15 julho 2018

SEM MITRA NEM SOLIDÉU

     
1. Por vezes, confunde-se um profeta com um adivinho. O verdadeiro profeta é sobretudo uma pessoa que vive a graça da lucidez humana e divina na defesa do bem comum. Vê o que a cegueira dos interesses instalados não quer ver nem deixa ver. A denúncia da traição da aliança mística e da aliança social – duas caras da mesma moeda - é o seu tema. Como diz Miqueias, a proposta de conversão exige a instauração do direito e da justiça[1]. As pessoas aduladoras dos poderosos gostam de ser chamadas profetas, mas são, apenas, os seus lacaios.
Na missa de hoje, é dada a palavra ao incómodo Amós que exerceu essa missão, aproximadamente, entre 760 e 745 a.C.. Ele reconhecia a convicção comum aos seus concidadãos, a relação especial entre Iavé e o seu povo, mas tirava daí consequências diametralmente opostas: Deus não é propriedade privada de Israel. Perante Deus, todos os povos estão em pé de igualdade. O antigo Israel tinha, apenas, maiores responsabilidades morais e uma maior exposição aos castigos pelas injustiças que provocava ou consentia[2].
 No tempo da actuação profética de Amós, o reino de Israel tinha atingido o máximo da sua prosperidade, mas o luxo dos ricos insultava a miséria dos oprimidos e o esplendor do culto disfarçava a ausência de uma religião verdadeira. O seu estilo era rude e simples, imagem típica de um homem do campo. Para ele, a prática do povo eleito era pior do que a dos gentios e não se calava perante essa situação.
Então, Amasias, sacerdote de Betel, disse a Amós: «Vai-te daqui, vidente. Foge para a terra de Judá. Aí ganharás o pão com as tuas profecias. Mas não continues a profetizar aqui em Betel, que é o santuário real, o templo do reino». Amós respondeu a Amasias: «Eu não era profeta, nem filho de profeta. Era pastor de gado e cultivava sicómoros. Foi o Senhor que me tirou da guarda do rebanho e me disse: Vai profetizar ao meu povo de Israel»[3].
Como já tentei mostrar, várias vezes, nestas crónicas dominicais, o carpinteiro de Nazaré não chamou os doze apóstolos para as delícias do poder nem para aduladores e imitadores dos grandes deste mundo. Consta, no Evangelho de S. Marcos proposto para este Domingo[4], que Jesus os enviou, dois a dois, com poder sobre os espíritos impuros e ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, a não ser o bastão: nem pão, nem alforge, nem dinheiro; que fossem calçados com sandálias e não levassem duas túnicas. Disse-lhes também: «Quando entrardes numa casa, ficai nela até partirdes dali. Se não fordes recebidos em alguma localidade, se os habitantes não vos ouvirem, ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés como testemunho contra eles».
Não será esta uma proposta puramente utópica? Conheço um bispo que sempre procurou mostrar que a utopia é o próprio realismo do profeta de Nazaré.
 2. Já me tenho referido ao Ano Raimon Pannikar, uma originalíssima figura da cultura e da religião da Catalunha, que realizou, na sua pessoa e na sua obra imensa, a maior tentativa de síntese entre o Oriente e o Ocidente.
Ao ler o texto do Evangelho de Marcos, lembrei-me de outro catalão que fez 90 anos no mês de Fevereiro: Pedro Casaldáliga, chamado bispo descalço sobre a terra vermelha[5].
Durante 38 anos viveu e trabalhou no Brasil, primeiro como missionário claretiano e a partir de 1971, como bispo nomeado por Paulo VI. Não é uma cronologia, mesmo a de um bispo, que define uma personalidade.
      Pedro Casaldáliga não adoptou a teologia da libertação como uma moda. Ele escolheu-a como forma de vida e de actividade pastoral: Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar. 
Quando foi nomeado primeiro bispo da diocese, converteu sua casa, pequena, rural e pobre, na sua sede episcopal, sede do seu povo, sobretudo dos mais desfavorecidos, camponeses sem-terra, pobres, analfabetos e oprimidos por coronéis e políticos.
Celebrava a Eucaristia para os moradores no quintal da sua casa, entre as galinhas e, à noite, deixava sua porta aberta para o caso de alguém, sem casa, precisar de uma cama que estava sempre disponível. Andava de jeans e chinelos. Tinha duas mudas de roupa. Quando tinha de ir às reuniões com o Episcopado, em Brasília, ia de autocarro, numa viagem de três dias, pois esse era o meio de transporte da sua gente. Do aeroporto à sua casa, em São Félix do Araguaia, só se chegava depois de 16 horas de estrada de terra.
Mais tarde lembraria que, no início da sua acção pastoral, faltava tudo: na saúde, na educação, na administração e na justiça. Sobretudo, faltava, na população, a consciência dos próprios direitos e a possibilidade de os reclamar. Acusado de se interessar demasiado pelos problemas "materiais" dos pobres, respondia que não concebia a dicotomia entre evangelização e promoção humana. Decidiu, por isso, o caminho a seguir. O seu lugar não era apenas ao lado dos camponeses sem-terra, mas também o de construir escolas e centros de saúde.
3. Em 1988, o Vaticano convocou-o, para que explicasse a sua proximidade à teologia da libertação e visitasse o Papa João Paulo II, como já o devia ter feito. Apresentou-se, então, em camisa, sem anel e com um colar indígena no pescoço. Disse ao papa: Estou disposto a dar a minha vida por S. Pedro, mas pelo Vaticano, é outra coisa. Ao sair do encontro, declarou à imprensa: O papa escutou-me e não me deu nenhuma repreensão. Poderia tê-lo feito, como também nós o podemos fazer com ele. Acrescentou: O Espírito Santo tem duas asas e a Igreja gosta mais de cortar a da esquerda.
No momento em que se escolhem designers para a indumentária e as insígnias episcopais e cardinalícias, seria bom não esquecer as vozes, antigas e novas, que se interrogaram: sucessores de Pedro e dos Apóstolos ou continuadores da era do imperador Constantino[i]
Casaldáliga não precisou desta lição sistematicamente esquecida. Quando a idade o obrigou a apresentar a renúncia ao seu ministério, Roma não lhe pediu para esperar. Casaldáliga fez só um pedido: ser um pároco ao serviço da diocese. Não teve resposta. Foi um colaborador dos dois bispos que lhe sucederam.
Aos noventa anos, vive onde sempre viveu, mas já não da mesma maneira. A sofrer de Parkinson, pouco mais lhe resta para além da rotina habitual: cuidados físicos de manhã e, à tarde, leitura do correio, sem poder responder a todas as mensagens de carinho que lhe enviam, porque já tudo lhe custa.
Querido S. Pedro Casaldáliga, reza por nós.

Frei Bento Domingues, O.P.
 in Público,  15. 07. 2018



[1] Mq 6, 8
[2] Francolino Gonçalves, Antigo Testamento e direitos humanos, ISTA nº 6, 1998, p.40
[3] Amós 7, 12-15 
[4] Mc 6, 7-13
[5] Título de uma mini-série que foi dedicada ao bispo Pedro Casaldàliga.
[6] Cf. Yves Congar, O.P., Igreja serva e pobre, ed Logos, Lisboa 1964, pp 65; 131 ss


08 julho 2018

NÃO HÁ MILAGRES? (2)

  1. O mal resulta da ausência de um bem que deveria existir, seja na natureza, seja no agir humano. A serenidade desta lucidez metafísica tem um inconveniente: ou é linguagem de robot para robots ou um insulto a quem sofre. As ciências estudam as causas desses disfuncionamentos, os processos de os evitar e os remédios da sua cura. Dizem-me que a imortalidade está no horizonte lógico da ciência. A promessa da longevidade e da juventude ilimitadas vai de encontro ao nosso desejo de viver bem, com saúde e sem envelhecimento. Esta conjectura agradável não pode evitar interrogações de carácter social, político, económico, cultural e ético. Os pós-humanistas julgam que essa hora chegará mais depressa do que se imagina. Até lá, mais vale encarar o facto de uma existência limitada que privilegia os laços da amizade e da solidariedade efectiva. A história do sofrimento dos inocentes deita para o caixote do lixo qualquer especulação sobre o mal.
Repete-se, desde Epicuro (séc. III a. C), dos modos mais diversos, que Deus e o mal não podem coabitar. O mal é um escândalo e um problema para qualquer ser humano, mas especialmente para quem é religioso. Um mundo com mal e sem Deus talvez fosse menos problemático, pois ou Deus quer eliminar o mal e não pode, ou pode e não quer. Se quer e não pode, é impotente; se pode e não quer é mau.
Nunca me impressionou muito essa conversa centrada num Deus encurralado pela lógica totalitária, sem espaço para a responsabilidade humana.
O que mais me espanta é a nossa falta de juízo e de bondade. Somos testemunhas de guerras horrorosas. Sabemos que, na maioria dos casos, foram e são, a todos os níveis, frutos do desejo de pessoas e grupos possessos da vontade de dominação económica, política, cultural e religiosa. Em última análise, a resposta à graça da livre conversão à boa e imaginativa hierarquização dos nossos desejos pode ajudar a diminuir a loucura mundana. Encarar a vida como o desenvolvimento de todos os talentos para ajudar, de modo competente, as capacidades dos que não tiveram oportunidades é, talvez, um bom caminho para a nova civilização proposta pelo Papa Francisco. Para ele, o mal não é um problema teórico, mas um desafio a enfrentar mediante a praxis humana solidária, cristã. Daí nasce a fonte divina e humana dos verdadeiros milagres.  
2. Diz-se que não há testemunhos do riso de Jesus, mas abundam as referências ao seu requintado humor. O texto escolhido para a liturgia do Domingo passado[1] e o proposto para hoje[2], colocam a questão dos milagres de forma tão pouco convencional que importa analisar.  
No primeiro, numa única narrativa, entre o trágico e o cómico, acontecem dois “milagres” muito improváveis. Segundo o Novo Testamento, o grupo dos fariseus – sobretudo os chefes das sinagogas – não via com bons olhos as inovações do Nazareno. Ora, nesse texto, é precisamente um chefe de sinagoga, chamado Jairo, a pedir, com insistência, a intervenção de Jesus para salvar a sua filha que estava a morrer: vem impor-lhe as mãos para que se salve e viva. Jesus não se fez rogado e acompanhou o pai da criança, seguido de grande multidão que o apertava por todos os lados. Entretanto, uma mulher extremamente doente que, há doze anos, sofria muito nas mãos de vários médicos e gastara todos os seus bens sem ter obtido qualquer resultado, antes piorava cada vez mais, tendo ouvido falar de Jesus, veio por entre a multidão e tocou-lhe no manto, dizendo consigo: se eu, ao menos, tocar nas suas vestes, ficarei curada. E ficou.
Não foi um gesto supersticioso, foi um puro acto de fé, isto é, de confiança absoluta.
É verdade que a narrativa é cómica: quando Jesus pergunta quem me tocou, apertado pela multidão, os discípulos acham a pergunta descabida. De facto, Jesus sentiu que algo aconteceu no seu próprio corpo e a mulher, assustada e a tremer pelo que lhe tinha acontecido, disse a verdade. Jesus nem sequer diz que a curou: minha filha a tua fé te salvou. Ao dizer isto, Jesus exprimiu o mais íntimo da relação entre Deus e o ser humano. A coincidência de dois movimentos: o desejo de Jesus de curar – era a sua maneira de viver – e o desejo da mulher de ser curada. A salvação realiza-se no encontro desses dois movimentos. A fé salva porque é a entrega confiante ao amor que a precede. É o abraço de dois desejos: de Deus e da criatura. É, por isso, um exercício de liberdade. Deus deseja, mas não obriga ninguém a reconhecê-lo nos seus sinais.
Quando Jesus diz à mulher foi a tua fé que te salvou, até parece que ele não fez nada. Não é verdade. Como diz o narrador, do corpo de Jesus saiu uma energia real que ele próprio estranhou. Essa graça encontrou-se com um desejo ardente e desesperado. Sem este desejo da mulher Jesus não podia nada.
3. No meio da confusão, vem a notícia da casa de Jairo: a tua filha morreu, não incomodes mais o Mestre.
Jesus disse ao chefe da sinagoga: Não temas, basta que tenhas fé. Seguido de Pedro, Tiago e João, vendo grande alvoroço com gente que chorava e gritava, atreve-se a uma provocação que até parecia de mau gosto: a menina não morreu, está a dormir. Riram-se dele. Levando consigo o pai e os referidos discípulos, entrou no local onde ela jazia. Pegou-lhe na mão e disse: Menina, eu te ordeno, levanta-te. Ela ergueu-se imediatamente e começou a andar, pois já tinha doze anos. Ficaram todos muito maravilhados. Jesus recomendou-lhes, insistentemente, que ninguém soubesse do caso e mandou dar-lhe de comer.
Noutros casos, as pessoas que reconheciam em Jesus uma energia estranha atribuíam-na a uma possessão diabólica porque ele não era um observante de convenções religiosas[3].
É essa a questão deste Domingo. Jesus foi à sua terra acompanhado dos discípulos. Chegado o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Os numerosos ouvintes interrogavam-se acerca da origem das suas palavras e acções prodigiosas, mas ficavam de fora. Porque seria? O conhecimento do estatuto modesto deste carpinteiro e da sua numerosa família secava qualquer interrogação de fundo. O conhecimento que tinham de Jesus era uma ignorância acerca da significação inovadora do que Ele andava a fazer e a dizer. Ao preferirem continuar num ram-ram sem surpresas e sem novos horizontes, ficaram onde sempre estiveram. O ritual foi cumprido e nada aconteceu. Ao contrário do Domingo passado, Jesus ficou espantado com a falta de fé daquela gente.
Nas celebrações actuais da Eucaristia, para que algo aconteça de inovador, é preciso deixar-se convocar para a participação na reforma pessoal, da Igreja e da sociedade. Sem esse desejo activo, Cristo nada pode fazer. Os rituais são cumpridos, mas se as instituições da Igreja continuarem no seu ram-ram e a ignorar os desafios do Papa Francisco, que se pode esperar?
Alguns julgam-se heróis da mudança pelo regresso ao que julgam ser a Santa Missa de Sempre, que nunca existiu como missa de sempre. Andam para trás para se realizarem como estátuas de sal, fruto de uma incurável miopia[4].
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público, 08.07.2018


[1] Mc 5, 21-43
[2] Mc 6, 1-6
[3] Mc 3
[4] Jo 9

 Alegrai-vos e exultai
Padre Anselmo Borges

1. Estava eu numa aula sobre uma compreensão holística de saúde e, dirigindo-me a uma aluna, perguntei: "Gostava de ser santa, não gostava?" E ela, aflita e cortante: "Não, nem pensar nisso!". Acrescentei: "No entanto, se pensar bem, é isso que todos queremos ser." E comecei a explicar, começando pelo tema em questão: o da saúde. Eu estou bem, mas bastaria uma unha encravada no dedo mindinho do pé esquerdo para já me sentir mal. A saúde está no funcionamento harmónico de todos os órgãos do corpo. Mas não basta, pois se eu não me der bem comigo, também me sinto mal. Há gente que não pode ver certas pessoas, só de vê-las ficam doentes. Para estar são, é necessária uma relação boa com os outros. E se o que há para contemplar for apenas lixeiras? A saúde requer também uma relação bela e sadia com a natureza. Ah, e com a transcendência... Isso é dito, aliás, nas próprias palavras, no seu étimo. Saúde vem do latim salute, que significa simultaneamente saúde e salvação. Neste contexto de saúde em sentido holístico, são e santo estão em união estreita, como se constata nas línguas anglo-saxónicas: saúde (health, em inglês) em conexão com holy - santo, e, em alemão, heilen - curar --, em conexão com heilig - santo - e Heil - salvação e são; também em português, há a mesma ligação entre são e santo, de tal modo que se diz, por exemplo, um homem são e São João, para dizer que o santo só pode ser um ser humano autêntico, íntegro e pleno. O inglês e o alemão remetem para the whole, o todo holisticamente considerado, isto é, o todo que é mais do que a soma das partes. O mal é que, quando se pensa em santos, se pensa em gente estranha, do "outro mundo", que se dá muito mal com a vida e que se encontram nos altares, torcidos, a olhar de lado e de modo esquisito... Então, a jovem disse: "Sim, pensando bem...".
2. Foi isto que o Papa Francisco veio dizer numa bela Exortação, com o título acima: "Alegrai-vos e exultai" - todos os grandes textos de Francisco estão sob o desígnio da alegria. Porque o Evangelho é uma notícia boa e felicitante. A Exortação é sobre a santidade. E lá está: todos são chamados à santidade, isto é, à plenitude, à perfeição, à alegria, na vida do quotidiano. Deus "pede tudo e, em troca, oferece a felicidade para a qual fomos criados. Quer-nos santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, aguada e liquefeita" (etimologicamente, medíocre significa o que não subiu até ao cimo, pois ficou a meio da montanha; aguado: vinho adulterado com água; liquefeito, sem solidez, como reflectiu Zygmunt Bauman). "Ser santo não significa revirar os olhos nem viver em êxtase." "O santo não é uma pessoa excêntrica, distante, que se torna insuportável pela sua vaidade, negativismo e ressentimento". "Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade está reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avô ou avó? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. És investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum, renunciando aos teus interesses pessoais". Aquela mãe ou aquele pai rumam à santidade quando, em casa, "o seu filho reclama a sua atenção para falar das suas fantasias" e eles, embora cansados, "sentam-se ao seu lado e escutam com paciência e carinho". Francisco defende o que chama a "classe média da santidade", os santos "ao pé da porta", eles vivem perto de nós e são reflexos da presença de Deus: "Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir". "Não tenhas medo da santidade. Não te tirará forças nem vida nem alegria. Não tenhas medo de apontar para mais alto, de te deixares amar e libertar por Deus. A santidade não te torna menos humano, porque é o encontro da tua fragilidade com a força da graça de Deus."
A vida é uma missão, que se cumpre na contemplação e na acção. O que não santifica é "um compromisso movido pela ansiedade, o orgulho, a necessidade de aparecer e dominar", "as novidades contínuas dos meios tecnológicos, o fascínio de viajar, as inúmeras ofertas de consumo", menosprezando os momentos de quietude, solidão e silêncio para estar consigo e diante de Deus, ou quando "tudo se enche de palavras, prazeres epidérmicos e rumores a uma velocidade cada vez maior; aqui não reina a alegria, mas a insatisfação de quem não sabe para que vive".
O santo não está nas "redes de violência verbal através da Internet e vários fóruns ou espaços de intercâmbio digital", procurando "compensar as próprias insatisfações descarregando furiosamente os desejos de vingança". "Se vivermos tensos, arrogantes diante dos outros, acabamos cansados e exaustos. Mas, quando olhamos os seus limites e defeitos com mansidão, sem nos sentirmos superiores, podemos dar-lhes uma mão e evitamos energias em lamentações inúteis." Por outro lado, a santidade nada tem a ver com "um espírito retraído, tristonho, amargo, melancólico ou um perfil sumido, sem energia. O santo é capaz de viver com alegria e sentido de humor." Porque, mesmo nos momentos mais difíceis, momentos da cruz, nada pode destruir a alegria sobrenatural, que "sempre permanece pelo menos como um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de, não obstante o contrário, sermos infinitamente amados por Deus".
in DN 06.07.2018

À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves
DOMINGO XIV COMUM Ano B
“Estava admirado com a falta de fé daquela gente.”
Mc 6, 6

Qual o tamanho de Deus

Um garoto perguntou um dia ao avô: “Qual é o tamanho de Deus?” Indicando ao neto um avião que passava alto no céu, perguntou-lhe o avô: “Qual o tamanho daquele avião que passa lá alto?” “É bem pequenino!”, respondeu o petiz. Então o avô levou o neto ao aeroporto e, junto de um avião parado, perguntou: “E este avião, de que tamanho é?” “Ui”, respondeu o neto, “esse é bem grande”. E o avô concluiu: “Pois Deus é assim; quanto mais longe estamos d’Ele, mais Ele é pequenino; quanto mais perto, maior Ele é para nós”!
Lembrei-me desta história, deixada por um amigo numa gravação telefónica, a propósito do evangelho deste domingo. A missão dos profetas é mostrar a verdadeira grandeza de Deus e denunciar a nossa aparente proximidade d’Ele. A esperança de um messias/chefe/rei manifestava-se em categorias, nas quais Jesus não encaixava. Desde logo a proximidade com os que O tinham visto crescer, que suscitava incredulidade pela sua humanidade. Sentiam a estranheza que “alguém”, vindo de Deus, fosse tão humano! Como o “estudo” realizado nos Estados Unidos por psicólogos da Universidade da Carolina do Norte, que originou uma representação do “rosto de Deus” com aparência de “um homem comum”! É certo que os seus conterrâneos elogiavam a sabedoria das suas palavras, mas não passaram daí. Não conseguiram dar o salto da fé, aquele que encontra a grandeza de Deus que não esmaga nem oprime, antes salva e liberta!
Quem nunca sonhou um encontro com Jesus Cristo? O que ficaria mais impresso no nosso íntimo? Aspectos diferentes, certamente, mas seria (e é!) um encontro que toca a vida em todas as dimensões. Não apenas a intelectual, esta em que estamos mais habituados a “colocar” a fé. Poderíamos falar de vários âmbitos que compõem a vida humana: o biopsíquico, o do conhecimento, o da economia, o da ética, o da vida lúdica, o da vida religiosa, o da vida socio-política. A fé não é uma realidade apenas ligada ao “conhecimento”, à “teo-logia” (um saber de Deus). A relação com Jesus está ligada a todas as nossas relações vitais e provoca mudança e crescimento em todas elas. É à identificação da nossa vida toda com a de Jesus que podemos chamar “seguimento”. Porque Ele nos seduziu um pouco, muito, ou muitíssimo, a nossa vida muda!
Escrevo estas palavras no dia de Santa Isabel de Portugal, e recordo a sua firmeza e generosidade na dupla missão de rainha e mulher, de poder e serviço. E socorro-me do seu milagre da transformação do pão que levava aos pobres em rosas para contar uma história do poeta Rainer Maria Rilke. Vivia ele em Roma, e com um amigo passava todos os dias por uma pedinte que lhes estendia a mão. Quando o seu colega tinha alguma moeda a mais deixava-a na mão da mulher. Rilke não o imitava. Mas um dia, ao passarem por ela, tirou uma rosa da sua sacola e colocou-lha na mão. A face escondida e suja iluminou-se e duas lágrimas afloraram aos olhos. Nos três dias seguintes, não a viram no lugar habitual. Regressou no quarto dia. Perguntou o amigo de Rilke: “De que terá vivido esta mulher estes três dias?” Respondeu o poeta: “Viveu da rosa!”
O tamanho de Deus revela-se no acolhimento de vida que Lhe fazemos, e como O deixamos fazer crescer o amor em nós. Amor de pão e de rosas!
in Voz da Verdade, 07.07.2018


Groundbreaking document released on how Anglicans and Roman Catholics can learn from each other
Posted on: July 4, 2018

An agreed statement produced by the official commission for dialogue between the Roman Catholic and Anglican churches has been heralded as "ground-breaking" and an "important step on the pilgrimage towards fuller unity in Christ".
The text for the work – "Walking Together on the Way: Learning to be the Church – Local, Regional, Universal " – was agreed at a meeting of the third phase of the Anglican-Roman Catholic International Commission (ARCIC III) in the German city of Erfurt in May 2017. It was the first document produced by ARCIC III and is the culmination of seven years’ work.
The document encourages Anglicans and Roman Catholics to learn from each other’s differences, rather than concentrating on common ground. For example, Anglicans are invited to examine models of unity within the Catholic tradition and Catholics to look at empowering local church leaders and the laity in decision-making.
One commission member, the theologian Dr Paula Gooder, called the document ground-breaking.
"The agreed statement ... takes another step along the path of ecumenical dialogue which Anglicans and Roman Catholics have been journeying together for over 50 years," she told ACNS. "The method it uses models conversation at its best. The conversation here is rich, though also challenging – calling us to travel onwards into the future in mutual companionship and hope."
Bishop Christopher Hill, another member of the Commission, said: "The statement makes a new departure – a very practical, mutual examination of our respective authority structure. This gives Anglicans and Roman Catholics a timely opportunity for both self-criticism and mutual ecclesial learning – with authority questions high on our mutual agendas."
The dialogue’s Anglican Co-Secretary, Dr John Gibaut, stressed the significance of the work and its timeliness.
"The fullest reception of this document will require changes in both communions," he said. "It will be particularly interesting to the Anglican Communion as we move forwards to the next Lambeth Conference in 2020."
The potential for reform was noted by Dr Jamie Hawkey, the Dean of Clare College, who has been writing the Anglican commentary on the statement. (Click here to read.)
"This document is a remarkable fruit of the high-level doctrinal consensus and real-but-imperfect communion which already exists between the Anglican Communion and the Roman Catholic Church," he said. "In both method and content, this agreed statement formally commends a new chapter of conscious mutual ecclesial learning, and encourages both communions to receive the gifts of the Holy Spirit from one another.
"Emboldened by such partnership and promise, the process of reform of our structures - for the sake of the Church's communion and mission - can be seen as an important step on the pilgrimage towards fuller unity in Christ."
A Roman Catholic commentary has also been produced. (Click here to read.)
The document will be published later this year. ARCIC III’s next discussions will examine the discernment of right ethical teaching.
Editor's note: This story was updated on 5 July to include links to the Agreed Statement and the Anglican and Roman Catholic commentaries on it.

in ACNS Anglican Communion News Service

http://www.anglicannews.org/news/2018/07/groundbreaking-document-released-on-how-anglicans-and-roman-catholics-can-learn-from-each-other.aspx

01 julho 2018

NÃO HÁ MILAGRES? (1)

        1. Falou-se durante muito tempo do milagre económico alemão. Quando se deseja criticar uma gestão económica e financeira diz-se: não há milagres! Em clima de religião barata vem o velho ditado: fia-te na Virgem e não corras! São apelos sensatos para que as iniciativas humanas sejam pensadas e planeadas a tempo, executadas com rigor. Não deixar as nossas decisões ao Deus dará, pois Ele ajuda quem se sabe ajudar. Afirmar que não há milagres nem sempre significa uma atitude ateísta ou negação da providência divina. Pode ser apenas respeito pela responsabilidade humana com uma conotação teológica: não invocar o Santo nome de Deus em vão.
Não é aconselhável dar demasiada importância à linguagem do quotidiano que, raramente, é fruto de grandes cogitações como, por exemplo, eu cá sou ateu graças a Deus. Usa-se o vocabulário mais disponível, marcado pelo contexto social e cultural de uma população. Há zonas do país, nas quais, um palavrão é, apenas, um recurso simples e rápido, para acabar com uma conversa que não leva a lado nenhum.
2. A oração, a promessa, a acção de graças e o milagre são a própria paisagem da religião, a não confundir com a beatice. Em alguns contextos, significa o próprio clima da interioridade que acompanha as transformações da vida espiritual. Em outros casos, são narrativas sociais, umas mais discretas, outras mais aparatosas e, até, exibicionistas, para dizer a fé de um grupo religioso, o sentido profundo da vida. Pede-se ao céu, a Deus e aos seus anjos e santos, que se lembrem de nós, que nos dêem a mão. A celebração da memória da fé dos antepassados é essencial. Nós fazemos parte da sua história e eles desejam fazer parte da nossa vida se a intensidade do nosso desejo pedir a sua intervenção.
Religião exterior e interior – salvo nos casos de hipocrisia – podem reforçar-se uma à outra. Como a sociedade muda, é normal que também sejam alteradas as suas representações.
Quer ao nível da religião popular e das suas expressões, quer no confronto com a Bíblia e com a prática de Jesus, a questão dos milagres é incontornável.
 Numa era sacral, quando a imagem deste mundo dependia das representações sobrenaturais, negar a possibilidade do milagre era uma ofensa ao bom senso: se não é Deus a guiar a misteriosa marcha deste mundo, quem é? Os milagres e as relíquias milagrosas tornaram-se um vício abençoado.
Na nossa era secular, a linguagem universalmente credível é a da ciência e da técnica. As sucessivas revoluções industriais que elas possibilitam, para bem e para mal, são da responsabilidade humana. Pedir contas a Deus ou solicitar a sua intervenção não parece sensato.
Temos, no entanto, de não confundir religião com superstição. Como observa L. Wittgenstein, a fé religiosa e a superstição são muito diferentes. Uma resulta do medo e é uma espécie de falsa ciência. A outra é uma confiança[1].
Para tentar escapar às dificuldades que a própria noção de milagre implica, foi elaborada uma ideia mais “moderna” de milagre. Diz-se que há milagre quando um fenómeno não pode ser explicado por nenhuma ciência ou técnica disponíveis. Isto acontece, sobretudo, no campo da medicina. Para ter milagres verdadeiros, reais, capazes de levar santos aos altares, para canonizar vidas santas, é preciso a ocorrência de um acontecimento inexplicável pela ciência e pela técnica. Dado o seu carácter benéfico, só pode ser fruto da intervenção de Deus.
É esta noção de milagre que foi muito importante, sobretudo no século XIX, para distinguir sinais de santidade verdadeira de embustes devotos. Foi uma medida muito higiénica no campo religioso, uma forma de dizer que não vale tudo no campo devocional.
Há quem fale de milagres de primeira e milagres de segunda. Os de primeira são os que resistem a todos os testes. Os de segunda são as graças que enchem a literatura piedosa, muito distribuída em certos locais destinadas a criar ambiente para o acontecimento dos milagres de primeira, capazes de levar um santo aos altares.
        3. Em tudo isto, é esquecida a condição do desenvolvimento das ciências e das técnicas. Estão sempre em evolução. O que numa época se considerou uma ocorrência para além dos poderes da natureza, com o desenvolvimento posterior das ciências e técnicas, talvez possa vir a ser explicável. É verdade, mas continuamos a considerar, no mesmo plano, a misteriosa intervenção de Deus e as acções humanas. Um pouco de teologia negativa pode ajudar.
Quem lê o Novo Testamento ou participa nas celebrações eucarísticas não pode evitar a pergunta: será que Jesus fazia milagres ou são apenas histórias de uma era sacral para alimentar uma ilusão para os nossos dias? Se Jesus fez milagres, há 2 mil anos, ainda deve ter a mesma bondade e o mesmo saber para as situações actuais. Como não gosta de fazer nada sozinho, é normal que associe os anjos e os santos – canonizados ou não – à sua vontade de fazer o bem, sobretudo nas situações mais aflitivas.
Para pensar isto com certa clareza, não se deve esquecer a história de Pascal: Conta-se que, certo dia, Pascal se encontrou com um amigo num castelo, no cimo de uma colina. Após algum tempo de espera, o amigo chegou com o rosto desfigurado, a roupa rota e o corpo cheio de nódoas e feridas. – O que é que te aconteceu? – perguntou Pascal. – Não imaginas o milagre que Deus acaba de me fazer! – respondeu o amigo. Quando vinha para cá, o meu cavalo resvalou perto de uma ravina. Eu caí, fui rolando e resvalando, mas detive-me exactamente na borda do precipício. Imaginas? Que milagre Deus acaba de me fazer! Ao que Pascal retorquiu: E o milagre que Deus acaba de me fazer a mim? Ao vir para cá, nem sequer caí do cavalo!»[2].
Neste Domingo, o humor e a astúcia de S. Marcos[3], ao encaixar numa única narrativa dois milagres improváveis, obrigam-nos a pensar que a nossa maior cegueira, seja a que nível for, é a incapacidade renovada de não ver o que temos diante dos olhos. Gloriamo-nos, com razão, dos avanços da ciência, da indústria e dos seus progressos. Ao esquecer que tanto podem realizar o milagre da paz e do bem-estar, como provocar guerras em cadeia e a destruição, ficamos nas mãos dos donos deste mundo.
No Domingo que vem, até o próprio Jesus se espanta com tanta miopia.
Frei Bento Domingues, O.P.

in Público, 01. 07. 2018


[1] Cultura e Valor, Edições 70, 1980, pp. 107
[2] Ver, para todo este assunto, as observações de Ariel Ávarez Valdés in Bíblica nº 352 (maio-junho 2014), pp. 99-104; ver também Miracle de Xavier Léon-Dufour, Dictionaire du Nouveau Testament, Seuil, 1975.
[3] Mc 5, 21-43













24 junho 2018

CRISTO NÃO DESEMPREGOU OS SANTOS (2)

       
1. Não entendo nada do jogo do “monopólio”. Parece que é guiado por uma lógica económica muito simples: para uns jogadores ficarem ricos, os outros vão à falência.
Não pretendo encontrar aí uma analogia para a relação entre as religiões, mas sempre ouvi dizer aos críticos do monoteísmo que a sua vitória foi um golpe muito duro no pluralismo religioso da antiguidade. Um Deus único não poderia tolerar concorrentes.  
Não é essa questão, cheia de falácias, que pretendo abordar nesta crónica. A palavra Deus encobre significações muito diferentes. Lembrei-me desse jogo ao ler uma recente declaração do actual Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Luis Ladaria. Tenta ressuscitar a Carta Apostólica de João Paulo II – Ordinatio sacerdotalis – para reafirmar que o jogo do sacerdócio ministerial foi ganho pelos homens e a falência sacerdotal das mulheres é irremediável. A referida Carta defendia que o sacerdócio ministerial – de padres e bispos - é monopólio masculino e definitivo: sempre assim foi e sempre assim será.
Compreendo o zelo do Prefeito L. Ladaria. Perante a arremetida teológica, cada vez mais insistente, contra o monopólio masculino, reagiu segundo a sua função policial: lembra que a lei tem de ser respeitada. Mas não lhe pertencia repetir que esta nunca poderá ser alterada. Que um Papa tenha dito isso, obriga a um acurado reexame do que ele entendia por Igreja e da sua concepção dos seus poderes no futuro.
A primeira interrogação é esta: as mulheres não serão Igreja? Não conheço nenhum movimento de mulheres satisfeitas com a sua menoridade eclesial. O sujeito Igreja não será constituído por todas as pessoas baptizadas? Ou será que alguém descobriu na tradição eclesial um Baptismo próprio para homens e outro para mulheres? S. Paulo ficaria indignado com essa loucura[1].
 O Papa Francisco, quando chegou ao Vaticano, já tinha o terreno armadilhado com Cartas Apostólicas semeadas de sentenças definitivas, enunciando posições doutrinais que nenhum outro papa ou concílio poderia modificar. Essa arrogância denuncia um estilo, mas talvez não uma exigência divina.
Na Praça de S. Pedro, na reflexão sobre o sacramento do Crisma, o estilo de Bergoglio é muito diferente: A missão da Igreja no mundo procede através da contribuição de todos aqueles que fazem parte dela. Alguns pensam que na Igreja existem patrões: o Papa, os bispos, os sacerdotes e depois os outros. Não: todos nós somos Igreja! Todos temos a responsabilidade de nos santificarmos uns aos outros e de cuidarmos de todos.
Todos nós somos Igreja! Cada qual tem a sua função, mas, repito, todos nós somos Igreja! Com efeito, devemos pensar na Igreja como num organismo vivo, composto por pessoas que conhecemos e com as quais caminhamos e não como numa realidade abstracta e distante.
A Igreja somos nós que caminhamos, a Igreja somos nós que hoje nos encontramos nesta praça. Nós: esta é a Igreja. A Confirmação vincula à Igreja universal, espalhada pela terra inteira, mas compromete activamente os crismandos na vida da Igreja particular à qual pertencem, tendo como cabeça o Bispo, que é o sucessor dos Apóstolos.
O jogo deste Papa não é o do monopólio. A sua Igreja não é a dos patrões.
2. Estamos no mês dos Santos Populares: a 13, Santo António, a 24, S. João e, a 29, S. Pedro. Esses santos mais antigos são valores seguros. Mesmo numa era secular e num Estado laico, as autarquias compreendem que são os santos da religião popular que marcam as festas do povo. Quem reconfigura esses santos são os seus devotos, sem pedir licença a ninguém. Têm um traço comum. A sua ocupação e preocupação é a vida e a alegria das populações. A saúde e a guarda das pessoas e dos animais, o êxito das sementeiras e das colheitas, a esperança contra os excessos da seca e da chuva, das ameaças da fome, da peste e da guerra. As promessas, as romarias, as peregrinações, o canto ao desafio e as danças dos grupos e das bandas, a partilha dos merendeiros e de uma boa pinga são a linguagem dos céus e da terra, simbolizados no fogo que leva o mundo às alturas, não o fogo dos incêndios.
    Os santos populares e as alminhas eram gente de casa com quem se podia contar na saúde e na doença, na tristeza e na alegria. É gente do lugarejo, é gente da freguesia, é gente do Conselho, é gente do mundo todo. Fez-se uma imagem de santos canonizados, fixos nos altares, depois de processos canónicos, mais ou menos morosos, para apanhar pó. Os Santos Populares foram canonizados pelo povo. Esses estão sempre no activo, venerados ou a quem se pede contas pelos desleixos.
Deus não vive no céu e numa eternidade aborrecida e os que vão para o céu também não se vão aborrecer. Todos activos.
Pouco importa a biografia histórica de cada um desses santos preferidos. Por exemplo, de Sto. António, teólogo e pregador, ficou muito pouco. Sempre com o menino ao colo, existem poucas imagens de Santo António cansado, de menino pela mão. Conta-se tanto com ele que, no dia ou na noite em que não ele atende os seus devotos, é posto de castigo.   
Quem acompanhar as orações a este santo, no seu Mensageiro, tem sempre uma página que lhe é dedicada. O estilo não varia muito: «Meu Santo Amigo, já me salvaste da morte. Agradeço reconhecido. Ajuda a minha família e em especial a minha filha mais velha, tu sabes quem é. Que os médicos que a seguem descubram de que padece, os assuntos da mente e do espírito são complicados. Mas confio em Ti, meu Santo António. As bênçãos de Deus para quem mais precisar. Ámen. José».
3. Os santos populares não se passeiam todos em andores. O Papa Francisco prefere ver a santidade nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e nas mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. Vejo aí a santidade da Igreja militante. É a santidade «ao pé da porta», daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus ou, por outras palavras, a classe média da santidade.
A santidade não consiste em ter visões, recitar orações elevadíssimas ou mostrar cara de santinho. Não é reserva da terceira idade ou de jovens que a esperam sentados. A santidade do jovem é ir em frente, ser desassossegado[2].
Cristo não se reconhece em nenhum jogo de monopólio da santidade. O seu empenhamento é levar todos os seres humanos, seja qual for a sua idade, povo, cultura ou religião à plenitude da vida.
Os santos não são concorrentes, são associados, todos membros do seu corpo místico.
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público 24. 06. 2018


[1] Gl. 3, 23-29
[2] As referências aos santos e à santidade foram inspiradas em Gaudete et Exsultate, do Papa Francisco, 2018 e nas recentes Audiências Gerais de 6 e 13 de Junho.