22 novembro 2020

 

P / INFO: Crónicas & Capela do Rato

Frei Bento: Iremos a tribunal

Pe. Anselmo: A intuição cosmoteândrica: a religião do futuro

 Cardeal Tolentino: Cogumelos, música e silêncio

 Pe. Vítor Gonçalves: A surpresa final

 

IREMOS A TRIBUNAL

Frei Bento Domingues, O.P.

 1. Para o pensador alemão, Peter Sloterdijk, os factos da vida científica e da criação artística nos tempos modernos provam, sem a menor ambiguidade, o fim da era das revelações puramente passivas. Os devotos à antiga têm como missão compreender até que ponto sobrestimaram a revelação religiosa, fazendo dela a chave da essência de todas as coisas e subestimando a iluminação do mundo pela vida desperta, a ciência e as artes. Esse dado coloca a teologia sob a obrigação da aprendizagem, pois ela não tem o direito de deixar romper a ligação com o mundo do saber do outro campo.

Termina o seu livro sobre A loucura de Deus[1] com um credo: «A globalização significa que as culturas se civilizam umas às outras. O Juízo final desemboca num trabalho quotidiano. A revelação torna-se a relação com o ambiente e o relatório sobre a situação dos direitos do homem. Volto assim ao leitmotiv desta reflexão, que se funda na ética da ciência universal da civilização. Repito-o, como um credo, e desejo que tenha suficiente energia para se propagar mediante línguas de fogo: o caminho da civilização é o único que ainda está aberto».

Escreveu isto em 2007. Não perdeu actualidade, embora a alternativa à velha arrogância teológica não pode ter agora uma simétrica arrogância na ciência que seria, por natureza, pouco científica. Mas o seu desejo está a cumprir-se onde, talvez, menos o esperasse. O alegado obscurantismo dos três monoteísmos já não se apresenta como um bloco impenetrável com medo das dúvidas. Algumas manifestações de diálogo entre religiões começam a focar-se na condenação da violência e da guerra em nome de Deus.

Por outro lado, a confiança na eficácia das chamadas ciências da civilização ficou abalada ao não conseguirem civilizar e democratizar a política ou a cultura política do país mais apetrechado em instituições científicas e artísticas, os EUA, como se viu nos últimos 4 anos de apologia da estupidez. Além disso, o referido pensador alemão não podia prever o que aconteceu, em 2013, na Igreja Católica.

Com a eleição do Papa Francisco começou algo de novo que excede as exigências de diálogo entre religiões e entre crentes e não crentes. É ele que está a procurar realizar alianças e coligações entre as culturas religiosas e seculares e a colocar a teologia em atitude de aprendizagem com todos os universos culturais. É a sua própria vivência e interpretação da revelação cristã que o torna fiel à terra e ao céu, ajudando a Igreja a ser menos “mestra” e mais discípula, aprendendo com todos, acolhendo e partilhando todas as experiências que ajudem a vencer o egoísmo e a barbárie entre humanos e com a natureza.

Em poucos anos, tornou-se uma referência para quem deseja um mundo solidário. Não o faz para glória da Igreja, mas para que esta se torne o que sempre deveria ter sido: um hospital de campanha, com muitos postos de pronto-socorro dos mais pobres e perdidos nas migrações mais desesperadas. Escreveu guiões admiráveis para despertar e mobilizar jovens e adultos para linhas da frente exigidas por antigos e novos desafios sociais e culturais.  

2. Quem procura desqualificar as suas ousadias diz que ele não é apenas um ingénuo, mas um atrevido ignorante: fala do que não sabe e faz o que não deve. Mas que irão dizer, agora, com o que aconteceu na semana passada, nos dias 19 a 21?

Francisco não convocou repetidores, mas investigadores de uma nova economia. Realizou-se o encontro, longamente preparado, A Economia de Francesco, que decorreu a partir de Assis (Itália) com ligações a 120 países diferentes, embora no contexto das dificuldades impostas pela pandemia. O seu objectivo foi colocar em diálogo jovens economistas e empreendedores do mundo inteiro, para imaginar como se pode criar uma economia mais justa, fraterna, inclusiva e sustentável, sem deixar ninguém para trás[2].

 Como é evidente, a proximidade de um acontecimento destas dimensões não permite avaliar o seu alcance, tanto mais que foi realizado para desencadear e afirmar um movimento de jovens empenhados no futuro de todos e que exige uma nova e envolvente militância em muitas áreas e muitas frentes.

       Fomos informados que a primeira conferência seria de Jeffrey Sachs, com o tema, Aperfeiçoar a Alegria: três propostas para deixar a vida florescer. Parecia um convite para ler o Evangelho de S. João, em que o desejo de Jesus é a alegria, cada vez mais completa, numa vida cada vez mais abundante para todos[3].

A alegria não é uma particularidade de S. João, é a proposta de todo o Novo Testamento. No entanto, a verdadeira alegria acontece quando se muda a própria vida. Como dizia o filósofo judeu, L. Wittgenstein, «creio que uma das coisas que o Cristianismo afirma é que as boas doutrinas são todas inúteis. Importa, sim, mudar a vida (ou a direcção da tua vida) … A sabedoria é fria. Em contrapartida, Kierkegaard chama à fé uma paixão»[4].

3. Hoje, na celebração da Eucaristia, encerramos o espantoso capítulo 25 de S. Mateus que tem vindo a ser proclamado nos últimos Domingos. É constituído por três parábolas, três intrigas paradoxais sobre a urgência em captar as oportunidades de alegria que a vida oferece e que, por leviandade ou por medo de ser mal sucedidos, desperdiçamos.

São textos simbólicos: dizem uma coisa para significar outra. Devem ser respeitados na sua irredutível alteridade e questionados. A sua interpretação tem de ter esse facto em conta, para não cair no reino da arbitrariedade. Por outro lado, importa distinguir sentido e significação. O sentido existe no texto que exige estudo para ser decifrado. A significação nasce da pergunta: que tem esse texto, essa parábola, a ver comigo e que tenho eu a ver com esse texto, com essa parábola?[5] A significação implica a minha vontade de mudar, de conversão, de não sair da Missa como entrei. Ajuda-me a mudar para o reino da alegria, da vida apaixonada por uma nova semana.

Hoje, a representação simbólica do julgamento de todas as nações não é para julgar nações, mas as acções ou omissões das pessoas. Quem as julga não é a divindade. Quem julga as pessoas são as suas acções de solidariedade ou de falta de solidariedade. Tanto quem foi, como quem não foi solidário não sabia que estava a ter um encontro ou desencontro com o próprio Deus. Deus é o destinatário clandestino do nosso agir solidário sem divinas intenções. A causa do Deus invisível identifica-se com a causa dos que precisam de ser socorridos. Quem socorre ou recusa solidariedade acolhe ou recusa o próprio Filho do Homem.

S. Mateus escreveu uma parábola muito atrevida.

in Público 22.11.2020

https://www.publico.pt/2020/11/22/opiniao/opiniao/iremos-tribunal-1939985



[1] Cf. Peter Sloterdijk, A loucura de Deus. Do Combate dos Três Monoteísmos, Relógio D’Água, 2009, pp. 23 e 139

[2] Cf. António Marujo, 7Margens, 18. Nov. 2020.

[3] Jo 15, 11; 10, 10.

[4] Ludwig Wittgenstein, Cultura e Valor, Ed.70, Lisboa 1996, p.82.

[5] Daniel Marguerat / Yvan Bourquin, Pour lire les récits bibliques, Cerf, Paris, 1998 

 

            A intuição cosmoteândrica: a religião do futuro

Anselmo Borges

 1.Foi há dez anos que Raimon Panikkar nos deixou, no dia 26 de Agosto de 2010, com 91 anos, em Tavertet, perto de Barcelona. Foi um dos espíritos mais clarividentes do século XX, com um pensamento original, que a presente situação pandémica e a urgência de um novo paradigma de desenvolvimento e uma nova política no contexto de uma terrível crise global, económica e social, que inclui a necessidade de um pacto ecológico para preservar a casa comum, tornam ainda mais actual. É por isso que não podia deixar de voltar a ele, "um mestre do nosso tempo".

2. Estive com Panikkar só numa ocasião, em Barcelona, em 2004. Tinha uma presença cálida, com um sorriso luminoso, e era simples. Uma vez, uma aluna minha, de Barcelona, disse-me que queria muito fazer um trabalho académico sobre o pensamento dele. Achei bem e disse-lhe: "Agora, nas férias, vá falar com ele..." Panikkar deu-lhe 40 minutos e ela, uma jovem, veio fascinada e fascinou os colegas com a descrição do encontro e a exposição do trabalho.

3. Panikkar era uma das maiores autoridades mundiais nas questões do diálogo multicultural e inter-religioso. As suas raízes genéticas, religiosas, académicas, geográficas, deram um contributo decisivo para ser ponte entre mundos: o pai era hindu e a mãe catalã católica; era doutorado em Filosofia, Química e Teologia; viveu uma parte da sua vida na Europa, outra na Ásia, uma terceira na América. Ensinou em muitas universidades, incluindo Harvard. Deixou mais de 50 livros, em várias línguas, que dominava. No meio de uma vida agitada e aparentemente dispersa, manteve, no Uno, a serenidade do monge. É seu o pensamento, retomado pela encíclica de Francisco, Laudato sí, de que tudo está interligado.

Padre católico, regressando da Índia, disse que voltava hindu e budista, sem que isso significasse deixar de ser cristão: pelo contrário, agora era mais cristão. Por isso, para lá do diálogo inter-religioso, defendia o diálogo intra-religoso, isto é, aquele diálogo que cada um deve estabelecer dentro de si mesmo entre as grandes religiões, cuja herança pertence a todos.

Depois dos períodos de isolamento e ignorância recíproca, indiferença e desprezo, condenação, perseguição e conquista, coexistência e tolerância, chegou como "necessidade vital" o tempo do diálogo entre as religiões. É preciso superar o exclusivismo, que afirma que só uma religião é verdadeira (a minha), rejeitando as outras.

O diálogo autêntico só pode ter por base o são pluralismo: todas as religiões são presença do Absoluto, do Mistério salvador, mas nenhuma o possui definitivamente. Este diálogo é constitutivo do ser humano enquanto tal, pois o Homem não é uma mónada fechada, mas uma pessoa, feixe de relações. Por isso, a religião tem de incluir também o diálogo com a Terra, a que chamou ecosofia. Este é o pensamento e a acção implicados numa concepção cosmoteândrica.

Expressão deste pensamento e diálogo de um Homem universal foi o seu funeral: numa celebração solene e íntima, seguiu o rito exclusivamente católico, mas Panikkar deixou instruções precisas para que as suas cinzas fossem repartidas entre a família, o cemitério de Tavertet e o rio Ganges, na Índia.

4. Já Platão distinguiu entre pan, o todo como soma das partes, e holon, o todo estruturado, mais do que a soma das partes. Há muita dificuldade em pensar holisticamente, sobretudo porque a razão moderna é objectivante analítica, separadora, tendo como seu modelo a máquina, que decompõe para refazer e assim dominar. No próprio pensamento religioso, em vez de religação, encontramos frequentemente visões dicotómicas e dualistas: este mundo e o outro, o aquém e o além, a alma e o corpo, o divino e o humano, o interior e o exterior, os de dentro e os de fora, os crentes e os não crentes...

Neste contexto, Panikkar afirmava com razão que é preciso ultrapassar e superar "três dualismos, seis dicotomias e três reducionismos". Torna-se imperioso unir o que tem andado separado. O distinto e o diferente não podem significar separação.

Os dualismos são: Deus e o Homem, o Homem e a natureza. Não se trata agora de confundir, mas de religar. As seis dicotomias são: alma e corpo, masculino e feminino, indivíduo e sociedade, teoria e práxis, conhecimento e amor, tempo e eternidade. Também aqui não se trata, evidentemente, de reduzir tudo ao mesmo, mas de tomar consciência de que uma realidade não existe sem a outra e de mostrar a sua relação intrínseca.

 

Os três reducionismos são: "O antropológico, que reduz o Homem a um animal racional; o cosmológico, que reduz o Cosmos a um corpo inerte; o teológico, que reduz a Divindade a um Ser transcendente." Impõe-se superar estes reducionismos, porque o Homem não é redutível a animal racional, e, quando se reduz o Cosmos a um corpo inerte, esquece-se a sua dimensão sagrada e viva, e o modo da transcendência de Deus só pode ser este: no mundo, Deus é transcendente ao mundo, infinitamente transcendente enquanto infinitamente presente.

Tudo está em relação com tudo. Ser e ser em relação identificam-se. Não se trata, portanto, de anular as diferenças, já que a unidade sem a diferença seria a mesmidade morta, como as diferenças sem a unidade se anulariam no caos. Assim, a religião do futuro tem de religar o que tem andado separado: Cosmos, Deus e Homem, como se diz na palavra cosmoteândrico e na sua obra, traduzida para português: a intuição cosmoteândrica. A religião do terceiro milénio. Tudo está interligado.

 

Padre e professor de Filosofia. Escreve de acordo com a antiga ortografia

in DN 21.11.20

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/21-nov-2020/a-intuicao-cosmoteandrica-a-religiao-do-futuro-13053520.html?target=conteudo_fechado

 

 

 

QUE COISA
SÃO AS NUVENS

JOSÉ
TOLENTINO
MENDONÇA

 

 

COGUMELOS, MÚSICA E SILÊNCIO

A NOVIDADE DO CONTRIBUTO CULTURAL TRAZIDO POR CAGE NASCEU DO ESFORÇO PARA PENSAR FORA DAS DICOTOMIAS DO PENSAMENTO OCIDENTAL, DEMONSTRANDO COMO A COEXISTÊNCIA DOS OPOSTOS NÃO INTERROMPE O SENTIDO

Os cogumelos, a música e o silêncio têm duas coisas em comum. A primeira delas está associada à sua natureza: crescem fora das estradas principais, são favorecidos pelo recolhimento dos bosques, amam a alternância das estações. A segunda coisa que têm em comum é terem sido objeto da igual paixão de um dos criadores mais originais do século XX: o compositor John Cage. A novidade do contributo cultural trazido por Cage nasceu do esforço para pensar fora das dicotomias do pensamento ocidental, demonstrando como a coexistência dos opostos não interrompe o sentido, antes o revela no seu carácter paradoxal, que temos de aprender a aceitar melhor. A testemunhá-lo está, por exemplo, o facto de as suas explorações acerca do silêncio se terem tornado determinantes para o tipo de música que fazia. A muitos desconcertou que ele tenha ousado apresentar experiências de silêncio ininterrupto como legítimas peças musicais (assim o fez com as composições “Silent Prayer” e “4’33’’”). Mas para John Cage não havia nisso qualquer contradição, e explicava-o assim: “A música é inútil, a menos que desenvolva a nossa capacidade de escuta. O silêncio não é acústico, é uma mudança de mentalidade.” A obra artística de Cage ajudou a questionar o que é a música e a verificar que esta é indissociável da compreensão do silêncio entendido não como ausência mas como forma alternativa de construção sonora.

O silêncio é tão sonoro como a música, mas pede de nós uma mudança de atitude: a valorização da continuidade que existe entre arte e vida

Um momento de viragem foi a experiência na câmara anecoica da Universidade de Harvard, uma história que Cage recontou inúmeras vezes. Entrando nessa sala à prova de som, onde supostamente poderia testar o absoluto silêncio, ele escutou então um som grave (o do seu próprio sangue em circulação) e um agudo (o do seu sistema nervoso a operar). Até aí estava convencido de que o silêncio real existia como qualquer coisa que podemos produzir pela eliminação dos sons. Na câmara anecoica, porém, percebeu que não existe o silêncio como produção nossa. Mas ocorre isto: enquanto a música ou a palavra representam sons intencionais que realizamos, o que nós chamamos de silêncio é a possibilidade de acedermos à escuta dos sons e das realidades não intencionais. O silêncio é tão sonoro como a música e tão loquaz como a palavra, mas pede de nós uma mudança de atitude: a valorização da continuidade que existe entre espaço intencional e não intencional, entre sujeito e objeto, entre arte e vida.

Nos anos da Grande Depressão, quando os alimentos escasseavam, Cage começou a frequentar os bosques em busca de cogumelos, tornando-se com o tempo um especialista na matéria, a que recorriam restaurantes importantes de Nova Iorque. Parece uma insólita deriva, que nada tem a ver com a sua arte, mas a verdade é que o método permanecia o mesmo: na sua errância pelos bosques, inesperadamente o desconhecido manifestava-se. E há um episódio televisivo a este propósito. Em 1959, um obscuro músico americano de nome John Cage participa em Itália num desses concursos banais da TV, com duas intervenções musicais e como concorrente a um prémio de cinco milhões de liras. A música deixou apresentador e auditório aturdidos, mas quando começou o concurso propriamente dito, que tinha como tema da sessão os cogumelos, o espanto não foi menor, pois o excêntrico concorrente era capaz de elencar por ordem alfabética dezenas de espécies. No final, o apresentador, felicitando-o, perguntou-lhe se voltaria para a América. Cage respondeu que sim, mas que a sua música ficava. O apresentador retorquiu: “Que pena. Seria melhor que a sua música partisse e que você permanecesse connosco.”

in Semanário Expresso,21.11.20

https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2508/html/revista-e/que-coisa-sao-as-nuvens/cogumelos-musica-e-silencio

À Procura da Palavra

DOMINGO XXXIV COMUM

CRISTO REI

Pe. Vitor Gonçalves

“‘Quantas vezes o fizestes

a um dos meus irmãos mais pequeninos,

a Mim o fizestes’.” Mt 25, 40

A surpresa final

Se nos fosse pedido uma síntese do Evangelho, de toda a Boa Nova de Jesus, o que diríamos? Certamente escolheríamos as Bem-aventuranças, ou o seu Mandamento novo, a Páscoa, e a Última (primeira) Ceia. No fundo, em cada gesto e palavra de Jesus encontramos a totalidade do amor de Deus a chegar até nós. E há 20 séculos que nós, cristãos, falamos do amor. Mas o decisivo não é simplesmente dizer e pensar, acreditar ou escrever. Não podemos ficar satisfeitos e tranquilos porque não fazemos a ninguém nenhum mal especialmente grave.

A terceira parábola de Mateus 25 mostra como a realeza de Jesus é desconcertante. Ao contrário dos reis humanos, que se distinguem dos súbditos e do povo, este rei identifica-se com os mais pequenos. É inútil procurar o Ressuscitado nas nuvens, no grandioso, pois a sua presença revela-se nos mais pobres, nos necessitados. É a compaixão concreta, a decisão em não deixar no mal e no sofrimento aqueles que não são estranhos mas irmãos, e é preciso cuidar e salvar. A fé cristã é mística e prática, secreta e visível, interior e eficaz. Não se pretende substituir a nenhum poder público, a nenhum governo, mas assume compromissos por cada homem e mulher concretos que necessitam sair do sofrimento. Porque nenhum sofrimento nos pode ser alheio, e a compaixão é o único modo de nos parecermos com Deus.

À semelhança das virgens insensatas, que não fizeram nada de mal mas não se precaveram com o azeite da alegria para o encontro com o esposo, e do servo que por medo e preguiça escondeu o talento e não o quis multiplicar, também ficarão surpreendidos aqueles que viram tantos sofredores e nada fizeram por eles. O pior é não fazer nada! Os que os aliviaram do sofrimento fizeram-no voluntariamente. Também não viram nem reconheceram Jesus neles. Agiram gratuitamente, sem ganhar dinheiro nem esperar recompensa. Encheram-se de compaixão e deixaram-se mover pelo amor. Dizia Leon Tolstoi: “Podem cortar-se árvores, fabricar tijolos e forjar ferro sem amor. Mas é preciso tratar com amor os seres humanos. Se não sentes afecto pelos homens, ocupa-te no que quiseres, mas não neles.”

A maior surpresa é essa: quando abandonamos um necessitado, abandonamos Deus, quando o aliviamos, é a Deus que aliviamos. São os gestos concretos, possíveis, ao nosso alcance que marcam a diferença. Diziam dois pobres à porta de uma igreja: “Falam tanto de nós, mas não vêm falar connosco!” Jesus pede-nos para não duvidarmos dos milagres que os mais pequenos gestos de amor a quem sofre, podem realizar.

in Voz da Verdade 22.11.2020

http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=9341&cont_=ver2

Capela do Rato

Já não há vagas para a missa do 1º Domingo de Advento

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15 novembro 2020

 

P / INFO: Crónicas, Mulheres católicas (…), History-making report sets a precedent the Vatican can’t walk back & Capela do Rato, Inscrições para as celebrações

Frei Bento: A internacional do ódio

Pe. Anselmo: O Papa Francisco confessa-se. 2

Cardeal Tolentino: A Máscara

Pe. Vítor Gonçalves: Quem vence o medo?

 

A INTERNACIONAL DO ÓDIO

Frei Bento Domingues, O.P.

Nesta era de extremismos, à esquerda e à direita, reafirma-se a tentação de responder ao ódio com mais ódio.

São outros os caminhos da política da justiça e da paz.


1. Nós existimos, nós perseveramos no que somos a partir da palavra e do desejo do outro. Tornar-se humano é tornar-se solidário, não apenas com o seu grupo identitário – isso também fazem as formigas – mas exactamente com o estranho, aquele que caiu em desgraça e sobrevive abandonado[1]. É esta observação que guiará esta crónica.

A UNESCO declarou 10 de Novembro Dia Mundial da Ciência para a Paz e o Desenvolvimento. O Conselho Português para a Paz e Cooperação divulgou um texto, de Federico Carvalho, para marcar esta data importante: «Às mulheres e homens que trabalham em Ciência, os trabalhadores científicos, cabe a particular responsabilidade de agir no seio da sociedade em que se integram, mas também como cidadãos do mundo, para que as aplicações do conhecimento científico sejam postas ao serviço do progresso social, que compreende o desenvolvimento económico e cultural, no quadro de uma utilização sustentável dos recursos naturais do planeta. São objectivos que exigem a abolição da guerra nas relações entre estados e nações e o fim de conflitos internos, com o estabelecimento de uma Paz duradoura. Não se trata de uma escolha entre alternativas, trata-se da sobrevivência da humanidade.

«Nos nossos dias, graças à evolução dos meios técnicos de transporte e de comunicação, as ligações entre países, regiões, continentes, estabeleceram-se a um nível sem precedentes, facilitando a mobilidade de pessoas e bens. Esta realidade é responsável pela rápida propagação da pandemia que, ao contrário do que aconteceu no passado com outras situações pandémicas, hoje estende-se a todo o planeta, atingindo em maior ou menor grau, o conjunto da população[2].

2. Escrevo esta crónica no dia de S. Martinho (316-397). Na tradição popular, é o dia de provar o vinho novo.

Martinho era um militar, não por vontade própria, mas por imposição do seu pai que era tribuno romano. Tornou-se catecúmeno cristão e, durante essa iniciação, percebeu o essencial da nova fé: ao ver um pobre ao frio e esfarrapado, cortou a sua capa ao meio e deu metade a esse mendigo. Era a marca do seu itinerário.

Este Domingo, no calendário litúrgico, é o 33º do Tempo Comum. O Papa Francisco, no encerramento do Ano da Misericórdia (2017), proclamou-o Dia Mundial dos Pobres.

Pode parecer estranho, pois já existia o Dia Mundial da Erradicação da Pobreza, a 17 de Outubro, promulgado pela ONU, por influência do Padre católico, Joseph Wresinski (1917-1988). Ele não era, apenas, a voz do povo da miséria, ele pertencia a esse povo, assumiu a sua causa e fundou a Associação ATD Quart Monde.

O Papa Francisco assumiu a tradição inventiva, de homens e mulheres que, desde os Actos dos Apóstolos, passando pelo humor surrealista do diácono S. Lourenço (século III) se tornaram, em todas as épocas até aos nossos dias, a voz dos sem vez e sem voz.

Existem várias obras sobre a erradicação da pobreza, cujas promessas parecem sempre adiadas. Seria absurdo, no entanto, dar esses trabalhos por inúteis, quer a nível nacional quer internacional[3].

Pergunta-se: o que acrescenta o Dia Mundial dos Pobres ao Dia Mundial da Erradicação da Pobreza?

Uma coisa é a investigação, o mais rigorosa possível, das causas sociais, culturais e políticas da pobreza. Outra é a atenção personalizada aos que são vítimas da pobreza imposta. Exige o encontro interpessoal, concreto, afectivo, com os pobres, nossos irmãos esquecidos ou desprezados.

O filósofo e político, António Frederico Ozanam (1813-1853), lutava, no Parlamento, pela erradicação da pobreza. Compreendeu, no entanto, que era preciso mobilizar a consciência de cristãos e não cristãos para a situação concreta dos pobres. Não eram, apenas, uma categoria social, cultural e política, objecto das ciências humanas. Eram pessoas que precisavam de ser reconhecidas e socorridas. Não eram números ou categoria sociais abstractas. Precisavam de calor humano num encontro fraterno. Foi ele o fundador das Conferências de S. Vicente de Paulo. Com o tempo, muitas delas esqueceram-se da sua genuína vocação.

3. São muitos os cidadãos dos EUA que demoram aceitar o resultado das recentes eleições presidenciais. É uma situação perigosa. Serve para alimentar extremismos e focos incendiários de ódio. 

É certo que o discurso de Joe Biden procurou mostrar que a sua presumível vitória destinava-se a unir todos os norte-americanos: prometo ser um presidente que não busca dividir, mas unir, que não vê estados vermelhos e azuis, mas os Estados Unidos; prometo trabalhar  para conquistar a confiança de toda a população. Os meus conterrâneos americanos, são o povo deste país que nos deu uma clara vitória, uma vitória convincente. Orgulho-me da campanha que fizemos e conduzimos. Estou orgulhoso da coligação que formamos, a mais ampla e diversificada da história: democratas, republicanos e independentes, progressistas, moderados e conservadores, jovens e velhos, urbanos, suburbanos e rurais, gays, héteros, transgéneros, brancos, latinos, asiáticos, americanos nativos.

O teólogo espanhol, J. J. Tamayo, sustenta que os partidos políticos e as organizações da extrema direita mundial e os movimentos cristãos fundamentalistas formam uma aliança cada vez mais sólida e eficaz na conquista do poder, em todos os âmbitos, fomentando o discurso das práticas de ódio, difundindo uma internacional do ódio.

Uma das pessoas que mais contribuiu para esse discurso e para essas práticas foi o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante os quatro anos do seu mandato. Contou, não apenas com o Partido Republicano, mas também com um sector muito importante e influente do movimento evangélico integrista, os “Evangélicos por Trump”. Com as sagradas Escrituras, judias e cristãs, sustentou a sua política belicista, anti ecológica, patriarcal, xenófoba, sexista e a separação dos país e filhos entre os imigrantes. O apoio veio também de grupos católicos ultraconservadores e de importantes personalidades da Igreja Católica como o cardeal Timothy Dolan, arcebispo de Nova York[4].

Nesta era de extremismos e de tendências extremistas, à esquerda e à direita, reafirma-se a tentação de responder ao ódio com mais ódio, à violência com mais violência. É o caminho da mundialização da guerra, de que fala o Papa Francisco.

São outros os caminhos da política da justiça e da paz. 

in Público 15.11.2020

https://www.publico.pt/2020/11/15/opiniao/opiniao/internacional-odio-1938994



[1] Cf. José Augusto Mourão, Quem vigia o vento não semeia, Pedra Angular, 2011, p.7

[2] Transcrevi, apenas, um parágrafo desse texto. Merece uma leitura integral.

[3] Cf. uma obra fundamental de Abhijit V. Banerjee e Esther Duflo, A Economia dos Pobres. Repensar de modo radical a luta contra a pobreza global, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2012.

[4] Cf. : www.other-news.info/noticias/2020/11/tras-elecciones-en-ee-uu-como-deconstruir-el-discurso-y-las-practicas-de-odio

 

Anselmo Borges

Padre e Professor de Filosofia

O Papa Francisco confessa-se. 2

1. Penso muitas vezes na solidão do Papa. Chega ao Vaticano, que não conhece por dentro, concretamente, a sua secular e gigantesca burocracia. Não tem mulher nem família com ele. E os amigos?! Sabe que os seus gestos, atitudes, discursos, homilias, tudo será escrutinado até ao mínimo pormenor. Vive e trabalha num palácio, guardas fazem-lhe continência ao passar. Aquele palácio é testemunha de muitas histórias, ao longo do tempo, tantas vezes nada, mesmo nada, edificantes, pelo contrário, revelando o pior da natureza humana e do poder, sobretudo quando absoluto. Dali também se transmitiu imensa esperança a milhões de pessoas em todo o mundo, e isso constitui mais uma preocupação: o que fizer vai influenciar um número incalculável de vidas. O Papa é um dos homens mais poderosos do mundo. No entanto, deve sentir-se tantas vezes só... Até sabe que, resignando, não é livre de escolher o lugar onde quer viver os últimos dias em tranquilidade. De facto, como ex-chefe de Estado, quem assume a responsabilidade da sua segurança? Pensei nisso quando recentemente o ex-Papa Bento XVI esteve na Alemanha para despedir-se do irmão em finais de vida e de como ruas ficaram encerradas, com soldados a guardar os telhados. É sabido que Paulo VI pensou em resignar e não ficaria no Vaticano, mandou preparar quartos num convento... Francisco, quando resignar, não quereria ficar no Vaticano, complicando a vida do sucessor, mas...

2. O jornalista da AdnKronos também veio ao assunto. E Francisco, na sua sinceridade: “Se estou só? Pensei nisso. E cheguei à conclusão de que existem dois níveis de solidão. Alguém pode dizer: sinto-me só, porque quem devia colaborar não colabora, porque quem deveria sujar as mãos pelo próximo não o faz, porque não seguem a minha linha e por aí adiante, e esta é uma solidão digamos... funcional. Depois, há uma solidão substancial, que eu não sinto, porque encontrei tantíssima gente que corre riscos por mim, coloca a sua vida em risco, que se bate com convicção, pois sabe que estamos no que está correcto e que o caminho empreendido, mesmo entre mil obstáculos e naturais resistências, é o correcto. Houve exemplos de maldades, de traições que ferem quem crê na Igreja. Essas pessoas não são certamente religiosas de clausura.”

Francisco não sabe se vencerá ou não a batalha. Mas com amorosa resolução diz-se seguro de uma coisa: “Sei que devo travá-la, fui chamado para travá-la, depois será o Senhor a dizer se fiz bem ou se fiz mal. Sinceramente, não estou muito optimista (sorri), mas confio em Deus e nas pessoas fiéis a Deus. Lembro-me de que quando estava em Córdova, rezava, confessava, escrevia, um dia vou à biblioteca procurar um livro e dou com 6-7 volumes sobre a história dos Papas e entre os meus antiquíssimos antecessores encontrei alguns exemplos não propriamente edificantes.”

Como reage às críticas que lhe chegam do interior da Igreja? E há tantas! Por causa das uniões civis dos homossexuais, da abertura à comunhão dos divorciados recasados, do acordo com a China... Francisco pensa durante uns segundos e responde: “Não diria a verdade e insultaria a sua inteligência, se dissesse que elas te deixam bem. Não agradam a ninguém, especialmente quando são bofetadas na cara, quando fazem mal se são ditas de má-fé e com malvadez. Mas com a mesma convicção lhe digo que as críticas podem ser construtivas, e então assumo-as totalmente, porque a crítica leva a examinar-me, a fazer um exame de consciência, a perguntar-me se errei, em quê e porquê errei, se fiz bem, se fiz mal, se podia fazer melhor. O Papa escuta todas as críticas e depois faz o discernimento, discernimento que é a linha-guia do meu percurso, sobre tudo, sobre todos. E aqui — continuou — seria importante uma comunicação honesta para descrever a verdade sobre o que está a acontecer no interior da Igreja. É verdade, portanto, que, se na crítica devo encontrar inspiração para fazer melhor, não posso, por outro lado, deixar-me arrastar por tudo o que de pouco positivo escrevem sobre o Papa.”

O jornalista comenta que hoje o maior ataque dos inimigos figadais de Francisco é preparar um sucessor contrário. Eu, pessoalmente, penso que não é possível voltar atrás em relação a Francisco. Porque as pessoas gostaram do seu estilo, dos seus gestos, da sua proximidade às pessoas, da sua proximidade ao Evangelho... E que pensa Francisco sobre a sucessão? “Também eu penso naquele que virá depois de mim, sou o primeiro a falar disso. Recentemente, submeti-me a exames médicos de rotina, os médicos disseram-me que um deles podia fazer-se a cada cinco anos ou anualmente, eles inclinavam-se para que fosse a cada cinco anos, eu disse: façamo-lo ano a ano, nunca se sabe.” Aqui, o jornalista observa: desta vez o sorriso foi mais generoso.

Seja como for, a pergunta é inevitável: E que futuro para a Igreja? Francisco conta uma história que lhe desagradou: “Soube de um bispo que afirmou que, com esta pandemia, as pessoas “desabituaram-se” — foi esta a palavra — de ir à igreja, que as pessoas não voltarão a ajoelhar-se diante de um crucifixo ou a receber a comunhão. Eu digo que se esta “gente”, como lhe chama o bispo, ia à igreja por hábito, então é melhor que fique em casa. É o Espírito Santo que chama a gente. Talvez após esta dura provação, com estas novas dificuldades, com o sofrimento que entra nas casas, os fiéis sejam mais verdadeiros, mais autênticos. Acredite em mim: vai ser assim.”

in DN 14.11.2020

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/14-nov-2020/o-papa-francisco-confessa-se-2-13029914.html?target=conteudo_fechado                         

QUE COISA

SÃO AS NUVENS

JOSÉ
TOLENTINO
MENDONÇA

A máscara

HÁ OS QUE A DEFENDEM COMO UM COMPROMISSO

ÉTICO QUE REALIZAMOS NUMA HORA DE

TAMANHA VULNERABILIDADE COMO A PRESENTE.                              

E HÁ OS QUE A TEMEM COMO UM DISTÚRBIO QUE

TRARÁ CONSEQUÊNCIAS

Quando hoje se googla a palavra “máscara” aparece uma infinidade de variantes de pesquisa: máscaras descartáveis, cirúrgicas, certificadas, personalizadas, reutilizáveis, transparentes e por aí fora. Esta repentina multiplicação de aceções quer dizer uma coisa: que entrou a fazer parte das práticas do quotidiano. De facto, após uma indecisão inicial, a máscara tornou-se um elemento base de proteção contra a pandemia. E assim, de uma hora para outra, a estranheza do artefacto se desfez pelo uso corrente, expectável e universal. Mas este acessório que adicionamos ao rosto — uma ajunta provisória e associada a esta conjuntura sanitária, espera-se — tem sido motivo para alguma reflexão de natureza antropológica. Há os que a defendem como um compromisso ético que realizamos, sinalizando que como indivíduos estamos empenhados em colaborar positivamente na construção do bem comum, numa hora de tamanha vulnerabilidade como a presente. E há os que a temem como um distúrbio que trará consequências. Neste caso, o medo em relação à máscara é o de que ela venha a alterar a perceção que fazemos dos outros e de nós próprios; que modifique os tradicionais mecanismos de proximidade; que contribua para ampliar a indiferença e a invisibilidade social. Medo, no fundo, de que a máscara possa cancelar o rosto ou substituir-se a ele. Um pouco na linha daquilo que Álvaro de Campos prevê no poema ‘Tabacaria’: “Quando quis tirar a máscara,/ Estava pegada à cara./ Quando a tirei e me vi ao espelho,/ Já tinha envelhecido”. Ora, mesmo tomando esta posição como um clamoroso exagero ela tem, pelo menos, a vantagem de nos sensibilizar para a problemática da comunicação interpessoal, interrogando-nos sobre a forma como nos encontramos e desencontramos em tempo de pandemia.

Um acirrado denunciador da máscara tem sido, por exemplo, o filósofo Giorgio Agamben. Ele recorda que se todos os seres viventes existem no aberto, se mostram e comunicam, só o ser humano tem, porém, um rosto. Isto é, só o ser humano “faz do seu aparecer e comunicar-se aos outros humanos a própria experiência fundamental,(...) o lugar da própria verdade”. Tudo o que dizemos e trocamos se funda no rosto.

Neste sentido, é inimaginável que se possa pensar sem ele a política, pois esta ficaria perigosamente reduzida a uma mera troca de informações e mensagens. Para Agamben, o rosto é “o elemento político por excelência”, pois é “olhando-se no rosto que os humanos se reconhecem e apaixonam, percebem a semelhança e a diversidade, a distância e a proximidade”.

in Semanário Expresso 13.11.2020 pg 163

https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2507/html/revista-e/que-coisa-sao-as-nuvens/a-mascara

     

À Procura da Palavra

DOMINGO XXXIII COMUM

Pe. Vitor Gonçalves

“Porque foste fiel em coisas pequenas,

confiar-te-ei as grandes.”

Mt 25, 23

 

Quem vence o medo?

 

Apreciamos o talento de artistas e génios, pessoas que parecem estar num nível superior aos comuns dos mortais, vindos até, quem sabe, de outra galáxia. Mas é fácil esquecer o trabalho, a persistência e tenacidade de quem não desiste de melhorar. Porque não dá nas vistas, não se gosta de aprender com os erros, não brilha o esforço que nem sempre leva ao sucesso. Ainda no rescaldo das eleições norte-americanas, leio uma citação de Calvin Coolidge, o 30º presidente dos Estados Unidos da América: “Nada no mundo substitui a persistência. O talento não o pode fazer, nada é mais comum do que homens falhados com talento. O génio também não; génios que não foram reconhecidos são quase um provérbio. A formação também não; o mundo está repleto de diplomados fracassados. A persistência e determinação por si só são omnipotentes.”

Caminhamos para o final do ano litúrgico num apelo à persistência em não descurar o combate à pandemia do Covid-19. São-nos exigidos sacrifícios vários, confinamentos e limitação de circulação, redução de contactos físicos e hábitos sanitários, também na vida eclesial (e seria estranho pensar o contrário). Se valorizamos a vida uns dos outros em tempo de “normalidade”(?) não é mais importante ainda lutar por ela na adversidade? É preciso determinação para usar todos os talentos ao serviço da saúde, da justiça social, do compromisso ético sustentável, da economia ao serviço das pessoas, da fraternidade que supera os contrastes, da escolha do bem comum. Ou o medo levar-nos-á a enterrar os talentos que nos foram confiados?

A parábola dos talentos não fala simplesmente das capacidades de cada pessoa, ou dos dons com que cada um nasce. Fala-nos mais da graça de Deus, do dom que é Jesus Cristo e o Evangelho, capazes de trazer a salvação ao mundo, se o acolhemos e fazemos frutificar. Questiona as comunidades cristãs sobre como colocamos o tesouro da nossa fé a multiplicar-se e a enriquecer todos, se somos dinâmicos e empreendedores ou se a indolência e o medo nos atrofiam. Deus não apresenta plano de instruções: confia, dá liberdade e responsabiliza. Mais do que a quantidade de talentos recebidos (e lembremos que, cada talento, corresponde ao valor de uma vida inteira de trabalho), sublinha-se a determinação e o empenho dos dois primeiros servos, contrapondo a preguiça e o medo do terceiro. É este que não devemos imitar: o seu medo nasceu de uma falsa imagem de Deus, enterrar o talento foi fechar-se nos seus interesses particulares e estéreis.

O Deus da alegria e da festa não procura simplesmente a rentabilidade, mas exige que façamos a vida fluir, que o tesouro que somos com Cristo não fique improdutivo, que os bens não sejam para guardar mas para partilhar, que ninguém enterre o que pode produzir maravilhosos bens. Assim derrotamos o medo com persistência, trabalho e confiança naquele que primeiro confia em nós! 

in Voz da Verdade 15.11.2020

http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=9328&cont_=ver2                                                                                                 

 

 

Mulheres católicas preparam sínodo para reivindicar igualdade na Igreja

A plataforma Voices of Faith está a organizar um “sínodo” (termo usado para designar assembleias eclesiais), que deverá acontecer na primavera de 2022, a par com o Sínodo dos Bispos já convocado pelo Papa Francisco. O objetivo é promover “a dignidade e igualdade” das mulheres na Igreja Católica e lutar contra o sistema de “patriarcado”. Entre as (…)

 in Sete Margens 10.11.2020

https://setemargens.com/mulheres-catolicas-preparam-sinodo-para-reivindicar-igualdade-na-igreja/

In this April 24, 2002 file photo, Cardinal James Francis Stafford, left, head of the Pontifical Council for Laymen, Cardinal Theodore Edgar McCarrick of Washington, D.C., center, and United States Catholic Bishops' Conference President Wilton Gregory of Belleville, Ill., attend a news conference at the Vatican concluding a two-day meeting between Pope John Paul II and US cardinals at the Vatican. After an extraordinary meeting sparked by a sex abuse scandal, American Roman Catholic leaders agreed to make it easier to remove priests guilty of sexually abusing minors - but they stopped short of a zero-tolerance policy to dismiss all abusive priests. (Credit: Pier Paolo Cito/AP.)

History-making report sets a precedent the Vatican can’t walk back

John L. Allen Jr. EDITOR

News Analysis

ROME – When I took Western Civ in college, our professor once read aloud to the class an excerpt from the diary of a Roman senator written on Sept. 4, 476 AD. The senator described his efforts to suck up to 16-year-old Emperor Romulus Augustulus in hopes of being appointed to some high office, perhaps a tribune or magistrate.

On that same day, Romulus Augustulus, the last emperor in the West, was deposed by the barbarian warlord Odoacer, marking what historians now conventionally identify as the fall of the Roman Empire.

My professor’s point was that quite often, people living through moments that change history fail to recognize them at the time.

The point arises with respect to Tuesday’s release of the Vatican’s long-awaited report on the case of ex-cardinal and ex-priest Theodore McCarrick. While the focus, understandably, has been on the content of what the report contains, the crucial historical point may be the fact it happened at all.

It’s so breathtaking, in fact, that one wonders if anyone in the Vatican actually understands the magnitude of the precedent they just set.

The only comparison that comes to mind dates to August 17, 2011, when the Vatican released roughly 70 pages of documents in its possession regarding the case of Father Andrew Ronan, a Servite priest who was laicized in 1966 and died in 1992 and who later figured in a sex abuse lawsuit in Oregon in which the Vatican was named as a defendant.

Yet in that instance, there were no interviews conducted by a Vatican investigator, no attempt to provide context or explanation, and no admission of failure. All we got were the documents themselves, along with a preemptory declaration by a spokesman that they proved the Vatican completely innocent.

(That may be because the issue in the Ronan case was whether every Catholic priest in the world is a Vatican “employee,” a preposterous notion hard for anyone in the know to take seriously.)

In other words, the Ronan release was profoundly different from what happened with the McCarrick report, which was researched and written by Jeffrey Lena and his colleagues. Lena is a Berkeley-based attorney who’s represented the Vatican on civil matters in American courts for decades and who also knows Italy well, having studied and taught in Milan and Turin.

To grasp the full significance of what’s happened, let’s take a step back. Since 1870, when the Vatican lost its temporal authority and was compelled to become an exclusively spiritual power, operationally it’s had two core principles: Secrecy and sovereignty. Secrecy meant we don’t air our dirty laundry in public in order to avoid scandal, and sovereignty meant we don’t owe an explanation of our actions to anyone.

This report doesn’t just break with those principles, it shatters them forever.

Granted, critics may find it terribly convenient that while the report faults St. John Paul II and Pope emeritus Benedict XVI, it largely insulates Pope Francis from blame. Granted, too, victims and others may object this is an accounting without accountability, and until someone is punished not only for the crime but the cover-up, the work isn’t done.

Still, for the most part the report is searingly honest and comes off as a genuine attempt to get at the truth. It contains a level of detail never before seen. We’re given the strictly confidential advice the most senior prelates in the Church gave when deciding to promote McCarrick, we’re given the gut-wrenching details of victim testimony, and we’re given first-hand recollections by top Vatican officials of the decision-making process. Such disclosure, on this scale, is absolutely new.

The present power structure in the Vatican deserves credit not only for allowing this to happen, but for taking the heat as time wore on and impatience grew. We’ve been wondering for two years why it was taking so long, but seeing how thorough and painstakingly detailed the report is, that question no longer seems quite so pressing.

More basically, think about the precedent this report sets. From now until the end of time, regarding any scandal past or present, if the Vatican refuses to conduct a similar investigation and make the results public, the question always will be: Why not? What are they trying to hide?

If I were a victim of the late Mexican Father Marcial Maciel Degollado, founder of the Legion of Christ, I’d be demanding a similar investigation right now to find out who covered for Maciel in the Vatican and why. If I were one of the alleged victims of Argentine Bishop Gustavo Zanchetta, accused of sexual misconduct with adult seminarians and given a job by Pope Francis in the Vatican’s financial operations, I’d be clamoring for my own McCarrick report to tell me what the pope knew and when he knew it.

One could go on. At the moment, another candidate for such an inquest might be the burgeoning London financial scandal and the charges of financial impropriety against Italian Cardinal Angelo Becciu. Some skeptics believe Becciu has been set up as a convenient fall guy for the entire affair, and perhaps only a thorough review on the scale of the McCarrick report could establish what actually happened.

In other words, having decided once that secrecy and sovereignty needed to yield to transparency and honesty, the Vatican will never again have a persuasive excuse not to do the same thing when other failures occur.

In the end, it’s possible the McCarrick report may be remembered as the single most consequential step toward reform during the Francis papacy, not only because of what it reveals about this particular case, but the precedent it sets for how all future cases ought to be handled.

Once the genie of transparency is out of the bottle, that is, it’s going to be awfully difficult to put it back in.

in CRUX

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https://cruxnow.com/news-analysis/2020/11/history-making-report-sets-a-precedent-the-vatican-cant-walk-back/

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NOTA: Ainda não estão abertas as inscrições

Pode rever e partilhar a celebração a partir da página da Capela do Rato no Facebookhttps://www.facebook.com/capeladorato.org

Para uma melhor participação na celebração, poderá consultar a folha de cânticos, disponível aqui.

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