17 junho 2018

CRISTO NÃO DESEMPREGOU OS SANTOS (1)

     
1. Não tenho muito apego às definições de religião. Uso essa palavra para significar, na tradição latina, a redobrada atenção às diversas dimensões do devir misterioso do ser humano que escapam à linguagem unívoca da ciência e da técnica. Exprime-se melhor na linguagem metafórica. Como escreveu Ésquilo, em Agamémnon, «Sufocando no galinheiro da razão, dediquei-me a defender a causa dos sonhos».
Na história das religiões existe de tudo, do melhor e do pior. A religião dos místicos, mesmo quando louca, é a suprema sabedoria. O místico não é capaz de parar, de fixar um limite, de se tornar idolátrico, pois, como diz o muçulmano, E. Hallaj, do século X: «Vi o meu Senhor com o olhar do coração,/ e disse-lhe: “Quem és tu?” Ele disse-me: “Tu!”/ Mas para Ti, o “onde” já não tem lugar,/ o “onde” não existe quando se trata de Ti!». A religião de Jesus não cabe em nenhuma classificação conhecida.
No domingo passado, S. Marcos apresentava Jesus como o doido da família e possesso de Belzebu. Neste, Jesus surge, na versão do mesmo evangelista[i], como um pregador surrealista. Jesus queria ser entendido ou não? A sua palavra era só para agitar o vento? Pela referência que faz ao profeta Isaías[ii], até parece que só queria baralhar os seus ouvintes: vendo, vejam e não percebam; ouvindo, ouçam e não entendam para que não se convertam e não sejam perdoados.
A citação recorre a um pregador cujos lábios foram purificados por um anjo, um serafim, com uma brasa viva.
Ouviu, então, a voz do Senhor que dizia: Quem enviarei? Quem será o nosso mensageiro? Ele respondeu: Eis-me aqui, envia-me. E foi enviado: Vai e diz ao meu povo: ouvi, tornai a ouvir, mas não compreendereis. Vede, tornai a ver, mas não percebereis. Endurece o coração deste povo, ensurdece-lhe os ouvidos, fecha-lhe os olhos. Que os seus olhos não vejam, que os seus ouvidos não ouçam, que o seu coração não entenda, que não se converta e Eu o cure.
S. Marcos começa pela muito conhecida parábola da sementeira para falar do misterioso Reino de Deus. Esta não apresenta nenhuma dificuldade especial, mas os discípulos ficaram sem perceber nada.
Jesus fica espantado com discípulos tão pouco dotados: Se não compreendeis esta parábola, como podereis entender todas as outras?
Mais uma vez, teve paciência e explicou tudo muito bem. O narrador sublinha que a maior dificuldade em acolher a palavra do Reino é o mundanismo, a sedução das riquezas e outras ambições. Quando encontra bons ouvidos, os frutos são de 30, de 60 e até de 100%.
A parábola seguinte contradiz o começo: quem traz uma lâmpada acesa é para a esconder? Mas não será esse o defeito das parábolas em relação ao discurso directo?
Não há nada a ocultar. Quer tudo na luz do dia. Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça. Mas cuidado com o que ouvis. Com a medida que medirdes sereis medidos e até vos será acrescentado mais. E regressa ao paradoxo escandaloso: ao que tem, será dado e ao que não tem, mesmo o que tem, lhe será tirado.
De repente, muda de registo. O crescimento do Reino de Deus não é fruto do esforço humano: o semeador lançou a semente à terra e foi dormir e, depois, quando o fruto está no ponto, vai colher. Também não há que desesperar com a lentidão do crescimento da comunidade. Os começos nem sempre são gloriosos e vem a parábola do grão de mostarda, pequena semente que chega a ter grandes ramos, onde as aves do céu se abrigam à sua sombra.
No final do capítulo, volta a insistir que Jesus anunciava-lhes a palavra por meio de muitas parábolas como estas, conforme podiam entender e nada lhes falava a não ser em parábolas. Remata, dizendo que as explicações eram assunto privado para os discípulos. O narrador deixa-nos sem podermos concluir se Jesus falava para ser entendido ou não.
2. A pergunta fundamental, perante esta paixão pela linguagem parabólica, talvez seja esta: porque não fez Jesus um catecismo, bem explicadinho, com perguntas e respostas bem definidas, para não deixar os seus seguidores continuamente sem saber bem o que pensar, o que está certo e o que está errado? Se, assim, tivesse feito, dispensava as dificuldades da exegese histórico-crítica e as múltiplas abordagens reconhecidas pela Comissão Pontifícia Bíblica[iii]. Teria dispensado séculos e séculos de escolas teológicas, de heresias e de conflitos.
A linguagem universal é a da ciência e da técnica, incompatível com emoções e estados de alma. Jesus poderia ter feito uma ciência exacta da verdadeira religião e tinha, como fruto, um sossego eterno. Donde lhe veio a mania das parábolas e de falar só em parábolas?
Esquecemos que Jesus era e é um ser humano nascido e educado dentro de uma cultura e de uma religião que, hoje, é possível identificar. Jesus não sabia todas as línguas, não conhecia todas as religiões e nunca procurou impor apenas uma versão do valor divino do humano e do valor humano do divino. Não escreveu um livro inspirado que tivesse o condão de substituir todos os livros de sabedoria religiosa. A falar verdade, nem sequer temos o que Jesus escreveu na areia. Os seus gestos e palavras foram contados por outros. São eles a grande obra de Jesus de Nazaré. Tudo no tempo, tudo efémero. Ninguém fez o filme do que aconteceu.
As parábolas permitem resistir ao tempo pela necessidade de serem sempre lidas e interpretadas sem sentido pré fixado.
3. As comunidades cristãs, boas, más e assim-assim, são as únicas relíquias de Jesus Cristo e não estão todas em Jerusalém. Não o substituem. Os santos, aqueles que, sabendo ou não, o anteciparam e o seguiram não estão arquivados no céu nem se devem confundir com as suas posições nos altares. Estão vivos e activos. De vez em quando, na vida dos cristãos são evocados e respondem sempre, umas vezes no sentido da pergunta, outras vezes complicando-a. Não perderam o estilo das parábolas.
Houve muita confusão em torno da “vida dos santos”. Algumas tornavam a “santidade” detestável. Eram instrumentos de desumanização de Deus e da Igreja. Outras eram auto referentes, idolátricas: Deus tinha de contar com elas ou não sabia o que fazer. Deus estava longe e mal informado das peripécias da vida humana. Os santos eram os mediadores, pontes, entre o Deus distante e a nossa condição. Ao fim e ao cabo, os cristãos entendiam-se mais com eles do que com Deus. Transportavam, para as relações entre o divino e o humano, o sistema das cunhas.
Os santos populares sabem mais de Deus e de nós do que se julga. Veremos.
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público 17. 06. 2018


[i] Mc 4, 1-34
[ii] Is 6
[iii] A interpretação da Bíblia na Igreja, Secretariado Geral do Episcopado, 1994.


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Novos cardeais para um novo papa
Padre Anselmo Borges

Francisco sabe que não é eterno e precisa de preparar a sucessão de tal modo que não haja volta atrás nas reformas que iniciou, pelo contrário, que continuem e se aprofundem, para que o Evangelho seja o que é e deve ser, por palavras e obras: notícia boa e felicitante para todos.
Tudo indica que este é o intuito da criação de novos cardeais no próximo dia 29. Então, os cardeais eleitores passarão a ser 125, dos quais 59 criados por Francisco, 46 por Bento XVI e 18 por João Paulo II. Como observa Jesús Bastante, os cardeais "franciscanos" serão quase metade dos participantes num futuro conclave, mas, dentro de um ano, uma vez que mais dez deixarão de ser eleitores, por causa da idade, a maioria será absoluta. Por outro lado, o Colégio Cardinalício é cada vez mais universal.
Entre os novos cardeais, está o amigo e antigo colega de Universidade, António Marto, bispo de Leiria-Fátima, claramente "franciscano" e favorável à reforma da Igreja: "A reforma é necessária e é para levar para a frente", diz. Uma profunda e gigantesca reforma, digo eu. Em duas vertentes, que se interpenetram: a da conversão pessoal e a institucional.
Quanto à conversão e nas palavras do novo cardeal, A. Marto, que escolheu como lema para bispo "servidor da vossa alegria": "Porque para a maioria das pessoas, a fé parece um fardo a suportar e não a alegria de viver com uma presença querida de Deus-Amor." Este é o núcleo: a fé cristã não é uma obrigação, tem de ser uma exaltação, com todas as consequências. Cada um, cada uma tem de perguntar a si mesmo, a si mesma: o Evangelho é bom para mim? E só se a resposta for positiva é que se sente e vive que a sua mensagem deve ser entregue aos outros. Cá está: uma Igreja evangélica, simples, pobre, de todos, a começar pelos mais frágeis e abandonados, não autorreferencial, mas aberta, dialogante, não museu, independente do poder... Afinal, "o que o Papa propõe é uma Igreja mais evangélica. Não propõe nada de extraordinário". O que é verdadeiramente extraordinário é o Evangelho.
Daqui decorre tudo o resto. Para a pedofilia só pode haver tolerância zero, como Francisco tem feito, com todas as consequências. Por exemplo, depois de enganado, mandou investigar o que se passou no Chile, convocou os bispos, que acabaram por apresentar a demissão em bloco, pediu perdão e está a receber as vítimas. Quanto ao Banco do Vaticano, o procedimento tem de ser exactamente o mesmo.
Se a Igreja se auto-evangelizar, seguir-se-á daí a urgência de profundíssimas reformas institucionais. Logo de entrada, um exemplo: na criação dos cardeais, está presente, nas vestes, nas insígnias, uma ostentação que em nada condiz com a simplicidade do Evangelho. No conclave para a eleição do novo papa, assistiremos à entrada para a Capela Sistina só de cardeais, todos homens, de idade, sem família, que vão escolher um deles para presidir à Igreja universal. Ora, o maior número de membros da Igreja são mulheres. Onde estão elas representadas?
A Igreja somos todos, o Povo de Deus. Mas, de facto, o que há é uma divisão em duas classes: o clero e os leigos. Assim, face ao modelo actual de uma Igreja piramidal com um papa de poderes quase ilimitados, uma Igreja "gerontocrática, masculina, clerical", com mais de 1200 milhões de membros, mas onde o poder de decisão está, em última instância, nas mãos de poucos: o Papa, os bispos e a burocracia da Cúria, o sociólogo católico Javier Elzo propõe outro modelo para a Igreja do século XXI: "Uma Igreja em rede, à maneira de um gigantesco arquipélago que cubra a face da Terra, com diferentes nós em diferentes partes do mundo, cada nó com um relativo, mas real, nível de autonomia, nós inter-relacionados entre si e, todos eles, religados a um nó central, que não centralizador, que, na actualidade, está no Vaticano. No Vaticano (ou noutras partes do planeta), todos os anos se reuniria, em Sínodo, após uma selecção o mais democrática possível, uma representação universal de bispos, sacerdotes, religiosas e religiosos, leigos de ambos os sexos, membros da Cúria, todos sob a presidência do Papa, para debater sobre a situação da Igreja no mundo e adoptar, se for o caso, as decisões pertinentes. Decisões que, em determinadas circunstâncias, obrigariam o próprio Papa." Entre as questões a debater, estarão a inculturação do Evangelho, novos ministérios, o diálogo ecuménico, o diálogo inter-religioso, os seminários e a formação dos padres, problemas de bioética, da justiça, da paz mundial, das novas tecnologias...
É urgente resolver a situação das mulheres na Igreja. Afinal, onde está no Novo Testamento a impossibilidade de elas poderem presidir à celebração da Eucaristia?; com algum humor: se valesse o argumento de que na Última Ceia Jesus só ordenou homens, dever-se-ia ir às últimas consequências: a Igreja deveria ordenar apenas homens judeus. E há a questão dos jovens: mais de metade dos jovens europeus já não acreditam em Deus... Independentemente de se saber, segundo J. Elzo, que, correspondendo também à sociedade em que vivem, "há dados comprovados que dizem que 80% (se não mais) dos sacerdotes e bispos africanos têm uma vida como qualquer outro africano", é preciso pôr termo à lei do celibato obrigatório, pois a Igreja não pode impor como lei o que Jesus entregou à liberdade. Impõe-se uma educação em todos os domínios para a autonomia e a responsabilidade, pois frequentemente o que se deu foi a infantilização das pessoas. E que as liturgias sejam belas, meu Deus, e as homilias preparadas e inteligíveis. Ter coragem para rever e actualizar na doutrina: por exemplo, quanto ao pecado original, à virgindade de Maria, à interpretação sacrificial da Eucaristia, a expressões como "desceu aos infernos", "ressurreição da carne"...
 in DN 15.06.2018
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À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves
DOMINGO XI COMUM Ano B
“O reino de Deus é como um homem
que lançou a semente à terra.”
Mc 4, 26

Do pequeno ao grande

Quase a culminar um ano escolar, Junho inicia a “colheita dos frutos”. Houve sementeira de boas sementes? Cuidaram-se as “plantas” que foram crescendo? Corresponde a colheita às expectativas? Serão muitas as “grelhas de avaliação”, talvez mais focadas nos resultados do que no trabalho e no crescimento dos alunos, mas continuará a faltar a coragem de rever modelos que não proporcionam verdadeiro crescimento integral de todos? Sim, de todos: famílias, alunos e professores; ou não será esse o objectivo da educação? Pois quando se olha apenas para os alunos não estamos a esquecer o seu espaço primário de crescimento: a casa, os pais, as famílias?
Os resultados das provas de aferição anunciados no início do mês mostravam que “a grande dificuldade dos alunos do Básico surge quando é preciso raciocinar, argumentar e relacionar conceitos” (Observador 05.06.2018). Pode a escola tentar fazer o melhor, mas aquilo que não é feito “em casa”, “de pequenino…”, com as regras básicas da educação e do valor do esforço, num amor firme, feito de carinho e exigência, de “preparação para a vida”, dificilmente se faz fora dela. E porque não é algo que se faça de um dia para o outro, que exige presença e atenção, amor e dedicação, traz consigo também algum sofrimento. Só que é o sofrimento que se pode comparar ao romper da casca que as sementes têm de fazer: sem ele, não há vida nova nem crescimento!
Toda a semente é pequena, e pequenas são as primeiras parábolas de Jesus que S. Marcos nos conta. Falam da força misteriosa das sementes, de algumas que só precisam de quem as semeie e depois colha os frutos abundantes. Na ânsia de sermos protagonistas de tudo, há sementes que nos ensinam a contemplar, a admirar, e a agradecer. Foi nossa a mão que a lançou a terra, e poderão ser nossas, ou de outros, as mãos que recolherão os frutos. Mas tudo o mais é graça, que só é possível agradecer. Podemos saber o “como” mas não saberemos responder ao “porquê”!
E como ficar indiferente à pequenez de alguns inícios que produzem resultados grandes? Apreciamos o que é grande, o que se faz notar, o que faz muito barulho, os sucessos estrondosos. É fácil esquecer a pequenez do trabalho e do silêncio, o que parece insignificante e até desprezível. E é aí que se mede a qualidade do amor e da verdade. Que é essencial a quem educa. Diz o Papa Bento XVI: “É próprio do mistério de Deus agir deste modo suave. Só pouco a pouco é que Ele constrói na grande história da humanidade a sua história. Torna-Se homem, mas de modo a poder ser ignorado pelos contemporâneos, pelas forças respeitáveis da história. Padece e morre e, como Ressuscitado, quer chegar à humanidade apenas através da fé dos seus, aos quais Se manifesta. Sem cessar, Ele bate suavemente às portas dos nossos corações e, se Lhas abrirmos, lentamente vai-nos tornando capazes de «ver».”
in Voz da Verdade 17.06.2018
www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=7383&cont_=ver2 
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In post-ISIS Christian town, heroism and paradox both abound
John L. Allen Jr.Jun 13, 2018 EDITOR

QARAQOSH, Iraq - Over the centuries, the Middle East has always been a land where expectations tend to experience especially tough collisions with reality, so it probably should be no surprise that a massive effort to rebuild the Christian village which was the epicenter of a brutal ISIS onslaught in 2014 has, at its heart, three grand paradoxes.

Qaraqosh - or, as the 96 percent of the population that’s Christian call it, “Baghdeda”, because Baghdeda is Aramaic rather than Arabic and is part of a broader push to reclaim Christian identity here - was the largest Christian community on the Nineveh Plains, a swath of land that overlaps the border between Iraq and Kurdish-controlled territory.

When ISIS began advancing on the plains in 2014, virtually every man, woman and child, some 100,000 people in all, were forced to flee to the nearby city of Erbil, where they turned the Christian enclave of Ankawa into one of the world’s largest informal IDP camps, only in this case taking refuge with the local churches.

When the jihadist forces were driven back out of the Nineveh Plains three years later, a vast mobilization called the Nineveh Plains Reconstruction Project was launched to make possible the return of the Christian residents of the area by rebuilding their homes, schools, clinics and churches.

It’s a joint effort of the Syria Catholic, Syriac Orthodox and Chaldean Catholic churches, and it’s supported by the papal foundation Aid to the Church in Need, along with major grants from sources as varied as the Hungarian government and the Knights of Columbus. Considerable headway has already been made; in Baghdeda, for instance, some 2,000 homes have already been rebuilt, and slightly over half of the town’s pre-ISIS population of 50,000 has returned.

Christian ambivalence
One paradox surrounding what’s been described as the “Marshall Plan” of the Nineveh Plains is that, sometimes, the people it’s intended to benefit can be ambivalent about whether they actually want it. At times, speaking to Christians here can seem like being trapped in a music video by The Clash in the early 1980s, since the defining question often is: “Should I Stay or Should I Go?”

It’s not that people here aren’t deeply, forever grateful for the thousand and one ways in which the Church has come to their rescue, but for every one determined that no one’s going to take away their birthright, there’s another convinced there’s little realistic hope of a stable future and they’re ready to move.

That contrast is often especially strong among the young, and it’s illustrated in Qaraqosh by Revan Habib, a young engineer, and Miriam Basim, who’s studying engineering at a university in the nearby city of Mosul.

For Habib, 28, the idea of leaving his home is almost literally unthinkable.

“I love this land. My family, the people I love are all here,” he said, speaking at the local headquarters of the reconstruction project that he serves as an engineer, making assessments of proposed projects and helping to generate cost estimates.

Habib exudes strong conviction in saying that not only must Baghdeda be rebuilt, but that it will be: “We’re saying to everyone that our people will stay here,” he told me. “We’re not leaving this land.”

Yet Basim, 21, has precisely the opposite instinct.

Basim happened to be living at school in Kikurk when the ISIS surge began, and at one point found herself hiding under her bed along with dormmates as the sound of fighting drew alarmingly close. She and her parents now have returned to Qaraqosh after taking refuge in Erbil, and they’re among the fortunate ones whose homes needed only light repairs.

On Tuesday, she ticked off her requirements for what it would take to convince her to stick around after she finishes her studies: 1) employment, meaning good jobs; 2) security, meaning a long-term absence of violence; and 3) infrastructure, meaning decent roads, schools, shops, and so on.

When asked if she thinks the odds of getting all that are strong enough she’s willing to take a shot, she hesitates, and then finally concedes she wants to go to the United States or Australia.

“I think it’s better there,” she says.

These two reactions may initially seem logical opposites, but it’s important to remember that the fight or flight instincts are both rooted in the same experience of a perceived threat. A related paradox about reclaiming the Nineveh Plains for Christianity, therefore, is that radically different conclusions about its prospects reflect the exact same deep trauma that all Christians here have suffered.

The Mayor of Qaraqosh
At one point late on Tuesday morning, I found myself sitting in a conference room of project headquarters listening to Father Georges Jahola, a Syriac Catholic priest, deliver an overview of work accomplished and future plans.

Earlier, Jahola had shown us around his parish at the Church of Behnam and Sara, one of the churches most heavily damaged by ISIS. Among other things, he pointed out graffiti the occupiers had left behind, including “ISIS will remain forever according to the prophecy” and, inevitably, “Allahu Akbar.”

I’d experienced some of his star power in the region that morning, when along the road from Erbil to Qaraqosh we breezed through checkpoints manned by both Kurds and Iraqis who waved us through the moment they saw him at the wheel without any questions asked.

As I watched Jahola explaining a vast aerial photo of Baghdeda on the wall, then display housing recording, zoning materials, construction bills, and other mountains of documentation pertaining to the effort, a question stirred in me.

“Does this town have a mayor?” I asked.

Surprised, he had to wait for the question to be translated, and assured me that yes, not only is there a mayor, but they have very cordial relations.

The obvious follow-up was, “What does that guy do?”


In fact, there was no accurate map, no accounting for where people lived, no sense of what the total damage caused by ISIS was and what it would cost to rebuild, and certainly no plans to do so, until Jahola began working on it in 2017. (In fairness, I was told the civil mayor does attend a lot of ceremonial functions, many to mark the opening or completion of construction projects sponsored by the Church.)

Hence the second paradox of the Nineveh Plains Reconstruction Project: Although people here routinely complain that the central government ignores them, it’s sort of hard to know what would be left for government officials to do even if they got serious about it, other than perhaps starting at least to pay some of the bills.

Over a long conversation at project headquarters, Jahola acknowledged there had been some criticism at the beginning from Christians who wondered if it was really safe enough to go back, especially after a Kurdish independence referendum in September once again raised fears of renewed conflict.

“What they were saying was, ‘Safety first, then reconstruction’,” Jahola said. “But I told them it has to be the other way around: Once we rebuild, then we’ll be safe. If you go back as an individual, you’re weak. If we go back as a neighborhood, we’re strong.”

“Security doesn’t just come from the government or the army,” he said. “It also comes from us.”

Jahola was joined by Faraj Issa Yaqoob, the senior engineer on the work being done in Qaraqosh. Both take pains to explain the rigid controls used at every step along the way, ensuring that the people asking for money actually live in the houses they claim and intend to remain (should they leave, they have to either give the house to another exiled family or pay back the funds); that the work being invoiced was actually performed, and that it’s up to standards; and that people really do stay.

Among other things, rather than involving contractors in the process, the project only disburses funds to the homeowners themselves, and they’re responsible for getting the work done for the amount allotted. (The most chronic complaint after things are done, some of Jahola’s staff say, is naturally from people who think they didn’t get enough money.)

Both Jahola and Yaqoob were born in Qaraqosh, both have lived there their entire lives, and both exude an iron conviction that the place will be Christian forever.

“This place belongs to the Christians,” Yaqoob says simply. “They’re trying to take it, but we’ll fight them.”

Will it last?
At least for most Westerners, it would be hard to imagine spending vast amounts of time and energy, and at least some money - though staggeringly little by developed world standards - on building thousands of homes, in effect rebuilding entire towns, without any confidence those homes will last.



Yet that’s the story here.

When I asked several young engineers, including Revan Habib, if they were sure they’d see this work through to the end, all expressed vigorous conviction that they’ll get it done. Yet when I asked the same talented, idealistic, and incredibly dedicated young people if they’re sure those houses will still be standing five years from now, all offered some version of “how could we know?”

“It’s not up to us,” he said. “It depends on others … it depends on America, on Europe, on Iran, on so many.”

In other words, there’s a deep conviction here that the future is not truly in their hands, and whether peace and prosperity will ever arrive depends on the judgments of forces they can’t control.

As we finished speaking, I snuck outside for a quick smoke break, and several of the young men soon joined me. They began peppering me with questions: “Do you think peace will come to Iraq?” “What are the Americans going to do?” Most plaintively of all, perhaps, was, “Do you think we’re safe here?”

Jahola seemed a bit a more sanguine. He too believes there’s a long-term regional contest being played out in his corner of Iraq, asserting that Iran has a clear strategy to bolster the Shiite presence here and to suppress the Christian community. For the time being, however, he doesn’t believe ISIS is coming back because, for now, he says, “the game is finished.”

The final paradox, then, is that the heart and soul of this reconstruction effort, supported by groups such as Aid to the Church in Need and the Knights of Columbus, is formed by people deeply worried that all their efforts over time could once again go up in smoke.

They’ll do it anyway, they say, because they’re fighting for something that justifies the risk.

Yet even their leader, spiritual father and unelected mayor, Jahola, has his own way of hedging his bets. At one stage we were getting out of a car, and I asked if he really believes the other fifty percent of the population of Qaraqosh/Baghdeda that hasn’t yet returned will eventually do so.

Jahola took off his sunglasses, paused, and then flashed a smile: Inshallah, he said, a very Middle Eastern way of saying you really shouldn’t be overly confident about anything.

in CRUX 13.06.2018

cruxnow.com/crux-nineveh/2018/06/13/in-post-isis-christian-town-heroism-and-paradox-both-abound/



11 junho 2018

O doido da família, por Frei Bento Domingues, Público 10.06.2018

O doido da família
Frei Bento Domingues
Público 10.06.2018

O que se pede hoje aos discípulos de Jesus é que tenham suficiente loucura para não se acomodarem à lógica dos donos deste mundo.

1. A Catalunha continua a ser notícia por vários motivos, sobretudo por razões de ordem política. Os meios de comunicação portugueses não foram excepção, mas esqueceram a grande homenagem à figura marcante da cultura catalã actual e de significação universal.
A Generalitat de Catalunya i l'Ajuntament de Barcelona estão a celebrar, em 2018, o Ano de Raimon Panikkar (1918-2010), centenário de um sábio do nosso tempo [1]. Filho de pai indiano e hindu e de mãe catalã católica romana, nasceu em Barcelona, viveu na Índia e morreu rodeado da beleza em Tavertet.
Era padre, cientista, filósofo, teólogo e místico. Sem deixar de ser católico integrou, na sua identidade, vários elementos de outras crenças religiosas. Como diz Ignasi Moreta, editor das suas Obras Completas, das quais já saíram dez volumes, "era uma ponte entre o Oriente e o Ocidente, entre as Letras e as Ciências, entre as expressões do Cristianismo, do Induísmo, do Budismo e do Pensamento Secular".
Esta forma de viver, pensar e escrever evoca Ramon Llull (1232-1315), o escritor, filósofo, poeta, missionário, teólogo, o símbolo cultural da Catalunha. Nascido em Palma de Maiorca, na encruzilhada de três culturas – cristã, islâmica e judia –, foi o criador da língua catalã literária, mas também se exprimia, com elegância, em castelhano, latim, árabe e Langue d’oc.
Acerca de R. Panikkar surge sempre a pergunta: mas ele era católico ou hindu? Não se pode dizer que fosse católico pela mãe e hindu pelo pai. A religião não é uma herança de ordem genética. O sincretismo religioso foi sempre mal visto, pois não parece exprimir uma identidade, mas uma confusão. Talvez sim, talvez não. Não se exigiu aos primeiros discípulos de Jesus a renúncia à condição judaica. Começaram por ser todos judeus de várias tendências. O problema nasceu quando as portas e janelas, que a prática de Jesus abriu, passaram a ser fechadas às outras tradições religiosas. Paulo de Tarso, judeu de pura cepa, não aceitou que se fizesse depender a graça de Deus, manifestada em Jesus de Nazaré, da condição judaica. A salvação não estava ligada a uma condição étnica nem religiosa. Era universal como a graça de Deus, que não faz acepção de pessoas e povos.
2. Quem abriu todos os horizontes foi Jesus de Nazaré que viajou pouco, mas sabia muito. No texto do Evangelho de hoje [2], existe uma polémica duríssima sobre esta questão. Começa com um desentendimento familiar tão profundo que até julgavam que ele estava doido. É dito textualmente: "ao verificarem o seu comportamento, os parentes saíram para o deter, pois diziam, está fora de si." Qual era a estranheza? A casa de família estava invadida por quem não era da família. A família estava sem casa.
Mais adiante, voltaremos às razões desta confusão toda. No mesmo texto, é dito que ele estava pior que doido, estava possesso de Belzebu. Era este que lhe dava poder para expulsar os demónios.
Jesus observa aos escribas que estão a ser completamente parvos, pois, se é Satanás a expulsar Satanás, é o império do diabo que se autodestrói.
Neste ponto, não é capaz de passar adiante: "tudo será perdoado aos filhos dos homens, os pecados e blasfémias que tiverem proferido, mas quem blasfemar contra o Espírito Santo nunca terá perdão, será réu de pecado para sempre." Os senhores da inteligência da vontade e da acção de Deus estavam a negar a evidência em nome da sua cegueira. Não há pior cego do que aquele que não quer ver, como mostrará mais tarde [3].

S. Marcos vai radicalizar a questão central do universalismo cristão. Jesus perturba a família que se quer fechar sobre si mesma. Os filhos de Deus não são apenas os da própria família.
Maria e os familiares vão tentar encontrar-se com Jesus para esclarecer esta situação. Diz o texto: "entretanto, chegaram a sua mãe e os seus irmãos, que ficaram fora e mandaram-no chamar. A multidão estava sentada à sua volta quando lhe disseram, a tua mãe e os teus irmãos estão lá fora à tua procura e, olhando para aqueles que estavam à sua roda, declarou: eis a minha Mãe e os meus irmãos. Quem fizer a vontade de Deus esse é meu irmão, minha irmã e minha Mãe."
Estava mesmo doido. Os limites do cristianismo não são as outras religiões ou os ateísmos, etc.. São os que não reconhecem que ser irmão é a vocação de todo o ser humano. Assim se responde aos que criticam Raimon Panikkar. O cristianismo só tem um limite: a exclusão do outro, religioso ou não.
3. Em nome do cristianismo, em nome da sua exclusiva posse da verdade, foram muitas vezes condenadas as outras religiões, pois a verdade e o erro não merecem o mesmo respeito.
Do anátema passou-se à tolerância. Não eram igualmente verdadeiras mas, para superar as guerras de religião, o melhor era suportá-las. Mal menor.
O pluralismo humano e cultural apontava para algo mais positivo. Nasceu a teologia sobre as outras religiões, baseada na pergunta: qual a significação que a diversidade religiosa pode ter no plano de Deus?
Quando as religiões eram atacadas pelos mestres da suspeita, alguns teólogos insistiram em mostrar que o cristianismo estava imune a esse negativismo, pois não era uma religião. Nesta astúcia há algum fundamento. Por fim, surge o diálogo inter-religioso como uma bênção. Se a forma de viver como humanos é o diálogo, e fora do diálogo não há salvação, as religiões devem dar o exemplo que lhes tem faltado.
Por vezes, as mesas-redondas que o devem favorecer, com a preocupação de vender o seu peixe e mostrar as virtudes da própria religião, esquecem o próprio diálogo. Este, para ser frutuoso, deve implicar em todos a respectiva autocrítica e a vontade de conversão, de reforma. Um diálogo autêntico altera os que nele intervêm. Não pode ceder à lógica dos debates partidários, preocupados em vencer o adversário. Se a lógica do diálogo inter-religioso é a escuta e a busca, é normal que os participantes possam dizer no fim: estamos melhores, podemos continuar e alargar o caminho da unidade na diferença.
O que se pede hoje aos discípulos de Jesus de Nazaré, o doido da família, é que tenham suficiente loucura para não se acomodarem à lógica dos donos deste mundo, à do carreirismo eclesiástico, à do poder das religiões e que não atraiçoem o Pai Nosso que rezam de mãos dadas na Missa. Ou será que Deus fora da Missa deixa de ter família?
[1] Raimon Panikkar. Centenari d’un savi del nostre temps, FocNou, 2018, n.º 483. Ano XLV
[2] Mc 3, 20-35
[3] Jo 9

https://www.publico.pt/2018/06/10/sociedade/opiniao/o-doido-da-familia-1833586




04 junho 2018

Church Reform Leaders Reject Labeling Ban on Women’s Ordination “Definitive”

We Are Church International (WAC-Int’l) strongly rejects Archbishop Luis Ladaria’s claim that the ban on ordaining women to the Catholic priesthood has “definitive character” and “is a truth belonging to the deposit of faith.” This teaching is outlined in Pope John Paul’s 1994 apostolic letter Ordinatio Sacerdotalis.
Ladaria, who currently heads the Congregation for the Doctrine of the Faith, and who will be elevated to the order of Cardinals in June 2018, also said that Jesus’ intent is clear, as he bestowed the sacrament of ordination on “the twelve apostles, all men, who, in turn, communicated it to other men.” Of course, Jesus never ordained anyone. If being commissioned by Jesus to preach the Gospel is what is meant by ordination, wouldn’t Mary Magdalene, told by the risen Christ to proclaim the resurrection, be a priest?
Ladaria further said that challenging this teaching “… creates serious confusion among the faithful, not only about the Sacrament of Orders as part of the divine constitution of the Church, but also about the ability of the ordinary magisterium to teach Catholic doctrine in an infallible way."
Colm Holmes, Chair of WAC-Int’s, said, “Archbishop Ladaria’s attempt to invoke Jesus to justify the continued exclusion of women from church ministry and leadership is a distortion of our faith. The claim that patriarchal structures have divine origins and that women’s second-class status is sanctioned by God is a fallacy perpetuated by the celibate male clerical class. It undermines the church’s social justice work around the globe and puts the lives of women and children at risk.”
Holmes noted, “The ordination of women is supported by majorities of Catholics in many nations, including Argentina, Brazil, France, Italy, Spain, and the US.* Catholics understand that God’s call to service and leadership transcends gender, and know that women are entirely capable of ordained ministry.”
Holmes said, “The inequality of women in the Catholic church is a matter of intense global conversation at the moment,” noting former Irish President Mary McAleese’s well-regarded recent address at the Voices of Faith convening in Rome on International Women’s Day where she said: ‘the Catholic Church has long since been a primary global carrier of the virus of misogyny. It has never sought a cure though a cure is freely available. Its name is “equality”’.
“Catholic women and the men who support them are pushing back against policies and teachings that reinforce misogyny and discrimination. Archbishop Ladaria’s ill-advised comments are another example of the hierarchy’s desperate effort to maintain its status as an all-male power block. However, as we are seeing around the world, time is up for such exclusion and injustice.”
* Univision, 2014.
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We Are Church International (WAC-I) founded in Rome in 1996, is a global coalition of national church reform groups. It is committed to the renewal of the Roman Catholic Church based on the Second Vatican Council (1962-1965) and the theological spirit developed from it.

Apostar no génio, Frei Bento Domingues, Público 03.06.2018

Apostar no génio

Frei Bento Domingues
Público 03.06.2018

Numa grande obra de arte, está inscrita uma abertura à transcendência.
1. Os dominicanos franceses, A. Couturier e P. Régamey, directores da famosa revista L’ Art Sacré (dos anos 50 do século passado), impuseram a si próprios, como critério nas escolhas dos artistas a convidar para as encomendas de novas igrejas, o de apostar no génio! Este critério deveria ser anterior às considerações de ordem confessional. Partiam da convicção de que, numa grande obra de arte, está inscrita uma abertura à transcendência. Os resultados da aplicação concreta deste critério foram admiráveis e inspiradores. O Movimento de Renovação da Arte Religiosa (MRAR) em Portugal, no século XX, foi profundamente influenciado por essas exigências [1]. A bela exposição no Convento de S. Domingos (Alto dos Moinhos) para celebrar os 800 anos da presença dominicana em Portugal (1216-2016) testemunha a importância dessa lucidez religiosa [2].

Alegra-me que o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura, tenha assumido as preocupações inscritas na metáfora do padre Alain Coutourier: apostar no génio. Já deu muitas provas dessa esclarecida visão. Agora, marcou a presença do Vaticano na Bienal de Arquitectura de Veneza, na ilha San Giorgio Maggiori, um bosque com vista para o mar, com a construção de dez capelas de dez arquitectos de vários países e continentes. Entre eles está o arquitecto português Eduardo Souto de Moura. A encomenda da Santa Sé não lhes exigia um templo cristão. Tinha apenas de ter uma mesa para pousar um livro. Isabel Salema apresentou, neste jornal, a história da encomenda das capelas e, especialmente, a realização e as convicções de Souto de Moura [3].

2. Quando se aborda a relação da Igreja com estes temas, é indispensável saber de que se fala ao usar a palavra igreja. Se pensamos apenas nas hierarquias, ficamos sem saber quais são os critérios democráticos da sua representatividade. Em princípio, todos os seus membros devem poder dizer: a igreja somos todos nós. A igreja são os seus membros e só, indirectamente, designa os templos mais ou menos belos, com ou sem paredes.
No plano da cidadania e da política, não basta dizer que a igreja é plural e cada um decide como quiser. Esta afirmação alimenta alguns equívocos. Confunde a igreja com a hierarquia e não deixa ver o que é a liberdade eclesial na construção da sociedade, seja a nível económico, político ou cultural. Em nome da liberdade cristã, não vale tudo. Esquece-se, principalmente, o confronto com a prática histórica de Jesus e com os seus equivalentes no mundo actual. Sem este confronto, vingam as respostas sempre prontas a servir, pela hierarquia, e deixa de ser o Evangelho a questionar os próprios cristãos. O cristianismo e os seus valores passam a ser, apenas, uma etiqueta para quando dá jeito.
Importa sublinhar que Jesus questionou, durante toda a sua vida pública, a religião em que foi educado e que legitimava tudo – o certo e o errado – em nome da vontade de Deus inscrita na Lei e nas Tradições ancestrais.
Jesus tinha antepassados no profetismo de Israel. Os profetas não eram adivinhos. Eram pessoas clarividentes, lúcidas, acerca do que estava a acontecer e das decisões que abriam ou fechavam o futuro. A preocupação e a ocupação deles era o presente, para tornar a população consciente do que estava a arriscar, segundo as opções que tomava. É interessante saber que essas vozes incómodas foram rareando e os escribas e doutores da lei entretinham-se em subtilezas que deixavam os que já estavam mal ainda pior, fosse em que domínio fosse, religioso ou profano. Nesse mundo, Deus era antigo, a Lei era antiga, os seus intérpretes constituíam uma antiga casta de legitimação de interesses ou de conquista de posições. João Baptista lutava por uma mudança moral, mas não alterava as antigas representações nem de Deus nem das suas leis.
Jesus foi educado num mundo em que a própria religião se tinha tornado a cadeia dos que não tinham defesa. Ele era um leigo. Não tinha frequentado nenhuma das escolas famosas da época, mas a sua experiência de Deus mostrou-lhe que nem da religião nem das leis sociais vigentes se podia esperar o Reino da alegria.
Jesus de Nazaré desfatalizou a história. Nada tem de ser como está. A juventude de Deus é a força da renovação do mundo.A sua intervenção libertadora, muito concreta na história de há 2000 anos, foi interpretada pela poética do Apocalipse, no horizonte de uma renovação total do mundo, sem data marcada: "Vi, então, um céu novo e uma nova terra... Eis que faço novas todas as coisas... Eu sou o Alfa e o Omega, o Princípio e o Fim e a quem tem sede darei gratuitamente da fonte de água viva. O vencedor receberá esta herança e eu serei o seu Deus e ele será o meu filho." [4]

3. O Papa Francisco, numa conversa com Thomas Leoncini, afirma que Deus é jovem [5]. Um amigo disse-me: é um título oportunista adaptado à publicidade, sabendo que, desde há muito tempo, se repete que Deus não é velho nem novo. Morreu, acabou e acabou também a cultura que se baseava nessa referência. É certo que a Igreja Católica tem feito um certo esforço de renovação em muitas áreas. Chegou mesmo a reunir um Concílio, em meados do século XX, para falar, de forma simpática, da Igreja no Mundo contemporâneo, Mundo esse que o Vaticano, do século XIX, tinha condenado de todas as formas e feitios.
Parece-me que esse amigo está completamente enganado pela catequese que recebeu e pelas missas que frequentou até ao dia do desengano em que tudo, na religião, lhe cheira a passado e a mofo. As imagens do Inimaginável, com que foi intoxicado pelas beatices bem-intencionadas, resultaram na sua alergia actual. Precisa de apostar no génio que é o Papa Francisco e no Deus que renova a sua juventude.

[1] João Alves da Cunha, UC Editora, 2015
[2] Os Dominicanos em Portugal (1216-2016), Coord: António Camões Gouveia, José Nunes, O.p., Paulo F. de Oliveira Fontes, UCP Lisboa, 2018
[3] PÚBLICO, 26.05.2018, pp. 32-33. Não foi por essa magnífica Capela que este arquitecto recebeu o Leão de Ouro, a distinção máxima da Bienal de Arquitectura de Veneza, mas pelo complexo turístico de São Lourenço do Barrocal, recuperação de um monte alentejano e a sua adaptação a hotel.
[4] Ap 21
[5] Planeta, 2018
https://www.publico.pt/2018/06/03/sociedade/opiniao/apostar-no-genio-1832794