20 janeiro 2019

Crónicas

   
P / INFO:  
Quando perder é ganhar, de Frei Bento Domingues,  Terra Justa: Causas e Valores da Humanidade, do Padre Anselmo Borges, Os gestos de cada dia, do Padre José Tolentino Mendonça & O vinho da alegria do Padre Vítor Gonçalves

QUANDO PERDER É GANHAR
       Frei Bento Domingues, O.P.

1. O Sábado é uma instituição da religião bíblica e um grande marco civilizacional. O ser humano não pode viver só para trabalhar. Precisa de ócio, de expressões culturais, lúdicas e cultuais para que o próprio trabalho possa ter sentido criador e não ser apenas uma resignação alienante. A polémica constante de Jesus com as observâncias sabáticas, referida pelos quatro Evangelhos, não era contra essa admirável instituição, mas por ter sido atraiçoado o seu espírito. A instituição da liberdade transformada numa prisão. Daí o protesto de Jesus: o Sábado é para o ser humano e não o ser humano para o Sábado. Enunciou assim um princípio universal acerca da finalidade de todas as instituições, o qual deve vigiar sempre o seu uso e as suas reformas.
Hoje, a quarta revolução industrial, as novas tecnologias, as consequências de algumas formas de globalização e a incerteza de tudo obrigam a alterar o debate sobre o trabalho.    
No calendário cristão, o Domingo não pertence ao fim da semana, mas ao seu começo, celebrando a renovação da esperança, a virtude da não desistência. Como o nome indica, nasceu da vitória de Jesus sobre a morte, proclamado por Deus, Senhor da vida. É o dia em que a Igreja de todos os tempos e lugares, povos e culturas, convoca os cristãos para a festa da alegria.
Já foram adiantadas muitas explicações para a grande baixa na frequência da celebração semanal da Eucaristia, sobretudo na Europa. Para além daquilo que as ciências humanas podem estudar, parece-me que as lideranças católicas esqueceram que, no momento em que os chamados “mandamentos da Igreja” perderam a força de uma convicção interior assumida, era necessária uma pastoral baseada no princípio do próprio Jesus: será que as regras e as formas destas instituições estavam aptas a servir a via cristã num contexto cultural inteiramente novo?
Sem a cultura da criatividade das comunidades, a não confundir com o culto da banalidade, será sempre curta qualquer reforma litúrgica. Ainda há muito pouco tempo, alguém me observou que não se pode continuar a dizer solenemente: meus irmãos, estamos aqui para celebrar a grande festa da nossa fé e, depois, inaugurar apenas uma grande seca. Textos, muitas vezes belos, que morrem ao ser mal lidos, cânticos sem alcance musical envolvente, pessoas sem corpo, estacas que se movimentam apenas para estender a mão em sinal de paz e para receberem a hóstia santa. Entram na Igreja sem se conhecerem e saem só com as relações que já tinham! Qual o caminho, para se perceber que a celebração é um acontecimento de revisão cristã da semana anterior e de relançamento da esperança activa, para uma nova semana mais criativa?
2. A selecção de textos bíblicos para celebrar este Domingo são muito belos, mas encerram vários programas de acção. Isaías não suporta que Jerusalém não seja a festa da paz, baseada na justiça[i]. S. Paulo[ii] obriga-nos, como Igreja que somos, a fazer uma pergunta: como dar, hoje, voz e vez aos que frequentam os seus espaços de culto e de cultura para que possam dar o contributo do seu tempo e das suas competências, não só para reconfigurar as comunidades cristãs como formas de acolhimento, mas também como provocação a saírem para reconfigurar a sociedade?
S. Paulo tem uma concepção da diversidade de dons espirituais na qual nem a diversidade atropela a unidade, nem a unidade suprime a diversidade. Ao dizer isto não está a enunciar um teorema abstracto. Está confrontado com um mundo de conflitos, mas prefere essa agitação a uma paz podre. Não tem o culto do conflito pelo conflito, mas o de transformar a pujança espiritual das comunidades, canalizando-a para todas as formas de serviços e neutralizar as tentações de dominação. Não há carisma do Espírito Santo para abafar os outros. Essa forma de ser Igreja é o contrário de uma administração central com funcionários que dão contas a um patrão. O espírito de Cristo tem outro regime: quem desejar ser o primeiro, seja o primeiro a servir.
Este Domingo é conhecido como o das Bodas de Caná da Galileia. Apresenta uma mulher aflita com a aflição de todos. É uma cena exclusiva do Evangelho de S. João[iii], que tem dado lugar a muitas interpretações e conjecturas. Não me preocupa muito saber se foi um acontecimento histórico tal como vem narrado ou se é um conto exemplar, voz de uma realidade ainda mais bela, profunda e complexa.
Parece ser uma parábola a falar de outra a propósito de um casamento. À primeira vista, a mãe de Jesus foi convidada e Jesus levou com ele os discípulos. A Mãe de Jesus dá-se conta de uma vergonha que se avizinha para o casal. O vinho esgotou-se antes de a festa acabar. Ela não suporta que o casal possa passar por essa situação humilhante e avisa o filho que a sacode de forma bem ríspida. Ela conhece-o e limita-se a recomendar aos serventes que façam de conta que é ele o responsável pela festa.
É conhecido o resultado da intervenção de Jesus. Para espanto de todos, a água foi transformada em abundante vinho e do melhor.
Recomento a leitura do próprio texto na íntegra. A sua beleza enigmática o exige.
Esta história devia acabar aqui, mas o Evangelho diz que foi apenas o começo dos sinais de transformação em que Jesus se iniciou.
  3. Muitos leitores desta narrativa podem não se aperceber de um outro milagre ou sinal, como lhe chama o evangelista, dentro do já referido: a alteração das relações entre mãe e filho. Até por uma razão simples. O texto lido na missa acaba antes de terminar. Se no começo desta história o protagonismo pertence à Mãe de Jesus, depois ela passa a segundo plano e desaparece: Depois disso, desceu a Cafarnaum, Ele, a sua Mãe, os seus irmãos e os seus discípulos e ali ficaram apenas alguns dias[iv].
É espantoso! O 4º Evangelho nunca mais fala da Mãe de Jesus. Só reaparece quase no fim: perto da cruz de Jesus permaneciam de pé a sua Mãe, a irmã da sua Mãe, Maria, mulher de Clopas e Maria Madalena. Jesus, vendo a sua Mãe e, perto dela, o discípulo a quem amava, disse à sua Mãe: Mulher, eis aí o teu filho! Depois disse ao discípulo: eis a tua mãe! E a partir dessa hora, o discípulo recebeu-a na sua casa[v].
Quem perde ganha. Consta que é uma lei do Novo Testamento. A Mãe de Jesus teve de O deixar ir fazer família com quem não era da família. Acabou por ser ela a Mãe da nova família de Jesus.




[i] Is 62, 1-5
[ii] 1Cor 12, 4-11
[iii] Jo 2, 1-11
[iv] Jo 2, 17
[v] Jo 19, 25-27

in Público 20. 01. 2019
www.publico.pt/2019/01/20/sociedade/opiniao/perder-ganhar-1858425

● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●
Terra Justa: Causas e Valores da Humanidade

Anselmo Borges

  Também fora de Lisboa ou do Porto, há iniciativas de relevância mundial, que merecem a atenção de todos, também como exemplo.
Hoje, quero felicitar, muito sinceramente, Fafe, na pessoa do seu ilustre Presidente, Raul Cunha. Porque Fafe já não é símbolo da "justiça de Fafe". É símbolo da justiça, sim, mas da Terra Justa: Encontro internacional de Causas e Valores da Humanidade. Em Fafe, com inexcedível força e dignidade, celebra-se e combate-se pela cidadania universal, na liberdade, na justiça e na paz. Concretamente através dessa iniciativa anual, por onde têm passado grande figuras de renome, como António Guterres, o cardeal Maradiaga, Manuela Eanes, Eduardo Lourenço, Leonor Beleza, Artur Santos Silva... Ali têm sido homenageadas grandes instituições de cultura e solidariedade: a Fundação Calouste Gulbenkian; a Fundação António Champalimaud; o IAC (Instituto de Apoio à Criança); a Agenzia Habeshia, uma ONG fundamental para salvar vidas de refugiados; a UNICEF, uma agência das Nações Unidas, essencial na defesa dos direitos das crianças, tantas vezes espezinhados; Talitha Kum, a organização internacional que trabalha em rede contra o tráfico de pessoas…
Deixo aí algumas chaves de leitura deste prestigiado Encontro Internacional.
1. Terra Justa. Aí está uma utopia. Mas qual é a função da utopia? Ela tem duas funções principais: constatar o ainda não do que deve ser e, ao mesmo tempo, obrigar a lutar pela transformação do presente a caminho de um futuro com a realização desse dever-ser.
2. Porquê? Porque se trata do imperativo de Causas e Valores da Humanidade na Terra. E a Terra há só uma, uma só Terra: a Terra da Humanidade. Há 13.700 milhões de anos foi o Big Bang. A Terra terá uns 5.000 milhões de anos, a vida apareceu há uns 4.000 milhões de anos e, depois, a evolução continuou e há uns 150 mil anos aparecemos nós, o Homo sapiens sapiens — acrescento sempre: e demens demens (sapiente sapiente e demente demente). De qualquer modo, é em nós, seres humanos, auto-conscientes, que este gigantesco processo da evolução sabe de si e toma consciência de si.
O ser humano será sempre objecto de espanto para si próprio. Talvez tenha sido Pascal quem de modo mais pertinente e lúcido “definiu” a condição humana, ao escrever que se situa algures entre “o nada e o infinito” (le néant et l’infini). Por isso, o ser humano é constitutivamente o ser da pergunta e, de pergunta em pergunta, pergunta ao Infinito pelo Infinito, isto é, de um modo ou outro, por Deus. É nesta sua condição que eu vejo o fundamento da dignidade humana. De facto, se o ser humano, finito, frágil, débil, mortal, pergunta ao Infinito pelo Infinito, é porque tem algo de infinito nele e, por isso, não é da ordem das coisas, porque é fim. Na verdade, o que é que há para lá do Infinito? A pessoa humana é fim e não meio. Como escreveu Kant, as coisas são meios para outra coisa e, assim, têm um preço; o ser humano é fim e não meio e, por isso, não tem preço, mas dignidade.
Aí está, pois, a resposta para a pergunta: Porquê o combate pela Terra Justa? Porque é o combate pela dignidade de todas as pessoas.
3. Todos os seres humanos são dignos e a Terra é de todos. E aqui coloca-se para todos um dos problemas maiores: a questão da ecologia, do meio ambiente. E entra a política. Aristóteles definiu o ser humano como “animal político”. Porquê? Porque, ao contrário dos outros animais, que produzem sons, exprimindo prazer ou desprazer, o Homem tem linguagem duplamente articulada, pela qual debate o bom e o mau, o justo e o injusto, o digno e o indigno.
Já se tornou claro que hoje, tomando consciência de que há uma só Terra e uma só Humanidade, sendo todos igualmente dignos, a política tem de ser global, tem de ter o horizonte de um mundo global. Só há, portanto, futuro com uma Governança Global.
4. O ser humano é como uma árvore: somos enraizados, temos um lugar de nascimento, uma história única, estamos situados, mas, ao mesmo tempo, estamos abertos, ilimitadamente abertos aos outros, a todos os outros, a possibilidades sem fim. Nesta abertura, mostra-se que somos constitutivamente em relação. Fazemo-nos uns com os outros. A nossa relação é local e global, nesse enraizamento de uma situação concreta e única e numa abertura sem fim.
5. Característica essencial do ser humano é a neotenia, isto é, nascemos prematuros, sendo esta a condição de possibilidade de sermos o que somos: humanos. Enquanto os outros animais já nascem feitos, o ser humano nasce por fazer. Então, qual é a sua missão e tarefa? Fazer-se a si mesmo. Fazendo o que fazemos, estamos sempre a fazer-nos a nós próprios, de tal modo que no fim pode resultar uma obra de arte ou, permita-se a expressão, uma porcaria.
Como devemos fazer-nos? Uma vez que somos livres — auto-possuímo-nos e somos responsáveis —, devemos fazer-nos bem. Concretamente, fazermo-nos com a interligação da bondade e da razão. De facto, a bondade sozinha não abre horizontes e pode não abrir caminhos; a razão sozinha pode. Concretamente, fazermo-nos com a interligação da bondade e da razão. De facto, a bondade sozinha não abre horizontes e pode não abrir caminhos; a razão sozinha pode ser cruel. Da conexão da razão e da bondade resultará certamente uma Humanidade boa, justa, livre e a viver em paz.
6. Já não há Deus? Deus, ao contrário do que se pensa e diz, existe, o que se passa é que, como reflectiu o filósofo G. Agamben, tornou-se Dinheiro. E o ídolo Dinheiro é o valor que mede todos os outros valores, afirmando-se acima deles. Por isso, o Papa Francisco não se cansa de repetir, na linha do que disse Jesus, que não é possível servir a Deus, Pai-Mãe de todos os homens e mulheres, interessado no bem de todos, e servir o  enquanto o novo único deus. A financeirização especulativa da economia “mata” e faz um número incontável de vítimas. A política tem, pois, de ser acompanhada da ética. E, mais uma vez, precisamos urgentemente de uma Governança Global (não digo um Governo Mundial). De facto, problema maior hoje é que os mercados são globais, mas a política é local, nacional, quando muito, regional. Como se pode regular assim os mercados?
7. Last but not least, é cada vez mais urgente o diálogo inter-religioso, como desde há anos não se cansa de sublinhar o célebre teólogo Hans Küng, autor principal da “Declaração para uma Ética Mundial”, aprovada pelo Parlamento Mundial das Religiões em Chicago, em 1993: “Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do nosso planeta sem um ethos global, um ethos mundial.”
É claro: sem um novo ethos, isto é, sem uma nova atitude ética, concretamente, sem justiça social global, continuará a violência, a guerra, e não haverá paz.
in DN 19.01.2019
www.dn.pt/edicao-do-dia/20-jan-2019/interior/terra-justa-causas-e-valores-da-humanidade--10461080.html?target=conteudo_fechado


● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●
QUE COISA SÃO AS NUVENS
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

OS GESTOS DE CADA DIA
PARA PERCEBER QUANTA GRANDEZA SE ALOJA, AFINAL, NAQUILO QUE NOS PARECE APENAS EXPRESSÃO DE VIDA MÍNIMA

Deveríamos, alguma vez, fazer o elogio dos pequenos gestos de cada dia e perceber quanta grandeza se aloja, afinal, naquilo que nos parece apenas expressão de vida mínima. Sim, são gestos humildes, para mais repetidos como uma elementar rotina que, de tão básica e por vezes tão monótona, nem merece bem ser relatada. Diríamos que a vida começa depois, que esse cúmulo de gestos é apenas a preparação para a vida que aí vem. A maior parte de nós inicia o dia acendendo uma luz, abrindo uma janela, fazendo um cumprimento ou uma oração, cuidando de alguém, olhando a paisagem de sempre (que ao amanhecer, na verdade, parece que nos olha a nós), regando uma planta, passeando um cão, iluminando o ecrã do iPad à procura do mundo externo, sentindo o odor do café, controlando o tempo pelo relógio que está colocado sempre no mesmo lugar. À sua maneira são ritos que nos ajudam a modelar o quotidiano, e que, na sua serena simplicidade, o fortalecem e sustentam. São ritos misturados com o espaço da casa e da intimidade, ritos primeiros capazes de responder às nossas necessidades e fazê-lo com uma respiração silenciosa. Deveríamos, alguma vez, fazer o seu elogio: demorarmo-nos a contemplá-los, refletindo sobre o seu significado profundo e de como eles — porventura mais até do que outros indicadores ostensivos e relevantes — escrevem o nosso romance biográfico, contam a nossa história.
Recordei-me disto ao ler sobre o projeto artístico (mas também social e político, mas também humano) que a coreógrafa francesa Nadia Vadori-Gauthier vem realizando desde 14 de janeiro de 2015, uma semana depois do surto dos atentados de Paris. Todos os dias sem exceção, onde quer que se encontre, Nadia interrompe a sua atividade, coloca a câmara fotográfica num tripé e, por um minuto, dança. O seu projeto tomou um nome que parte dessa literalidade: Une minute de danse par jour. E escolheu para mote uma frase de Friedrich Nietzsche: “Consideremos perdido aquele dia ao longo do qual não dançámos, pelo menos uma vez.”
São ritos misturados com o espaço da casa e da intimidade, ritos primeiros capazes de responder às nossas necessidades e fazê-lo com uma respiração silenciosa
Que diferença faz um minuto de dança? Aparentemente nenhuma. Não altera o mundo, a sua tensa forma ofegante, a sua férrea marcha. E, contudo, a coreógrafa crê que repetindo com deliberada fidelidade o mesmo gesto se pode alcançar o efeito da gota de água de que fala um antigo provérbio chinês: “Gota após gota, a água por fim atravessará a pedra.” Por isso, explica: “Quis agir comprometendo-me eu própria com uma ação quotidiana pequena, mas real e repetida, um trabalho que se desenvolvesse como um poema em ato, entrando eu verdadeiramente em jogo... Danço cada dia, sem outros apetrechos que não os da minha sensibilidade, para não ceder à anestesia, ao medo e ao imobilismo, criando relação com os outros e com o ambiente.”
O primeiro curso de Roland Barthes no Colégio de França tinha este título, “Como viver em comum”, e foi surpreendentemente em grande parte dedicado ao modo como vivem os monges. Barthes era muito crítico quanto à possibilidade ou à oportunidade de modelos comunitários, mas o modo de viver monástico parecia-lhe um horizonte possível de vida partilhada, exatamente porque nele acontece como que uma convergência de opostos. O espírito da comunidade alimenta-se da idiorritmia, isto é, do ritmo próprio de cada um, de ritmos extremamente pessoais e tão invisíveis e singulares como o modo de cada pessoa respirar. Creio que a vida comum se reforça quando prestamos atenção a essas humildes unidades de vida mínima, que contam o risco e o fulgor que a cada um quotidianamente cabe sentir. É verdade: deveríamos, alguma vez, fazer o elogio dos pequenos gestos de cada dia.
in Expresso 19.01.2019
https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2412/html/revista-e/que-coisas-sao-as-nuvens/Os-gestos-de-cada-dia

● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●
À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves
DOMINGO II COMUM Ano C
“Tu guardaste o vinho bom até agora.”
Jo 2, 10

O vinho da alegria
O que Jesus certamente não disse em Caná da Galileia foi um sermão sobre o casamento, ou alguns conselhos aos esposos para a sua vida conjugal. É surpreendente que S. João nos conte que o primeiro “sinal” de Jesus (e não lhe chama milagre) foi a dádiva de mais de 600 litros de vinho (!), numas bodas, onde estava com sua Mãe e os discípulos! Um gesto pouco religioso e certamente criticável por alguns guardiões do sagrado e da decência: “Mais vinho numa festa? Só pode atrair desgraças!” Mas se este é o vinho novo da alegria, o que ele traz é graça abundante, que renova a religião triste e sombria das purificações, das obrigações e dos legalismos! É a festa da vida e do amor abundante de Deus na nossa vida quotidiana que Jesus exalta.
São inúmeras as referências bíblicas a bodas e a vinho. O próprio Deus se foi revelando como Esposo que desposa Israel com um amor incondicional, apesar das suas infidelidades. Não há festa nem alegria sem vinho saboroso, e os profetas anunciavam que seria abundante no tempo da vinda do Messias. S. João escolheu sete “sinais” de Jesus para nos convidar a ir mais fundo no conhecimento de Jesus e da sua missão. Como podia ficar indiferente a este primeiro? No coração da maior festa da vida humana, que celebra o amor como dádiva mútua e total, os esposos e convidados são o povo amado por Deus, que já não conhecia o seu amor, preso numa religião de normas e preceitos, de purificações exteriores (daí tantas talhas de água!), sem alegria nem confiança. As palavras atentas da Mãe de Jesus, “Não têm vinho!” e “Fazei o que Ele vos disser!” são as únicas que ouviremos da sua boca em todo o evangelho de João. Ela é a Mulher, símbolo do Povo de Deus, ícone da Igreja, atenta ao mais importante, que nos convida a unir-nos aos gestos novos e vivificadores do seu Filho. O chefe de mesa assemelha-se às autoridades religiosas e políticas, daquele e de todos os tempos, admirado por algo tão belo e bom, mas indiferente em procurar “donde” viera aquele vinho. Os servos e os discípulos são os únicos que sabem donde veio o vinho bom, e acreditam em Jesus.
Estas bodas anteciparam a “hora” de Jesus: a da sua (que Ele fez nossa) Páscoa. Foi aí que o Amor se entregou plenamente, o “Sim” oferecido por Deus à Esposa-Humanidade. Princípio de uma união profunda e transformadora da vida, como um poema que Sebastião da Gama escreveu: “Aquele ‘sim’ de nós dois, Senhor, / foi tão sincero, / que agora, sempre que eu digo ‘quero’ / já não sou só eu que digo, / -somos nós.” E se vivemos no tempo das bodas eternas, como se vê a festa de amor e esperança em nós? Que imagem de Deus aparece em algumas formas religiosas de observâncias exteriores, de proibições e normas, de ritualismos vazios, distantes da vida e dos problemas dos homens? O “vinho” que “bebemos” e “distribuímos” será o da alegria de Jesus?
in Voz da Verdade 20.01.2019
http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=7875&cont_=ver2


13 janeiro 2019

   P / INFO: Crónicas: Ano novo para a religião? A Igreja e o sexo, A esperança digna de espanto, Baptizado, hoje & Pope's preacher goes back to basics in talks to bishops e Até onde se pode debater na Igreja?
ANO NOVO PARA A RELIGIÃO?
Frei Bento Domingues, O.P.
A cooperação entre ciência, ética, religião e estética pode criar um clima espiritual que nos defende de todos os simplismos, irmãos de todos os fundamentalismos
1. O ser humano é um animal indeciso. No animal, os instintos e o mundo ao qual estão adaptados, ou são adaptados, formam um todo. Como escreveu Roger Garaudy[i], o animal é um feixe de respostas. O ser humano é um feixe de perguntas. Não se adapta apenas ao meio, transforma-o. Umas vezes para bem outras para mal.
 Nunca está em equilíbrio perfeito com a natureza. A lógica interna do seu mundo em crescimento, construído e governado pela ciência e pela técnica, leva-nos a pensar e agir como se todos os nossos problemas pudessem ser resolvidos pela ciência e pela técnica. Não é verdade. Mas só a estupidez pode dizer mal da investigação científica e das transformações tecnológicas. A sabedoria mais elementar descobre as suas espantosas vantagens e os seus quotidianos limites. É miopia esquecer que nenhuma actividade clarividente pode dispensar a interrogação filosófica, as linguagens da beleza e as exigências da ética.
Não é impossível descobrir, por outro lado, que não estamos apenas em face de problemas e enigmas que mais cedo ou mais tarde poderão encontrar soluções. Em todos os tempos e lugares há testemunhos de pessoas que despertaram para o mistério sem nome que resiste a todas definições e classificações, um não sei quê, uma noite luminosa que tudo envolve e sem a qual tudo se banaliza ou enlouquece. O fundamental na atitude religiosa é o espírito de atenção, de releitura constante do mistério do mundo. Isto nada tem a ver com o irracionalismo, pai da violência, seja em que domínio for. A própria religião, sem a vigilância ética, pode tornar-se uma abominação.
Dada a complexidade de tudo o que ficou dito, parece-me que a cooperação entre ciência, ética, religião e estética pode criar um clima espiritual que nos defende de todos os simplismos, irmãos de todos os fundamentalismos. Como diz o físico Antonio Rañada os fundamentalistas religiosos e os ateus militantes têm algo em comum: acreditam que a geografia do mundo cabe toda num só mapa, seja na interpretação intransigente de um livro sagrado ou nos dados de uma ciência exclusivista e totalizadora.
2. Na organização do calendário litúrgico, este Domingo celebra o Baptismo de Jesus banhado num clima de enigmas. Há razões para julgar que lhe assiste alguma base histórica, apresentada numa interpretação de continuidade e ruptura com o profetismo do Antigo Testamento.
 Não convinha nada que Jesus fosse baptizado por João que tinha discípulos que sobreviveram ao seu assassinato e ao de Jesus. Estes poderiam sempre dizer aos seguidores de Cristo: foi o nosso mestre que baptizou o vosso e não o contrário. De facto, nos diferentes Evangelhos existe uma vontade de mostrar que Jesus exaltou a figura de João Baptista e este a de mostrar que não era ele o messias. Apenas lhe preparava o caminho. A narrativa de S. Lucas é comovente. Por um lado, faz de Jesus um discípulo de João, por outro, mostra a ruptura com o seu antigo mestre[ii].
O que terá acontecido? João era o símbolo da necessidade de reformar a religião de Israel, mas ainda na linha austera dos profetas. A sua pregação não se afastava de um rigor moralista carregado de ameaças. Jesus teve uma experiência espiritual que o obrigou a romper com esse mundo. Diz o texto que Jesus baptizado entrou em oração. O resultado exprime a própria personalidade do Nazareno: Ele é a terra aberta ao céu e o céu aberto à terra, aberto a todos os mundos. O Espírito de Deus, ao banhar o seu espírito, declara que Ele é um filho muito amado. Jesus sai dessa experiência com uma missão: mostrar que toda a gente, a começar pela mais desclassificada, sob o ponto de vista religioso, moral e material, é amada por Deus e chamada a viver do mesmo Espírito: Espírito de Deus, Espírito de Cristo, Espírito de renovação da Igreja, Espírito de transformação do mundo, numa imensa pluralidade de carismas e de caminhos. É um Espírito que solicita a nossa inteligência e a nossa vontade, mas que nunca se impõe à nossa liberdade.
3. Com este novo ano surgiu um novo jornal online. Chama-se 7Margens. Pretende preencher uma lacuna. António Marujo e Jorge Wemans explicam o projecto: A partir de hoje tem à sua disposição informação, notícias, alertas, opinião e comentário sobre as mais diversas buscas espirituais que marcam o nosso tempo, desde as acolhidas e promovidas pelas religiões estabelecidas, até àquelas sem nome protagonizadas por pessoas de todas as formações.
Em setemargens.com encontrará tudo isto, editado e orientado por critérios jornalísticos. Independente de qualquer instituição, religiosa ou outra, setemargens.com rege-se por princípios profissionais e tem como objetivo tratar informação relativa ao fenómeno religioso, entendido na maior abrangência possível do conceito. Deste ponto de vista, é um projeto inédito no mundo que fala português.
A entrevista a Pedro Abrunhosa a propósito do seu novo disco, Espiritual, foi uma boa escolha. Recorto uma passagem que tem a ver com o Espírito deste Domingo e desta crónica: “ Vivem-se momentos de ausência de mistério, momentos de pura fisicalidade, de aparência, muita aparência, de “eu sou o que tenho”, “eu sou o que mostro que tenho”. Às vezes, nem é o que tenho, se eu mostrar as pessoas vão deduzir que tenho. Logo, sou aquilo que mostro. E isso faz com que se viva numa feira de vaidade, que me faz lembrar muito os vendilhões do templo, faz-me lembrar muito este abastardamento dos valores humanos, que é uma das falências da decadência. Os impérios começam a decair exactamente por isso, por uma certa febre da vaidade da aparência”.
Não posso esconder a alegria que este acontecimento me provocou. Sem pretender constituir uma alternativa ao que existe na Igreja, vai certamente viajar por paisagens que ela ou ignora ou faz que ignora. Serão novos olhos a ver o que a cegueira dos grandes meios de comunicação insiste em ignorar.
Outra carência do nosso catolicismo é a falta de espírito de interrogação filosófica, sem a qual a teologia adormece. Em Coimbra, lembrando José Dias da Silva, o Instituto Universitário Justiça e Paz vai revisitar, a várias vozes, a Doutrina Social da Igreja e as suas incidências na intervenção política.
Em Lisboa, na Capela do Rato, vários nomes conhecidos da cultura portuguesa vão interrogar a Filosofia, a Literatura, a Espiritualidade.
Não sou jornalista, mas desejo que este novo ano nos traga muitas e boas surpresas.


[i] Cf Palavra de Homem, D Quixote, Lisboa, 1975
[ii] Lc 3, 15-22

in Público 13. 01. 2019        
www.publico.pt/2019/01/13/sociedade/opiniao/ano-novo-religiao-1857443

A A A A A A A A A A A A

A Igreja e o sexo
Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
                                                         
Na sua obsessão pelo sexo, a Igreja não pode reclamar-se de Jesus. De facto, segundo os Evangelhos, Jesus raramente falou de sexo e, quando o fez, foi provocado por perguntas que lhe fizeram. E, aí, apelou para o amor, a fidelidade no casal e a igualdade do homem e da mulher. Apaixonado pela felicidade das pessoas, participou em festas de casamento e até fez com que aparecesse o vinho que faltava: 600 litros! Ele próprio celibatário, não impôs o celibato: São Pedro, por exemplo, era casado, e o celibato obrigatório para os padres na Igreja do Ocidente só começou a impor-se no século XI, com o Papa Gregório VII.
O que envenenou a relação da Igreja com a sexualidade foi, essencialmente, a influência perniciosa da gnose, que, contra o cristianismo autêntico, desprezava a matéria e o corpo. Depois, Santo Agostinho, a partir de uma experiência pessoal negativa da sexualidade e de uma exegese errada – ele seguiu a tradução latina de um passo célebre da Carta de São Paulo aos Romanos, capítulo 5, versículo 12: Adão, “no qual” todos pecaram, quando o original grego diz “porque” todos pecaram --, formulou, como solução para o problema do mal, a doutrina do pecado original. E a questão é que esse pecado foi entendido não como o primeiro de todos os pecados – todos os seres  humanos são pecadores --, mas como um pecado herdado de Adão e transmitido por geração, portanto, no acto sexual.  Finalmente, com a reforma gregoriana, foi-se erguendo a tríplice coluna sobre que assenta, segundo Hans Küng, o paradigma católico-romano: papismo (poder centrado no Papa), celibatismo (celibato obrigatório por lei para os padres), marianismo (devoção a Nossa Senhora como compensação).
Como se determinou que tudo o que se refere ao sexo é por princípio matéria grave e como, por outro lado, não há ninguém que não tenha pelo menos pensamentos relacionados com o sexo e só o sacerdote ou o bispo podem perdoar os pecados, a confissão acabou por tornar-se não um espaço de reconciliação e paz, mas tantas vezes de opressão, e raramente uma instituição acabou por deter tanto poder sobre as consciências, criando infindos complexos e fardos de culpabilização. Quando se lê os manuais dos confessores e todos aqueles interrogatórios inquisitoriais, quase reduzidos ao campo sexual, percebe-se que muitos tenham começado a abandonar a Igreja por causa da confissão, que consideravam ofensiva dos direitos humanos.
No universo sexual, que, como escreve Miguel Oliveira da Silva, continua a ser “um imenso, incómodo e multifacetado mistério”, vale tudo? É claro que não, reconhecendo o catedrático de Ética Médica na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa que “a sociedade ocidental vive um profundo e grave vazio ético em matéria de sexualidade, que a múltipla oferta de uma sexualidade por vezes devassada sem pudor na praça pública e passível de excessos não consegue minimamente preencher – ao contrário”. Chegou-se à degradação boçal da prostituição nos e dos média, digo eu. Uma sexualidade degradada e desumanizante, na busca exclusiva do prazer venéreo e utilizando o outro como simples meio!
De qualquer forma, a Igreja precisa de reconciliar-se com o mundo e a ciência, o corpo e a sexualidade. Mas enquanto se mantiver a lei do celibato obrigatório não estará todo o discurso eclesiástico sobre o tema debaixo do fogo da suspeita? O Cardeal Carlo Martini, exegeta bíblico eminente e antigo arcebispo de Milão, interrogou precisamente esta lei do celibato obrigatório e, depois de considerar os estragos da encíclica Humanae Vitae e que “a solidão da decisão” por parte do Papa Paulo VI, depois de ter retirado a discussão do tema aos padres conciliares, não foi certamente “um pressuposto favorável” para tratar a questão da sexualidade e da família, reconheceu que os anos de distância da sua publicação “nos poderiam permitir um novo olhar”. “É um sinal de grandeza e auto-consciência alguém confessar os seus erros e visão limitada.” Assim, Martini pensava que um novo Papa “talvez não retire a encíclica, mas pode escrever uma nova e ir mais longe. É legítimo o  desejo de que o Magistério diga algo de positivo sobre o tema da sexualidade.” Muitos esperam uma palavra de orientação sobre o corpo, o casamento e a família. “Procuramos um caminho para, de modo fiável, falar sobre o casamento, o controlo da natalidade, a procriação medicamente assistida, a contracepção.”
Sobre estes e outros temas é o que tem procurado fazer o Papa Francisco. Leia-se, por exemplo, a exortação Amoris Laetitia, “A Alegria do Amor”, precisamente sobre uma nova visão da família e da sexualidade, que, para ser verdadeiramente humana, tem de envolver o biológico, o afectivo, a ternura, o amor, o espiritual.
E chamo a atenção para a elegância com que tratou o tema num diálogo recente com um grupo de jovens da Diocese de Grenoble. Duas jovens interrogaram-no precisamente sobre a sexualidade, perguntando concretamente se o facto de pertencerem à primeira geração que ousa falar abertamente destes temas não explica as incompreensões e o silêncio embaraçado dos mais velhos. Francisco respondeu: “A sexualidade, o sexo, é um presente de Deus. Não é de modo nenhum um tabu. É um dom de Deus, um presente que o Senhor nos dá. Tem dois objectivos: amar-se e gerar vida. É uma paixão, e um amor apaixonado. O verdadeiro amor é apaixonado. O amor entre um homem e uma mulher, quando é apaixonado, leva-te a dar a vida para sempre e a dá-la com o corpo e a alma”, declarou o Papa com força.
“Quando Deus criou o homem e a mulher, a Bíblia diz que os dois são a imagem e a semelhança de Deus. Os dois, não apenas Adão ou só Eva, mas os dois em conjunto”, insistiu. “E Jesus vai mais além e diz: o homem e também a mulher deixarão o seu pai e a sua mãe e unir-se-ão e serão... uma só pessoa?... uma só identidade?... Uma só fé no casamento?... Uma só carne! Esta é a grandeza da sexualidade. E é assim que se deve falar da sexualidade. E deve-se viver a sexualidade assim, nesta dimensão do amor entre homem e mulher por toda a vida. É verdade que as nossas fraquezas, as nossas quedas espirituais, nos levam a usar a sexualidade fora deste caminho tão belo do amor entre o homem e a mulher. Mas são quedas, como todos os pecados. A mentira, a cólera são pecados capitais, mas isso não é a sexualidade do amor: é a sexualidade coisificada, desligada do amor e utilizada para o divertimento”, explicou.
Francisco sublinhou ainda o paradoxo que consiste no facto de a mais bela dimensão da criação divina ser também “a mais atacada pela mundanidade, pelo espírito do mal”. A pornografia, por exemplo, depende de uma “indústria da sexualidade desligada do amor”. “É uma degeneração em relação ao nível em que Deus a colocou, e faz-se muito dinheiro com este comércio. Mas a sexualidade é grande: cultivai a vossa dimensão sexual, a vossa identidade sexual. Cultivai-a bem. E preparai-a para o amor, para inseri-la neste amor que vos acompanhará durante toda a vida”.
Por outro lado, mesmo se o Documento final do recente Sínodo dos bispos sobre os jovens e com os jovens ficou aquém das expectativas, no “Instrumentum laboris”, texto de preparação e de base para o debate, reconhecia-se que “muitos jovens católicos não seguem as indicações da moral sexual da Igreja”, e que há “temas controversos” como os anticonceptivos, a homossexualidade, o aborto, o casamento ou a questão de género. O texto, apresentado pelo cardeal Baldisseri, aceitava que é preciso debater “abertamente e sem preconceitos”  esses e outros temas, do desemprego às novas tecnologias, passando pelos desafios das migrações, o trabalho precário, as drogas, o papel da mulher. Entretanto, nesse Sínodo, houve vozes como a do bispo auxiliar de Lyon, Emmanuel Gobilliard, que abriu a porta do Sínodo aos LGBT: “Quem sou eu para excluí-los?” Francisco disse sempre que o problema não é a homossexualidade, mas “o lóbi gay”, como outros lóbis. Mais recentemente, o cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique e Presidente da Conferência Episcopal Alemã, reclamou uma revisão do celibato obrigatório: “Estou convencido de que o grande impulso de renovação do Vaticano II não está a avançar nem a ser entendido na sua profundidade.”
Entretanto, a Igreja carrega com essa chaga que é a pedofilia por parte do clero. O Papa Francisco está disposto a usar mão firme nesse combate. No discurso natalício à Cúria, depois de ter reafirmado que mesmo um só caso de abuso seria “uma monstruosidade por si mesmo”, declarou: “Aos que abusam dos menores quero dizer-lhes: convertei-vos e entregai-vos à justiça humana, e preparai-vos para a justiça divina”. Agradeceu aos jornalistas “que procuraram desmascarar estes lobos e dar voz às vítimas”. A Igreja levará à justiça “seja quem for” que tenha cometido abusos. E convocou os Presidentes das Conferências Episcopais do mundo inteiro para uma reunião anti-abusos, que enfrente esta chaga dolorosíssima. Como disse o director editorial do Dicastério (Ministério) para a Comunicação do Vaticano, Andrea Tornelli: “O objectivo é que todos tenham absolutamente claro o que se deve fazer (e não fazer) frente aos abusos”. Trata-se de “transformar os erros cometidos em oportunidades para erradicar” a praga dos abusos “não só do corpo da Igreja, mas também da sociedade”.
in DN 12.01.2019

A A A A A A A A A A A A

A esperança digna de espanto
P. José Tolentino Mendonça

NÃO PODEMOS VIVER SEM ESPERANÇA, MAS ESTA NÃO É UMA TAREFA ESTÁVEL E FÁCIL. MUITO PELO CONTRÁRIO

Os gregos descreviam a experiência humana partindo de três dimensões. Trata-se de uma visão ancestral, mas que podemos acompanhar ainda. A primeira dimensão seria a da memória (mnemis), que fornece a base primária daquele conhecimento que torna viável a vida. Sem a memória teríamos de reaprender tudo, a cada instante. É por ela, por exemplo, que dormimos e, no dia seguinte, somos capazes de andar, capazes de comer, de reconhecer o mundo a nosso lado, de saber quem somos. Se a todo o momento tivéssemos de perguntar, “como se caminha?”, “como se fala?”, “como se ama?”, a vida emergiria lentíssima e, certamente, muito diversa. Outra dimensão fundamental para os gregos seria a aesthesis, isto é, a perceção sensível do presente. A nossa experiência concretiza-se numa prática sensorial: podemos ver, ouvir, cheirar, tocar, sentir. A vida é tátil, é isto de que nos podemos aproximar, é o que trazemos entre mãos. Mas atenção: a vida não se resume apenas à memória e ao presente que apreendemos com os sentidos. Os antigos nomeavam uma ulterior e necessária dimensão, que chamavam esperança (elpis), explicada como a consciência de que havia um além, um amanhã. A ideia de um futuro foi sempre tida também como determinante, mesmo se para os gregos a esperança era uma coisa na qual não se podia propriamente confiar. Píndaro explicita-o bem quando relata que, no princípio, os deuses colocaram todas as coisas boas para o homem dentro de um vaso e lhe puseram uma tampa, com a proibição de removê-la. Mas o homem avizinhou-se do vaso e destapou-o. Quando fez isso, todas as coisas saíram de repente e o único bem que ficou dentro foi a esperança, a esperança daquelas coisas perdidas.

Creio que daqui se extrai uma dupla conclusão: não podemos viver sem esperança, mas esta não é uma tarefa estável e fácil. Muito pelo contrário. No extraordinário poema que lhe dedicou Charles Péguy (e que Armando Silva Carvalho traduziu magnificamente para a nossa língua) garante-se que a única realidade que deixa o próprio Deus espantado, em relação ao homem, é a esperança: “Não é a fé que me espanta.../ A caridade, diz também Deus, essa não me espanta.../ Mas a esperança, diz Deus, essa sim causa-me espanto./ Essa sim, é digna de espanto./ Que essas pobres crianças vejam como tudo acontece/ E acreditem que amanhã será melhor./ Que elas vejam o que se passa hoje e acreditem/ que amanhã de manhã será melhor./ Isso é espantoso e essa é a maior maravilha da nossa graça./ E isso a mim mesmo me espanta.”

A ideia de um futuro foi sempre tida também como determinante, mesmo se, para os gregos, a esperança era uma coisa na qual não se podia propriamente confiar

A esperança não é um lenitivo que adormece a dor até que ganhemos coragem para tratar a sério da vida, mas uma força que já hoje nos motiva para a transformação da história. A esperança não é um adiamento, mas um compromisso. Não é uma abstração idealizada, mas um dinamismo concreto, uma laboriosidade, um fazer. Precisamos de uma educação para a esperança.

Sobre o seu significado profundo, e de como se pratica, há aquela história do velho monge que se propunha alcançar o cimo de uma montanha e que, numa das etapas iniciais do caminho, pernoita numa estalagem. O estalajadeiro repara na sua fragilidade e tenta dissuadi-lo, enumerando os perigos que o espreitam, e que certamente acabarão por vencê-lo. O monge, porém, respondeu: “Tenho a certeza de que chegarei lá.” “E como é que um homem fraco como tu pode ter semelhante certeza? Para mais, vem aí um inverno duro.” O ancião retorquiu: “Coloquei lá em cima o meu coração e por isso sei que, mesmo assim inseguros, os meus passos hão de chegar lá.”
in Expresso, 12.01.2019
leitor.expresso.pt/semanario/semanario2411/html/revista-e/que-coisas-sao-as-nuvens/A-esperanca-digna-de-espanto
A A A A A A A A A A A A

À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves
BAPTISMO DO SENHOR Ano C
“Quando todo o povo recebeu o baptismo,
Jesus também foi baptizado.”
Lc 3, 21
Baptizado, hoje

Durante alguns anos julguei que me lembrava do meu baptismo. Do padre e dos meus pais, da pia e da água a cair na minha cabeça, da igreja no centro da cidade do Lobito. É claro que não podia lembrar o que me aconteceu com dois meses de vida, mas foi o baptismo do meu irmão ou dum primo, pelos dois ou três anos, que em mim ficou gravado. A fotografia enviada aos meus avós mostra um bebé num lindo vestido, num banco do fotógrafo Quitos! Poucos lembramos o dia do nosso baptismo, mas isso não tira força ao que aí começou.
Descobri mais tarde a diferença entre dizer “fui baptizado” e dizer “sou baptizado”. É a surpresa do encontro com Jesus Cristo vivo, na diversidade da sua presença, especialmente em testemunhas cheias do Espírito Santo. E a descoberta da Igreja, não como clube de perfeitos mas comunidade de pessoas, frágeis e admiráveis, Igreja santa e pecadora, a escutar, a tentar viver, e a espalhar as palavras vivas do Senhor Jesus. E continuo a entrar no baptismo como fonte de vida e graça que não se esgota. Não é algo simplesmente do passado, que uma fotografia e um registo assinalam. É do presente, e vai ser do futuro, na surpresa de saborear o que é ser filho amado de Deus, com irmãos de toda a parte. Na alegria de ser padre lembro o que dizia Santo Agostinho: Para vós, sou Bispo; convosco sou cristão. Nome de serviço, o primeiro; de salvação, o segundo.”
Para além de um confronto entre baptismo de crianças ou baptismo de adultos, é fundamental a autenticidade e a verdade com que ele é uma decisão importante para os pais de uma criança e para os próprios. Uma decisão aprofundada no conhecimento de Cristo, uma opção de vida renovada pelo Evangelho, um futuro empenhado na transformação do mundo. É grande ainda a força da tradição esvaziada de sentido, e da festa, sem caminho antes nem depois, no baptismo de crianças. Falta um dinamismo maior na proposta da fé aos adultos e um acolhimento feliz de quem duvida e faz perguntas! É preciso passar do banho que facilmente seca, para a torrente que leva vida e floresce os desertos!
Baptismo tem sabor de princípio! Fala mais do presente e do futuro. Revela o amor primeiro de Deus, que não está dependente dos nossos sucessos, mas se dá todo, e em cada momento. Tantas vezes mal-amados e desencantados por amores tipo “toma lá, dá cá”, é difícil acreditarmos que somos “filhos muito amados”. Deus não espera os nossos “melhores resultados” para um prémio proporcional, pois Ele “ama sem medida”, parafraseando Santo Agostinho: “A medida do amor é amar sem medida”. Nunca é tarde para viver a alegria de ser baptizado!
in Voz da Verdade 13.01.2019

A A A A A A A A A A A A

Pope's preacher goes back to basics in talks to bishops
Jan 11, 2019
by Tom Roberts Accountability

Capuchin Fr. Raniero Cantalamessa, the official preacher of the papal household, delivers the homily to U.S. bishops during Mass Jan. 3 in the Chapel of the Immaculate Conception at Mundelein Seminary during the bishops' Jan. 2-8 retreat at the University of St. Mary of the Lake in Illinois, near Chicago. (CNS/Bob Roller)
Editor's note: The text of the talks delivered by Capuchin Fr. Raniero Cantalamessa, preacher of the papal household, to the U.S. bishops during their Jan. 2-8 retreat at Mundelein Seminary, outside of Chicago, are available at this link.

Texts of the 11 talks delivered to the U.S. bishops who gathered for a week's retreat at Mundelein Seminary outside of Chicago show a heavy emphasis on traditional themes, a robust defense of celibacy, a severe criticism of attachment to money and an endorsement of new lay movements as a replacement for declining numbers of clerics.

NCR obtained the texts, 84 single-spaced pages, and they can be seen in their entirety here. They were delivered during the Jan. 2-8 retreat by Capuchin Fr. Raniero Cantalamessa, preacher of the papal household.

The talks contain only passing reference to the sex abuse scandal that was the reason behind the unusual retreat, suggested by Pope Francis, and the omission was intentional.

"I am not going to talk about pedophilia or give advice about eventual solutions," Cantalamessa said at the outset. "That is not my task and I would not have the competence to do it. This is a time for taking a break, as the psalmist says 'away from the strife of tongues' (Ps 31:21), and to listen to the voice of the Lord of the Church. I am convinced that this approach is the only way to get to the root issues that the Church is facing, which are both different and deeper than the issues that usually come to mind." In fact, in one brief mention of the scandal, the preacher sees a positive result in the humbling of the church.

Cantalamessa begins with a fairly basic presentation on the need for a personal relationship with Jesus and prayer "as the indispensable means for cultivating a relationship with Jesus." In the talk he draws a distinction between the "'public Jesus who casts out demons, preaches the kingdom, works miracles, and is involved in controversies; and on the other hand, there's the 'private' Jesus who is almost hidden between the lines of the gospel. This latter Jesus is the praying Jesus."

He urged the bishops to "rethink … the relationship between prayer and action" moving "beyond juxtaposition to  subordination [italics in original]. Juxtaposition is when we pray first, and then we act. Subordination, on the other hand, is when we pray first, and then we act," acting on the basis of "what emerges from our prayer." He said the apostles and saints "prayed in order to know what to do," not just before doing something.

Cantalamessa mentions the scandal for the first time in the second talk and says that while the clergy sex abuse scandals "rightly" overwhelm the church "we fail to see how much more gospel-like and humble the Church of Christ has become, how more free from worldly power." Indeed, the preacher would term this period the "'golden age' compared to past centuries when many bishops were more concerned about governing their territory than caring for the flock. In the past, to be a bishop was an honor; today it is a burden."

In the same talk he emphasized the importance of the relationship between bishops and priests, urging bishops to spend time with priests "even at the expense of other engagements."

In a later talk, he said he believed he was inspired to do a reflection on the agony of Jesus in the Garden of Gethsemane "because, due to the scandals of pedophilia, many bishops in the Catholic church, starting with the Bishop of Rome, are experiencing right now exactly what Jesus experienced in Gethsemane. As we have seen, the ultimate cause of his suffering in the Garden of Olives consisted in taking upon himself sins that he had not committed himself and in bearing responsibility for them in front of the Father. There is a redemptive and expiatory power in doing this."

In the third talk, "To Be With Christ Means to Share His Celibacy for the Kingdom," Cantalamessa equates celibacy with "a more radical way of sharing in his mission" that Jesus revealed to his disciples. "For Catholic clergy," he said, "this is no longer an option but an integral part of our vocation." At the same time, he said, "Whether because of all the fuss surrounding it, or the thought that perhaps one day — who knows? — church law might change, celibacy today is not experienced with a sense of serenity."

Celibacy, he said, will always "be part of Christ's design." Even if mandatory celibacy is abolished, he said, "celibacy itself, that is, the possibility of choosing to follow Jesus in this radical and beautiful way, can never be eradicated." He labeled as false "the claim that celibacy as a state of life is contrary to nature and hinders people from fully being themselves. He claims that such a view, expounded by "founders of modern psychology, was based on a materialistic and atheistic view of the human being."

He revisited debates of the past about whether virginity-celibacy constituted a "more 'perfect' state than marriage. I believe that celibacy is not ontologically more perfect: each state of life is perfect for the person who is called to it. Virginity-celibacy is, however, eschatologically more advanced in the sense that it more clearly approximates the definitive state toward which we are all journeying. Saint Cyprian, a married bishop, wrote to the first Christian virgins, 'What we shall be, already you have begun to be.' " [Italics in the original.]

Throughout history, he writes, "the proclamation of the gospel and the church's mission have in large part rested on the shoulders" of men and women who have renounced marriage.

And yet he also states: "Since it is not of divine origin, mandatory celibacy for priests can, of course, be changed by the Church, if at a certain point she thought it necessary."

The discussion of celibacy led to discussion of love, carnal and otherwise, and the acknowledgment that priests were attracted "to the other sex" as well as "to someone of the same sex," a "delicate matter" he said he would "completely avoid" because it "requires a pastoral discernment far beyond my competence and the scope of a retreat."

He offered, however, that while some clerics attracted to the same sex believed "they are permitted or at least excused to act out accordingly," the law of celibacy also applied to them.

"The Church is born of hope. If we intend to give new momentum to faith to empower it to conquer the world again in our age, we will need to rekindle hope. Nothing is possible without hope."

Sharing the poverty of Jesus, he said in talk four, doesn't mean giving up all earthy goods. "The Gospel never condemns earthly goods and riches in themselves," he said. "What Christ condemns is attachment to money and goods, trusting in them as if 'one's life depended on them.' "
For several pages, Cantalamessa uses severe language in condemning such attachment and he has especially harsh words for "the so called 'Prosperity gospel,' " which he termed a "total contradiction to the Gospel of Christ," a gospel that "far from being 'good news to the poor' becomes good news for the rich."

In one of his final talks, Cantalamessa said a contemporary challenge for the church is figuring out how to incorporate the ministry of lay people. "In various parts of the Christian world," he said, "the Parable of the Lost sheep is being lived out in reverse: ninety-nine sheep have gone away and only one has remained in the sheepfold. The danger is that we spend all of our time nourishing the one remaining sheep and, due to the scarcity of clergy, don't have time to go out in search of the sheep who are lost."

His focus was not on incorporation of ordinary lay people but on "ecclesial movements" which, he said, have been the locus of many conversions "both of nonbelievers and of nominal Christians returning to the practice of the faith."

Ending with a reflection on the Resurrection, he said, "The Church is born of hope. If we intend to give new momentum to faith to empower it to conquer the world again in our age, we will need to rekindle hope. Nothing is possible without hope."

Franciscan Fr. Daniel P. Horan writes about politics, culture and theology in his new column, Faith Seeking Understanding.

[Tom Roberts is NCR executive editor. His email address is troberts@ncronline.org.]
in NCR 11.01.2019

A A A A A A A A A A A A

Até onde se pode debater na Igreja?

Questionar a Igreja não significa forçosamente colocá-la em questão. Entrevista à francesa Anne-Marie Pelletier, primeira teóloga a receber o prémio Ratzinger, considerado o “Nobel” da Teologia, sobre algumas das questões que perpassam o catolicismo de hoje, como o posicionamento das mulheres nas comunidades católicas, a Bíblia na vida da Igreja e o clericalismo.

Debater no seio da nossa Igreja parece-lhe ser hoje fácil?

Antes de falar das dificuldades do debate, parece-me que é preciso começar por colocar a questão da sua legitimidade na Igreja. A ideia está longe de estar adquirida. Ela continua a colidir mais ou menos na consciência comum com a distinção entre Igreja que ensina e Igreja que é ensinada, fortemente afirmada pelo concílio de Trento (séc. XVI).

Por um lado, o magistério é detentor do saber e da palavra. Do outro lado, o povo dos fiéis aquiesce na obediência às verdades da fé. O dogma da infalibilidade papal reforçou essa visão no século XIX, num contexto da resposta defensiva da Igreja sobre formulações intangíveis.

O concílio Vaticano II libertou-nos dessas estreitezas. Devolveu-nos a uma visão renovada, dinâmica, da vida da Igreja, aberta ao diálogo dentro dela e com o mundo deste tempo. Em 1964, já Paulo VI convidava a Igreja a fazer-se diálogo, palavra, conversação. E a natureza sinodal da Igreja tem sido fortemente reafirmada desde então.

Trata-se de todos andarem juntos, leigos, pastores, bispo de Roma, que enfrentem juntos as questões da vida da Igreja. Mas temos de reconhecer que mesmo hoje essa inteligência da identidade e da vida da Igreja continua a ser um pouco uma ideia nova...

Debater na Igreja será para alguns erguer obstáculos à unidade dos cristãos?

Considerar o debate é considerar que possa haver pluralidade na maneira de receber o Evangelho, de compreender a vida cristã, de organizar a instituição.

Ora, nós temos muitas vezes uma visão falseada do plural e da unidade. Pensamos o plural sob o signo da divisão ou do relativismo. É uma simplificação muito prejudicial. Porquanto o plural é em primeiro lugar o selo do excesso divino que a fé incorpora: é preciso polifonia para fazer emergir o rosto do Deus da revelação

E é preciso também fazer justiça ao plural, simplesmente porque a vida é complexa e porque é nesta complexidade que Deus está a abrir um caminho e que a Igreja é chamada a viver.

Abramos os Atos dos Apóstolos. Desde a primeira geração cristã houve debate entre uns e outros, por vezes dissensões sérias que obrigaram a reunir, a falar, a inventar a superação dos conflitos. Da mesma maneira, a história do concílio Vaticano II é a de um amadurecimento teológico que se fez através de um debate intenso entre os bispos do mundo.

É preciso que reencontremos confiança no diálogo e no debate, uns com os outros. O que requer incontestavelmente coragem, num momento em que a tendência pesada das sociedades é a de uma regressão para as convicções e identidades voltadas para elas mesmas.

Quais são as questões sobre as quais seria urgente desencadear o debate?

São obviamente numerosas. Algumas podem ser explosivas. É preciso, portanto, que comecemos por admitir que questionar juntos uma realidade da vida da Igreja não é “ipso facto” colocá-la em questão. Eu procuro defender, pela minha parte, a causa de uma sabedoria cristã que privilegie a confiança e a escuta do outro, o respeito pela complexidade da vida, sob o horizonte de uma Palavra de Deus que ninguém deve reivindicar ter o total conhecimento.

Tomemos o exemplo do celibato dos padres, que sabemos estar relacionado com os dramas da atualidade. Seria impossível refletir desde já em conjunto simplesmente sobre o sinal de que ele quer ser portador, sobre o acesso a este sinal na nossa sociedade, sobre as condições que permitem que seja vivido, ou então sobre o que significaria a ordenação de homens casados como na tradição oriental?

Num modo menor, secundário, penso também nas questões das “servidoras das assembleias” [acolhem os paroquianos, distribuem folhas/cadernos, acompanham o ministro da comunhão]. Um tema minúsculo mas que pode desencadear paixões atribiliosas, tendo em conta que a liturgia é uma realidade inflamável. E que, de facto, sob aparências folclóricas, dissimula questões de fundo sobre o acesso ao altar, e portanto sobre o feminino e o masculino na Igreja, sobre uma conceção “sacralizadora” da função presbiteral. Um verdadeiro estaleiro, na realidade, para uma explicação em conjunto acerca de matérias essenciais.

Há alguma questão que a sensibilize particularmente e da qual lamente a ausência de debate?

Tendo consagrado boa parte da minha vida a trabalhar as Escrituras, sou particularmente sensível à necessidade de fazer dela para a Teologia, mas também para a vida quotidiana dos cristãos, a fonte de inspiração e de conversão.

O papa Francisco convida cada um a tomá-las como companheiras de viagens no documento “Amoris laetitia” [sobre o amor na família]. É uma exortação soberba, mas como torná-la realizável?

E se é suposto que a Palavra de Deus irrigue toda a vida dos crentes, que resultado é que isso tem para aquilo que se denomina “diaconia da Palavra”? Onde e como é que ela se exerce na Igreja? Quem é responsável por ela na instituição eclesial? Não estou certa de que se possa ater à consideração da homilia dominical. Isto coloca problemas. Os leigos dizem-no em voz baixa. E o papa, em alta voz, reconhece que este é uma verdadeira questão.

De que maneiras plurais a Palavra de Deus pode ser servida, iluminar as inteligências e as práticas, hoje, na Igreja? Se falássemos mais disso nas comunidades cristãs…

E sobre a questão do clericalismo, de que o papa nos pede para sair?

É evidente que há abuso de poder na instituição eclesial, e de maneira mais impressiva quando esse poder se reivindica de uma autoridade divina. Nesse sentido, contesto um pouco uma maneira de relativizar os escândalos atuais ao invocar o facto de haver clericalismo na maneira como alguns leigos podem exercer as suas responsabilidades. Em todo o lado onde há poder nas nossas sociedades, há desvios e abusos. Mas o problema é levado ao extremo quando é de «direito divino» que um poder se exerce.

O remédio só pode ser o de reencontrar a justa identidade do sacerdócio ministerial [de quem é ordenado padre] na sua relação com o sacerdócio batismal [de todos os batizados]. O que implica desde logo renunciar a uma sacralização, que, aliás, já é pouco evangélica, da função presbiteral. Não dissimulemos que o clericalismo se joga já numa certa maneira de isolar o padre numa excelência que o coloca acima de todos.

Os leigos têm uma certa parte de responsabilidade nesta distorção da identidade sacerdotal. O remédio é simultaneamente retomar a medida da dignidade e da missão inerentes ao Batismo. A exortação “Gaudete et exsultate”, que descreve longamente o que é a vocação de todos à santidade, é nesta matéria uma boa leitura, a recomendar.

Como fazer mexer as coisas, depois de séculos de sacralidade?

Há nos humanos que somos um gosto atávico pela sacralização. É, aliás, próprio ao mundo pagão, de acordo com as Escrituras bíblicas, responder amplamente a essa demanda. A frequência das Escrituras é aqui um excelente antídoto. Um só é santo, como um só é Sacerdote. Dito isto, é preciso que o povo cristão ouça mais vezes da boca dos seus sacerdotes como se pode conhecer melhor segundo toda a grandeza da sua vocação batismal. O que implica, evidentemente, que estes últimos sejam treinados no seminário a pensar e viver uma eclesiologia de comunhão.

O arcebispo de Paris pede que haja mulheres presentes nos seminários e que participem no processo de discernimento. Que pensa sobre isso?

Está aí, obviamente, uma proposta maior. Mas, apesar das evoluções positivas – o próprio facto de considerar o assunto –, é claro que a realização a curto prazo de um tal projeto é problemática. Os seminários voltam cada vez mais hoje a ser um microcosmo, onde os padres são formados exclusivamente por padres, sem abertura a esse exterior que será, no entanto, o lugar do seu ministério e das suas responsabilidades. Como subir esse monte? Confesso por agora o meu pessimismo.

A senhora, enquanto teóloga, é convidada a ir aos seminários? A sua palavra é aí escutada?

Sim, e isso faz parte das novidades felizes da vida da Igreja. Eu ensino no seminário há alguns anos e hoje sou mesmo solicitada para orientar retiros a padres, como faço há muito tempo em comunidades monásticas, inclusive masculinas.

Mas, ao mesmo tempo, sou obrigada a constatar que o corpo docente feminino diminui nos seminários que já lhe foram acolhedores. É evidente que alguns seminaristas rejeitam aprender a teologia da boca das mulheres.

No entanto, seria essencial que o curso de eclesiologia, em particular, fizesse justiça a uma inteligência de Igreja aberta à sua amplitude total, lembrando que o sacerdócio batismal é englobante, como o recorda fortemente o papa Francisco.

Afirma que há hoje menos mulheres nos seminários. É porque não são convidadas ou porque há menos mulheres formadas para o ensino da teologia.

Há todo um viveiro de mulheres formadas, que têm todos os diplomas canónicos necessários. Mas, como é recordado a meia voz àquelas que exprimem o desejo de se formar, os diplomas não lhes garantem qualquer direito a aceder a responsabilidades eclesiais. (…)

E todavia o debate sobre o lugar da mulher na Igreja não é novo.

Digamos que, após o papa João XXIII ter feito da promoção das mulheres um «sinal dos tempos», a instituição eclesial abriu-se à presença e à experiência das mulheres na Igreja e nas sociedades. Recuso banalizar esta novidade.

Mas, com o recuo do tempo, medimos hoje as dificuldades que permanecem em superar para que a Igreja exista, pense, aja associando verdadeiramente homens e mulheres na sua teologia e no seu governo. É preciso reconhecer que alguns discursos de celebração da mulher fazem correr o risco de ter as mulheres à distância da vida concreta da Igreja.

Continua a haver muito a fazer para que ela integre o feminino no plural, se assim ouso dizer. Para que as mulheres cristãs, na diversidade dos seus estados e das suas condições, sejam reconhecidas como parte da missão da Igreja.

Parece-lhe que o papa Francisco está consciente disso?

Estou convencida de que, pela sua longa experiência de homem e de pastor, o papa Francisco tem uma visão clara do problema. Na medida em que pode – mas um papa não é todo-poderoso –, tem a preocupação de favorecer uma verdadeira promoção das mulheres no governo da Igreja.

Ao mesmo tempo, ele reabre concretamente a nossa eclesiologia à amplitude do que ele chama «o povo santo de Deus». E ainda opera concretamente a sinodalidade, da qual reencontrámos o sentido e a urgência durante as últimas décadas, mas que está a custar a entrar verdadeiramente na cultura dos cristãos. Como sabemos, ele apela vigorosamente ao povo dos batizados, a quem relembra insistentemente a sua dignidade e missão. O apelo está lançado. Resta responder-lhe.
in Pastoral da Cultura
Sophie De Villeneuve
In Croire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 10.01.2019
www.snpcultura.org/ate_onde_se_pode_debater_na_igreja.html