23 setembro 2018

NÃO VARRER A CASA AO DIABO (1)

     
1. As narrativas do Novo Testamento insistem em dizer que a linguagem que o Nazareno preferia era a das parábolas. É muito incómoda porque não se lhe pode fixar um sentido único. Muitos cristãos lamentaram, e ainda lamentam, que os autores dos textos dos Evangelhos tenham perdido tempo com histórias enigmáticas. Seria preferível um catecismo, com uma mensagem bem precisa e um catálogo de deveres e proibições, válidos para todos os tempos e lugares. A história da Igreja seria construída de forma linear, sem altos nem baixos, serena como uma pedra. O zero seria o seu único número.
Não foi assim que aconteceu. Jesus abriu uma nova Era de criatividade. Não fechou a história dos povos e das culturas. As parábolas são contra a clausura do sentido dos gestos e das palavras. Todas, porém, encerram inesgotáveis possibilidades de construir a vida humana, individual e social, no horizonte da busca da felicidade, encontrando-a não só na alegria que se recebe, mas, sobretudo, na que se dá. Os Actos dos Apóstolos atribuíram a Jesus uma expressão incrível: há mais alegria em dar do que em receber. Nos Evangelhos já existia uma lei paradoxal: quem ganha (à custa dos outros), perde e quem perde para que os outros possam viver, ganha.
Vem isto a propósito de uma parábola sobre a reforma das diversas cúrias eclesiásticas: «Quando o espírito maligno sai de um homem, vagueia por sítios áridos, em busca de repouso e não o encontra. Diz então: ‘Voltarei para a minha casa, donde saí. Ao chegar, encontra-a livre, varrida e arrumada. Vai, toma outros sete espíritos piores do que ele e, entrando, instalam-se nela. O estado final daquele homem torna-se pior do que o primeiro. Assim acontecerá também a esta geração má[i]
Ao ler e ouvir certas propostas para o Papa limpar o Vaticano, de uma vez por todas, lembro-me desta parábola. Bergoglio chegaria com toda a sua energia e, como grande inquisidor, punha na rua, de alto a baixo e de baixo ao alto, toda a gente do Vaticano e fechava-o para obras. Depois, usando da sua infalibilidade, povoaria aquele Estado só de gente santa e fiel. A sua infalibilidade seria o equivalente à inteligência artificial de robots.
De facto, continuou numa história de humanos, mas com o intuito incontornável de tornar tudo diferente. Não era uma renúncia à reforma nem uma cedência perante as resistências e oposições, de dentro e de fora da Igreja. Em vez de invocar a infalibilidade pontifícia e de pedir que lhe chamassem Santo Padre, optou por propor o estudo e a análise de todas as situações e considerou-se membro de uma Igreja sempre a reformar, feita de santos e pecadores. Situou-se sempre entre estes últimos. Nada disto significava um processo de inibição. Era uma nova forma de coragem: a Igreja não é minha, eu sou da Igreja de todos e eleito Papa para a Igreja de todos. Nem quero que ela continue na mesma, nem eu. Estamos na mesma barca de conversão.
Conhecia e conhece o que foram os trabalhos de Jesus com os seus discípulos. A glória do Crucificado não foi a de ter êxito, mas a de não trair, mesmo diante das piores ameaças.
Não estou a comparar o Papa a Jesus Cristo. Ele próprio acharia isso ridículo. Pretendo sublinhar, apenas, que o caminho seguido pelo Papa Francisco exige o envolvimento de toda a Igreja.
2. Não se pode negar que os adversários e opositores dos caminhos de Bergoglio, em relação à sociedade e à vida interna da Igreja, não o tenham ajudado a sentir a necessidade urgente de estudar métodos que responsabilizem toda a Igreja pelo seu futuro, como sinal e instrumento de transformação da sociedade. Igreja-Sacramento.
Estava a tornar-se perigosa uma convicção falsa e muito divulgada: a reforma da Igreja e das cúrias é uma utopia do Argentino desenraizado. Cresceu com ele e com ele morrerá.
Se havia muitos católicos impacientes com o silêncio dos seus bispos, outros, conscientes de que a Igreja é de todos,  a responsabilidade pelo seu presente e pelo seu futuro não precisa de ser delegada. Alguns começaram a manifestar, de diversas formas, o que lhes ia na alma.
Entre vários textos, importa referir, pelo seu carácter colectivo, a carta da Conferência dos Baptizados/as[ii] aos bispos da Igreja de França.
Destaco uma passagem onde existe um apelo à convocatória de um congresso, cujo objectivo seria, ao nível da França, «passar de uma participação facultativa e consultiva dos leigos – homens e mulheres evidentemente! – a uma presença efectiva nos locais de tomada de decisão, de acordo com modalidades a discutir. É o sacerdócio comum dos fiéis, o único citado no Novo Testamento que deve ser não apenas reabilitado, mas no futuro, colocado no próprio centro de decisão ».  
Em paralelo, considera que um "Concílio do Povo de Deus" é incontornável para rever, em profundidade, as relações entre sacerdotes e leigos, para reformular o ministério ordenado que, nas condições disciplinares em que é actualmente exercido, levou aos excessos que conhecemos[iii].
3. Falta, em Portugal, um estudo sobre as atitudes e o comportamento dos católicos portugueses em relação ao Papa Francisco e aos seus desígnios. Conhecemos a clara posição do Nós Somos Igreja e de algumas personalidades. Entretanto, há novidades em curso para o governo da Igreja. No passado dia 18, o Papa publicou a constituição apostólica Episcopalis Communio (Comunhão Episcopal) com a qual reforça o papel do Sínodo dos Bispos, sublinhando a importância de continuar a dinâmica do Vaticano II.
O Papa tem o cuidado de sublinhar: apesar de se configurar como um organismo essencialmente episcopal, o Sínodo dos Bispos não vive separado do resto dos fiéis, mas pelo contrário deve ser um instrumento adequado para dar voz a todo o povo de Deus.
O Papa não é o diabo como os tradicionalistas pensam, nem vai deixar o diabo à solta na Igreja, como desejam. Como?
É assunto para o próximo Domingo.
Frei Bento Domingues, O.P.
23.09.2018


[i] Mt 12, 43-45
[ii] Conférence des baptisé-e-s, Anne Soupa, presidente
[iii] Cf também Lettre au pape François de 31 Agosto 2018,

16 setembro 2018

O PAPA NÃO ESTÁ SÓ!

     
1. No mês de Agosto, não pude responder às muitas solicitações telefónicas para comentar os acontecimentos em torno do comportamento do Papa Francisco perante a pedofilia clerical e nos começos de Setembro, também não. Ao agradecer a acolhedora hospitalidade deste Jornal, talvez fosse oportuno esboçar um balanço das campanhas para difamar o Papa, desacreditar os seus objectivos e os seus caminhos de reforma da Igreja. Era urgente criar um clima que desse a impressão de que Bergoglio não era o remédio, mas o veneno. Tinha chegado a hora de o desmascarar.
O cálculo das oposições organizadas para derrotar o projecto reformador do Papa Francisco não estava mal concebido. Impunha-se aproveitar os seus encontros com as Igrejas onde os clérigos pedófilos, padres, bispos e cardeais, fizeram mais vítimas. Era indispensável mobilizar os meios de comunicação para mostrar as dimensões não só da tragédia, mas a incapacidade do Papa em responder, com actos, à indignação das vítimas. O importante era encontrar algumas pistas para dizer que o responsável de tudo era o próprio Papa. Não tinha sentido que ele andasse a pedir perdão, quando, de facto, ele era conivente. Já tinha tido tempo para erradicar essa abominação eclesiástica e veio, afinal, a encobri-la, enchendo a boca contra o carreirismo de seminaristas, padres, bispos e cardeais. Como quem diz: anda a querer reformar a sociedade, a política, a economia que mata, a Igreja a todos os níveis, quando o mais urgente é reformá-lo a ele. Ou se demite ou deve ser demitido, pois é um herético e anda a levar a Igreja para a catástrofe.
Foi tal o entusiasmo com a sua eleição, com os seus insólitos gestos e atitudes, que muitos julgaram que o caminho aberto era irreversível. Esse acolhimento, que parecia universal, distraiu muitos dos seus seguidores: acreditavam, de forma ingénua, que as reformas propostas tinham apenas a oposição dos instalados na cúria romana e nas cúrias episcopais.
Puro engano. Falava-se de alguns movimentos e organizações que não viam com bons olhos os atrevimentos de Bergoglio, mas como a idade era muita e a saúde era pouca, a natureza encargar-se-ia de resolver o problema. Falava-se sempre do próximo Papa. Este já tinha os dias contados. Os dias e os anos passaram e ele, apesar de tudo, resistia e estava sempre a anunciar e a lançar coisas novas.
Por outro lado, os que tinham muita pressa e julgavam que o Papa devia fazer as reformas todas por decreto, sem estar a olhar aos seus deveres de respeito para com os direitos de todas as pessoas, tornaram-se aliados funcionais daqueles que se organizavam para vencer as reformas de Bergoglio. 
2. Em Portugal, mas não só, era estranha a atitude de distância de padres e bispos em relação ao Papa caluniado. Era o cisma do silêncio, de surdos e mudos. De repente, a partir do comunicado exemplar do bispo de Aveiro, António Manuel Moiteiro Ramos, incentivando toda a diocese a um apoio explícito ao Papa Francisco, assim como várias cartas de leigos à própria Conferência Episcopal, esta sentiu que não podia continuar alheia à calúnia. Tarde, mas lá cumpriu o seu dever.
Ao dizer isto, ainda não saí do mundo clerical: Papa, cardeais, bispos e padres. Santo Agostinho[1], no início de um sermão sobre os pastores, já tinha tocado na raiz do clericalismo que envenenou as relações no seio da Igreja, ao dizer: «somos cristãos e somos bispos. Somos cristãos para nosso proveito, somos bispos para vosso proveito. Pelo facto de sermos cristãos, devemos pensar na nossa salvação; pelo facto de sermos bispos, devemos preocupar-nos com a vossa. (…) devemos dar contas a Deus pela nossa própria vida, como cristãos; mas, além disso, devemos dar contas a Deus do exercício do nosso ministério, como pastores.» Inverteu a pirâmide. Antes de ser bispo, é um cristão, mas aqui começam também os equívocos. Cristão parece pouca coisa e padre e bispo, uma promoção na carreira. O importante é chegar a padre e, melhor, chegar a bispo e, se for bispo de Roma, é o Papa de toda a Igreja. Chegou ao topo da carreira. Pura asneira! Ser cristão, isto é, seguidor de Jesus, é a aspiração maior de quem fizer a descoberta do Nazareno. No Baptismo, pela graça do Espírito Santo, o ser humano torna-se membro de um povo sacerdotal, porque participa no sacerdócio de Jesus Cristo. Quando lhe chamam o sacerdócio comum dos fiéis querem dar a ideia de que é um sacerdócio banal, comum a todos. O Novo Testamento (NT) só conhece este sacerdócio. A graça do Espírito Santo significada e acolhida no Baptismo é o que há de mais essencial na lei nova do Evangelho, como lembrou Tomás de Aquino.
Tudo o resto, todas as mediações, sacramentais ou não, são ajudas para o desenvolvimento dessa vida cristã. Nunca será demais repetir. Os padres e os bispos não mandam na Igreja, servem a Igreja. Estão ao serviço das comunidades para que estas percorram na sociedade o caminho aberto por Jesus, que não veio para ser servido, mas para dar a vida. Como sublinha Santo Agostinho, essa é a sua glória. O clericalismo vê tudo ao contrário: o clero é considerado, erradamente, como o mais fundamental na Igreja.
3. Contra esta perspectiva surge uma objecção de peso: se é para servir, não quero ser padre nem bispo e cai por terra a pastoral das, falsamente, chamadas vocações sacerdotais. Não é uma dificuldade desconhecida nas relações entre Jesus e os seus discípulos. Diz S. Marcos que os discípulos não entendiam nada do que o Mestre lhes exigia. Um dia, resolveu tirar a limpo a discussão que ocupava as vocações que arranjara. Perguntou-lhes: o que discutíeis no caminho? Ficaram em silêncio, porque pelo caminho tinham vindo a discutir qual deles era o mais importante. Tiago e João romperam o silêncio: queremos que nos concedas o primeiro e o segundo lugares do grupo. Este sincero atrevimento obrigou o Mestre a uma reunião de emergência, pois os outros dez ficaram indignados por não terem tido a coragem de se anteciparem. Reacção de Jesus: posso perder todas estas vocações, mas não vou alimentar um equívoco. Quem de entre vós quiser ser o primeiro, que seja o servo de todos e fica o problema resolvido. Aconselho a leitura directa e íntegra dos capítulos nove e dez deste evangelista[2].
É normal que certas pessoas, grupos e movimentos desejem que o Papa se cale. Ele não parece disposto a fazer-lhes a vontade. Veremos porquê.
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público 16.09.2018


[1] Séc. V, início do Sermão sobre os Pastores
[2] Mc 9 e 10

Um Plano Marshall para a África

     
1. Desde a década de oitenta do século passado que me tenho manifestado favorável a uma espécie de Plano Marshall para África. A última vez que me pronunciei foi no passado dia 13 de Agosto, na RTP 3, em conversa com a jornalista Sandra de Sousa, a partir de declarações do cardeal António Marto, a propósito das migrações.

Fica aí textualmente o que disse nessa conversa, no contexto da leitura dos jornais do dia.

Sim, nós estamos perante uma questão dramática, que, no meu entender, será cada vez mais dramática. Estamos a tratar das migrações, dos refugiados. E eu quereria chamar a atenção para dois ou três pontos.

Em primeiro lugar, é evidente que a Terra é de todos, o mundo é de todos e, por isso mesmo, há o direito de visita, de hospitalidade, de que já Kant falava. Mas a Europa, neste momento, está com este problema, que é um dos maiores problemas, o das migrações. Sobre isso gostava de chamar a atenção para os direitos humanos, e a defesa dos direitos humanos é qualquer coisa que está profundamente ligada à Europa - a Europa sempre se distinguiu por receber. Mas gostava de chamar também à colação que esta é uma questão da Europa enquanto União Europeia.

Em segundo lugar, julgo que é preciso entender que não podemos, para resolver um problema, criar problemas maiores, por exemplo, criar xenofobia, uma direita cada vez mais agressiva... Depois, é necessário também combater os traficantes ­ - é fundamental perceber isso. O próprio Papa Francisco tem dito que o Mediterrâneo não pode ser um cemitério. Estamos completamente de acordo. Mas, ultimamente, chamou a atenção para a prudência. Chamou a atenção para qualquer coisa que me parece fundamental.

Há a pequena política e a grande política. Se houver a grande política, vai-se perceber que, como a seguir à Segunda Guerra Mundial, houve o famoso Plano Marshall, que desenvolveu a Europa, que estava completamente destruída, e isso foi bom para a Europa e também para os Estados Unidos, algo parecido pode ser bom para África e para a Europa. Eu penso que é necessário, concretamente em relação a África, um Plano Marshall, isto é, desenvolver África lá. Lá. Com regras, evidentemente, pois sabemos que há governantes africanos que também não têm regras e apoderam-se dos dinheiros que chegam. Então, um Plano Marshall para África, para fixar as populações lá. Os africanos têm direito a viver bem e a desenvolver-se lá. Isso seria bom para África e isso seria bom para a Europa.

Sandra de Sousa observou: porque é que a Europa se tem regido pela pequena política? Porque tem pequenos líderes, não tem grandes estadistas?

Respondi: porque não há uma real união europeia. Eu penso que a Europa, sem união, sem estruturas minimamente federativas, com o tempo, torna-se insignificante no mundo. Veja: a Alemanha é um país grande, mas dentro da Europa; no quadro de um mundo cada vez mais globalizado, a própria Alemanha é pequena. Portanto, nós precisamos da grande política, no sentido de estadistas que criem uma União Europeia forte. Porque não é apenas a Europa, é o mundo que precisa da Europa. Porque os direitos humanos onde é que apareceram em primeiro lugar? Foi aqui, na Europa. Onde é que há segurança social? É na Europa.

Para que a Europa possa responder a esta questão gigantesca - o problema das migrações e dos refugiados é um problema gigantesco -, precisa de estadistas. Hoje, os africanos podem viver em condições difíceis e em lugares recônditos, mas em qualquer sítio há possibilidade de aceder através da internet à situação da Europa, e a Europa aparece como um paraíso e, portanto, vão querer vir. Depois, com a desertificação de África, vão aparecer milhões de africanos às portas da Europa, concretamente da Europa do Sul. Então, é necessária a grande política, e por isso é que eu, há muito tempo, sou defensor de um Plano Marshall para África. Para que se desenvolvam lá.

Sandra de Sousa: não se resolve com muros, com portas...

Respondi: não é possível, não é possível face a milhões de africanos que vão chegar...

2. Fiquei, pois, muito satisfeito, ao saber que a França e o Benelux, numa reunião recente no Luxemburgo, que juntou Emmanuel Macron e os primeiros-ministros luxemburguês, holandês e belga, querem que a Europa concretize esta ideia. "A União Europeia deve implementar uma versão do Plano Marshall em África, com uma ambição operacional concreta com os parceiros africanos", afirmou o belga Charles Michel.

3. Neste contexto, penso também que o clero africano tem um contributo fundamental a dar, desde que assuma as suas responsabilidades, ultrapassando as razões que sustentam críticas de missionários e de bispos. "O sacerdócio não pode ser um trampolim para sair de África porque é pobre", disse à Agência Fides o padre Donald Zagore, da Sociedade de Missões Africanas, citando Marcelin Yao Kouadio, bispo da diocese de Daloa. "As razões recorrentes (da emigração de pessoal eclesiástico) continuam a ser a procura de bens materiais e de prestígio." Além disso, "muitos africanos pensam que são superiores ao resto, particularmente nos círculos eclesiásticos, porque vivem, trabalham ou estudam na Europa. É dramático pensar que a essência de África chegue à sua realização quando goza do prestígio europeu". Em Maio de 2018, Ignace Bessi Dogbo, presidente da Conferência Episcopal da Costa do Marfim, também denunciou o fenómeno dos "sacerdotes errantes": sacerdotes que se negam a voltar a África depois de estudos ou de uma missão na Europa.

Seria lamentável que o clero africano, concretamente o mais bem preparado com especializações no estrangeiro, fugisse às suas responsabilidades e não desse o seu contributo imprescindível à promoção e ao desenvolvimento do seu continente e dos seus países.
Anselmo Borges 
Padre e professor de Filosofia
in DN 15 Setembro 2018

08 setembro 2018

Os inimigos do Papa Francisco

       
1. No meio desta tragédia da pedofilia do clero, que coloca a Igreja Católica numa crise sem precedentes, e quando se pode erguer a suspeita de que ela é um antro de anormais e pedófilos, parece-me justo esclarecer que, no mundo dos pedófilos, a percentagem dos padres é mínima.

Sinceramente, esta constatação não é para mim de modo algum motivo de consolação. Pelo contrário. De facto, este dado só vem confirmar que o número de crianças que sofreram e que sofrem é muitíssimo mais vasto do que aquilo que se poderia imaginar.

Depois, os abusos de menores e adultos fragilizados por parte do clero têm uma agravante terrível: as pessoas confiavam, diria que de modo incondicional, nos padres e na Igreja, e foi essa confiança que foi traída. Uma traição que envergonha os católicos. E a agravar ainda mais a situação: responsáveis, incluindo bispos e cardeais e a Cúria Romana, ocultaram e encobriram estes horrores, porque pensaram que o mais importante era defender e salvaguardar a honra e o prestígio da Igreja enquanto instituição. Evitar a todo o custo o escândalo era a palavra de ordem. Deste modo, o Evangelho foi ferido de modo brutal no seu núcleo, que é colocar a pessoa e a sua dignidade no centro, sobretudo quando se trata de vítimas inocentes. Uma catástrofe moral.

Sobre as crianças, há duas palavras essenciais de Jesus no Evangelho, que é necessário continuamente relembrar. A primeira: "Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o Reino de Deus. Quem quiser entrar no Reino de Deus deve ser como elas." Elas são simples e não discriminam... A outra palavra de Jesus é terrível: "Ai de quem escandalizar uma criança, ai de quem fizer mal a uma criança. Era melhor atar-lhe a mó de um moinho ao pescoço e lançá-lo ao mar."

2. Causas para este colapso moral são muitas. Mas o Papa Francisco apresenta como principal o clericalismo e, consequentemente, o carreirismo, que ele, desde o princípio, diz que constituem "a peste da Igreja", sempre em conexão com a Cúria Romana, a corte, de que ele diz que é "a lepra do papado". Neste contexto, Francisco associa "abusos sexuais, de poder e consciência". Disse, há uns meses, ao episcopado chileno: "Há uma ferida aberta, dolorosa, e até agora foi tratada com um remédio que, longe de curar, parece tê-la aprofundado mais na sua espessura e dor. Os problemas que hoje se vivem dentro da comunidade eclesial não se solucionam apenas abordando os casos concretos e removendo pessoas. Constituiria grave omissão da nossa parte não aprofundar nas raízes. Essa psicologia de elite ou elitista acaba por gerar dinâmicas de divisão, separação, círculos fechados, que desembocam em espiritualidades narcisistas e autoritárias nas quais, em vez de evangelizar, o importante é sentir-se especial, diferente dos outros, pondo assim em evidência que nem Jesus Cristo nem os outros interessam verdadeiramente. Messianismos, elitismos, clericalismos, são todos sinónimos de perversão no ser eclesial."

No seu comentário, Ramón Alario caracteriza estas palavras como "duras, corajosas, clarividentes", pois mostram que é preciso ir à raiz deste tsunami da pederastia do clero e atacá-la enquanto "problema estrutural", portanto, para lá da responsabilidade das pessoas concretas. Evidentemente, o celibato imposto tem de ser considerado, mas como parte de uma estrutura clerical muito mais ampla e um dos seus pilares. Alguns dos elementos que fazem parte desta estrutura: "concentração do poder nas mãos da clerezia", poder hierarquizado e assente na contraposição clérigos/leigos; um poder patriarcal e machista, que exclui as mulheres; a carreira e ascensão no poder fazem-se mediante dois mecanismos complementares: "a obediência e/ou a hipocrisia"; "uma concepção e prática dualista e maniqueia" concretamente em relação à sexualidade; "sobrevalorização do celibatário", considerado mais perfeito do que o casado, porque mais próximo de Deus; o celibato obrigatório é "uma imposição legal" para poder pertencer a esta classe superior; o clero está à frente de "comunidades reduzidas a lugares de culto e serviço religioso à volta do padre, sem voz nem voto nas decisões de base: convertidas em grupos menores de idade...".

Depois, pode dar isto, segundo aquela diatribe dura e melancólica de Nietzsche contra os padres, prevenindo contra a infelicidade, que traz consigo sempre mais infelicidade: "Até entre eles há heróis. Muitos deles sofreram demasiado: por isso, querem fazer sofrer os outros." Nietzsche, que proclamou a morte de Deus, também deixou escrito, na mesma obra, Assim Falava Zaratustra: "Eu só acreditaria num deus que soubesse dançar."

3. Francisco quer renovar a Igreja, refontalizá-la, levando-a às origens, com o Evangelho de Jesus. Tolerância zero para a pedofilia. Transparência nas contas do Banco do Vaticano. Reforma profunda da Cúria. Uma Igreja fraterna, pobre, em saída para as periferias geográficas e existenciais. Uma Igreja viva, que não é museu. Sem clericalismo, capaz de se aproximar dos divorciados recasados, dos homossexuais, que são católicos como os outros (o problema não é ser homossexual, o problema é "o lóbi gay", diz). Francisco também está próximo dos mais desfavorecidos e critica o capitalismo desenfreado, escreveu uma encíclica, a Laudato Sí, apelando à necessidade de salvaguardar a Terra, criação de Deus e nossa casa comum, e também à necessidade de humanitariedade para com os migrantes e refugiados...

Evidentemente, os rigoristas fariseus e os lóbis económicos não gostam e atacam-no ferozmente, acusando-o inclusivamente de heresia.

Recentemente, o arcebispo Carlo Maria Viganò, num golpe cobarde e vil, pretendeu acusá-lo de cumplicidade e encobridor. Francisco, naquela sabedoria só dele, disse aos jornalistas que fossem profissionais e cumprissem o seu dever de investigação, e eles cumpriram e a imprensa internacional desmascarou o ex-núncio Viganó e os seus apaniguados, envolvidos em mentiras e contradições. E a Igreja universal, que queriam ver desunida, tem vindo massivamente a manifestar o seu apoio incondicional a Francisco. Também a Conferência Episcopal Portuguesa o fez. Para lá dos eclesiásticos, é longa a lista de políticos (incluindo Trump) e figuras públicas que vieram em defesa de Francisco.

Quem já anunciava que dentro de semanas ou meses teríamos a renúncia de Francisco e um Papa conservador a suceder-lhe devia saber que ele já preveniu que não sai a pontapé. Como tenho vindo a repetir, estou convicto de que Francisco, nesse encontro admirável de franciscano e jesuíta, não se demite nem se deprime. E não se ficará só com pedidos de perdão e exigência de justiça, incluindo a justiça civil. Até porque é preciso ir mais longe e fundo. Pode vir aí um Sínodo - Francisco está continuamente a falar da sinodalidade da Igreja, que quer dizer necessidade de caminhar juntos e em comum -, um Sínodo enquanto reunião universal de toda a Igreja, com representação de bispos, mas também de padres, de religiosos e de religiosas, da Cúria, de leigos e de leigas, portanto, eles e elas, na devida proporção, sob a presidência do Papa. Para debater esta e muitas outras questões. A que se deve esta tragédia? Como caminhar para estruturas mais democráticas na Igreja? Que novo tipo de padre? Ordenar homens casados? Pôr fim à lei do celibato? Qual o papel das mulheres na Igreja? É legítimo continuar a discriminá-las, contra a vontade de Jesus? O que é que as impede de poderem presidir à celebração da Eucaristia? Que moral sexual? O que é que a Igreja pensa de si mesma, da sua identidade e missão? Como é que deve ir ao encontro da Humanidade actual, com os seus novos problemas, questões de bioética, questões que têm que ver com o trans-humanismo e o pós-humanismo, a justiça social, os direitos humanos, o diálogo ecuménico e inter-religioso, a paz num mundo globalizado...
Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
in DN 08.09.2018
www.dn.pt/edicao-do-dia/08-set-2018/interior/os-inimigos-do-papa-francisco-9815728.html?target=conteudo_fechado

29 julho 2018

UMA RELIGIÃO INTELIGENTE

 
1. Para António Damásio, “não temos qualquer relato científico satisfatório quanto à origem e ao significado do Universo, ou seja, não temos uma teoria de tudo que nos diga respeito. Serve isto para recordar que os nossos esforços são modestos e hesitantes, e que devemos estar abertos e atentos quando decidimos abordar o desconhecido”[1].
Em certas formas de espiritualidade e de teologia, a modéstia não é a regra. Na orientação espiritual, não falta quem se julgue conhecedor da vontade de Deus e com capacidade de a discernir para si e para os outros. Implorar o Espírito Santo para acolher a sua luz é uma condição essencial para estarmos prontos a dar razão da nossa esperança, como recomenda S. Pedro[2]. Sem esse cuidado, seremos cegos guias de cegos. Pedir conselho é próprio de quem reconhece os seus limites. Daí a convencer-se que podemos coincidir, nas nossas opiniões, com a vontade de Deus, é presunção a mais.
Em teologia, sempre me agradou a extrema modéstia de Tomás de Aquino. Foi discípulo de Alberto Magno, assim chamado pelo seu saber enciclopédico e pela sua curiosidade insaciável. Tomás tinha uma consciência pedagógica mais apurada. Notava que os mais novos tinham dificuldade em seguir a multiplicidade de questões no campo científico, filosófico e teológico. Comentou Aristóteles e muitos livros da Bíblia, participou em muitas questões disputadas e não receava ser exposto à curiosidade dos estudantes acerca dos temas mais variados. Resolveu elaborar um imenso guião para principiantes. Acabou por ser muito apreciado pelos investigadores. Trata-se da Suma de Teologia.
Modesta era a sua própria ideia de teologia. Depois de expor o seu projecto, as suas exigências, o seu método e de estabelecer os argumentos humanos que apoiam a fé na existência de Deus, ao dizer vamos tentar saber como Deus é, suspende esse atrevimento: vamos saber como Deus não é[3]. A sua teologia é, sobretudo, uma anti-idolatria. Não atribuir a Deus e à sua vontade o que são construções nossas.
No final da vida, a partir da sua experiência mística, disse: tudo o que escrevi me parece palha. A teologia negativa livrou-o da idolatria das concepções teológicas. Não era cepticismo. Como cantou, no seu poema para a festa do Corpo de Deus, seguiu o princípio: atreve-te quanto puderes. Não tinha o culto da humildade ignorante, nem se contentava com repetir um credo ortodoxo. Escreveu: “é necessário que aqueles que buscam as raízes da verdade se apoiem em razões e se esforcem por saber como é verdade aquilo que afirmam. De outro modo, se o mestre se contenta com resolver a questão com o recurso a autoridades, poderá assegurar, sem dúvida, ao ouvinte, o que está certo na fé, mas este não adquire ciência nem compreensão e ficará de cabeça vazia”[4].
A teologia cristã e a verdadeira espiritualidade são fruto da mente e do coração no interior da dinâmica da fé teologal, cujo termo não são os artigos da fé, mas o infinito mistério de Deus amado e conhecido. A oração faz parte da investigação teológica, como mostrou Sto. Anselmo, na perspectiva de Sto. Agostinho: “Não procuro, Senhor, penetrar na tua profundidade… Mas quero compreender, ainda que seja um pouco, a tua verdade que o meu coração crê e ama. Não procuro compreender para crer, mas creio para compreender, pois, bem sei, se não creio, não compreenderei”[5].
Nunca podemos prescindir do conhecimento científico nem do questionamento filosófico. Se não virmos que, pelo lado de Jesus Cristo, corre a vida e o sentido último da nossa história, não poderíamos acolher a sua graça. A graça não substitui a natureza, antes a reforça.
Uma teologia sadia nasce e desenvolve-se dentro de uma espiritualidade aberta à acção evangelizadora. Uma prática evangelizadora exige e desenvolve uma vida e uma teologia mística. Karl Rahner insurgiu-se, com razão, contra uma teologia kerigmática que desprezava a investigação científica[6]. Uma teologia pastoral sem investigação é um engano. Uma teologia que pretende ser científica e não cheira a povo perde-se no vazio, como diz o Papa Francisco.
2. Não podemos crer sem interpretar. Edward Schillebeeckx, depois de todos os embates que teve com o Vaticano, mostrou que tinham interpretações diferentes das mediações humanas da fé. Elaborou, por isso, os pressupostos e a ciência da interpretação. Parte da experiência da fé na Bíblia, não como uma teologia da palavra, porque a palavra de Deus é a palavra dos seres humanos que falam de Deus.
Dizer, sem mais, que a Bíblia é a palavra de Deus, não corresponde à verdade. Só é a palavra de Deus indirectamente. Os escritos bíblicos são testemunhos de homens e mulheres de Deus, que viveram uma experiência e a exprimem. A sua experiência vem do Espírito e, neste sentido, pode dizer-se, com razão, que a Bíblia é inspirada, mas, ao mesmo tempo, é preciso não esquecer a mediação humana, histórica, contingente. Nunca existe encontro directo de Deus, só a sós, com o homem. Efectua-se sempre através de mediações. São os seres humanos que falam de Deus. Não aceitar mediações históricas é cair, necessariamente, no fundamentalismo[7].
3. Alegra-me que Aga Khan tenha dito que a religião ismaelita é uma religião inteligente. Tem como premissas a paz, o bem-estar, a sabedoria e o desenvolvimento[8]. Parece querer recuperar, na actualidade, o que foi uma das correntes criadoras do Islão medieval. Uma religião que não pensa, ou que só pensa o já pensado, cai inevitavelmente no fundamentalismo e na violência.
Terá sido uma iniciativa inteligente a criação de um Estado judaico? Não irá aumentar o anti-judaísmo? Não será um Estado de exclusão?
Não ficam mal, a nenhuma religião que queira ser inteligente, as observações do Papa Francisco:
Uma fé que não nos põe em crise é uma fé em crise; uma fé que não nos faz crescer é uma fé que deve crescer; uma fé que não nos questiona é uma fé sobre a qual nos devemos questionar; uma fé que não nos anima é uma fé que deve ser animada; uma fé que não nos sacode é uma fé que deve ser sacudida.
Acrescenta também: existe o perigo real de deixar às gerações vindouras escombros, desertos e imundices[9].
Boas férias e até Setembro

Frei Bento Domingues, O.P.

in Público 29. 07. 2018



[1] A estranha ordem das coisas, Temas e Debates, Lisboa, 2017, p. 332
[2] 1P 3, 15-16; Rm 8, 26-27.
[3] S.Th., I, q.3, prólogo (cf. q. 12 e 13)
[4] Quodlibet, IV, q.9, a.3
[5] Proslogion, 1
[6] Karl Rahner, Le courage du théologien, Paris, Cerf, 1985, pp 43
[7] Maria Clara Bingemer, Experiência de Deus na contemporaneidade, Lisboa, Paulinas 2018. A autora teve em conta Karl Rahner, mas esqueceu-se de Edward Schillebeeckx, Je suis un théologien heureux, Paris, Cerf 1995.
[8] Revista do Expresso, 21.07.2018
[9] L’ Osservatore Romano, O clamor angustiado da terra, 12.07.2018, http://www.osservatoreromano.va/vaticanresources/pdf/POR_2018_028_1207.pdf


       BI do cristão
       Anselmo Borges
      28 Julho 2018
       O que é que verdadeiramente queremos? A realização plena de todas as dimensões do ser humano, a plenitude, a felicidade. O Papa Francisco sabe disso e escreveu a exortação Alegrai-vos e Exultai, para indicar o caminho dessa realização, na convicção de que Deus, "aquele que pede tudo, também dá tudo, e não quer entrar em nós para mutilar ou enfraquecer, mas para levar à perfeição". Sempre sob o desígnio da alegria. Francisco lembra o livro da Bíblia, Ben Sirá: "Meu filho, se tens com quê, trata-te bem. Não te prives da felicidade presente" e também São Francisco de Assis, "capaz de se comover de gratidão perante um pedaço de pão duro ou de louvar, feliz, a Deus, só pela brisa que acariciava o seu rosto". Não se trata, portanto, da "alegria consumista e individualista. Com efeito, o consumismo só atravanca o coração; pode proporcionar prazeres ocasionais e passageiros, mas não alegria". A verdadeira alegria é aquela que "se vive em comunhão, que se partilha e comunica", porque, segundo uma palavra de Jesus, "a felicidade está mais em dar do que em receber". Não será por acaso que na cultura de hoje se manifestam alguns riscos e limites, a evitar: "a ansiedade nervosa e violenta que nos dispersa e enfraquece, o negativismo e a tristeza, a acédia cómoda, consumista e egoísta, o individualismo e tantas formas de falsa espiritualidade sem encontro com Deus que reinam no mercado religioso actual". "O consumismo hedonista pode enganar-nos, porque, na obsessão de nos divertirmos, acabamos por estar excessivamente concentrados em nós mesmos, nos nossos direitos e na exacerbação de ter tempo livre para gozar a vida..., acabando por nos transformar em pobres insatisfeitos que tudo querem provar. O próprio consumo de informação superficial e as formas de comunicação rápida e virtual podem ser um factor de estonteamento que ocupa todo o nosso tempo e nos afasta da carne sofredora dos irmãos. No meio deste turbilhão actual, volta a ressoar o Evangelho para nos oferecer uma vida diferente, mais saudável e mais feliz", adoptando cada um o seu caminho e discernindo segundo os tempos e as circunstâncias, sem, por outro lado, ficar sujeito a um zapping constante. Deus é eterna novidade e não se pode cair na sedução da habituação, do "sempre foi assim": a Igreja não é "uma peça de museu nem uma propriedade de poucos".
       "O que é que tem real valor na vida? Quais são as riquezas que não desaparecem? Seguramente duas: Deus e o próximo. Estas duas riquezas não desaparecem." E as duas são inseparáveis. Jesus, mais do que muitas fórmulas e preceitos, entregou-nos "dois rostos, ou melhor, um só: o de Deus que se reflecte em muitos, porque em cada irmão, especialmente no mais pequeno, frágil, inerme e necessitado, está presente a própria imagem de Deus". Assim, a santidade é feita de abertura habitual à transcendência, que se expressa na oração e na adoração. "O santo é uma pessoa com espírito orante, que tem necessidade de comunicar com Deus. É alguém que não suporta asfixiar-se na imanência fechada deste mundo e, no meio dos seus esforços e serviços, suspira por Deus, sai de si erguendo louvores e alarga os seus confins na contemplação do Senhor." Há dois erros nocivos. O daqueles que transformam o cristianismo numa "espécie de ONG", privando-o daquela espiritualidade irradiante que o caracteriza. Mas "é nocivo e ideológico também o erro das pessoas que vivem suspeitando do compromisso social dos outros, considerando-o algo de superficial, mundano, secularizado, imanentista, comunista, populista". Sagrada é a vida dos pobres que "se debatem na miséria, no abandono, na exclusão, no tráfico de pessoas, na eutanásia encoberta de doentes e idosos privados de cuidados, nas novas formas de escravatura e em todas as formas de descarte. Não podemos propor-nos um ideal de santidade que ignore a injustiça deste mundo, onde alguns festejam, gastam folgadamente e reduzem a sua vida às novidades do consumo, ao mesmo tempo que outros se limitam a olhar de fora enquanto a sua vida passa e termina miseravelmente".
       O que é ser santo? Jesus explicou-o nas "bem-aventuranças", que são "como que o bilhete de identidade do cristão". "A palavra 'feliz' ou 'bem-aventurado' torna-se sinónimo de 'santo', porque expressa que a pessoa fiel a Deus e que vive a sua Palavra alcança, na doação de si mesma, a verdadeira felicidade." As bem-aventuranças implicam outro estilo de vida e são contracorrente. "Felizes os pobres em espírito": "as riquezas não te dão segurança alguma"; no coração dos que têm o coração pobre, "Deus pode entrar com a sua incessante novidade". "Felizes os mansos": "a mansidão é outra expressão do desapego interior". "Felizes os que choram": compreendem a angústia alheia e aliviam os outros. "Felizes os que têm fome e sede de justiça": a realidade mostra-nos como "é fácil entrar nos gangues da corrupção, fazer parte dessa política diária do 'dou para que me dêem', onde tudo é negócio". "Felizes os misericordiosos": a misericórdia é dar, servir os outros e também perdoar e compreender; "a medida que usardes com os outros será usada convosco", disse Jesus. "Felizes os puros de coração", porque é do coração que procedem os homicídios, os roubos, os falsos testemunhos, preveniu Jesus. "Felizes os pacificadores." "Felizes os que sofrem perseguição por causa da justiça."
       "Será com os descartados desta humanidade vulnerável que, no fim dos tempos, Deus plasmará a sua última obra de arte." "Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, estava nu e vestistes-me, estive na prisão e fostes ter comigo. Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos foi a mim que o fizestes."

       Padre e professor de Filosofia. Escreve de acordo com a antiga ortografia.
       in DN 28 Julho 2018

À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves
DOMINGO XVII COMUM Ano B
“Está aqui um rapazito que tem cinco pães
de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?”
Jo 6, 9

Quando o pouco é tudo…

Continuamos a não perceber o jeito de Deus agir e fazer milagres. Gostamos de esperar, sentados ou de joelhos, que Deus faça e nós vejamos a sua omnipotência resolver aquilo que desejaríamos não fosse tarefa nossa. Calamos o seu apelo a escutar quem sofre, a ver a miséria (não a distante, mas a mais próxima de nós), a partilhar o pouco que temos. A erradicação da fome continua a ser um dos milagres que a dureza do coração humano e os interesses egoístas persistem em não resolver.

D. Hélder Câmara, o arcebispo de Olinda-Recife, não calava a voz na defesa dos pobres: “O verdadeiro cristianismo rejeita a ideia de que uns nascem pobres e outros ricos, e que os pobres devem atribuir a sua pobreza à vontade de Deus”; “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista.” S. Teresa de Calcutá, pedia para fazer pequenas coisas com um grande amor: “A falta de amor é a maior de todas as pobrezas. O que eu faço é simples: ponho pão nas mesas e compartilho-o.”; “O mundo que Deus nos deu é mais do que suficiente, segundo os cientistas e pesquisadores, para todos; existe riqueza de sobra para todos. É só uma questão de reparti-la bem, sem egoísmo.”

Todos os evangelhos relatam a multiplicação / partilha dos pães e dos peixes, que Jesus fez numa encosta junto ao lago da Galileia. A multidão partilha, não um banquete de ricos, com iguarias exóticas, mas a refeição simples dos que vivem junto ao lago: pães de cevada e peixe. Todos ficaram saciados e ficou gravada a abundância que resultou da insignificância, bem como a recomendação de nada perder nem deitar fora. Esta refeição partilhada torna-se sinal da humanidade nova e fraterna que Jesus vem realizar, antecipa a Eucaristia em que recebemos o espírito e a força de Jesus, e compromete-nos com todos os famintos: de pão, de justiça, de esperança e de amor. Quantos cestos “sobram” das nossas eucaristias e com quem são partilhados?

O muito que eram os cinco pães e dois peixes para o jovem, apresentado por André a Jesus, é verdadeiramente insignificante para a multidão a alimentar. Contudo, a lógica do comprar e vender (sugerida por Jesus!) dá lugar à experiência da gratuidade, à descoberta da força do dom que, não só garante a todos o necessário, como faz aparecer uma surpreendente abundância. O pouco, que o jovem entregou nas mãos de Jesus, foi o necessário para o milagre. Triste de quem fica à espera de ter muito para fazer algo. O que marca a diferença, não são os pães ou os peixes, mas o amor que os liberta de um desejo egoísta de posse e os oferece generosamente. O que podia dar uma indigestão a um, saciou a fome a muitos. Se o pouco é tudo, nada mais é preciso! Seria tão bom ir aprendendo que o jeito de Deus fazer milagres é a contar connosco!

in Voz da Verdade 29.07.2018


No question, Pope Francis made history Saturday on McCarrick
John L. Allen Jr.Jul 29, 2018 EDITOR

It’s really not that often one can say with certainty that we witnessed history being made at a specific moment, but Saturday brought such an occasion with a Vatican announcement that Pope Francis had accepted the resignation of Cardinal Theodore McCarrick from the College of Cardinals.
It’s an unprecedented move in the United States, the first time an American cardinal has ever renounced his red hat, and it’s the first time anywhere in the world has exited the college altogether facing accusations of sexual abuse. It is, therefore, the most tangible confirmation to date from Francis that when he says “zero tolerance,” he means everybody.
The statement also confirms that a suspension of McCarrick from public ministry imposed in June remains in force pending the outcome of a Church trial.
To be clear, this takes us well beyond what happened in February 2013, when Scottish Cardinal Keith O’Brien, facing charges of sexual misconduct with seminarians and young priests, renounced his privileges as a member of the College of Cardinals but not membership.
As of Saturday, McCarrick is no longer a cardinal. The only full parallel for such a step over the last 100 years would be the French Jesuit Louis Billot, made a cardinal by Pius X in 1911, but who resigned his status in 1927. Billot was a strong supporter of the conservative French movement Action Française and refused to back down upon direct papal request, leading to a stormy audience between him and Pope Pius XI and Billot’s exit from the college.

The actions against McCarrick, of course, follow accusations against the 88-year-old prelate that now include a case of an 11-year-old boy as well as decades-old sexual misdeeds with seminarians.
Though the full meaning of Saturday’s turning point will be unpacked for some time to come, here are three quick take-aways about what it means.
First, although the Vatican statement also refers to allowing a Church trial of McCarrick to play out, it’s a safe bet that such dramatic action would not have been taken if there were much serious doubt about the eventual verdict. It’s not quite a finding of guilt, but it’s a strong suggestion that such a finding isn’t that far away.
It’s worth noting, for instance, that nothing of the sort happened last summer when Australian Cardinal George Pell was charged with “historical sexual offenses” in his home country. Then, the Vatican instead sent clear signals of support.
“The Holy See expresses its respect for the Australian justice system, which will have to decide the merits of the questions raised,” Vatican spokesman Greg Burke said in a statement. “At the same time, it’s important to recall that Cardinal Pell has openly and repeatedly condemned as immoral and intolerable the acts of abuse against minors.”
While there may be other reasons to account for the difference - including the fact that Pell was in Rome reporting directly to the pope at the time as his Secretary for the Economy - it’s hard to imagine that a rough sense of the reliability of the respective allegations isn’t part of the mix.
Second, there’s no question that the pope’s handling of the McCarrick case represents an important breakthrough in the push for greater accountability for clerical sexual abuse.
Since the news about McCarrick broke, I’ve heard people say time and again, “We all know what would happen if this were an ordinary priest.” What they meant is that under the Church’s new protocols, any priest credibly accused of abuse is supposed to be removed from ministry immediately awaiting the outcome of a canonical trial.
The question was whether those rules would also be applied to a Prince of the Church, especially one as prominent and close to the current pope as McCarrick. Even though he was retired in 2013, McCarrick played a behind-the-scenes role in the election of Cardinal Jorge Mario Bergoglio of Argentina to the papacy and has since enjoyed a role as a sort of trouble-shooting troubadour on Francis’s behalf.
By accepting McCarrick’s resignation as a cardinal, a new layer of gravity was added, suggesting a new era in which even the most senior members of the clerical club can’t run and hide when a storm such as this one breaks.
Third, while the pope has now proved his credentials at one level of accountability, there’s another shoe waiting to drop - what happens when the charge against a cardinal isn’t the crime, but the cover-up?
Right now, for instance, both Cardinals Riccardo Ezzati and Francisco Errazuriz in Chile face multiple accusations of having known about cases of sexual abuse, as well as abuses of power and conscience, and failed to act - in some cases, actively attempting to shelter the clergy involved.
Victims, activists and outraged Chileans have all called for both men to exit the College of Cardinals too, but, at least so far, such action hasn’t been forthcoming. Until a fall from grace akin to McCarrick’s also occurs with the likes of Ezzati and Errazuriz - assuming, of course, the complaints against them are justified - many observers will judge that accountability in the Catholic system remains a work in progress.
As a final note, while Francis may have made an important contribution to his own reputation on the abuse scandals on Saturday, he hasn’t quite gotten the U.S. bishops off the hook.
Whatever happens to McCarrick personally, the question remains of how rumors of his behavior could have gone unaddressed for so long. Recently, New York Times columnist Ross Douthat suggested the bishops appoint a “special prosecutor” to get to the bottom of who knew about the allegations against McCarrick and failed to report them, hinting the list of culpable parties may not be short.
It’s not clear how the bishops plan to respond to such clamor, but it is seemingly clear that “duck and cover” won’t work. All that makes the bishops’ Nov. 12-15 general assembly, and what happens between now and then, a potentially fascinating stretch of time.
in CRUX

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