04 novembro 2018

ALIANÇA ENTRE JOVENS E IDOSOS, Com o cadáver da esperança às costas & Uma igreja, dois papas: a "guerra" entre Bento e Francisco

     
1. Décadas de frustrações tornaram muitos católicos, jovens e adultos, cépticos acerca das iniciativas inconsequentes da chamada pastoral da juventude. Desde há mais de três mil anos que os velhos se queixam das novas gerações. Mas, como terá dito Confúcio, é melhor acender uma vela do que amaldiçoar as trevas.
 Alegrei-me muito com o testemunho eufórico do cardeal Luis Antonio Tagle, arcebispo de Manila, acerca do que tinha vivido em Roma: nós, os bispos, perguntamos muitas vezes o que podemos fazer pelos jovens; agora vi o que eles fizeram por nós; tornaram-se a escola dos bispos. Este percebeu o que deve ser um sínodo: um tempo de escuta, de aprendizagem, de conversão, de mudança. Não pode ser um faz de conta: os jovens que falem à vontade, mas a boa doutrina é a nossa; é nosso e só nosso o verdadeiro magistério da Igreja que ensina e não recebe lições desses irresponsáveis verdes anos.
Senti-me muito longe do espírito do Grande Encontro da Juventude – Os novos escolhem Deus – (20-21 de Abril de 1963), realizado em Lisboa, congregando à volta de 60 mil jovens de todo o país. Julgava-se que se podia responder a uma grave crise social, cultural, religiosa e política com uma solene e cega afirmação de rua[1].
Espero que o próprio Instrumentum Laboris[2] não seja abolido, mas refeito, periodicamente, com os contributos do Sínodo e com o intercâmbio de novas práticas a nível internacional. Uma das críticas mais pertinentes ao próprio funcionamento do Sínodo foi o da descriminação das mulheres. Nenhuma das convidadas – ao contrário dos homens – pode votar o texto final. O cardeal alemão Reinhard Marx observou: quando se trata de poder, fica-se com a impressão de que a Igreja é, em última análise, uma igreja masculina. É uma situação que tem de ser superada em todo o mundo.
Esta descriminação aconteceu já depois da Assembleia Plenária da Comissão Pontifícia para a América Latina (CAL) ter debatido A Mulher, como pilar na edificação da Igreja e da sociedade[3]. Nessa ocasião, o cardeal Ouellet pediu pessoalmente perdão às mulheres. Quando lhe perguntaram porque o fez, respondeu: “tive essa ideia ao aproximar-se o Dia  da Mulher. Fiz aquele gesto pessoal, sem envolver os outros, embora também faça sentido para eles. Pensei nos meus limites, nos meus erros do passado, no meu pequeno mundo pessoal e em tudo o que tínhamos posto em relevo nos dias precedentes, sobre a situação concreta da mulher, os maus-tratos, a violência, o tráfico, o assassinato, o desprezo, a violência familiar… Naquele quadro, fiz este gesto de forma espontânea, como um homem perante as mulheres. E assim foi: senti-me comovido, mortificado, sinceramente arrependido pelos pecados dos homens perante as mulheres. Foi um gesto simbólico, mas acho que foi no espírito do Papa Francisco”.
2. No entanto, o grande paradoxo deste Sínodo dos Jovens é outro. O Papa Francisco aproveitou esse contexto para lançar o livro, A Sabedoria do Tempo, um verdadeiro manifesto pela aliança de gerações, mais precisamente, aliança entre jovens e idosos. A situação dos jovens, na Igreja, é muito diferenciada de país para país e, sobretudo, de continente para continente. Na Europa, com vários matizes, é muito elevada a percentagem dos jovens que dizem dispensar a religião para serem felizes[4]. Consideram-se, como é normal, a geração do futuro, a geração digital, da internet, dos media sociais, do Facebook, da liberdade, mas também da incerteza[5]. É normal que a Pastoral da Igreja se inquiete com a situação, mas o Papa tem uma visão muito mais integrada da sociedade e da Igreja.
A nossa sociedade privou os avós da sua voz. Tiramos-lhes o espaço e a oportunidade de nos contarem a sua experiência, as suas histórias, a sua vida. Deixamo-los de lado e perdemos o bem da sua sabedoria. Quisemos remover o nosso medo da fraqueza e da vulnerabilidade, mas ao proceder assim, fizemos aumentar, nos idosos, a angústia de serem mal apoiados e abandonados. Devemos, pelo contrário, despertar o sentido cívico da gratidão, do apreço, da hospitalidade, capaz de fazer com que os idosos se sintam parte viva da comunidade. Colocados de lado, ficamos privados do segredo que lhes permitiu seguir em frente, fazer caminho na aventura da vida. Privados do testemunho de pessoas que conservam no coração a gratidão por tudo aquilo que viveram, ficamos sem modelos, sem testemunhos vividos. Ficamos perdidos.
Por outro lado, como é feio o cinismo de um idoso que perdeu o sentido do seu testemunho, despreza os jovens e está sempre a lamentar-se. A sua sabedoria não é transmitida e torna-se estéril nostalgia. Como é  bonito, pelo contrário, o encorajamento que o idoso consegue transmitir a uma jovem ou a um jovem em busca do sentido da vida! Esta é a missão dos avós. Uma verdadeira vocação.
Destaco esta intervenção porque, no clima do Sínodo dos Jovens, o Papa tornou-se a voz dos ausentes, dos esquecidos. Uma aliança de gerações não pode ter um só polo. Já noutras ocasiões, pôs a questão do que os jovens devem e podem fazer para que não deixem os idosos abandonados, quer nas famílias quer nos lares onde são arrumados. Nada pode substituir a aliança dos afectos.
3. Uma religião viva e inovadora pode e deve ser uma religação de gerações. Como diz o antropólogo Alfredo Teixeira, numa entrevista a António Marujo, que deve ser estudada com cuidado: “há um problema sério na capacidade de transmissão da fé, mais do que na comunicação. Há mudanças que se podem ver, mas elas são, muitas vezes, em sentidos opostos e quase contraditórios. O mais errado é pensar que podemos resolver a nossa leitura da sociedade a partir de um dinamismo único. Sobretudo em termos religiosos, precisamos constantemente desse olhar em diferentes escalas porque, de outra forma, teremos um olhar muito simplificado sobre a realidade”.
É inegável a erosão das igrejas cristãs tradicionais. Mas pergunta-se: estamos simplesmente numa linha de erosão ou ela coincide com zonas de reconfiguração?[6]
       Frei Bento Domingues, O.P.
       in Público, 04.11.2018


[1] No Boletim do ISET (Novembro 1972), no artigo Esperar é criar alternativas (págs. 11-19), tentei analisar a grandeza e os limites desse acontecimento.
[2] Lumen (Julho/Agosto 2018) encerra toda d documentação
[3] 6-9 de Março 2018
[4] Cf. Lumen (Julho/Agosto 2018), pág. 29-31.
[5] O estudo sobre a Geração Quê? (Génération Quoi?) oferece um panorama mais vasto.
[6] Cf. Alfredo Teixeira, in Religione.blogpot.pt; cf. também, Régis Debray, O Fogo Sagrado, Ambar, Porto 2005

● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●

Com o cadáver da esperança às costas

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Ainda sobre os dias 1 e 2 de Novembro:
Dois dias para a morte e o sentido

Por mais arrogante que se seja e se padeça do complexo da omnipotência, ninguém, a não ser que pense suicidar-se antes, pode dizer: Até amanhã, se eu quiser. Dada a constituição corpórea do ser humano e a sua consciência antecipadora, toda a pessoa adulta e consciente, que reflecte, sabe, embora com um saber paradoxal, pois ninguém se pode conceber a si mesmo morto, que é mortal e que a morte é o limite inultrapassável. Ninguém rouba a morte a ninguém, cada um morrerá na sua vez. E as sabedorias ancestrais e as religiões e as filosofias lembraram sempre a cada um: “lembra-te de que és mortal”; aos generais romanos vitoriosos, na corrida para a celebração do triunfo, havia um escravo que lhes ia sussurrando ao ouvido o dito, em latim: “memento mori” (lembra-te de que és mortal); “sic transit gloria mundi” (assim passa a glória mundana): lembrava ao papa na sua coroação o mestre de cerimónias enquanto queimava uma mecha de estopa; os gregos definiam os humanos frente aos deuses, imortais, como “os mortais”.
A consciência da morte caracteriza o ser humano e, confrontando-o com a ameaça do nada — aquele “nunca-mais-para-sempre” neste mundo, escreveu Vladimir Jankélévitch —, revela-o a si mesmo na sua fundura ético-metafísica.  Aí, sabe que é um eu, único, enfrentando perguntas de abismo sem fundo, inevitáveis: O que sou e quem sou? O que quero e devo fazer?
Na consciência antecipadora da morte, cada um é dado a si mesmo como totalidade, ainda que incompleta, pois ninguém sabe o que é morrer nem o que quer dizer exactamente estar morto. De qualquer modo, nessa antecipação, a pergunta decisiva é: Qual o sentido da vida, da existência, da História, de tudo? Vamos realizando sentidos, mas, perante a morte, impõe-se a pergunta essencial, final: Qual o sentido de todos os sentidos, o Sentido último? Para quê? Porque, se tudo se afunda na morte: bem, mal, dignidade, indignidade, justiça, injustiça..., então tudo é equivalente, vale tudo o mesmo e foi tudo para nada.
 Mas é tão natural o homem saber da sua morte como esperar para lá dela. A pessoa é constitutivamente esperante, assim: por mais que concretize e realize da sua esperança, ela nunca está plena e adequadamente concretizada nem realizada, pois há sempre um abismo entre o desejado e o alcançado, e, por isso, sempre um mais além, de tal modo que  nenhum homem, nenhuma mulher morre satisfeito, satisfeita (de satis-factus, satis-facta: feito, feita suficientemente). Todos morrem em aberto, o que leva à conclusão de que a realização plena só pode vir de Outro, de Deus; só a religião pode garantir a esperança total. Assim, a própria Escola de Frankfurt vivia atenazada. Por exemplo, Max Horkheimer, um dos seus fundadores, por um lado,  não acreditava, mas, por outro, ansiava pelo totalmente Outro: “Sem Deus, é inútil pretender salvar um sentido incondicional. (...) A morte de Deus é também a morte da verdade eterna”. “O anelo pelo totalmente Outro é um anelo que une os homens, de tal modo que os factos atrozes, as injustiças da história passada não sejam o destino último, definitivo, das vítimas”. Por isso, pensava que a moral assenta em última instância na teologia, significando teologia “a consciência de que este mundo é um fenómeno, que não é a verdade absoluta, que não é a ultimidade. Teologia é – exprimo-me conscientemente com grande cautela – a esperança de que a injustiça que atravessa o mundo não seja a ultimidade, que não tenha a última palavra (...) expressão de um anelo de que o verdugo não triunfe sobre a vítima inocente”. Theodor Adorno, outro fundador, escreveu que “o pensamento que se não decapita desemboca na transcendência; a sua meta seria a ideia de uma constituição do mundo na qual não só ficasse erradicado o sofrimento existente, mas também revogado o irrevogavelmente passado”. Também Jürgen Habermas se refere a toda esta problemática, concretamente a das vítimas inocentes e da dívida da História para com elas, trazendo à colação este texto de J. Glebe-Möller: “Se desejarmos manter a solidariedade com todos os outros, incluindo os mortos, então temos que reclamar uma realidade que esteja para lá do aqui e do agora e que possa vincular-nos a nós também para lá da nossa morte com aqueles que, apesar da sua inocência, foram destruídos antes de nós. E a esta realidade a tradição cristã chama-a Deus”.
Claro que ninguém se pode gloriar, diz I. Kant, de saber que Deus existe e que haverá uma vida futura: se alguém o souber, escreveu, “esse é o homem que há muito procuro, porque todo o saber é comunicável e eu poderia participar nele”. Mas é razoável acreditar em Deus e esperar para lá da morte. Na sua obra Was ich glaube (O Que Eu Creio), resultado de uma série de lições, aos 80 anos, na Universidade de Tubinga, a cada uma das quais  assistiram mil pessoas, pergunta, com razão, o célebre teólogo Hans Küng: ”O ateísmo explica melhor o mundo? A sua grandeza e a sua miséria? Como se também a razão descrente não encontrasse o seu limite no sofrimento inocente, incompreensível, sem sentido!”
A curto, a médio, a longo prazo todos iremos estando mortos. A nossa vida e a realidade do mundo estão em processo e a História lê-se do fim para o princípio. Só no fim se poderá saber, mas, sem Deus, nunca poderíamos sequer saber quem somos nem o que pretendia a realidade e a História, porque não estaríamos lá e tudo teria sido para nada.  Lá, no final, só há, portanto, uma alternativa.
Claude Lévi-Strauss conclui assim o seu L’homme nu: “Ao homem incumbe viver e lutar, pensar e crer, sobretudo conservar a coragem, sem que nunca o abandone a certeza adversa de que outrora não estava presente e que não estará sempre presente sobre a Terra e que, com o seu desaparecimento inelutável da superfície de um planeta também ele votado à morte, os seus trabalhos, os seus sofrimentos, as suas alegrias, as suas esperanças e as suas obras se tornarão como se não tivessem existido, não havendo já nenhuma consciência para preservar ao menos a lembrança desses movimentos efémeros, excepto, através de alguns traços rapidamente apagados de um mundo de rosto impassível, a constatação anulada de que existiram, isto é, nada.”
A Bíblia, no seu último livro, Apocalipse, que quer  dizer revelação, conclui assim: “Vi então um novo céu e uma nova terra. E vi descer do céu, de junto de Deus, a cidade santa, a nova Jerusalém. E ouvi uma voz potente que vinha do trono: ‘Esta é a morada de Deus entre os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo e o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos; e não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor. Porque as primeiras coisas passaram.”
É preciso relembrar esta alternativa final, concretamente neste tempo de inesperança em que, ao contrário de todas as aparências de euforia, se avança, citando um poeta galego, “com o cadáver da esperança às costas”.
Aqui chegados, alguém poderá objectar que a esperança no Além é alienante, porque retira força ao compromisso com a luta por um mundo mais humano no aquém. Mas, se se pensar mais fundo, é o contrário. A inesperança está a infectar a vida, porque se ama pouco. O amor autêntico quer eternidade e é o combate comprometido com um mundo mais justo, mais humano e mais feliz que reforça a esperança no Além. Como disse Immanuel  Kant de forma lapidar: “A praxis tem de ser tal que se não possa pensar que não existe um Além”.

in DN 03.11.2018
www.dn.pt/edicao-do-dia/03-nov-2018/interior/com-o-cadaver-da-esperanca-as-costas-10121092.html

● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●


Uma igreja, dois papas: a "guerra" entre Bento e Francisco
Fernanda Câncio

A guerra entre conservadores e liberais no seio da Igreja Católica não é de agora, decerto. Mas é a primeira vez da história da instituição em que cada um dos lados tem um papa - vivo. E se um deles tem o cognome de "emérito", a verdade é que, se houve quem pensasse que iria passar o resto da vida em recolhimento e oração, "desaparecendo" do mundo dos vivos, enganou-se. Bento nunca saiu do Vaticano e nem sequer se mantém em silêncio.

Isso mesmo evidencia a revista Vanity Fair, num longo artigo publicado esta terça-feira, no qual o jornalista e escritor britânico John Cornwell, autor de várias obras sobre os meandros da igreja católica e sobre papados -- nomeadamente Hitler's Pope -The secret story of Pius XII (O Papa de Hitler - A História Secreta de Pio XII, 1999), e A Thief in the Night - The Mysterious Death of Pope John Paul I (Um ladrão na noite - A morte misteriosa do Papa João Paulo I, 1989) - descreve vários episódios reveladores de, no mínimo, um mal-estar entre os dois pontífices. "Se Francisco é o papa vivo que reina, Bento é a sua sombra, o papa emérito morto-vivo", escreve Cornwell.

"Se Francisco é o papa vivo que reina, Bento é a sua sombra, o papa emérito morto-vivo"

E prossegue: "Em 2013, Bento anunciou inesperadamente a sua resignação. Era o primeiro papa a fazê-lo em quase 600 anos. Mas a seguir, ao contrário dos que muitos esperavam, não se enfiou num obscuro mosteiro bávaro. Ficou no mesmo sítio, continuando a aceitar ser tratado por 'sua santidade', a usar ao peito a cruz de bispo de Roma, a publicar, a encontrar-se com cardeais, a fazer pronunciamentos. A sua mera existência encoraja os conservadores que querem minar o reinado de Francisco."

É, considera o jornalista, uma situação para a qual é difícil encontrar precedentes. "Com que podemos comparar esta circunstância de uma igreja com dois papas? Estamos nos domínios dos arquétipos e do mito. Pensemos no Rei Lear, que deu todo o poder mas se manteve perto para controlar, resultando em desastre, ou no fantasma em Hamlet. A mera presença de um ex papa já seria o suficiente para pôr em causa a força de espírito e a independência de Francisco desde o primeiro dia."

"O meu papa é Bento", diz Salvini
Poderia o simpático João XXIII, pergunta Cornwell, "ter iniciado a reforma do Concílio Vaticano Segundo se Pio XII, o seu autocrático predecessor, estivesse a observar, lugubremente, de uma janela vizinha? E iria João Paulo II abanar a árvore apodrecida da União Soviética se o angustiado e hesitante Paulo VI , que chegou a ponderar uma concordata com Moscovo, estivesse a puxar-lhe pelo braço?"

"Em 2013, Bento anunciou inesperadamente a sua resignação. Era o primeiro papa a fazê-lo em quase 600 anos. Mas a seguir, ao contrário dos que muitos esperavam, não se enfiou num obscuro mosteiro bávaro. Ficou no mesmo sítio, continuando a aceitar ser tratado por 'sua santidade', a usar ao peito a cruz de bispo de Roma, a publicar, a encontrar-se com cardeais, a fazer pronunciamentos. A sua mera existência encoraja os conservadores que querem minar o reinado de Francisco."

O escritor acha que não: "Qualquer que seja a direção do papado, esquerda ou direita, para o melhor ou o pior, é a iniciativa única e exclusiva de um papa de cada vez que lhe confere suprema autoridade e poder. O segredo da unidade católica é a lealdade, em todas as circunstâncias, ao único supremo pontífice vivo. A briga entre os leais a Francisco e os insurgentes de Bento ameaça provocar a maior divisão na Igreja Católica desde a Reforma do século XVI, quando Martinho Lutero e outros reformistas lideraram a revolta protestante contra o Vaticano." E cita o historiador Diarmaid MacCulloch, da Universidade de Oxford: "Dois papas é a receita para um cisma."

Ainda por cima, dois papas com visões tão diferentes. Desde que João Paulo II o nomeou Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, ou, nas palavras de Cornwell, "fiscalizador chefe da doutrina, em 1981, o então cardeal Joseph Ratzinger defendeu uma Igreja Católica mais pequena, limpa de imperfeições. A visão de Francisco é diametralmente oposta: quer uma igreja aberta, acolhedora, misericordiosa para com os pecadores, hospitaleira face aos estranhos, respeitosamente tolerante de outras fés. Procura encorajar os que duvidam, consolar os feridos, e trazer de volta os excluídos pela respetiva orientação. Compara a igreja a um hospital de campanha para os espiritualmente doentes."

"A briga entre os leais a Francisco e os insurgentes de Bento ameaça provocar a maior divisão na Igreja Católica desde a Reforma do século XVI, quando Martinho Lutero e outros reformistas lideraram a revolta protestante contra o Vaticano."

As trincheiras são tão óbvias que se consubstanciam em tshirts: Matteo Salvini, atual ministro da Administração Interna e líder do partido de extrema-direita Liga (antes Liga Norte), que se notabiliza pelas suas posições xenófobas, foi fotografado em setembro de 2016 com uma em que se vê a cara de Francisco com ar horrorizado com o escrito "O meu papa é Bento". É normal: se Francisco passa a vida a apelar ao acolhimento de refugiados, Salvini quer vê-los todos pelas costas. Mas será normal que, estando vivo e a observar, Bento não rechace este tipo de apoio? Tanto mais que, como Cornwell frisa, o papa "reformado" continua a opinar e a fazer-se ouvir - quer diretamente quer através de outros.


Matteo Salvini, atual ministro da Administração Interna de Itália e líder do partido de extrema-direita Liga, em 2016, mostrando uma Tshirt que diz "O meu papa é Bento"© Direitos Reservados
"Um ofício papal alargado" ou "só um papa"?
Um desses outros é o seu secretário, o arcebispo alemão Georg Gänswein. Este, que vive na atual residência do papa emérito - a qual, conta Cornwell, fora um convento para 12 freiras contemplativas no tempo de João Paulo II e que Bento mandou renovar e preparar (luxuosamente, parece) quatro meses antes de anunciar a sua renúncia - declarou em maio de 2016 que Francisco e Bento representam um único ofício papal "alargado", com um membro "ativo" e um "contemplativo". Francisco, terá rejeitado a ideia de imediato: "Só há um papa."

Desde essa altura, diz Cornwell, a relação entre o papa investido e o emérito ter-se-á deteriorado. Em julho de 2017, no enterro do cardeal conservador (e crítico de Francisco) Joachim Meisner, arcebispo emérito de Colónia, Gänswein leu uma carta de Bento. Esta contém, no entender do autor do artigo da Vanity Fair, uma frase que pode ser considerada muito desestabilizadora do pontificado do atual papa. Nesta, Bento diz que Meisner estava convencido de que "o Senhor não abandona a Sua Igreja, mesmo que o barco tenha metido tanta água que esteja à beira de afundar." Para Cornwell, Bento parece estar a dizer que a Igreja Católica comandada por Francisco está a afundar-se.

"O Senhor não abandona a Sua Igreja, mesmo que o barco tenha metido tanta água que esteja à beira de afundar", diz Bento. Está a dizer que a Igreja Católica comandada por Francisco está a afundar-se?

Mas não fica por aqui: em setembro último, Gänswein deu uma palestra na biblioteca do parlamento italiano por ocasião do lançamento da tradução italiana do livro The Benedict Option (A opção de Bento), do escritor americano Rod Dreher, descrito por si mesmo como um "conservador empedernido". O livro defende que a civilização ocidental, nomeadamente os EUA, se encaminham para um tempo de caos e negritude, uma nova idade das trevas, e que o caminho é voltar aos ensinamentos de Bento de Núrsia, o fundador dos monges beneditinos. Gänswein explicou à audiência que a crise de abuso sexual na Igreja Católica é a idade das trevas da instituição, o 11 de setembro católico. Um paralelismo que foi interpretado por Dreher como significando que o salvador atual é o papa emérito.

Cornwell encontra outros sinais de perversidade - não é muito difícil perceber para onde pende o seu coração na disputa que descreve - na conduta de Bento, até antes de renunciar. Refere por exemplo o facto de em 2012, pouco antes de anunciar a sua inesperada decisão, ter nomeado o bispo conservador Gerhard Ludwig Müller para o lugar que fora seu sob João Paulo - ou seja, designando um conservador de linha dura para fiscalizador da doutrina (num ministério que está também encarregado de investigar casos de abuso sexual) do qual o seu sucessor teria dificuldade em retirá-lo sem parecer desrespeitador - de facto, Francisco só o substituiu em 2017. E não só nomeou Gänswein como seu secretário pessoal como também chefe de gabinete do papa - o que significa dirigir a residência papal no palácio apostólico, onde é suposto os papas viverem e trabalharem. Tal, frisa Cornwell, permitiria ao secretário e homem de confiança do papa emérito monitorizar toda a atividade do novo pontífice.

O que significa que a decisão de Francisco de não ocupar as luxuosas instalações que há séculos são a casa dos papas pode ter também tido a ver com dar a volta a Bento e Gänswein - pelo menos na interpretação de Cornwell. Assim, instalou-se na modesta Casa Santa Marta, onde ficam os clérigos que visitam o Vaticano. Permite a Gänswein que organize receções nos aposentos papais para reis e chefes de Estado, mas o resto do tempo está fora do alcance do secretário de Bento.

É possível um cisma?

Frisando que, aos 91 anos, cinco após resignar, Bento parece manter vigor físico e mental, Cornwell interroga-se sobre os motivos da sua resignação. E sobre que estratégia terá em vista. Será que um cisma, ou seja, a divisão da Igreja Católica em duas, é possível?

Certo é que, conclui o jornalista, se assiste a um impasse. Francisco está cada vez mais isolado e acossado por escândalos sucessivos; a presença de Bento e as suas intervenções não ajudam, pelo contrário.

É tentador assacar a culpa deste impasse a Bento, o rígido moralista e o defensor de uma igreja mais pequena e mais pura, mas também há motivo para acreditar que Francisco tem os seus próprios motivos para querer provocar uma crise.

Mas se, argumenta Cornwell, é tentador assacar a culpa deste impasse a Bento, o rígido moralista e o defensor de uma igreja mais pequena e mais pura, aquele que resignou sem deixar o palco, aquele cuja mera existência mina a autoridade de Francisco, também há motivo para acreditar que este último tem os seus próprios motivos para querer provocar uma crise.

E explica: "Desde os primeiro dias do papado, falou de forma a sugerir que procura, que provoca, que pede uma mudança massiva numa autoritária, dogmática teimosamente inamovível Igreja que mostra os seus frutos amargos nos milhares de jovens fiéis abusados em todo o mundo católico. Uma purga drástica dos privilégios obstinados, do secretismo, da riqueza, do tradicionalismo, da falta de transparência e de controlo, pode ser a condição necessária de um novo começo."


in DN 02 Novembro 2018

28 outubro 2018

Crónicas de Frei Bento Domingues e do Padre Anselmo Borges

   PARA VINHO NOVO, ODRES NOVOS &  
Dois dias para a morte e o sentido 


         PARA VINHO NOVO, ODRES NOVOS

1. Como diz o físico Carlo Rovelli, a natureza do tempo talvez seja o maior mistério. Estranhos fios o ligam aos grandes mistérios não resolvidos: a natureza da mente, a origem do Universo, o destino dos buracos negros, o funcionamento da vida. A dança a três gigantes do pensamento - Aristóteles, Newton e Einstein – levou-nos a uma mais profunda compreensão do tempo e do espaço: existe uma estrutura da realidade que é o campo gravitacional; esta não é separada do resto da física, não é o palco em que o mundo flui: é uma componente dinâmica da grande dança do mundo, semelhante a todas as outras; interagindo com as outras, determina o ritmo das coisas a que chamamos fitas métricas, relógios e o ritmo de todos os fenómenos físicos. Pouco depois, o próprio Einstein verificou que esta não era a última palavra sobre a natureza do espaço e do tempo[i].
Há mais de dois mil anos, depois de João Baptista ter sido preso, Jesus foi para a Galileia proclamar: “completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo: arrependei-vos - mudai de vida - e acreditai no Evangelho”, se quereis que o mundo encontre a perfeita alegria[ii].
 Quando S. Marcos escreve isto, já o Espirito de Cristo tinha assumido outro ritmo do tempo: o dos jovens com visões novas e dos velhos renascidos, cheios de sonhos de um mundo outro.[iii] Cedo, porém, se deram conta de que o tempo e o espaço das Igrejas não eram um palco em que elas se pudessem desenvolver, puras e santas, sem estranhas interacções religiosas, sociais, económicas ou políticas, desde o Pentecostes até hoje. A necessidade de reformas faz parte da sua história.
Em Novembro de 1950, Yves Congar, O.P. publicou uma obra famosa, Vraies et fausses réformes dans l´Église, que lhe causou muitos e graves sofrimentos romanos. Angelo Roncalli, futuro João XXIII, era, nessa altura, núncio em Paris. Este livro, sublinhado página a página, fazia parte da sua biblioteca. Eleito Papa, recupera o maldito Congar e as suas perspectivas de reforma. É inspirado nele, que concebe o Vaticano II, como um concílio de aggiornamento da Igreja no mundo contemporâneo.
O Vaticano I (1869-1870) tinha concentrado tudo no primado do Papa e na sua infabilidade, quando se pronunciava ex-cathedra, em assuntos de fé e de moral. Era tudo resolvido por ele e pela cúria. Pio XII foi o último da famosa série os Pios.
Na preparação do Vaticano II, a herança da Cúria e do chamado “Santo Ofício” tentaram controlar os desvarios de João XXIII. Não conseguiram.
2. Importa saber quais foram as reformas mais importantes deste Concílio. É difícil responder, mas um dos seus historiadores mais importantes, John W. O’Malley, sj[iv], propôs um critério: uma reforma é tanto mais importante quanto maior é a resistência que suscita. Nenhuma doutrina ou reforma teve mais resistências do que a colegialidade episcopal do capítulo III da Lumen Gentium. A sua doutrina sublinha que, por essência, os bispos têm uma responsabilidade não só nas suas respectivas dioceses, mas em toda a Igreja quando actuam colegialmente e com o Papa. Reencontrava-se, assim, uma antiga tradição obscurecida pela centralização, quase absoluta, da Santa Sé.
Desde que começou o debate sobre o referido capítulo III, a chamada minoria do Concílio opôs-se-lhe de todas as formas. Quando se sentiu vencida procurou debilitá-lo. Essa resistência continuou, sem tréguas, até à sua rectificação, dias antes do encerramento do concílio. Note-se que até ao pontificado do Papa Francisco, a colegialidade era um ideal que descansava nas páginas dos documentos conciliares. É verdade que o instrumento que Paulo VI tinha pensado para a aplicação do referido capítulo III, era o Sínodo dos Bispos. No entanto, o modo como o concebia era mais um instrumento da Santa Sé do que uma aplicação da colegialidade. Apesar disso, o Concílio aceitou-o como expressão da colegialidade, no decreto sobre a função pastoral dos bispos (Christus Dominus nº 5).
3. Até aos dois Sínodos sobre a Família, a que presidiu o Papa Francisco, os sínodos episcopais eram apenas a rectificação dos textos preparados pela Cúria. A mudança foi radical. Ele tinha dito com clareza: nos sínodos, as opiniões devem expressar-se livremente e o documento final deve ser o produto do próprio Sínodo. Houve, de facto, nesses últimos sínodos divergências de opinião e consternação em certos sectores. Daí resultaram muitos ataques ao Papa, acusando-o até de várias heresias, mas apesar desta “desordem”, esta situação, a médio e a longo prazo, poderá ser mais sadia do que um controle rígido sobre o funcionamento dessas assembleias.
Com a colegialidade, o Vaticano II tratou também a reforma da Cúria Romana que, desde o começo, tentou controlar o Concílio. A animosidade da maioria contra o chamado “Santo Ofício”, hoje Congregação para a Doutrina da Fé, levava alguns a propor a sua abolição pura e simples. A reforma da Cúria não estava, inicialmente, na ordem do dia do Concílio, mas logo no final do primeiro período tornou-se claro que os bispos a enfrentariam. As críticas foram duras e exigiam medidas radicais. Paulo VI disse que era normal a qualquer instituição reformar-se de vez em quando, mas deixou isso para depois do Concílio. Nem as suas medidas nem as de João Paulo II tiveram qualquer efeito.
As tarefas empreendidas pelo Papa Francisco têm, sem dúvida, a sua origem na crise actual e nas suas heranças. Mas ao mesmo tempo fazem parte da ordem do dia inacabado do Vaticano II e de problemas que atravessam a história da Igreja. Bergoglio retomou a verdade do axioma sobre o ecumenismo: Ecclesia semper reformanda, a Igreja deve viver em permanente processo de reforma.
A Constituição Apostólica sobre o Sínodo os Bispos (15.09.018) faz parte desse processo. O seu espírito e as suas normas exigem novas formas de escuta e de representação que matem, na raiz, as tentações de um renovado clericalismo[v]. O Sínodo dos Jovens tem de mostrar, a toda a Igreja, que estamos a inaugurar tempos novos em todos os lugares. Para vinho novo, odres novos. Ninguém espere que vá ser fácil.
       Frei Bento Domingues, O.P.
       in Público, 28.10.2018


[i] Cf. Carlo Rovelli, Talvez o maior mistério de todos seja o tempo, Rev. LER, nº 150, pp 92-105
[ii] Jo 15, 11; 1Jo 1, 1-4
[iii] Act. 2, 14 -24
[iv] Cf. Reforma de la Eglesia. Reflección de un historiador, Selecciones de teología, n 227, 2018, pp 188-194
[v] Este texto nasceu na celebração dos 21 anos do Movimento Nós Somos Igreja, em Portugal, cujo lema foi Com o Papa Francisco reformar a Igreja, Convento de S. Domingos, 20.10.2018

● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●

Dois dias para a morte e o sentido
Padre Anselmo Borges

Há muito que para mim é claro que, para perceber uma sociedade, mais importante do que saber como é que nela se vive é saber como é que nela se morre e nela se trata a morte e os mortos. Aí está: hoje a morte é tabu, mais: vivemos numa sociedade assente sobre o tabu da morte, tendo nele o seu fundamento. Da morte não se fala. Não é de bom tom. E o que é que isso revela? Que vivemos numa sociedade desorientada, que não sabe o que há-de fazer com a morte e, por isso, também não sabe viver na fundura ético-metafísica que o pensamento da morte dá e exige.
O que aí fica, talvez intempestivamente, para os dois dias 1 e 2 de Novembro, que tradicionalmente eram consagrados à meditação sobre a morte e o seu sentido, que é o sentido da vida, são breves reflexões sobre este tema incómodo, mas sem o qual se deriva para o inessencial.
A morte é o mistério pura e simplesmente. Ninguém sabe o que é morrer. Ainda nenhum de nós, felizmente, morreu, e os mortos, esses, não falam. Não temos experiência do que é morrer nem do estar morto nem do Além. A morte escapa a todas as categorias. Como escreveu o filósofo Emmanuel Levinas, “a morte é o mais desconhecido de todos os desconhecidos. Ela é mesmo desconhecida de modo totalmente diferente de todo o desconhecido”. Perante o rosto morto de uma pessoa, concretamente  da pessoa amada ou de um amigo, sabemos que qualquer coisa de dramático e único aconteceu: o fim da existência no mundo, o “stop” definitivo e irreversível. Mas o que é que isto quer dizer verdadeiramente? “Nunca saberemos o que é que a morte significa para o próprio morto. Não sabemos sequer o que pode haver de legítimo na fórmula: para o próprio morto.” Em última análise, não é possível fazer um juízo definitivo sobre a vida de alguém, porque nunca nos é dado saber o que foi a sua morte. No confronto com a morte, é com a irrepresentabilidade total que deparamos. Só os vivos falam da morte. Os mortos, esses, calam-se definitivamente. Sigmund Freud também escreveu: “O facto é que nos é absolutamente impossível representar a nossa própria morte, e todas as vezes que o tentamos apercebemo-nos de que assistimos a ela como espectadores. É por isso que a escola psicanalítica pôde declarar que, no fundo, ninguém crê na sua própria morte ou, o que é o mesmo, que, nos seu inconsciente, cada um está persuadido da sua própria imortalidade.” No fundo, nenhum de nós acredita que há-de morrer: a morte é sempre a morte dos outros, só acontece aos outros, cada um de nós pensa que será excepção. Porque é impossível eu conceber a minha consciência, a consciência de mim, morta.
Por outro lado, paradoxalmente, no núcleo da própria existência, há uma experiência vivida da morte enquanto limite último insuprimível e insuperável. No centro da vida, a morte está presente como mistério, o impensável que obriga a pensar. A vida vê-se inevitavelmente confrontada com a morte enquanto barreira intransponível. Porque o ser humano é o ser da antecipação, toma consciência de que é inevitavelmente mortal: dada a sua condição corpórea, no horizonte da sua vida, antecipando o futuro, a morte surge-lhe como termo inescapável. E, se a morte enquanto totalização põe em questão não só o aquém, mas também o seu além, falar da morte humana enfrenta-se com a pergunta inevitável: e depois? Porque, se também o animal pode ter medo de morrer, só a pessoa humana, porque é autoconsciente, se angustia face à morte. O medo relaciona-se com um objecto concreto; a angústia é difusa, é esse temor único, em última análise, do nada, da morte enquanto dissolução do eu. Unamuno exprimiu-o com estas palavras: “O meu eu, ai que me roubam o meu eu!”
Hoje, predomina o tabu, o recalcamento, da morte. Nas nossas sociedades científicas e técnicas, urbanas e consumistas, hedonistas e invadidas pelo niilismo, a morte tornou-se realmente tabu. Ela é umas realidade quase obscena. Repare-se, neste sentido, como se inverteu a relação com o sexo e com a morte: nas sociedades tradicionais, tabu era o sexo; hoje, tabu é a morte, talvez o último tabu. Como é que uma sociedade que gira à volta da organização sócio-económica, determinada pelo individualismo concorrencial feroz e insolidário, onde os valores considerados são o prazer, o êxito, a juventude, a beleza, a eficácia, a produção, o lucro, acumulação de bens e fortuna, progresso e riqueza, pode ainda acompanhar afectivamente os doentes, os velhos e os moribundos (agora, diz-se “pacientes terminais”) e suportar o supremo fracasso da morte?
Mas não se pense que se deixou de falar da morte por ela já não constituir problema. É exactamente o contrário que se passa: de tal modo a morte é problema, o problema para o qual uma sociedade que se julga omnipotente não tem solução que só resta a solução de ignorá-la, ocultá-la, reprimi-la. Aquilo que provoca dor infinda e para que não há solução é recalcado.
Mas, quando uma sociedade precisa de afastar a morte do seu horizonte, temos aí um sinal de desumanização e alienação. Paradoxalmente, essa sociedade torna-se mortífera, tanatocrática e tanatolátrica. Pode perguntar-se: ao contrário das aparências, não revelará a ocultação da morte precisamente um medo-pânico da morte que se pretende exorcizar? Viktor Frankl mostrou que “a angústia  perante o vazio existencial e a neurose noógena de sentido estão às portas de quem por medo foge ao medo.” O homem das nossas sociedades possui ingência de meios e bens materiais, mas vive no deserto de fins autenticamente humanos e de sentido que preencha a existência. Sofre por falta de orientação existencial, tendo, por isso, medo dos aspectos negativos da existência. As sociedades da opulência actuais satisfazem necessidades materiais, ma não a vontade essencial, constitutiva, de sentido.
Preso do prazer imediato, o homem actual perdeu o sentido da totalidade, pelo qual o confronto com a morte inevitavelmente pergunta. A consciência da inevitabilidade de morrer abala na sua raiz a existência enquanto totalidade, convocando o ser humano para a pergunta absoluta, que não é mera curiosidade: Quem sou eu? Que será de mim? Qual o sentido da minha vida e da História? O que é que, em última análise, habita no seu núcleo?
Sem a consciência da morte, haveria filosofia, religião e exigência ética? Com a ocultação da morte, o ser humano pretende viver na ignorância do futuro, e perde o seu ser. Então é fácil a ética dissolver-se no simples utilitarismo e hedonismo. Já Ortega e Gasset se queixava: “Esta é a questão: a Europa ficou sem moral”. De facto, é confrontados com a morte que somos colocados perante a urgência da decisão, a unicidade, dramaticidade, densidade e responsabilidade irrevogável da vida e a questão do sentido total da existência. Pela antecipação da morte, a vida é-nos dada como totalidade e no seu carácter de definitividade e ultimidade, numa só vida e com uma só morte, ambas irrepetíveis. Sem essa antecipação, o homem fica na situação do animal, para o qual tudo se passa em “aquis” e agoras” sucessivos, sem possibilidade de totalização, e, portanto, regido exclusivamente pelos impulsos de prazer e desprazer imediatos.
Perante a angústia da morte, o homem actual remeteu-se para a morte neutra e abstracta, como estratégia para continuar a viver na vulgaridade, na dispersão banalizante e na banalização dispersante, na existência inautêntica, para cuja ameaça nos alertaram os filósofos Martin Heidegger e Sören Kierkegaard. Por isso, é urgente reconquistar a sabedoria da meditação da morte, para que a existência readquira autenticidade, porque é a morte que faz a triagem entre o que verdadeiramente vale e o que realmente não vale, entre o decisivo e o banal, entre superficialidade e liberdade que liberta, entre ter e ser, entre o que verdadeiramente quero e o que é mera ilusão. Na antecipação da morte, capto o valor único da pessoa, que vale mais do que todas as coisas: as coisas são meios, só a pessoa é fim, insubstituível. Assim, o pensamento da morte impõe-se, não como veneno para a vida, mas como antídoto contra a vulgaridade vaidosa e vazia da existência inautêntica.
É verdade que a consciência da necessidade de morrer me pode atirar para o abismo da dissolução nos prazeres imediatos: “Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos”. Muitas vezes também, o poder devastador da morte serviu satanicamente de instância fundadora de poderes totalitários, tanto na ordem temporal como espiritual. Mas é igualmente verdade que, na antecipação de todos os rostos mortos, se encontra talvez o único lugar autêntico da compaixão, da paz e da fraternidade, que, entretanto, se torna imperativo construir, evitando a catástrofe: Somos mortais: logo, somos irmãos, como viu até Herbert Marcuse, que, dois dias antes da sua morte, já no hospital, confessou a Jürgen Habermas: “Vês? Agora sei em que é que se fundamentam os nossos juízos de valor mais elementares: na compaixão, no nosso sentimento pela dor dos outros”.
Padre e professor de Filosofia
in DN 27.10.2018


21 outubro 2018

DE PORTUGAL PARA O MUNDO Balanço do Colóquio Rastos Dominicanos (1)

     
P / INFO: DE PORTUGAL PARA O MUNDO, Balanço do Colóquio Rastos Dominicanos (1), Francisco em Pequim?, crónicas de Frei Bento Domingues e Padre Anselmo Borges

DE PORTUGAL PARA O MUNDO
Balanço do Colóquio Rastos Dominicanos (1)
Frei Bento Domingues, O.P.

1. Não foram poucas as pessoas que quiseram saber por que razão não tinha publicado a crónica no passado Domingo. Vou explicar, mas começando mais atrás. Continuam a perguntar-me porque acrescento, à minha assinatura, OP. É uma longa história. Podia dizer simplesmente, dominicano pois pertenço a uma Ordem religiosa, fundada no seculo XIII, em França, por S. Domingos de Gusmão. Ele, porém, não queria fundar dominicanos, mas uma Ordem de Irmãos cuja missão, na Igreja, seria a pregação que a primeira Ordem dos Pregadores – a dos Bispos – tinha abandonado. Domingos não pretendia que o reproduzissem, mas que inventassem, em todos os tempos e lugares, os modos de partilhar a palavra do Evangelho da alegria. Os membros da Ordem não vivem para reproduzir a fisionomia do seu Fundador, mas para assumir o rosto das urgências da evangelização, em cada época. Não foi por acaso que o célebre pintor Matisse o apresentou sem a figuração do rosto.
Esta missão exigiu, desde o começo, o casamento do estudo com o anúncio e a reinterpretação contínua do Evangelho. Dessa ligação nasceu a teologia em diálogo com a cultura, elaborada de forma exemplar por Santo Alberto Magno e S. Tomás de Aquino. Da mesma raiz brotou a mística do infinito desassossego do Mestre Eckhart e o ardor da reforma da Igreja, com Santa Catarina de Sena. Da pregação incarnada no tempo e lugar irrompeu uma das páginas mais belas da história da humanidade com o Sermão de António de Montesinos. O seu grito contra a exploração dos índios transformou-se numa aliança de investigações e intervenção contínua entre Bartolomeu de Las Casas, a Escola de Salamanca representada por Francisco de Vitória: por direito natural, os índios são os verdadeiros senhores das suas terras e das suas riquezas. A nenhum título, nem o Papa nem o Rei de Espanha os podem privar desse direito![i]
Não se julgue que essa efervescência filosófica e teológica esquecia a cristologia narrativa do povo iletrado: a distribuição das cenas evangélicas, pelos mistérios do Rosário, alimentou o povo católico por todos os continentes. Em nome da liberdade - uma Igreja livre num Estado livre - Henri Lacordaire, nos finais do século XIX, restaurou a Ordem dos Pregadores, em França. A sua lucidez teve uma fecundidade espantosa, no século XX, preparando, numa história atribulada e criativa, muitas das inovações do Vaticano II.
2. Esta rápida evocação atraiçoa a complexidade de uma longa história. Passados 800 anos e com presença em todo o mundo, a Ordem dos Pregadores, autorizada por Inocêncio III, em 1215, confirmada por Honório III, em 22 de Dezembro de 1216 e reforçada pela bula Gratiarum omnium, de 21 de Janeiro de 1217, sentiu a necessidade de fazer um balanço histórico, de tão longo percurso, feito de fidelidades e traições ao seu projecto.
Esta Ordem terá chegado a Portugal entre os anos de 1220 e 1222. Frei Luís de Sousa antecipa a presença dos primeiros pregadores em Portugal para 1217, associando-a à figura de Frei Soeiro Gomes e ao Convento de Montejunto.
Em 2016, para o estudo desses 800 anos dominicanos, uma Comissão constituída por elementos do Instituto S. Tomás de Aquino (ISTA) e do Centro de Estudos de História Religiosa (CEHR) desenvolveu em três lugares, três Jornadas com três temas de fundo: História, Memória, Património; Discursos, Teologia, Espiritualidade; Espaços, Homens, Percursos[ii].
3. Na passada semana, de 09 a 11, realizou-se, no Palácio Fronteira e no Convento de S. Domingos, outro Colóquio muito original: Rastos Dominicanos. De Portugal para o Mundo. 600 anos da Província Portuguesa, com vinte e seis conferências e uma visita guiada ao Convento de S. Domingos de Benfica e à actual Igreja de Nossa Senhora do Rosário.
Eu não podia perder esta ocasião para me aproximar do mundo imenso que desconhecia.
No final, Cristina Costa Gomes, em nome do ISTA e do CEHR, fez o balanço sintético deste espantoso colóquio. Remeteu-nos, em primeiro lugar, para a sua dimensão, não só em termos de número de conferências, mas principalmente da multiplicidade de áreas temáticas abrangidas, desde a História, à Arte, à Literatura, à Espiritualidade, à Teologia, à Pedagogia e Didáctica até à Missionação e Semiótica/Textualidade.
Os conferencistas vieram de diferentes universidades do país (Lisboa, Coimbra, Porto, Évora, Minho) e de diferentes centros de investigação e academias. Trouxeram abordagens distintas, linhas de investigação recentes e em aberto, com dados inéditos e novas problemáticas.
Podemos destacar como grandes linhas temáticas do Colóquio: os Dominicanos e as fundações Dominicanas femininas durante a Idade Média; os Dominicanos no período Moderno: espiritualidade e poesia feminina e grandes vultos dominicanos da Cultura Portuguesa do Renascimento, nomeadamente Frei Fernando de Oliveira, Frei Jorge de Santiago, Frei Luís de Sottomaior e Frei Bartolomeu Ferreira; a missionação Dominicana na África do Sudeste e na Ásia. Neste campo, em particular, questionou-se a importância dos percursos pessoais de Frei João dos Santos, Frei Gaspar da Cruz, Frei Silvestre de Azevedo e Frei Miguel de Bulhões e Sousa.
A arte acrescentou-se a estes tópicos com abordagens inéditas e propostas de diálogo entre a pintura, a arquitectura e a escultura. Desde as pinturas de Luís de Morales, às fachadas das Casas Dominicanas, no contexto da arquitectura quinhentista e seiscentista, problematizou-se a articulação entre a arte e a espiritualidade coeva.
Temas contemporâneos permitiram-nos viajar por questões como a pedagogia de Teresa de Saldanha, a edição da Revista Concillium (1965-1966) e a participação dos Dominicanos Fr. Mateus Peres, Fr. Raimundo de Oliveira e Fr. Bento Domingues nesta publicação, assim como a missionação dominicana no Brasil e experiências missionárias em Moçambique e no Peru.
Estes dias de trabalho levantaram novas problemáticas sobre o que falta fazer e que não cabem nesta crónica. Terei de voltar a esse desafio.
in Público 21 Outubro 2018
https://www.publico.pt/2018/10/21/sociedade/opiniao/de-portugal-para-o-mundo-balanco-do-coloquio-rastos-dominicanos-1-1847960


[i] António de Montesinos, O.P.; Bartolomeu de las Casas, O.P.; Francisco de Vitória, O.P., E estes não serão homens?, Ed. Tenacitas, Coimbra, 2014
[ii] António Camões Gouveia, José Nunes, OP, Paulo F. de Oliveira Fontes (Coord.), Os Dominicanos em Portugal (1216-2016), CEHR da UCP, Lisboa 2018; Actas do Colóquio (Porto, Outubro 2012), A Restauração da Província Dominicana em Portugal. Memória e Desafios, Tenacitas, Coimbra 2012.

● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●
Francisco em Pequim?
Anselmo Borges*

1. A perseguição aos cristãos foi particularmente feroz durante a Revolução Cultural no tempo de Mao. Mas a situação está a mudar de modo rápido e surpreendente. Desde 1976, com a morte de Mao, as igrejas começaram a reabrir e há quem pense que a China poderá tornar-se mais rapidamente do que se julgava não só a primeira potência económica mundial mas também o país com maior número de cristãos. “Segundo os meus cálculos, a China está destinada a tornar-se muito rapidamente o maior país cristão do mundo”, disse Fenggang Yang, professor na Universidade de Purdue (Indiana, Estados Unidos) e autor do livro Religion in China. Survival and Revival under Communist Rule (Religião na China. Sobrevivência e Renascimento sob o Regime Comunista). Isso “vai acontecer em menos de uma geração. Não há muitas pessoas preparadas para esta mudança assombrosa”.
Cresce sobretudo a comunidade protestante. De facto, a China tinha apenas um milhão de protestantes. Em 2010, já tinha mais  de 58 milhões. Segundo Yang, esse número aumentará para cerca de 160 milhões em 2025, o que faria com que a China ficasse à frente dos Estados Unidos. Em 2030, a população cristã total da China, incluindo os católicos, superará os 247 milhões, acima do México, Brasil e Estados Unidos. “Mao pensava que poderia acabar com a religião. E julgava ter conseguido”, diz Yang. “É irónico pensar que o que fizeram foi fracassar completamente.”
A situação parece preocupar as autoridades chinesas, que, por outro lado, não quererão 70 milhões de cristãos como inimigos.
2. Os católicos serão uns 12 milhões. Desde 1951 que a China não tem relações diplomáticas com o Vaticano. Mas o Governo chinês felicitou Bergoglio a seguir à sua eleição como novo Papa e exprimiu o desejo de que, sob o pontificado de Francisco, o Vaticano “elimine os obstáculos”, para uma aproximação. Francisco declarou por várias vezes não só o seu apreço pelo povo chinês como o seu desejo de visitar Pequim. Por exemplo, disse aos jornalistas: “Estamos próximos da China. Enviei uma carta ao Presidente Xi Jinping quando foi eleito, três dias depois de mim. E ele respondeu-me. Há contactos. É um grande povo do qual gosto muito.” E que está à espera de um sinal para uma visita.
O que é facto é que, aquando das viagens de Francisco à Ásia, a China, pela primeira vez, abriu o espaço aéreo para que um Papa pudesse sobrevoá-la. Não se pode esquecer que Francisco é jesuíta e que o jesuíta Matteo Ricci, cujos conhecimentos científicos deixaram o imperador deslumbrado, juntamente com Marco Polo são os dois estrangeiros recordados por Pequim entre os grandes vultos da China. Aliás, a inculturação do cristianismo na cultura e religião chinesas poderia ter-se dado nos séculos XVI-XVII, por influência precisamente do génio de Ricci, não fora a cegueira do Vaticano, que interveio desgraçadamente, impedindo essa síntese entre o Evangelho e a cultura milenar chinesa.
3. Francisco é um jesuíta da estirpe de Ricci, que admira: o processo da sua beatificação avança e a frase “venho dos confins do mundo” será citação de Ricci, que dizia ter passado a vida nos “confins do mundo”. Francisco é também considerado um “animal político”, que sabe de geoestratégia, acompanhado pelo secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin, um diplomata de primeira água, como disse o Papa, no regresso da sua viagem aos países bálticos, respondendo às perguntas dos jornalistas sobre o acordo assinado dias antes entre o Vaticano e Pequim: “o Secretário de Estado que é um homem muito devoto, o cardeal Parolin, que tem também uma especial devoção pela observação. Estuda todos os documentos, até nos pontos, nas vírgulas e acentos. Isto dá-me uma segurança muito grande.” Foi um acordo que durou anos de negociações e é sabido que, acrescentou o Papa, “quando se faz um acordo de paz ou uma negociação, as duas partes perdem alguma coisa. Esta é a lei. As duas partes, e continua-se. E isto continuou. Dois passos para a frente, um para trás, dois para a frente, um para trás. Depois, passaram meses sem falarmos e depois chegou o tempo de falar, à maneira do tempo  chinês, lentamente. Esta é a sabedoria, a sabedoria dos chineses.” Não houve improvisação, mas um caminho que durou a percorrer “mais de dez anos”.
Francisco fez questão de sublinhar que assumiu a total responsabilidade pelo que se passou: “Fui eu que assinei o acordo.” Em que consiste esse acordo de 22 de Setembro passado? Antes, havia a Igreja Patriótica, com bispos nomeados pelo Governo, e a Igreja clandestina, com bispos nomeados e fiéis ao Papa. Agora, “há um diálogo sobre eventuais candidatos. A coisa faz-se em diálogo, mas quem nomeia é Roma, o Papa. Isto é claro.” Há uma consulta entre os fiéis para o candidato a bispo, o  Governo aprova, mas o Papa tem o direito de veto, havendo neste caso a necessidade de encontrar outro candidato.
Sucede, pois, que o Papa reconheceu sete bispos da Igreja Patriótica, que ficaram, em igualdade com os outros, em comunhão com o Papa. É compreensível que alguns bispos e muitos católicos que foram perseguidos e tiveram de viver na clandestinidade se tenham sentido um pouco traídos e sofram. Para esses Francisco teve também uma palavra: “Penso na resistência, nos católicos que sofreram. É certo, e sofrerão, Num acordo, há sempre sofrimento, mas eles têm uma fé grande, e escrevem, fazem chegar mensagens. Sim, a fé martirial desta gente avança. São grandes.” E, numa alusão a Viganó, que o acusou na célebre carta bem conhecida, Francisco contou: “Quando saiu aquele famoso comunicado de um ex-núncio, os episcopados do mundo inteiro escreveram-me, dizendo de modo claro que se sentiam próximos, que rezavam por mim... Os fiéis chineses também escreveram e a assinatura desse escrito era do bispo, digamos, da Igreja tradicional católica e do bispo da Igreja Patriótica, os dois juntos e os fiéis juntos com eles. Para mim foi um sinal de Deus. Rezamos pelos sofrimentos de alguns que não entendem ou que têm às suas costas muitos anos de clandestinidade.”
O primeiro resultado visível deste acordo provisório é a presença no Sínodo dos Bispos sobre os  jovens, a decorrer em Roma, de dois bispos da República Popular da China: um da Igreja tradicional e outro da Igreja Patriótica. Na Missa de abertura do Sínodo, ao referir os seus nomes, um nomeado por Bento XVI e outro que pertencia à Igreja Patriótica, Francisco comoveu-se: “Hoje, pela primeira vez, estão também aqui connosco dois irmãos bispos da China continental. Demos-lhes as nossas afectuosas boas vindas: graças à sua presença, a comunhão de todo o episcopado com o Sucessor de Pedro é ainda mais visível.”
4. Poderia Francisco culminar o seu pontificado com uma visita à China? No quadro da reconfiguração geoestratégica daquela região — pense-se nos encontros entre o Presidente Donald Trump e o Presidente Kim Jong-un, no convite deste ao Papa para uma viagem à Coreia do Norte, nas próximas viagens de Kim a Seul e a Moscovo, na visita próxima do Presidente da China, Xi Jinping a Pyongyang... — e da importância deste acordo sobre um tema que era a principal razão de conflito entre Pequim e o Vaticano, não se pode excluir essa possibilidade ou até, diz-se, probabilidade.
Mas haverá ainda outro longo caminho a percorrer. O bispo de Hong Kong, Michael Yeung, apoiou — “Eu disse: Santo Padre, avance, não tenha medo, mas seja cauteloso” — e apoia este acordo com a China, mas adverte: “Não creio que a assinatura deste acordo provisório signifique a solução de tudo. É preciso tempo, um par de anos, para ver.” Acrescentou que “um acordo provisório não poderia ter parado a opressão” dos católicos chineses por parte do regime comunista nem tão-pouco “ter evitado que as igrejas sejam destruídas” ou que “os jovens sejam proibidos de ir à Missa”. “Estas coisas exigirão tempo para serem resolvidas”. De qualquer forma, pede que daqui em diante o Vaticano vele especialmente por duas coisas: os clérigos “clandestinos” encarcerados por Pequim e a liberdade religiosa.
Uma questão maior. Como é sabido, para o estabelecimento de relações diplomáticas, a República Popular da China pressiona todos os Estados para que cortem relações com Taiwan. Ora, a Santa Sé continua a reconhecer Taiwan e o Vaticano é mesmo o único aliado que Taiwan tem na Europa. John Hung Shan-chuan, arcebispo de Taipé, declarou em relação ao acordo: “Estamos felizes pelo progresso das relações, fomos informados antes”, e acrescentou: “O que vemos é que pela primeira vez o partido comunista está a abanar. Eles dizem que não querem que poderes estrangeiros se metam no seu país, mas desta vez permitiram-no. E isso é um bom sinal, embora não saibamos quais serão as consequências no futuro. Mas não estamos preocupados, porque o Papa disse-nos que não nos ia abandonar nem prejudicar Taiwan. Pedimos-lhe isso e sabemos que como bom pastor não nos vai abandonar”.
Neste enquadramento, a Presidente de Taiwan convidou oficialmente o Papa a visitar a ilha, que tem 300.000 católicos, aproximadamente 1, 5% da população. E os dois bispos chineses que estiveram no Sínodo — foi a primeira vez — convidaram o Papa a visitar o seu país, a República Popular da China. Para que a visita se concretize, será necessário um convite formal de Pequim.
Imediatamente a seguir, neste passado dia 18, o Papa Francisco recebeu, como previsto e como escrevi aqui na semana passada, o Presidente sul-coreano, Moon Jae-in, que lhe transmitiu oralmente, a pedido de Kim Jong-un, o convite para visitar a Coreia do Norte.  Depois do encontro, o porta-voz presidencial sul-coreano, Yoon Young-chan, declarou que “o Papa disse: ‘Darei uma resposta incondicional, se me chegar um convite oficial e puder ir’”. Já em relação ao convite para visitar Taiwan, o porta-voz do Vaticano, Greg Burke, confirmou, no mesmo dia, o convite, mas “posso afirmar que essa visita do Santo Padre não está a ser estudada”, disse.
Questões da diplomacia, imensas e complexas.
*Padre e professor de Filosofia
in DN 20.10.2018
www.dn.pt/edicao-do-dia/20-out-2018/interior/francisco-em-pequim-10032319.html?target=conteudo_fechado