14 julho 2019


P / INFO: Crónicas & A guerra dos Papas
Frei Bento – Pluralismo religioso e originalidade cristã
Padre Anselmo - Confissões do Papa Francisco. 3
Padre Tolentino - O Coração da Vida
Padre Vítor – Cem Palavras

PLURALISMO RELIGIOSO E ORIGINALIDADE CRISTÃ
Frei Bento Domingues, O.P.

Esta coexistência pacífica está a ser activada para alargar e aprofundar a qualidade espiritual das religiões e as suas responsabilidades sociais ou é sinal de crescente indiferença?

1. O panorama dos estudos sobre a religião na sociedade portuguesa continua a enriquecer-se. Segundo um Inquérito recente , o pluralismo religioso, no território português, está a concentrar-se na Área Metropolitana de Lisboa. Nasce a pergunta: este pluralismo é vivido como diálogo que vai alterando e fecundando os comportamentos de cada grupo ou limita-se a garantir que possam coexistir de forma tolerante ou até indiferente?
A liberdade religiosa está legalmente garantida em Portugal. Segundo um Relatório de 2018, não se registaram casos significativos de discriminação por razões religiosas ou abusos de liberdade religiosa que possam ser imputáveis ao Estado ou a outras entidades, nem se perspectivam, num horizonte temporal próximo, tensões sociais, económicas ou políticas que façam prever uma alteração desta situação.
Importa robustecer este clima porque, hoje, tudo é muito frágil. Mas persiste a pergunta: esta coexistência pacífica está a ser activada para alargar e aprofundar a qualidade espiritual das religiões e as suas responsabilidades sociais ou é sinal de crescente indiferença?
Não se pode confundir o diálogo inter-religioso com uma passagem de modelos na qual cada um exibe a sua imagem convencional retocada para ficar bem na fotografia. Sabemos que um confronto é amistoso e crítico quando cada grupo reconhece com verdade: em relação ao passado, nós mudamos muito e vós também.
Com isto não se pretende a abolição das identidades dos diversos movimentos e instituições, desenhadas pela história de fidelidades, inovações e traições, de verdadeiras e falsas reformas . As religiões são construções simbólicas, rituais e organizativas do ser humano, sem garantias de infalibilidade, para configurar o sentido da vida e alimentar a esperança nos bons e nos momentos em que tudo parece perdido.
Como dizia Frei José Augusto Mourão, a era das definições unívocas de religião acabou. Prevalece uma concepção liberal que vai obrigar a que se aceite conviver segundo a ideia de que não há uma saturação do espaço da verdade. O espaço da verdade partilha-se. Há posições, há valores que diferem de religião para religião, de grupo para grupo, de instituição para instituição. Desde que isso não colida com o inegociável, com o indisponível, é possível às pessoas conviverem em paz, sem guerras de religião.
O mito de Babel era a ideia concentracionária de uma única língua, da abolição das diferenças. Era a violência de uma única linguagem. O simbólico derrube da Torre aponta para um valor que nos há-de congregar: se não chegarmos ao diálogo, que cheguemos, no mínimo, à negociação das diferenças.
2. Mesmo sem uma definição unívoca de religião, há quem não goste de abrigar o fenómeno cristão sob esse nome. Eduardo Lourenço, por exemplo, tem observações pertinentes acerca deste ponto: «É mais do que discutível que o cristianismo seja uma mística, embora haja, naturalmente, uma mística cristã. É mesmo mais do que discutível que o cristianismo seja uma religião, no sentido antigo e clássico do termo ciceroniano de religare, embora fosse esse o que, exceptuando o horizonte da teologia negativa, se impôs culturalmente».
Explica porquê: «A religio, segundo Cícero, denota a dependência, o laço que ata o homem a Deus. Mas de algum modo esse laço não ata menos Deus ao homem. O cristianismo está aquém ou além desta mútua interdependência. O nome de “Pai”, dado a Deus, não é uma mera antropologização destinada a nomear o que não tem nem pode ter nome – como se fosse “criado” pela nossa nomeação –, mas a pura metáfora do sentimento de pura gratuidade que é a essência do laço que não nos ata a Deus – e muito menos Deus a nós –, mas nos desata de todo o império da necessidade. Deus não é a nossa “propriedade” nem nós a de Deus».
3. O filósofo espanhol, José Antonio Marina, escreveu um ensaio desafiado por outro de sinal contrário, o de Bertrand Russell. Não cabe nesta crónica a discussão que merece. Defende que a religião é a experiência que acompanhou, desde o princípio, a irrupção da criatividade do mundo. O despertar da inteligência humana aconteceu quando um animal peludo bípede compreendeu um signo: o visto converteu-se em símbolo do não visto. Foi, porém, com Jesus que este filósofo percebeu que, apesar de todos os horrores na história humana, o amor de pura generosidade, de pura gratuidade (agapé), acabará por vencer. Confessa que é uma posição individual, optimista e megalómana, mas se Jesus tem razão, «vai ser possível o meu grande sonho: transformar, em todos os registos da nossa vida, o esforço em graça, em agapé». Se o ser humano é um animal simbólico – vendo o que não vê, trazendo para perto o que está longe - a sua fé desafia, mas não contradiz, a razão. Tem olhos e coração que a razão desconhece.
O Cristianismo, nas suas múltiplas expressões, nas suas realizações históricas de pura generosidade e de traições sem nome, está ligado a uma realidade histórica incontornável: Jesus de Nazaré. Tendo em conta a sua prática, as suas parábolas, o dom da sua vida pelos mais abandonados e a recusa de todo o poder de dominação, testemunhou que o Deus de quem se fiou em tudo, até no momento mais dramático da sua existência truncada, é abertura universal a todos os seres humanos, de todos os povos, culturas e religiões.
Jesus não tentou fundar uma nova religião. Indicou a Fonte do seu modo novo de viver para os outros, em liberdade e suscitando vidas em processo contínuo de liberação. É nosso contemporâneo.
Nessa Fonte todos podem beber, banhar-se e renascer criaturas novas. Vidas nascidas do puro Amor (Agapé), para que a sua lei seja a graça do Espírito da liberdade, suprema responsabilidade para que todos tenham vida em abundância. Como? Deixou tudo aberto, em todos os âmbitos, à criatividade humana. Com uma condição: que tudo seja feito, com sabedoria, para servir e nunca para dominar. Avisou: o amor do dinheiro é uma idolatria.
in Público, 14. 07.2019
https://www.publico.pt/2019/07/14/sociedade/opiniao/pluralismo-religioso-originalidade-crista-1879345
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Confissões do Papa Francisco. 3                                         
Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Termino a longa e bela entrevista do Papa Francisco à jornalista Valentina Alazraki, de Noticieros Televisa, México.  Temas importantes de hoje: a reforma da Igreja, erros cometidos e a confissão, acusação de heresia, o diálogo com o islão, o desejo de ir à China, quanto tempo ainda de pontificado?
2. 15. Francisco e a reforma da Igreja. A jornalista: “Qual é a coisa mais bonita que julga ter feito?” “O mais bonito para mim é, foi e é sempre estar com as pessoas, que queres que te diga? Eu renasço quando vou à praça (Praça de São Pedro), quando vou a uma paróquia. Às prisões..., estar com as pessoas. Sim, sou Papa, sou bispo, fui cardeal..., isto tudo pode cair, mas, por favor, não me tirem o ser padre, cura.”
Erros? “Erros há sempre. Confesso-me todos os 15 dias, o que significa que cometo erros.” A jornalista: “E são confissões longas ou curtas?”. Francisco: “A curiosidade feminina!, ‘the human touch’! “Como reagiu a essa de o acusarem de herege?” “Com sentido de humor, filha”. A jornalista: “Não lhe dá muita importância?” Resposta: “Não, não, rezo por eles porque estão equivocados, por vezes, pobre gente, alguns são manipulados. Vi quem eram os que assinavam... Não, a sério, sentido de humor e eu diria, ternura, ternura paternal. Quer dizer, isso não me fere minimamente. A mim o que me fere é a hipocrisia, a mentira.”
A jornalista: “E com a sua reforma tem a sensação de que estamos...” Resposta: “A reforma não é minha. Foram os cardeais que a pediram. Isto é assim, tal qual. As pessoas têm vontade de reformar. O esquema de corte tem de desaparecer. Foram os cardeais que o pediram. Bem, a maioria, graças a Deus.” A jornalista, referindo o caso de Maciel, fundador da Legião de Cristo, observou que o Papa João Paulo II tinha “obstaculizado essas reformas...”. Resposta: “Por vezes, enganaram João Paulo II.” No caso de Maciel e dos Legionários, “Bento XVI foi corajoso. E João Paulo II também. Quanto a João Paulo II, é preciso entender certas atitudes, porque vinha de um mundo fechado, a cortina de ferro, ainda estava vigente o comunismo lá... E havia uma mentalidade defensiva. Temos que compreender bem, ninguém pode duvidar da santidade desse homem e da sua boa vontade. Foi um grande.”
2. 16. Geopolítica e islão. Pergunta a jornalista: “Qual é a sua estratégia face ao islão? Sente-o como uma prioridade neste momento?” Francisco: “Penso que sim. De facto, vou aos bairros em Roma, às paróquias e vêm, dizendo: ‘sou muçulmano’, ‘sou muçulmana’. Vêm saudar-me ou estão com o véu. Ou seja, o islão entrou na Europa outra vez, sejamos realistas, o islão é uma realidade que não podemos ignorar.” Também na África, há bispos que contam que há muçulmanos que vão rezar ao altar de Nossa Senhora. “Creio que somos irmãos, vimos todos de Abraão e nesse aspecto sigo as linhas do Concílio: estender as mãos aos judeus, aos islâmicos, estender as mãos o mais possível.”
Francisco reconhece a evidência de que “o islão está de modo muito forte ferido por grupos extremistas, por grupos intransigentes, fundamentalistas. Também nós, os cristãos, temos grupos fundamentalistas, pequenos grupos fundamentalistas, que obviamente não são guerrilheiros. Conclusão: é preciso ajudar os muçulmanos com a proximidade para que mostrem o melhor que têm, e esse melhor não é precisamente o terrorismo.” Está aí “o grande tema dos mártires cristãos...”, observa a jornalista. E Francisco: “Sim, e bastam pequenos grupos para causar desastres”.
Neste contexto da cristianofobia e da paz, chega a notícia do convite oficial para que o Papa visite o Iraque, o que poderá acontecer já em 2020: “Tenho a honra de convidar oficialmente Sua Santidade a visitar o Iraque, berço da civilização e lugar de nascimento de Abraão”, escreveu o presidente iraquiano, Barham Salih, numa missiva ao Papa. É sabido que aí, ao longo dos últimos anos, o número de cristãos passou de 1.5 milhões para uns 500 mil.
Ainda neste domínio, é necessário relembrar o que Francisco também tem sublinhado em ordem a este diálogo e à paz. Em primeiro lugar, também o islão tem de aprender o que custou à Igreja Católica, mas aprendeu: a leitura dos textos sagrados, no caso dos muçulmanos, do Alcorão, não pode ser literal, mas histórico-crítica. Por outro lado, é essencial salvaguardar a laicidade do Estado, isto é, a separação da religião e da política; por outras palavras: o Estado deve ser laico, não pode ter uma religião oficial; o Estado tem de ser confessionalmente neutro, para garantir a liberdade de todos. Sem a laicidade, não se supera a chamada capitis diminutio, isto é, a diminuição de cidadania dos cidadãos que não seguem a religião oficial. Dois princípios fundamentais.
E, evidentemente, Ahmed al Taleb, o Grande Imã da Mesquita e Universidade Al Azhar, no Cairo, com quem o Papa Francisco assinou, em Abu Dhabi, a histórica Declaração “A Fraternidade Humana”, a que aqui fiz longa referência, não pode continuar a aprovar que se bata na mulher “sem lhe partir um osso”: “Não deve partir-lhe um osso nem provocar danos num órgão ou membro do seu corpo nem tocar-lhe com a mão na cara nem provocar-lhe feridas nem causar danos psicológicos.”
Ainda no quadro da geoestratégia, Francisco confessa que o seu sonho é a China: “o meu sonho é a China. Gosto muito dos chineses.” Apesar das críticas, já que a perseguição não acabou, saúda o acordo com a China, para superar a dualidade da Igreja unida a Roma e a patriótica. “Agora, os católicos fruem o estar juntos. Com toda a política exterior dos pequenos passos, alguns sentem-se fora, isso é verdade, mas é a minoria. De facto, celebraram a Páscoa todos juntos, todos juntos e em todas as igrejas, este ano não houve problemas.” “Leva-nos à China?”, perguntou a jornalista. “Ficaria encantado. Para si vai ser a viagem número...”.
2. 17. Quanto mais tempo ainda como Papa? A jornalista: “Lembra-se de que há quatro anos me dizia: ‘é que eu tenho a sensação de que o meu pontificado vai ser breve, dois, três, quatro anos...’, e já estamos, felizmente, no sexto.” Francisco: “E eu tenho a mesma sensação.” A jornalista: “Já passaram seis anos, já não é tão curto.” Francisco: “Mas também não pensemos em 20.” A jornalista: “Bom, em 20 talvez não, porque tem 82. Mas nos 100 anos...”. Resposta: “Está bem.”
A jornalista: “Recordo que também me disse que o que mais estranhava era como Papa não poder sair às escondidas para comer uma pizza, lembra-se? Já conseguiu fazer isso?” Francisco: “Não. Em Roma do que mais tenho saudades é de sair para comer uma pizza... Não, não o fiz. É uma coisa a que tenho de renunciar. Porque em Buenos Aires ia. A mim a rua diz-me muito, aprendo muito na rua.”
3. E a gente fica com a sensação de que Francisco, no meio de todas as crises por que passam a Igreja e o nosso mundo, é uma bênção para a Igreja e para o mundo. E compreendemos também o diálogo, no seu breve encontro com o Padre Ángel, o profeta dos pobres, presidente da ONG “Mensageiros pela Paz”, no Panamá, aquando do encontro da juventude: “Como estás?”, perguntou-lhe o Papa. Resposta: “Vou bem, apesar dos problemas. E tu, Francisco?” E Francisco: “Sobre os meus problemas, nem te falo.”
in DN, 15.07.2019
www.dn.pt/edicao-do-dia/14-jul-2019/interior/confissoes-do-papa-francisco-3-11107478.html
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QUE COISA SÃO AS NUVENS
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
O CORAÇÃO DA VIDA
VIVEMOS MUITO À SUPERFÍCIE, A ESBRACEJAR, A CORRER DE UM SÍTIO PARA OUTRO, E FAZEMOS DISSO UM HÁBITO
Diz-se que os saberes são aquilo que nos permite ganhar a vida. Mas não podemos esquecer que a sabedoria é aquilo que nos permite verdadeiramente vivê-la. Cada um de nós transporta um conjunto de competências — fruto de múltiplas aprendizagens — que nos dão acesso a um ofício, a um labor, a uma função. Os saberes pertencem a esse plano. A sabedoria, por seu lado, é aquilo que nos faz tocar o coração da vida, os seus porquês entusiasmados, sejam de dor ou delícia, e os seus sem porquês a perder de vista. A nossa tendência, demasiadas vezes, é afunilar a realidade ao trabalho da sua conquista imediata. A luta pela sobrevivência literalmente nos esgota e deixámos por fazer a viagem mais profunda, essa que sem palavras justifica o nosso estar aqui. O místico Silesius escreveu que “a rosa é sem porquê”, desafiando-nos à aventura profunda do viver. E, de facto, precisamos desse viver que não depende da contingência que nos rodeia, nem da exclusiva confirmação que o utilitário ou o funcional possam trazer.
A verdade é que vivemos muito à superfície, a esbracejar, a correr de um sítio para outro, e fazemos disso um hábito. Vivemos dando respostas às solicitações que constantemente nos são feitas, às imagens que se atropelam numa sonâmbula sucessão. Na voragem destas sequências, cada instante emerge como um ponto desconexo que num relâmpago se esvazia e não como testemunho de uma iminência maior que perdura. E é assim que raramente mergulhamos no coração da vida. Raramente pensamos numa vida que nos pertença, e que seja mais do que um tique, mais do que a cega forma rotineira de aparecermos a nós próprios e aos outros. Não tenhamos dúvidas: precisamos de mais do que isso. Precisamos de uma existência que nos expresse, que decline o silêncio, o mistério, a imensidão, o aberto do próprio ser, e não a vidinha sempre à pele, condicionada, diminuída e cheia de retrações.
A sabedoria é aquilo que nos faz tocar o coração da vida, os seus porquês entusiasmados, sejam de dor ou delícia, e os seus sem porquês a perder de vista
Acontece-nos isto: olhamos para um jardim, gostamos, não gostamos, intervimos, cortamos, cerceamos e, de repente, temos um jardim geométrico, deslumbrado por formas perfeitas. Contudo, é bom saber que o nosso desejo deste artifício é uma enganadora ilusão, porque a vida é informe, ainda em bruto, ainda inicial. Por isso, ela é viva. Creio que temos de construir os nossos canteiros bem ordenados, mas temos de desejar ardentemente que também as flores de que não conhecemos o nome venham florir à nossa porta. Porque elas nos dão o endereço da existência em cascata, na sua pura torrente, na sua originalidade e verdade.
Uma das formas fundamentais da sabedoria é a descoberta que cada um de nós vai fazendo numa vida adulta, a ciclo e a contraciclo, a tempo e fora do tempo, de que somos inacabados. Não por acaso os mestres espirituais ensinam que um dos maiores obstáculos na vida interior é a perfeição, ou melhor, a ideia da perfeição. Porque, no fundo, ela nos atira para fora da própria vida, e nos mantém como que aprisionados à miragem de uma existência que não é a nossa. Mais importante do que a completude é nos sabermos nas mãos do oleiro. São duas experiências a associar: a do inacabamento e a de habitarmos continuamente um processo de (re)criação. Por exemplo: os dias da nossa vida, em que parece que já não há nada para acontecer, são, mesmo se de uma forma que porventura ignoramos, um tempo de criação. Grande tarefa esta de levarmos a sério a própria vida. Porque o abraço ao que somos é a única possibilidade de um abraço que nos salve. A possibilidade do abraço de Deus.
in Semanário Expresso, 13.07.2019 p164
https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2437/html/revista-e-1/que-coisas-sao-as-nuvens/o-coracao-da-vida
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À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves
DOMINGO XV COMUM Ano C
“Passou junto dele e, ao vê-lo,
encheu-se de compaixão.” Lc 10, 33
Cem palavras
Com pouco mais palavras (contando artigos e partículas gramaticais) chegou até nós a parábola que Jesus contou para responder à pergunta: “quem é o meu próximo”! E ficamos “sem palavras” diante dum relato onde cabe a vida toda, e podemos “entrar na pele” de todos os personagens. A história, que não seria notícia de capa de nenhum jornal, nem “post” das redes sociais (pois o samaritano não tiraria nenhuma “selfie”!), ressoa no íntimo de quem a lê ou escuta.
Quem somos nós neste relato? Um homem no caminho que desce de Jerusalém a Jericó: 1100 metros de desnível. Figura de todos os homens e mulheres, que sobem e descem tantos caminhos, anónimo e tão igual a todos nós, sem saber o imprevisto que o espera. Bandidos, profissionais do mal, especialistas no roubo violento e na fuga, indiferentes à sorte dos frágeis e desprotegidos, de consciência adormecida para as consequências dos seus actos, cobardes que atacam pela força da maioria, tão diferentes do que cada um de nós pode ser?! Um sacerdote, homem de Deus, íntimo do sagrado, purificado pelo culto, de olhar cego pelos rituais da pureza, passa adiante: a dureza de coração é maior do que a compaixão, e connosco tal não aconteceria! Um levita, um funcionário zeloso do templo, habituado às coisas de Deus e esquecido do amor dos outros, vê e segue adiante: a pressa ou a falsa humildade de achar que nada se pode fazer distinguem-no de nós! Um samaritano, raça desprezada pelos judeus, que tinha programa a cumprir, salva a honra de todos nós, e é o herói improvável por uma abundante compaixão. E ainda um estalajadeiro, que também podia ser um de nós, capazes de cuidar a pedido (e ainda mais com pagamento antecipado)!
Do saber ao fazer vai um pequeno grande passo. Em 11 gestos, 11 verbos, o samaritano revela a compaixão em acto. Não é quem muito sabe que faz avançar a história; nem quem muito diz. Mas quem muito ama. O segredo não é saber quem é nosso próximo, mas de quem é que nos aproximamos. A nossa religiosidade vai ao encontro da vida, das pessoas na sua realidade, ou passa de largo, enredada em discussões vazias e guerrinhas de poder? A criatividade do amor abre futuros, provoca outros a fazer melhor, não se limita a constatar o mal ou a desistir antes de tentar.
O Samaritano é Jesus; e não nos pede Ele que sejamos nós também? Na atenção a um e a todos, aqui e agora, nos pequenos e nos grandes problemas da humanidade. Como continuam actuais estas palavras da Gaudium et Spes: “a profunda e rápida transformação da vida exige com grande urgência que ninguém, por despreocupação ou por inércia, se conforme com uma ética meramente individualista. Os deveres da justiça e da caridade cumprem-se cada vez mais contribuindo para o bem comum de acordo com a capacidade própria e a necessidade do próximo, promovendo e ajudando as instituições, públicas ou privadas, que se dedicam a melhorar as condições de vida dos homens” (n.30). Ficamos “sem palavras”, não é verdade? Passemos então aos actos!
in Voz da Verdade, 14.07.2019
http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=8305&cont_=ver2
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A guerra dos papas
Manuel Alte da Veiga
Falo da guerra não dos papas entre si (que também as houve e bem violentas) mas entre os “adeptos” deste ou daquele, nas imensas bancadas onde toda a gente se pode refugiar e donde aprecia, a modos de júri conflituoso, o grande desfile dos sucessores de São Pedro.
Comecei a dar-me conta desta “guerra” aquando da eleição de João XXIII, em 1958. Muita gente viu nesse papa uma catástrofe religiosa, um verdadeiro atentado contra a “eterna verdade” que sustentava a “cidade eterna”. E tratava-se de pessoas profundamente religiosas! Porém, não estariam preparadas para pensar que nenhum dos muitos caminhos para procurar a verdade se pode arrogar ser o único verdadeiro. Como se cada um de nós não tivesse que trabalhar e sofrer para se manter fiel à procura da verdade!
Como escreveu o padre jesuíta Miguel de Almeida, cada Papa tem o seu próprio carisma e estilo de intervenção, embora pareçam ocupar um lugar acima do resto dos mortais.
Numa pequena tertúlia sobre questões religiosas, aconteceu-me elogiar particularmente algumas características do então recém-eleito Papa Francisco. Tive então a experiência de como pode surgir uma “guerra dos papas”…
Os Papas da minha vida
Estudei os seus principais escritos. Aqui, com base nalgumas notas antigas, pretendo ser fiel aos sentimentos que mais me marcaram, úteis para discussão mas demasiado usados para “fazer guerra”.

Pio XII (1939-1958) foi o Papa da minha adolescência. Hierático, quase um ser sobrenatural, divino, imagem da perenidade e solidez da “única” “Igreja de Cristo”, à qual podemos confiar (descansadamente, para alguns) a nossa “salvação”. Imperturbável: no bombardeamento de Roma, na II Guerra Mundial, acalmava, com um gesto comedido, a multidão que “manchava de sangue o branco imaculado da veste pontifícia”. Asceta e sábio, a sua opinião era sagrada.

João XXIII (1958-1963). De repente, um papa “bonacheirão”, bondoso, sorridente e afável, divertido até. Apostava nas relações humanas positivas, construtivas e geradoras de alegria. Profundo conhecedor (e activista) dos problemas sociais e tragédias humanas do seu tempo. Consciente de que as várias confissões cristãs não andavam atentas aos “sinais dos tempos”, apresentando um “reino de Deus” estagnado e legalista. Abriu caminho a uma nova linguagem, a uma comunicação mais honesta, realista, amiga, humilde – e portanto espantosamente sonora. Foi o Vaticano II. Enfrentou contendas e duras oposições, mas os cristãos sentiram de novo que valia a pena e era saudável ser cristão.

Paulo VI (1963-1978) uniu autoridade pontifícia à inteligência e experiência de dirigir uma diocese fulcral (Milão). Provoca dissensões entre os padres conciliares ou conselheiros. “Converte” alguns e opõe-se drasticamente a outros. Encíclicas “fortes”, bem pensadas e estruturadas. Mas escolheu a posição contrária à da maioria dos peritos, ao publicar a retrógrada Humanae Vitae. Sob alguns aspectos, misturava Pio XII com João XXIII, mas longe do carisma de “estar com os outros”, característico de João.

João Paulo I (26 de Agosto-28 de Setembro 1978) prestou homenagem às qualidades positivas de João e Paulo. O “papa do sorriso”, perante as máscaras que se escondem nos recantos sombrios do Vaticano. Deixou alguns escritos que nos tocam profundamente. A sua morte reavivou o fim violento de alguns papas e alertou toda a gente para que até no mais alto nível humano, há quem se sirva de Jesus Cristo para satisfazer a ganância do poder.

João Paulo II (1978-2005) trouxe aquele ar muito fresco de quem vem de longe – da Polónia, onde pratica desportos de Inverno e onde aprendeu o seu gesto teatral. Um homem que sofreu, nos amigos chegados e na própria pele, a crueldade física e psicológica da perseguição comunista. Um homem que tudo fez para projectar a “sua” Igreja Católica como mensageira da salvação em Jesus Cristo. Com a firmeza (discutível) de verdadeiro líder. A forte imagem que criou fora da Igreja tanto provocou adeptos fervorosos como descontentamento pela sua “política interna”. E acabou por favorecer grupos (não só de leigos), que se apegavam e se serviam demasiado do poder ideológico e económico do Vaticano.

Bento XVI (2005-2013) não me podia agradar, pois conhecia a sua posição de inquisidor, inflexível e “perseguidor” de eminentes teólogos e homens da Igreja, que parecessem pôr em perigo ou desvalorizar o depositum fidei(o que já se notava em João Paulo II). De grande inteligência e cultura, mas criando desinteligências com alguns dos seus “ditos”. Partilho a opinião de muitos, ao dizer que o seu feito mais positivo e mediático foi a resignação. É sempre um louvor à virtude da humildade e funcionou como um toque de alarme. Mas continuou a ser fraco perante os que ateavam nele o fogo da oposição. Encíclicas notáveis, sobretudo as primeiras.

Francisco libertou a linguagem humana. Mostrou que o sentimento e racionalidade das palavras do nosso mundo favorecem o encontro sincero com Deus. Sabe escutar: como um médico, pai e amigo… e só assim dará uma resposta “com sentimento e racionalidade”, muitas vezes bastando apresentar-se com o silêncio de um ombro amigo.
Dá exemplo de como é necessário, para a realização da pessoa, libertar-se das opressões da pobreza e sobretudo da riqueza, dinheiro e poder. Mostra como simples acções são “revolucionárias”, quando de acordo com o impulso de cada vez melhor instaurar o Bem. Procura sem medo a verdade: sem medo de “adversários” e sem medo dos “poderosos” (ou que agem como se fossem).
Na longa entrevista com Dominique Wolton, quase que define a sua missão como “ir ao encontro dos outros”. Sacerdotes, religiosas e religiosos devem exercer a função “educadora” (= libertadora) de pai e mãe, com o prazer de quem se realiza ao fazer surgir pessoas adultas, capazes de promover no mundo o que é bom, vivendo assim uma sã sexualidade.
Centrado na pessoa humana e não nas leis (muitas vezes anti-humanas), promovendo uma Igreja anti-corrupção, tem sido muito atacado, como seria de esperar. Pela mesma razão, e porque é avesso a autoritarismos, é muito apreciado e bem-vindo. Evidentemente, se não pudéssemos ver-lhe defeitos e erros, é porque usaria as tais máscaras do Vaticano sombrio.
Manuel Alte da Veiga é professor universitário aposentado
in 7Margens. 13.07.2019
https://setemargens.com/a-guerra-dos-papas/?utm_term=7Margens+-+Hoje+-+A+guerra+dos+papas&utm_campaign=Sete+Margens&utm_source=e-goi&utm_medium=email
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07 julho 2019


P / INFO: Crónicas & Could Pope Francis deliver yet another ‘July surprise’?, artigo de John L. Allen Jr.
Frei Bento – O Papa Francisco no Iraque
Padre Anselmo - Confissões do Papa Francisco.2
Padre Tolentino - Música da Madeira
Padre Vítor – Manual para a missão
O PAPA FRANCISCO NO IRAQUE
Frei Bento Domingues, O.P.

1. Seria ridículo discutir se o Papa Francisco deve ou não ir ao Iraque. Não basta dizer que é um desejo que ele gostaria de realizar já no próximo ano. Os desejos do Papa não costumam ser de ordem turística. O que será que o move?
O mais espantoso é que tenha sido o governo de Bagdad a convidá-lo. O Presidente iraquiano, Barham Saleh, não é católico e, no entanto, numa missiva dirigida ao Papa, declarou que tinha a honra de o convidar para visitar o Iraque, berço da civilização e local do nascimento de Abraão. A visita constituiria uma oportunidade para lembrar ao povo do Iraque e ao mundo que o Papa se deslocaria à terra que deu à humanidade as suas primeiras leis, a rega agrícola e um legado de cooperação entre os povos do mundo de tradições confessionais diversas. Se fosse apenas isto, seria uma viagem de ordem cultural, de memória religiosa e ecuménica. É uma memória extraordinária, que só a ignorância ou a barbárie jihadista podem desejar esquecer e destruir. No entanto, talvez não baste para justificar a deslocação do Papa.
Também não é suficiente dizer que o Papa vai mostrar que também há cristãos árabes. Pensar que os árabes são todos muçulmanos é uma ignorância e que os cristãos do Oriente são apenas os membros das Igrejas ortodoxas.
Como lembra Jean-Marie Mérigoux, O.P., os cristãos dos países árabes são os cristãos dos países da Bíblia: os do Iraque são da terra de Abraão; os do Egipto são do país de Moisés; os da Palestina e de Israel, a chamada “Terra Santa”, são da terra de Jesus. Foi de Antioquia, na Síria, que os apóstolos saíram para fazer discípulos de todas as nações, como diz S. Mateus.
Os cristãos do mundo árabe nasceram e vivem onde Jesus nasceu, falou aos seres humanos e realizou a Páscoa: os católicos, os ortodoxos e os protestantes estão em sua casa nos países da Bíblia e são, para os do mundo inteiro, os irmãos mais velhos na fé e que os ajudam a descobrir, por um carisma que lhes é próprio, a proximidade terrestre de Deus. Quanto a Jerusalém, no coração do Próximo Oriente, judeus, cristãos e muçulmanos amam-na apaixonadamente. Hoje, no Médio e Próximo Oriente, maioritariamente muçulmano, os cristãos são cerca de 15 milhões[i]. Pertencem, no entanto, à identidade do Médio Oriente.
2. Os cristãos do Oriente são quase desconhecidos pelos cristãos do Ocidente. Muitas vezes, conhecem apenas o nome dos grandes patriarcas ortodoxos como os de Constantinopla e de Moscovo. Os católicos latinos do Ocidente quase desconhecem a sua Igreja na sua parte oriental. Maximos V, patriarca grego católico, lamentava que, entre eles, se ignorasse que tinham irmãos católicos orientais e a importância e o lugar dos seus patriarcas e das suas Igrejas particulares, no seio da Igreja católica.
É importante que os católicos ocidentais se esforcem por conhecer os seus irmãos católicos do Oriente. Não é aceitável ouvir dizer que “o Oriente cristão era o domínio próprio da ortodoxia” e que “o Ocidente cristão seria o domínio da catolicidade”. Isto é contrário à realidade e à verdade: latinidade não significa catolicidade e oriente não significa ortodoxia. Pouco antes do Vaticano II, do qual foi uma das figuras eminentes, o patriarca grego-melquita-católico, Maximos IV lamentava demasiadas vezes: o Ocidente católico ignorou-nos. Este patriarca manifestou que tanto a sua Igreja católica como as outras Igrejas orientais católicas tinham, como vocação, aproximar a catolicidade e a ortodoxia. Uma tal Igreja, simultaneamente católica e árabe, revelava-se muito próxima e capaz de compreender as Igrejas ortodoxas, também elas orientais e árabes. Na peregrinação de Paulo VI a Jerusalém, em 1964, o patriarca Athenágoras encontrou Maximos IV e declarou: segui as vossas intervenções no Concílio e agradeço-vos, pois representaste-nos a todos. Obrigado.
Estas referências que muitos julgarão bizantinas, ajudam-nos a perceber que a Igreja respira bem quando tem dois pulmões: o oriental e o ocidental. Como aliás lembrou João Paulo II.
O Ocidente católico não pode ignorar que também existe um oriente católico com as suas riquezas eclesiais, espirituais, teológicas, artísticas e as suas tradições litúrgicas e canónicas. Tem necessidade, para a sua vida espiritual de não absolutizar certas práticas que no contacto do oriente cristão podem descobrir como são relativas. Se a língua árabe é utilizada quotidianamente nestas Igrejas, o siríaco, o grego, o copta e o arménio são línguas litúrgicas e patrísticas.
3. O Iraque, mas não só, tem sido cenário de uma sucessão de conflitos nos últimos 40 anos, tendo enfrentado um embargo internacional, uma invasão norte-americana e, mais recentemente, três anos de ocupação por parte do grupo Daesh. Finalmente, o país declarou vitória sobre o grupo islamista.
O clima de violência vivido no país provocou o êxodo de milhares de pessoas, especialmente entre as minorias. O número de cristãos, que era de 1,5 milhões antes da queda de Saddam Hussein, em 2003, passou para 500 mil. Não se pode consentir que o Próximo Oriente se transforme em cemitérios ou em museus cristãos.
A notícia do desejo do Papa ir ao Iraque e do seu Presidente o ter convidado oficialmente, suscitou um enorme entusiasmo na população. Como referiu o Patriarca Louis Sako Rafael I, ao ouvirem as palavras do Papa Francisco, aplaudiram à maneira iraquiana, dizendo aleluia, aleluia.
Que podem eles esperar do Papa? Ele próprio declarou: “desejo de ir no próximo ano, para que o Iraque possa seguir em frente, através da participação pacífica e partilhada na construção do bem comum de todos as componentes religiosas da sociedade, e não caia novamente em tensões que vêm dos conflitos intermináveis de potências regionais”.
Com esta declaração manifesta que não vai apenas para apoiar as muito sofridas comunidades católicas orientais, como lhe pertence. O que o preocupa é a participação pacífica e partilhada na construção do bem comum de todas as componentes religiosas da sociedade.
Francisco tem demonstrado nas viagens, onde os católicos são uma minoria, que consegue entusiasmar todas as correntes da sociedade, civil e religiosa.
Tem sido a voz de uma prática de acolhimento das pessoas em fuga, amontoadas dentro de navios, em busca de esperança, sem saberem em que portos poderão ser acolhidas.
Para embarcações, com armamentos sofisticados e caros capazes de produzir devastação que não poupam nem sequer as crianças, há sempre portos abertos. Francisco é a voz permanente daqueles a quem querem roubar a própria esperança.
in Público 07.07.2019


[i] Cf. Jean-Marie Mérigoux, O.P., Chrétiens du monde arabe, La vie spirituelle, nº 805 p 169-176

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Confissões do Papa Francisco. 2 
Anselmo Borges
Padre e Professor de Filosofia
Dou sequência à longa e bela entrevista do Papa Francisco à jornalista Valentina Alazraki, de Noticieros Televisa, México. Porque, se é verdade que  é sempre espontâneo no contacto com os jornalistas, raramente o terá sido tanto. Cordial, tratando a jornalista por “filha”, a quem revela que é “um conservador”, mas que mudou.
2. 7. Os de fora e os de dentro. A jornalista observa: “Há quem diga que o Papa parece gostar mais dos que estão longe do que dos seus”. Francisco: “É um piropo para mim. É um piropo, pois é o que Jesus fazia, acusavam-no disso. E Jesus diz: ‘Não são os sãos que precisam de médico, mas sim os doentes’. Eu não prefiro os de fora aos de dentro. Cuido dos de dentro, mas dou prioridade aos outros, isso sim.” É como numa família.
Acrescentou: “Alguns jornalistas acusam-me de que sou demasiado tolerante com a corrupção na Igreja; por outro, se carrego em cima dos corruptos, dizem que ‘lhes carrego demais’. Bonito. Assim, sinto-me pastor. Obrigado.”
2. 8. E volta aos migrantes e refugiados, observando a jornalista que há quem o acuse de “falar muito mais deste tema do que dos temas, dos valores que antes se dizia serem valores irrenunciáveis do catolicismo como a defesa da vida.”
Francisco: “Porque é uma prioridade hoje no mundo. Todos os dias recebemos notícias de que o Mediterrâneo é cada vez mais cemitério, para dar um exemplo.”
Mas reconhece as tremendas dificuldades do problema. “Sobre migrantes, eu digo, em primeiro lugar, que é preciso ter coração para acolher; depois, é preciso acompanhar, promover e integrar. Todo um processo. Aos governantes digo: Vejam até onde podem ir. Nem todos os países podem, sem mais. E para isso é necessário o diálogo e que se ponham de acordo. É preciso integrar isto tudo, não é fácil tratar o problema migrantes, não é fácil.”
A mesma dificuldade quanto aos repatriados. “Não sei se viu as filmagens clandestinas que há quando os apanham outra vez. Às mulheres e aos miúdos vendem-nos, e os homens são feitos escravos, torturam-nos... Por isso, digo: cuidado também para repatriar com segurança.”
2. 9. Sobre o aborto. “O aborto não é um problema religioso no sentido de: porque sou católico não posso abortar. É um problema humano. É o problema de eliminar uma vida humana. Ponto final. E por aqui me fico.”
2. 10. E com os governantes? “Não gosto de responder: ‘gosto mais, gosto menos’. Quero ser honesto. Frente a um governante, procuro dialogar com o melhor que tem. Porque a partir do melhor que tem vai fazer bem ao seu povo.”
2. 11. É sabido que Francisco não se cansa de atacar a bisbilhotice na Igreja, na Cúria, na vida de todos. Acaba de distribuir um folheto na Cúria sobre isso, porque “somos inclinados a falar mal das pessoas”. A jornalista: “Como se chama o folheto?” Resposta: “Não falar mal dos outros”. “É um defeito que temos todos: ver o mal  do outro e não o bem. Isso vale para todos: a bisbilhotice, os mexericos. Dizem que as mulheres são mais bisbilhoteiras, mas é falso. Os homens também o são.” O que é mau  deve-se dizer ao próprio, “em privado, para que se corrija. Não o digas aos outros.”
2. 12. Situações “irregulares”, recasados e homossexuais. Francisco lamenta que por vezes abusem das suas palavras e o interpretem mal: “Por vezes as pessoas, com o entusiasmo de serem recebidas pelo Papa, dizem mais do que o Papa lhes disse, é preciso ter isso em conta.” A jornalista: “É um risco que corre...”. Resposta: “Claro, um risco. Mas todos são filhos de Deus. Todos. Eu não posso descartar ninguém. Preciso de ter cuidado, tomar precauções, mas descartar, não. Também não posso dizer a uma pessoa que o seu comportamento está de acordo com o que a Igreja quer, quando não está. Mas tenho de dizer a verdade: ‘És filho, filha de Deus. A ninguém tenho o direito de dizer que não é filho, filha de Deus, porque estaria a faltar à verdade. Ou que Deus não gosta dele, dela. De facto, Deus gosta de todos, até de Judas.” As pessoas têm é de ser responsáveis.
Mas há más interpretações. “Perguntaram-me sobre a integração familiar das pessoas com orientação homossexual e eu disse: as pessoas homossexuais, as pessoas com uma orientação homossexual têm direito a estar na família e os pais têm direito a reconhecer esse filho como homossexual, essa filha como homossexual. Não se pode pôr fora da família ninguém nem tornar a vida impossível a ninguém.” “Outra coisa é, quando se vêem alguns sinais nos miúdos que estão a crescer, mandá-los a um ‘especialista’ (na altura, saiu-me ‘psiquiatra’, mas queria dizer especialista, foi um lapsus linguae). Ora, um diário colocou em título: ‘O Papa manda os homossexuais ao psiquiatra’. Não é verdade. Não disse isso.”
Quanto aos divorciados recasados, “a doutrina foi reajustada, o que significa recuperar a doutrina de São Tomás.” O princípio continua claro: casamento para toda a vida; do que se trata é de aplicar, dentro de certas regras, o princípio às circunstâncias. Neste quadro, abre-se a porta à possibilidade da comunhão em casos concretos.
2. 13. A jornalista observou: “Conhecidos seus dizem que, na Argentina, era conservador  na doutrina.” Francisco: “Sou conservador.” A jornalista: Mas “tornou-se muito mais liberal do que era na Argentina. Foi o Espírito Santo?” Resposta: “A graça do Espírito Santo existe certamente. Eu sempre defendi a doutrina. E é curioso, uma vez que chama a atenção para isso, na lei do casamento homossexual... é uma incongruência falar de casamento homossexual.” A jornalista: “Então, antes era uma coisa e agora é outra?” “É verdade. Confio em que cresci um pouco, que me santifiquei um pouco mais. A gente muda na vida. Ampliei os meus critérios, isso pode ser; vendo os problemas mundiais, tomei mais consciência de algumas coisas que antes não tinha. Julgo que nesse sentido há mudanças, sim. Mas sou conservador e... sou as duas coisas.”
2. 14. Francisco e a imprensa. A jornalista: “Atendendo a esta evolução, pode dizer-nos o melhor nestes seis anos?” Francisco: “Bom, escutar-vos a vós jornalistas, creio que para mim foi uma coisa... não digo a melhor, mas uma coisa linda.”
“Na Argentina, nunca contactava com a imprensa, não éramos santos da sua devoção”, observa a jornalista. “Não, não. Também agora não muito (risos). Não, mas realmente o diálogo convosco — isto é um pouco piada, mas quero dizê-lo —, eu tenho boa relação convosco e sinto-me bem convosco, que fique claro. É uma das coisas lindas.” “Mesmo que o critiquemos”. Francisco: “Claro que sim. Se criticarem bem, bendito seja Deus; se criticarem mal, saio a dizer-vo-lo. Porque  o papel da imprensa não é só criticar, é construir. Mas também tenho consciência de uma coisa: Nem sempre sois livres, lamentavelmente muitos, par
a viver..., nem sempre podem dizer tudo o que querem.”

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QUE COISA SÃO AS NUVENS
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
Música da Madeira
NÃO RARO, A TENTATIVA DE DESLOCAR A ARTE PARA UM TERRITÓRIO DE OBJETIVAÇÃO FÁ-LA INCORRER NAQUELE RISCO DE DESINTEGRAÇÃO
No seu livro “Henrique de Ofterdingen”, Novalis conta uma inquietante história. A de um mineiro que desce ao fundo da mina no dia do seu casamento. Inesperadamente dá-se uma derrocada e ele morre, ficando o seu corpo sepultado lá em baixo. Muitos anos depois o corpo vem a ser descoberto, por acaso. E era incrível, pois parecia que o tempo não havia passado, como efetivamente passa sobre tudo o que é mortal. O mineiro permanecia belo e jovem como no dia do seu casamento. Decidem então retirá-lo daquelas funduras desoladas até à superfície. E acontece, nesse momento, algo de terrível: em contacto com a luz, o seu corpo desintegra-se e torna-se pó. Esta história é frequentemente recordada para descrever o destino da arte. De facto, quando se transita da obra, da experiência da obra artística, à prática discursiva que se elabora acerca dela temos de reconhecer que há uma perda. E que, não raro, a tentativa de deslocar a arte para um território de objetivação fá-la incorrer naquele risco de desintegração, que Novalis refere.

Não foi a propósito da obra de arte que me recordei desta história, mas sim a propósito da ilha da Madeira, nos primeiros de julho deste 2019, em que se comemoram os 600 anos da sua descoberta e povoamento. Falar da Madeira representa já, de alguma maneira, perdê-la, pois a sua força telúrica é (ainda hoje é) ancestral, pré-histórica ou pré-verbal, se quisermos. E tem uma intensidade que algumas palavras advertem, é verdade, mas só aquelas que aceitam descer às galerias silenciosas, a esses espaços flagrantemente uterinos, e resistir à tentação de trazer à luz aquilo que é enigma. De facto, a “perda” está já estampada no primeiro nome que lhe foi dado: Madeira. Se é verdadeira a tradição de que Camões se faz eco em “Os Lusíadas”, quando diz “passamos a grande ilha da Madeira/ que do muito arvoredo assim se chama”, percebemos que a extraordinária mata atlântica que cobre a ilha foi interpretada sobretudo em chave utilitária. Teria sido, porventura, o modo possível que se encontrou. Mas é também uma prova de como são escassos os nomes para dizer a evidência do real mais puro.
Falar da Madeira representa já, de alguma maneira, perdê-la, pois a sua força telúrica é (ainda hoje é) ancestral, pré-histórica ou pré-verbal
O que a Madeira é, por exemplo, ouve-se bem num disco que André Santos editou o ano passado, com um título que resume o seu programa. O disco chama-se “Mutrama”, um jogo com as abreviaturas de “Música tradicional da Madeira”. André Santos fez uma breve seleção pessoal do rico repositório do cancioneiro insular, recolhido sistematicamente, desde os inícios dos anos 80 do século passado, pelo investigador Rui Camacho e pela Associação Xarabanda. Nessas cantigas que, em alguns casos deste disco, são entoadas pelos próprios populares, retornámos ao mundo do trabalho e dos ciclos económicos que caracterizaram a história da ilha (desde a apanha do trigo à carga da cana-de-açúcar). Lidámos com a construção das sociabilidades e da identidade do lugar, com os seus desejos expressos ou omitidos, a sua sofreguidão mansa e a sua espera, os seus sofrimentos, correspondências e alegrias. Entrámos dentro da alma dos ilhéus, que, como se sabe, tem o encantamento de um melisma que o oceano embala como um sentimento chegado. Um outro aspeto surpreendente no trabalho musical de André Santos é a atenção que o músico presta aos cordofones madeirenses: a viola de arame, o rajão e a braguinha. As cantigas e os versos que as vozes murmuram são aqui importantes e revelam tanto. Mas o som desamparado destes instrumentos talvez ainda mais. Na sua estranheza recôndita, eles dão a escutar uma Madeira bela e jovem, como no dia do seu casamento.
in Semanário Expresso, 05.07.2019 p163
http://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2436/html/revista-e/que-coisas-sao-as-nuvens/musica-da-madeira
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À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves
DOMINGO XIV COMUM Ano C
“Quando entrardes nalguma casa,
dizei primeiro: ‘Paz a esta casa’.”
Lc 10, 4
Manual para a missão
1. Porquê este manual? Porque sofremos de: sintomas de individualismo, apatia, falta de esperança, desencanto connosco próprios e com os outros, ideias de salvação como prémio que não se alcança ou é só para alguns “já santos”, espírito de clubismo, tentação de êxitos vistosos e de poder sobre os outros, desejo de fama pessoal, utilização de Deus em nosso favor, vivência da fé como rotina, esquecimento ou desconhecimento do amor abundante de Deus, vivência acrítica e fechada da fé, escrúpulos que atrofiam e culpas que matam, tristeza e abandono da comunidade.
2. Que é a missão? Mais do que uma ideia pontual é elemento essencial da opção cristã assumida no baptismo e renovada em cada domingo e todos os dias. É pessoal e comunitário e não individual ou solitário. É o amor abundante de Deus, que deseja chegar a todos, e conta com todos para irmos à sua frente. É anunciar a cada pessoa a Páscoa de Jesus Cristo, revelação plena de Deus que nos convoca a construir a vida na paz e no amor.
3. Quem faz missão e a quem se destina? Todo o cristão baptizado, que vive o amor a Cristo e à revelação do projecto de Salvação do Pai e do Espírito, e vive em comunidade, como dizia Madeleine Delbrel: “A missão não é facultativa. Os meios ateus (e indiferentes) em que vivemos impõem-nos uma escolha: missão ou demissão cristã”. O seu destino é a universalidade. É de todos e para todos, sem fronteiras nem limites.
4. Como se faz a missão? Ao jeito de Jesus: na paz, no serviço e na doação de vida. Com a mansidão do cordeiro, sem violência nem imposição, sem “lavagem cerebral” nem “escravidões espirituais”. Libertando, amando e servindo. Indo ao encontro de todas as pessoas em todas as realidades, humanas e desumanas, aceitando serenamente as rejeições e perseguições, oferecendo e não vendendo. Com palavras mas, acima de tudo, com a vida, ao jeito do mandato da ordenação dos diáconos (servidores): “Crê o que lês, ensina o que crês, e vive o que ensinas.”
5. Com que meios? Sem bolsa, nem alforge, nem sandálias, nem demoras no caminho. Mais importante do que os meios é o conteúdo da missão: Jesus Ressuscitado que vive em nós e bate à porta do coração de todos. O dinheiro e a riqueza corrompem se não são usados para a promoção da dignidade da vida humana e da criação; o alforge alicia a posse, as sandálias distraem do essencial, as demoras instalam a tibieza e a rotina
6. Onde se faz a missão? Em todo o lado: casas, praças, cidades. Também onde houver recusa e obstáculos. Propondo, e não impondo.
7. E qual o seu fruto? A alegria. Nenhuma recompensa maior do que a alegria de “ter os nomes escritos no céu”.
in Voz da Verdade 07.07.2019
http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=8291&cont_=ver2
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Could Pope Francis deliver yet another ‘July surprise’?

ROME - Once upon a time, Rome in July was a tranquil place for those whose professional activities unfold in and around the vacation.
Popes suspended their audiences and left town, seeking to escape the brutal summer heat, so Vatican personnel and Vatican-watchers alike could while away leisurely days catching up on reading, taking long lunches and equally long naps, and just savoring la vita dolce. (Total honesty? Right now, I’m deeply nostalgic for those days.)
Famously, St. John Paul II had a swimming pool installed at his summer retreat in Castel Gandolfo outside Rome in 1979 so he could take dips in the dog days of July and August. When Pope emeritus Benedict XVI was elected in April 2005, one of the first items on his to-do list was to organize a summer vacation to Les Combes in Valle d’Aosta, in northern Italy by the Alps, that July.
Then, Pope Francis happened.
This energizer bunny of popes has laid waste to the old days of July as a time of lethargy and repose. Just consider what the month of July has brought over the last six years.

July 2013: A papal outing to Lampedusa to signal Francis’s solidarity with immigrants; World Youth Day in Brazil, including the “Who am I to judge” mother of all soundbites; and approval of a miracle clearing Pope John Paul II’s path to sainthood.
July 2014: Francis’s first meeting with victims of clerical sexual abuse; his second interview with Eugenio Scalfari, in which the nonagenarian Italian journalist had Francis basically saying that priestly celibacy is on the way out; and the first-ever papal visit to a Pentecostal church, one located in southern Italy and pastored by a friend from Argentina.
July 2015: A three-nation homecoming to Latin America in Bolivia, Ecuador and Paraguay, in which Francis’s fiery anti-capitalist rhetoric featured the line that money is the “devil’s dung.”
July 2016: World Youth Day in Krakow, Poland, including a papal visit to Auschwitz in which Francis deliberately remained silent; appointment of veteran American journalist Greg Burke as the papal spokesman; and calling the assassination of elderly French priest Father Jacques Hamel by ISIS loyalists “absurd.”
July 2017: A papal expression of support for the parents of Charlie Gard, who were seeking to keep the infant diagnosed with a rare disease alive despite a court order to suspend treatment; the removal of German Cardinal Gerhard Müller as the head of the Vatican’s doctrinal office; and a controversial article by two close papal allies, Jesuit Father Antonio Spadaro and Argentine Protestant Rev. Marcelo Figueroa, which posited an “ecumenism of hate” in the U.S. between conservative Catholics and Evangelicals.
July 2018: The removal of Theodore McCarrick from the College of Cardinals over allegations of sexual abuse (McCarrick would later be expelled from the priesthood as well); and an ecumenical visit to the Italian city of Bari.
Frankly, it’s exhausting just listing all that activity, let alone performing it. All of which brings us to this question: Does Pope Francis have a “July surprise” up his sleeve for 2019?
Francis already spent July 4 - coincidentally, Independence Day in the U.S. - meeting the leader of America’s great Cold War rival, Vladimir Putin of Russia, for what the Vatican afterwards described as “cordial discussions.”
We also know that next Monday, July 8, the pope will celebrate a special Mass for migrants in St. Peter’s Basilica. It’s hardly surprising that Francis would take such a stand, but the gesture will put the issue back in the spotlight at a time when a new CNN poll shows that three-quarters of Americans call immigration a “crisis,” but are bitterly split as to why: Democrats say it’s because of harsh treatment of migrants, Republicans because too many people are spilling over the border.
Beyond that, here are three plausible July surprises that Francis could deliver.
Curial reform: A draft of a new apostolic constitution titled Praedicate Evangelium has been making the rounds for a while, designed to mark the culmination of Francis’s project of reforming the Roman Curia, meaning the Vatican’s central administrative bureaucracy. Presumably the pontiff is putting the finishing touches on the document now, and theoretically he could promulgate it anytime.
Trip plans: While it’s long been rumored that Francis will visit Japan in the fall, marking a sort of return to his Jesuit missionary roots, plans have not been officially confirmed. There are also rumors he might add a stop in Thailand while he’s in Asia, although that prospect too remains a mere hypothesis. If Francis is serious about these journeys, July could bring the official ins and outs.
Curia shake-ups: At the moment, there are five heads of Vatican departments over 75, meaning their resignations are on Francis’s desk: Cardinal Marc Ouellet at the Congregation for Bishops, Cardinal Luis Ladaria at the Congregation for the Doctrine of the Faith, Cardinal Giuseppe Versaldi at the Congregation for Catholic Education, Cardinal Beniamino Stella at the Congregation for Clergy, Cardinal Leonardo Sandri at the Congregation for Eastern Churches, and Cardinal Gianfranco Ravasi at the Pontifical Council for Culture. In addition, the Secretariat for the Economy is vacant as Australian Cardinal George Pell is over 75 and fighting for his freedom after a conviction for “historic sexual offenses.” Should Francis make changes in any of these posts, it would be a huge signal about where he wants the Vatican to go.
Naturally, these are merely three possibilities out of a virtually infinite set. If there’s anything the Francis era should have driven home by now, it’s that anything could happen - even, as odd as it to say in the context of popes and their history, in July.
in Cruxnow, Jul 6, 2019
https://cruxnow.com/news-analysis/2019/07/06/could-pope-francis-deliver-yet-another-july-surprise/
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