04 dezembro 2016

COMUNICADO DO MOVIMENTO INTERNACIONAL NÓS SOMOS IGREJA

   O MOVIMENTO INTERNACIONAL NÓS SOMOS IGREJA - O SÍNODO DA JUVENTUDE DEVE SER PARTICIPADO POR JOVENS, FAMÍLIAS E PROFESSORES

O Movimento Internacional Nós Somos Igreja, que representa Católic@s de todo o mundo, empenhad@s numa Igreja justa e inclusiva, expressa a sua preocupação com os planos para o Sínodo dos Bispos, em 2018, que deliberará sobe a juventude, fé e vocações.

"Concordamos que é realmente importante que a Igreja Católica compreenda melhor as necessidades e perspectivas da juventude global, como diz o Papa Francisco ", disse Sigrid Grabmeier, Coordenadora do Nós Somos Igreja Internacional. "Eles são o futuro da Igreja e serão eles que terão de lidar com as complexas situações que enfrenta o nosso mundo. Contudo, há demasiados jovens que não se identificam com a Igreja, ou acham que é irrelevante ou mesmo destrutiva dos temas que os interessam.

"Para este Sínodo ter algum impacto, tem de ser muito diferente dos sínodos do passado". Grabmeier acrescentou ainda "Não será positivo se os bispos forem os únicos participantes, comentando o resultado dos questionários a que eles próprios e os seus colegas responderam. Este deve ser um acontecimento de toda a Igreja." 
Jovens, pais, avós, professores e mentores devem ser ouvidos na sua preparação e devem fazer parte do Sínodo. Se for apenas um grupo de homens velhos e celibatários a tomar as decisões não valerá a pena.

O Nós Somos Igreja pede ao Vaticano que reestruture o Sínodo para que os leigos, que são quem trabalha com a juventude, sejam parte integrante do processo de discussão e de tomada de decisões.
"Esta será a única maneira de o próximo Sínodo responder verdadeiramente às necessidades e ao potencial da nossa Igreja" concluiu Grabmeier                                                                                       

SEMEADORES DE MUDANÇA: POETAS SOCIAIS (1)


    1. Falar e escrever para calar os outros era uma tradição papal que João XXIII interrompeu. O exemplo não vingou, mas o Papa Francisco tem gosto em acolher, ouvir e partilhar a palavra seja com quem for, seja onde for. Não aceita que a Doutrina Social da Igreja continue a ser apenas a voz dos Papas.
    No passado dia 5 de Novembro, Bergoglio acolheu, em Roma, o 3º Encontro dos Movimentos Populares. No anterior, realizado na Bolívia, ficou claro que sem transformar as estruturas não é possível vida digna para as populações. A luta continua e entusiasma o argentino: “Vós, movimentos populares, sois semeadores de mudança, promotores de um processo para o qual convergem milhões de pequenas e grandes acções interligadas, de modo criativo, como numa poesia. Foi por isso que vos quis chamar poetas sociais”.
     O ritmo dessa poesia é marcado pelos passos da caminhada rumo a uma alternativa humana face à globalização da indiferença: 1. pôr a economia ao serviço dos povos; 2. construir a paz e a justiça; 3. defender a Mãe Terra.
    O discurso do papa é longo e multifacetado[1]. É uma antologia da vida dos movimentos populares na resistência à tirania. Esta alimenta-se da exploração do medo e do terror. Os cidadãos que ainda conservam alguns direitos são tentados pela falsa segurança dos muros físicos ou sociais. Muros que prendem uns e exilam outros. De um lado, cidadãos murados, apavorados; do outro, os excluídos, exilados, ainda mais aterrorizados.         Será esta a vida que Deus, nosso Pai, deseja para os seus filhos?

   2. Além de ser um bom negócio para os comerciantes de armas e de morte, o medo destrói as nossas defesas psicológicas e espirituais, anestesia-nos diante do sofrimento do próximo e torna-nos cruéis.
Quando se festeja a morte de um jovem, que talvez tenha errado o caminho, quando se prefere a guerra à paz, quando se propaga a xenofobia, quando propostas intolerantes ganham terreno, sabemos que por detrás de tal crueldade sopra o frio vento do medo.
    O Papa não esquece a capacidade mobilizadora da oração: peço-vos que rezeis por todos aqueles que têm medo. O próprio Jesus nos intima: Não tenhais medo[2]! Tende misericórdia. A misericórdia é muito melhor do que os remédios, antidepressivos e tranquilizantes. Mais eficaz do que muros, grades, alarmes e armas. E é grátis: uma dádiva de Deus.
   Bergoglio acredita que todos os muros, mas todos, vão ruir. «Continuemos a trabalhar para construir pontes entre os povos, pontes que nos permitam derrubar os muros da exclusão e da exploração». Enfrentemos o terror com o amor!

    3. O fosso entre os povos e as nossas actuais formas de democracia alarga-se cada vez mais, como consequência do enorme poder dos grupos económicos e mediáticos, que parecem dominá-las.
   Sei, diz o Papa, que os movimentos populares não são partidos políticos. Em grande parte, é nisto que se encontra a vossa riqueza. Exprimis uma forma diferente, dinâmica e vital de participação social na vida pública. Mas não tenhais medo de entrar nos grandes debates, na Política com letra maiúscula, e cito Paulo VI: «A política é uma maneira exigente — não a única — de viver o compromisso cristão ao serviço do próximo». Ou então a frase que repito muitas vezes e já não sei se é de Paulo VI ou de Pio XII: «A política é uma das formas mais altas da caridade, do amor».
    Frisa, então, dois riscos na relação entre movimentos populares e política: o de se deixarem encurralar e o de se deixarem corromper.
Não se deixar cercar, porque alguns dizem: a cooperativa, o refeitório, a horta agro-ecológica, as micro empresas, o projecto dos planos assistenciais... até aqui tudo bem.
    Enquanto vos mantiverdes no âmbito das «políticas sociais», enquanto não puserdes em questão a política económica ou a Política com «P» maiúsculo, sois tolerados. A ideia das políticas sociais concebidas como uma política para os pobres, mas nunca com os pobres, nunca dos pobres e muito menos inserida num projecto que reúna os povos, às vezes parece-me um carro de carnaval a esconder o lixo do sistema.
    Quando vós, da vossa afeição ao território, da vossa realidade diária, do bairro, do local, da organização do trabalho comunitário, das relações de pessoa a pessoa, ousais pôr em causa as macro relações, quando levantais a voz, quando gritais, quando pretendeis indicar ao poder uma organização mais integral, então deixais de ser tolerados. Estais a deslocar-vos para o terreno das grandes decisões que alguns pretendem monopolizar em pequenas castas. Assim a democracia atrofia-se, torna-se um nominalismo, uma formalidade, perde representatividade, vai-se desencantando porque deixa de fora o povo na sua luta diária pela dignidade, na construção do seu destino.
   Não estará o Papa a meter-se em seara alheia? Sem qualquer monopólio da verdade, deve pronunciar-se e agir face a «situações nas quais se tocam as chagas e os sofrimentos dramáticos, e nas quais estão envolvidos os valores, a ética, as ciências sociais e a fé».
    Continuaremos no próximo Domingo do Advento.
    Frei Bento Domingues, O.P.
    in Público 04.12.2016



   [1] O meu texto pretende chamar a atenção para o discurso do Papa. Não procura reproduzi-lo. Os recortes e as paráfrases são da minha responsabilidade.
    [2] Mt 14, 27 
     

27 novembro 2016

UMA NOVA REVOLUÇÃO CULTURAL

         1. O Ano litúrgico terminou com a carta apostólica Misericordia et Misera[1], do Papa Francisco, que marca o encerramento do Ano Jubilar da Misericórdia, mas não da misericórdia. Aproveitou para afirmar: “Quero reiterar, com todas as minhas forças, que o aborto é um grave pecado, porque põe fim a uma vida inocente, mas, com igual força, posso e devo afirmar que não existe nenhum pecado que a misericórdia de Deus não possa alcançar e destruir, quando encontra um coração arrependido que pede para se reconciliar com o Pai. (…) Para que não exista qualquer obstáculo entre o pedido de reconciliação e o perdão de Deus, concedo a partir de agora, a todos os sacerdotes, em virtude do seu ministério, a faculdade de absolver todas as pessoas que tenham incorrido no pecado do aborto."
É normal que os grandes meios de comunicação tenham realçado esta coroa da misericórdia. Mas Bergoglio procura integrá-la numa perspectiva mais envolvente, destacando acontecimentos, mensagens e figuras que são a própria respiração dos Evangelhos. Se ficasse por aí, continuávamos a olhar para a beleza de há dois mil anos: uma galeria da misericórdia do passado. Se ficássemos, apenas, com as expressões devocionais e sacramentais do Ano Jubilar não saíamos dos espaços e dos ritmos do culto católico. A misericórdia não se exerce apenas, nem sobretudo nas missas, em resposta à carinhosa exortação saudai-vos na paz de Cristo!
2. Nesta carta, Bergoglio assume todas as dimensões do que tem sido a sua intervenção desde que foi eleito Papa, a começar pelo salto que é preciso dar desde a prática de Jesus até aos nossos dias: ”Ainda hoje, populações inteiras padecem de fome e sede. Imagens de crianças que não têm nada para se alimentar percorrem o mundo. Multidões de pessoas continuam a emigrar à procura de alimento, trabalho, casa e paz. As doenças são um permanente motivo de dor e aflição que requerem ajuda, consolação e apoio. Muitas vezes, os estabelecimentos prisionais, além da pena de privação da liberdade, devido às suas condições, são fonte de desumanidade. O analfabetismo ainda é enorme. Impede as crianças de se formarem, expondo-as a novas formas de escravidão. A cultura do individualismo exacerbado, sobretudo no Ocidente, leva a perder o sentido de solidariedade e responsabilidade para com os outros. O próprio Deus continua a ser hoje um desconhecido para muitos; isto constitui a maior pobreza e o maior obstáculo para o reconhecimento da dignidade inviolável da vida humana. Por isso, as obras de misericórdia constituem um evidente valor social. Impelem a arregaçar as mangas para restituir a dignidade a milhões de pessoas que são nossos irmãos e irmãs».
Somos, por isso, chamados a fazer crescer uma cultura de misericórdia, uma cultura na qual ninguém olhe para o outro com indiferença, nem vire a cara quando vê o sofrimento dos irmãos. As obras de misericórdia são «artesanais»: nenhuma delas é cópia da outra, são a possibilidade de criar uma verdadeira revolução cultural.
Pelos vistos, o Papa continua fiel às exigências dos seus três tês: terra, trabalho e tecto. São as condições mínimas de respeito pela dignidade das pessoas, mas não só. A sua criatividade simbólica encontra sempre gestos realistas para abrir o futuro. Como ele próprio diz, à luz do «Jubileu das Pessoas Excluídas Socialmente», celebrado quando já se iam fechando as Portas da Misericórdia em todas as catedrais e santuários do mundo, intuí que, como mais um sinal concreto deste Ano Santo extraordinário, se deve celebrar, em toda a Igreja, na ocorrência do XXXIII Domingo do Tempo Comum, o Dia Mundial dos Pobres.
3. Tudo isso e muito mais, que não cabe nesta crónica, foi escrito na Solenidade de um Rei, coroado de espinhos e cruxificado, imagem do mundo, no Ano do Senhor de 2016, quarto do seu pontificado.
O profeta Isaías, a grande figura profética do Advento, lançou um novo desafio ao Papa Francisco: convocar a Igreja, as Igrejas, as outras religiões, os sem religião, os agnósticos e os ateus para acabar com as indústrias da guerra. Diz o profeta: converterão as espadas em relhas de arado e as lanças em foices. Não levantará a espada nação contra nação, nem mais se há-de preparar para a guerra[2].
Nada disto acontecerá só porque se sonhou, nem por qualquer decreto das Nações Unidas. Mas quando se deixar de sonhar, quando se deixar de responsabilizar as Nações Unidas e cada um dos países do mundo, quando se deixar de apelar à conversão das pessoas, de cada um de nós, por se julgar que tudo isto são utopias, é porque já desistimos da humanidade, dos seus pequenos e grandes passos e, os cristãos ter-se-ão perdido de Cristo, nossa Paz, esperança do mundo.
 Começou hoje o Advento, recomeçaram os trabalhos do futuro.
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público 27.11.2016


[1] As citações e as paráfrases deste documento são da minha escolha e responsabilidade
[2] Is 2, 1-5 

20 novembro 2016

NÃO INVOCAR O NOME DE DEUS EM VÃO

            1. Apesar do Papa Francisco e das suas intervenções carregadas de humanidade divina, o fundamentalismo religioso, mesmo no seio da Igreja católica, não desarma. Panfletos como o da folha dominical de uma paróquia da Califórnia - votar no Partido Democrata é pecado mortal; declarações como a do padre italiano à emissora católica Rádio Maria- os sismos, em Itália, são um castigo divino pelas uniões civis dos homossexuais, ou as expressas à revista Família Cristã pela responsável da Associação de Psicólogos Católicos - um filho homossexual é como ter um filho toxicodependente, são afirmações que não pecam por muito inteligentes. Infelizmente há outras mais tóxicas. Cresce um mal-estar muito vasto não só em relação ao tom e ao conteúdo fundamentalista das homilias dominicais, como acerca das desastradas atitudes no acolhimento aos pedidos de baptismo e de casamento. Em certos casos, em vez de constituírem uma oportunidade de evangelização, resultam em afastamento e azedume contra a Igreja.
Talvez mais perigoso ainda, sob todos os pontos de vista, é o populismo político que tomou proporções alarmantes com a eleição do pobre Trump. Geralmente, há sempre queixas por os eleitos não cumprirem as promessas eleitorais. Neste caso, até os republicanos gostariam que ele não as cumprisse todas. O homem é um susto e a aliança com o Putin faz aquecer a guerra fria. A Europa, que teve momentos de lucidez, já não tem certezas de nada. Tudo pode acontecer.
Com perspectivas diferentes, existe uma curiosa coincidência de desassossego entre os textos de encerramento do ano litúrgico e os textos políticos do Público[1] desta segunda-feira, em que escrevo.
2. Não vou regressar ao meu texto do Domingo passado. Dizem-me que gozei com a exclusão definitiva das mulheres ao sacerdócio, embora pelo baptismo sejam tão sacerdotes como os homens. As minhas razões eram e são de ordem teológica. Não são apenas minhas, que não teriam importância nenhuma. Como diz Edward Schillebeeckx[2], seguindo Tomás de Aquino, não temos nenhum conceito adequado para falar de Deus. A nossa linguagem é e permanece limitada. É uma linguagem terrestre para coisas terrestres.
Deus é inexprimível: nós não sabemos o que é Deus em si mesmo; dele captamos, apenas, um esplendor fraco através do mundo criado e no decurso da nossa história no mundo, história feita de acontecimentos felizes e de tragédias. Não é só o Deus incognoscível, mas também as expressões ou os dogmas sobre Deus que pertencem, à sua maneira, ao objecto da fé. Isto não implica, porém, de modo nenhum, que devam ser tratados em pé de igualdade.
A auto-revelação de Deus é dada em experiências humanas interpretadas. Nunca temos acesso à “Palavra de Deus” de modo imediato. Estritamente falando, a Bíblia não é a Palavra de Deus, mas um conjunto de testemunhos de fé de crentes que se situam numa tradição particular da experiência religiosa. É por isso que E. Schillebeeckx, no uso litúrgico, utiliza, o menos possível, a conclusão solene: “palavra do Senhor”, precisamente porque Deus nunca fala assim. São crentes que falam.
Isto significa que, se em todo o dogma uma verdade se exprime de facto, fá-lo, no entanto, sempre de modo defeituoso e historicamente condicionado. Enquanto expressão verbal da fé, o dogma pode mudar no decurso do tempo. A partir das nossas questões, a fidelidade ao Evangelho e aos dogmas da Igreja pode, por vezes, exigir de nós romper com a imagem ultrapassada do ser humano e do mundo, na qual a verdade evangélica foi outrora expressa.
Há aí uma missão importante de diálogo no seio do cristianismo, missão que constitui uma missão própria para os teólogos. O que nos é transmitido a partir do Antigo e do Novo Testamento são interpretações de experiências de Deus. Ora, experiências não podem ser comunicadas a outros enquanto experiência. Cada geração deve, ela mesma e de modo pessoal, fazer a experiência. A experiência cristã de Deus também não pode ser transmitida. Podemos apenas permitir que essas expressões e descrições se abram, em nós, como experiência pessoal. Só a partir do ponto de falhanço de todas as nossas palavras é que podemos falar do mistério divino. Mas nessa palavra, decifração rigorosa e tacteio razoável no seio das possibilidades culturais de compreensão, o Deus vivo já “se dirigiu” silenciosamente a nós, antes mesmo de termos podido exprimir a nossa experiência. São experiências humanas que são, no entanto, realmente suscitadas pelo Deus incompreensível, esse Deus activo, embora não intervenha nem se imponha.
3. E. Schillebeeckx, neste texto, como em várias das suas obras, diz as razões pelas quais um dogma pode mudar. A sua expressão já não serve para defender o que estava em causa quando foi formulado. Mas se um dogma pode mudar, quanto mais uma declaração que só é definitiva porque foi declarada como tal, mesmo que pretenda interpretar uma tradição secular.
Em qualquer caso, não podemos usar o nome de Deus em vão como legitimação das afirmações, frutos da nossa responsabilidade ou irresponsabilidade.
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público, 20.11.2016



[1] Público 14.11.2016
[2] A Identidade Cristã: Desafio e Desafiada, in Deus no século XXI e o futuro do cristianismo (coor. Anselmo Borges), Campo das Letras, 2007, pp 409-411. O texto de E. Schillebeeckx interpreta duas referências fundamentais da Summa Theologiae, I. q. 1. a 7. ad 1; II-II. q. 1. a. 2, c. São da minha responsabilidade os recortes, as divisões e a pontuação das transcrições do texto de E. Schillebeeckx, para facilitar a sua leitura.

13 novembro 2016

UMA PROVOCAÇÃO TEOLÓGICA

1. Existe uma comissão nomeada pelo Papa Francisco para estudar a hipótese de as mulheres serem ordenadas diaconisas. Christiana Martins[i] publicou, a esse propósito, uma longa entrevista. Refere que “o Expresso contactou três membros da Comissão de Estudo sobre o Diaconado Feminino: Phyllis Zagano, leiga e teóloga da Universidade de Hofstra, nos EUA; a catalã Nuria Calduch-Benades, da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma; e Mary Melone, a primeira reitora do Instituto Antoniano. Responderam dizendo estar obrigadas ao sigilo e remeteram qualquer comentário para o Arcebispo Luis Ladaria Ferrer, jesuíta, que preside à comissão e é o número dois da Congregação para a Doutrina da Fé”.
A composição da Comissão é saudavelmente paritária: seis homens, bispos e sacerdotes, e seis mulheres, religiosas e leigas. Logo à partida, temos quem actualmente conta e quem pouco vale.
Entretanto, o Papa Francisco, no regresso da sua viagem à Suécia, que tem à frente da própria Igreja uma mulher, foi interrogado por uma jornalista: “que pensa disto? É realista pensar em mulheres-padres também na Igreja Católica, nas próximas décadas? E se não, porquê? Os padres católicos têm medo da concorrência?”
Resposta do Papa Francisco “Quanto à ordenação de mulheres na Igreja Católica, a última palavra clara foi dada por São João Paulo II, e esta palavra permanece”.
O Papa entregou-se então, em estilo muito indirecto, a considerações de intuição pessoal sobre “a dimensão petrina, que é a dos apóstolos – Pedro e o colégio apostólico, a pastoral dos bispos – e a dimensão mariana, que é a dimensão feminina da Igreja. Já disse isto mais do que uma vez. Pergunto-me quem é mais importante na teologia e na mística da Igreja: os apóstolos ou Maria? Quem é mais importante no dia de Pentecostes? É Maria! Mais ainda: a Igreja é mulher. É «a» Igreja, não é «o» Igreja. É a Igreja; e a Igreja desposa Jesus Cristo. É um mistério esponsal. E, à luz deste mistério, compreende-se o motivo destas duas dimensões: a dimensão petrina, isto é, episcopal, e a dimensão mariana, com tudo aquilo que é a maternidade da Igreja, mas em sentido mais profundo. Não existe a Igreja sem esta dimensão feminina, porque ela própria é feminina”.
Esta secundarização da hierarquia não é apenas uma saída entre os pingos de chuva face à armadilha de João Paulo II. De facto, já Tomás de Aquino[ii] sustentava que o mais importante na lei nova é a graça do Espírito Santo. O resto é só para ajudar.
2. Espanta-me que a Comissão de Estudo sobre o Diaconado Feminino seja tão exígua e de representatividade eclesial muito desnivelada, a nível dos ministérios ordenados. Seja qual for o resultado, nunca poderá ser invocada a sua ampla representatividade democrática. Se for uma provocação a multiplicar iniciativas no conjunto da Igreja, para detectar o sensus fidelium, bendita seja.
O Papa Francisco não pode dizer que João Paulo II não disse que a ordenação sacerdotal estava exclusivamente reservada aos homens e que esta posição devia ser definitivamente acatada por todos os fiéis da Igreja. Isto foi expressamente decidido para estancar o debate.
Aliás, não deixa de ser curioso que a nota de apresentação da Carta apostólica Ordinatio sacerdotalis (22.05.1994) venha esclarecer que o Papa não disse nada de novo, que “não se trata de uma nova formulação dogmática”. Até mantém a esperança de que “constitua uma ocasião para todos os cristãos aprofundarem a inteligência da origem e da natureza teológica do ministério episcopal e sacerdotal conferido pelo sacramento da Ordem”.
O Cardeal J. Ratzinger, como Prefeito para a Congregação para a Doutrina da Fé, veio reafirmar, num extenso arrazoado, que a declaração de João Paulo II não proclama nenhuma doutrina nova. Parece-me que só tem meia razão. Traz uma característica curiosa: nada de novo e o passado é definitivo, não há futuro ou o futuro será a intemporal repetição do passado. Será que a História da Igreja acabou? Jesus Cristo tinha dito vereis coisas maiores. De facto, não vereis nada. Já está tudo visto.
Porque andavam cristãos a ter dúvidas sobre a impropriamente chamada Ordenação sacerdotal reservada aos homens, foi-lhes dito, na segunda metade do séc. XX: não tenham dúvidas. Já está tudo resolvido, parem a inteligência da fé, não procurem saber como tudo isso pode ser. Não procurem interpretar os Sinais do Tempo, não há tempos novos.
3. A discussão dos Ministérios Ordenados na Igreja é muito curiosa: para ordenar homens casados, dizem que não há nenhum obstáculo dogmático. Para deixar continuar no ministério presbiteral os que decidem casar – e dispondo já de prática pastoral – também não há obstáculo dogmático, mas nem pensar! Para as mulheres há obstáculos de tradição. O resultado é todo o mesmo. O povo cristão, com direito à Eucaristia, é privado, em muitos lugares, da sua celebração. Tudo isto porque o Sacramento da Ordem já não sabe para que lado se há-de virar.
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público, 13.11.2016



[i] Jornal Expresso, 05.11.2016, pp 24-25

[ii] ST, I-II, q. 106-108


06 novembro 2016

A Igreja e a Política: que Igreja e que política? (3)

           1. Insisto neste longo e interrogativo título. Tanto no passado como na actualidade, o uso destas palavras está carregado de sentidos contraditórios. Existem muitas Igrejas. Quando se fala da Igreja Católica, muitos teimam, esquecendo o Vaticano II, em referir-se, apenas, à hierarquia eclesiástica: Papa, Cúria Romana, Cardeais, Bispos e Padres, deixando de fora a quase totalidade da Igreja. Aconteceu, entretanto, algo de muito estranho: chegou um Papa a mostrar que isso está completamente errado.

        Como a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, (A Alegria do Evangelho, 2013), do Papa Francisco, é muito incómoda, procura-se fazer de conta que é um desabafo irrelevante, sem consequências. Mas ele quis deixar escrito que se trata de um documento programático e de consequências importantes, dirigido a cada cristão.

        Não se trata de uma vontade de poder, de auto-afirmação, de quem quer, pode e manda, apoiado na infalibilidade pontifícia. É precisamente essa mentalidade que ele procura desterrar. A Igreja é o NÓS de todos os cristãos e é precisamente isto que Bergoglio lembra, em todas as circunstâncias, a todas as pessoas e grupos, combatendo, sem tréguas, o clericalismo sempre renascente.

        Sabe que é preciso um longo caminho para uma Igreja de saída dos seus hábitos inveterados. “Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Repito aqui, para toda a igreja aquilo que muitas vezes disse aos sacerdotes e aos leigos de Buenos Aires: prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja doente, fechada, comodamente agarrada às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada em ser o centro. Acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos.”[i]

        Tem o cuidado de avisar que se alguém se sentir ofendido com as suas palavras “saiba que as exprimo com estima e com a melhor das intenções, longe de qualquer interesse pessoal ou ideologia política. A minha palavra não é a de um inimigo nem de um opositor. A mim interessa--me apenas procurar que quantos vivem escravizados por uma mentalidade individualista, indiferente e egoísta possam libertar-se dessas cadeias indignas e alcancem um estilo de vida e pensamento mais humanos, mais nobres, mais fecundos, que dignifiquem a sua passagem por esta terra.”[ii]

        2. Ao partilhar as suas preocupações sobre a dimensão social do Evangelho, recorda que os ensinamentos da Igreja acerca de situações contingentes estão sujeitos a maiores ou novos desenvolvimentos e podem ser objecto de discussão.

Sem pretender entrar em pormenores, não pode evitar ser concreto e ficar, apenas, nos grandes princípios sociais, em meras generalidades que não interpelam ninguém. É preciso tirar consequências práticas, para que também possam incidir, com eficácia, nas complexas situações actuais.

       Ninguém pode exigir que se relegue a religião para a intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influência na vida social e nacional, despreocupada com a saúde das instituições da sociedade civil e sem se pronunciar sobre os acontecimentos que interessam os cidadãos. No entanto, Francisco sublinha que nem o Papa nem a Igreja possuem o monopólio da interpretação da realidade social ou da apresentação de soluções para os problemas contemporâneos[iii].

       3. Convém não se esquecer que a referida Exortação Apostólica se dirige aos membros da Igreja. Nesta, ninguém se pode manter longe dos pobres, em nome de outras incumbências, mas é a desculpa mais frequente nos meios académicos, empresariais e, até, eclesiais.

       O capítulo dedicado à dimensão social da evangelização, não pode ser aqui resumido, mas o Papa quis ser muito concreto: não se pode continuar a confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado. O crescimento equitativo exige algo mais do que o crescimento económico, embora o pressuponha. Requer decisões, programas, mecanismos e processos especificamente orientados para uma melhor distribuição dos rendimentos, criando novas oportunidades de trabalho, que superem o mero assistencialismo.

       Adverte que não propõe um populismo irresponsável, mas a economia não pode recorrer a remédios que sejam um novo veneno, como quando pretende aumentar a rentabilidade, reduzindo o mercado de trabalho e criando assim novos excluídos[iv].

       A proposta de Francisco é directamente política: peço a Deus que cresça o número de políticos capazes de entrar num autêntico diálogo que vise, efectivamente, sanar as raízes profundas e não a aparência dos males do nosso mundo.

       A política, tão denegrida, é uma sublime vocação. É uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem-comum. Neste ponto, o Papa citava um documento dos Bispos franceses sobre a reabilitação da política (1999). Entretanto, muita coisa mudou em França e no mundo o que provocou outro documento sobre a urgência em reencontrar o próprio sentido da política. A laicidade francesa também está em evolução. O Conselho de Estado recomenda a autorização de Presépios nas Câmaras Municipais, não como culto, mas como cultura.

       Poderá a reforma que Francisco propõe para a Igreja deixar a política indiferente?

Frei Bento Domingues, O.P.

in Público 06.11.2016


[i] Cf. EG nº 49

[ii] Cf.EG nº 208

[iii] Cf. EG nºs 182 - 184

[iv] Cf. EG nº 204


30 outubro 2016

A Igreja e a Política: que Igreja e que política? (2)

       
1. Continuando, como prometemos, na temática do Domingo passado, lembro o que escreveu José M. Mardones[1]: depois das revoluções norte-americana e francesa, do século XVIII, marcos da modernidade, a religião abandonou o campo da política. Tinha deixado de ser necessária para legitimar o que podia ser perfeitamente legitimado pela razão humana. Ergueu-se, então, um muro entre Igreja e Estado, muito fino na América e uma separação abrupta e violenta na Europa. A partir daí, os crentes sentiram muitas vezes a tentação, não de trabalhar no âmbito da política, mas de politizar a religião e de religiosizar a política.
Emilio Garcia Estébanez estudou, de forma crítica, o percurso ocidental, desde Platão até aos nossos dias - passando por Aristóteles, os Estóicos, Sto. Agostinho, S. Tomás e Maquiavel, etc. - das relações entre ética e política[2]. Procurou esclarecer a ambiguidade da noção de bem-comum, muito celebrada na Igreja Católica.
Para este filósofo e teólogo, o pensamento ético-político dos estóicos constituiu um dos mais completos da antiguidade, ainda que o seu forte tenha sido a ética. A respeito desta, do ponto de vista histórico, pode-se dizer que eles alcançaram o mais alto nível prático e teórico a que chegou a filosofia moral pagã. Isto pode afirmar-se não apenas em termos relativos, mas também em termos absolutos: a escola estóica, real e objectivamente, construiu um sistema quase perfeito de moral natural, quanto aos seus elementos essenciais.
Em política, a sua concepção sobre a igualdade de todos os seres humanos e o seu universalismo social constituiu, unida às elaborações do mesmo género dos seus antecessores, um corpo completo de doutrinarismo político. Os elementos da doutrina política de Platão e de Aristóteles, enquadrados pela doutrina estóica, teriam criado o panorama político ideal, pouco menos que perfeito. Parece, a esse autor, que o conjunto que poderia ser formado por aqueles sistemas, devidamente articulados, ainda não foi superado por nenhum outro sistema. Além disso, os Estóicos puseram como fundamento de todo o seu filosofar um princípio realmente exacto e frutífero: viver em sintonia com a natureza. Num mundo sem revelação sobrenatural como garantia, o caminho para chegar à verdade consiste em interrogar, com honestidade e sem preconceitos, a natureza.
2. Sto. Agostinho negou que os pagãos pudessem ser virtuosos. Se fosse possível, sem a fé, alcançar a justiça, Cristo teria morrido em vão. Não agiam pelo verdadeiro fim, isto é, para agradar a Deus, pois o único Deus é o dos cristãos. Não basta actuar com energia, constância, afrontando com valentia penas e perigos. É preciso fazer tudo isso pelo Deus verdadeiro. Acusaram Sto Agostinho de dizer que as virtudes dos pagãos eram, apenas, esplêndidos vícios. Nunca o disse expressamente, mas, segundo Estébanez, quem tirou essa conclusão estava na linha das suas invectivas contra os pagãos. Sto Agostinho recusou a existência de uma ética natural.
A doutrina política deste grande génio era uma consequência lógica das suas concepções morais. A finalidade do Estado consiste em promover, sobretudo, o culto divino, cuidar dos bons costumes e práticas dos seus membros, de modo que em nenhum momento se ofenda o Deus verdadeiro. Juntamente com esta, enumera outras finalidades, tais como, manter a paz interior e exterior, promulgar leis que tenham em conta uma justa partilhar dos direitos e deveres, velar pela guarda das leis mediante a aplicação de castigos.
A ideia agostiniana do Estado estava marcada pela convicção de que este deve ser antes de tudo cristão, nos seus membros, na sua actividade e nos seus interesses. Sem esta orientação, degenera num bando de ladrões. A ideia de que o Estado deve, inclusive, aplicar os seus meios específicos, a força, para promover o bem espiritual está a um passo. Sto Agostinho deu esse passo.
Acerca da doutrina política desse grande Doutor da Igreja, S. Tomás de Aquino teve a habilidade de o interpretar num sentido diametralmente inverso. Adopta, sem mais explicações, a definição que Cícero deu do Estado e que Agostinho tinha rejeitado categoricamente.
3. Desde a antiguidade pagã, desde o regime de cristandade, desde as revoluções da Modernidade muita coisa mudou. A melhor de todas foi a Declaração dos Direitos e Deveres Humanos. A globalização, ao não ser a mundialização da solidariedade, nem sempre os respeita e promove. Em 2014 os refugiados já eram 19,5 milhões e 38,2 milhões de deslocados.
A guerra fria regressou mesmo no combate ao DAESH. O panorama político tanto nos EUA como na Rússia, a situação anémica da UE e as ambições da China levantam a pergunta: estaremos a construir um mundo onde haja lugar para todos, em diálogo e cooperação?
Depois de, na Europa, se terem mandado as religiões para a sacristia, para não perturbar a política e a política não perturbar as religiões, estas apresentam-se inopinadamente na praça pública em trajes e armas pouco convencionais.
É preciso repensar tudo, de fio a pavio, e ensaiar outros caminhos. Será isso que pretendem os Bispos franceses? Veremos.
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público, 30.10.2016


[1] Fe y Política, Sal Terrae, 1993, Bilbao
[2] El bien común y la moral política, Herder, Barcelona, 1970