03 outubro 2014

Jesus e a Igreja ainda interessam à sociedade portuguesa?

Texto de Ana Vicente

No dia 19 de Setembro 2014 houve uma HOMENAGEM A FREI BENTO DOMINGUES O.P., que se realizou no Auditório 2, Fundação Calouste Gulbenkian. O programa era aliciante e o homenagedo merecia. O tema geral era CIDADANIA, CULTURA E TEOLOGIA NA PRAÇA PÚBLICA. Por isso encheu-se a sala e transbordou ainda. Participei num painel cujo título era

JESUS E A IGREJA AINDA INTERESSAM À  SOCIEDADE PORTUGUESA?

Juntamente com o Pastor Dimas de Almeida e com o Prof.  Miguel Oliveira da Silva.

A moderação foi de Maria Conceição Moita.

Eis o texto que preparei e que apresentei numa versão um pouco mais resumida.

Agradecimentos pelo convite a António Marujo, Julieta Mendes Dias e Guilhermina Gomes e saudações pela iniciativa – Excelente ideia a edição dos dois volumes para memória futura. Saúdo também a excelente Fundação Gulbenkian, na pessoa do seu presidente, Dr Artur Santos Silva.

Começo por agradecer ao Frei Bento o precioso apoio que tem dado ao longo destes anos ao Movimento Internacional Nós Somos Igreja – Portugal.

O Frei Bento veio ao mundo para nos animar, fazer rir e pensar. Conheço-o há mais de de 50 anos e sou disso testemunha fidedigna. Vou contar uma história que se passou em 1995, pouco tempo depois da grande Conferência Internacional das Nações Unidas sobre as Mulheres, em Pequim. Estavamos em Leiria, perante uma sala imensa, com cerca de 200 pessoas presentes, incluindo o Bispo da diocese. Debatia-se, obviamente, os direitos das mulheres. A dada altura o Frei Bento perguntou à assistência: ‘sabem porque é que as mulheres não podem ser ordenadas?’ e respondeu à sua própria pergunta: ‘porque as mulherzinhas não têm cabeça.’ Imaginem o espanto que se espalhou pela sala.

Ou seja,  passou e continua a passar pela terra deixando muitas marcas – faz a diferença, fazendo ecoar uma frase muito utilizada no mundo anglo-saxónico – todos devemos e podemos fazer a diferença – é só uma questão de querer e de ter a noção de que temos muitos talentos, úteis para nós próprias e para as outras.

Desdobrando a pergunta que nos foi colocada – Jesus e Igreja – eu diria que Jesus interessa à sociedade portuguesa,  por que as pessoas entendem, de uma forma muito intuitiva e profunda, que Jesus passou nesta terra precisamente para ‘fazer a diferença’, ‘fazer diferente’ – totalmente diferente. Entendem que Jesus é uma pessoa absolutamente livre – e autêntica e por isso extremamente inspiradora e amável. A personagem Jesus que nos é oferecida pela história desenha um homem que se coloca ao nosso nivel, entende e respeita as nossas ideosincracias, e dá-nos sempre o braço na caminhada mais ou menos complexa da vida: nada impõe – antes propõe um mandamento que é de uma simplicidade básica imensa, baseado em príncipios de psicologia elementar – amai-vos uns aos outros – aimai os outros como vos ameis a vós próprios -  não faças aos outros o que não gostas que te façam a ti.

A forma de ser e de viver de Jesus é também de uma grande modernidade, em sintonia com valores enunciados/trabalhados no nosso tempo: – separação da Igreja e do Estado, já hoje aqui referida, direitos humanos, abertura à mudança, empoderamento individual, igualdade, perspectiva de futuro, capacidade individual e colectiva de intervenção, - por tudo isto Jesus é uma figura que continua a ‘interessar’ no presente.

Atribui-se a Jesus a fundação de uma religião e consequentemente de uma instituição-Igreja, para lhe dar força e continuidade – e há teólogos que se interrogam sobre se seria, de facto, esses o objectivo de Jesus.

Olho agora para a religião.

Constata-se que as ciências sociais estão a estudar, com crescente atenção, a relevância da religião na vida dos indivíduos e das comunidades. O ‘11 de Setembro de 2001’ teve influência na mudança de perspectiva, mesmo que as motivações reais desses atentados não estivessem assentes em princípios religiosos.

Tempos houve, quando Tony Blair iniciou a sua década de poder como Primeiro-Ministro Britânico (1997-2007) - em que a resposta dada pelo Gabinete a matérias de índole religiosa era ‘We don’t do God’ – ‘Nós não tratamos do assunto ‘Deus’ ’.

Actualmente, pós 11 de Setembro todas as e os políticas/os já perceberam que Deus, e a pertença religiosa, seja qual for a sua forma, é muito importante na vida de biliões de pessoas e por isso, também tem que ser assunto da maior importância para a política.

Recordemos que houve uma fase em que se admitia que com o ‘progresso’ as religiões iriam decair e eventualmente mesmo, desaparecer. Contudo verifica-se precisamente o contrário. Apesar de terem melhorado os níveis de desenvolvimento humano, a nível global, o número de crentes continua a aumentar, no mundo em geral. Contudo, estamos a constatar que ser crente, ser cristão, ser católico, em Portugal,  já não significa o mesmo que antigamente. Agora quem é crente é-o por opção, por convicção e não por tradição ou imposição.  A crente, o crente, tornou-se muito mais adulto na sua fé – já não aceita de forma passiva e pacífica as ‘instruções’ que lhe são dadas/impostas ensinadas pela autoridades religiosas, sobretudo quando estas são contraditórias com a letra e o espírito do Novo Testamento.  Proponho aqui que o Frei Bento contribui com o seu pensamento e a sua escrita para esta saudável caminhada na autonomia de muitos crentes.

Aliás o interessantíssimo estudo de 2012, coordenado  por Alfredo Teixeira, realizado a pedido da Universidade Católica,  confirma-o de forma científica.  Havendo decréscimo no número daqueles que se declaram católicos e um aumento daqueles que se dizem não crentes ou sem religião, há um grupo que cresce – são os crentes sem religião: A Agência Ecclesia escreveu o seguinte: «As principais razões  apontadas pelos inquiridos, para não ter religião, apesar de serem crentes,  são a discordância ‘com a doutrina’ e ‘com as regras morais das igrejas e religiões’, ou ainda porque preferem ser ‘independentes faces às normas e práticas de uma religião’ ou ainda discordam do ‘comportamento dos padres, pastores ou responsáveis religiosos.’» Ou seja há uma evidente tendência de se procurar ser autonomo face às autoridades religiosas.

Entretanto este estudo também verifica que os portugueses, católicos e não católicos, valorizam e apreciam a acção de instituições, identificadas como sendo católicas, junto dos pobres, dos idosos, dos mais frágeis, acção essa que, como sabemos é maioritariamente realizada por mulheres leigas e por freiras,  aquelas que depois são excluídas dos lugares de decisão na Igreja. Aproveito para saudar aqui não só de novo a Irmã Julieta, como as religiosas que vejo na sala.

Mas olhemos para a segunda parte da pergunta – a Igreja interessa à sociedade portuguesa? Aí necessariamente eu começaria por distinguir dois significados do significante -  Igreja:

Podemos estar a falar da Igreja como instituição, como estrutura, como organização,  ou podemos estar a falar de Igreja como Povo de Deus, como o conjunto dos baptizados, fazendo a sua caminhada de fé.

As e os organizadores certamente estavam a pensar na primeira definição e aí eu diria que a sociedade portuguesa está muito interessada na Igreja – veja-se o fenómeno ou ‘efeito’ Francisco – ao aparecer, de uma forma tão absolutamente inesperada e surpreendente, à cabeça de uma instituição extremamente hierarquizada –  um homem que nos comunica a sua fragilidade, simplicidade,  autenticidade e também as suas grandes contradições -  mas que procura praticar, através do gesto e da palavra, a mensagem de Jesus -  constata-se que as pessoas em Portugal (como no resto do mundo) ficam motivadas, enternecidas, entusiasmadas,  inspiradas. Esta figura de Igreja tornou-se, no espaço de um ano, num modelo de perfeição, a imitar. Ou seja, o interesse pela Igreja é manifesto, porque esta pessoa parece estar a corresponder às tremendas inquietações dos tempos presentes. Parece estar a dar prioridade aos factores que, de facto, são importantes na vida das pessoas:

A família –

As relações inter-pessoais -

O bem-estar social, ambiental e económico, o que pressupõe a paz -

Olhando o futuro da Igreja, dispomos agora de dois preciosos documentos onde se perspectiva porque é que a Igreja pode continuar a interessar as pessoas, para além de dispormos das crónicas do Frei Bento agora publicadas:

Refiro, obviamente, A Alegria do Evangelho, da autoria do papa Francisco, onde ele desenha uma Igreja fraterna, que faz o caminho, caminhando, que ouve, que responde – uma Igreja-comunidade ao serviço das pessoas concretas.

E outro documento, muito menos conhecido e mais recente, (Junho de 2014) elaborado pela Comissão Teológica Internacional e que se intitula O Sensus Fidei (O Sentido da Fé) na Vida da Igreja que a reputada teóloga britânica Tina Beatie considera verdadeiramente revolucionário, porque devolve ao Povo de Deus, no seu todo, o seu papel central na caminhada eclesial, precisamente uma das linhas mais fortes da teologia do Frei Bento.  Os membros da Comissão são 30, nomeados pelo papa e, lamentavelmente, só integra duas mulheres – parece que este número vai subir para 5 ou 6.

 A Igreja como instituição e como colectivo interessará cada vez mais à sociedade portuguesa quando esta:

Escutar, cuidar, intervir, com coragem e autenticidade, ou seja quando esta ‘imitar’ o Frei Bento Domingues.

Ou seja queremos ser

- uma Igreja inclusiva,

-  com uma nova atitude face às mulheres, e a propósito, é verdadeiramente absurdo organizar o próximo Sínodo sobre a Família com 253 participantes, dos quais cerca de 90% são homens e destes cerca de 70% celibatários, por pertencerem ao clero;

- uma Igreja onde o sacerdócio seja profundamente repensado

- uma Igreja que valorize a sexualidade, respeitando a orientação de cada pessoa, e

- uma Igreja com um empenhamento absoluto na esfera dos direitos humanos, dentro e fora da instituição. Muito obrigada Frei Bento.

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