1. A inspiração
do concílio Vat. II (1962-1965) foi retomada com vigor, originalidade e
alegria, por um bispo argentino, em 2013. 2017 foi o ano da contestação ruidosa
ao Papa Francisco, acusado, por grupos conservadores, de oito heresias! Como
recusa o papel de vedeta, continua ocupado, sobretudo, com as vítimas das mil
formas de pobreza e exploração de crianças, adolescentes, adultos, velhos,
doentes e com as guerras que provocam mundos de refugiados. Os seus gestos não
se destinam a chamar a atenção para a sua pessoa ou para a figura papal, mas
sim para a degradação da Casa Comum de
que todos somos responsáveis. Não se mostra fascinado por viagens triunfais. Os
seus destinos são lugares e situações, onde é preciso estabelecer pontes de
entendimento. Tudo isso é conhecido. Não se refugia, porém, no mundo dos grandes
princípios, porque sente que uma fé que não nos sacode é uma fé que deve ser
sacudida.
Na apresentação dos votos natalícios aos membros da Cúria
Romana (21.12.2017), continuou o estilo já adoptado em anos anteriores, mas
noutra direcção. Os meios de comunicação destacaram, apenas, uma frase que ele
usou, embora não tenha sido cunhada por ele: “Fazer as reformas em Roma é como
limpar a Esfinge do Egipto com uma escova de dentes”. Serve para dizer que a sua
determinação encontra muitas resistências, mas não vai desistir.
Sabe que existem conluios ou pequenos clubes que representam
um cancro infiltrado nos organismos eclesiásticos e, de modo particular, nas
pessoas que lá trabalham. Desce ao concreto na denúncia de um outro perigo: “o
dos traidores da confiança ou os que se aproveitam da maternidade da Igreja,
isto é, as pessoas que são cuidadosamente seleccionadas para dar maior vigor ao
corpo e à reforma, mas – não compreendendo a alçada da sua responsabilidade –
deixam-se corromper pela ambição ou a vanglória e, quando delicadamente são
afastadas, autodeclaram-se falsamente mártires do sistema, do «Papa
desinformado», da «velha guarda»... em vez de recitar o «mea culpa». A par
destas pessoas, há ainda outras que continuam a trabalhar na Cúria e às quais
se concede todo o tempo para retomar o caminho certo, com a esperança de que
encontrem, na paciência da Igreja, uma oportunidade para se converterem e não
para se aproveitarem. Isto naturalmente sem esquecer a esmagadora maioria de
pessoas fiéis que nela trabalham com louvável empenho, fidelidade, competência,
dedicação e também com grande santidade”.
O Papa Francisco não está preocupado com uma Cúria de puros
anjos a quem não haja nada a apontar, uma instituição exemplar para
autoconsolo. Seria ficar numa reforma ad
intra, numa estética organizativa. O que lhe importa é uma Igreja ad extra, de saída, de diálogo com
crentes e não crentes, para chegar a todas as periferias e colocá-las, não só
no centro das preocupações das Igrejas e das Religiões, mas também no centro da
política mundial.
2.
Um caso exemplar foi a sua recente viagem apostólica a Myanmar e ao Bangladesh,
países de minoria católica, mas de grande significação na promoção do diálogo
inter-religioso em condições extremamente complexas, dada a grave violação dos
direitos humanos. A Amnistia Internacional considera que as
autoridades de Myanmar estão a aplicar, ao povo rohingya, no Estado de Rakhine,
um sistema comparável ao apartheid, descrito como uma «prisão a céu aberto».
No avião de regresso, foi questionado sobre todos os passos
desse percurso. O mais importante era a questão da situação do povo rohingya. Uma jornalista
perguntou-lhe o que tinha sentido no encontro com esses exilados no Bangladesh.
Resposta
do Papa: “Aquilo não estava programado assim. (…) Depois de muitos contactos,
inclusive com o governo, com a Cáritas, o governo permitiu a viagem destes que
vieram ontem. (…) Aquilo que o Bangladesh faz por eles é estupendo, é um
exemplo de acolhimento. Um país pequeno, pobre, que recebeu 700 mil
refugiados...”.
“Vinham
cheios de medo, não sabiam que fazer. Alguém lhes dissera: «Cumprimentais o
Papa, não dizeis nada». (…) Chegou o momento de eles virem cumprimentar-me. Em
fila indiana: já não gostei disto, um atrás do outro. O pior é que,
imediatamente, queriam expulsá-los do palco. Nesse momento, irritei-me e
levantei um pouco a voz – sou pecador – e repeti muitas vezes a palavra
«respeito», respeito! Fiz parar a evacuação e eles ficaram lá. Em seguida,
depois de os ouvir um a um com a ajuda do intérprete que falava a língua deles,
comecei a sentir algo dentro de mim: «Não posso deixá-los ir embora, sem dizer
uma palavra»; e pedi o microfone. E comecei a falar... Não me lembro do que
disse. Sei que, a dada altura, pedi perdão. Penso que duas vezes, não me lembro”.
“Entretanto,
a sua pergunta é: «Que senti». Naquele momento, eu chorava. Fazia de modo que
não se visse. Eles choravam também. Depois pensei que estávamos num encontro
inter-religioso, mas os líderes das outras tradições religiosas estavam
distantes. [Então disse:] «Vinde também vós; estes rohingya são de todos nós».
E eles cumprimentaram. Eu não sabia o que dizer mais, porque fixava-os,
cumprimentava-os... Veio-me este pensamento: «Todos nós, líderes religiosos, já
falámos. Peço a um de vós que faça uma oração, um do vosso grupo». Penso que
foi um imã, um «clérigo» da sua religião, que fez aquela oração e eles também
rezaram ali connosco. Ao ver todo o caminho percorrido, senti que a mensagem
tinha chegado. Não sei se respondi à sua pergunta. Uma parte estava programada,
mas a maior parte saiu espontaneamente”.
3. O Papa
Francisco chorou com aqueles exilados. Por desgraça, ensinaram a Donald Trump a
oração de S. Francisco ao contrário: onde houver paz, que eu leve a guerra;
onde houver amor que eu leve o ódio; onde houver perdão que eu leve a ofensa;
onde houver a união que eu leve a discórdia; onde houver a verdade que eu leve
o erro, a mentira; onde houver esperança que eu leve o desespero; onde houver
alegria que eu leve a tristeza; onde houver luz que eu leve as trevas.
D. Trump parece ter uma paixão especial pelo caos. Sem a
promoção da desordem mundial, sem fazer sofrer, sem fazer chorar, não sabe o que
fazer como presidente dos EUA, um cego guia de muitos cegos.
Não vale a pena diabolizar este senhor da guerra e do
comércio das armas. É preferível que todos os cristãos, fundamentalistas ou
não, o saibam ajudar a descobrir a verdadeira oração de S. Francisco: onde
houver guerra, que eu leve a paz. É muito melhor para todos!
Bom Ano!
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público 31. 12. 2017
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