05 janeiro 2014

MENSAGEM DO PAPA SOBRE A PAZ

       
1. Entre os mais idosos, alguns talvez ainda tenham gosto em se lembrar e outros, vontade de esquecer que no dia 8 de Dezembro de 1967 foi criado, pelo papa Paulo VI, o Dia Mundial da Paz. Ficou decidido, no entanto, que seria celebrado, daí em diante, no primeiro dia do ano civil. Assim continua, embora as Nações Unidas tenham marcado, em 1981, o Dia Internacional da Paz para o dia 21 de Setembro. Não se sobrepõem. 

Em Portugal, a decisão de Paulo VI teve um impacto significativo durante a guerra colonial, porque se inscreveu nos ecos do Vaticano II e da Pacem in Terris de João XXIII, que tinham alargado, aprofundado e provocado iniciativas de oposição católica ao Estado Novo[i]. Destacamos: no Porto, suscitou a criação da comissão diocesana de Justiça e Paz, com múltiplas intervenções; em Lisboa, as vigílias na Igreja de S. Domingos, em 1969, e na Capela do Rato, de 1972 para 1973, tornaram-se marcos históricos pela ressonância conseguida. A vigília da Capela do Rato provocou a intervenção da Pide, várias prisões e aceso confronto, na Assembleia Nacional, entre os deputados Miller Guerra e Francisco Casal Ribeiro.

As mensagens anuais constituem peças importantes da posição dos papas perante as questões da guerra e da paz. Ao se tornarem um ritual, o seu verdadeiro impacto depende, apenas, do que as Igrejas locais fizeram desses notáveis documentos.

2. Que irá acontecer com a mensagem do Papa Francisco, “A Fraternidade, fundamento e caminho da Paz”?

Da trilogia da Revolução Francesa, “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, a última foi sempre a mais esquecida. Nas Igrejas Cristãs, todos são filhos de Deus, mas raramente os reconhecemos como nossos irmãos.

Qual é então a situação da população mundial?

Os números são conhecidos: 1% da população mundial concentra 43% da riqueza, enquanto 50% fica apenas com 2%. Neste mundo há 871 milhões de pessoas com fome; mais de 1.000 milhões encontram-se na indigência e cerca de 3.000 milhões na pobreza. Neste mundo, 900 milhões não têm água potável, 1.000 milhões não têm acesso à luz eléctrica e 2.160 milhões não possuem instalações sanitárias.

Já estamos tão habituados à linguagem dos números, a propósito de tudo e de nada, que em vez de nos aproximarem da realidade vivida, afastam-na. O Papa Francisco podia recitar todos estes números e dizer, com verdade, estes são todos membros da nossa família. Ele sabe que por aí não iria longe. Também não parece muito interessado em juntar textos doutrinários aos dos outros Papas e engrossar as bibliotecas piedosas. Passaram nove meses sobre a sua eleição. Não foi a eleição de Sua Santidade, mas a de um pecador em processo de conversão, chamando os cardeais, os bispos, os padres a essa condição para poderem servir e dinamizar as comunidades cristãs. Não ficou por aí. Escolheu o caminho do exemplo, mas não para dar exemplo. Se espantou o mundo com os seus gestos, foi por causa da sua autenticidade, sem recurso ao marketing religioso. De repente, vimos o Papa como imaginamos que terá sido Jesus Cristo, há dois mil anos. Desde a quinta-feira santa, o seu caminho tem sido o encontro com a periferia do mundo, o lugar da Igreja.

Para uns, isto é uma alegria, um convite a fazer o mesmo. Para outros, é uma descoberta. Não falta quem veja no método do Papa Francisco, uma crítica ao caminho que se estava a percorrer, semeado de escândalos. Claro que é o começo de uma reforma urgente, mas que ele não quer apenas propor, mas praticar na sua pessoa, nas suas decisões, da forma mais fraterna e mais alegre com aquelas e aqueles que ninguém escolheria para irmãos.

3. O Papa, pela ordem natural das coisas, tem muito pouco tempo para realizar o que lhe parece mais urgente. O mais urgente é ajudar o conjunto da Igreja a rectificar a sua orientação, a inclinar-se para o lado certo. Não é a substituição da Igreja pelo Papa. É fazer com que os papas, os bispos, os cardeais, os padres tenham uma prática de dinamizadores e não substitutos dos membros da Igreja: tornarmo-nos no que somos, todos irmãos (Mt 23, 8-9), a viver e a trabalhar, na sociedade e na igreja, como num bem de família.

Que se saiba, o mundo não está para acabar já. O Papa Francisco ainda vai deixar muito por fazer. Mas, pela sua maneira de ser e actuar, já começou o mais importante: não é fatal que a igreja e o mundo tenham de continuar a ser como até aqui.

Bergoglio criou um problema que não sei como o irá resolver: não se cansa de denunciar a economia que mata. Que poderá ele fazer para que nas instituições universitárias católicas, o ensino no campo da economia, da finança, da gestão, da política não só denuncie e recuse qualquer tipo de participação nesse homicídio, mas sobretudo, que poderá ele fazer para que os professores e alunos dessas instituições investiguem e façam propostas que sirvam a fraternidade como fundamento e caminho da paz?

De qualquer modo, Bergoglio não é o primeiro a andar em contramão. Foi precedido por boa companhia. Os fariseus, amigos do dinheiro, ouviam Jesus dizer que não se pode servir a Deus e ao Dinheiro e zombavam dele (Lc 16, 13-15).
Temos pela frente um novo ano e muitos desafios na Igreja e na Sociedade. 


[i] João Miguel Almeida, A Oposição Católica ao Estado Novo (1958-1974), Edições Nelson de Matos, Lisboa, 2008
05.01.2014
Frei Bento Domingues, O. P.
in Público
 
 
 
 

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