21 maio 2017

FÁTIMA, QUE FUTURO? (2)

1. É cedo para fazer um balanço da última peregrinação à Cova da Iria. As televisões têm o país colonizado pela cultura omnipresente e omnipotente do futebol. Durante dois dias, sem a esquecer, voltaram-se todas para o Papa, para os Pastorinhos, para Fátima e parecia que nunca mais se calavam, mas ainda tiveram tempo para celebrar o triunfo de Salvador Sobral no Festival da Eurovisão. Graças sejam dadas a todas e todos que elevaram o ego nacional.
Nesta crónica, interessa-me reflectir sobre o futuro de Fátima. Dizem que já dispomos de bases seguras para fazer a história dos acontecimentos de 1917 e o seu desenvolvimento até aos nossos dias. Seja. É indispensável perguntar: em que ponto está a crítica teológica das representações religiosas dessa época, na sua continuidade e nas suas alterações? É verdade que a menoridade da reflexão teológica, no Portugal do séc. XX, não permitia altos voos. O bispo Manuel Almeida Trindade já sublinhou a sua triste ausência no Vaticano II: ausência na preparação, na participação e na aplicação.
Em Fátima, embora à margem do Santuário e não só, já existiu um Centro importante de Filosofia e Teologia (Studium Sedes Sapientiae), Cursos de Verão de Teologia (ISTA) e uma importante livraria, Verdade e Vida, a maior referência a nível do País, para se entrar no espírito e na letra do Vaticano II. No quadro da reforma litúrgica, nasceram aí audaciosas inovações pela iniciativa de Frei José Augusto Mourão, O.P..
Todo esse ambiente, com um professorado internacional, permitiu, além do mais, o acolhimento e o diálogo com personalidades da cultura. Jean Guitton, Gabriel Marcel, Stravinsky, Vitorino Nemésio, Miller Guerra, etc.. são, apenas, algumas lembranças do meu tempo de estudante.
2. Como já lembrei nas últimas crónicas, o Papa Francisco antes de vir a Fátima tinha publicado uma Carta Apostólica, em forma de Motu próprio, pela qual inscreveu os Santuários no Pontifício Conselho para a Nova Evangelização. Insisto neste facto para que a sua importância, os seus objectivos e exigências, que lhe são apontados, comecem a ser vividos e praticados, em Fátima. É de notar que a perspectiva do Papa é uma aplicação concreta do Evangelho da Alegria, o programa do seu pontificado.
Nos dias 12 e 13, J. Bergoglio deu o exemplo do que pode e deve ser a realização do programa que apontou para a evangelização dos Santuários. Com uma arte genial enxertou, em narrativas gastas, a novidade do Evangelho. Como tinha passado um ano inteiro a falar da misericórdia de Deus, não tinha espaço mental e afectivo, para continuar a repetir as ameaças da Cova da Iria. Escreveu e disse outra coisa. Na crónica do Domingo passado, respiguei o que me pareceu mais acutilante e novo em todas as suas intervenções.
É, sem dúvida, importante escutar e debater esses textos na íntegra, mas não basta! Há uma expressão conhecida: um dedo que aponta o céu e as pessoas olham para o dedo. O que importa é a pergunta: quais foram as representações teológicas, melhor dito, as inovações metafóricas da sua linguagem cristã e as direcções de acção evangelizadora na sua vertente de anúncio do Evangelho e de transformação da sociedade? Igreja de saída para onde? Só para os cristãos ou para “todos os meus irmãos no baptismo e em humanidade, de modo especial para os doentes e pessoas com deficiência, os presos e os desempregados, os pobres e os desempregados?”
Dir-se-á que Fátima está feita e que não há mais nada a fazer. Sob certo ponto de vista, seria um desastre que os clérigos e os clericalizados, ignorantes por profissão, tentassem impor os seus conceitos moralistas e canónicos a uma população que vai a Fátima porque sabe onde lhe dói e onde procura esperança. Seria pior a emenda do que o soneto. Deixem Fátima ser um lugar de liberdade pessoal.
Dito isto, nada está feito. Como desenvolver as perspectivas apontadas pelo Papa acerca de Deus, de Cristo, do Espírito Santo, da Igreja e de Maria? Não digo que seja necessário fundar uma nova faculdade de teologia em Fátima, mas é indispensável que o Santuário promova seminários, colóquios, debates, publicações que desenvolvam uma nova teologia em plena liberdade.  
A preparação de peregrinações precisa de uma teologia narrativa dos mistérios do Rosário que não seja apenas a repetição de Pai-Nossos e Avé-Marias, introduções ao sono, quando deviam ser aberturas aos sonhos e aos trabalhos de um mundo novo.
A mariologia não pode continuar como catálogo dos privilégios de uma Senhora, ainda que seja mais brilhante do que o Sol. Alguns passos, sobretudo do ponto de vista bíblico, já foram dados. Fr. Edward Schillebeeckx, O.P., poucos anos antes de morrer, traçou as linhas de evolução da mariologia desde 1954 e as perspectivas que ele tentou abrir para o futuro. É necessário rever toda a tradição dos títulos que foram atribuídos a Maria, Mãe de Deus. O Espírito Santo não pode ser posto de lado.
3. Fátima, no seu conjunto, não é a realização de uma grande ideia de beleza. Alguns remendos, por mais interessantes que sejam, não conseguem superar deficiências de raiz. 
Como diz o documento sobre os santuários, importa a sua valorização cultural e artística, segundo a via pulcritudinis, como modalidade peculiar da evangelização da Igreja. Para limpar o comércio da fealdade religiosa, não seria possível criar uma escola de artes plásticas, de música, de teatro para encontrar novas linguagens da beleza da fé?
Desde o princípio se diz que Fátima está confrontada com os problemas da guerra e da paz. É indispensável rezar para erradicar as raízes, as causas e as consequências dos conflitos. Dado o alcance mundial da mensagem de Fátima, não seria urgente criar, nos seus espaços, uma “Universidade da Paz”, não só ecuménica e inter-religiosa, mas aberta a todos os humanos de boa vontade?
Dir-se-á que estou a pedir demasiado a um lugar que é de acolhimento para rezar, cumprir uma promessa, acender uma vela e cantar um adeus nostálgico a Fátima. O Papa pediu muito mais. Exigiu uma mobilização geral contra a indiferença que nos gela o coração e agrava a miopia do olhar.
Só vale a pena falar no futuro de Fátima se aquele Santuário contribuir para criar muitas e variadas iniciativas espirituais e culturais, que convençam os peregrinos a dizer: qual é a minha periferia?
Frei Bento Domingues, O.P.
21.05.2017


14 maio 2017

FÁTIMA: QUE FUTURO?

1. Nestas crónicas, recusei-me sempre a responder à pergunta: que vem o Papa fazer a Fátima? Que vinha canonizar os “beatos” Jacinta e Francisco estava assente. Para isso não precisava desta custosa deslocação. A declaração de reconhecimento da santidade destes pastorinhos podia ser feita em Roma. Por isso, julguei que era melhor esperar para ver. O Papa veio mas, antes, tinha realizado outra peregrinação bem mais arriscada e de alcance imediato: o encontro com cristãos e muçulmanos no Egipto.

J. Mario Bergoglio, antes de vir a Fátima, tinha publicado uma carta apostólica que transfere as competências sobre os Santuários para o Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização. Vislumbrava nesse documento, inspirador e normativo, que viria realizar o que mais tem faltado em Fátima: tornar-se um centro propulsor de saída para o mundo e não apenas de um altar de incenso.

 Como já referi, irritavam-me, entretanto, as notícias colhidas ou veiculadas pelo Santuário sobre os cuidados com a figura do Papa, a sua indumentária para celebrar, o cálice de ouro, a pala para o resguardar do sol e outras futilidades do género. Pareciam manifestar o propósito de neutralizar, na Cova da Iria, o que Bergoglio trouxe de novo à orientação da Igreja católica: uma Igreja de saída para todas as periferias, com gosto da alegria do Evangelho, de uma evangelização nova, libertadora, descrucificante.

Um grande desejo pode tornar-se numa grande decepção: ver o Papa chegar a Fátima e nem ele cumprir o que propôs para os santuários, seria o enterro da sua própria Carta Pastoral.

Entretanto, foi divulgada a oração que iria fazer no dia 12 de Maio, na Capelinha das Aparições. É uma celebração transfiguradora da Salve Rainha tão antiga e que, de repente, ficou uma nova respiração do céu e da terra. As invocações gastas encontraram a linguagem poética da fé incarnada na alegria do Evangelho. Atrevo-me a destacar: Ó doce virgem Maria, Rainha do Rosário de Fátima! Faz-nos seguir o exemplo dos Bem-aventurados Francisco e Jacinta e de todos os que se entregam à mensagem do Evangelho. Percorreremos, assim, todas as rotas, seremos peregrinos de todos os caminhos, derrubaremos todos os muros e venceremos todas as fronteiras, saindo em direcção a todas as periferias,  revelando, aí, a justiça e a paz de Deus. Seremos, na alegria do Evangelho, a Igreja vestida de branco, da alvura branqueada no sangue do Cordeiro derramado ainda em todas as guerras que destroem o mundo em que vivemos. E assim seremos, como Tu, imagem da coluna luminosa que alumia os caminhos do mundo, a todos mostrando que Deus existe, que Deus está, que Deus habita no meio do seu povo, ontem, hoje e por toda a eternidade.

O horizonte do primeiro documento, verdadeiramente programático do Papa Francisco, (A Alegria do Evangelho), passou para a sua Salve Rainha, a oração feita missão para todas as periferias. Tinha de dizer: esta peregrinação é essencial. Como poderia Bergoglio esquecer o seu passado de transformação da religiosidade popular – puramente regional – perante um santuário que reúne multidões de muitos países?

2. O Papa veio, rezou na capela de Nossa Senhora do Ar. Repetirá, durante a sua peregrinação, que se reza em Fátima como em qualquer lugar. Seguiu para a Cova da Iria. A quem desejasse acompanhar a deslocação e a sua chegada ao santuário, os quatro canais de televisão exibiam uma verborreia contínua e irritante que não deixava espaço mental para mais nada. Não se prepararam para saber dosear o tempo da informação e do comentário com o silêncio indispensável. O silêncio imposto para a oração do Papa, na capelinha, mostrou que tudo podia ser diferente.

Um momento chave de todas as peregrinações de Fátima é o mar de luz expresso na procissão das velas. Desta vez, havia uma mensagem especial. O Papa enfrentou a sua tarefa de transformar as atitudes dos peregrinos: Peregrinos com Maria… Qual Maria? Uma «Mestra de vida espiritual», a primeira que seguiu Cristo pelo caminho «estreito» da cruz dando-nos o exemplo, ou então uma Senhora «inatingível» e, consequentemente, inimitável? A «Bendita por ter acreditado[i]» sempre e em todas as circunstâncias nas palavras divinas, ou então uma «Santinha» a quem se recorre para obter favores a baixo preço? A Virgem Maria do Evangelho venerada pela Igreja orante, ou uma esboçada por sensibilidades subjectivas que A vêem segurando o braço justiceiro de Deus pronto a castigar: uma Maria melhor do que Cristo, visto como Juiz impiedoso; mais misericordiosa que o Cordeiro imolado por nós?

Grande injustiça fazemos a Deus e à sua graça, quando se afirma em primeiro lugar que os pecados são punidos pelo seu julgamento, sem antepor – como mostra o Evangelho – que são perdoados pela sua misericórdia! (…) «Sempre que olhamos para Maria, voltamos a acreditar na força revolucionária da ternura e do carinho. Nela vemos que a humildade e a ternura não são virtudes dos fracos mas dos fortes, que não precisam de maltratar os outros para se sentirem importantes (…). Esta dinâmica de justiça e de ternura, de contemplação e de caminho ao encontro dos outros é aquilo que faz d’Ela um modelo eclesial para a evangelização[ii]». Possamos, com Maria, ser sinal e sacramento da misericórdia de Deus que perdoa sempre, perdoa tudo.

3. Deus criou-nos como uma esperança para os outros, uma esperança real e realizável segundo o estado de vida de cada um, disse o Papa na homilia de Sábado.
 

Temos Mãe na Mãe de Jesus. Não veio aqui, para que A víssemos. Para isso teremos a eternidade inteira. Dos seus braços virá a esperança e a paz que necessitamos e as suplico para todos os meus irmãos no Baptismo e em humanidade, de modo especial, para os doentes e pessoas com deficiência, os presos e desempregados, os pobres e abandonados.

O futuro de Fátima depende do seu empenhamento em desencadear uma verdadeira mobilização geral contra esta indiferença que nos gela o coração e agrava a miopia do olhar. A vida só pode sobreviver graças à generosidade de outra vida. Sejamos, no mundo, sentinelas da madrugada que sabem contemplar o verdadeiro rosto de Jesus Salvador e descobrir novamente o rosto jovem e belo da Igreja, que brilha quando é missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica no amor[iii].

Bem-haja, Papa Francisco!

Frei Bento Domingues, O.P.

in Público 14.05.2017

[i] cf. Lc 1, 42.45

[ii] Exort. ap. Evangelii gaudium, 288

[iii] Nota: Este texto é quase todo composto com extractos das intervenções do Papa. A selecção e organização são minhas

12 maio 2017

Salve Rainha do Papa Francisco

Salve Rainha,

bem-aventurada Virgem de Fátima,

Senhora do Coração Imaculado,

qual refúgio e caminho que conduz até Deus!

Peregrino da Luz que das tuas mãos nos vem, dou graças a Deus Pai que,

em todo o tempo e lugar, atua na história humana;

peregrino da Paz que neste lugar anuncias, louvo a Cristo, nossa paz,

e para o mundo peço a concórdia

entre todos os povos;

peregrino da Esperança que o Espírito alenta, quero-me profeta

e mensageiro para a todos lavar os pés,

na mesma mesa que nos une.


Salve Mãe de Misericórdia,

Senhora da veste branca! Neste lugar onde há cem anos

a todos mostraste

os desígnios da misericórdia do nosso Deus, olho a tua veste de luz

e, como bispo vestido de branco,

lembro todos os que, vestidos da alvura baptismal,

querem viver em Deus

e rezam os mistérios de Cristo

para alcançar a paz.


Salve, vida e doçura,

Salve, esperança nossa,

ó Virgem Peregrina, ó Rainha Universal!

No mais íntimo do teu ser, no teu Imaculado Coração, vê as alegrias do ser humano

quando peregrina para a Pátria Celeste.

No mais íntimo do teu ser, no teu Imaculado Coração,

vê as dores da família humana

que geme e chora neste vale de lágrimas.

No mais íntimo do teu ser, no teu Imaculado Coração,

adorna-nos do fulgor de todas as jóias da tua coroa

e faz-nos peregrinos como peregrina foste Tu. Com o teu sorriso virginal

robustece a alegria da Igreja de Cristo.

Com o teu olhar de doçura

fortalece a esperança dos filhos de Deus.

Com as mãos orantes que elevas ao Senhor

a todos une numa só família humana.



Ó clemente, ó piedosa,

ó doce Virgem Maria,

Rainha do Rosário de Fátima!

Faz-nos seguir o exemplo dos Bem-aventurados Francisco e Jacinta,

e de todos os que se entregam

à mensagem do Evangelho.

Percorreremos, assim, todas as rotas,

seremos peregrinos de todos os caminhos, derrubaremos todos os muros

e venceremos todas as fronteiras,

saindo em direcção a todas as periferias, aí revelando a justiça e a paz de Deus. Seremos, na alegria do Evangelho,

a Igreja vestida de branco,

da alvura branqueada no sangue do Cordeiro derramado ainda em todas as guerras

que destroem o mundo em que vivemos.


E assim seremos, como Tu,

imagem da coluna luminosa

que alumia os caminhos do mundo, a todos mostrando que Deus existe, que Deus está,

que Deus habita no meio do seu povo, ontem, hoje e por toda a eternidade.


(juntamente com os fiéis)

Salve, Mãe do Senhor,

Virgem Maria, Rainha do Rosário de Fátima! Bendita entre todas as mulheres,

és a imagem da Igreja vestida da luz pascal, és a honra do nosso povo,

és o triunfo sobre a marca do mal.

Profecia do Amor misericordioso do Pai,

Mestra do Anúncio da Boa-Nova do Filho,

Sinal do Fogo ardente do Espírito Santo,

ensina-nos, neste vale de alegrias e dores, as verdades eternas

que o Pai revela aos pequeninos.


Mostra-nos a força do teu manto protector. No teu Imaculado Coração,

sê o refúgio dos pecadores

e o caminho que conduz até Deus.

Unido aos meus irmãos,

na Fé, na Esperança e no Amor, a Ti me entrego.

Unido aos meus irmãos, por Ti, a Deus me consagro,

ó Virgem do Rosário de Fátima.

E, enfim, envolvido na Luz que das tuas mãos nos vem, darei glória ao Senhor

pelos séculos dos séculos.

Ámen.

07 maio 2017

DESCRUCIFICAR É EVANGELIZAR

        1. Será que Deus é sádico, Jesus suicida e a Senhora de Fátima, para aliviar o Céu ofendido, sacrifica crianças inocentes?
Não tenho qualquer resposta para estas perguntas que regressam sempre como as gripes. Não as considero desprezíveis embora nem todos as formulam de forma tão brutal. Passada a euforia da visita do Papa à Cova da Iria essa questão tornar-se-á ainda mais aguda. Para erradicar a violência em nome de Deus, é fundamental desmascarar todos os lugares onde ela se disfarça. Ainda na Missa da quarta-feira da passada Semana Santa embati numa oração que renego: «Senhor nosso Deus, que, para nos libertar do poder do inimigo, quisestes que o Vosso Filho sofresse o suplício da cruz, concedei aos vossos servos a graça da ressurreição».
Será verdade que Deus, para nos libertar do poder do mal, precisava de fazer morrer o seu Filho no horror da cruz? Gostará Deus do sofrimento de quem mais ama? Poderá ser invocado como Deus um ser tão sádico?
        S. Paulo, na famosa Carta aos Romanos, tão celebrada por M. Lutero, para enfatizar a loucura do amor que Deus nos tem e, do qual, nada nem ninguém nos pode separar, atreve-se a escrever esta barbaridade: «Deus não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por nós todos»[i]. Será que Deus gosta mais de nós do que do seu próprio Filho? Não será este um amor perverso?
      No Evangelho de S. João, o Pai não exige nada a Jesus e aqueles que o matam pensam que o dominam, mas estão enganados: «ninguém me tira a vida, mas eu dou-a de mim mesmo»[ii]. Posição reforçada na Oração Eucarística II: «Na hora em que Ele se entregava, para voluntariamente sofrer a morte…».
        Aqui, tudo se complica ainda mais: ou Jesus fingia que sofria e  não sofria nada ou gostava de sofrer e, então, era um doente masoquista.  Pior ainda, um suicida para nos salvar.
       Ao fim e ao cabo: Jesus foi condenado por Deus ou por uma coligação de Herodes e Pôncio Pilatos?[iii]
       No cenário da Mensagem de Fátima, Deus, o Coração de Jesus e o Coração de Maria estão cravados de espinhos, feridos pelos pecados do mundo. Mas que ideia foi essa, tão pouco celestial, a de fazer com que crianças inocentes assumam a reparação dos estragos feitos pelos pecados dos adultos?[iv].
2. É verdade que na história do mundo, quase sempre paga o justo pelo pecador. Se essa desgraça não pode ter aprovação divina, muito menos pode ser Deus a exigir a morte do seu próprio Filho para perdoar as ofensas recebidas.
A teoria jurídico-teológica das exigências da reparação justa da ofensa feita a Deus, elaborada por Santo Anselmo adicionada à concepção do pecado original de Santo Agostinho, deixa Deus muito mal e desgraça Jesus Cristo. Foram tantos os estragos na imagem de Deus e na vida dos seres humanos, que o melhor é dispensar definitivamente essa teoria.
        Muitos textos[v], ao pretenderem que Jesus estava a realizar o desígnio de Deus, prefigurado no Antigo Testamento – não era um traidor - permitem leituras vesgas: se era Deus que O entregou, os adversários que o executaram estavam a cumprir a vontade de Deus! No entanto, em lado nenhum, Jesus se apresenta com a seguinte proposta: há muito sofrimento no mundo; eu venho para o alargar e intensificar. Não me parece que o Nazareno se tenha aconselhado com José Saramago para conceber, delinear e realizar a sua missão.
No Evangelho de S. Lucas, Jesus apresenta o seu programa, na sinagoga de Nazaré, servindo-se de uma passagem do profeta Isaías: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a boa nova aos mendigos; enviou-me a proclamar aos presos a libertação e aos cegos a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano aceitável da parte do Senhor»[vi].
A recepção imediata do público da sinagoga foi simpática, mas acabou mal. Porquê? O programa era bom. A ideia de um ano Jubilar estava prevista no Levítico (25). Convidava ao perdão de dívidas e à libertação dos escravos. A desgraça está nos pormenores. A primeira foi a de fechar o livro antes do tempo: suprimiu a passagem do dia da vingança de Deus. Isto era grave. Parecia que já mandava no texto sagrado. Como não queria nada com a ideia de um Deus de vingança, não leu essa passagem e pronto. A segunda foi pior do que a primeira: o que Isaías dizia do Messias estava a realizar-se nele, Jesus de Nazaré. Era pretensão a mais. «Encheram-se todos de fúria na sinagoga ao ouvirem as suas palavras», da fúria passaram aos actos, «expulsando-o da cidade, levaram-no ao cimo do monte sobre o qual a cidade estava construída, para o atirarem dali abaixo. Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho».
Os quatro Evangelhos cumprem o que diz o nome: Jesus é um amado de Deus que entrega a sua vida para que seja perfeita a alegria de todos. Nas últimas crónicas já apontei qual foi o caminho de Jesus. O seu programa recusava a dominação económica política e religiosa que crucifica a vida das pessoas, seja onde for. O amor ao sofrimento é doença; o esforço para procurar vencer o próprio sofrimento e o dos outros, nas suas causas e consequências, é amor da vida, é descrucificar[vii].
3. Nestas crónicas recusei-me sempre a responder à pergunta: que vem o Papa fazer a Fátima? Julguei que era melhor esperar para ver. Sabendo de quem se trata, alimento o secreto desejo de uma boa surpresa.
Entretanto descobri que o Papa Francisco publicou uma carta apostólica, em forma de Motu próprio, que transfere as competências sobre os Santuários para o Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização[viii]. É precisamente o que mais falta em Fátima: tornar-se um centro propulsor de saída para o mundo e não apenas de um altar de incenso.
     São ridículas as notícias colhidas ou veiculadas pelo Santuário sobre os cuidados com a figura do Papa, a sua indumentária para celebrar, o cálice de ouro, a pala para o resguardar do sol e outras futilidades do género. Parecem manifestar o propósito de neutralizar, na Cova da Iria, o que Bergoglio trouxe de novo: uma Igreja de saída para todas as periferias, com gosto da alegria do Evangelho, de uma evangelização nova, libertadora, descrucificante.
        Frei Bento Domingues, O.P.
       07.05.2017


[i] Rm 8, 31-39
[ii] Jo 10, 18
[iii] Act 4, 27-30; Cf. Simon Légasse/Peter Tomson, Qui a tué Jésus?,Cerf 2004; Nathan Leites, Le meurtre de Jésus moyen de salut?, Cerf 1982
[iv] Cf. Lúcia de Jesus, Memórias, Edição crítica de Cristina Sobral, Fátima 2016.
[v] Cf. Act. 2, 22-36 //
[vi] Lc 4, 16-30
[vii] Lc 7
[viii] L’ Osservatore Romano, 06.04.2017

30 abril 2017

INFERNOS NÃO FALTAM

           1. Pesadelos do Inferno, evidências do Purgatório e tristezas do Limbo faziam parte da paisagem religiosa da minha infância. As Alminhas do purgatório habitavam em dois nichos na minha aldeia. Suscitavam devoção e reciprocidade: «Vós, que ides passando, lembrai-vos de nós que estamos penando». As pessoas lembravam-se e, para tudo o que precisavam, a elas recorriam, sabendo que aliviavam as suas penas. Em favor delas não podiam fazer nada, mas, quando invocadas com promessas cumpridas, eram uma fonte de graças para todas as ocasiões. Não desempregavam Santo António ou S. Bento da Porta Aberta, mas estavam mais à mão. As esmolas que recolhiam serviam para mandar dizer missas pelas mais abandonadas. 
       Eram Alminhas pintadas. Um dos nichos ficou muito estragado e foi pedido a um habilidoso de muitas artes, que periodicamente passava por lá, para o repintar. Perguntou: querem ver as Alminhas a irem para o céu ou a continuarem no Purgatório? É claro, a irem para o céu. Veio um inverno rigoroso e a pintura desapareceu. O pintor não aceitou a queixa acerca da má qualidade das tintas. Tinham ido todas para o céu.
       O inferno era outra história. Por tudo e por nada, uma mãe zangada com os filhos (ou até com o gado), juntamente com um palavrão, exclamava: metes-me a alma no inferno! Não era grave. Grave, muito grave, eram os sermões de preparação para o “confesso”: quem não confessasse, com todas as circunstâncias, os pecados mortais e morresse nessa situação, ia direitinho para o Inferno. A alma caía num lago de fogo, atiçado por uma multidão de diabos feios e maus e nunca mais de lá saía. O relógio infernal repetia “sempre, nunca”: aqui entraste, aqui ficas e daqui nunca sairás!
       O inferno era eterno, mais eterno que o infinito amor de Deus que nada podia fazer contra essa Instituição. O diabo tinha vencido o Anjo da Guarda e o próprio Deus.
       Para as pessoas de bom senso, não havia lenha para tanta eternidade nem alma que aguentasse tanto fogo! Um bom caminho para a descrença: um deus que fabrica tais enormidades é inacreditável.
      O Limbo, nem triste nem alegre, para onde iam as crianças que morriam sem baptismo, era o além mais povoado, não passava de um eterno aborrecimento. Bento XVI encerrou-o sem protestos.
       2. Voltei a ler as Memórias da Lúcia de Jesus. O que diz acerca do inferno não excede o que também eu ouvi em criança: «Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fogo que parecia estar debaixo da terra. Mergulhados em esse fogo os demónios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras, ou bronzeadas com forma humana, que flutuavam no incêndio, levadas pelas chamas que delas mesmas saiam, juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das faúlhas em os grandes incêndios, sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizava e fazia estremecer de pavor. Os demónios distinguiam-se por formas horríveis e asquerosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes e negros»[1]. Como sugestão para um filme de terror, não está nada mal. Diz a Lúcia que a Jacinta perguntava: «porque é que Nossa Senhora não mostra o inferno aos pecadores? (…) Às vezes perguntava ainda. Que pecados são os que essa gente faz para ir para o inferno? Não sei, talvez o pecado de não ir à Missa ao Domingo, de roubar, de dizer palavras feias, rogar pragas, jurar. E só assim por uma palavra vão para o inferno? Pois! É pecado. Que lhes custava estar calados e ir à Missa? Que pena que eu tenho dos pecadores, se eu pudesse mostrar-lhes o inferno!»[2]
Passando da Terceira para a Quarta memória, há revelações curiosas. “Então Nossa Senhora disse-nos: não tenhais medo, eu não vos faço mal. De onde é vossemecê? Sou do Céu. E que é que vossemecê me quer? lhe perguntei. Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, no dia 13 a esta mesma hora, depois direi quem sou e o que quero. Depois voltarei aqui uma sétima vez. E eu, também vou para o Céu? Sim, vais. E a Jacinta? Também. E o Francisco? Também, mas tem que rezar muitos terços.
«Lembrei-me então de perguntar por duas raparigas que tinham morrido há pouco, eram minhas amigas e estavam em minha casa a aprender a tecedeiras com minha Irmã mais velha.
« A Maria das Neves já está no Céu? Sim, está. Parece-me que devia ter uns 16 anos. E a Amélia? Estará no purgatório até ao fim do mundo. Parece-me que devia ter 18 a 20 anos. Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em acto de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido, e de súplica pela conversão dos pecadores? Sim, queremos. Ides, pois, ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto»[3].
3. Nossa Senhora mostrou que era uma pessoa muito organizada e pouco supersticiosa com o dia 13. Estou um bocado desapontado com a pouca originalidade das suas revelações e pedidos. Por tudo o que li, parece-me que os Pastorinhos levaram para os locais do seu pastoreio o que rezavam em família, o que aprendiam no catecismo e nas pregações. Deviam ser crianças bastante impressionáveis. A revelação mais extraordinária é, também, a mais incrível: não bastando à Amélia ter sido violada, vir de Nossa Senhora a afirmação de que ficaria no Purgatório “até ao fim do mundo”, é de mais. Isso não se faz!
A edição crítica das Memórias de Lúcia de Jesus, as investigações históricas já realizadas e em curso, vão oferecer um panorama da vida e religiosidade da freguesia de Fátima que irão atenuando os delírios acerca destes fenómenos nomeados como aparições ou como visões.
O que mais falta não é só a revisão crítica da pastoral católica da época. Muitas das suas concepções alojaram-se na história de Fátima. Desamparada, em Portugal, de uma prática crítica de reflexão teológica até ao Vaticano II, e até muito depois, Fátima dá uma imagem do catolicismo português que não corresponde à reforma desencadeada pelo Papa Francisco.
Falta-lhe ser o centro da nossa evangelização, como veremos.
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público 30.04.2017



[1] Lúcia de Jesus, Memórias, Edição crítica de Cristina Sobral, Fátima 2016, pp.186-187.
[2] Ib., pp. 188-189.
[3] Ib., pp.230.

23 abril 2017

METAMORFOSES PASCAIS DO DESEJO (2)


          1. O filósofo Bertrand Russel não foi muito original ao destacar que os dois grandes desejos humanos são o poder e a glória. Podem realizar-se pelos caminhos da ilimitada vontade de dominação económica, política e religiosa ou pelo desenvolvimento dos próprios talentos em função da vontade de criar condições para que tenham todos iguais oportunidades.
        Em Portugal, a julgar pelas aparências, o grande desejo de poder e glória, de pais e filhos, é que ganhe o clube da sua paixão. Os mais devotos têm sempre os caminhos de Fátima à disposição. Se aparecer um Papa, é o segredo da glória, o desejo consumado.
      Em meados do séc. VI a. C., nasceu um príncipe desencantado, Siddharta Gautama, mais conhecido por Buda, o iluminado, viu-se confrontado com a pulsão avassaladora do desejo. No célebre discurso pronunciado em Benares, nas margens do Rio Ganges, teria sentenciado que a terceira “nobre verdade”, para acabar com a dor omnipresente, era indispensável abolir o desejo e os seus laços. Vale a pena perguntar: será o desejo uma doença ou uma bênção?
        O mundo do desejo, da fantasia, do afecto é de tal forma essencial ao psiquismo humano, que todas as outras faculdades é dele que recebem a sua energia. Nasce de uma falta estrutural no ser humano, não como uma maldição, mas como um infindo desassossego. Para Espinosa, a essência do ser humano é o desejo. Segundo Aristóteles, os desejos que não dependem da fisiologia, mas da razão, são ilimitados; os seres humanos desejam o infinito. S. Tomás de Aquino descobriu, nessa sede insaciável, o desejo natural de ver a Deus que não pode ser defraudado[1].
        Não há notícias de que Buda tenha influenciado o Nazareno, embora este também tenha mudado de rumo depois de uma divina iluminação. Já foram descobertas afinidades entre certas passagens dos evangelhos e algumas propostas da sabedoria budista, mas não são da mesma extracção. Jesus não era pela abolição do desejo, mas pela sua intensificação e metamorfose, isto é, pela sua conversão. O seu desejo mais ardente era colocar-se ao serviço do desejo libertador de Deus, alegria do mundo. Era vontade humana e divina de alteração radical da nossa sociedade.
       Os Evangelhos sinópticos mostram, no entanto, que ele teve de lutar contra tentações diabólicas infiltradas nos caminhos do advento e da configuração da era messiânica. Se era realmente o Messias tinha de o provar. Mediante acontecimentos espectaculares, transformações económicas, políticas e religiosas radicais, teria o mundo a seus pés.
       Jesus conhecia os desejos, os modelos, os grupos e os movimentos messiânicos que agitavam o povo a que pertencia e que, sem um poder absoluto, era impossível realizar os seus projectos. Percebeu também que, por esse caminho, tinha de renunciar à alma da sua alma: à experiência do Deus do puro amor e ao projecto de passar os marginalizados dos diversos poderes para o coração da sociedade.[2]
       2. As tentações supunham que conheciam bem a Deus, os apetites do coração humano e o projecto do Nazareno. Vencida a tentação, ficou o aviso: quando alguém invocar a Deus para O negar ou para O louvar é indispensável perguntar: qual é a experiência pessoal, existencial donde nasce essa negação, exaltação ou indiferença religiosa? Fora do contexto cultural, político e religioso que provoca essas atitudes, não podemos saber o que está a comandar o uso da palavra Deus.
       Na teologia de S. Tomas de Aquino, muito marcado pela teologia negativa do Pseudo-Areopagita, Deus só pode ser conhecido como infinitamente Desconhecido. A tentação permanente das religiões é a criação de deuses à imagem dos nossos desejos distorcidos para legitimar sociedades enlouquecidas pelas lutas da dominação económica, política e religiosa.
       Como vimos, Jesus disse radicalmente não às tentações messiânicas que o assaltaram, mas levou muito tempo a compreender a prontidão dos discípulos em abandonar tudo para o seguirem. O Evangelho segundo S. Marcos mostrou, com insistência, que Jesus os chamou para uma missão e o que eles desejavam era que o Nazareno tomasse mesmo o Poder e o resto era só conversa. Por isso, a discussão entre eles girava sempre em torno da futura distribuição dos cargos políticos. Um dia a tensão explodiu: os irmãos, Tiago e João, perderam o pudor e foram reclamar os dois primeiros lugares, o que indignou os outros dez.
       Perante essa situação, Jesus resolveu pôr tudo em pratos limpos: sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam e os seus grandes as tiranizam. Entre vós não deverá ser assim: ao contrário, aquele dentre vós que desejar ser grande, seja o vosso servidor e aquele que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos. Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida pela libertação de todos[3].
        3. O texto de S. Marcos deixou claro como devem ser as relações de poder na Igreja. Só dessa forma ela se pode tornar uma instância crítica dos poderes de dominação na sociedade.
       O que o Papa Francisco está a fazer na Cúria romana, com tantas resistências, é puro Evangelho. Já em 1969, o Cardeal Suenes denunciava o sistema que aprisiona o Papa e o torna cúmplice e solidário daquilo que ele não quer, tenha ou não a sua assinatura. É preciso conseguir libertar o Papa do sistema do qual há queixas há vários séculos, sem resultado. Porque, como Suenes frisou, ainda que os Papas mudem, a Cúria permanece.
     O poema do bispo Casaldáliga gritou: larga a cúria, Pedro,| desmantela o sinédrio e a muralha.| Ordena que se mudem| todas as filactérias impecáveis | em palavras vibrantes de vida.
Ao fim desta Quaresma, da Semana Santa e da Oitava da Páscoa, há um sabor amargo: tirando o Papa, quem, no mundo católico, nas dioceses, nas paróquias, nos conventos, se levantou contra os sinais de guerra que marcam o mapa do mundo?
        Repetiu-se: estar com o Papa é estar com a Igreja. Isto era quando os Papas não se comoviam com as dores dos mais feridos.
        Frei Bento Domingues, O.P. 
        in Público, 23.04.2017



[1] José Antonio Marina, Las arquitecturas del deseo, Anagrama, Barcelona, 2007; Juan Guillermo Droguett, Desejo de Deus. Diálogo entre psicanálise e fé, Vozes, Petrópolis 2000, pp. 13 e 139; Cipriano Franco Pacheco, O desejo natural da visão de Deus. Expressão de abertura humana ao transcendente, Romae, 2001;Teresa Messias, O desejo e a sua transformação no seguimento de Jesus. Uma leitura dos escritos de Sebastião Moore,Paulus,2017.
[2] Cf. Lc 4, 1-13; Mt 4,1-11; Mc 1,12-13
[3]  Mc 10, 35-45

16 abril 2017

METAMORFOSES PASCAIS DO DESEJO (1)

        1. Os textos do Novo Testamento (NT) não foram encomendados ou ditados, relidos ou corrigidos por Jesus Cristo. Surgiram em comunidades cristãs, depois da sua morte, para mostrar que o processo que O vitimou não podia ser arquivado. A coligação das autoridades romanas e judaicas, ao contrário das aparências, sob a capa de um julgamento, de facto, tinham decretado o assassinato de um inocente em nome de Deus e do Império[i].
      Os autores do NT, ao reabrirem o processo, não pretendiam rever uma questão jurídica do passado, mas testemunhar que estavam completamente enganados os que julgavam que o Nazareno e as suas propostas tinham uma pedra em cima, para sempre. Estava em curso, até ao fim dos tempos, a passagem agitada para uma nova era.
     Era difícil o caminho da realização da esperança. Mesmo depois da ressurreição, até os discípulos mais chegados, continuavam a alimentar concepções messiânicas que Jesus tinha expressamente rejeitado durante a sua vida terrestre. O autor dos Actos dos Apóstolos começa a sua obra narrando esse distorcido desejo pré-pascal: Estando reunidos, perguntaram-lhe: «Senhor, é agora que vais restaurar a realeza em Israel?»[ii]
    Jesus não lhes reconheceu competência sobre essa questão. Precisavam de outra lucidez e de outra energia para enfrentar os novos tempos: recebereis uma força quando o Espírito Santo tiver chegado sobre vós e sereis minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judeia e Samaria, até ao fim da terra[iii]. Os Actos dos Apóstolos desenharam um cenário  espantoso desse acontecimento: de repente, veio do céu um ruído semelhante a um vendaval, ficaram cheios do Espírito Santo, soltou-se-lhes a palavra e cada um os ouvia na sua língua materna.
      Ao espanto de uns respondia a chacota de outros: estão com os copos. Coube a Pedro explicar o que estava a acontecer e rematou o seu entusiasmado discurso com esta solene proclamação: Que toda a casa de Israel tenha a certeza de que esse Jesus que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo[iv].
       Ao ouvirem isto, diz o texto, trespassou-se-lhes o coração e disseram a Pedro e aos demais Apóstolos: que devemos fazer? Precisavam de uma viragem completa mediante a conversão, banho de Espírito Santo em nome de Jesus Cristo e partida para a missão universal.
      O profeta Joel já tinha escrito o poema para celebrar o que estava a acontecer: derramarei o meu Espírito sobre toda a carne. Os vossos filhos e as vossas filhas hão-de profetizar, os vossos jovens terão visões e os vossos velhos, com sonhos, sonharão[v].
      2. A pergunta subjacente a tudo o que foi dito é esta: quem tinha razão? Jesus ou aqueles que o mataram?
Procurar, hoje, uma resposta a essa pergunta não é para resolver um problema de há dois mil anos. Com o rodar do tempo e usando as mesmas palavras podemos estar a falar de realidades opostas ou que perderam o impacto que já tiveram.
       Se Jesus foi morto em nome de Deus, da religião e dos interesses do Império, é óbvio que importa redescobrir qual era a concepção que Ele tinha de Deus, da religião e dos interesses do império. Não é uma operação fácil.
    Os escritos do NT estão configurados por formulações teológicas, antropológicas e cristológicas muito diferentes. Nasceram de percursos de comunidades cristãs em contextos diversos. Temos de resistir à tentação de sistematizar ou enquadrar, numa visão unificadora, essas concepções. No entanto, na sua diversidade, nasceram da urgência de confrontar a vida pessoal e comunitária com as narrativas de experiências com Jesus Cristo, na convicção de que Ele está vivo e o seu Espírito, se for acolhido com fidelidade, suscitará atitudes criativas perante novas situações.    
    Passada a primeira febre apocalíptica paulina – a de organizar e preparar os cristãos para o fim do mundo[vi] – os textos destinam-se a preparar os discípulos, para enfrentar, com fidelidade, os novos desafios: acreditar e andar sem ver. Por isso, nunca poderão evitar a pergunta: Qual foi o percurso do Mestre?
      3. Jesus levou muito tempo a encontrar o seu próprio caminho: teve de romper com o amigo mais admirado, João Baptista; com as concepções e expectativas messiânicas dominantes, expressas nas tentações que o assaltaram e nunca o largaram até ao último momento.
      Não se dá o devido relevo à luta que teve de travar para romper com o caminho de João Baptista e sobretudo com as tentações messiânicas dominantes. Os quatro Evangelhos não são textos escolares, didácticos, professorais. São textos polémicos, precisamente, acerca da incompatibilidade entre as concepções e atitudes de Jesus, as dos discípulos e as dos adversários. Foram estas incompatibilidades que O levaram à cruz. Naquela sociedade sacral, a grande incompatibilidade nascia no seio da religião porque era ela que comandava tudo. Jesus não era um ateu, um agnóstico ou um sem religião. Aquilo que o enervava não era só a hipocrisia, que continuamente denunciou, mas verificar que o recurso às observâncias religiosas, ao nome de Deus e à sua vontade servia para classificar uns como santos e salvos e outros como pecadores e perdidos. Era uma luta teológica por causa de uma questão antropológica. Um Deus que é o consolo dos piedosos, dos ricos, dos poderosos e uma fonte de humilhação dos classificados como pecadores, por aqueles que estabeleciam as leis da santidade e as do castigo, era uma vergonha.
      O caso permanente era a sua polémica com o Sábado, uma instituição civilizacional fantástica – o ser humano não é só para trabalhar –, mas que foi transformada no dia da opressão, em nome de Deus. A insistência de Jesus em violar o sábado parecia uma actuação provocatória: escolhia, precisamente esse dia, para fazer o que estava proibido. Tinha uma razão altamente teológica, coincidente com uma razão profundamente humana: o dia consagrado a Deus tinha de coincidir com o dia da libertação das vítimas da doença interpretada como possessão diabólica, fruto do pecado. Um Deus que não é a alegria da vida, não é Deus. É um ídolo criado para justificar a dominação económica, política e religiosa, como veremos.
      Páscoa para os nossos desejos distorcidos. 
      Frei Bento Domingues, O.P.
      in Público 16.04.2017



[i] Act 4, 27-28.
[ii] Act 1, 6
[iii] Act 1, 8
[iv] Act 2, 36
[v] Act 2, 17-19
[vi] 1Tes.4, 9-18