18 maio 2014

Fátima e a crise

Anselmo Borges

O que move tanta gente a pé para Fátima? Trinta e cinco mil, este ano, segundo consta. No fundo, diria que é a Mãe. Ele há tanto sofrimento - físico, psicológico, moral, próprio, dos filhos, do marido, da mulher, da mãe, do pai... E a Mãe não há-de entender e socorrer?

Depois, lá chegados, homens e mulheres, agradecem à Mãe as graças, gritam lá no mais íntimo, suplicam, choram, cumprem as promessas, de joelhos ou mesmo arrastando-se. E a gente comove--se. E é preciso respeitar o sofrimento das pessoas e manifestar--lhes compaixão activa na sua dor. Quem se atreverá, perante o sofrimento, por vezes extremo, a ridicularizar, em vez de tentar compreender e ajudar?

Mas, dito isto, deve-se acrescentar que é preciso evangelizar Fátima e o Deus de Fátima, mesmo sabendo que se trata de uma tarefa quase impossível. Foi o famoso antigo bispo de Nampula, D. Manuel Vieira Pinto, que me contou que, encontrando-se em Fátima, se deparou com uma senhora que, de joelhos, se arrastava a custo para a Capelinha das Aparições. Na tentativa de demovê-la, pois o Evangelho não é a favor de promessas nem do sacrifício pelo sacrifício, foi-lhe dizendo que Deus não queria aquilo e que ele, bispo, até podia substituir a promessa, por exemplo, pela ajuda a uma obra social. Insistiu, sublinhando até que assumia a responsabilidade. Mas a senhora atirou-lhe: "Vá com Deus, senhor bispo. Não foi a si que eu fiz a promessa." O bispo voltou-se para dentro de si e ter-se-á interrogado como é que o Evangelho tem dificuldade em entrar na Igreja.
 
 

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