13 janeiro 2019

   P / INFO: Crónicas: Ano novo para a religião? A Igreja e o sexo, A esperança digna de espanto, Baptizado, hoje & Pope's preacher goes back to basics in talks to bishops e Até onde se pode debater na Igreja?
ANO NOVO PARA A RELIGIÃO?
Frei Bento Domingues, O.P.
A cooperação entre ciência, ética, religião e estética pode criar um clima espiritual que nos defende de todos os simplismos, irmãos de todos os fundamentalismos
1. O ser humano é um animal indeciso. No animal, os instintos e o mundo ao qual estão adaptados, ou são adaptados, formam um todo. Como escreveu Roger Garaudy[i], o animal é um feixe de respostas. O ser humano é um feixe de perguntas. Não se adapta apenas ao meio, transforma-o. Umas vezes para bem outras para mal.
 Nunca está em equilíbrio perfeito com a natureza. A lógica interna do seu mundo em crescimento, construído e governado pela ciência e pela técnica, leva-nos a pensar e agir como se todos os nossos problemas pudessem ser resolvidos pela ciência e pela técnica. Não é verdade. Mas só a estupidez pode dizer mal da investigação científica e das transformações tecnológicas. A sabedoria mais elementar descobre as suas espantosas vantagens e os seus quotidianos limites. É miopia esquecer que nenhuma actividade clarividente pode dispensar a interrogação filosófica, as linguagens da beleza e as exigências da ética.
Não é impossível descobrir, por outro lado, que não estamos apenas em face de problemas e enigmas que mais cedo ou mais tarde poderão encontrar soluções. Em todos os tempos e lugares há testemunhos de pessoas que despertaram para o mistério sem nome que resiste a todas definições e classificações, um não sei quê, uma noite luminosa que tudo envolve e sem a qual tudo se banaliza ou enlouquece. O fundamental na atitude religiosa é o espírito de atenção, de releitura constante do mistério do mundo. Isto nada tem a ver com o irracionalismo, pai da violência, seja em que domínio for. A própria religião, sem a vigilância ética, pode tornar-se uma abominação.
Dada a complexidade de tudo o que ficou dito, parece-me que a cooperação entre ciência, ética, religião e estética pode criar um clima espiritual que nos defende de todos os simplismos, irmãos de todos os fundamentalismos. Como diz o físico Antonio Rañada os fundamentalistas religiosos e os ateus militantes têm algo em comum: acreditam que a geografia do mundo cabe toda num só mapa, seja na interpretação intransigente de um livro sagrado ou nos dados de uma ciência exclusivista e totalizadora.
2. Na organização do calendário litúrgico, este Domingo celebra o Baptismo de Jesus banhado num clima de enigmas. Há razões para julgar que lhe assiste alguma base histórica, apresentada numa interpretação de continuidade e ruptura com o profetismo do Antigo Testamento.
 Não convinha nada que Jesus fosse baptizado por João que tinha discípulos que sobreviveram ao seu assassinato e ao de Jesus. Estes poderiam sempre dizer aos seguidores de Cristo: foi o nosso mestre que baptizou o vosso e não o contrário. De facto, nos diferentes Evangelhos existe uma vontade de mostrar que Jesus exaltou a figura de João Baptista e este a de mostrar que não era ele o messias. Apenas lhe preparava o caminho. A narrativa de S. Lucas é comovente. Por um lado, faz de Jesus um discípulo de João, por outro, mostra a ruptura com o seu antigo mestre[ii].
O que terá acontecido? João era o símbolo da necessidade de reformar a religião de Israel, mas ainda na linha austera dos profetas. A sua pregação não se afastava de um rigor moralista carregado de ameaças. Jesus teve uma experiência espiritual que o obrigou a romper com esse mundo. Diz o texto que Jesus baptizado entrou em oração. O resultado exprime a própria personalidade do Nazareno: Ele é a terra aberta ao céu e o céu aberto à terra, aberto a todos os mundos. O Espírito de Deus, ao banhar o seu espírito, declara que Ele é um filho muito amado. Jesus sai dessa experiência com uma missão: mostrar que toda a gente, a começar pela mais desclassificada, sob o ponto de vista religioso, moral e material, é amada por Deus e chamada a viver do mesmo Espírito: Espírito de Deus, Espírito de Cristo, Espírito de renovação da Igreja, Espírito de transformação do mundo, numa imensa pluralidade de carismas e de caminhos. É um Espírito que solicita a nossa inteligência e a nossa vontade, mas que nunca se impõe à nossa liberdade.
3. Com este novo ano surgiu um novo jornal online. Chama-se 7Margens. Pretende preencher uma lacuna. António Marujo e Jorge Wemans explicam o projecto: A partir de hoje tem à sua disposição informação, notícias, alertas, opinião e comentário sobre as mais diversas buscas espirituais que marcam o nosso tempo, desde as acolhidas e promovidas pelas religiões estabelecidas, até àquelas sem nome protagonizadas por pessoas de todas as formações.
Em setemargens.com encontrará tudo isto, editado e orientado por critérios jornalísticos. Independente de qualquer instituição, religiosa ou outra, setemargens.com rege-se por princípios profissionais e tem como objetivo tratar informação relativa ao fenómeno religioso, entendido na maior abrangência possível do conceito. Deste ponto de vista, é um projeto inédito no mundo que fala português.
A entrevista a Pedro Abrunhosa a propósito do seu novo disco, Espiritual, foi uma boa escolha. Recorto uma passagem que tem a ver com o Espírito deste Domingo e desta crónica: “ Vivem-se momentos de ausência de mistério, momentos de pura fisicalidade, de aparência, muita aparência, de “eu sou o que tenho”, “eu sou o que mostro que tenho”. Às vezes, nem é o que tenho, se eu mostrar as pessoas vão deduzir que tenho. Logo, sou aquilo que mostro. E isso faz com que se viva numa feira de vaidade, que me faz lembrar muito os vendilhões do templo, faz-me lembrar muito este abastardamento dos valores humanos, que é uma das falências da decadência. Os impérios começam a decair exactamente por isso, por uma certa febre da vaidade da aparência”.
Não posso esconder a alegria que este acontecimento me provocou. Sem pretender constituir uma alternativa ao que existe na Igreja, vai certamente viajar por paisagens que ela ou ignora ou faz que ignora. Serão novos olhos a ver o que a cegueira dos grandes meios de comunicação insiste em ignorar.
Outra carência do nosso catolicismo é a falta de espírito de interrogação filosófica, sem a qual a teologia adormece. Em Coimbra, lembrando José Dias da Silva, o Instituto Universitário Justiça e Paz vai revisitar, a várias vozes, a Doutrina Social da Igreja e as suas incidências na intervenção política.
Em Lisboa, na Capela do Rato, vários nomes conhecidos da cultura portuguesa vão interrogar a Filosofia, a Literatura, a Espiritualidade.
Não sou jornalista, mas desejo que este novo ano nos traga muitas e boas surpresas.


[i] Cf Palavra de Homem, D Quixote, Lisboa, 1975
[ii] Lc 3, 15-22

in Público 13. 01. 2019        
www.publico.pt/2019/01/13/sociedade/opiniao/ano-novo-religiao-1857443

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A Igreja e o sexo
Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
                                                         
Na sua obsessão pelo sexo, a Igreja não pode reclamar-se de Jesus. De facto, segundo os Evangelhos, Jesus raramente falou de sexo e, quando o fez, foi provocado por perguntas que lhe fizeram. E, aí, apelou para o amor, a fidelidade no casal e a igualdade do homem e da mulher. Apaixonado pela felicidade das pessoas, participou em festas de casamento e até fez com que aparecesse o vinho que faltava: 600 litros! Ele próprio celibatário, não impôs o celibato: São Pedro, por exemplo, era casado, e o celibato obrigatório para os padres na Igreja do Ocidente só começou a impor-se no século XI, com o Papa Gregório VII.
O que envenenou a relação da Igreja com a sexualidade foi, essencialmente, a influência perniciosa da gnose, que, contra o cristianismo autêntico, desprezava a matéria e o corpo. Depois, Santo Agostinho, a partir de uma experiência pessoal negativa da sexualidade e de uma exegese errada – ele seguiu a tradução latina de um passo célebre da Carta de São Paulo aos Romanos, capítulo 5, versículo 12: Adão, “no qual” todos pecaram, quando o original grego diz “porque” todos pecaram --, formulou, como solução para o problema do mal, a doutrina do pecado original. E a questão é que esse pecado foi entendido não como o primeiro de todos os pecados – todos os seres  humanos são pecadores --, mas como um pecado herdado de Adão e transmitido por geração, portanto, no acto sexual.  Finalmente, com a reforma gregoriana, foi-se erguendo a tríplice coluna sobre que assenta, segundo Hans Küng, o paradigma católico-romano: papismo (poder centrado no Papa), celibatismo (celibato obrigatório por lei para os padres), marianismo (devoção a Nossa Senhora como compensação).
Como se determinou que tudo o que se refere ao sexo é por princípio matéria grave e como, por outro lado, não há ninguém que não tenha pelo menos pensamentos relacionados com o sexo e só o sacerdote ou o bispo podem perdoar os pecados, a confissão acabou por tornar-se não um espaço de reconciliação e paz, mas tantas vezes de opressão, e raramente uma instituição acabou por deter tanto poder sobre as consciências, criando infindos complexos e fardos de culpabilização. Quando se lê os manuais dos confessores e todos aqueles interrogatórios inquisitoriais, quase reduzidos ao campo sexual, percebe-se que muitos tenham começado a abandonar a Igreja por causa da confissão, que consideravam ofensiva dos direitos humanos.
No universo sexual, que, como escreve Miguel Oliveira da Silva, continua a ser “um imenso, incómodo e multifacetado mistério”, vale tudo? É claro que não, reconhecendo o catedrático de Ética Médica na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa que “a sociedade ocidental vive um profundo e grave vazio ético em matéria de sexualidade, que a múltipla oferta de uma sexualidade por vezes devassada sem pudor na praça pública e passível de excessos não consegue minimamente preencher – ao contrário”. Chegou-se à degradação boçal da prostituição nos e dos média, digo eu. Uma sexualidade degradada e desumanizante, na busca exclusiva do prazer venéreo e utilizando o outro como simples meio!
De qualquer forma, a Igreja precisa de reconciliar-se com o mundo e a ciência, o corpo e a sexualidade. Mas enquanto se mantiver a lei do celibato obrigatório não estará todo o discurso eclesiástico sobre o tema debaixo do fogo da suspeita? O Cardeal Carlo Martini, exegeta bíblico eminente e antigo arcebispo de Milão, interrogou precisamente esta lei do celibato obrigatório e, depois de considerar os estragos da encíclica Humanae Vitae e que “a solidão da decisão” por parte do Papa Paulo VI, depois de ter retirado a discussão do tema aos padres conciliares, não foi certamente “um pressuposto favorável” para tratar a questão da sexualidade e da família, reconheceu que os anos de distância da sua publicação “nos poderiam permitir um novo olhar”. “É um sinal de grandeza e auto-consciência alguém confessar os seus erros e visão limitada.” Assim, Martini pensava que um novo Papa “talvez não retire a encíclica, mas pode escrever uma nova e ir mais longe. É legítimo o  desejo de que o Magistério diga algo de positivo sobre o tema da sexualidade.” Muitos esperam uma palavra de orientação sobre o corpo, o casamento e a família. “Procuramos um caminho para, de modo fiável, falar sobre o casamento, o controlo da natalidade, a procriação medicamente assistida, a contracepção.”
Sobre estes e outros temas é o que tem procurado fazer o Papa Francisco. Leia-se, por exemplo, a exortação Amoris Laetitia, “A Alegria do Amor”, precisamente sobre uma nova visão da família e da sexualidade, que, para ser verdadeiramente humana, tem de envolver o biológico, o afectivo, a ternura, o amor, o espiritual.
E chamo a atenção para a elegância com que tratou o tema num diálogo recente com um grupo de jovens da Diocese de Grenoble. Duas jovens interrogaram-no precisamente sobre a sexualidade, perguntando concretamente se o facto de pertencerem à primeira geração que ousa falar abertamente destes temas não explica as incompreensões e o silêncio embaraçado dos mais velhos. Francisco respondeu: “A sexualidade, o sexo, é um presente de Deus. Não é de modo nenhum um tabu. É um dom de Deus, um presente que o Senhor nos dá. Tem dois objectivos: amar-se e gerar vida. É uma paixão, e um amor apaixonado. O verdadeiro amor é apaixonado. O amor entre um homem e uma mulher, quando é apaixonado, leva-te a dar a vida para sempre e a dá-la com o corpo e a alma”, declarou o Papa com força.
“Quando Deus criou o homem e a mulher, a Bíblia diz que os dois são a imagem e a semelhança de Deus. Os dois, não apenas Adão ou só Eva, mas os dois em conjunto”, insistiu. “E Jesus vai mais além e diz: o homem e também a mulher deixarão o seu pai e a sua mãe e unir-se-ão e serão... uma só pessoa?... uma só identidade?... Uma só fé no casamento?... Uma só carne! Esta é a grandeza da sexualidade. E é assim que se deve falar da sexualidade. E deve-se viver a sexualidade assim, nesta dimensão do amor entre homem e mulher por toda a vida. É verdade que as nossas fraquezas, as nossas quedas espirituais, nos levam a usar a sexualidade fora deste caminho tão belo do amor entre o homem e a mulher. Mas são quedas, como todos os pecados. A mentira, a cólera são pecados capitais, mas isso não é a sexualidade do amor: é a sexualidade coisificada, desligada do amor e utilizada para o divertimento”, explicou.
Francisco sublinhou ainda o paradoxo que consiste no facto de a mais bela dimensão da criação divina ser também “a mais atacada pela mundanidade, pelo espírito do mal”. A pornografia, por exemplo, depende de uma “indústria da sexualidade desligada do amor”. “É uma degeneração em relação ao nível em que Deus a colocou, e faz-se muito dinheiro com este comércio. Mas a sexualidade é grande: cultivai a vossa dimensão sexual, a vossa identidade sexual. Cultivai-a bem. E preparai-a para o amor, para inseri-la neste amor que vos acompanhará durante toda a vida”.
Por outro lado, mesmo se o Documento final do recente Sínodo dos bispos sobre os jovens e com os jovens ficou aquém das expectativas, no “Instrumentum laboris”, texto de preparação e de base para o debate, reconhecia-se que “muitos jovens católicos não seguem as indicações da moral sexual da Igreja”, e que há “temas controversos” como os anticonceptivos, a homossexualidade, o aborto, o casamento ou a questão de género. O texto, apresentado pelo cardeal Baldisseri, aceitava que é preciso debater “abertamente e sem preconceitos”  esses e outros temas, do desemprego às novas tecnologias, passando pelos desafios das migrações, o trabalho precário, as drogas, o papel da mulher. Entretanto, nesse Sínodo, houve vozes como a do bispo auxiliar de Lyon, Emmanuel Gobilliard, que abriu a porta do Sínodo aos LGBT: “Quem sou eu para excluí-los?” Francisco disse sempre que o problema não é a homossexualidade, mas “o lóbi gay”, como outros lóbis. Mais recentemente, o cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique e Presidente da Conferência Episcopal Alemã, reclamou uma revisão do celibato obrigatório: “Estou convencido de que o grande impulso de renovação do Vaticano II não está a avançar nem a ser entendido na sua profundidade.”
Entretanto, a Igreja carrega com essa chaga que é a pedofilia por parte do clero. O Papa Francisco está disposto a usar mão firme nesse combate. No discurso natalício à Cúria, depois de ter reafirmado que mesmo um só caso de abuso seria “uma monstruosidade por si mesmo”, declarou: “Aos que abusam dos menores quero dizer-lhes: convertei-vos e entregai-vos à justiça humana, e preparai-vos para a justiça divina”. Agradeceu aos jornalistas “que procuraram desmascarar estes lobos e dar voz às vítimas”. A Igreja levará à justiça “seja quem for” que tenha cometido abusos. E convocou os Presidentes das Conferências Episcopais do mundo inteiro para uma reunião anti-abusos, que enfrente esta chaga dolorosíssima. Como disse o director editorial do Dicastério (Ministério) para a Comunicação do Vaticano, Andrea Tornelli: “O objectivo é que todos tenham absolutamente claro o que se deve fazer (e não fazer) frente aos abusos”. Trata-se de “transformar os erros cometidos em oportunidades para erradicar” a praga dos abusos “não só do corpo da Igreja, mas também da sociedade”.
in DN 12.01.2019

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A esperança digna de espanto
P. José Tolentino Mendonça

NÃO PODEMOS VIVER SEM ESPERANÇA, MAS ESTA NÃO É UMA TAREFA ESTÁVEL E FÁCIL. MUITO PELO CONTRÁRIO

Os gregos descreviam a experiência humana partindo de três dimensões. Trata-se de uma visão ancestral, mas que podemos acompanhar ainda. A primeira dimensão seria a da memória (mnemis), que fornece a base primária daquele conhecimento que torna viável a vida. Sem a memória teríamos de reaprender tudo, a cada instante. É por ela, por exemplo, que dormimos e, no dia seguinte, somos capazes de andar, capazes de comer, de reconhecer o mundo a nosso lado, de saber quem somos. Se a todo o momento tivéssemos de perguntar, “como se caminha?”, “como se fala?”, “como se ama?”, a vida emergiria lentíssima e, certamente, muito diversa. Outra dimensão fundamental para os gregos seria a aesthesis, isto é, a perceção sensível do presente. A nossa experiência concretiza-se numa prática sensorial: podemos ver, ouvir, cheirar, tocar, sentir. A vida é tátil, é isto de que nos podemos aproximar, é o que trazemos entre mãos. Mas atenção: a vida não se resume apenas à memória e ao presente que apreendemos com os sentidos. Os antigos nomeavam uma ulterior e necessária dimensão, que chamavam esperança (elpis), explicada como a consciência de que havia um além, um amanhã. A ideia de um futuro foi sempre tida também como determinante, mesmo se para os gregos a esperança era uma coisa na qual não se podia propriamente confiar. Píndaro explicita-o bem quando relata que, no princípio, os deuses colocaram todas as coisas boas para o homem dentro de um vaso e lhe puseram uma tampa, com a proibição de removê-la. Mas o homem avizinhou-se do vaso e destapou-o. Quando fez isso, todas as coisas saíram de repente e o único bem que ficou dentro foi a esperança, a esperança daquelas coisas perdidas.

Creio que daqui se extrai uma dupla conclusão: não podemos viver sem esperança, mas esta não é uma tarefa estável e fácil. Muito pelo contrário. No extraordinário poema que lhe dedicou Charles Péguy (e que Armando Silva Carvalho traduziu magnificamente para a nossa língua) garante-se que a única realidade que deixa o próprio Deus espantado, em relação ao homem, é a esperança: “Não é a fé que me espanta.../ A caridade, diz também Deus, essa não me espanta.../ Mas a esperança, diz Deus, essa sim causa-me espanto./ Essa sim, é digna de espanto./ Que essas pobres crianças vejam como tudo acontece/ E acreditem que amanhã será melhor./ Que elas vejam o que se passa hoje e acreditem/ que amanhã de manhã será melhor./ Isso é espantoso e essa é a maior maravilha da nossa graça./ E isso a mim mesmo me espanta.”

A ideia de um futuro foi sempre tida também como determinante, mesmo se, para os gregos, a esperança era uma coisa na qual não se podia propriamente confiar

A esperança não é um lenitivo que adormece a dor até que ganhemos coragem para tratar a sério da vida, mas uma força que já hoje nos motiva para a transformação da história. A esperança não é um adiamento, mas um compromisso. Não é uma abstração idealizada, mas um dinamismo concreto, uma laboriosidade, um fazer. Precisamos de uma educação para a esperança.

Sobre o seu significado profundo, e de como se pratica, há aquela história do velho monge que se propunha alcançar o cimo de uma montanha e que, numa das etapas iniciais do caminho, pernoita numa estalagem. O estalajadeiro repara na sua fragilidade e tenta dissuadi-lo, enumerando os perigos que o espreitam, e que certamente acabarão por vencê-lo. O monge, porém, respondeu: “Tenho a certeza de que chegarei lá.” “E como é que um homem fraco como tu pode ter semelhante certeza? Para mais, vem aí um inverno duro.” O ancião retorquiu: “Coloquei lá em cima o meu coração e por isso sei que, mesmo assim inseguros, os meus passos hão de chegar lá.”
in Expresso, 12.01.2019
leitor.expresso.pt/semanario/semanario2411/html/revista-e/que-coisas-sao-as-nuvens/A-esperanca-digna-de-espanto
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À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves
BAPTISMO DO SENHOR Ano C
“Quando todo o povo recebeu o baptismo,
Jesus também foi baptizado.”
Lc 3, 21
Baptizado, hoje

Durante alguns anos julguei que me lembrava do meu baptismo. Do padre e dos meus pais, da pia e da água a cair na minha cabeça, da igreja no centro da cidade do Lobito. É claro que não podia lembrar o que me aconteceu com dois meses de vida, mas foi o baptismo do meu irmão ou dum primo, pelos dois ou três anos, que em mim ficou gravado. A fotografia enviada aos meus avós mostra um bebé num lindo vestido, num banco do fotógrafo Quitos! Poucos lembramos o dia do nosso baptismo, mas isso não tira força ao que aí começou.
Descobri mais tarde a diferença entre dizer “fui baptizado” e dizer “sou baptizado”. É a surpresa do encontro com Jesus Cristo vivo, na diversidade da sua presença, especialmente em testemunhas cheias do Espírito Santo. E a descoberta da Igreja, não como clube de perfeitos mas comunidade de pessoas, frágeis e admiráveis, Igreja santa e pecadora, a escutar, a tentar viver, e a espalhar as palavras vivas do Senhor Jesus. E continuo a entrar no baptismo como fonte de vida e graça que não se esgota. Não é algo simplesmente do passado, que uma fotografia e um registo assinalam. É do presente, e vai ser do futuro, na surpresa de saborear o que é ser filho amado de Deus, com irmãos de toda a parte. Na alegria de ser padre lembro o que dizia Santo Agostinho: Para vós, sou Bispo; convosco sou cristão. Nome de serviço, o primeiro; de salvação, o segundo.”
Para além de um confronto entre baptismo de crianças ou baptismo de adultos, é fundamental a autenticidade e a verdade com que ele é uma decisão importante para os pais de uma criança e para os próprios. Uma decisão aprofundada no conhecimento de Cristo, uma opção de vida renovada pelo Evangelho, um futuro empenhado na transformação do mundo. É grande ainda a força da tradição esvaziada de sentido, e da festa, sem caminho antes nem depois, no baptismo de crianças. Falta um dinamismo maior na proposta da fé aos adultos e um acolhimento feliz de quem duvida e faz perguntas! É preciso passar do banho que facilmente seca, para a torrente que leva vida e floresce os desertos!
Baptismo tem sabor de princípio! Fala mais do presente e do futuro. Revela o amor primeiro de Deus, que não está dependente dos nossos sucessos, mas se dá todo, e em cada momento. Tantas vezes mal-amados e desencantados por amores tipo “toma lá, dá cá”, é difícil acreditarmos que somos “filhos muito amados”. Deus não espera os nossos “melhores resultados” para um prémio proporcional, pois Ele “ama sem medida”, parafraseando Santo Agostinho: “A medida do amor é amar sem medida”. Nunca é tarde para viver a alegria de ser baptizado!
in Voz da Verdade 13.01.2019

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Pope's preacher goes back to basics in talks to bishops
Jan 11, 2019
by Tom Roberts Accountability

Capuchin Fr. Raniero Cantalamessa, the official preacher of the papal household, delivers the homily to U.S. bishops during Mass Jan. 3 in the Chapel of the Immaculate Conception at Mundelein Seminary during the bishops' Jan. 2-8 retreat at the University of St. Mary of the Lake in Illinois, near Chicago. (CNS/Bob Roller)
Editor's note: The text of the talks delivered by Capuchin Fr. Raniero Cantalamessa, preacher of the papal household, to the U.S. bishops during their Jan. 2-8 retreat at Mundelein Seminary, outside of Chicago, are available at this link.

Texts of the 11 talks delivered to the U.S. bishops who gathered for a week's retreat at Mundelein Seminary outside of Chicago show a heavy emphasis on traditional themes, a robust defense of celibacy, a severe criticism of attachment to money and an endorsement of new lay movements as a replacement for declining numbers of clerics.

NCR obtained the texts, 84 single-spaced pages, and they can be seen in their entirety here. They were delivered during the Jan. 2-8 retreat by Capuchin Fr. Raniero Cantalamessa, preacher of the papal household.

The talks contain only passing reference to the sex abuse scandal that was the reason behind the unusual retreat, suggested by Pope Francis, and the omission was intentional.

"I am not going to talk about pedophilia or give advice about eventual solutions," Cantalamessa said at the outset. "That is not my task and I would not have the competence to do it. This is a time for taking a break, as the psalmist says 'away from the strife of tongues' (Ps 31:21), and to listen to the voice of the Lord of the Church. I am convinced that this approach is the only way to get to the root issues that the Church is facing, which are both different and deeper than the issues that usually come to mind." In fact, in one brief mention of the scandal, the preacher sees a positive result in the humbling of the church.

Cantalamessa begins with a fairly basic presentation on the need for a personal relationship with Jesus and prayer "as the indispensable means for cultivating a relationship with Jesus." In the talk he draws a distinction between the "'public Jesus who casts out demons, preaches the kingdom, works miracles, and is involved in controversies; and on the other hand, there's the 'private' Jesus who is almost hidden between the lines of the gospel. This latter Jesus is the praying Jesus."

He urged the bishops to "rethink … the relationship between prayer and action" moving "beyond juxtaposition to  subordination [italics in original]. Juxtaposition is when we pray first, and then we act. Subordination, on the other hand, is when we pray first, and then we act," acting on the basis of "what emerges from our prayer." He said the apostles and saints "prayed in order to know what to do," not just before doing something.

Cantalamessa mentions the scandal for the first time in the second talk and says that while the clergy sex abuse scandals "rightly" overwhelm the church "we fail to see how much more gospel-like and humble the Church of Christ has become, how more free from worldly power." Indeed, the preacher would term this period the "'golden age' compared to past centuries when many bishops were more concerned about governing their territory than caring for the flock. In the past, to be a bishop was an honor; today it is a burden."

In the same talk he emphasized the importance of the relationship between bishops and priests, urging bishops to spend time with priests "even at the expense of other engagements."

In a later talk, he said he believed he was inspired to do a reflection on the agony of Jesus in the Garden of Gethsemane "because, due to the scandals of pedophilia, many bishops in the Catholic church, starting with the Bishop of Rome, are experiencing right now exactly what Jesus experienced in Gethsemane. As we have seen, the ultimate cause of his suffering in the Garden of Olives consisted in taking upon himself sins that he had not committed himself and in bearing responsibility for them in front of the Father. There is a redemptive and expiatory power in doing this."

In the third talk, "To Be With Christ Means to Share His Celibacy for the Kingdom," Cantalamessa equates celibacy with "a more radical way of sharing in his mission" that Jesus revealed to his disciples. "For Catholic clergy," he said, "this is no longer an option but an integral part of our vocation." At the same time, he said, "Whether because of all the fuss surrounding it, or the thought that perhaps one day — who knows? — church law might change, celibacy today is not experienced with a sense of serenity."

Celibacy, he said, will always "be part of Christ's design." Even if mandatory celibacy is abolished, he said, "celibacy itself, that is, the possibility of choosing to follow Jesus in this radical and beautiful way, can never be eradicated." He labeled as false "the claim that celibacy as a state of life is contrary to nature and hinders people from fully being themselves. He claims that such a view, expounded by "founders of modern psychology, was based on a materialistic and atheistic view of the human being."

He revisited debates of the past about whether virginity-celibacy constituted a "more 'perfect' state than marriage. I believe that celibacy is not ontologically more perfect: each state of life is perfect for the person who is called to it. Virginity-celibacy is, however, eschatologically more advanced in the sense that it more clearly approximates the definitive state toward which we are all journeying. Saint Cyprian, a married bishop, wrote to the first Christian virgins, 'What we shall be, already you have begun to be.' " [Italics in the original.]

Throughout history, he writes, "the proclamation of the gospel and the church's mission have in large part rested on the shoulders" of men and women who have renounced marriage.

And yet he also states: "Since it is not of divine origin, mandatory celibacy for priests can, of course, be changed by the Church, if at a certain point she thought it necessary."

The discussion of celibacy led to discussion of love, carnal and otherwise, and the acknowledgment that priests were attracted "to the other sex" as well as "to someone of the same sex," a "delicate matter" he said he would "completely avoid" because it "requires a pastoral discernment far beyond my competence and the scope of a retreat."

He offered, however, that while some clerics attracted to the same sex believed "they are permitted or at least excused to act out accordingly," the law of celibacy also applied to them.

"The Church is born of hope. If we intend to give new momentum to faith to empower it to conquer the world again in our age, we will need to rekindle hope. Nothing is possible without hope."

Sharing the poverty of Jesus, he said in talk four, doesn't mean giving up all earthy goods. "The Gospel never condemns earthly goods and riches in themselves," he said. "What Christ condemns is attachment to money and goods, trusting in them as if 'one's life depended on them.' "
For several pages, Cantalamessa uses severe language in condemning such attachment and he has especially harsh words for "the so called 'Prosperity gospel,' " which he termed a "total contradiction to the Gospel of Christ," a gospel that "far from being 'good news to the poor' becomes good news for the rich."

In one of his final talks, Cantalamessa said a contemporary challenge for the church is figuring out how to incorporate the ministry of lay people. "In various parts of the Christian world," he said, "the Parable of the Lost sheep is being lived out in reverse: ninety-nine sheep have gone away and only one has remained in the sheepfold. The danger is that we spend all of our time nourishing the one remaining sheep and, due to the scarcity of clergy, don't have time to go out in search of the sheep who are lost."

His focus was not on incorporation of ordinary lay people but on "ecclesial movements" which, he said, have been the locus of many conversions "both of nonbelievers and of nominal Christians returning to the practice of the faith."

Ending with a reflection on the Resurrection, he said, "The Church is born of hope. If we intend to give new momentum to faith to empower it to conquer the world again in our age, we will need to rekindle hope. Nothing is possible without hope."

Franciscan Fr. Daniel P. Horan writes about politics, culture and theology in his new column, Faith Seeking Understanding.

[Tom Roberts is NCR executive editor. His email address is troberts@ncronline.org.]
in NCR 11.01.2019

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Até onde se pode debater na Igreja?

Questionar a Igreja não significa forçosamente colocá-la em questão. Entrevista à francesa Anne-Marie Pelletier, primeira teóloga a receber o prémio Ratzinger, considerado o “Nobel” da Teologia, sobre algumas das questões que perpassam o catolicismo de hoje, como o posicionamento das mulheres nas comunidades católicas, a Bíblia na vida da Igreja e o clericalismo.

Debater no seio da nossa Igreja parece-lhe ser hoje fácil?

Antes de falar das dificuldades do debate, parece-me que é preciso começar por colocar a questão da sua legitimidade na Igreja. A ideia está longe de estar adquirida. Ela continua a colidir mais ou menos na consciência comum com a distinção entre Igreja que ensina e Igreja que é ensinada, fortemente afirmada pelo concílio de Trento (séc. XVI).

Por um lado, o magistério é detentor do saber e da palavra. Do outro lado, o povo dos fiéis aquiesce na obediência às verdades da fé. O dogma da infalibilidade papal reforçou essa visão no século XIX, num contexto da resposta defensiva da Igreja sobre formulações intangíveis.

O concílio Vaticano II libertou-nos dessas estreitezas. Devolveu-nos a uma visão renovada, dinâmica, da vida da Igreja, aberta ao diálogo dentro dela e com o mundo deste tempo. Em 1964, já Paulo VI convidava a Igreja a fazer-se diálogo, palavra, conversação. E a natureza sinodal da Igreja tem sido fortemente reafirmada desde então.

Trata-se de todos andarem juntos, leigos, pastores, bispo de Roma, que enfrentem juntos as questões da vida da Igreja. Mas temos de reconhecer que mesmo hoje essa inteligência da identidade e da vida da Igreja continua a ser um pouco uma ideia nova...

Debater na Igreja será para alguns erguer obstáculos à unidade dos cristãos?

Considerar o debate é considerar que possa haver pluralidade na maneira de receber o Evangelho, de compreender a vida cristã, de organizar a instituição.

Ora, nós temos muitas vezes uma visão falseada do plural e da unidade. Pensamos o plural sob o signo da divisão ou do relativismo. É uma simplificação muito prejudicial. Porquanto o plural é em primeiro lugar o selo do excesso divino que a fé incorpora: é preciso polifonia para fazer emergir o rosto do Deus da revelação

E é preciso também fazer justiça ao plural, simplesmente porque a vida é complexa e porque é nesta complexidade que Deus está a abrir um caminho e que a Igreja é chamada a viver.

Abramos os Atos dos Apóstolos. Desde a primeira geração cristã houve debate entre uns e outros, por vezes dissensões sérias que obrigaram a reunir, a falar, a inventar a superação dos conflitos. Da mesma maneira, a história do concílio Vaticano II é a de um amadurecimento teológico que se fez através de um debate intenso entre os bispos do mundo.

É preciso que reencontremos confiança no diálogo e no debate, uns com os outros. O que requer incontestavelmente coragem, num momento em que a tendência pesada das sociedades é a de uma regressão para as convicções e identidades voltadas para elas mesmas.

Quais são as questões sobre as quais seria urgente desencadear o debate?

São obviamente numerosas. Algumas podem ser explosivas. É preciso, portanto, que comecemos por admitir que questionar juntos uma realidade da vida da Igreja não é “ipso facto” colocá-la em questão. Eu procuro defender, pela minha parte, a causa de uma sabedoria cristã que privilegie a confiança e a escuta do outro, o respeito pela complexidade da vida, sob o horizonte de uma Palavra de Deus que ninguém deve reivindicar ter o total conhecimento.

Tomemos o exemplo do celibato dos padres, que sabemos estar relacionado com os dramas da atualidade. Seria impossível refletir desde já em conjunto simplesmente sobre o sinal de que ele quer ser portador, sobre o acesso a este sinal na nossa sociedade, sobre as condições que permitem que seja vivido, ou então sobre o que significaria a ordenação de homens casados como na tradição oriental?

Num modo menor, secundário, penso também nas questões das “servidoras das assembleias” [acolhem os paroquianos, distribuem folhas/cadernos, acompanham o ministro da comunhão]. Um tema minúsculo mas que pode desencadear paixões atribiliosas, tendo em conta que a liturgia é uma realidade inflamável. E que, de facto, sob aparências folclóricas, dissimula questões de fundo sobre o acesso ao altar, e portanto sobre o feminino e o masculino na Igreja, sobre uma conceção “sacralizadora” da função presbiteral. Um verdadeiro estaleiro, na realidade, para uma explicação em conjunto acerca de matérias essenciais.

Há alguma questão que a sensibilize particularmente e da qual lamente a ausência de debate?

Tendo consagrado boa parte da minha vida a trabalhar as Escrituras, sou particularmente sensível à necessidade de fazer dela para a Teologia, mas também para a vida quotidiana dos cristãos, a fonte de inspiração e de conversão.

O papa Francisco convida cada um a tomá-las como companheiras de viagens no documento “Amoris laetitia” [sobre o amor na família]. É uma exortação soberba, mas como torná-la realizável?

E se é suposto que a Palavra de Deus irrigue toda a vida dos crentes, que resultado é que isso tem para aquilo que se denomina “diaconia da Palavra”? Onde e como é que ela se exerce na Igreja? Quem é responsável por ela na instituição eclesial? Não estou certa de que se possa ater à consideração da homilia dominical. Isto coloca problemas. Os leigos dizem-no em voz baixa. E o papa, em alta voz, reconhece que este é uma verdadeira questão.

De que maneiras plurais a Palavra de Deus pode ser servida, iluminar as inteligências e as práticas, hoje, na Igreja? Se falássemos mais disso nas comunidades cristãs…

E sobre a questão do clericalismo, de que o papa nos pede para sair?

É evidente que há abuso de poder na instituição eclesial, e de maneira mais impressiva quando esse poder se reivindica de uma autoridade divina. Nesse sentido, contesto um pouco uma maneira de relativizar os escândalos atuais ao invocar o facto de haver clericalismo na maneira como alguns leigos podem exercer as suas responsabilidades. Em todo o lado onde há poder nas nossas sociedades, há desvios e abusos. Mas o problema é levado ao extremo quando é de «direito divino» que um poder se exerce.

O remédio só pode ser o de reencontrar a justa identidade do sacerdócio ministerial [de quem é ordenado padre] na sua relação com o sacerdócio batismal [de todos os batizados]. O que implica desde logo renunciar a uma sacralização, que, aliás, já é pouco evangélica, da função presbiteral. Não dissimulemos que o clericalismo se joga já numa certa maneira de isolar o padre numa excelência que o coloca acima de todos.

Os leigos têm uma certa parte de responsabilidade nesta distorção da identidade sacerdotal. O remédio é simultaneamente retomar a medida da dignidade e da missão inerentes ao Batismo. A exortação “Gaudete et exsultate”, que descreve longamente o que é a vocação de todos à santidade, é nesta matéria uma boa leitura, a recomendar.

Como fazer mexer as coisas, depois de séculos de sacralidade?

Há nos humanos que somos um gosto atávico pela sacralização. É, aliás, próprio ao mundo pagão, de acordo com as Escrituras bíblicas, responder amplamente a essa demanda. A frequência das Escrituras é aqui um excelente antídoto. Um só é santo, como um só é Sacerdote. Dito isto, é preciso que o povo cristão ouça mais vezes da boca dos seus sacerdotes como se pode conhecer melhor segundo toda a grandeza da sua vocação batismal. O que implica, evidentemente, que estes últimos sejam treinados no seminário a pensar e viver uma eclesiologia de comunhão.

O arcebispo de Paris pede que haja mulheres presentes nos seminários e que participem no processo de discernimento. Que pensa sobre isso?

Está aí, obviamente, uma proposta maior. Mas, apesar das evoluções positivas – o próprio facto de considerar o assunto –, é claro que a realização a curto prazo de um tal projeto é problemática. Os seminários voltam cada vez mais hoje a ser um microcosmo, onde os padres são formados exclusivamente por padres, sem abertura a esse exterior que será, no entanto, o lugar do seu ministério e das suas responsabilidades. Como subir esse monte? Confesso por agora o meu pessimismo.

A senhora, enquanto teóloga, é convidada a ir aos seminários? A sua palavra é aí escutada?

Sim, e isso faz parte das novidades felizes da vida da Igreja. Eu ensino no seminário há alguns anos e hoje sou mesmo solicitada para orientar retiros a padres, como faço há muito tempo em comunidades monásticas, inclusive masculinas.

Mas, ao mesmo tempo, sou obrigada a constatar que o corpo docente feminino diminui nos seminários que já lhe foram acolhedores. É evidente que alguns seminaristas rejeitam aprender a teologia da boca das mulheres.

No entanto, seria essencial que o curso de eclesiologia, em particular, fizesse justiça a uma inteligência de Igreja aberta à sua amplitude total, lembrando que o sacerdócio batismal é englobante, como o recorda fortemente o papa Francisco.

Afirma que há hoje menos mulheres nos seminários. É porque não são convidadas ou porque há menos mulheres formadas para o ensino da teologia.

Há todo um viveiro de mulheres formadas, que têm todos os diplomas canónicos necessários. Mas, como é recordado a meia voz àquelas que exprimem o desejo de se formar, os diplomas não lhes garantem qualquer direito a aceder a responsabilidades eclesiais. (…)

E todavia o debate sobre o lugar da mulher na Igreja não é novo.

Digamos que, após o papa João XXIII ter feito da promoção das mulheres um «sinal dos tempos», a instituição eclesial abriu-se à presença e à experiência das mulheres na Igreja e nas sociedades. Recuso banalizar esta novidade.

Mas, com o recuo do tempo, medimos hoje as dificuldades que permanecem em superar para que a Igreja exista, pense, aja associando verdadeiramente homens e mulheres na sua teologia e no seu governo. É preciso reconhecer que alguns discursos de celebração da mulher fazem correr o risco de ter as mulheres à distância da vida concreta da Igreja.

Continua a haver muito a fazer para que ela integre o feminino no plural, se assim ouso dizer. Para que as mulheres cristãs, na diversidade dos seus estados e das suas condições, sejam reconhecidas como parte da missão da Igreja.

Parece-lhe que o papa Francisco está consciente disso?

Estou convencida de que, pela sua longa experiência de homem e de pastor, o papa Francisco tem uma visão clara do problema. Na medida em que pode – mas um papa não é todo-poderoso –, tem a preocupação de favorecer uma verdadeira promoção das mulheres no governo da Igreja.

Ao mesmo tempo, ele reabre concretamente a nossa eclesiologia à amplitude do que ele chama «o povo santo de Deus». E ainda opera concretamente a sinodalidade, da qual reencontrámos o sentido e a urgência durante as últimas décadas, mas que está a custar a entrar verdadeiramente na cultura dos cristãos. Como sabemos, ele apela vigorosamente ao povo dos batizados, a quem relembra insistentemente a sua dignidade e missão. O apelo está lançado. Resta responder-lhe.
in Pastoral da Cultura
Sophie De Villeneuve
In Croire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 10.01.2019
www.snpcultura.org/ate_onde_se_pode_debater_na_igreja.html

 

06 janeiro 2019


P / INFO: Pai nosso para 2019, No novo ano:cuidar, A vida a nascer, Que estrela nos guia?, Papa contra “escândalo” de católicos  &, em anexo, Convite: Conversas sobre Doutrina Social da Igreja
Frei Bento Domingues, O.P.

1. Dizem-me que ando distraído das estatísticas das religiões que, na Europa, manifestam um inquietante declínio. O cristianismo não revela qualquer estratégia adequada para inverter essa situação. A laicidade do Estado, mal entendida, teria conduzido a sociedade para os braços do maior adversário da fé cristã: a indiferença.
O Islão aposta nesse vazio. Estaria, ao que parece, cada vez mais dominado pelas correntes e organizações islamitas, que, a bem ou a mal, pretendem ser a religião europeia do futuro.
Por outro lado, invocar o nome de Deus em vão era considerado um pecado grave. Acaba de sagrar a tomada de posse do Presidente do Brasil. As chamadas “igrejas evangélicas” têm abundantes passagens do Antigo Testamento para apoiar a sua retórica banhada de propósitos guerreiros.
À primeira vista, violência e religião nunca deveriam poder andar associadas. A história mostrou e mostra que, por diversas loucuras, andaram e andam muito juntas.
 A religião é, por natureza, a dilatação transcendente do ser humano. Mas também pode ser entendida como um mecanismo de autoprotecção. Um indivíduo ou um grupo sentem-se mais seguros se alguém superior – uma divindade, por exemplo – os proteger em todas as dimensões da vida: espirituais e materiais. Nesse sentido, defender a sua religião é defender todos os seus interesses. Quem a puser em causa ameaça toda a sua vida. Daí nasce o elo entre violência e religião: defender-se do inimigo. A melhor defesa é destruí-lo. Procura, por esse caminho, salvar a própria identidade. É uma explicação simples para a história da violência ligada ao fenómeno religioso e às suas expressões. Nessa perspectiva, a salvação de uns é a perda dos outros.
Não é inevitável que assim seja. A tolerância não é um desprezo pelas convicções de cada pessoa ou grupo. É a atitude de quem reconhece que não é dono da verdade, mas apenas um seu peregrino. Para erradicar as ligações entre religião e violência, o melhor é a promoção da liberdade religiosa para todos, menos para aquelas actividades que a procuram destruir.
Quem deseja a liberdade religiosa não é um apóstolo da indiferença perante os valores. Reconhecer o direito a ser ou não ser religioso é um apelo à seriedade na busca livre do sentido da vida.
Procurar a verdade e testemunhar essa busca não tem nada a ver com a violência. Testemunha algo que é essencial à vida: nunca se acomodar aos passos já dados. O infinito não tem limites.
2. A oração é uma atitude comum a todas as religiões. A qualidade da oração diz muito acerca da natureza de uma determinada religião. Se à crença numa divindade está ligado o prémio e o castigo, tem de negociar com ela. Tem de evitar a sua ofensa e pedir perdão pelo pecado cometido. É uma transposição para o sagrado do que se passa nas relações humanas de inferior para superior. Em caso de muita incerteza, importa contar com bons intermediários. Como se diz, quem tem amigos não morre na cadeia.
Não vou apresentar uma tipologia de todas as formas de oração nas diferentes religiões ou das atitudes espontâneas de cada pessoa perante o mistério da história pessoal e do mundo.
No plano cristão, a oração mais prestigiada e mais comentada é o Pai-Nosso. Costuma dizer-se que é a própria síntese do Evangelho de Cristo. Até está escrito que foi Ele que pediu para se rezar assim.
Recomendo a consulta da tradução e das notas de Frederico Lourenço aos textos de Mateus e Lucas[i].
O Papa Francisco, na 2ª catequese sobre o Pai Nosso[ii], no seu inconfundível estilo, diz o mais importante: «Jesus põe nos lábios dos seus discípulos uma prece breve, audaz, formada por sete pedidos, um número que na Bíblia não é casual, indica plenitude. Digo audaz, porque se Cristo não a tivesse sugerido, provavelmente nenhum de nós — aliás, nenhum dos teólogos mais famosos — ousaria rezar a Deus desta maneira.
«Com efeito, Jesus convida os seus discípulos a aproximarem-se de Deus e a confidenciar-lhe alguns pedidos: antes de tudo em relação a Ele e depois em relação a nós. Não há prefácios no Pai Nosso. Jesus não ensina fórmulas para adular o Senhor, aliás, convida a pedir-lhe abatendo as barreiras da reverência e do medo. Não diz para se dirigir a Deus chamando-lhe Omnipotente, Altíssimo, Tu, que estás tão distante de nós, eu sou miserável: não, não diz assim, mas simplesmente Pai, com toda a simplicidade, como as crianças se dirigem ao pai. E esta palavra Pai, expressa a confidência e a confiança filial».
3. O que talvez se esqueça, nos comentários ao Pai Nosso, é a raiz do contencioso de Jesus com a sua família de Nazaré, com a família dos discípulos e com o facto de ele nunca ter constituído uma família pessoal[iii]. Procurou fazer família com quem não era da família. Daí o escândalo que provocou.
O Pai Nosso exprime o mundo por que lutou e a missão que deixou aos discípulos, a missão que nos cabe. Nada acontece de forma mágica. É uma forma de viver e de intervir em relação ao que ainda falta, ao advento do Reino de Deus no mundo.
Dizer o Pai Nosso e julgar que as pessoas passam, automaticamente, a considerarem-se como irmãs não seria milagre, mas um exercício ilusionista.
O Pai-Nosso é um programa de missão para a Igreja e para todos os que trabalham por uma humanidade una, com os mesmos direitos. Por não se encarnar o Pai-Nosso como uma missão do dia-a-dia, semana-a-semana, ano-a-ano, uma ousadia pode tornar-se banalidade verbal.
Foi o que o Papa Francisco afirmou na quarta-feira passada: "Quantas vezes vemos o escândalo dessas pessoas que passam o dia na igreja, ou que lá vão todos os dias, e depois vivem a odiar ou a falar mal dos outros". Nesse caso, “o melhor é nem ir à igreja”. "Se vais à igreja, então vive como filho, como irmão, dá um verdadeiro exemplo". Os hipócritas rezam "para serem vistos pelas pessoas". "Os pagãos acreditam que se reza a falar, a falar, a falar. Eu penso em muitos cristãos que acreditam que rezar é falar com Deus, salvo seja, como um papagaio. Não! Rezar faz-se com o coração, a partir do interior".
Começamos um novo ano. Os interesses dos cristãos de todo o mundo, para além do que as ciências, as técnicas, a economia, as políticas e as criações artísticas prometem, não podem esquecer a alma de tudo espelhada na oração que o Senhor nos deixou. Um programa de vida a inventar como o pão nosso de cada dia.
in Público, 06. 01. 2019
https://www.publico.pt/2019/01/06/sociedade/opiniao/pai-2019-1856517


[i] Mt 6, 5-15; Lc 11, 2-4. Ver também Xavier Léon-Dufour, Dictionnaire du Nouveau Testament, na entrada père.
[ii] Audiência de 12. 12. 2018
[iii] Já tentei explicitar, noutros textos, esta questão.

A A A A A A A A A A A A
NO NOVO ANO: CUIDAR
Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
No início de um novo ano, 2019 da era cristã, 5779 do calendário hebraico, 5120 do hindu, 4715 do chinês, 2562 do budista, 1441 do muçulmano, deixo aí uma breve reflexão sobre um tema essencial, o cuidado — cuidar e ser cuidado —, constitutivo do ser humano.
Entre as grandes obras do século XX, figura uma do filósofo alemão Martin Heidegger: Sein und Zeit (Ser e Tempo). Nela, retoma a célebre fábula sobre o Cuidado, de Higino, um escravo culto (64 a. C.-16 d. C.). Fica aí, traduzida literalmente.
“Uma vez, ao atravessar um rio, ‘Cuidado’ viu terra argilosa. Pensativo, tomou um pedaço de barro e começou a moldá-lo. Enquanto contemplava o que tinha feito, apareceu Júpiter. ‘Cuidado’ pediu-lhe que insuflasse espírito naquela figura, o que Júpiter fez de bom grado. Mas, quando ‘Cuidado’ quis dar o próprio nome à criatura que havia formado, Júpiter proibiu-lho, exigindo que lhe fosse dado o seu. Enquanto ‘Cuidado’  e Júpiter discutiam, surgiu também a Terra (Tellus) e também ela quis conferir o seu nome à criatura, pois fora ela a dar-lhe um pedaço do seu corpo. Os contendentes invocaram Saturno como juiz. Este tomou a seguinte decisão, que pareceu justa: ‘Tu, Júpiter, deste-lhe o espírito; por isso, receberás de volta o seu espírito por ocasião da sua morte. Tu, Terra, deste-lhe o corpo; por isso, receberás de volta o seu corpo. Mas, como foi ‘Cuidado’ a ter a ideia de moldar a criatura, ficará ela na sua posse enquanto viver. E, uma vez que entre vós há discussão sobre o nome, chamar-se-á  ‘homo’ (Homem), já que foi feita a partir do húmus (Terra)’.”
Martin Heidegger, um dos maiores filósofos do século XX, retoma a fábula e reflecte sobre o cuidado enquanto estrutura essencial do ser humano. Cuidar e ser cuidado são determinantes da sua constituição. O que seria de nós, se, ainda dentro do ventre materno, não houvesse cuidado, se, ao nascermos, não cuidassem de nós? O cuidado nunca nos pode abandonar. Sem o cuidado ao longo da vida toda, do nascimento à morte, o ser humano desestrutura-se, sente-se perdido, só, não encontra sentido e acaba por morrer, entregue ao abandono. 
O cuidado tem uma dupla vertente. Por um lado, significa preocupação mais ou menos ansiosa e a consequente prevenção. É assim que os pais dizem aos filhos, ameaçados por perigos: tem cuidado, filho; tem cuidado, filha! E prevenimos os amigos que nos pedem conselho: eu não iria por aí, tenha cuidado, acautele-se! Por outro lado, e sobretudo, tem a ver com a entrega abnegada aos outros, cuidando deles em todas as dimensões, pois a perfeição do ser humano na realização das suas possibilidades mais próprias é tarefa do cuidado.
Cuidar de quem e de quê?
O cuidado é, pela sua própria natureza, abrangente. Todos temos de cuidar. Cuidar de nós, cuidar de todos os outros, pois só somos na inter-relação, cuidar da Natureza, cuidar da transcendência e de Deus em nós. Sendo o ser humano um ser bio-psico-social-espiritual-transcendente, terá de estender o cuidado a todas as suas dimensões. Para poder ser e ser humano, autenticamente humano. Cuidar por afectos, palavras — ah! a cura pela palavra! — e por obras.
Mas, se o cuidado — ser cuidado e cuidar — é constitutivo do ser humano, de todo o ser humano, há pessoas cuja missão e até profissão é cuidar, ser cuidador. Estão nesta situação, só para dar alguns exemplos, pais, professores, padres, médicos, enfermeiros, assistentes sociais, geriatras, profissionais e voluntários que cuidam da saúde e bem-estar de doentes, acamados e idosos...
Então, a pergunta é: eles cuidam, são cuidadores. Quem cuida deles? E como cuidam eles deles próprios? Como se previnem contra os perigos do stress e do burnout?
Neste contexto, aparece também a necessidade da espiritualidade. Realmente, há dados científicos que mostram a importância da espiritualidade e da prática religiosa para a saúde e até para a esperança de vida. Assim, na sua obra The Spiritual Brain, Beauregard cita 158 estudos médicos sobre o efeito da religião na saúde, concluindo que 77 por cento fazem menção de um efeito clínico positivo. Um estudo também mostrou que “os adultos mais idosos que participam em actividades religiosas pessoais antes do aparecimento dos primeiros sinais de incapacidade nas actividades do quotidiano têm mais esperança de vida do que aqueles que o não fazem”. Neste sentido, permita-se-me que cite também o neurocientista Miguel Castelo-Branco, da Universidade de Coimbra, no livro  Deus Ainda Tem Futuro?, que coordenei: “A medicina baseada na evidência tem sugerido que a religiosidade e a espiritualidade influenciam de forma efectiva o desenlace em muitos domínios clínicos, incluindo a dependência de drogas. Koenig e colegas estudaram em 1999 a taxa de sobrevida de cerca de 4000 pessoas com mais de 65 anos durante um período de 6 anos. Concluíram que aquelas que foram à igreja mais do que uma vez por semana tinham uma esperança média de vida superior a 10 anos relativamente às que não a frequentaram. A  experiência espiritual é benéfica para a saúde humana e o tipo de bem-estar psicológico que proporciona pode ser activamente procurado.”
Como dizia o famoso Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, é preciso prevenir-se contra “a agitação paralisante e a paralisia agitante”. Esta agitação e paralisia constituem um perigo maior do nosso tempo. Urge, pois, saber parar e repousar, como Jesus que, no meio da sua missão de anúncio do Evangelho, parava para meditar e orar ou pura e simplesmente para descansar. Afinal, cuidado, em latim, diz-se cura — não se chamava ao padre nas aldeias o cura de almas? —, que, para lá de cuidado, significa incumbência, tratamento, cura, inquietação amorosa, amor. Por esta via, chegamos também à medicina, que provém do latim mederi — a raiz é med: pensar, medir, julgar, tratar um doente —, que significa cuidar de, tratar, medicar, curar e que está também na base de moderação e meditação, sendo deste modo remetidos para um conceito holístico de saúde e de cura, que resultam e têm no horizonte sempre um equilíbrio harmónico.
in DN 06.01.2019
www.dn.pt/edicao-do-dia/06-jan-2019/interior/no-novo-ano-cuidar-10401525.html
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A VIDA A NASCER
Padre José Tolentino Mendonça

FELIZES AQUELES QUE CULTIVAM MAIS O ESPANTO DO QUE A DECEÇÃO OU OS QUE EXERCITAM MAIS A ACEITAÇÃO GENEROSA DO QUE O RESSENTIMENTO

Não é só o ano que começa. Qualquer que seja a nossa idade ou a estação em que nos encontremos a viver, a verdade é que somos, até ao fim, uma coisa no seu começo, a verdade é que habitamos unicamente começos. Nada mais. Não vimos outra coisa enquanto estivemos aqui. A nossa estirpe é a dos recém-nascidos, portanto. Uma das mais belas frases que conheço pertence a uma página bíblica, a Primeira Carta de Pedro. E a frase diz (ou ordena) o seguinte: “Como crianças recém-nascidas, desejai” (1Pe2,2). Somos, mesmo com dezenas, com centenas de anos e séculos em cima, “crianças recém-nascidas”. E devemos muito à misteriosa fragilidade dos recém-nascidos que, no fundo, ainda é a nossa, que, sabemos, será sempre a nossa. O nascimento deve ser reconhecido como estrutura fundante da vida, a sua irremovível arquitetura primária, e não apenas como uma das suas formas ocasionais, furtivas e possíveis. Quanta sabedoria existe naquele poema de Lao Tsé: “Quando os homens ingressam na vida são tenros e frágeis; quando morrem são hirtos e duros. Por isso os hirtos e duros se tornam mensageiros da morte e os tenros e frágeis são os mais credíveis mensageiros da vida.” Gosto de pensar que o verbo nascer é um verbo incessante, que faz de nós “credíveis mensageiros da vida”. Se pensarmos bem, conjugamos o verbo nascer milhares de vezes ao longo do nosso percurso. E mesmo aquelas experiências que, pela sua exigência, esforço ou sofrimento, não percebemos logo como itinerários de nascimento, se revelam depois uma etapa desse parto perene que é a nossa condição. A vida é fluxo, circulação espantosa, sucessão no aberto. A vida é interminável ação de nascer. Há um paciente e necessário trabalho a realizar para passar da tentação de fixar a vida em momentos determinados, cristalizando-a em imagens tanto euforicamente utópicas como desalentadamente distópicas, à capacidade de hospedar a correnteza da vida como ela nos assoma, o que requer de nós um amor muito mais rico e difícil. Um amor sem expectativas, nem julgamentos. No fundo, aquele amor que não nos coloca a amar a vida hipoteticamente pelo que dela se espera, mas a amá-la incondicionalmente pelo que ela é, muitas vezes na completa impotência ou na extrema vulnerabilidade de vida recém-nascida. Por isso, felizes aqueles que cultivam mais o espanto do que a deceção ou os que exercitam mais a aceitação generosa do que o ressentimento. Felizes os que no incompleto e no inacabado são capazes de ver a insinuação de uma promessa, mais do que uma lacuna. O importante é assim saber, com uma força que jorre do fundo da própria alma, se estamos dispostos a amar a vida como esta se apresenta e não como a fantasiamos. Como recordava Françoise Dolto, a nossa hora de maturidade só chega “quando, como qualquer outro ser humano, sentimos um desejo suficientemente forte para assumir todos os riscos do nosso próprio ser. Aí estaremos prontos a honrar o nascimento de que somos portadores”.

Gosto de pensar que o verbo nascer faz de nós “credíveis mensageiros da vida”. Conjugamos o verbo nascer milhares de vezes ao longo do nosso percurso

Por vezes, cansados e confundidos, não conseguimos compreender que certas etapas cambaleantes nos servem para um reencontro benéfico com o nosso próprio passo. E podemos dizer que a alegria que provámos no caminho não passou de um relâmpago breve, que nos precipitou em seguida no escuro. Ou da esperança podemos pensar que só nos iluminou porque ignorávamos que também ela era transitória. E da leveza, da gentileza ou da amizade podemos temer: chegará o outono e também elas voarão. Que injustiça, porém. O que vimos todo o tempo foi a vida a nascer.
in Expresso, 05.01.2019

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       À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves
EPIFANIA DO SENHOR Ano C
“Nós vimos a sua estrela no Oriente
e viemos adorá-l’O.”
Mt 2, 2

Que estrela nos guia?

São modelo para quem explora e quem busca os magos que foram a Belém. Homens de olhares erguidos aos céus, desejosos de conhecer os mistérios da vida. Não se prenderam a amarras e partiram, simplesmente porque uma estrela os convidava a ir. Não eram solitários e nem desistiram de fazer perguntas que lhe podia dar a morte. Interpelam todas as procuras humanas, e fazem-nos pensar que estrelas nos convidam a sair de prisões ou de condomínios que nos adormecem e atrofiam. Nas diferenças com que as tradições os vestiram, aprendemos como a verdade só se descobre se nos abrirmos aos outros, que podem não pensar nem viver como nós, mas também procuram mais luz, com honestidade e sem mentira. As divisões, os grupos fechados, os “clubes de fé ou de ciência” impedem de nos pormos a caminho: em vez de ir adorar o Menino, adoramo-nos a nós próprios!

A pergunta dos magos sobressaltou Herodes e os escribas, o poder político e o religioso sempre tentadoramente unidos. Eles até conheciam a resposta, mas foram incapazes de assumir um compromisso. Tiveram medo de perder o poder, de deixar de dominar o povo pela força e pelos ritos e sacrifícios. É a tentação política de deixar de servir o povo para servir as castas governantes. Não alerta para esse perigo o Papa Francisco na sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz deste ano? Partilho dela uma citação do Cardeal vietnamita Francisco Xavier Nguyen Van Thuan, falecido em 2002 que escreveu “as bem-aventuranças do político”: Bem-aventurado o político que tem uma alta noção e uma profunda consciência do seu papel; de cuja pessoa irradia a credibilidade; que trabalha para o bem comum e não para os próprios interesses; que permanece fielmente coerente; que realiza a unidade; que está comprometido na realização duma mudança radical; que sabe escutar; que não tem medo” (texto adaptado).

Os magos convidam a sair e a deixar outros entrar. Invertem as noções de fora e de dentro. Fazem o distante próximo e alargam os horizontes da salvação. Ensinam a ler sinais que nos levam às alegrias surpreendentes que Deus gosta de oferecer. Com eles aprendemos a grandeza de adorar, a alegria de caminhar juntos, a inteligência de ler os sinais, a esperança de procurar, o poder do que é fraco, a riqueza do que é pobre, a sabedoria de caminhos novos. Todos somos chamados a ser um pouco como eles. Na nossa procura, nos nossos desânimos, nas perguntas e na leitura dos sinais e da Palavra de Deus, na adoração de Jesus e nos caminhos novos que se abrem a seguir. E nem é preciso ir longe, como Sophia de Melo Breyner Andresen descreveu num poema: “[…]Ao lado do hospital e da prisão / Entre o agiota e o templo profanado / Onde a rua é mais triste e mais sozinha / E onde tudo parece abandonado / Um lugar pela estrela foi marcado // Nesse lugar pensei: «Quanto deserto / Atravessei para encontrar aquilo / Que morava entre os homens e tão perto»”.
in Voz da Verdade, 06.01.2019
http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=7838&cont_=ver2


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Papa contra “escândalo” de católicos
TEXTO ROSA PEDROSO LIMA

Primeira mensagem do ano vai direta ao interior da Igreja. “Radicalidade” da mensagem do Papa é aplaudida no terreno
O Papa Francisco aproveitou a primeira mensagem de 2019 para se dirigir àqueles que “vão todos os dias à Igreja e que depois vivem odiando os outros”. “É um escândalo”, disse e repetiu o Papa. Diretamente para o interior do seu rebanho, Francisco deixou claro que “rezar não é falar com Deus como um papagaio” e que, nestes casos, “é melhor viver como ateus”. Eugénio Fonseca, dirigente da Caritas portuguesa, acha que a mensagem tem tanto de forte como de necessária. “O Papa diz com palavras simples aquilo que é um apelo de grande radicalidade: que é preciso regressar ao Evangelho e aos fundamentos do cristianismo.”
Na primeira audiência geral concedida em 2019, Francisco foi direto ao “escândalo” do comportamento de alguns católicos e as suas palavras tornaram-se um soundbyte, reproduzido nos media e nas redes sociais com alta intensidade. “Rezar é falar do coração. Os pagãos acham que falando, falando, se está a rezar”, disse o Papa. Mas, para quem acompanha de perto o pontificado, não existe aqui qualquer novidade, muito menos uma mudança por parte de Francisco. Para Octávio Carmo, da agência Ecclesia, “esta mensagem é recorrente, nas várias intervenções do Papa, nomeadamente nas homilias diárias que faz em Santa Marta”. “Diria até que é uma marca do seu pontificado: uma crítica à religiosidade cristalizada e um apelo à intervenção concreta dos católicos na vida económica, social ou política.”
Na verdade, já há dois anos, Francisco tinha dito praticamente o mesmo. Numa homilia, proferida em fevereiro de 2017 em Santa Marta, o Papa questionava: “Quantas vezes ouvimos, no nosso bairro e noutras partes, ‘para ser um católico como esse, era melhor ser ateu’? É esse o escândalo, destrói-nos, deita-nos por terra”, lastimou.
Eugénio Fonseca trabalha no terreno e acha relevante que o Papa “envie estas mensagens para o interior da Igreja, recorrendo a casos concretos”. “Com palavras simples, deixa uma mensagem forte e de grande radicalidade”, diz ao Expresso.
O Papa “vai à raiz do cristianismo e pede que sejamos zelosos na nossa coerência. As palavras que proferimos não podem ficar à porta do templo”, diz Eugénio Fonseca. O facto de o Papa se tornar uma voz incómoda para certos sectores da própria Igreja faz parte desse “regresso às origens”, segundo o dirigente da Caritas. “Um dos grandes conflitos de Jesus Cristo foi mantido com a religião do seu tempo”, afirma, “e até usou palavras bem mais duras para descrever a sua Igreja do que as usadas agora por Francisco”, conclui.
in Jornal Expresso 05.01.2019
https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2410/html/primeiro-caderno/em-destaque/Papa-contra-escandalo-de-catolicos

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Conversas sobre Doutrina Social da Igreja
21.01.2019 Dignidade da Pessoa
Oradoras: Teresa Toldy e Lisa Matos