão. ‘Porque sempre que vá comer, respondeu, dê-lhe primeiro um bocadinho e, se ele continuar bem, então continue o senhor também a comer.” O que é que levou Francisco a contar a história? É assim que está o Vaticano? Francisco imediatamente: “Tratava-se obviamente de um exagero. Mas exprimia a ideia que o Povo de Deus, os pobres entre os mais pobres no mundo, tinha da Casa do Senhor atravessada por feridas profundas, lutas intestinas, desfalques.” Terá sido só por simplicidade e porque gosta de estar com as pessoas que Francisco não quis ficar no Palácio Apostólico, preferindo vir para Santa Marta?

O Papa Francisco terá medo? A resposta desta vez é mais ponderada, confessa o jornalista, o silêncio parece nunca mais ter fim, parece que à espera de encontrar as palavras justas. “E porque havia de ter?”, pergunta. “Não temo consequências contra mim, não temo nada, ajo em nome e por conta de nosso Senhor. Sou um inconsciente? Falta-me um pouco de prudência? Não sei o que dizer, são o instinto e o Espírito Santo que me guiam, guia-me o amor do meu povo maravilhoso que segue Jesus Cristo. E depois rezo, rezo muito, todos nós neste momento tão difícil devemos rezar muito por tudo o que está a acontecer no mundo.”

in DN 08.11.2020

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/07-nov-2020/o-papa-francisco-confessa-se-1-13008370.html?target=conteudo_fechado

 

QUE COISA

SÃO AS NUVENS

JOSÉ
TOLENTINO
MENDONÇA

 

LIDAR COM A REPETIÇÃO

VIVEMOS A PRIMEIRA VAGA PANDÉMICA COMO UM TRAUMA. VIVEREMOS A SEGUNDA TAMBÉM ASSIM

A primeira vaga do vírus encontrou-nos impreparados. A segunda também. Entre uma etapa e outra houve certamente quem vigiasse, quem mantivesse o estado de alerta ou até antecipasse o cenário em que agora de novo entramos. Mas o desejo de um regresso à normalidade era tanto que aqueles que puderam removeram a memória do período anterior. O negacionismo não é só o dos outros e tem múltiplas linguagens e faces dentro de nós. Agarrámo-nos ao verão como a um reencontro com a liberdade, festejando-a como uma prova de vida, convencendo-nos que o mais difícil havia passado, exorcizando nos dias amplos daqueles meses e nas suas despreocupadas esplanadas a escuridão que, afinal não há tanto tempo, tínhamos experimentado.

Vivemos a primeira vaga pandémica como um trauma. Viveremos a segunda também assim. A primeira chegou-nos como o desabar de uma agressão e descobrimo-nos, a essa áspera luz, mais vulneráveis do que alguma vez o pensámos. A atual recidiva agrava o sentimento de que estamos impotentes e sitiados, porque ao peso da pandemia propriamente dito soma-se agora o luto das nossas ilusões, a fragilização trazida pelo cansaço e, aqui e ali, também uma descontrolada explosão social de raiva. No fundo, trata-se de lidar com a repetição, essa categoria com a qual nos precisamos reconciliar e da qual temos muito a aprender.

Enquanto a recordação nos faz, de certa maneira, voltar atrás, regressar ao passado como o havíamos habitado, a repetição impele-nos a dar um passo em frente

Quando se lê, por exemplo, Kierkegaard perde-se o medo à categoria de repetição. De facto, ele vai encontrar nesta categoria uma saída para o impasse a que se tinha chegado na filosofia antiga entre os que sustinham, como Parménides, que qualquer mutação no mundo físico deve ser considerada ilusória, pois a realidade do ser é imutável, homogénea e imóvel, e os que defendiam, como Heraclito, que a essência do mundo é movimento e contínuo devir. Kierkegaard identifica na repetição a possibilidade de explicar melhor a vida do que estas hipóteses da imobilidade permanente e da novidade absoluta constante. E, ele próprio pergunta: “Que seria, ao fim de contas, a vida se não ocorresse nenhuma repetição? Quem desejaria ser apenas um tabuleiro no qual o tempo a cada instante escreve uma frase nova ou versa somente o historial de um passado?” Para o filósofo dinamarquês, a repetição é a chave que explica a nossa existência. Ele deixa claro, porém, que a repetição não pode ser vista como um mero retorno do passado. Na verdade, mesmo quando nos desconcerta, ela é também uma possibilidade de transcendência, na medida em que nos conduz a novos estádios de aperfeiçoamento e progresso. Enquanto a recordação nos faz, de certa maneira, voltar atrás, regressar ao passado como o havíamos habitado, a repetição impele-nos a dar um passo em frente. Por isso, enfrentar a repetição está entre os deveres éticos e espirituais mais sérios.

Sabemos, contudo, que a experiência da repetição nem sempre é indolor. Como ajudou a ver Freud, também acontece que a repetição se relacione com alguma coisa que não ficou resolvida lá atrás no tempo, alguma coisa cuja solução nos escapou e esse falhanço se torna um obstáculo pronto a pôr em causa o que somos. É como se essa vivência primeira que interpretamos como fracasso persistisse depois como uma deficiência, uma dívida ou uma perda que não chegou a ser reparada e que agora nos aprisiona dentro do seu circuito cego através da “compulsão da repetição”. O caminho paciente a trilhar passará pela reelaboração desta espécie de sofrimento original, destapando-o e integrando-o, num processo necessariamente lento. Mas não é raro que a esperança nos coloque do lado da lentidão.

in Semanário Expresso 07.11.2020

https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2506/html/revista-e/que-coisa-sao-as-nuvens/lidar-com-a-repeticao

À Procura da Palavra

DOMINGO XXXII COMUM

Pe. Vitor Gonçalves 

“Vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora.” Mt 25, 13

            Esperar é sair ao encontro

Somos seres apressados. Lidamos mal com a espera, com o tempo que algumas coisas demoram a fazer-se, com as senhas e as filas de qualquer espécie (a do lado parece sempre ir mais depressa do que a nossa). Sim, há muita lentidão em certas coisas e a burocracia da vida parece ter os seus especialistas. Buscamos a eficiência e a rapidez, o lucro fácil e o imediato, e aquilo que demora um pouco mais começa a enfraquecer a nossa capacidade de resistência e a fidelidade ao compromisso. Oscilamos entre “quem espera sempre alcança” e “quem espera, desespera”. A dolorosa pandemia que vivemos não revela tantas dificuldades em assumirmos atitudes que exigem resiliência e esperança?

São numerosas as passagens dos Evangelhos em que Jesus convida à vigilância, à leitura dos sinais dos tempos, à atenção voltada para o futuro, a estar preparados, ao anúncio da vindo Filho do Homem. Não são anúncios de desgraças nem sementeira de medos; pelo contrário, são convite a viver despertos, de olhos abertos e atentos, com corações inteligentes e generosos para acolher e ir ao encontro. Mesmo perante os sofrimentos e desaires, as suas palavras ecoam: “Não tenhais medo”, “A paz esteja convosco”. É uma vigilância cheia de esperança. Para aprender com os acontecimentos e estar prontos a responder com sabedoria ao inesperado e à incerteza.

As jovens de candeias acesas que esperam o esposo para o acompanharem ao banquete falam de nós, da Igreja, do mundo que espera a felicidade. A noite que alarga a espera pode fazer-nos adormecer. Mas a vinda do esposo é certa. E teremos azeite na candeia da nossa vida para iluminar o seu caminho? Este azeite que adverte para o perigo de vivermos de modo inconsciente, num “vai-se andando” sem fulgor nem encanto, “vivendo porque a vida dura” (F. Pessoa), correndo atrás de fogos-fátuos que nos prometem felicidades fáceis e vazias. Como nos ilumina o “fogo” que Jesus veio lançar? Que sentido tem conservar uma fé gasta, que não move ao encontro com Jesus? Se temos candeias acesas, a melhor espera é sair ao encontro. Esperamos sintonizados com os sofrimentos e os desafios do mundo, levando nas nossas candeias a luz que é Jesus Cristo.

A esperança cristã não é passiva. Não é demissão, mas compromisso. Sabemos com quem nos vamos encontrar. Porque Ele mesmo já veio ao nosso encontro. Que o seu nome é Pai e Amigo. É Amor. No tempo que nos é dado, somos responsáveis pelo cuidado do mundo e pela felicidade dos outros. A nossa brotará das sementes que lançarmos. Da beleza que ajudarmos a revelar-se e daquela que também criarmos. Esperamos de coração escancarado. Em saída para o encontro

A esperança cristã não é passiva. Não é demissão, mas compromisso. Sabemos com quem nos vamos encontrar. Porque Ele mesmo já veio ao nosso encontro. Que o seu nome é Pai e Amigo. É Amor. No tempo que nos é dado, somos responsáveis pelo cuidado do mundo e pela felicidade dos outros. A nossa brotará das sementes que lançarmos. Da beleza que ajudarmos a revelar-se e daquela que também criarmos. Esperamos de coração escancarado. Em saída para o encontro.

in Voz da Verdade, 08.11.2020

http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=9312&cont_=ver2

Capela do Rato


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01 novembro 2020

P / INFO: Crónicas, & Capela do Rato, horários das celebrações

Frei Bento: A vida é um exercício de esperança

Pe. Anselmo: Fratelli tutti (4). A fraternidade e as religiões

Cardeal Tolentino: A morte é uma flor

Pe. Vítor Gonçalves: Santos? Nós?

 

A VIDA É UM EXERCÍCIO DE ESPERANÇA

Frei Bento Domingues, O.P.

Evitar a pergunta sobre o sentido da nossa passagem pela terra é descuidar a questão essencial.

 

1. Segundo o grande historiador das religiões, Mircea Eliade, a crença na vida para além da morte está demonstrada desde os tempos mais remotos. As primeiras sepulturas conhecidas confirmam a antiguidade dessa crença. Os enterros direccionados para Oriente – e os usos dos seus rituais – indicavam a intenção de conectar a sorte da alma com o curso do sol, ou seja, a esperança num “renascimento”, a existência num outro mundo com marcas e utensílios das ocupações da vida anterior. Daí a sua conclusão: o homo faber era também homo ludens, sapiens e religiosus[1].

A festa de Todos os Santos e a celebração de Todos os Fiéis Defuntos podem ser estudadas como fenómenos internos do cristianismo, mas também em ligação com outra história subjacente: a história da cristianização de festas e mitos pagãos.

O desejo de viver e de renovar a vida parece fazer parte de qualquer ser humano. Para uns, a morte apresenta-se como o fim dessa utopia. Para outros, é inconcebível que esse desejo natural possa ser frustrado e acreditam, de modos muito diferentes, que a morte não é a última palavra.

Diz-se que a biomedicina actual promete a imortalidade do corpo neste mundo[2]. Veremos, como dizia o ceguinho.

2. A posição do ser humano, na totalidade do cosmos, continua muito periférica, embora carregada de perguntas. Que são, afinal, os meus anos de vida em comparação com a idade da humanidade? Que são os 100.000 anos da humanidade em comparação os 13 milhões de anos do cosmos? E para onde vai a grande história do cosmos? Para onde vai a humanidade e para onde vou eu próprio?

No nosso tempo, essa problemática assumiu dimensões que nos afectam, na relação e no comportamento com o nosso planeta, que não podemos ignorar. Apesar de todos as incoerências – devido sobretudo aos falsos interesses das grandes potências – vai crescendo a sensibilidade a respeito do ambiente, do cuidado com a natureza e com tudo o que de negativo está acontecer à Casa Comum.

Quando se pergunta que tipo de mundo se procura deixar às futuras gerações, a resposta não pode ser fragmentária. O Papa Francisco, com a Encíclica Laudato SI, tentou abrir o caminho para uma ecologia integral, ajudando-nos a tomar consciência de que, sem nos reconhecermos como irmãos – Fratelli Tutti –, deitamos a perder as melhores conquistas da história humana. Evitar a pergunta sobre o sentido da nossa passagem pela terra é descuidar a questão essencial. Não somos seus donos, estamos de passagem e devemos deixá-la melhor do que a encontramos.

Temos, por isso, o direito e o dever de nos apaixonarmos pelas coisas da Terra, como dizia P. Teilhard de Chardin. Na poética bíblica, são coisas do jardim de Deus para o trabalho e alegria de todos os seus filhos e filhas: um ensaio para entrar nos misteriosos novos céus e nova terra, onde serão enxugadas todas as lágrimas[3].   

3. O Credo cristão apresenta-se como um tecido das razões da grande esperança, alma da religião. Termina assim: e espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há-de vir. Ámen[4].

Não diz como é que isso possa acontecer e duvido das explicações teológicas que encontrei. Inscrevo-me na prática da antiga teologia negativa que exige o salto da negação para obter afirmações que superem a própria analogia.

Para mim, esta confissão de esperança é uma admirável e rotunda recusa do niilismo. Para quem acredita que Jesus Cristo é Deus-connosco, a última palavra sobre a aventura humana não pode ser a evidência empírica da morte. Deus pode querer os seus filhos e filhas, para sempre, irmãos e irmãs de Cristo crucificado.  

 Um processo de canonização é muito caro, muito selectivo, muito influenciado pela geografia, em alguns casos muito demorado e noutros parece demasiado apressado. De qualquer modo, não corresponde à fantástica visão do Apocalipse – livro admirável da resistência cristã – proclamada, hoje, na celebração de Todos os Santos: «uma multidão imensa que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas» fazem parte do verdadeiro corpo místico de Cristo.

Nesta celebração, além do texto referido do Apocalipse, a 1ª Carta de S. João é de uma ousadia extrema. Insiste que já somos filhos de Deus, mas ainda não vemos Aquele em quem pusemos a nossa esperança. Quando se manifestar, então, veremos não só quem Ele é, mas descobriremos também que somos mesmo semelhantes a Deus[5].

As famosas bem-aventuranças são o tema do Evangelho de S. Mateus, seleccionado para a celebração de Todos os Santos. É paradoxal: felizes são os infelizes. Felizes os pobres, deles é o Reino dos Céus; felizes os humildes, possuirão a terra; felizes os que choram, serão consolados; felizes os que têm fome e sede de justiça, serão saciados; felizes os misericordiosos, alcançarão misericórdia; felizes os puros de coração, verão a Deus; felizes os que promovem a paz, serão chamados filhos de Deus; felizes os que sofrem perseguição por amor da justiça, deles é o Reino dos Céus. E conclui, dirigindo-se aos discípulos: «bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa»[6].

Não se trata de uma reportagem, em directo, de um sermão ou de alguém que tinha uma memória prodigiosa para reter e conservar palavras que só foram escritas cerca de 50 anos depois. Os Evangelhos são interpretações contextuais, não traições, para transmitir o espírito de Cristo, segundo as necessidades das comunidades cristãs, em tempos diferentes.

Neste sermão, são alterados os critérios mundanos da felicidade. Foi-nos revelado que Deus vê o mundo a partir da periferia, dos que são deixados ao abandono. Só nos parecemos com Deus, quando é também esse o nosso olhar e o nosso cuidado. Mas é, também, um corte com os desejos que Jesus notava nos seus discípulos: eram pobres, mas com o sonho de se tornarem ricos, poderosos, dominadores. As bem-aventuranças são uma radical alteração de valores, acompanhadas pelas obras de misericórdia, pelas quais somos julgados.

A vida é um exercício de esperança, como diz Enzo Bianchi, não de enganos. Quando em certa pregação e espiritualidade se insistia: sofre, sofre agora porque estás a ganhar um lugar no céu, estava a perverter o espírito cristão da esperança.

Neste doloroso tempo de pandemia, as bem-aventuranças estão a ser vividas por crentes e não crentes que ajudam a resistir à sua cruel devastação.

Sem esperança é impossível viver.

in Público 01.11.2020

https://www.publico.pt/2020/11/01/opiniao/opiniao/vida-exercicio-esperanca-1937350



[1] Cf. Hans Küng, Vida Eterna? Cristiandad, Madrid, 1983, pp.94-96

[2] Cf. Daniel Serrão, Questões de Bioética, in Deus no século XXI e o futuro do Cristianismo (Coord. Anselmo Borges), Campo das Letras, 2007, pp. 333-345.

[3] Ap 21, 1

[4] Credo Niceno-Constantinopolitano

[5] 1 Jo 3, 1-3

[6] Mt 5, 1-12

 

Fratelli tutti (4). A fraternidade e as religiões

 

Do tríptico liberdade, igualdade e fraternidade, é a fraternidade que, sem a referência à transcendência, tem dificuldade em encontrar um fundamento último sólido. Por isso, Francisco escreve: "Como crentes, pensamos que, sem uma abertura ao Pai de todos, não pode haver razões sólidas e estáveis para o apelo à fraternidade. Estamos convencidos de que só com esta consciência de filhos que não são órfãos podemos viver em paz entre nós. Com efeito, a razão, por si só, é capaz de ver a igualdade entre os homens e estabelecer uma convivência cívica entre eles, mas não consegue fundar a fraternidade."

 

A própria ética, embora autónoma, terá dificuldade em estabelecer um fundamento inabalável, sem essa abertura à transcendência. De facto, o ser humano é terrivelmente carente e, por isso, irracionalmente egoísta e está sempre sob o perigo de ser sub-repticiamente assaltado pela pergunta: porque é que hei-de fazer o bem e cuidar do outro em necessidade mesmo quando isso agride os meus interesses e me prejudica? Neste contexto, Francisco continua, derrubando a acusação feita por católicos conservadores de fomentar o relativismo: "Quero lembrar um texto memorável de João Paulo II: "Se não existe uma verdade transcendente, na obediência à qual o homem adquire a sua plena identidade, então não há qualquer princípio seguro que garanta relações justas entre os homens. Com efeito, o seu interesse de classe, de grupo, de nação contrapõe-nos inevitavelmente uns aos outros. Se não se reconhece a verdade transcendente, triunfa a força do poder, e cada um tende a aproveitar-se ao máximo dos meios à sua disposição para impor o próprio interesse ou opinião, sem atender aos direitos do outro. A raiz do totalitarismo moderno deve ser individuada na negação da transcendente dignidade da pessoa humana, imagem visível de Deus invisível, e precisamente por isso, pela sua própria natureza, sujeito de direitos que ninguém pode violar: indivíduo, grupo, classe, nação ou Estado. Nem tampouco o pode fazer a maioria de um corpo social lançando-se contra a minoria.""

 

2 A maior parte da Humanidade continua a afirmar-se religiosa. Francisco está convicto - por isso, confia e espera - de que as religiões todas, de acordo com a sua essência e razão de ser, levarão à prática, por palavras e obras, o que constitui o fundamento e o mandamento principal de todas elas: o amor, a misericórdia, a paz, a fraternidade. Por isso, acrescenta: "Como crentes das diversas religiões sabemos que tornar Deus presente é um bem para as nossas sociedades." Daí, a exigência da liberdade religiosa: "Conheceis bem a brutalidade a que pode conduzir a privação da liberdade de consciência e da liberdade religiosa, e como desta ferida se gera uma Humanidade radicalmente empobrecida, porque fica privada de esperança e de ideais." Quando se expulsa Deus da sociedade, "acaba-se adorando ídolos e bem depressa o próprio homem se sente perdido, a sua dignidade é espezinhada, os seus direitos violados".

 

O cristianismo e o islão juntos somam mais de metade da Humanidade, e Francisco confessa que, para esta encíclica, recebeu estímulo do "Documento sobre a fraternidade humana", assinado por ele e pelo Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb em Abu Dhabi em 2019, no qual se recorda que Deus "criou todos os seres humanos iguais nos direitos, nos deveres e na dignidade e chamou-os a conviver como irmãos."

 

Dirige-se a todos, não só aos crentes. Aliás, há ateus que vivem mais de acordo com a vontade de Deus do que alguns crentes: "Quando chegar o último dia e houver luz suficiente na Terra para poder ver as coisas como são, não faltarão surpresas!"

 

3. E a inevitável pergunta sobre a violência e a opressão brutais exercidas ao longo dos séculos pelas religiões, de que o exemplo mais recente é a morte de Samuel Paty, professor francês, degolado em nome de Alá, por defender a liberdade de pensamento e de expressão? Como resposta, penso que há dois princípios imprescindíveis, irrenunciáveis.

 

3.1 Quem é a pessoa religiosa, crente? Aquele, aquela que, perante as perguntas religioso-metafísicas, inevitáveis: qual é o Fundamento último de tudo, qual é o Sentido final da minha existência, da História, do mundo, ousa entregar-se confiadamente ao Sagrado, ao Mistério último, ao Absoluto, a que também se dá o nome de Deus, do qual espera Sentido último e salvação. As religiões, essas, são tentativas de dizer e tornar presente o Mistério, o Absoluto, mas elas não são o Absoluto. Por isso, como escreveu Kant, as religiões, apesar da sua majestade, não são imunes à crítica. Pelo contrário, já que nelas há de tudo: o melhor e o pior.

 

Este princípio tem uma aplicação concreta, essencial: os Livros sagrados não são ditados de Deus, são Palavra de Deus em palavras humanas. Por isso, exigem interpretação histórico-crítica, sendo critério decisivo da sua verdade a ética a defesa da dignidade de todos, a promoção da fraternidade universal e da paz.

 

3.2 Para garantir a liberdade religiosa de todos - ter esta ou aquela religião, não ter nenhuma, mudar de religião -, exige-se a separação da religião e da política, o Estado tem de ser confessionalmente neutro, não podendo ter uma religião oficial. É o princípio da laicidade, que não laicismo - este seria a religião da não religião, ao pretender remetê-la exclusivamente para o domínio da esfera privada ou íntima, ignorando que a religião também tem lugar no espaço público.

 

Padre e professor de Filosofia.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

in DN 31.10.2020

www.dn.pt/edicao-do-dia/31-out-2020/fratelli-tutti-4-a-fraternidade-e-as-religioes--12977595.html?target=conteudo_fechado

QUE COISA
SÃO AS NUVENS

JOSÉ
TOLENTINO
MENDONÇA

A MORTE É UMA FLOR

É sabido como, no seu “Cântico das Criaturas”, São Francisco de Assis apelida de irmãos e irmãs o sol e as estrelas, o vento e as nuvens, a água ou o fogo. Mas apenas por duas vezes nessa composição se usa o possessivo para dizer não irmã mas “nossa irmã”. A primeira é quando Francisco se refere à terra: “Louvado sejas, meu Senhor,/ pela nossa irmã, a mãe terra,/ que nos sustenta e governa,/ produz frutos diversos,/ flores e ervas.” A segunda vez é quando fala da morte: “Louvado sejas, meu Senhor,/ pela nossa irmã, a morte corporal,/ da qual homem algum pode escapar.” A terra e a morte são, de facto, duas experiências que substancialmente definem o âmago da nossa humanidade. Somos criaturas terrenas e seres destinados a realizar a experiência da morte.

Pensar o que é a morte corresponde, deste modo, a abraçar o que a vida é. A morte está connosco desde sempre e, mesmo se não nos damos conta, acompanha-nos. No poema onde Paul Celan explica que “a morte é uma flor”, refere também que ela floresce quando quer, mesmo fora da sua estação. E Celan insiste na familiaridade que cada um de nós é chamado a criar vida fora com a sua morte. Se repararmos bem, ela já “vem, grande mariposa, adornando os caules ondulantes”. Há, de facto, uma inevitável relação a trabalhar: aquela de cada um de nós com o horizonte da própria morte. Os textos bíblicos sapienciais insistem muito nisso: “Homem, recorda-te que és mortal”, “Homem, transforma o facto de teres os dias contados numa fonte de sabedoria” (cf. Sl 90:12). O que não quer dizer que alguma vez conseguiremos remover a tensão que a ideia da morte nos desperta ou que esta se deva tornar indolor e pacífica para nós.

Somos criaturas terrenas e seres destinados a realizar a experiência da morte. Pensar o que é a morte corresponde, deste modo, a abraçar o que a vida é

Por exemplo, tão ou mais doloroso do que encarar a nossa morte é sofrer a morte daqueles que amamos. Um testemunho pungente no cristianismo antigo chega-nos através da amizade que ligou dois importantes teólogos do século IV, Gregório de Nazianzo e Basílio de Cesareia. Meditando no afeto que os irmanava, Gregório escreveu que lhe parecia muitas vezes serem uma só alma em dois corpos. E no lamento pela morte de Basílio deixou uma das mais realistas descrições sobre o que o luto representa: “Se me viessem contar que um corpo poderia viver sem a sua alma eu acreditava. Mas não que poderia viver sem ti.” É realmente impossível viver sem os outros. A ausência daqueles que amamos continuará a doer-nos até ao fim. E continuaremos, até ao fim, a trabalhar interiormente esse vazio, que depois se descobre não ser só vazio mas também excedência, também companhia, pois a memória dos nossos mortos é uma pátria sagrada que não nos larga. A ela vamos buscar a força, o entendimento de nós mesmos, a palavra que nos disseram, o gesto com que nos surpreenderam, o rastro do coração que neles bateu tão forte e do qual nos sentimos para sempre herdeiros. Penso muitas vezes que Herberto Helder perdeu a mãe aos 8 anos de idade e que, quase 25 anos depois, escreveu talvez o mais belo poema da nossa literatura sobre a figura da mãe. O tempo do afastamento surge transformado em tempo para uma presença que perdura. O poema de Herberto conclui-se assim: “...o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,/ e através dele a mãe mexe aqui e ali,/ nas chávenas e nos garfos./ E através da mãe o filho pensa/ que nenhuma morte é possível e as águas/ estão ligadas entre si/ por meio da mão dele que toca a cara louca/ da mãe que toca a mão pressentida do filho./ E por dentro do amor, até somente ser possível/ amar tudo,/ e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.”

in Semanário Expresso, 31.10.2020

leitor.expresso.pt/semanario/semanario2505/html/revista-e/que-coisa-sao-as-nuvens/a-morte-e-uma-flor  

TODOS OS SANTOS Ano A

Pe. Vitor Gonçalves

“Bem-aventurados os misericordiosos,

porque alcançarão misericórdia.”

Mt 5, 7

Santos? Nós?

O mês de novembro começa com dois dias especialmente dedicados a levantarmos os olhos e o pensamento para mais além da vida deste mundo: o dia de Todos os Santos e o dos fiéis defuntos. Ambos nos falam da esperança cristã e caracterizam-se pela universalidade. Não temos aprendido essa realidade com esta pandemia que nos recorda como todos somos contagiáveis, hospitalizáveis e mortais? Será que aprenderemos a responsabilidade pela vida de todos, pela cura de todos, pela dignidade de todos? Ou pensávamos que a frase cheia de esperança “Todos vamos ficar bem”, colocada em tantas janelas, não implicava verdadeiras mudanças de estilos de vida?

Celebramos num dia todos os homens e mulheres, de todos os tempos e lugares, conhecidos e desconhecidos que viveram o evangelho de Jesus, “olharam o mundo com amor e os / homens como irmãos. […] que Te seguiram e contigo conviveram, de modo admirável: com os que tinham fome partilharam o seu pão / olharam compadecidos as dores / do mundo e sofreram perseguição por causa da Justiça.” (Maria de Lourdes Belchior). É a multidão incontável dos “santos ao pé da porta”, na maravilhosa diversidade de dons colocados ao serviço do Reino, com mais ou menos conhecimento do Pai que enviou O Filho e nos deu o Espírito Santo, mas que “o seu presente era já quase só amor”.

E não será este caminho só para alguns? Jesus indica-o a todos, e o Concílio Vaticano II disse que essa é a verdadeira “vocação universal”. Nos caminhos de cada um, com as qualidades e defeitos que temos, como desejamos a felicidade, assim somos chamados à santidade. Não concordamos que todo o ser humano deseja ser feliz? É verdade que podemos imaginar muitos modos de sê-lo, mas, à medida que caminhamos, percebemos que o que nos parecia fácil, que não exigiu esforço, que só alimentou o egoísmo e o orgulho foram “falsas felicidades”. Assim, as “Bem-aventuranças” aparecem em “contra-corrente” com o marketing habitual das felicidades. Ser pobre no coração, reagir com humilde mansidão, saber chorar com os outros, buscar a justiça com fome e com sede, olhar e agir com misericórdia, manter o coração limpo de tudo o que mancha o amor, remear a paz ao nosso redor, e abraçar diariamente o caminho do Evangelho mesmo que nos acarrete problemas: isto é santidade (Cf Papa Francisco, Gaudete et exsultate 67-94)

Sim, na verdade não será para nós, se só contarmos com as nossas forças. Se quisermos fazer da vida uma corrida, um triunfo, uma glória pessoal. Se estivermos mais cheios das nossas capacidades do que da alegria de crescer com outros, de os amar como são (pois é assim que Deus ama), de receber a sua ajuda e, de querer ser com e como Jesus. Mas acreditem que é mesmo para todos!

in Voz da Verdade 01.11.2020

http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=9299&cont_=ver2

 Inscrições para as Eucaristias

do XXXII Domingo do Tempo Comum

 

 Para permitir uma maior participação de fiéis, passam a ser celebradas, na Capela do Rato, duas eucaristias na manhã de domingo.  

A primeira eucaristia é celebrada às 11h; a segunda às 12.30h. 
Para melhor controle do número de presenças, pede-se que se faça uma inscrição prévia no formulário disponível aqui, para as celebrações na Capela do Rato (11h00 e 12h30) no próximo dia 8 de novembro.

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