01 agosto 2020


P/INFO: NÓS E OS OUTROS, crónica do P. Anselmo Borges, Núncio de França convoca “mulheres apóstolas” para reunião, depois de uma delas receber ameaças de morte, notícia copiada do 7Margens & Comunicado de imprensa  de “Toutes Apôtres”, publicado no Religión Digital

NÓS E OS OUTROS

Aí está um tema e um problema sempre presentes, pois o que há é sempre nós e os outros, vivendo e convivendo, enriquecendo-nos mutuamente ou destruindo-nos uns aos outros. A pergunta essencial é então: porque é que se passa tão fácil e rapidamente do encontro mutuamente constituinte e enriquecedor à suspeita, à luta e ataque destruidores?
Na relação sadia com o outro/outros, há dois pressupostos essenciais. Um diz a dignidade inviolável de toda a pessoa humana, independentemente do sexo, da cor, da etnia, da religião... Outro pressuposto é a tomada de consciência de que o outro é sempre outro, igual e diferente. O outro, sempre cultural, pois o ser humano é resultado de uma herança genética e de uma cultura em história, porque é, simultaneamente, tanto do ponto de vista pessoal como grupal e societal, um outro eu e um eu outro — outros como nós e outros que não nós —, é sentido constantemente como fascínio e ameaça.
Há uma visão dupla do outro, que tanto pode ser idealizado como diabolizado, mitificado positivamente ou negativamente. Atente-se na ligação entre hóspede e hostil. Assim, hospital vem do latim hospite, que significa hóspede, também em conexão com hotel. Como ser-no-mundo, o Homem é, logo na raiz, hóspede: somos hospedados no mundo. Mas a palavra está ligada também a hoste, donde provém hostil — também há o hostel. Não nos pedem à chegada a um hotel a identificação, pois não se sabe quem chega por bem ou por mal? E a fronteira, porta de entrada e de saída — em conexão com fronte: a nossa fronte somos nós voltados para os outros, mas ao mesmo tempo ela é limite, demarcação —, não é ao mesmo tempo o espaço de acolhimento e da independência a defender frente ao invasor? O mesmo se pode ver  na análise da palavra encontro. Também aqui é importante observar como, analisando o étimo, comparece não só a relação constituinte com o outro, mas também a indicação do embate e contraposição, assinalados no contra da palavra encontro, que aparece igualmente no espanhol, encuentro, no francês, rencontre, no alemão, Begegnung, com o gegen, que significa contra. Nesta linha, estão também o anti positivo e irrenunciável, cujo fundamento são os direitos humanos — a tolerância tem a sua barreira no intolerável: pense-se no anti-racismo e no anti-esclavagismo —, e os anti negativos, que têm como base fundamental a ignorância e o medo ou desígnios de poder, levando à construção social do outro como ameaça, bode expiatório, encarnação do mal e o inimigo — pense-se, por exemplo, nos judeus, nos muçulmanos, nos protestantes, nos jesuítas, nas mulheres: anti-semitismo, anti-islamismo, antiprotestantismo, antijesuitismo, antifeminismo —, a menosprezar, marginalizar, humilhar e até abater e eliminar.
Aí está, pois, a tentação constante da redução do diferente ao mesmo, porque isso dá segurança. Mas o mesmo não comunica. A identidade só se dá na e pela alteridade. Só há ser humano com outros seres humanos. Ser e ser-em-relação auto-implicam-se. A alteridade não é adjacente, acrescentada, a pessoa só existe no encontro com o outro/outros. Sem tu não há eu, e nós somos nós na presença e no encontro com os outros.
As duas atitudes contrapostas frente ao outro estão tipificadas em dois passos da Bíblia. No mito de Babel, no livro do Génesis, que representa a arrogância, a dominação e a confusão. No Pentecostes, restabelece-se a unidade desfeita com Babel. Trata-se, porém, da unidade na diferença e da diferença na unidade. A arrogância imperial de Babel anula a diferença, o amor do Pentecostes une diferenças, sem uniformizar.
Na relação com o outro, há um terceiro elemento fundamental. A identidade do ser humano não é fixa, mas histórica, processual, a fazer-se. Neste domínio, mesmo se discutível, há um texto célebre do filósofo E. Levinas, que chama a atenção para duas figuras paradigmáticas, na relação com o outro: Ulisses e Abraão. Ulisses, depois da Guerra de Troia, de volta a casa, vive a aventura de encontros múltiplos, experiências variadas, travou combates, enfrentou obstáculos sem fim, conheceu o diferente. Coberto de vitórias e glória, regressa. Mas chegado a casa, mesmo disfarçado, “diferente” do Ulisses que partira, é ainda o “mesmo”, que até o seu cão, pelo faro, reconhece. Ulisses representa o herói do regresso, que contactou com o diferente apenas para, num mundo domesticado e assimilado, reduzi-lo ao mesmo. Abraão ouviu uma voz que o chamava, e partiu da sua terra, para nunca mais voltar. A sua viagem vai na direcção do novo, do não familiar, do diferente, do Outro. Ninguém o espera num regresso ao ponto de partida. Há só uma Palavra de promessa que o chama para um futuro sempre mais adiante. Abraão ouve, caminha, transcende. A sua identidade transfigura-se a cada passo, é processual, histórica, em transcendimento. Não rompe com o passado, mas o seu êxodo vai no sentido de um futuro imprevisível e sempre novo.
Na actual situação do mundo globalizado, como salvaguardar, no contexto de identidades inevitavelmente compósitas, o equilíbrio tensional entre a universalidade e a singularidade, sem rupturas nem esquizofrenias, sem rigidez nem fixismo, sem trair as origens nem enregelar nelas? A cultura da paz supõe e implica a sinfonia das nações, grupos e povos em contraponto, aberta à transcendência, em que Deus é o Outro de todos os outros, garante da dignidade de todos, incluindo as vítimas, e da unidade dos diferentes, a caminho da plenitude.
in DN 1 de Agosto de 2020
Núncio de França convoca “mulheres apóstolas” para reunião, depois de uma delas receber ameaças de morte
Clara Raimundo
O núncio apostólico (embaixador da Santa Sé) em França convocou esta semana para uma reunião as sete “mulheres apóstolas” que no passado dia 22 de julho entregaram as suas candidaturas a cargos reservados aos homens na Igreja Católica. A primeira a ser contactada pelo representante do Papa, Celestino Migliore, foi a teóloga francesa Sylvaine Landrivon, que horas antes tinha recebido uma carta anónima com ameaças de morte.
O gesto do núncio foi acolhido com alegria pelo grupo. “É um passo que não esperávamos. Realmente, é uma boa notícia”, afirmaram, em declarações citadas pelo Religión Digital. O bispo Migliore pretende reunir individualmente com cada uma das candidatas já no próximo mês de setembro.
Mas aquilo que estas sete mulheres também não esperavam era receber cartas anónimas em casa, muito menos ameaçando-as de morte. “Aguardamos impacientes as vossas próximas reformas, o vosso próximo concílio. A Igreja conta convosco. Mas despachem-se, porque é provável que a morte te surpreenda”, pode ler-se na missiva que foi deixada na caixa de correio de Sylvaine Landrivon, uma das sete mulheres pertencentes ao coletivo “Toutes Apôtres” (“Todas Apóstolas!”, em português), que se candidatou ao cargo de bispa.
A carta deixou todas as candidatas em choque, incluindo a teóloga e biblista Anne Soupa, que pertence também ao coletivo, e que no passado mês de maio havia apresentado a sua candidatura para suceder ao cardeal Philippe Barbarin como arcebispo de Lyon.
O facto de que “a nossa simples reivindicação de uma verdadeira igualdade provoque uma tal violência significa que alguns se sentem ameaçados na sua identidade. As mulheres são hoje as reféns desse mal-estar”, denunciou o coletivo num comunicado. Por isso, defendem, é necessário “abrir um debate mais sereno entre todos e todas juntos. Devemos poder construir relações de género que escapem aos jogos de violência, de poder e de hierarquia”.
Desde a entrega das suas candidaturas, o grupo recebeu já “centenas de mensagens de apoio vindas do mundo inteiro”, sublinham, incluindo “apoios surpreendentes”. Também Anne Soupa conta já com mais de 17 mil apoiantes, que deixaram a sua assinatura no site onde foi divulgada a sua candidatura.  A lista de signatários será enviada ao Papa Francisco.
in 7Margens 31.07.2020





P / Info: Crónica & O elogio do tempo livre
Cardeal Tolentino: O  tomista gentil

NOTA: Como é hábito vamos de férias e interrompemos os envios de mails. Claro que, se houvesse alguma notícia mesmo importante, enviá-la-íamos. Muito boas férias para tod@s e até Setembro.

QUE COISA SÃO AS NUVENS
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

O tomista gentil
A TRAJETÓRIA DE FREI MATEUS PERES PESA PARA O LADO DA SINGULARIDADE. ELE FOI TODA A VIDA UM SERENO TECEDOR DE MEDIAÇÕES; UM CONSTRUTOR DE SÍNTESE

Penso que é uma pena se, para lá do círculo da família dominicana, ficar por assinalar a partida dessa notável figura que foi, no Portugal contemporâneo, frei Mateus Peres, O.P. Ele começou por integrar uma geração de intelectuais que, nos anos 50 e 60, viveu o catolicismo de uma forma apaixonada e que, com a exaltação e as amolgadelas próprias dos estados de paixão, trabalhou sobretudo para dotar de cidadania cultural uma fé que tradicionalmente parecia não ter expressão pública fora das manifestações de piedade. Nomes como os de António Alçada Baptista, João Bénard da Costa, Pedro Tamen, Nuno Portas, M. S. Lourenço e do próprio frei Mateus Peres, entre outros, desenharam em torno ao Concílio Vaticano II um inédito e vital espaço de pensamento teológico, debate e aggiornamento que sintonizou Portugal com a novidade e a viragem que se respiravam internacionalmente. À galáxia da editora Morais e das revistas “Concilium” e “O Tempo e o Modo” deve-se não só a introdução de nomes fundamentais da teologia contemporânea (Edward Schillebeeckx, Congar, Balthasar...), mas de textos clássicos da espiritualidade como “Imitação de Cristo”, de Tomás de Kempis, ou os “Fioretti”, de São Francisco de Assis, em traduções exemplares que atestam um desejo de dotar de credibilidade também literária a linguagem da experiência religiosa.
Os mais pessimistas dirão que todo esse movimento redundou num fiasco do ponto de vista eclesial, pois essa geração da Ação Católica Universitária (JUC) se dispersou depois em percursos de dissidência e solidão. Mas, a verdade, é que não podemos não ver que o rótulo de “vencidos do catolicismo”, que lhe ficou colado, alberga, no fundo, trajetórias muito diferenciadas e que obrigam a complexificar o olhar de conjunto a essa geração. Por exemplo, a trajetória de Mateus Peres pesa certamente para o lado da singularidade. Ele foi toda a vida um sereno tecedor de mediações; um construtor de sínteses. E disso fala o seu percurso na vida religiosa, onde foi um instigador teólogo moral, mas também, por mais de uma década, provincial dos padres dominicanos portugueses, e depois assistente do mestre-geral, com a responsabilidade de cuidar da vida intelectual, numa ordem que, há oitocentos anos, vive como sua missão específica associar a pregação a um aturado estudo.
Ouvi-o pregar muitas vezes em contexto litúrgico e fascinava-me o modo como ele avizinhava a comunidade do texto evangélico
Muitos recordarão a figura de frei Mateus Peres por outras razões. A mim, confesso, o seu legado foi a gentileza. Ele mostrou-me o que significa ser sempre gentil; como se pode e deve defender um quinhão de alegria no meio das turbulências; o valor dessa pureza de coração que se traduz em hospitalidade incondicional à vida e em prática fraterna efetiva; o efeito imprevisivelmente seminal que tem a finesse d’esprit ou a delicadeza sem nenhum cálculo. “Desliza, liso/ pé, lisa palma/ sobre a ruga da pedra” — é o conselho sapiencial de um poema de Pedro Tamen que o reflete tanto.
Ouvi-o pregar muitas vezes em contexto litúrgico e fascinava-me o modo como ele avizinhava a comunidade do texto evangélico: nunca entrava às pressas pelo texto dentro, nunca verdadeiramente se apoderava dele, jamais se sobrepunha. Dir-se-ia que contemplava e fazia contemplar a palavra. Falava frequentemente das suas dificuldades de compreensão de um episódio bíblico, partilhava as perguntas que se tinha feito e, não raro, aceitava que só conseguia avistar uma parte do seu sentido. Mas a parte que ele via ganhava, na sua pregação, uma evidência iluminante, onde razão e fé travavam um fértil diálogo. Frei Mateus Peres O.P. permaneceu até ao fim um tomista gentil como, aliás, se diz que São Tomás de Aquino foi.
in Semanário Expresso, 01.08.20210, p 160

P / Info: Crónica & O elogio do tempo livre
Cardeal Tolentino: O  tomista gentil

NOTA: Como é hábito vamos de férias e interrompemos os envios de mails. Claro que, se houvesse alguma notícia mesmo importante., enviá-la-íamos. Muito boas férias para tod@s e até Setembro.

QUE COISA SÃO AS NUVENS
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

O tomista gentil
A TRAJETÓRIA DE FREI MATEUS PERES PESA PARA O LADO DA SINGULARIDADE. ELE FOI TODA A VIDA UM SERENO TECEDOR DE MEDIAÇÕES; UM CONSTRUTOR DE SÍNTESE

Penso que é uma pena se, para lá do círculo da família dominicana, ficar por assinalar a partida dessa notável figura que foi, no Portugal contemporâneo, frei Mateus Peres, O.P. Ele começou por integrar uma geração de intelectuais que, nos anos 50 e 60, viveu o catolicismo de uma forma apaixonada e que, com a exaltação e as amolgadelas próprias dos estados de paixão, trabalhou sobretudo para dotar de cidadania cultural uma fé que tradicionalmente parecia não ter expressão pública fora das manifestações de piedade. Nomes como os de António Alçada Baptista, João Bénard da Costa, Pedro Tamen, Nuno Portas, M. S. Lourenço e do próprio frei Mateus Peres, entre outros, desenharam em torno ao Concílio Vaticano II um inédito e vital espaço de pensamento teológico, debate e aggiornamento que sintonizou Portugal com a novidade e a viragem que se respiravam internacionalmente. À galáxia da editora Morais e das revistas “Concilium” e “O Tempo e o Modo” deve-se não só a introdução de nomes fundamentais da teologia contemporânea (Edward Schillebeeckx, Congar, Balthasar...), mas de textos clássicos da espiritualidade como “Imitação de Cristo”, de Tomás de Kempis, ou os “Fioretti”, de São Francisco de Assis, em traduções exemplares que atestam um desejo de dotar de credibilidade também literária a linguagem da experiência religiosa.
Os mais pessimistas dirão que todo esse movimento redundou num fiasco do ponto de vista eclesial, pois essa geração da Ação Católica Universitária (JUC) se dispersou depois em percursos de dissidência e solidão. Mas, a verdade, é que não podemos não ver que o rótulo de “vencidos do catolicismo”, que lhe ficou colado, alberga, no fundo, trajetórias muito diferenciadas e que obrigam a complexificar o olhar de conjunto a essa geração. Por exemplo, a trajetória de Mateus Peres pesa certamente para o lado da singularidade. Ele foi toda a vida um sereno tecedor de mediações; um construtor de sínteses. E disso fala o seu percurso na vida religiosa, onde foi um instigador teólogo moral, mas também, por mais de uma década, provincial dos padres dominicanos portugueses, e depois assistente do mestre-geral, com a responsabilidade de cuidar da vida intelectual, numa ordem que, há oitocentos anos, vive como sua missão específica associar a pregação a um aturado estudo.
Ouvi-o pregar muitas vezes em contexto litúrgico e fascinava-me o modo como ele avizinhava a comunidade do texto evangélico
Muitos recordarão a figura de frei Mateus Peres por outras razões. A mim, confesso, o seu legado foi a gentileza. Ele mostrou-me o que significa ser sempre gentil; como se pode e deve defender um quinhão de alegria no meio das turbulências; o valor dessa pureza de coração que se traduz em hospitalidade incondicional à vida e em prática fraterna efetiva; o efeito imprevisivelmente seminal que tem a finesse d’esprit ou a delicadeza sem nenhum cálculo. “Desliza, liso/ pé, lisa palma/ sobre a ruga da pedra” — é o conselho sapiencial de um poema de Pedro Tamen que o reflete tanto.
Ouvi-o pregar muitas vezes em contexto litúrgico e fascinava-me o modo como ele avizinhava a comunidade do texto evangélico: nunca entrava às pressas pelo texto dentro, nunca verdadeiramente se apoderava dele, jamais se sobrepunha. Dir-se-ia que contemplava e fazia contemplar a palavra. Falava frequentemente das suas dificuldades de compreensão de um episódio bíblico, partilhava as perguntas que se tinha feito e, não raro, aceitava que só conseguia avistar uma parte do seu sentido. Mas a parte que ele via ganhava, na sua pregação, uma evidência iluminante, onde razão e fé travavam um fértil diálogo. Frei Mateus Peres O.P. permaneceu até ao fim um tomista gentil como, aliás, se diz que São Tomás de Aquino foi.
in Semanário Expresso, 01.08.20210, p 160


O elogio do tempo livre
Alfredo Teixeira
Para quê elogiar tamanho consenso? Talvez seja mais fácil encontrar um discurso cristão acerca da dignidade do trabalho do que uma espiritualidade do tempo livre.

Este título parece bastante inútil. Para quê elogiar tamanho consenso? De facto, à centralidade do homo faber – na versão do capitalismo da produção e do consumo – corresponde uma hiperestimulação do desejo do tempo livre. Talvez seja mais fácil encontrar um discurso cristão acerca da dignidade do trabalho do que uma espiritualidade do tempo livre, mesmo quanto se reconhece que a noção de santidade do tempo é inseparável da experiência bíblica do «sétimo dia» – o «entretanto» da festa de Deus, a irrupção do definitivo na fragilidade dos dias.

O tempo livre é vivido com uma particular intensidade na modalidade moderna das férias. É um tempo plural. Nuns casos, exprime-se a nostalgia do contacto com a nudez do mundo, resistindo a uma cultura de imobilidade e de fechamento face à diversidade do meio. Noutros casos, valoriza-se a experiência de liberdade, procurando paisagens ainda não frequentadas. As férias dão corpo a uma rutura com o tempo metrificado pelo trabalho, alargando o campo da experiência da gratuidade e facilitando novas experiências sensoriais, nas quais o cosmo se descobre como lugar de comunhão e não apenas de exploração. Assim, as férias podem ser lidas como uma dilatação do tempo dominical, o tempo da alegria da criação – a dança de Deus com as criaturas.

Assim, as férias podem ser lidas como uma dilatação do tempo dominical, o tempo da alegria da criação – a dança de Deus com as criaturas.

O tempo livre pode ser um ensaio de reencantamento do mundo, favorecendo a relativização da ordem normalizada do quotidiano tecnológico, produtivo e funcionalizado. Os itinerários de férias permitem, tantas vezes, o corpo a corpo com a natureza – o sol, o vento, o mar, o solo… Esta experiência deveria permitir o aprofundamento de uma ética do cuidado cósmico, uma vez que a nossa fruição do mundo exige a responsabilidade pela manutenção dos seus equilíbrios. Sem ingenuidades, admitamos, as férias industrializadas pressionam significativamente o meio. Mas talvez a experiência da ecologia do tempo livre nos possa tornar mais atentos a outras ecologias, nas quais descobrimos que a preservação das diversidades é, no sentido bíblico, uma responsabilidade partilhada com o Deus criador.

Dizemos que as férias passam depressa. É uma forma de exercitarmos o desejo do tempo livre e exorcizarmos o jugo do tempo da produtividade. Mas as férias podem ser o tempo da lentidão. Ou seja, o tempo em que demoramos sobre as coisas – há coisas que só na lentidão se tornam visíveis. A disseminação de dispositivos portáteis que, entre outras coisas, fotografam o tempo livre, facilitou o cultivo desta suspensão do tempo – o horizonte, o pôr-do-sol, a luz refletida no rio, o mistério do nevoeiro, a surpresa de uma flor, a potência do mar, tudo se imobiliza na fotografia, para ser tatuado como memória e biografia.

Mas as férias podem ser o tempo da lentidão. Ou seja, o tempo em que demoramos sobre as coisas – há coisas que só na lentidão se tornam visíveis.

A experiência das férias, enquanto tempo livre, veicula uma criativa relação entre passado e futuro. Tantas vezes as férias são um regresso aos lugares onde somos felizes. Não se trata de um regresso ao mesmo. Esse solo arável da nossa memória alarga o nosso futuro, uma vez que nesses lugares de felicidade encontramos o que verdadeiramente importa, ao redor de uma mesa, no reconhecimento dos rostos, na troca de afetos, na partilha intergeracional, no tecido das histórias recontadas. Talvez a hospitalidade seja um dos valores mais celebrados na experiência das férias. Ser bem-vindo é aquilo que mais apreciamos no trânsito destes dias. Na generosidade da festa, na alegria da hospitalidade, no bom-humor confiante, na santidade do repouso, dizemos ámen à bondade da vida. Esse é o elogio cristão do tempo livre.
in 29.07.2020
https://pontosj.pt/opiniao/o-elogio-do-tempo-livre/
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
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26 julho 2020


P / Info: Crónicas & Igreja: Especialista português diz que nova instrução do Vaticano sobre paróquias é oportunidade perdida, notícia publicada na Ag. Ecclesia
Fr. Bento: Quem foi Frei Mateus Peres?
Pe. Anselmo: Paz entre as religiões, paz entre as nações
Cardeal Tolentino: Férias
Pe. Vitor: Que tesouros procuramos?
QUEM FOI FREI MATEUS PERES, O.P.?
Frei Bento Domingues, O.P.
Figura internacional da Ordem dos Pregadores, Frei Mateus Cardoso Peres (1933-2020) foi membro activo de um grupo de grande relevo na renovação do catolicismo português e é um dos teólogos de contribuição mais original na renovação da teologia moral na Igreja portuguesa no pós-Concílio Vaticano II.

1. A crónica projectada para este Domingo – a última antes das férias – inspirava-se numa passagem bíblica do Primeiro Livro dos Reis. É muito bela. Salomão reconhece os seus limites para ser um bom governante. Pede a Deus um coração cheio de entendimento para governar o Seu povo, para discernir entre o bem e o mal. Esta oração agradou ao Senhor, que lhe disse:
«Já que me pediste não uma longa vida, nem riqueza, nem a morte dos teus inimigos, mas sim o discernimento para governar com rectidão, vou proceder conforme as tuas palavras: dou-te um coração sábio e perspicaz, tão hábil que nunca existiu nem existirá jamais alguém como tu»[i]. Quem dera que não só D. Trump e Bolsonaro, mas muitos outros governantes, renunciando ao espírito de dominação, fossem guiados por um coração sábio, perspicaz e hábil!
Quando ia começar a crónica deste Domingo, tive de mudar o seu rumo. Morreu, na passada segunda-feira, um confrade do Convento de S. Domingos que nos acolhe, o Frei Mateus Cardoso Peres (1933-2020). Pelo muito que lhe devo, vou deixar, aqui, algumas palavras de agradecimento.
2. Nasceu em Lisboa numa família profundamente cristã. Tinha 9 irmãos e licenciou-se em Direito, em 1956. Nesse mesmo ano, entrou na Ordem dos Pregadores, no Convento dos Dominicanos de Fátima que já frequentara como estudante. Estudou filosofia e teologia no Centro Sedes Sapientiae de Fátima e teologia em Otava (Canadá). Foi ordenado presbítero em 1962.
Com o seu consentimento, permito-me seguir o esboço do seu itinerário feito por Luiza Sarsfield Cabral [ii].
Foi membro activo de um grupo de grande relevo na renovação do catolicismo português. Figura internacional da Ordem dos Pregadores, é um dos teólogos de contribuição mais original na renovação da teologia moral na Igreja portuguesa no pós-Concílio Vaticano II.
Pertenceu a uma geração de católicos que, marcada por preocupações políticas e sociais, constituiu uma referência obrigatória na década de cinquenta-sessenta em Portugal. João Bénard da Costa retracta-a do seguinte modo: «Na JUC, entre os “contestatários” havia dois ramos distintos: o dos “sociólogos” (mais bem “comportados” e menos “intelectuais”) e o dos “vanguardistas”, quer em posições políticas, quer no interior da Acção Católica, quer numa predominante atenção aos fenómenos estéticos mais inconformistas. Esses eram (éramos) [...] o Nuno Peres (Frei Mateus Cardoso Peres OP), o Nuno Portas, o Nuno Bragança, o Luís Sousa Costa, o Pedro Tamen, o Alberto Vaz da Silva, o M. S. Lourenço, o Cristóvão Pavia, o José Escada, o Manuel de Lucena, o José Domingos Morais, o Duarte Nuno Simões – o Mário Murteira e o Carlos Portas eram a charneira entre os dois grupos»[iii].
Com alguns entusiastas desse grupo, Frei Mateus Peres participou na criação do CCC (Centro Cultural de Cinema – Cineclube de Universitários para uma Cultura Cinematográfica Cristã), que teve o seu início em Novembro de 1956.
Foi colaborador em O Tempo e o Modo, Revista de Pensamento e Acção – importante espaço de diálogo e confronto de diferentes sensibilidades culturais, políticas e religiosas –, tratando do significado histórico e impacto do Concílio Vaticano II (1963-1965), no aggiornamento interno da Igreja e na sua relação com o mundo contemporâneo. A problematização teológica, introduzida em Portugal por Frei Mateus, nos seus textos de O Tempo e o Modo[iv], é hoje considerada, pelos analistas dessa época, como um contributo único para a compreensão da novidade doutrinal e pastoral do Vaticano II[v]. O recurso ao pseudónimo Manuel Frade, com que assinou o último destes artigos, revela as dificuldades e limitações que existiam na Igreja portuguesa, então muito à margem desse acontecimento mundial.
Fez parte da primeira direcção internacional da famosa revista teológica Concilium, editada em português pela Livraria Morais Editora (1965), devido ao empenhamento de A. Alçada Baptista. Era esta a forma de Portugal e o Brasil terem acesso à grande renovação teológica pós-conciliar.
Pertenceu ainda à equipa que, no âmbito das actividades dessa revista, lançou entre nós os «Colóquios para Assinantes», destinados sobretudo a equacionar as questões da Igreja portuguesa à luz de um Concílio por ela praticamente ignorado.
Frei Mateus Peres dedicou muito da sua vida à renovação da teologia moral, na investigação e no ensino: a partir de 1963, no Studium Sedes Sapientiae dos dominicanos, em Fátima; de 1967 a 1972, na Faculdade de Teologia de Otava (Canadá). Regressado a Portugal, continuou a sua dedicação à teologia, no campo da Moral, no Porto (ISET, ICHT, UCP) e, finalmente, na UCP, em Lisboa.
É autor de alguma colaboração em obras colectivas e de inúmeros estudos na área da teologia moral, em revistas como Humanística e Teologia, Communio, Cadernos ISTA e outras. Muito apreciado como professor e conferencista, investigou as razões históricas e teóricas que contribuíram para a «má reputação da moral» (sic).
Ao fazer da ética uma construção do sujeito – em «uma visão teológica que faça justiça ao sujeito» –, deu um contributo decisivo para a superação de dois persistentes dilemas da teologia e filosofia moral, subjectivismo/objectivismo e autonomia/teonomia. Esta proposta encontra-se na sua obra fundamental, apresentada como tese de doutoramento em 1987, O Sujeito Moral: Ensaio de Síntese Tomista, 1992.
3. A nível dos Dominicanos, viveu em várias comunidades em Portugal e no estrangeiro. Assumiu vários cargos institucionais para que foi eleito: provincial em 3 mandatos, várias vezes prior conventual, mestre de estudantes, sócio do Mestre Geral para a vida intelectual, o que o obrigava a viver em Roma e a visitar vários países, de vários continentes.
Acompanhou o Mosteiro das Monjas do Lumiar, onde se desenvolveram as célebres Conferências do Lumiar. No mundo das congregações religiosas, foi presidente de CNIR.
Tendo desempenhado várias funções de relevo, ao nível da Ordem dos Pregadores, para ele, assumir o poder era o encargo de servir. Não apenas de servir segundo o seu critério individual, mas segundo as instituições democráticas que podem ser adaptadas e nunca postas em causa.
Compreendeu, na prática, a resposta de Deus à oração de Salomão: exerceu o poder com um coração sábio, perspicaz e muito hábil.
26. 07. 2020
in Público 26.07.2020


[i] Cf. 1Rs 3, 1-15
[ii] Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Volume VI, pp. 211-213
[iii] João B. da Costa, «Meus tempos, meus modos» in Diário de Notícias, «Revista de Livros», 9/11/83,1
[iv] A Igreja entre Duas Guerras (TM, 16-17, 1964), Tradição e Progresso (TM, 18, 1964), A 4ª Sessão: O Concílio e a Igreja (TM, 32, 1965).
[v] Cf. tese de licenciatura em Teologia de Nuno E. Ferreira, in Lusitania Sacra, 2.ª série, 6, 1994, pp.129/294

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Paz entre as religiões, paz entre as nações
Anselmo Borges
Padre e Professor de Filosofia
1. A Basílica de Santa Sofia, em Constantinopla/Istambul, inaugurada pelo imperador Justiniano no século VI e dedicada a Cristo, Sabedoria de Deus, foi durante quase mil anos o maior templo cristão, impondo-se pela sua beleza e majestade. Muitos que lá entraram e contemplaram a cúpula, com 55 metros de altura e 30 de diâmetro, e o Cristo Pantocrator a olhar do alto disseram ter feito uma experiência do Céu.
A sua história tem sido atribulada. Foi realmente durante quase um milénio (537-1453) o santuário mais significativo da cristandade; a seguir ao Grande Cisma (1054), tornou-se a igreja mais importante dos cristãos ortodoxos, que os católicos, no tempo das cruzadas, conquistaram e dominaram (1204-1261); depois, durante quase 500 anos (1453-1931), tornou-se, com a conquista de Constantinopla, a mesquita “imperial” mais importante do islão, tendo Constantinopla passado a chamar-se Istambul, pois era tal o esplendor e a força de Constantinopla que não se dizia “ir a Constantinopla” mas “ir à cidade” (em grego: eis tên polín). Em 1931, depois da dissolução do império otomano, Mustafá Kemal Atatürk, fundador da Turquia moderna, como sinal da laicidade do Estado, dessacralizou-a e transformou-a num “museu oferecido à Humanidade”, aberto ao público em 1935 já com os vitrais e os ícones cristãos, que tinham sido cobertos com gesso, porque o islão proíbe as imagens, e, em 1985, declarado património mundial da Humanidade pela Unesco. O actual presidente da Turquia, Recep Erdogan, decretou, no passado dia 10, que voltasse a mesquita, recomeçando a ser lugar de oração a partir de ontem, dia 24. Entretanto, o Governo turco assegurou que terá os mosaicos com imagens cristãs tapados durante as orações e que continuará aberta ao turismo, nacional e estrangeiro, com entrada gratuita (até agora, as visitas rendiam 50 milhões de euros anuais).
2. As reacções à reconversão em mesquita por Erdogan choveram de todo o lado. A Grécia, a Unesco, a Rússia, os Estados Unidos manifestaram inquietação. O governo grego foi dos primeiros a reagir, qualificando a decisão de “provocação ao mundo civilizado”. O Papa Francisco, logo no dia 12, na oração do Angelus, disse: “O meu pensamento vai para Istambul, penso em Santa Sofia e sinto muita dor”. É natural que os cristãos ortodoxos se exprimam de modo mais contundente, pois Santa Sofia é simbolicamente para a Igreja ortodoxa o que São Pedro é para os católicos. Assim, a Igreja da Grécia, antes ainda da reconversão, lembrou que Santa Sofia é uma “obra-prima, mundialmente reconhecida como um dos monumentos eminentes da civilização cristã. Toda a mudança provocará um vivo protesto e a frustração entre os cristãos de todo o mundo, e prejudicará a própria Turquia.” Sua Beatitude Jerónimo II, arcebispo de Atenas, qualificou a decisão de “insulto à ortodoxia, ao cristianismo em geral e a toda a pessoa sensata”, instrumentalizando a religião para conveniências partidárias, geopolíticas e geoestratégicas. A Igreja ortodoxa russa antevê que possa ter “graves consequências para toda a civilização humana”. O patriarca Cirilo de Moscovo declarou que “uma ameaça a Santa Sofia é uma ameaça ao conjunto da civilização cristã.” O Conselho Ecuménico das Igrejas, que reúne 350 Igrejas cristãs no mundo, exprimiu o seu “pesar e consternação”; para o seu secretário-geral, I. Sauca, Santa Sofia era uma bela prova da “ligação da Turquia à laicidade”. A França “deplorou” a mudança, enquanto a Unesco poderá rever o seu estatuto, considerando “lamentável” a decisão tomada “sem diálogo nem notificação prévia”.
3. Sempre que se fala em religião/religiões vem inevitavelmente à mente a declaração célebre do teólogo Hans Küng: “Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá sobrevivência do nosso planeta sem um ethos (atitude ética) global, sem um ethos mundial.”
Condição essencial para a paz entre as religiões e para que haja liberdade religiosa é a laicidade do Estado, a não confundir evidentemente com laicismo. O Estado não pode ser confessional, não pode ter nenhuma religião, precisamente para garantir a liberdade religiosa de todos. Erdogan, porque está a perder poder, quer apoiar-se nos sectores mais islamistas e ultranacionalistas. De facto, como disse o turco Ohran Pamuk, Nobel da Literatura, “esta reconversão é dizer ao resto do mundo que, infelizmente, não somos um Estado laico”. Deste modo, acabou por dar um duro golpe no diálogo inter-religioso, que tem a sua prova de verdade no combate comum pela paz, pela justiça, por aquele ethos que Hans Küng refere e que está presente no documento histórico, a que aqui me referi amplamente, “A Fraternidade Humana”, assinado em Abu Dhabi pelo Papa Francisco e pelo Grande Imã da Universidade Al-Azhar, no Cairo. Não há dúvida de que, transformando Santa Sofia em mesquita e aliando religião e nacionalismo, Erdogan “pode criar um terreno fértil para a intolerância religiosa e a violência”, alertou a Conferência de Igrejas Europeias.
Erdogan foi perigosamente muito longe, ao celebrar, no discurso oficial em árabe —a referência não é mencionada nem na versão em turco nem em inglês —, esta reconversão como um primeiro passo de um “renascimento” islâmico, que deve ir de Bucara, no Uzbequistão, a Al Andalus, Espanha: ele “é o símbolo do regresso do sol nascente da nossa civilização islâmica”.
in DN 25 de Julho 2020
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QUE COISA SÃO AS NUVENS
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

FÉRIAS

AQUILO QUE NOS PERMITE RELANÇAR A VIDA SÃO COISAS PEQUENAS QUE PRECISAMOS DE REAPRENDER
No seu filme “Caro Diário”,Noretti acaba (quase!) por fugir a nado das ilhas eólias. Os que viram o filme recordar-se-ão que ele partira para essa “peregrinação interior” projetando aí uma espécie de grande e necessário reencontro com a vida, na sua pulsão mais verdadeira, essencial e longínqua. Esperava desse reencontro o que muitas vezes desejamos nós das férias: que nos renovem, que libertem o nosso olhar blindado e alterem o nosso intermitente humor, que nos tragam paisagens diversas, que nos reconciliem... E contava com o influxo positivo das eólias para isso, como nós contamos com o que está ao nosso alcance: uma casa, um lugar que visitamos, um livro, uma montanha, um toldo arejado ao pé do mar... Mas, no filme de Moretti, as ilhas do tirreno revelam-se rapidamente um mal-entendido, igual ao de todos esses massificados paraísos de estampa em que a propaganda estival é fértil, e que servem apenas para ampliar o vazio, pois, mais uma vez, roubam à vida o seu prometido verão. Quando ele constata que o que ali vigora é o mesmo omnipresente formato consumista, porventura num registo ainda mais feérico, lança-se abruptamente para o barco de regresso, confessando, com desalentada ironia: “Sou feliz só no mar, na travessia entre uma ilha que acabei de deixar e de uma outra que devo ainda conhecer.”
Bem, a dizer a verdade, a finalidade deste introito não é o cancelamento das férias, que constituem uma variação do tempo tão propícia e necessária. Pelo contrário, pretende bramar que é possível encontrar saída. Se repararmos, no filme “Caro Diário”, mesmo um escrutínio escovado severamente como o de Nanni Moretti, encontra, por exemplo, numa das ilhas — a bela ilha de Salina — dois clarões preciosos que, depois do filme terminar, continuam a luzir na nossa cabeça. Trata-se de duas breves cenas, desenhadas na sua aparente simplicidade como pontos de fuga em relação ao confronto desiludido e áspero com o real, mas que insinuam uma efetiva possibilidade de sentido, o tracejado de um caminho.
Em Salina, um dos lugares que quis muito visitar foi o farol. “Mas é anódino, não tem nada de especial” — explicaram-me. Porém, eu sabia que não era assim
A primeira delas é uma cena de corte: para romper com o circuito fechado da interminável comunicação palavrosa, a personagem interpretada pelo cineasta Nanni Moretti afasta-se do aldeamento até à zona do farol, e caminha em silêncio. Apenas isso. Caminha não com o fito utilitário de chegar a algum lado. Podemos dizer que se recolhe, que, naquele passeio solitário pelo espaço, reencontra o seu silêncio, que aplaca a sua respiração, como se lhe fosse oferecida a possibilidade de caminhar não apenas por aquele baldio, mas sobretudo dentro de si. Dois elementos plásticos enquadram essa deambulação, e que talvez não nos sejam mostrados por acaso: os destroços de um barco em terra e um navio que desliza pela costa. Isto é: como se passa da existência como naufrágio à reativação esperançosa da própria viagem.
A segunda cena conta um facto ainda mais simples. A personagem volta à zona do farol, que tem um minúsculo lago (na origem existia ai uma salina) e um campo de futebol de terra batida. Perto da baliza está uma bola. E Moretti que se aproxima de cabeça baixa, absorto na redação do diário, de repente vê a bola. E corre. E começa a jogar. A bola sobe, toca na terra, ele chuta-a de novo, correndo de um sítio para outro, numa coreografia, de repente, ligeira, numa ligeireza, de repente, possível. Creio que a lição do filme “Caro Diário” é essa: que aquilo que nos permite relançar a vida são coisas pequenas que precisamos de reaprender.
Lembro-me que quando visitei Salina, um dos lugares que quis muito visitar foi este farol. “Mas é anódino, não tem nada de especial” — explicaram-me. Porém, eu sabia que não era assim.
in Semanário Expresso 26.07.2020
http://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2491/html/revista-e/que-coisa-sao-as-nuvens/ferias
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À PROCURA DA PALAVRA
Pe. Vitor Gonçalves
DOMINGO XVII COMUM
“O reino dos Céus é semelhante a um tesouro
escondido num campo.”
Mt 13, 44
“O que mais custa na desgraça deste vírus é não poder estar com os meus netos; abraçá-los e dar-lhes beijinhos!” Desabafava assim uma avó entre lágrimas, que, sem saber, se tornava porta-voz de um dos sofrimentos maiores desta pandemia: a distância entre avós e netos. No fundo, o doloroso distanciamento entre os nossos “maiores” (bela expressão quando a outra, “velhos”, tem amargo sabor a “descartáveis”!) e a infância dos que lhes são queridos.  A memória dos avós de Jesus, que a liturgia assumiu com os nomes de Joaquim e Ana, e hoje recordados, possa fazer-nos lutar por esse tesouro do convívio de gerações, da riqueza de experiências que se partilham, da sabedoria e novidade que se abraçam, do passado e do futuro que se encontram.
É admirável o tesouro da tecnologia, mas nunca substituirá o tesouro do afecto, do toque, do abraço ou do beijo. É importante o tesouro da economia, de acordos de recuperação e entreajuda financeira como o que foi aprovado na União Europeia, mas mais importante ainda a honestidade e responsabilidade na aplicação do dinheiro para o bem comum e não para a ganância e a desigualdade. São fundamentais os tesouros da saúde, da educação e da justiça, mas é preciso continuar a lutar para que sejam acessíveis a todos, sem distinções nem exclusividades. É essencial o tesouro da vida, que nos convoca a comprometer o coração na sua promoção e defesa, conscientes da sua fragilidade e grandeza.
O reino dos Céus, narrado por Jesus em sete parábolas, é Ele mesmo. Ele é a semente, pequena e cheia de vida; o fermento escondido que faz crescer o pão; que morre para dar vida; que cresce no meio do mal e reconhece-se pelos frutos; é o tesouro e a pérola preciosos que precisam ser procurados e escolhidos; é a rede que tudo recolhe e onde é preciso escolher o melhor. Assim, o reino dos Céus exige um trabalho de discernimento. É preciso a coragem de uma escolha decisiva: dar tudo para guardar o melhor. É um trabalho de coração o discernimento: só um coração que ama sabe fazer a boa escolha, à semelhança de Salomão que pediu a Deus “um coração inteligente”.
O tesouro que é Jesus Cristo transforma-nos também em tesouros. Únicos e preciosos. Por isso importa inventar novos modos de proximidade e comunhão para estes tempos difíceis. Convívios antigos e novos, vermo-nos e ouvirmo-nos com maior atenção, dizermo-nos quanto somos importantes uns para os outros. Pede-se criatividade e ousadia para colocar em primeiro lugar o melhor. Será que não há tesouros de futuro a descobrir, quer na relação renovada com Deus, quer na de uns com os outros?
in Jornal Voz da Verdade 26.07.2020
http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=9161&cont_=ver2
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Padre Tiago Freitas questiona persistência do modelo centrado no padre e falta de atenção aos desafios da evangelização
Braga, 24 jul 2020 (Ecclesia) – O padre Tiago Freitas, autor de uma tese de doutoramento sobre novos modelos de paróquias, disse à Agência ECCLESIA que o novo documento do Vaticano sobre o tema é uma oportunidade perdida, falhando pela falta de atenção aos desafios da evangelização.
O sacerdote da Arquidiocese de Braga falava a respeito da Instrução “A conversão pastoral da comunidade paroquial a serviço da missão evangelizadora da Igreja”, publicada esta segunda-feira pela Congregação para o Clero (Santa Sé).
Segundo o autor da tese “Colégio de Paróquias – Um proto-modelo crítico para a paróquia da Europa Ocidental em tempo de mobilidade”, o novo documento foi recebido com “surpresa” por diversos responsáveis católicos.
“Este é um documento muito técnico, muito formal, sobre aspetos muito concretos”, centrado no Direito Canónico”, precisa o padre Tiago Freitas.
Isso é partir do ponto errado: o Código de Direito Canónico está para ajudar a pastoral, a reflexão teológica, para dar enquadramento, estrutura sólida e jurídica. Não é para ser a bitola de como vamos fazer, como nos vamos organizar”.
A Instrução surge como síntese de documentos de 2002 e 1997, com mais de 20 anos, apresentando como “modelo ideal um pároco com uma paróquia”.
O entrevistado entende que esta é uma “resposta clara” da Santa Sé ao que acontece neste momento na Alemanha, onde a Igreja Católica vive uma caminhada sinodal e que está a “assustar a Cúria Romana”, com mulheres em cargos diretivos nas dioceses alemãs.
“Não há razão objetiva para que os leigos não possam cooperar ou participar num real governo das paróquias”, aponta.
Outro cenário é o da Suíça, onde equipas de leigos têm a responsabilidade de “governar” a paróquia.
“Aí sim, pode ser discutível se o pároco não é transformado numa espécie de capelão, uma espécie de funcionário. Esse é outro risco, onde se põe em causa o múnus de ser pastor”, sublinha o padre Tiago Freitas.
Para o especialista, há um conjunto de experiências, sobretudo na Europa, a que a Santa Sé quer “pôr travão”.
“Não se têm em conta sequer os próprios pressupostos da Instrução, que é a transformação da sociedade e da Cultura em que vivemos”, acrescenta.
O novo documento sublinha o papel central do padre, na paróquia, e rejeita que leigos ou diáconos possam “presidir à comunidade paroquial”, por considerar que essa missão compete ao pároco.
“O único foco que aqui vejo é a figura do pároco e a liderança nas paróquias”, assinala o padre Tiago Freitas, deixando de lado qualquer forma de “empoderamento” dos leigos ou de “governo colegial”.
O sacerdote entende que o documento tinha bons pressupostos, ao aludir à “irrelevância do critério territorial” da paróquia, a começar pelos próprios fiéis, e à necessidade de “reforma de estruturas” e conversão “missionária”.
“Estes são os pressupostos. O problema é que depois, entrando no documento, não há nada de novo senão a reafirmação de tudo o que está em vigor, neste momento”, prossegue.
Para o especialista, o caminho das Unidades Pastorais deve ter “as motivações corretas”, considerando que “a Igreja em Portugal tem trilhado o caminho sugerido” pela Congregação para o Clero.
O padre Tiago Freitas sustenta que a prioridade deveria ser dar resposta ao “problema maior” das paróquias, que é a queda do número de cristãos, de pessoas comprometidas, projetando também os desafios do pós-pandemia.
“A forma de anúncio, a urgência de um primeiro anúncio, as modalidades de anunciar Jesus Cristo. Isto é que é uma paróquia evangelizadora”, elenca.
O entrevistado questiona ainda que se apresentem como modelos para as paróquias os santuários, que são, “por definição, locais fixos, imóveis, a que os peregrinos vão ter”.
“A Igreja missionária é a Igreja que sai de si”, observa.
Em conclusão, o padre Tiago Freitas defende que este é “um documento técnico que está destinado ao esquecimento”.
OC
in Agência Ecclesia Jul 24, 2020
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