25 setembro 2016

A BÍBLIA AINDA VALERÁ A PENA?

1. Ao longo destas crónicas, referi, muitas vezes, os trabalhos de exegetas de língua portuguesa ou não, que vão multiplicando investigações, cursos e livros de introdução à leitura da Bíblia. Encadernada num só volume, pode esconder a realidade de uma biblioteca de diversos autores, estilos e géneros literários muito diferentes, construída ao longo de vários séculos da antiguidade judaica e cristã. Lida e interpretada por judeus e cristãos em contextos culturais e religiosos muito diferentes, não é uma literatura morta, como a ignorância supõe.

A minha preferência, quanto às obras de introdução, vai para um precioso livro de J. T. Barrera[i] que oferece uma visão abrangente da investigação sobre a história da Bíblia. Segundo o autor, o seu conteúdo foi amadurecendo lentamente na preparação de cursos de “Literatura do Antigo Testamento”, ministrados no Departamento de Hebraico e Aramaico da Universidade Complutense de Madrid. Incorpora também materiais de trabalho em vários cursos de Doutoramento sobre “Os Manuscritos do Mar Morto”. É um livro-texto com características de uma obra enciclopédica em muitos casos e de ensaio científico noutros. Avisa: o enciclopédico nunca pode ser exaustivo e o ensaio científico nunca é definitivo. Uma obra aberta.
 

De André Paul[ii], foi traduzida para português a história da génese cultural da Bíblia. O autor descreve o percurso simultaneamente religioso, literário e político que fez da Bíblia a verdadeira criação cultural do Ocidente.
 

A relação portuguesa com a tradução da Bíblia não é gloriosa. Segundo Carolina Michaëlis de Vasconcelos (1851-1925), acerca do período medieval, a literatura portuguesa, em matéria de traduções bíblicas, é de uma pobreza desesperadora. Na Wikipédia, dispomos de indicações da história das traduções da Bíblia em língua portuguesa.

O documento da Comissão Pontifícia Bíblica sobre a interpretação da Bíblia na Igreja (1993), embora relembre a identidade teológica da exegese católica, deixou, finalmente, a pesquisa científica à solta. Os textos não nasceram em nenhuma fábrica divina. Até as referências postas na boca de Deus espelham o que há de melhor e pior da condição humana. Não admira que surjam como escolas de santidade e de crime.  
 

2. Frederico Lourenço é um autor premiado e conhecido como ficcionista, ensaísta, poeta e tradutor. Depois de dez anos na Universidade de Lisboa, é, actualmente, professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Foi celebrada a tradução da Ilíada e a Odisseia de Homero, assim como um volume de poesia grega. Em 2015, publicou um conjunto de leituras da Bíblia[iii].
“Para que fique bem claro: (…) Não sendo, todavia, de um ponto de vista religioso (cristão ou outro) que aqui escrevo sobre a Bíblia, também não escrevo sob um prisma irreligioso: sou sensível (diria mesmo hipersensível) ao apelo do Divino. (…) Não tenho nenhum problema em afirmar que, pessoalmente, considero Jesus de Nazaré a figura mais admirável de toda a história da Humanidade”[iv].
 

3. Frederico Lourenço resolveu entrar numa aventura admirável: traduzir a Bíblia grega, Antigo e Novo Testamentos, para português. Preparação não lhe falta nem na cultura grega nem na nossa. A avaliação do resultado pertence a qualquer leitor, tanto mais que o texto não é bilingue. Será interessante ver como vai ser recebido pelos exegetas. Em ambos os casos importa conhecer o seu ponto de vista e os critérios em que assenta o seu trabalho, explicitados na introdução. O objectivo é dar a conhecer o texto bíblico. Até aí, nada de novo. No entanto, procura que, tanto a tradução como os comentários para a compreensão do texto grego, não sejam de carácter doutrinário, confessional e apologético. 

O volume I[v] desta Bíblia é constituído pelos 4 Evangelhos. Vai da foz para a nascente. Confessa que temos de nos dar por felizes pelo facto destes textos maravilhosos terem sobrevivido a qualquer tentação de dar ao cristianismo um Evangelho único, artificialmente purgado de problemas, de frases e de palavras difíceis. São justamente as palavras difíceis (e muitas vezes intraduzíveis) que nos obrigam a pensar no que significou e significa ainda a extraordinária mensagem de Jesus, assim transmitida de modo tão desafiante para o crente e como para o não crente. São quatro prismas diversos. Se há verdade que todos os dias nos é confirmada pela observação objectiva da realidade humana é que, no cerne do seu valor ético, a mensagem de Jesus continua tão válida, tão certeira e tão urgente como era há dois mil anos. 


A Bíblia pode ser lida de muitas maneiras. A pior de todas é não ser lida.
 

        Frei Bento Domingues, O.P.
in Público 25.09.2016


[i] Julio Trebolle Barrera, A Bíblia Judaica e a Bíblia cristã. Introdução à história da Bíblia, Petrópolis, Vozes, 19992.
[ii] André Paul, A Bíblia e o Ocidente. Da biblioteca de Alexandria à cultura europeia, Instituto Piaget, 2014.
[iii] Frederico Lourenço, O Livro Aberto: Leituras da Bíblia, Cotovia, Lisboa, 2015.
[iv] Ib, p.13-14.
[v] Quetzal Editores, Lisboa, 2016

20 setembro 2016

SERÁ A FLORESTA UMA QUESTÃO PASTORAL?

   1. Durante este verão, as televisões mostraram Portugal como um país condenado ao inferno. O que sobrou de matas e florestas ficará para o fogo do próximo ano. Teremos um inverno para esquecer o que aconteceu e uma primavera para nos explicarem que estão a ser tomadas todas as medidas possíveis de prevenção e com instrumentos terrestres e aéreos para dominar eventuais incêndios. Ficaremos a saber quantos milhões foram disponibilizados para a prevenção e para o combate às chamas.
Por outro lado, será repetido que nem os privados nem o Estado estão a cumprir as suas obrigações: limpar as suas matas, abrir linhas de corta-fogo, caminhos de acesso a viaturas de socorros e disponibilizar meios de vigilância permanente.
Os interessados apenas na lógica comercial, perante uma eventual nova reflorestação, tentarão mostrar que as espécies que ardem melhor não podem ser discriminadas, pois as outras levam muito tempo a crescer. Precisamos de soluções rápidas e competitivas, mais importantes do que as teorias ambientais.
 Garantida estará pois a continuação das conhecidas retóricas de ataque, defesa e subterfúgios. A selecção de bodes expiatórios será suficiente para tornar a sociedade civil dispensada de se organizar e de se responsabilizar pela “casa comum” do povo português.
2. Já esgotei a paciência para a conversa de que o português tem grande capacidade para o desenrasque repentino, mas pouca paciência para planear, organizar, ser rigoroso e persistente na execução dos seus projectos. A pendular exaltação megalómana e a autoflagelação colectiva precisam de ser tratadas como doenças e não como a nossa mais respeitável característica antropológica.
Com esta preocupação estava a escrever uma proposta que suspendo para outro parágrafo, ao deparar com a notícia de que o Departamento de Ciências Florestais e Arquitetura Paisagista da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), conjuntamente com a Ordem dos Engenheiros iniciou, na passada 3ª feira, no Teatro de Vila Real, um ciclo de debates subordinado ao tema A floresta portuguesa em causa. Não é preciso dizer que este é um dos caminhos da cura. Não é exaltante nem deprimente. É o alargamento realista de um trabalho para continuar.
A mesma notícia[i] informava que apenas 23 alunos escolheram engenharia florestal. A imagem criada na sociedade fez da floresta uma causa perdida e não um convite a uma carreira académica e profissional aliciante. É urgente reagir e criar, através de todos os canais possíveis, o sentimento e a convicção colectiva de que temos a obrigação de zelar pela causa mais comum a todo o país. A qualidade do ambiente não pode ser encarada como luxo de um condomínio privado. É a própria respiração da nossa terra. Não deveria ser um dos principais assuntos da educação, desde o jardim-de-infância até à universidade? Não será também uma questão religiosa? Saber dos frutos da terra apenas pelo supermercado será suficiente? Será que os canais de televisão estão interessados em criar repúdio pelos incêndios ou em transmitir espectáculos para pirómanos? Não haverá pedagogia televisiva capaz de suscitar paixão pela natureza? Porque não mostrar o silêncio da natureza destruída?
3. O Papa Francisco fez do cuidado pela casa comum uma questão religiosa, um desafio ecuménico e a tarefa pastoral de uma Igreja de saída das sacristias.
Na encíclica Laudato Si evocou a voz dos seus predecessores, a começar por João XXIII, que recolheram a reflexão de inúmeros cientistas, filósofos, teólogos e organizações sociais. Não esqueceu as outras Igrejas, comunidades cristãs e religiões. Destacou, de forma especial, a palavra incisiva do Patriarca ecuménico Bartolomeu. Cada um tem de se arrepender pelo modo como maltrata o planeta.  De modo firme e corajoso, intimou-nos a reconhecer os pecados contra a criação. Quando os seres humanos destroem a biodiversidade, comprometem a integridade da terra, contribuem para a mudança climática, desnudam a terra das suas florestas naturais, destruindo as suas zonas húmidas e contaminando as águas, o solo, o ar... tudo isso é pecado, o nosso pecado. Porque um crime contra a natureza é um crime contra nós mesmos e um pecado contra Deus.
Surge então uma pergunta inevitável: como e até que ponto a Laudato Si interpelou a pastoral da Igreja portuguesa? Quais são os guiões elaborados para que, a nível das paróquias, dioceses, movimentos, congregações religiosas, Conferência Episcopal, se construa uma consciência comum, católica, perante as catástrofes ecológicas? Mais, que medidas foram tomadas para que o respeito pela natureza faça parte da educação cristã? Que consciência ecológica é desenvolvida, em todas as faculdades da Universidade Católica? Que lugar ocupa a Laudato Si nas celebrações, nas homilias, nas catequeses?
A Igreja católica, embora de forma diferenciada, está presente em todo o país. Não é um privilégio. É uma missão ecuménica, inter-religiosa e social em relação ao futuro do respeito pela natureza em Portugal.
Frei Bento Domingues O.P.
in Público 18.09.2016

[i] Jornal Público 14.09.2016

11 setembro 2016

QUE FAZER DA MISSA?

1. Nasci e cresci numa aldeia onde toda a gente ia à Missa. Era obrigatória: faltar era pecado e matéria de confissão. Era dita em latim e de costas para o povo, com os homens à frente e as mulheres e as crianças atrás. Durante a homilia, os homens saíam para fumar um cigarrito. Da Missa, aproveitava-se a reza do terço. O padre, depois dos avisos, em português, voltava ao latim: ite missa est. Missão cumprida?
A palavra missa vem do verbo latino mittere, enviar, mandar, dispensar, mas também missão e míssil. Seja como for, o sentido das palavras depende do seu uso.
A própria expressão Ite missa est já existia no latim profano antes de passar para a liturgia cristã. Como diz Ávito de Viena (470-518), essa fórmula era usada para terminar as audiências do paço e dos tribunais de justiça: “Nas igrejas e nas cortes do imperador e do prefeito dizia-se missa est quando o povo era despedido da audiência.”
Nos primórdios do Cristianismo, o culto era dividido em duas partes: a primeira, composta de orações, leituras, cânticos e a pregação, era aberta a todos; a segunda, a eucaristia propriamente dita, era reservada aos baptizados. Por isso, no final da 1ª parte, os catecúmenos também eram despedidos com o Ite, missa est, "Ide, a vossa celebração terminou". É o que sugere Santo Agostinho: “Depois do sermão faz-se a missa, isto é, a despedida ou envio dos catecúmenos”. Pouco a pouco, a palavra foi-se aplicando ao conjunto da celebração. Já no século IV, na Peregrinatio Sylviae, é dito que “O sacerdote abençoa os fiéis e faz-se a missa, isto é, a despedida ou o envio”. Actualmente, em português, depois da bênção final, a despedida é feita com a fórmula: Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe (Ite, missa est).
Essa informação não me trouxe nenhuma alegria. Por outro lado, hoje, a Missa já não é em latim nem de costas para o povo, mas continua aborrecida e sem ter em conta a realidade daqueles que a procuram.
2. Repetiram-me, todo este Verão, que a Missa precisa de uma reforma profunda. Algumas queixas eram bem identificadas: três leituras e um salmo muito longe do nosso tempo, remetendo-nos sempre para um passado, que já não nos diz nada; as chamadas orações eucarísticas são pouco variadas e parecem existir apenas para enquadrar a chamada consagração do pão e do vinho, a matéria da comunhão, e um enigmático pedido de Jesus, fazei isto em memória de Mim.
Será que esses reformadores querem agora Missas à la carte?
A situação real é muito mais grave do que estas amostras de descontentamento podem sugerir.
Repetimos, em todas as Missas, o pedido de Jesus. Essa repetição cumpre um desejo ou repete uma traição?
3. Será Jesus que precisa que nos lembremos dele ou seremos nós que, sem olhar para o seu percurso, nos tornamos incapazes de encontrar o nosso próprio caminho? Será Cristo que precisa da celebração da Eucaristia ou somos nós? Ele pede-nos uma fidelidade a um ritual ou exige que continuemos, com Ele, o Evangelho da Alegria para os dias de hoje? A missa é um encontro com o passado ou uma fonte de desassossego do nosso presente? Um despertador ou um calmante? Não celebramos a Eucaristia porque ela faça falta a Jesus, mas porque nos é fundamental.
Os liturgistas garantiram, nas celebrações da Eucaristia, a presença da memória do Antigo e do Novo Testamento, mediante uma distribuição abundante das suas leituras. O passado não falta. Mas a Eucaristia é só uma memória do passado? Um acontecimento do passado? Uma visita a esse grande museu literário?
Onde estão as narrativas da vida dos que participam nas celebrações? Essas são as páginas brancas do Evangelho de que falou o Papa Francisco na sua viagem apostólica à Polónia, no encontro com os sacerdotes, religiosos e seminaristas. Só vale a pena irmos à Missa para sairmos modificados.
Uma Igreja pode estar cheia de gente, sem gente. Como poderá acontecer a transfiguração da vida das pessoas da comunidade cristã se as pessoas não estão lá com a realidade complexa da sua vida de semana? É uma assembleia clandestina de si mesma. Só se ouvem as vozes do passado e o presente é confiscado pelo clero, o único que tem voz e vez.
Não é totalmente verdade. Conheço um clérigo, chamado Papa Francisco, que não falou aos jovens sem antes os ouvir e interrogar, de muitos modos. Não para os adular nem para receber o seu aplauso, mas para recolher as suas inquietações e lhes lançar novos desafios. Não quer jovens adormecidos, pasmados, entontecidos. Não viemos ao mundo para vegetar, para fazer da vida um sofá que nos adormeça. Viemos para deixar uma marca.
Quando se pergunta que fazer da Missa, não pode ser apenas, nem sobretudo, para lhe encontrar um ritual mais simpático, mais agradável, uma antologia de leituras mais encantatórias.
A pergunta real é outra. Em que Igreja precisamos de nos transformar, para celebrar uma Eucaristia que nos responsabilize e nos faça sair para a transformação da sociedade?
Importa criar uma circulação permanente entre o que se passa no mundo e na Missa. Uma Missa sem mundo em transfiguração só pode gerar um mundo sem missa e sem o seu desejo.
Frei Bento Domingues, O.P.
        in Público 11.09.2016

31 julho 2016

FORA DO ESTUDO NÃO HÁ SALVAÇÃO

1. Ao apresentar em Luanda, com este título, um programa de trabalho histórico-teológico a um grupo de jovens estudantes dominicanos, sobre os modos de fidelidade e infidelidade ao carisma da Ordem dos Pregadores - ao longo dos seus 800 anos - um deles destacou os graves inconvenientes desta afirmação. A sua sonoridade evocava demasiado uma outra expressão que envenenou séculos de teologia missionária e pastoral: fora da Igreja não há salvação! Mas o que agora propomos é algo que nada tem a ver com essa aberração. O título diz apenas que em qualquer tempo, lugar e cultura, sem a dedicação permanente ao estudo, os dominicanos não podem realizar a sua missão na Igreja, acabando por cumprir tarefas que os não definem e os torna facilmente dispensáveis e substituíveis.
M. D. Chenu O.P., famoso historiador-teólogo que suscitou várias gerações de investigadores das ciências indispensáveis às práticas teológicas inovadoras, lembrou que “a Ordem dos Pregadores nasceu, radicalmente, da compreensão, da análise e do amor a um mundo em mutação. Enquanto o conjunto da Igreja hierárquica e povo simples praticante se sentem tolhidos, as novas equipas religiosas, Frades Menores e Pregadores à cabeça, reconhecem que esse mundo como tal, e não apenas a ordem estabelecida, é provocação ao Evangelho. É aí que importa ler os “sinais dos tempos”, acontecimento actual do Reino, presença activa da Igreja no gemido da criação. Não é obra de reformismo moral, de simples revisão pastoral, de acomodação de regras e estruturas, nem sequer, ao fim e ao cabo, de uma santificação das virtudes. Trata-se de um carisma, com a compreensão viva, profética, de uma situação humana nova, na evolução do mundo”.

2. Este é um sugestivo retrato histórico do mundo em que nasceram os franciscanos e dominicanos. A realização da originalidade do carisma da Ordem dos Pregadores implicava, não apenas a convicção de que sem a graça da pregação, graça do Pentecostes, não podia preencher uma das mais graves lacunas da Igreja do seu tempo, a miséria espiritual da ignorância. Consciente de que a graça não substitui a natureza, pelo contrário, exige a mobilização de todos os seus recursos cognitivos e afectivos, foi o próprio S. Domingos que, em 1217, dispersou os primeiros companheiros para estudar, pregar e criar comunidade, preferindo, para esse efeito, os centros universitários de Paris e Bolonha. O estudo não é uma ocupação ocasional, mas uma peça mestra da observância religiosa. Por isso, a aquisição de livros e a sua boa conservação não podiam ser afectadas pelo voto de pobreza. Os livros são as nossas armas, dizia o capítulo provincial de Avinhão, em 1288.
As exigências do estudo justificavam a flexibilização da vida conventual, por meio da dispensa individual e colectiva. Logo que um jovem começava o Noviciado, o padre Mestre devia ensinar-lhe que, sempre e em toda a parte, de dia e de noite, em casa ou em viagem, devia ter a preocupação de estudar e reflectir. A existência quotidiana de uma comunidade de Pregadores organizava-se como escola de teologia e pregação.
Segundo as primeiras Constituições, não se podia abrir nenhuma comunidade sem dispor de um prior e de um professor de teologia. A assiduidade ao estudo era um dos elementos da vida conventual que os visitadores, encarregados de controlar a regularidade da vida das comunidades, deviam verificar.
Por isso, todos os conventos da Ordem terão de ser, ao mesmo tempo, centros de vida consagrada, de pregação e de teologia. Foram estes os diversos elementos da nova fórmula de «vida apostólica» que S. Domingos procurou e conseguiu ver explicitamente enunciados nos documentos pontifícios, a fim de organizar e estabilizar o seu desígnio fundacional.
Ainda nos começos do século XVI, um célebre Mestre Geral da Ordem e grande teólogo, Tomás de Vio Cayetano, retomou a mesma convicção: se o estudo da Verdade sagrada desaparecer da Ordem dos Pregadores, esta Ordem acaba[1]. 

3. Outro Mestre Geral, Humberto de Romans (1200-1277), já tinha destacado a originalidade da forma de vida configurada por S. Domingos, seus companheiros e seguidores, afirmando que a Ordem dos Pregadores foi a primeira a unir, de forma estrutural, estudo e vida religiosa.
Não aconteceu, por acaso, que em poucas décadas florescessem no seu seio figuras como Sto Alberto Magno e S. Tomás de Aquino. O primeiro sublinha que é na doçura da vida comunitária que se busca a verdade. Não suporta que a ignorância queira recusar à Ordem dos Pregadores o estudo e o uso da filosofia. O seu discípulo, Tomás de Aquino, realça que a forma de vida activa, pregando e ensinando a realidade contemplada é mais perfeita do que a pura vida contemplativa. É melhor iluminar do que ser apenas luz.

Desejo que os dominicanos em Angola, continuem decididos, na linha de S. Domingos, a desenvolver centros de vida consagrada, de pregação e de práticas teológicas aliadas às ciências humanas.

Frei Bento Domingues, O.P.
Luanda, 31.07.2016
in Público

[1] Para todos esses aspectos históricos, ver André Duval, O.P., Síntesis histórica de la Orden de los Frayles Predicadores, Biblioteca Dominicana, Bogotá, s/d.

24 julho 2016

OS DOMINICANOS EM ANGOLA

1. No Domingo passado, não tive condições para mandar, de Angola, a minha crónica para o Público. A pedido do meu Provincial, vim a Luanda participar num conjunto de iniciativas de estudo organizadas pelos dominicanos angolanos. A perspectiva que me orienta, na realização do programa desenhado, é esta: outro mundo, outra Igreja e outra vida dominicana são possíveis. É uma questão de fidelidade à mensagem cristã. Jesus Cristo cresceu e foi educado nas tradições da religião de Israel. Quando hoje se fala de inculturação do Evangelho, algumas práticas pastorais julgam que se trata de adaptar o Evangelho a uma cultura. Se assim fosse, Jesus Cristo não tinha nada que fazer, pois já estava moldado pela sua herança judaica, cultural e religiosa. O que pode ser observado, tanto nos escritos de Paulo como nas narrativas dos Evangelhos, é que Jesus de Nazaré não se apresentou para perpetuar os costumes do seu tempo. Teve de discernir o que havia de mais vital na herança recebida e o que havia de opressor na religião mais recomendada, sob a invocação de Moisés: disseram-vos, mas Eu digo-vos!
Continuamos com certas orações que podem sugerir a consagração do conservadorismo: assim como era no princípio agora e sempre pelos séculos dos séculos, Ámen. Ora, no principio era a criatividade. A fé cristã está ligada a um Deus que não passou à reforma, mas que é criação contínua, suscitando criadores, não repetidores. Rezamos para que «pelos séculos dos séculos» não se extinga a criatividade dos que desejam ser fiéis ao Evangelho.
2. Não posso dizer que conheço Angola, embora noutros tempos tivesse trabalhado em várias províncias. Conhecer um «povo de povos» é um caminho sem fim. Eu só conheci Angola em guerra civil, nem antes nem depois. Seria estúpido fazer considerações e comparações entre um breve passado e a realidade actual. Não tenho vocação de repórter. Não sou sociólogo nem economista para epilogar acerca da nova Luanda, tão diferente daquela que conheci e que também não era um paraíso. Tenho a impressão que não foram os arquitectos paisagistas os mais consultados para desenhar a renovação desta cidade que já conta com 7 milhões de habitantes numa população nacional de 25 milhões. Duvido que sejam especialistas em sistemas de transportes que obrigam as pessoas a gastar mais tempo e energias a chegar aos seus empregos e a regressar a casa do que propriamente no trabalho. Não seria possível e mais eficaz cruzar a cidade de comboios e/ou de linhas de metro do que reduzir tudo a táxis e a transportes particulares? Parece que uma economia baseada sobretudo no preço do petróleo chegou a uma situação insustentável. Sobem os preços e baixa o poder de compra. A população mais carenciada é sempre a que mais sofre.
De um Estado marxista à privatização do Estado, o salto foi muito grande e a defesa dos direitos humanos pouco acautelada. Do ponto de vista humano e cristão, quando um Estado se coloca ao serviço de interesses privados, o bem comum é necessariamente sacrificado. Desse modo, não haverá interesse em ampliar e melhorar o ensino público, a todos os níveis, nem criar e desenvolver um Serviço Nacional de Saúde eficaz.
Quem desejar documentar-se e analisar estas questões, a nível local e nacional, poderá dirigir-se ao Mosaiko, Instituto para a Cidadania, fundado e assumido pelos Dominicanos em Angola, desde 1997. É um instituto angolano sem fins lucrativos, tendo sido a primeira instituição deste país a assumir explicitamente como missão: promover os Direitos Humanos em Angola[1].
3. Ao visitar os espaços da Paróquia do Carmo, entregue aos dominicanos, e onde vivi um ano como professor do Seminário de Luanda, fiquei comovido com a exposição das fotografias de frei João Domingos, frei José João e frei Luís de França que desapareceram do nosso convívio. São pessoas que fizeram suas as dificuldades de um povo vítima de guerras loucas e que não se resignaram a uma paz que recusa o abraço da justiça e a defesa dos direitos mais elementares. Os dominicanos angolanos são hoje a garantia de que a paixão evangelizadora de São Domingos e desses irmãos vão descobrindo e praticando caminhos de transformação da sociedade e da Igreja.
Tudo começou com frei João Domingos, frei Gil Filipe e frei José Nunes em 1982. Foi a mão generosa de D. Zacarias Kamwenho que os levou para Waku-Kungo (Diocese do Sumbe). Era então uma frente de guerra entre o MPLA e a UNITA.
Este bispo, mais tarde arcebispo do Lubango e prémio Sakharov, estava a realizar um grande plano de evangelização inculturada na sua diocese, servindo-se do modelo tradicional Ondjango[2] e pediu a colaboração destes missionários.
Reconhecendo o trabalho exemplar realizado em Waku-Kungo, os dominicanos foram convocados para uma presença mais alargada e diversificada em Angola da qual será preciso falar noutra crónica.
Frei Bento Domingues, O.P.
Luanda, 24.07.2016
in Público



[1] www.mosaiko.op.org
[2] Foi o tema da tese de doutoramento de frei José Nunes. Pequenas Comunidades Cristãs – O Ondjango e a Inculturação da fé em África-Angola. UCP,1991.    





10 julho 2016

Entrevista a Frei Bento Domingues, O.P.

À conversa com… Frei BENTO DOMINGUES

ANDRÉ RUBIM RANGEL

VP – O seu lar familiar foi desde cedo uma ótima escola de fé, a ver-se pela entrega à vida religiosa dominicana do Frei Bento e do irmão, Frei Bernardo. Sentiu-se interpelado e descobriu a vocação através do irmão mais velho? Através de que sinal?

BD – O Frei Bernardo tem mais 3 anos e 3 meses do que eu. Foi recebido na Ordem dos Pregadores também antes de mim. Ambos fomos influenciados por um sedutor dominicano brasileiro, Frei Adriano, muito influente em vários movimentos da Acção Católica do Porto. Ele era amigo de um tio meu, chamado Frei Bernardo que se fez dominicano, pouco depois de ter chegado, como imigrante, ao Rio de Janeiro. Esteve 23 anos sem vir a Portugal. A seu pedido, Frei Adriano foi visitar a minha avó que não achou graça nenhuma que, depois de lhe terem roubado o filho, lhe viessem roubar os netos. A pedido do pároco, pregou um tríduo em Nossa Senhora do Livramento (Vilar – Terras de Bouro). Ele era uma tal alegria de Deus – o contrário da religião vinagreira e ameaçadora que então se vivia em toda aquela zona – que, quando me perguntou, na confissão, o que é que eu queria ser quando fosse grande, respondi sem hesitar: quero ser como você. Creio que com o meu irmão Bernardo (chamava-se Domingos) aconteceu algo semelhante, só que ele tinha jeito para tudo e eu não tinha jeito para nada. Mandaram-me guardar as ovelhas e elas escutavam um livro em latim que eu não entendia, mas que achava muita graça. Os meus pais, esses sim: eram uma escola de fé viva e interrogada.

VP – Em 62 anos de vida religiosa há algo de que se arrependa de ter feito? E há algo que ainda não fez, que gostaria de fazer e que acredita / sabe que ainda realizará? Se não fosse religioso e dominicano, o que seria?

BD – Arrependo-me de quase tudo – menos de ser dominicano – e peço a misericórdia de Deus e a da Ordem dos Pregadores na qual fui recebido. Há tanto que fazer, mas já não vou ter tempo. Por outro lado, foram sempre os outros que me disseram o que eu tinha de fazer. Se não fosse dominicano? Seria dominicano.

VP – Os dominicanos celebram correntemente 800 anos de presença em Portugal. Que oito pontos essenciais destaca nesta presença em cada um dos centenários vividos?

BD – No dia 1 deste mês, fiz a conferência inaugural das Jornadas de História da Ordem dos Pregadores (1216-2016), no espaço Corpus Christi, de Vila Nova de Gaia, sobre os principais pontos altos e baixos de 800 anos de história, com o título Missão da Ordem dos Pregadores Hoje. Procurei documentar uma convicção que sempre me acompanhou: quando a investigação teológica esteve atenta aos sinais dos tempos, foi fecunda a pregação do Evangelho. Quando se deixou dominar pelos apelos do poder político-religioso, foi um desastre. Desde S. Domingos, fora do estudo, em actualização contínua, não há salvação para os dominicanos cumprirem a missão que lhes compete, na Igreja e na sociedade, seja onde e quando for.

VP – No início da década de 60 viveu no Porto e estabeleceu uma relação próxima com Francisco Sá Carneiro. O que lhe fica do Porto e realça desta cidade, bem como do portuense e antigo primeiro-ministro?

BD – Quando cheguei ao Porto e me fizeram assistente da Juventude ligada à Igreja de Cristo Rei, por influência do Frei Bernardo, o Vaticano II já era uma preocupação viva e interveniente de uma minoria de jovens e adultos que sentiam a falta de D. António Ferreira Gomes (no exílio). A minha relação com o Francisco Sá Carneiro inscrevia-se nesse movimento. Tornou-se cada vez mais amiga. Entre muitas outras coisas, ele teve influência junto de Marcelo Caetano para permitir o regresso do Bispo do Porto.

VP – Enquanto teólogo, e após ter sido obrigado a sair de Portugal em 1963, voltou a Roma – onde estudou – para acompanhar os trabalhos do II Concílio do Vaticano, até 1965. O que mais lhe marcou na altura e que marca mantém hoje em si, fruto do Concílio?

BD – Ir para Roma, nessa altura, embora por motivos pidescos, foi o melhor castigo que me podiam dar. Já tinha sido um frequentador das audiências gerais, espantosas, de João XXIII. Isso continuou, mas participar nos debates em torno do que acontecia na aula conciliar, com peritos e jornalistas de todo o mundo, deixou-me sempre um devoto de João XXIII e do Vaticano II. Nenhuma decepção do pós concílio me fez perder a esperança na renovação de uma Igreja, serva e pobre, que, se não for para servir os que mais precisam, também não serve para nada.

VP – Nunca teve medo de dizer verdades nem de ser, por isso, confrontado com a então PIDE? Uma afirmação em 1970, das muitas interessantes que teve, foi: “Vem aí o Natal, vão dar-vos pistolas. Não aceitem. Digam: quando formos grandes não queremos andar em guerras” (numa eucaristia com crianças). Sente que foi ouvido e/ou ignorado, num planeta com muitas guerras, ódios, violências, etc.?

BD – Quando fui interrogado pela PIDE, na António Maria Cardoso, por causa dessa homilia, perdi o medo ao perceber que, na altura, não sabiam nada da minha participação em actividades clandestinas contra o regime opressor e a guerra colonial. A loucura da guerra continua.

VP – Na década de 80 fomentou a Teologia da Inculturação, indo em missão e ensinando teologia em Moçambique, Angola, Perú, Colômbia e Chile. O que guarda na memória desses tempos? E em que estado global está este tipo de teologia?

BD – Participei, dentro dos meus limites, nesse trabalho de teologia e pregação inculturadas que se fazia em África e na Améria Latina. Com o Papa Francisco foi retomado esse horizonte e esse método, de modo alegre e criativo. Na memória conservo, apenas, que trabalhei sempre em países atravessados por conflitos tremendos e que a realidade actual não deixa esquecer.


VP – O título do seu primeiro livro, “A Religião dos Portugueses” (de 1988), leva-me a perguntar-lhe como era nesse tempo e como é agora a religião nacional. Estamos a falar de uma mesma religião, duma mesma fé num só Deus? Que fé é esta de que, como povo, somos feitos e o que caracteriza a sua transmissão?

BD – O Padre Tolentino Mendonça queria reeditá-lo. Graças a Deus, hoje, a investigação, acerca do período por ele abrangido, tem-se desenvolvido de forma espectacular. Teria de ser muito revisto. Não sei se vou ter tempo. Seja como for, a “arte portuguesa de ser religioso”, nas suas constantes e variantes, está a concentrar-se em Fátima. E Fátima cada um tem a sua.

VP – Dos seus nove livros publicados, qual aquele que teve mais impacto e que sente que as pessoas, crentes ou não, mais aprenderam e mais se identificaram consigo? E qual é a principal ideia e máxima que escreve nessa mesma obra?

BD – O que sempre me interessou foi isto: só posso crer interpretando e partilhando o que vou vivendo e entendendo desafiado pelo cruzamento permanente entre fé cristã e os fenómenos culturais, sociais e políticos. Houve pessoas e editoras (de modo especial, o jornal Público) que acharam interesse em publicar o que escrevi. Nunca foi iniciativa minha.

VP – De que forma vê a relação atual e dualidade “Igreja – Mundo”, comparativamente ao passado? Como tem sido o mundo da Igreja: tem sabido estar à altura de tudo o que se passa no Mundo e que mais lhe diz respeito?

BD – Neste momento, vivo tão agradecido a Deus pelo Cardeal Bergoglio ter aceite ser o Papa Francisco que, apesar de todo o tecido de oposições que ele encontra, a relação “Igreja-Mundo” está a encontrar caminhos e expressões que vai ser muito difícil apagar da memória da Igreja e da sociedade. Entre João XXIII e Francisco, apesar de todos os invernos, a esperança resiste de forma muito activa.

in Voz Portucalense

Edição de 2016/07/06

http://www.voz-portucalense.pt/

AS TRAPALHADAS DO CRISMA

       
1. Rui Osório, jornalista e pároco da Foz do Douro, na sua pertinente coluna na Voz Portucalense (2016.06.29) revela preocupações que não são exclusivas: “Se a minha confidência de pastor vos parecer pessimista, peço-vos desculpa, mas deixem-me desabafar: a prática do Crisma é uma das experiências pastorais mais frustrantes que tenho encontrado.
“Em tempos primitivos, os catecúmenos, depois de um longo crescimento na fé, entravam na piscina e eram lavados; saíam e eram perfumados com óleo do crisma; e acediam à mesa eucarística para serem alimentados.
“Hoje, não é tanto assim e andamos, na longa e agitada onda da cristandade sociológica, a surfar um pouco aturdidos entre o cansativo cristianismo de tradição e o sedutor cristianismo de opção.
“Pastoralmente, parece-me que, em vez da iniciação à fé cristã, o Crisma está em risco de se tornar no sacramento que marca o fim de uma certa educação e de pertença cristã construídas na areia.
“Já lhe chamaram a «festa do adeus»! Os cristãos encontram-se no cais em despedida para outras andanças que não acertam no norte do cristianismo!
“Tenho boas razões para confirmar a «festa do adeus» de tantos a quem acompanhei na preparação para o Crisma, sobretudo jovens que completaram com assiduidade os seus dez anos de catequese e se despediram da Igreja ou a Igreja não lhes deu um novo porto de abrigo.
“Será o recém-ungido que abandona a Igreja ou a Igreja que já não tem mais nada a dizer-lhe?”
Talvez haja quem diga que uma citação tão longa é um abuso. Se abuso existe, é também um agradecimento a Rui Osório que tocou, como pastor e de forma exemplar, numa questão que outros, para não criar ondas, vão disfarçando o incómodo e atamancando soluções que o não são. Diria que preferem tornar o Crisma no grande sacramento da debandada.
Em certos casos, há dificuldade em aceitar para padrinhos de Baptismo e Matrimónio aqueles que são apresentados pelos pais ou pelos noivos. A escolha, por vezes, tem pouco a ver com o acompanhamento que os padrinhos devem dar aos seus afilhados. Em vez de se aproveitar a ocasião para refazer o caminho da fé cristã, opta-se pela via administrativa. Em alguns lugares, até se acabou com os padrinhos. Bastam testemunhas. Para não haver problemas desses no futuro, procura-se apressar a idade para o sacramento incómodo.
2. Deixamos de viver em regime de cristandade. A vida das comunidades cristãs já não é regulada pelo campanário nem pelo toque das Trindades.
Vale a pergunta: a orientação para receber o sacramento da responsabilidade eclesial e social da Fé cristã não deveria ter em conta a idade que, numa determinada cultura, se exige para assumir as exigências da vida adulta, social e familiar? Não se trata apenas de uma questão de idade, mas de um modo de entender o crescimento da responsabilidade de ser cristão, pois chegou a altura de ajudar os outros a crescer, a serem adultos na Fé.
É evidente que isto implica acabar com o hábito criado de julgar que a religião é para crianças e para o começo da adolescência. Essa mentalidade esquece o tempo das turbulências do crescimento humano. É esse tempo que deve ser evangelizado como preparação para enfrentar a novidade que é a de ser responsável pelo seu futuro e o dos outros, a nível familiar e profissional. Tempo de enfrentar o futuro da Igreja ao serviço da evangelização do mundo. Será também a melhor forma de combater o clericalismo tão denunciado pelo Papa Francisco. Não poderão aceitar ser apenas clientela de uma paróquia ou de um movimento. São chamados, por exigência sacramental, a descobrir os novos caminhos do Evangelho nos sinais dos tempos, que eles próprios devem marcar.
3. O que está em causa é a teologia dos sacramentos: antropologia sacramental ou sacramentologia antropogénica?, como pergunta Domingo Salado[1]. As normas litúrgicas e canónicas não bastam para uma pastoral lúcida da evolução da vida cristã no devir da existência humana, pessoal e social.
Faz-se o rito, está feito. Faz-se a cerimónia do Baptismo e está baptizado. Faz-se o Crisma e está crismado. Faz a primeira Comunhão, pode comungar, etc.. É o predomínio da causalidade mágica, do entendimento mecânico do célebre adágio ex opere operato[2].
O próprio Tomás de Aquino realizou, no interior da sua teologia, uma revolução muito esquecida. Passou do primado da causalidade ritual para o primado do signo. Os sacramentos inscrevem-se, antes de mais, no vasto mundo da linguagem simbólica e do regime cristão da incarnação, do Verbo na fragilidade humana. É propriedade dos sacramentos cristãos causarem aquilo que significam, no interior do percurso da Fé pessoal e eclesial.
Sem inscrever a pastoral dos sacramentos no âmbito de uma teologia marcada pelas ciências humanas, não há caminho para as trapalhadas que não são apenas as do Crisma. Teremos de regressar a estas questões.
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público 10.07.2016




[1] Antropología sacramental o sacramentología antropogénica? De la lingüística a la hermenéutica sacramental, Ciencia Tomísta, tomo 129, 418, 2002, pp 239-288.
[2] Fez-se, está feito.