18 janeiro 2014

Os magos da vida airada

      
Quando vi aqueles três rapazes tão compenetrados na sua função disse para alguém ao meu lado: nestes três parece notar-se a influência de uma boa catequese. Não, não pense nisso, são uns valdevinos. Puseram-nos aqui para os terem quietos e controlados. E eles aceitaram? Pergunta bacoca, se estavam lá era porque tinham aceitado. Daí a resposta: oh, a malta deste tipo aceita sempre coisas em que esteja em destaque. Ah, pois, já tinha ouvido isso! E lá iam eles, muito sérios, com as caçoilas dos presentes para o Menino: oiro, incenso e mirra. Ao chegarem junto do presépio, o que levava o incenso pôs um bocadinho num pequeno prato de barro e acendeu-o. Eu, que não me dou muito bem com incensos, achei aquele bastante suave. Fiz mais uma pergunta: o incenso a arder é para fazer crer que os outros presentes também são verdadeiros? Não, não, é para divulgar o incenso da Etiópia. É mais puro, mais suave, mais barato e, ao mesmo tempo, ajudam-se os produtores locais. É o chamado “comércio justo”. Fiquei admirado: ah, sim, já li isso em qualquer lado, é uma boa ideia. Agora, mesmo longe dos grandes centros consegue-se acompanhar as coisas da mesma maneira. Só é preciso mesmo estar atento. Pois é, disse, agora não há distâncias! Entretanto os três magos lá andavam nas suas voltas combinadas. Não se tratava de uma cerimónia especificamente religiosa, era o início da saída para “cantar os reis”, também dito “cantar as janeiras”. Será que são Mateus, o único a referir este episódio, fala de três reis magos? Fui ver: “Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos vindos do Oriente. E perguntaram: «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.» (…) Depois de terem ouvido o rei, os magos puseram-se a caminho. E a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles, até que, chegando ao lugar onde estava o menino, parou. Ao ver a estrela, sentiram imensa alegria; e, entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, adoraram-no; e, abrindo os cofres, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra”. Pois é, não fala em reis, nem em três. Continuando o diálogo com o meu vizinho, disse: o rapaz que representa o mago africano é o mais magrinho. Isso é intencional? Tem que ver com o facto de naquela zona os negros serem mais altos e magros? Não, nem pensámos nisso. Vai pintado de preto porque anda sempre a meter-se com uns rapazes africanos que estão aí a estudar. Então, hoje, o preto é ele. Pensávamos que não ia aceitar, mas não, até achou divertido. Está visto que hoje não acertei uma. Ainda bem, as motivações das coisas eram bem melhores do que aquelas que eu supunha. No dia seguinte chamavam aos três rapazes os magos da vida airada. Sorrindo, pensei como seriam os outros. Os do presépio andavam à cata de estrelas para conhecerem o desconhecido. Às tantas foram surpreendidos por uma que lhes deu a volta à vida. Destes dizem que são uns cata-ventos. Quem sabe se um dia uma brisa suave ou um vendaval não os levará para lugares cheios de boas surpresas! Quem sabe!

Frei Matias, O.P.
17.01.2014

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