22 abril 2018

ARQUITECTOS E MEMÓRIA DO FUTURO

     
1. A memória viva nasce da preocupação com o futuro, do desejo de viver, de uma discreta insurreição contra o niilismo. Sem o horizonte do futuro, deixaríamos morrer o passado: foi e acabou. Como já tentei mostrar, várias vezes, nestas crónicas, o ser humano nunca está feito, acabado, é uma realidade aberta, em permanente devir, nostalgia e aventura.
Gostei de ouvir o filósofo Massimo Cacciari, em diálogo com o teólogo Enzo Bianchi, sobre Repensar o humanismo[1], mostrando que é uma quimera procurar definir o “homem”, esquecendo que somos um mundo de possibilidades. Definir é limitar. Estabelecer a lista completa das suas possibilidades, mediante a tecnociência, é o desejo da morte do desejo. É, no entanto, este que a oração acende:
«Conduz-nos, Deus,/ de questão em questão,/ de fogo em fogo,/ sem satisfações que ao tempo bastem/ e a nós assombrem// que passemos da catalogação/ do que julgamos conhecer/ ao poço dos enigmas infindáveis/ onde o rosto é para sempre fundo,/ desmentido, diferido// não nos mure a estrutura em espelho/ que escamoteia a procura da verdade,/ mas que o dom da tua palavra nos visite/ como o cantar do galo,/ a lembrar o dia novo,/ o perdão e a graça»[2].
Em 2015, publiquei aqui uma crónica com o título 800 anos é muito tempo[iii], para evocar o começo das celebrações do Jubileu do VIII Centenário da Ordem dos Pregadores (Dominicanos). Entretanto, em várias cidades do país, foram realizados congressos, conferências e eventos ligados a esta vasta história com os seus altos e baixos.
No dia 14 deste mês, foi lançada, na bela igreja do Alto dos Moinhos, uma obra importante para o conhecimento do percurso dos Dominicanos, desde a sua chegada a Portugal, em 1217, até à actualidade[iv].
No mesmo dia, a seguir à apresentação desse livro, foi projectado um vídeo sobre uma das realizações mais marcantes da renovação da Arte Sacra, fruto de um convite audacioso dos dominicanos, P. Couturier e P. Régamay, ao arquitecto Le Corbusier. Trata-se do famoso convento dominicano de Sainte Marie de La Tourette (Lyon, 1960).
Transitou-se, depois, para outros espaços do Convento, onde foi inaugurada uma extraordinária exposição sobre Dominicanos. Arte e Arquitectura Portuguesa. Diálogos com a Modernidade. A própria exposição é dedicada ao Convento de Cristo Rei (Porto, 1950-54), à Igreja de Nossa Senhora do Rosário (Fátima, 1962-65), à Capela da Escola Apostólica da Aldeia Nova (Ourém, 1964-67) e ao Convento de São Domingos (Lisboa – Alto dos Moinhos, 1989). A alta qualidade da exposição dessas significativas obras da renovação da Arte Sacra é, também ela, uma obra de arte, um regalo para os olhos e para a inteligência.
2. Não posso esconder as emoções que me provocaram todos esses momentos. Tinha diante dos olhos a minha própria história de aproximação e de membro apaixonado da Ordem dos Pregadores. Foi no Porto, numa casa perto do Hospital de Sto. António – antes da construção do Convento do Cristo Rei –, que fiz o exame de admissão à Escola Apostólica Dominicana (em Aldeia Nova). Aí vivi cinco anos espantosos, com jovens de todo o país. Merece o filme que vai fazer reviver esse Casarão de todas as alegrias e loucuras. Entrei para o noviciado no Convento de Fátima em 1953. Aí, comecei a estudar filosofia a partir dos seus debates contemporâneos, com uma equipa de professores de vários países. Procurava-se a fonte do rio a partir da amplidão da sua foz. A interrogação era a lei dessa escola, do Studium Sedes Sapientiae. Mais tarde, depois do Vaticano II, também fui aí professor de teologia e, com expressões alargadas pelo ISTA, nos Cursos de Verão e nos Encontros de Teologia para leigos, sobretudo em Coimbra e no Porto.
Depois de muitas andanças por vários continentes, regressei a Lisboa, ao Convento João XXIII, antes da construção do Convento de S. Domingos onde, além de muitas outras actividades, vou escrevendo estas crónicas desde há muitos anos.
Entrei numa ordem religiosa cuja longa história não é um peso. É uma demonstração de que as instituições podem ser um mundo de possibilidades criadoras ou de traições. Sempre me impressionou que S. Domingos não tenha deixado nada aos seguidores do seu projecto. Mandou-os estudar, fazer comunidade e testemunhar o Evangelho pela vida e pela palavra. Seriam eles que tinham de fazer e aprovar as orientações e as normas, segundo o modelo de democracia representativa. Criou um mundo de possibilidades, não um modelo de reprodução do mesmo.
3. Uma das realizações mais significativas da renovação da Arte Sacra, em França, foi obra do célebre pintor Henri Matisse, em Vence (1951). Segundo a tradição oral, respondeu ao apelo de uma freira que tinha sido seu modelo antes de entrar para o convento. Quando Matisse esteve doente, no hospital, essa freira era enfermeira e ocupou-se dele com tais cuidados que o pintor desejava dar-lhe um grande presente. Ela agradeceu: «temos uma capela de Notre-Dame du Rosaire, das irmãs dominicanas a que pertenço. Se a pintasse era o melhor presente que podia dar à comunidade». Ao procurar conhecer S. Domingos, teve a intuição genial de o pintar sem rosto. Cada dominicano ou dominicana, ao longo do tempo, não tinha de o reproduzir, mas de reinventar o seu desígnio no seio dos problemas e da cultura de cada época e de cada continente. Seja histórica ou não essa tradição oral, o resultado é admirável. Aquela capela é um céu aberto pela pintura terrena desse grande pintor.
Os arquitectos que realizaram a exposição no convento de S. Domingos (Alto dos Moinhos), que estará aberta nos dois próximos meses, não repetiram o passado. Abriram novas possibilidades de incarnação do projecto de S. Domingos em novas formas e não só de arquitectura. Esta inspira novas arquitecturas da vida.
Frei Bento Domingues, O.P.
           in Público 22. 04. 2018


[1] Este Encontro realizou-se no âmbito das atividades regulares do CITER (em parceria com o Instituto Italiano de Cultura) no Ciclo Lições Italianas sobre Estudos de Religião.
[2] José Augusto Mourão, O Nome e a Forma, Pedra Angular, Lisboa 2009, p. 170
[iii] 800 Anos é muito tempo!, Público, 08.11.2015
[iv] Coord. António Camões Gouveia, José Nunes, OP, Paulo F. de Oliveira Fontes, Os Dominicanos em Portugal (1216.2016), Centro de Estudos de História Religiosa (UCP), Lisboa, 2018. Cf A restauração da província dominicana em Portugal. Tenacitas. Coimbra. 2012. Sobre o carisma dominicano existe uma Biblioteca Dominicana em desenvolvimento


15 abril 2018

O IMAGINÁRIO PASCAL DO ALÉM-TÚMULO

      1. Uma biografia procura dar a conhecer o percurso entre o nascimento e a morte. A possibilidade de observar o desenvolvimento da vida intra-uterina é relativamente recente. Esta banalidade não pode ser esquecida na leitura das narrativas em torno da ressurreição de Cristo.
      Depois da morte, restam apenas as marcas que o falecido deixou nas suas obras e na memória dos vivos. No entanto, o imaginário da vida depois da morte sempre suscitou e alimentou insólitas “histórias” de terror e consolação[1]. Os “mapas” da geografia do Além e das crenças nos poderes invisíveis são abundantes na originalidade de cada povo e cultura. Parece que a maioria das pessoas recusa o niilismo. Não aceita que a morte seja o fim de tudo. No vocabulário cristão, a ressurreição impôs-se, mas continua a ser difícil exprimir a significação dessa gloriosa metáfora[2].
    Quando lemos e proclamamos, na Eucaristia, trechos das chamadas narrativas da ressurreição de Cristo (cujo facto ninguém presenciou, nem poderia presenciar), ficamos sempre mergulhados em muitas perplexidades.
        Por um lado, no dizer de S. Paulo, se não há ressurreição, Cristo também não ressuscitou e, se Cristo não ressuscitou, estamos ligados a nada ou, apenas, à memória do que foi e nunca mais volta.
       Recordar o exemplo que Jesus de Nazaré nos deixou – a figura mais extraordinária da humanidade – deve encher de alegria crentes, agnósticos e ateus. Para os cristãos, esvaziar a sua humanidade é um atentado contra a humanização de Deus.
         Por outro lado, as narrativas que falam de Jesus depois da morte enchem-nos de dúvidas e todas as exegeses aumentam as dificuldades. O que é contado aconteceu de facto, ou não são mais do que criações de uma imaginação delirante?
        Nessa escrita, o verosímil e o impossível parecem constituir a originalidade do seu tecido. A actuação de Jesus, umas vezes é apresentada à imagem do que aconteceu durante o seu percurso terreno, noutros casos a linguagem é de ruptura completa.
       Como mostrar que Jesus ressuscitado continua a ser o mesmo que viveu com os discípulos e que agora vive numa dimensão completamente nova e indizível? Como pode atingir-nos em todos os tempos e lugares e conviver com todos os seres humanos de todas as épocas da história?
        Os narradores tiveram de recorrer a todos os recursos da imaginação para exprimir o que supera a nossa experiência intra-histórica. A linguagem simbólica é muito mais realista do que a linguagem das ciências empíricas. Quanto mais poético mais real. A música é a sua alma e apenas ela pode sugerir o que nenhuma linguagem pode conter.
       2. Numa pequena tertúlia, surgiu a opinião de que essa observação era uma escapatória. Agora, as novas tecnologias oferecem e antecipam algo de muito mais milagroso e sofisticado do que as peripécias das narrativas e aventuras sobre a ressurreição.
     Como sou uma nulidade acerca das possibilidades das novas tecnologias, abstenho-me do ridículo de usar as suas linguagens na interpretação dos textos do Novo Testamento.
     Além disso, o uso que a liturgia católica faz desses textos não é para resolver problemas do passado nem para dar contributos à Quarta Revolução Industrial[3]. Pretende responder a esta simples questão: Jesus Cristo é ou não nosso contemporâneo? Umas vezes situamo-lo no passado, naquele tempo, ou no céu, à direita do Pai, numa espécie de férias prolongadas. Nas próprias orações das missas repete-se Ele que é Deus convosco. O Emmanuel, o Deus connosco, nessas expressões acaba por viver sem nós, situado no passado ou no “etéreo”. Não admira que as orações dos fiéis andem sempre a informar Deus acerca daquilo que por cá se passa. Não tem de ser assim.
     3. A arte de entrosar o passado e o presente foi-nos oferecida por S. Lucas[4]. Escreveu um conto – os Discípulos de Emaús – como se fosse acerca do passado para dizer o que sempre acontece numa comunidade cristã. Imaginou dois dos discípulos, tristes e desiludidos pelo que aconteceu ao seu Mestre e sem esperança na ressurreição prometida. O interessante do conto é que o próprio Jesus entrou no grupo e na discussão do que tinha sido o seu julgamento. Eles estranham a ignorância e a distracção deste forasteiro e explicaram-lhe, com todos os pormenores, o que Lhe tinha acontecido. Este mostra-se muito interessado. Acabam por acrescentar: «é verdade que algumas mulheres, que são dos nossos, nos assustaram; foram ao sepulcro e vieram dizer que tiveram umas visões e que Ele está vivo. Os homens verificaram a narrativa das mulheres, mas não O viram.»  
     Aí, o forasteiro explicou-lhes que não estavam a entender o que tinha acontecido. Não se dá por achado e explicou-lhes, a partir das Escrituras, o que a Esse personagem dizia respeito. Estando os discípulos perto da aldeia para onde iam, Jesus fez de conta que seguia viagem. Pediram-lhe para ficar com eles. Ficou e tomou conta da casa e da mesa. Tomou o pão partiu-o, distribuiu-o e deixaram de O ver. O espanto: enquanto O viram, não O viram. Quando O não viram, reconheceram-no no gesto eucarístico.
      Este é um verdadeiro conto exemplar. Jesus Cristo é o clandestino da vida humana. Não damos por Ele, mas Ele anda sempre connosco. A celebração da Eucaristia implica uma ponte entre o quotidiano e a celebração. Mas sem o acolhimento do desconhecido não acontece nada. Certamente que Jesus não tinha uma forma especial de partir pão. Mas é Ele que é o pão da vida. A celebração semanal da Eucaristia serve para não perder a memória de Jesus, a transformação do presente e a abertura à esperança.
       Frei Bento Domingues, O.P.
       in Público,15. 04. 2018


[1] José Mattoso, Poderes Invisíveis. O Imaginário Medieval, Círculo de Leitores, 2013
[2] Cf. Padre Anselmo Borges, O que é ressuscitar?, DN 06.04.2018
[3] Klaus Schwab, A Quarta Revolução Industrial, Lenoir/Público, 2017
[4] Lc 24, 13-35 

08 abril 2018

EVANGELHO SEGUNDO O PAPA FRANCISCO

       1. Um dos fenómenos mais característicos do catolicismo do século XX foram os movimentos da Acção Católica. Paulo Fontes estudou o seu papel na criação de verdadeiras elites, em Portugal[1]. Para a hierarquia eram o seu braço estendido. Chegavam onde ela não conseguia entrar. Os jovens eram desejados, encorajados, mas a sua criatividade estava limitada pelo mandato que os dirigentes recebiam dos bispos. Eram um laicado super controlado. Daí, os mil conflitos que os assistentes eclesiásticos, correias de transmissão, tinham de saber gerir até onde fosse possível. Que Deus sabe escrever direito por linhas tortas é um aforismo português. Teve muito que fazer. Se a hierarquia perdeu os jovens, e muitos se afastaram da prática religiosa oficial, o Papa Francisco não se resignou a essa debandada, aos vencidos do catolicismo.
        Na abertura da reunião pré-sinodal dos jovens[2] (19.03.18), o Papa não repetiu as asneiras controladoras do passado. Nem cedeu à ideologia aduladora da juventude, de palmadinhas nas costas. Para ele, a juventude não existe. É uma abstracção. Existem os jovens, histórias, rostos, olhares, ilusões. Dizer que importa escutá-los e dialogar, já se sabe. O Papa não tem jeito para conversa fiada. Resolveu, com o seu comportamento e o seu discurso alterar, radicalmente, o relacionamento da Igreja com os jovens. Dados os limites desta crónica, terei de me contentar com algumas passagens e um convite à leitura integral do seu atrevimento.
        2. Bergoglio conhece o terreno que pisa: «Há quem pense que seria mais fácil manter-vos à distância para não se sentirem provocados por vocês. (…)
Os jovens devem ser levados a sério! Parece-me que estamos rodeados por uma cultura que, se por um lado, idolatra a juventude, por outro, impede que os jovens sejam protagonistas. É a filosofia da maquilhagem. As pessoas procuram pintar-se para parecerem mais jovens, mas não deixam crescer os jovens. Isto é muito comum. Porquê? Porque não querem ser interpelados.
Vocês são marginalizados da vida pública normal e obrigados a mendigar ocupações que não lhes garantem um futuro. Não sei se isto acontece em todos os vossos países, mas em muitos... Se não erro, a taxa de desemprego juvenil aqui na Itália, dos 25 anos para cima, é de cerca de 35%. Noutro país próximo da Itália, é de 47% e noutro ainda, mais de 50%.
O que faz um jovem que não encontra trabalho? Adoece. É a depressão. Cai no desespero, nas dependências, suicida-se. Devemos reflectir: as estatísticas do suicídio juvenil estão todas alteradas. Ou se torna rebelde, mas é uma forma de se suicidar. Ou apanha um avião e vai para outra cidade que não quero mencionar e alista-se no EI[3] ou num desses movimentos guerreiros. Pelo menos a vida tem sentido e terá um ordenado mensal. Isto é um pecado social! A sociedade é responsável por isto. Mas eu gostaria que fossem vocês a dizer as causas, os porquês e não digam: “mas se eu nem sequer sei porquê”. Como vivem este drama? Saber o que pensam ajudar-nos-ia muito. É verdade que são construtores de uma cultura, com o vosso estilo e com a vossa originalidade. (…)  Queremos este espaço do Sínodo para conhecer e participar nessa vossa cultura».
    3. O Papa Francisco lança um desafio: « Precisamos de ousar novos caminhos. Não se assustem: ousar novos caminhos, mesmo correndo riscos. Um homem, uma mulher que não arrisca, não amadurece. Uma instituição que faz escolhas, sem arriscar, permanece criança, não cresce. Arrisquem, acompanhados pela prudência, pelo conselho, mas vão em frente. Sem arriscar, sabem o que acontece a um jovem? Envelhece! Vai para a reforma aos 20 anos! Um jovem envelhece e também a Igreja envelhece. Digo isto com sofrimento. Quantas vezes eu encontro comunidades cristãs, até de jovens, mas velhas. Envelheceram porque tiveram medo. Medo de quê? De sair, de ir rumo às periferias existenciais da vida, de ir onde se joga o futuro. Uma coisa é a prudência, que é uma virtude, mas outra é o medo. Precisamos de jovens, pedras vivas de uma Igreja com o rosto jovem, mas não maquilhado, como disse: não rejuvenescido artificialmente, mas reavivado a partir de dentro. Vocês provocam-nos a sair da lógica do: sempre foi assim. Essa lógica é um veneno. É um veneno doce, porque te tranquiliza a alma e te deixa como que anestesiado e te impede de caminhar.
     Sair da lógica do sempre se fez assim, para viver de maneira criativa no sulco da autêntica tradição cristã. De modo criativo. Eu, aos cristãos, recomendo que leiam o Livro dos Actos dos Apóstolos: a criatividade daqueles homens. Aqueles homens sabiam ir em frente com uma criatividade que se nós fizermos a tradução para o que significa hoje, ficávamos assustados! Vocês criam uma cultura nova, mas estejam atentos: esta cultura não pode ser “desenraizada”. Um passo em frente, mas preservar as raízes! Não voltar às raízes, porque se acaba por ficar enterrado: dá um passo em frente, mas sempre com as raízes. As raízes — isto, desculpem, é do coração — são os velhos, são os idosos bons. As raízes são os avós. As raízes são aqueles que viveram a vida e que são afastados por esta cultura do descartar, já não servem, rua! Os idosos têm este carisma de conservar as raízes. Falem com eles. Mas o que hei-de dizer? Tenta!
     Recordo-me de uma vez, em Buenos Aires, a falar com os jovens, disse: “Porque não vão a uma casa de repouso tocar viola para os velhinhos que lá estão?” Mas, padre... Vão só uma hora. Ficaram mais de duas! Não queriam sair, porque os velhinhos estavam assim, um pouco adormecidos, ouviram tocar viola, acordaram todos e começaram a falar. Os jovens ouviram coisas que os comoveram.
     O profeta Joel diz isto muito bem. Para mim esta é uma profecia de hoje: «Os idosos vão sonhar e os jovens profetizar». Nós precisamos de jovens profetas, mas estejam atentos: nunca serão profetas se não tiverem em conta os sonhos dos mais velhos e se não forem fazer sonhar um velhinho que está ali triste, porque ninguém o ouve. Fazei sonhar os mais velhos e estes sonhos vão-vos ajudar a ir sempre mais longe[4]. Lê isto, far-te-á bem. Deixai-vos interpelar por eles.
      A Páscoa ainda não acabou e os sonhos também não.
      Frei Bento Domingues, O.P.
      in Público 08.04.2018


[1] Cf. Paulo Fernando de Oliveira Fontes, Elites católicas em Portugal: O papel da Acção católica (1940-1941),Fundação Calouste Gulbenkian, 2011
[2]  Uma Igreja que não arrisca envilhece,L’ Osservatore Romano, 22.03.2018
[3] “Estado Islâmico”
[4] Joel 3, 1. 

01 abril 2018

FOI MORTO, MAS ESTÁ CADA VEZ MAIS VIVO!

       1. Quando alguém diz «aquele não é bem acabado», está a falar de si próprio e dos outros, porque o ser humano nunca está bem acabado. Não sabemos quem somos, pois, o que seremos é-nos desconhecido. Não somos só o passado nem só o presente, mas o futuro e esse é filho da esperança. A esperança tem muitos nomes. São frequentes as sondagens de opinião que tentam conhecer os desejos, as espectativas e as esperanças de cada um. Não é novidade nenhuma saber que todos desejam ser felizes. Varia muito, no entanto, o que cada pessoa entende por felicidade. A expressão antiga diz bem a nossa condição animal: «haja saúde e coza o forno». É saudável que todos desejem melhorar as suas condições de vida, avançar na carreira como forma de auto-estima, para além do interesse monetário. Mesmo se o dinheiro não der felicidade, dá muito jeito. Muita gente espera a vida inteira o euro-milhões. O Papa Francisco contenta-se com pouco, mas deseja para todos os três Ts, como forma mínima de dignidade: tecto, trabalho e terra. As pessoas gananciosas, para satisfazer os sonhos de riqueza, saltam por cima de tudo e de todos. A lista dos mais ricos de um país ou do mundo não é muito grande. Grande é a distância entre os poucos loucamente ricos e os muitos loucamente pobres e miseráveis. Mas não tem de ser assim.
Conta-se que, quando João XXIII chegou ao Vaticano, perguntaram-lhe: «quantas pessoas trabalham aqui?» «Mais ou menos metade»! A sua primeira medida foi a de aumentar os salários mais baixos, tendo em conta a situação familiar de cada um. Quando expôs esta medida ao gestor financeiro do Vaticano, este disse que era o caminho para a bancarrota. «Não me parece nada, porque desci todos os salários altos. As despesas são as mesmas»[1]. Tinha sido, aliás, a recomendação de S. Paulo. É tudo gente, como Jesus Cristo, que nada sabem de finanças, no dizer do nosso Fernando Pessoa.
As capacidades científicas e técnicas estão sempre a aumentar, mas raramente servem o desenvolvimento equilibrado dos povos. A ciência e a técnica andam mais depressa do que a ética e a sabedoria. A tendência é a concentração de poderes globais de dominação económica, política e bélica.
A minha ignorância, acerca dos efeitos bons e menos interessantes das realidades e das promessas da inteligência artificial, do mundo da robótica, volta a recomendar a leitura de A Quarta Revolução Industrial[2]. Se os seres humanos puderem ser libertados do mundo aborrecido de tarefas aborrecidas por essas novas criaturas, bem-vindas sejam. Se vierem para mandar em nós, agradeço que os seus inventores se reformem quanto antes.
2. Aos mais velhos foi-nos dado viver um tempo em que se disputavam desejos de um mundo novo. Se Teilhard de Chardin pensava que o mundo pertenceria a quem lhe desse a maior esperança, a Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, gostou da ideia: «podemos legitimamente pensar que o futuro da humanidade está nas mãos daqueles que souberem dar às gerações vindouras razões de viver e de esperar»[3].
Muitas pessoas deliciavam-se com o belo e terno poema de Péguy, no qual, Deus não se espanta nem com a fé nem com a caridade. Só a esperança o comove, essa que todas as manhãs nos diz: bom dia![4].
O filósofo marxista, Ernest Bloch (1885-1977), elaborou a célebre obra O princípio esperança, uma autêntica enciclopédia sobre os sonhos de uma vida melhor. Influenciou a teologia protestante e católica, a partir dos anos 60 do século passado. As perguntas do filósofo são as de sempre: Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Que esperamos? O que nos espera?
Não admira que tenham sido as utopias sociais, económicas, políticas e culturais que marcaram o Concílio Vaticano II e animaram, sobretudo, os grandes debates das teologias do Terceiro Mundo.
3. Georges Bernanos, um grande romancista católico (1888-1948), que nos deixou obras extraordinárias, não era ingénuo: «para reencontrar a esperança é preciso ter ido além do desespero. Quando se vai até ao fim da noite, reencontra-se uma outra aurora»[5]. Estava, nitidamente, marcado pelo percurso do próprio Jesus de Nazaré. Este não anunciou, apenas, a alegria de que, finalmente, o Reino de Deus estava próximo. Tudo o que dizia e fazia era já a pura gratuidade do Amor em acção. Os fiéis ao mundo velho condenaram-no. Acabou na cruz gritando: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste? Parecia o fim, mas não era.
O estilo do Apocalipse, o último livro da Bíblia, é suficientemente surrealista para alertar e consolar as Igrejas cristãs perseguidas, umas muito mais fervorosas do que outras.
Nas cartas às Igrejas da Ásia, o autor do Apocalipse apresenta Jesus Cristo como a Testemunha fiel (o mártir), o Primogénito dos mortos (o ressuscitado). Conta que João, «vosso irmão», encontrando-se na ilha de Patmos, movido pelo Espírito, ouviu uma voz forte que lhe disse: escreve o que vês num livro e envia-o às sete Igrejas: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia. Ao voltar-se para ver a voz que falava, a face dessa figura era como o sol quando brilha em todo o seu esplendor. «Ao vê-lo, caí como morto a seus pés. Ele, porém, colocou a mão direita sobre mim, assegurando: Não temas! Eu sou o Primeiro e o Último, o Vivente; estava morto, mas eis que estou vivo para sempre»[6].
S. Paulo atreve-se a dizer que, se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, anda a pregar em vão e vazia é também a fé dos seguidores de Cristo[7].
Na Carta aos Romanos, a ressurreição é postulado cósmico e existencial: «Estou convencido de que os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória que há-de revelar-se em nós. Pois até a criação se encontra em expectativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus»[8].
Quem nunca leu este capítulo, até ao fim, faça-o agora. Garanto que não ficará decepcionado. É evidente que Paulo escreveu há mais de 2000 anos. A escravidão e a corrupção do mundo em que vivia, hoje, têm novos rostos e novas vítimas. Repetem-se as denúncias de que estamos a globalizar a destruição do nosso planeta, quando temos todos os meios para fazer dele um paraíso, novos céus e nova terra[9].
Se estamos mortos, ressuscitemos!
Boa Páscoa.
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público 01. 04. 2018


[1] Cf. Henri Fesquet, Fioretti do Bom Papa João, Morais Editora, Lisboa 1964.
[2] Klaus Schwab, A Quarta Revolução Industrial, Público/Levoir, 2017
[3] Gaudium et Spes, nº 31
[4] Le porche du mystère de la deuxième vertu, in Oeuvres poétiques complètes, Gallimard, 1948, pp.169-175
[5] La liberté, pour quoi faire?, Gallimard, 1953, p. 14
[6] Ap 1
[7] 1 Cor 15
[8] Rm 8 
[9] Ap 21

25 março 2018

JERUSALÉM, SÍMBOLO DA GUERRA OU DA PAZ?

          
       1. Nunca fui a Jerusalém. Um grande amigo que lá viveu 45 anos e lá morreu, Frei Francolino Gonçalves, nunca tentou convencer-me de que essa seria a peregrinação indispensável. Se não pudesse dispor pelo menos de um mês para observar e estudar as suas loucuras e contradições, era melhor não pôr lá os pés. Lamentava que as «peregrinações paroquiais» se esquecessem de visitar e apoiar as comunidades cristãs vivas, de língua árabe, e se fixassem apenas em pedras e lugares sagrados da memória, resgatados pela arqueologia.
Li narrativas, reportagens e obras sobre a chamada Terra Santa e os seus lugares de importância diferente para judeus, cristãos e muçulmanos.
       Sei que o conhecimento directo da geografia dos acontecimentos bíblicos, históricos ou lendários, pode ajudar a imaginação de um leitor da Bíblia. Não consigo, porém, entrar na ideologia dos lugares sagrados ou santos. Esta facilmente resvala para a idolatria e para a magia. Um bom negócio, em todo o mundo, contra o qual o próprio Jesus se insurgiu. Sagradas são as pessoas de todos os povos e culturas. Nem acho graça nenhuma que um povo, seja ele qual for, se possa chamar povo de Deus, como um privilégio. Os outros povos de quem são?
       Jesus teve um encontro inesperado com uma Samaritana. Um encontro fantástico. Entre outras questões, ela procurou tirar a limpo a dos lugares sagrados: os nossos pais adoraram neste Monte (Garizim), mas vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar. Jesus, depois de muitas considerações, concluiu: Vem a hora – e é agora – em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; pois tais são os adoradores que o Pai procura. Deus é espírito e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade[1]. Deus não está preso a nenhum lugar.
       2. Começam hoje, Domingo de Ramos, as celebrações católicas da Páscoa. Nesta época, as televisões repõem filmes sobre a Paixão de Cristo, as instituições culturais promovem concertos de música sacra e as igrejas cristãs, cada uma com o seu estilo, tentam que a mensagem de Cristo não seja apenas uma memória do passado, mas um alimento transformante da vida. Nada disso sai fora do previsível, mas o que desejava que acontecesse seria um imprevisível concreto e para já: Paz em Jerusalém entre judeus, cristãos e muçulmanos.
      Nada disto é da ordem do impossível nem está fora das referências e horizontes das chamadas religiões monoteístas. José Ornelas Carvalho, actual bispo de Setúbal, escreveu um texto sobre A utopia da paz na Bíblia que considero uma informação exemplar[2].
       Em Israel, como em todo o antigo Médio Oriente, o ideal da sabedoria e da aprendizagem consistia em conseguir uma vida feliz, tendo em conta todas as dimensões da existência humana. Por isso, os sábios tratavam dos mais variados assuntos, como as questões da alimentação, da vida familiar, dos negócios, do relacionamento social, do cerimonial e do relacionamento com o mundo de Deus. Sábia era a pessoa que conseguia harmonizar todas estas dimensões da vida. Nesta perspectiva, o fruto da sabedoria é a paz.
       O Salmo 122 não pode ser mais entusiasta: «Que alegria quando me disseram vamos para a casa do Senhor! Os nossos pés estão já às tuas portas, ó Jerusalém (…) Nela estão os tribunais da justiça, os tribunais da casa de David. Pedi a paz para Jerusalém: Prosperem aqueles que te amam; haja paz dentro das tuas muralhas, tranquilidade nos teus palácios. Por amor dos meus irmãos e amigos, proclamarei: a paz esteja contigo! Por amor da casa do Senhor, nosso Deus, pedirei o bem-estar para ti».
       E os outros? Desta visão idílica, desta ideologia da paz, como privilégio étnico e divino de um povo, nasce a guerra santa contra os que a ameaçarem.
      O ideal da paz institucional, baseado nos dois pilares, a monarquia e o templo, foi manipulado pelos que dela beneficiavam. Israel conheceu, muitas vezes, uma situação de ditadura – defendida em nome de Deus – ao sacralizar as suas instituições políticas. Os profetas como Miqueias, Jeremias e Ezequiel denunciaram aqueles que usavam o nome de profetas para enganar o povo e justificar a injustiça. No entanto, apesar de todos os esforços, Deus não se julgou atrelado ao destino de Israel e da sua paz. Pelo contrário. A eleição de Deus não é nem ritual nem automática. Ao dom de Deus deve corresponder um compromisso ético e religioso. Por isso, bênçãos e maldições estão sempre misturadas.
        3. Jesus de Nazaré subiu muitas vezes a Jerusalém[3], a cidade dotada por Herodes, o Grande, de magníficas construções, que não o fascinavam. Foi lá que, pela última vez, confrontou os seus contemporâneos com a sua mensagem e a sua pessoa. Aí morreu cruxificado. Foi em Jerusalém que se formou a primeira comunidade cristã. Foi daí que a pregação do Evangelho partiu para o mundo.
       Foi também nesta cidade que se reuniu o primeiro concílio da Igreja[4] para dirimir questões entre duas tendências do movimento cristão. A que desejava que os gentios convertidos aceitassem também a lei e os costumes judaicos e a outra, liderada por S. Paulo, que não podia aceitar que para ser cristão fosse necessário adoptar essa lei e costumes. A graça de Deus não fazia distinção de pessoas ou povos. Essas novas comunidades mistas, de judeus e gentios, realizavam o começo do universalismo cristão. O espírito de Jesus Cristo sentia-se livre e actuante em toda a Terra. O cristianismo não era uma sucursal do judaísmo.
      A partir do que foi acontecendo em Antioquia, Éfeso e Roma, Jerusalém deixou de ser o centro do cristianismo[5].
    Os muçulmanos chamam a Jerusalém, Al-Qods, «a santa» em árabe. Acreditam que foi lá que aconteceu a ascensão de Maomé ao céu. Jerusalém é o terceiro lugar sagrado do Islão.
      Aqui, surge uma questão que muitos peregrinos levantam: é isto a «Terra Santa», é esta a cidade da paz? Haverá um só Deus para tantas guerras?
    As religiões que se reclamam de Jerusalém, pelo menos nominalmente, representam dois mil milhões de habitantes da Terra. O seu bom ou mau exemplo encerra uma responsabilidade mundial. Em vez de judeus, cristãos e muçulmanos continuarem a disputar, pedaço a pedaço, a ocupação desta cidade, não seria preferível estabelecerem uma aliança que faça de Jerusalém a cidade da paz, um símbolo real de que o convívio amigo, entre as religiões, é possível? Era, por isso, importante que a sua gestão municipal resultasse de um acordo entre judeus, cristãos e muçulmanos[6]. Um sonho?
      Santa Páscoa!
      Frei Bento Domingues, O.P.
      in Público 25.03.2018


[1] Jo 4
[2] José Ornelas Carvalho, A Utopia da Paz na Bíblia, Cadernos ISTA nº 9, Ano V 2000, pp.62-102
[3] Lc 13, 34s; Jo 2, 13. Sobre a situação de Jerusalém no tempo de Jesus, aconselho a longa Introdução de Xavier Léon-Dufour, ao Dictionaire du Nouveau Testament, Seuil, Paris 1975.
[4] Act 15
[5] Rm 15, 19
[6] Álvaro Vasconcelos, Jerusalém cidade aberta, Público, 10.12.2017

18 março 2018

QUANDO PERDER É GANHAR

     
1. Não fui eu que inventei o título desta crónica. Vem direitinho do Evangelho segundo S. João, com paralelo em S. Lucas, escolhido para ser proclamado na Missa deste Domingo. Quem, dentro ou fora dessa celebração, gastar algum tempo a meditar e a confrontar a sua vida com este texto, absolutamente espantoso, só tem a ganhar. A sua lógica é estranha, mais acertada, porém, do que qualquer outra lógica mundana, religiosa ou eclesiástica.
Começa numa conversa e vai acabar noutra. O contexto já é o da Páscoa judaica: seis dias antes da Páscoa, Jesus foi a Betânia, onde estava Lázaro que Jesus tinha arrancado da morte. Por esse motivo, a família de Lázaro ofereceu um jantar em sua casa. Pelos vistos, os discípulos também foram convidados.
Marta, como de costume, estava a preparar tudo e a servir à mesa. Maria, a irmã, era mais para o louco e foi buscar o melhor perfume para lavar os pés de Jesus. Enxugou-os com os seus cabelos. O seu reconhecimento por ver o irmão vivo era sem medida. Toda a casa ficou perfumada por aquela alegria.
Judas Iscariotes não gostou dessa extravagância. Aproveitou a cena para se mostrar o defensor dos pobres e marcar pontos aos olhos do Mestre: porque não se vendeu este perfume por trezentos denários – eram 300 dias de trabalho normal – para os dar aos mendigos? O narrador observa com malícia: ele disse isto, não porque se preocupasse com os mendigos, mas porque era ladrão e, como tinha a bolsa comum, metia a mão na massa; o “pobre” a beneficiar com a poupança seria ele próprio. Jesus cortou essa conversa e disse algo que teve consequências dramáticas: mendigos tendes sempre entre vós. Esta fala foi usada pelos exploradores para não se tocar nas injustas estruturas da sociedade. Jesus teria consagrado a desordem social. Se lermos bem, descobrimos que essa não era e não é o sentido da fatídica sentença. Verificaremos que Judas estava numa onda e Jesus noutra totalmente diferente. Pobres, desgraçadamente, nunca faltam. O que continua a faltar é a vontade de acabar com as causas da pobreza imposta.
Por outro lado, o autor do IV Evangelho não está a escrever uma reportagem jornalística, mas a fazer uma meditação retrospectiva, seleccionando enigmas e mistérios. A sua narrativa sabe que o fim trágico de Jesus estava a aproximar-se. Não iria morrer na cama rodeado de familiares e amigos. Daí, o seu empenho em defender a loucura de Maria, pois escreve para destacar a solidão imensa do Mestre - até os discípulos o abandonaram - e a paixão das mulheres por Aquele que lhes restituiu a dignidade humana e divina de filhas de Deus. Foram elas que acompanharam Jesus até ao fim e até depois do fim!
Isto para dizer que a situação externa daquele jantar estava carregada de tensões. Todos queriam ver Lázaro, o miraculado e Jesus, o autor do acontecimento. Os sumos-sacerdotes, os que viviam da religião oficial e do fluxo enorme de peregrinos naquela data, sentiram a ameaça. Muitos judeus estavam a passar-se para o lado de Jesus. Deliberaram matar os dois.
Entretanto, tudo se agravou. A multidão que tinha vindo para a Páscoa aproveitou o momento para uma ruidosa manifestação de apoio a Jesus, o Nazareno. Os discípulos, como sempre, não entendiam o que se estava a passar. Os fariseus estavam desesperados com aquele sucesso: todo o mundo vai atrás dele![i]
2. No meio daquela multidão, havia uns gregos simpatizantes do judaísmo (os «tementes a Deus»), intrigados com o que estava acontecer. Pediram, então, a um discípulo galileu, Filipe, nada menos do que isto: queremos ver Jesus.
O evangelista, como é sempre o seu costume, apresenta a resposta como se Jesus não tivesse percebido.
De facto, tinha chegado o momento sobre o qual já nenhuma ilusão era permitida. Jesus, no meio daquela confusão toda, talvez se interrogasse acerca do sentido do caminho percorrido com os discípulos, com as multidões e com os adversários cada vez mais agressivos e ameaçadores.
      Dada a sua teologia, S. João apresenta Jesus angustiado, mas não vencido. É chegada a hora em que o Filho do Homem será glorificado.
        A partir desse instante já não era possível recuar sem trair todo o sentido da sua vida e o Deus da sua paixão.Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto. Quem ama a sua vida; perdê-la-á e quem a perder neste mundo conservá-la-á para a vida eterna. Se alguém me quiser servir, que me siga. Onde eu estiver, estará também o meu servo. Se alguém me servir, meu Pai o honrará. Agora a minha alma está perturbada. E que hei-de dizer? Pai salva-me desta hora? Mas por causa disto é que eu cheguei a esta hora. Pai glorifica o teu nome”.
     S. João não está longe da versão de S. Lucas quanto à exigência libertadora no seguimento de Cristo: Aquele que quiser salvar a sua vida vai perdê-la, mas quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará[ii]. Realça: que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, se ele se perder ou arruinar a sua humanidade?
3. Chegamos ao ponto essencial. Os discípulos de Jesus passaram o tempo a perguntar-lhe: que ganhamos nós em te seguir? A resposta foi sempre a mesma: a capacidade de servir alegria, de gastar a vida pela vida verdadeira de todos, a começar pelos mais abandonados. É por esse caminho que nos tornamos verdadeiramente humanos.
       Durante os tempos de Cristandade, perderam-se, na Igreja, muitas energias para conseguir e defender o poder de dominar. No entanto, em todos os momentos de verdadeira reforma, a referência incontornável continuou a mesma: é perdendo o poder de dominar que se ganha o gosto da vida como dom, a alegria verdadeira[iii].
Os Actos dos Apóstolos recolhem um aforismo de Jesus que não se encontra em mais lado nenhum. É referido por S. Paulo ao despedir-se dos anciãos de Éfeso: “Não desejei prata, ouro, nem o vestuário de ninguém. Vós próprios sabeis que às minhas necessidades e às dos meus companheiros valeram-me estas mãos. Mostrei-vos, de todos os modos, que trabalhando assim, devemos ajudar os fracos, lembrando as palavras do próprio Senhor Jesus: Há mais felicidade em dar do que em receber”[iv].
Dir-se-á que tudo isto está muito datado. Hoje, a economia, a política, as religiões já superaram essa ingenuidade e as suas ideologias globalizaram sistemas de dominação imperialista e de confronto bélico. Não valeria a pena interrogar as famílias, as instituições católicas de ensino a todos os níveis, a pastoral da Igreja nas suas diversas expressões, com a seguinte questão: será que nesses nichos católicos crescem pessoas com as “manias” de Jesus Cristo?
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público 18.03.2018


[i] Jo 12, 1-19
[ii] Jo 12, 20-33; Lc 9, 23-26
[iii] Yves Congar, O.P., Igreja serva e pobre, Logos, Lisboa 1964; Javier Elzo,
   Quién manda en la Iglesia?, PPC, Madrid 2016
[iv] Act 20, 32-38.

11 março 2018

SALVAR OU CONDENAR?

      1. Nunca fui pároco, mas sempre aceitei com prazer celebrar o baptismo de crianças e, cada vez mais, de adolescentes e adultos. Estava eu, há muitos anos, a começar uma celebração e, como sugeria o ritual, convidei os pais e os padrinhos a fazerem o sinal da cruz na fronte da criança. Ouvi alguém sussurrar: a Igreja começa cedo a crucificar os seus fiéis.
Foi uma preciosa ajuda para nunca mais esquecer que os trabalhos da “descrucifixão” devem começar logo no primeiro momento da iniciação cristã. Urge transformar um símbolo do horror num programa de vida dedicado a tornar este mundo devastado em terra de alegria. Os textos do Novo Testamento, resultado de um processo de memória e escrita das primeiras quatro gerações cristãs, existem, no dizer de S. João, para que, conhecendo e seguindo Jesus Cristo, a nossa alegria seja completa[1]. É arriscado, nos limites duma crónica, procurar desfazer alguns equívocos sobre a transformação da simbólica da cruz, pois há o perigo de criar outros piores. É um risco que aceitei, neste espaço do Público, há vinte e oito anos.
2. Foi, em Nazaré, que Jesus apresentou as linhas fundamentais do programa da sua missão. Pela sua abrupta e enigmática ousadia teológica, recusando celebrar a ira de Deus, provocou a primeira ameaça de morte que, na altura, não o assustou nem o levou a alterar o seu caminho[2].
S. Paulo, que não terá conhecido o Nazareno na sua condição terrestre, teimou em fazer de Jesus crucificado o tema incontornável da sua pregação sem fronteiras. Ele próprio reconhece que a sua proposta era puro escândalo para os judeus e uma loucura para os gentios. Nunca desistiu de mostrar que Jesus crucificado é a subversão do messianismo judaico e da sabedoria mundana de todos os tempos. É estranho, mas aquele salto louco no escuro estava, para ele, cheio de misteriosa luz[3].
Nos Actos dos Apóstolos, S. Pedro, acusado e preso, atreve-se a dizer perante o Sinédrio: é Jesus Nazareno que vós crucificastes e que Deus ressuscitou de entre os mortos, o único nome, debaixo do céu, pelo qual devemos ser salvos.
Uma vez liberto, em oração com a comunidade, insiste no essencial: “Sim, coligaram-se verdadeiramente, nesta cidade, contra o teu santo servo Jesus, que ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos com as nações pagãs e os povos de Israel para executarem tudo o que, em teu poder e em tua sabedoria, havias predestinado”. Enquanto rezavam, o Espírito Santo tomou conta dos reunidos e investiu-os de coragem para anunciarem com firmeza a palavra interdita pelo Sinédrio. Deus continuava a escrever direito por linhas tortas[4].
A versão de S. Pedro concorda com a de S. Paulo, mas não fica claro se Jesus cumpriu um desígnio divino ou foi vítima de um crime político. Dada essa contínua interferência de planos na escrita, não seria preferível esquecer essa história de horror que deixa mal os judeus e os romanos, os apóstolos, Jesus e o próprio silêncio de Deus? Por outro lado, não estará já muito longe de nós, do nosso mundo e das nossas preocupações? E se a memória da cruz envenenou a história da cristologia, da pastoral, da espiritualidade, não será tempo de procurar beber noutras fontes o sentido da aventura humana? Se a cruz encheu as relações entre judeus e cristãos de mútuas acusações venenosas, não seria preferível agradecer a José Saramago a denúncia dessa torrente de sangue e passar adiante?
3. Talvez não! É verdade que os textos do Novo Testamento, em relação polémica e selectiva com os do Antigo e abertos a todos os mundos, estão inevitavelmente datados. Que os autores cristãos se tenham servido de textos, imagens, cenários e concepções da literatura judaica para configurar a personalidade notável e misteriosa de Jesus de Nazaré, é evidente[5]. O contrário é que seria de espantar. Mas sem a extraordinária originalidade e criatividade histórica daquele Nazareno nada disso seria possível. Teríamos apenas um artificial manequim de colagens.
Os cristãos sem colocarem em correlação crítica o nosso mundo, a nível pessoal, local e global, com o percurso histórico de Jesus – uma longa ponte cultural, tecida de muitas dimensões – não podem responder à pergunta fundamental: que tem Ele a ver connosco e que temos nós a ver com Ele?
As narrativas dos Evangelhos, ora directas ora em parábolas, insistem em que Jesus era conhecido por gostar da vida e “da vida em abundância” para todos. Nunca é apresentado como um modelo de ascetas. O que não suportava era um mundo em que tinha uns à mesa e outros à porta, uma religião de leis, fábrica de pecadores para condenar e de hipócritas para serem lisonjeados. Não suportava o desprezo pelos pobres e pelas vítimas das doenças físicas e psíquicas. É impossível servir a Deus e ao Dinheiro. O dinheiro é um instrumento, não pode ser um Senhor. A missão humana e divina de Jesus não era a de condenar, mas a de salvar o que parecia perdido. A sua ética e a sua mística são samaritanas.
Jesus não morreu de acidente, de doença ou de velhice. Foi morto porque preferiu ser crucificado a trair o projecto divino de libertação. Não cedeu à dominação económica, política e religiosa, expressões da teologia da opressão. Preferiu ser morto a trair o seu projecto de vida.
O que falta são homens humanos. O que temos hoje, à frente das chamadas grandes potências, são monstros a desenvolver projectos para se defenderem e atacarem com as armas mais sofisticadas. Consta que, em poucos dias, foram mortas em Ghouta (Síria) 800 pessoas. Como escreveu B. Pasternak, “o bem só pode ser alcançado pelo bem”. Esquecemos que a pessoa humana individual é história de Deus[6].
O papa Francisco tenta introduzir em todos os seus gestos, intervenções e textos a lógica da descrucifixão. Neste IV Domingo da Quaresma, Deus vem em seu e nosso auxílio: Deus e o seu Filho não sabem condenar. Especializaram-se apenas em salvar[7]. Não tiveram aulas de Direito Canónico.
Aqui, lembro-me do poeta brasileiro, Manuel Bandeira, que ao passar, em sua casa, diante do crucifixo prometeu arrancar a figura de Cristo daquela cruz. Desistiu. Enquanto houver crucificados, não posso.
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público, 11. 03. 2018    


[1] Jo 15, 11; 16, 22-24; 1Jo 1, 4; 2Jo v.12
[2] Lc 4, 16-30
[3] 1Cor 1 – 2
[4] Act 4, 1-31
[5] Daniel Boyarin, Le Christ juif. À la recherche des origines. Cerf. Paris 2013, pp. 153-186
[6] Boris Pasternak, O Doutor Jivago, Bertrand, s/data, pp. 300 e 469.
[7][7][7] Jo 3, 14-21

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À PROCURA DA PALAVRA
P. Vitor Gonçalves
DOMINGO IV QUARESMA Ano B
“…todo o homem que acredita n’Ele não pereça,
mas tenha a vida eterna.”
Jo 3, 15

Foi no coração da noite que Nicodemos procurou Jesus. Talvez porque a noite cria espaço para as questões difíceis, ou é prelúdio de uma aurora que ilumina tudo? A passagem das trevas à luz no relato da criação marca o caminho humano: somos “dados à luz”, o saber ilumina o pensamento, brilham os olhos e o coração no amor, desejamos “Lich, mehr licht” (Luz, mais luz) como Goethe, diante da escuridão da morte. Não sabemos se Nicodemos ficou iluminado pelas palavras de Jesus. E nós, que as escutamos hoje: em que luz nos reconhecemos e vivemos?
O anúncio do amor de Deus, da paixão/elevação do Filho do homem, da vida nas trevas e recusa da luz como causa de condenação convidam a abrir os olhos. É um desperdício “ir vivendo”, sem questionar os critérios e as opções que nos definem, mantendo uma vida “a media luz”, sem perguntar quem somos e o que desejamos, sem ânsias de salvação. Ou então, procurando “salvações à la carte”, quer num espiritualismo auto-suficiente, quer num bem-estar de coisas adquiridas ou a adquirir.
É sobre “alguns aspectos da salvação cristã” que trata a carta ‘Placuit Deo’ (Aprouve a Deus), da Congregação para a Doutrina da Fé, dirigida aos Bispos, e aprovada pelo papa Francisco a 16 de fevereiro passado. Descrevendo algumas tendências actuais de “auto-salvação”, uma espécie de “salve-se a si mesmo” sem relação a Deus nem aos outros, reafirma: “a salvação consiste na nossa união com Cristo, que, com a sua Encarnação, vida, morte e ressurreição, gerou uma nova ordem de relações com o Pai e entre os homens, e nos introduziu nesta ordem graças ao dom do seu Espírito, para que possamos unir-nos ao Pai como filhos no Filho, e formar um só corpo no «primogênito de muitos irmãos» (Rom 8,29)”. É a salvação que se vive desde já, com Cristo e com os irmãos, aqui e agora, na prática da verdade, em todo o amor que acende pequenas luzes no meio da escuridão. Por isso, não é uma salvação que cada um tem para autoconsumo; é a salvação de Cristo vivo em nós, irradiando, gastando-se (como a vela acesa, ou o sol e as estrelas), dando vida.
Assusta-nos a noite das dores e da morte. A cruz, em que foi elevado o Filho do homem, parece absorver a pouca luz que ainda temos. Também nos perguntamos: “Por último virá a morte… e depois?”, como Paolo Scquizzato, num pequeno livro que assim se intitula. Percorrendo as perguntas simples e directas que tantas vezes nos colocamos, ele partilha pequenas luzes que ajudam “as mulheres e os homens de hoje a viver o momento presente, longe de estéreis medos e de inúteis sentimentos de culpa, mas sobretudo com um sentido, na serena consciência de que aquilo que nos espera no fim da vida será apenas um abraço de completamento e de eternidade.” O presente e o futuro, com Deus e com todos, podem ser com “mais luz”!
in Voz da Verdade, 11.03.2018

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Francis invites change, but we are the change
Mar 10, 2018
by Joan Chittister

There was a time in life when I wanted things done and wanted them done now. I still want things done now but over the course of the years, I discovered that, at least where the church is concerned, I was looking for action in the wrong places. As Sean Freyne, the Irish theologian and Scripture scholar, put it, "It's a mistake to think that a pope has the power to do anything." Translation: The right to reign as an autocrat, to take unilateral action about almost anything, does not come with the miter and crossed keys. Nor, for that matter, does it come with the capes and crosses of bishops.

Popes and bishops, I have come to realize, are the maintainers of the tradition of the church. When they move, it is commonly with one eye on the past — the point at which lies safe canonical territory. Only we are the real changers of the church.

It's the average layperson living out the faith in the temper of the times who shapes the future. It is the visionary teacher, the loving critic, the truth-telling prophet that moves the church from one age to another. It was those who had to negotiate the new economy who came to see fair interest on investments as the virtue of prudence rather than the sin of usury, for instance. It was those caught in abusive relationships who came to realize that divorce could be a more loving decision than a destructive family situation.

And yet, the manner in which popes and bishops move, the open ear they bring to the world, the heart they show, and the love and leadership they model can make all the difference in the tone and effectiveness of the church.

Five years ago, for instance, we moved from one style of church to another. It happened quietly but it landed in the middle of the faithful like the Book of Revelation. Gone were the images of finger-waving popes, stories of theological investigations, and the public scoldings and excommunications of people who dared to question the ongoing value of old ways.

When Jorge Bergoglio, the newly elected Pope Francis, appeared on the balcony of St. Peter's Basilica in Rome, he bowed to the people and asked for a blessing; the faithful roared their approval of a man who knew his own need for our help and direction.

When he told aristocratic bishops to "be shepherds with the smell of sheep" — to move among the people, to touch them, to serve them, to share their lives — episcopal palaces and high picket fences lost ecclesial favor. What the people wanted were bishops who would come out of their chanceries, walk with them and come to understand the difficulty of the path.

When Francis told priests to deal with abortion in confession, where all the struggles of humanity find solace and forgiveness, rather than treat it as the unforgivable sin, the church grew in understanding. When he said, "Who am I to judge" the spiritual quality of the gay community, the church became a church again. The fluidity of human nature and the great need for mercy and strength that come with life's most painful decisions became plain.

Francis, building on foundations laid by Pope John Paul II and Pope Benedict XVI, opened hearts and doors to Cuba, regardless of the politics of it, and with the Obama administration eased Cuba's isolation from the modern world. Francis has brought to the world's attention migrants fleeing war and oppressive economic situations; he has spoken up against slaughter in Southeast Asia and central Africa. He has said a definitive no to nuclear weapons and encouraged rethinking so-called just war.

Clearly, Francis is an invitation to change our stance in the world. We have a new model of what the church should look like to others as well as what we ourselves can hope for from it in our own lives.

Clearly, Francis is an invitation to change our stance in the world. We have a new model of what the church should look like to others as well as what we ourselves can hope for from it in our own lives. We begin to see the church as a sign of the love of God rather than the specter of the wrath of God.

And yet, at the same time, some things that must change clearly have not changed in these last five years. Instead, there is smoke without fire, commissions promised but not created, questions acceptable to ask, yes, but answers still scarce.

The very recognition of a problem, the modern world assumes, is the beginning of its solution. There is promise and possibility galore. But, in too many instances, if nothing happens, more and more people, disappointed, drift away from a drifting ship.

And so the married couples who lived through abuse, through marriages more toxic than life-giving, wait for the understanding that even though married again, they deserve the right to have the spiritual support the church offers as they attempt to make more loving marriages. They wait, but the declaration of inclusion in the church does not come.

A commission on the restoration of the female diaconate is formed, but the church itself is not included in the conversation, no public reports are ever given, and a very important and long-lived part of Roman Catholic history goes silent again.

The leviathan of child abuse, the most glaring problem facing the church, continues to raise its hoary head. It reaches across the world and even up to the pope's own household. Unless or until even bishops and cardinals are suspended until charges are resolved, the taint on the integrity of the Vatican itself will continue to undermine the sincerity of the church's effort to dispel the venom. Meanwhile, an abuse commission itself was formed, allowed to lapse, is now formed again we're told, but all of that with little or no evidence of palpable response to the problem itself.

The call for women in official positions at higher echelons in the church is promised — but ignored. This means, of course, that the role of women has not shifted at all yet — despite their educational readiness, their life-time records of service, let alone the discipleship offered by their baptism. The effect is clear: Women have nothing to do with the theological commissions where decisions are made that affect the spiritual lives of their half of the church. But Francis says that there is nothing more that can be said about women because his predecessors have spoken.

The question is why this papacy appears to have stalled. Whether situations like this stem from Francis' own lack of commitment to them or as a result of the interminable resistance of the Curia to papal leadership is anybody's guess. But they do mark this papacy. They make for long-term distrust.

From where I stand, this papacy has made thinking possible again. It has embraced the idea that change is part of the process of living. But it has not given some major issues significant direction. In cases like this, the promise of action and the absence of results, as the French say, "flatter only to deceive." They give false hope. As a result, in the end, the absence of action is even more disappointing than it would have been if hollow promises had never been made.

St. Paul warned the church about this kind of unclear leadership centuries ago. He writes in 1 Corinthians 14:8, "If the bugle gives an indistinct sound, who will get ready for battle?"

It is a warning to a papacy that came full of hope and is deeply respected for it. As the Talmud says, "Those who risk nothing, risk much more."

[Joan Chittister is a Benedictine sister of Erie, Pennsylvania.]

Editor's note: We can send you an email alert every time Joan Chittister's column, From Where I Stand, is posted to NCRonline.org. Go to this page and follow directions: Email alert sign-up.
This story appeared in the March 9-22, 2018 print issue.
FROM WHERE I STAND
in NCR https://www.ncronline.org/news/opinion/where-i-stand/francis-invites-change-we-are-change

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Comissão Nacional Justiça e Paz
O sentido da vida e o caminho dos povos
Nota da Comissão Nacional Justiça e Paz
Dia Internacional da Mulher – 8 de março de 2018

…Os homens, as mulheres e as crianças da terra — são eles que formam os povos — constituem a vida do mundo que Deus ama e deseja salvar, sem excluir ninguém.
…A aliança entre o homem e a mulher é chamada a ter nas suas mãos a direção da sociedade inteira. Este é um convite à responsabilidade pelo mundo, na cultura e na política, no trabalho e na economia(1).
Papa Francisco
Pertencemos a uma civilização que elegeu a dignidade de cada pessoa como estruturante da sua organização, que consagrou a igualdade entre homens e mulheres como direito fundamental. A sua realização é determinante para o desenvolvimento e sustentabilidade das comunidades. Este é, aliás, um compromisso assumido a todos os níveis, internacional, regional e nacional. O seu incumprimento representa uma tremenda violação de valores fundamentais e um tremendo risco ecológico.
Sob o impulso das Nações Unidas, do Conselho da Europa, da União Europeia e da União Interparlamentar fizeram-se aprovar ao longo dos últimos cem anos múltiplas convenções, recomendações, plataformas, enfim, um vastíssimo conjunto de instrumentos, todos eles complementares, reguladores, concretizadores, assentes no bem que é a liberdade de se ser igual, de se ser par entre pares, de se ser plenamente.
Todos estes instrumentos tiveram reflexos e tradução normativa no ordenamento jurídico português, no âmbito do direito constitucional, civil, laboral e penal, constituindo-se assim como motor essencial das transformações legais, sociais e culturais que se operaram nestes últimos anos.
Os direitos fundamentais e em especial o princípio da igualdade entre mulheres e homens bem como a proteção contra a discriminação nas suas múltiplas vertentes foram assumidos como irreversíveis.
Contudo, e apesar desta determinação, a sua concretização é lenta e a realidade evidencia persistentes assimetrias e desigualdades, frequentemente geradoras de retrocessos: a especial vulnerabilidade de meninas e mulheres face à violência, que leva a que sejam mais de 80% das vítimas de violência doméstica, a remuneração desigual, traduzida em cerca de 17% menos que a dos homens, a maior incidência da pobreza, com significado mais expressivo para as mulheres mais velhas (com pensões cerca de 31% mais baixas que as dos homens) ou que assumem sozinhas o sustento das suas famílias, a jornada diária de trabalho (remunerado e não remunerado) penalizada em cerca de mais de uma hora que a do homem, o difícil acesso aos lugares de decisão nas empresas e na política.
A igualdade, e o consequente combate a todas as formas de discriminação que a impedem, só pode ser conquistada pelo trabalho diário, próximo, consciente de cada realidade pessoal, combatendo a indiferença, devolvendo visibilidade de forma a que ninguém seja deixado para trás.
Em outubro de 2017, o Papa Francisco, no seu discurso aos participantes na assembleia geral dos membros da Pontifícia Academia para a Vida, afirmou:
…Não se trata simplesmente de oportunidades iguais, nem de reconhecimento recíproco. Trata-se sobretudo de entendimento entre homens e mulheres, sobre o sentido da vida e o caminho dos povos.
…Trata-se antes de tudo de reconhecer com honestidade os atrasos e as faltas. As formas de subordinação que tristemente marcaram a história das mulheres devem ser abandonadas de maneira definitiva. Um novo início deve ser escrito no ethos dos povos, e isto só pode ser feito por uma renovada cultura da identidade e da diferença.
A Comissão Nacional Justiça e Paz, neste dia 8 de março, reconhecendo as conquistas que se foram fazendo na correção das desvantagens estruturais que gravemente recaem sobre as mulheres e ferem a sua dignidade, não pode deixar de assinalar o longo e difícil caminho ainda a percorrer na remoção da indiferença e da invisibilidade, na eliminação das múltiplas formas de discriminação refém de preconceitos, na conquista da igualdade, e faz-se eco do apelo à revolução cultural que nas palavras do Papa Francisco se apresenta no horizonte da história desta época.
Os Direitos Humanos não são um mero ideal abstrato. São um compromisso de toda uma civilização, de toda uma comunidade em nome da justiça e da paz, para que a justiça e a paz sejam uma realidade na vida de cada pessoa.
Lisboa, 8 de março de 2018
(1)        Discurso do Papa Francisco aos participantes na assembleia geral dos membros da Pontifícia Academia para a Vida, outubro de 2017.