20 outubro 2013

A fada e os sete adões

    
Numa aldeia onde fui comprar vinho, participei numa conversa sobre uma história a que uma senhora chamava “a fada e os sete adões”. Em pouco tempo fui introduzido no diálogo e, armado em sabichão, disse: olhe, essa história não será “A Branca de Neve e os sete anões”? Não, é a fada e os sete adões. Ah! – mas conhece esta de que estou a falar? Sim, já ouvi falar dela, mas isso é uma história mais das terras grandes. Ah, talvez! Um pouco depois, já ajustado à surpresa, disse que realmente estava bem vista a coisa dos sete adões. A Eva era uma fada com tanta arte que, se levou um adão a engolir a dentada de uma maçã, era bem capaz de o fazer a sete. O que vale é que no Paraíso só havia uma maçã, diz a senhora. Respondi-lhe que era capaz de haver mais. Mesmo que só houvesse uma macieira devia ter muitas maçãs. Ah pois é! – exclamou, mas como a gente só ouvia falar na maçã do Adão nunca pensei que houvesse mais. E acrescentou: ai, então sendo assim é verdade, a Eva tinha bem coragem para fazer engolir o caroço a sete adões. Com mais uma folga na conversa, pensei para comigo: nem falemos nessa outra Eva a quem chamam Lilit, considerada a primeira mulher de Adão. Essa admirável estouvada era capaz de fazer os adões engolir a maçã inteira e não só uma dentada. E a conversa continuou mais um pouco neste tom prosaicamente popular. Mais tarde pensei comigo mesmo: deixa-me lá ir ver a história da maçã! Fui e diz assim: “E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela. Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais” (Génesis 3:6-7). Afinal parece que não há maçã. Mas se essa árvore é uma figueira, como se insinua, devo dizer que o fruto é realmente bom, os aventais feitos de folhas é que não aconselho a ninguém. Os figos não têm caroço e nem sequer é um fruto em que seja fácil dar uma dentada e oferecer o resto ao vizinho. É um fruto que se presta a comer não só um mas muitos e sabem melhor em companhia. Os figos, contrariamente às folhas, são um pouco voluptuosos, sensuais e bons para serem comidos frescos mas também secos. Parece que os figos mais do que as maçãs são uma fruta adequada para activar esse eterno desejo de querer ser como Deus, mas o problema não está nos figos. É provável que tenha sido a Eva, isso só a prestigia, a fazer a proposta ao Adão, mas o Adão parece não ter resistido muito. Se calhar o que não queria era apanhar os figos, ou então achava que isso era trabalho de mulher. Mas, sob capa de anjinho do paraíso, dá ares de quem estava mesmo à espera de ser tentado. Regressando ao início da história, como seria se fossem sete adões? E como será se o sete significa que se trata de uma história recorrente na relação entre todos os homens e mulheres e destes com o desejo incontido de um poder absoluto, de tudo dominarem? Nem sei que diga, mas parece-me que na relação com os figos tanto Evas como Adões devem pôr-se a pau. Se por acaso caírem na irresistível tentação de seguirem os apelos deste fruto, preparem-se para o desagradável que é usar um avental de folhas de figueira. Nessa situação só mesmo perderem a vergonha e ficarem nus, e depois dizerem a Deus: Senhor, eu sei que estou nu, que poderei fazer? A partir daí talvez consigam compreender o que é ser homem e mulher e ouvir Deus dizer-lhes: Ah estão nus! Ah têm vergonha! Vocês devem ter vergonha é na cara. Não vos basta procurarem ser gente? Acham que é pouco? Com que então estão nus! Na verdade pretender ser como Deus apenas tem servido ao ser humano para fazer estragos e gerar infelicidade. Como estes que estão a acontecer com esta coisa a que chamam crise. A voluptuosa lua cheia que agora está a subir ali ao lado, grande e luminosa, teria muito mais razões para ser deusa. Mas não é. Com todo o seu esplendor continua no lugar que lhe compete, apresentando-se como um exemplo para homens e mulheres. A grandeza do ser humano está em si mesmo, não precisa de a procurar em territórios que não lhe pertencem. É como diz F. Pessoa: “Para ser grande sê inteiro… Assim em cada lago a lua toda brilha porque alta vive”.

Frei Matias, O.P.

20.10.2013

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