03 agosto 2019

O MAPA DO TESOURO

QUE COISA SÃO AS NUVENS
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

O MAPA DO TESOURO

NÃO DEVEMOS COLOCAR DE UM LADO O SONHO DE UMA VIDA AUTÊNTICA E DO OUTRO A VIDA ORDINÁRIA QUE VIVEMOS. É NO ENCONTRO DAS DUAS QUE A NOSSA EXISTÊNCIA REFULGE

No verão apetece-nos trocar os mapas. E há um sentido que se cumpre em fazer-se à estrada, em mudar de língua, de respiração e de paisagem, em deslocar-se na procura de outros lugares. O mundo é também a nossa experiência do mundo. E precisámos disso que se avista longe, disso que se toca nos cimos intangíveis, disso que nos é dito em linguagens que porventura nem percebemos a fundo, mas que na sua recôndita estranheza reconhecemos como próxima e íntima. A verdade é que nós não somos sedentários que se tornam viajantes. Somos desde sempre viajantes que provisoriamente se demoram antes de prosseguir, de novo, o curso da viagem. Mas tal como o caminho, também a nossa demora (por provisória que, perante o nosso destino último, ela possa ser) tem um significado, oferece-nos uma razão, abre-nos uma oportunidade.

Não somos sedentários que se tornam viajantes. Somos viajantes que provisoriamente se demoram antes de prosseguir, de novo, o curso da viagem

Penso muitas vezes naquela saborosa história hassídica que o filósofo Martin Buber conta num dos seus livros. É a história de Eisik de Yékel, um judeu de Cracóvia. Os muitos anos vividos na miséria não haviam abalado a sua confiança em Deus, e ele acabou recompensado com uma revelação. Recebeu em sonhos o mandato de deslocar-se até à cidade de Praga e de procurar aí um tesouro que estaria escondido debaixo da ponte que conduz ao palácio real. A primeira vez que sonhou com isso não ligou. À segunda ficou intrigado. Quando o sonho se repetiu pela terceira vez, Eisik levou-o a sério e fez-se a pé ao longo caminho. Chegou, por fim, a Praga e dirigiu-se imediatamente à ponte, mas esta — percebeu com desânimo — era controlada, noite e dia, por sentinelas, o que tornava impossível qualquer escavação no local. Contudo, não perdeu a esperança e girava para cá e para lá ao longo da ponte. Não decorreu muito tempo até que o capitão da guarda o interpelasse perguntando se esperava alguém ou procurava ali alguma coisa. A Eisik, porém, aquele soldado deve ter parecido amistoso, pois decidiu contar-lhe o sonho que o arrastara de sua casa até aquele ponto distante. O capitão não pôde conter uma gargalhada: “E por causa de um sonho, pobre homem, viajaste até aqui, desperdiçando as solas no caminho! Quem se pode fiar em sonhos! Imagina que, se assim fosse, também eu deveria já ter peregrinado até Cracóvia e escavar na casa de um certo judeu, chamado Eisik de Yékel, para tomar posse do tesouro que se encontra debaixo do forno! Estaria metido em belos trabalhos se confiasse em sonhos e me pusesse a escavar nas casas de uma cidade estranha onde uma metade dos habitantes judeus se chama Eisik e a outra metade Yékel!” Abanava a cabeça e não parava de rir. Eisik saudou-o, tomou o caminho de regresso a casa, e desenterrou o tesouro que há muito o esperava.

Trata-se de uma história antiquíssima e encontrámo-la contada com variantes em tantas literaturas populares. Ela relata um paradoxo que nos atravessa a todos. Esta perceção, primeiro, de que existe um tesouro extraordinário que nos está prometido; segundo, que não o podemos encontrar em parte nenhuma do mundo e, no entanto, sentimo-nos incessantemente chamados a buscá-lo; terceiro, que há apenas um lugar onde o podemos achar: no lugar familiar, comezinho e banal onde se inscreve o nosso rotineiro quotidiano. De facto, não devemos colocar de um lado o sonho de uma vida autêntica e de outro a vida ordinária que vivemos. É no encontro das duas que a nossa existência refulge. O maior tesouro é poder cumprir a existência que está, aqui e agora, ao meu dispor. Uma outra história da tradição hassídica diz o seguinte: Um dia, ao receber em sua casa alguns homens ilustres, o Rabi Mendel de Koretz surpreendeu-os com esta pergunta: “Onde mora Deus?” Perante a reação embaraçada dos seus hóspedes, o próprio Rabi acrescentou: “Deus mora onde o deixamos entrar.”
in Semanário Expresso, 03.08.2019 p 148

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