23 junho 2013

Trapos e afins

     
Sabemos que tinha uma túnica sem costura que no final da sua vida foi sorteada. Recomendou que não levássemos duas, nem alforges carregados de inutilidades. Calçava sandálias como os amigos aos quais avisou que sacudissem o pó destas quando não fossem bem recebidos. E mais não sabemos…
Supomos que se vestiria como qualquer homem do seu tempo e condição de carpinteiro. De forma adequada àquele clima, às circunstâncias e à época. Provavelmente vestiu a túnica mais bonita para ir ao casamento dos amigos em Caná, pois era dia de festa. De resto não temos memória de grandes ou pequenos problemas de guarda-roupa (acaso existisse nessa altura!)
XXI séculos depois, acumulámos regras e modas diferenciadoras que se vão transformando conforme os ventos da História. Nenhuma no entanto se aproximou sequer da versão simples e prática daquele judeu palestino tão especial que marcou a humanidade mostrando que é possível viver-se de outro modo, mais fraterno e simples.
“O hábito não faz o monge” diz a sabedoria popular. É bem verdade. Não é a forma mas o conteúdo que importa. Porquê então dar tanta importância às diferentes formas de vestir “os uniformes” da estrutura, em vez de nos centrarmos sobre o que é realmente relevante?
Um dos elementos que chamou a atenção, de maneira positiva, dos meios de comunicação social após a eleição do Papa Francisco, foi a simplicidade da sua veste branca comparada com a parafernália de adereços do antecessor; desde a cadeira até à imagem do Papa, quase da cabeça aos pés, tudo se tornou mais simples. E as pessoas acharam isso simpático. É apenas forma, mas pode ser um sinal exterior de uma mudança mais funda no sentido da aproximação da vida real; a roupa é só o efeito visual!
50 Anos depois do Concílio Vaticano II, e das mudanças que dele decorreram, ainda hoje há alguma polémica sobre se os padres e freiras devem ou não usar uma forma de vestir distintiva dos demais. Das sotainas, batinas, ao “clegyman” (fato completo), do cabeção, à cruz na lapela, dos “hábitos” das ordens religiosas, etc.… No que diz respeito às modas eclesiásticas (ainda) masculinas, são expressão de umas quantas variantes do mesmo pre/conceito; que estes homens devem mostrar-se bem diferentes dos restantes, acima deles, mais próximos do divino.
Já ouvi os argumentos mais delirantes a favor de tais distinções de vestes; por exemplo, de que ficam mais protegidos do assédio feminino, ou outro de quase igual teor, se houver um acidente na rua, alguém pode logo identificar e chamar o padre para dar os últimos sacramentos ao moribundo…
Quanto às “freiras com hábito” outro argumento inconsistente é o reverso do anterior para os padres. Assim os homens na rua não se metem com elas e estão por isso mais protegidas. Outro argumento risível é de que se tirarem o hábito vestem-se tão mal que se vê logo que são freiras, e de hábito não ofendem o bom gosto! Ou ainda, toda a gente respeita o “hábito” porque no fundo sabem que elas estão a ajudar o próximo e podem andar por zonas perigosas sem ninguém lhes fazer mal.
Em resumo, podem considerar-se estes argumentos como falácias de que vestes religiosas implicam necessariamente ser-se boa pessoa e por isso mais respeitável do que o resto da humanidade.
Além disso ocultam a diferença entre usar sempre roupa distintiva e usá-la em determinadas circunstâncias quando tal é necessário. Um médico não anda no meio da rua de bata e estetoscópio ao pescoço, um padre não anda paramentado fora da cerimónia religiosa a que preside, um bombeiro, um militar veste a farda quando está de serviço.
Acontece que Jesus Cristo, ele próprio, não mandou ninguém diferenciar-se pela roupa, estatuto social ou afins, mas apenas por uma pequenina grande diferença que é constituída por gestos concretos de amor ao próximo. Para o fazer qualquer roupa serve, desde que seja adequada à circunstância!
A meu ver o exemplo de Cristo remata de forma simples e prática o debate anacrónico sobre trapos, uniformes e afins…
Outra coisa é “roupa (e não só) adequada à circunstância”; o que se aplica de modo particular aos leigos. Ir à missa vestido como quem vai para a vida social do Bairro Alto, ou estar a mandar SMS durante a homilia e/ou a mascar pastilha elástica é tudo menos o adequado à circunstância…Quanto mais não seja são fatores que distraem outras pessoas do que é efetivamente importante.
Sem cair nos excessos pré conciliares de antigamente há um justo meio-termo e não é o que dantes se chamava em linguagem popular “a roupinha de Ver a Deus” ou “a roupa domingueira”.
Há um ponto de equilíbrio de geometria variável (um chavão em moda) dependente do contexto, tempo e lugar; supõe inserção na cultura local e simplicidade e é aplicável a padres, freiras e leigos pois todos são parte do mesmo Povo de Deus na igualdade do Baptismo. Este Papa já mostrou ser possível mudar este aspeto do “visual” e foi bem recebido. Faltamos nós, todos os outros, pois Nós também Somos Igreja.
E como em cada semana há um domingo, podemos começar por preencher certos requisitos; para o espírito, preparar as leituras do dia, para o corpo, escolher uma roupa apresentável e quanto a tecnologias, desligar o telemóvel pois Deus não nos fala por aí! Bom, pelo menos para já, mas há sempre quem espere este tipo de milagres.
AFF     15-6-2013    

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