04 janeiro 2014

Natal 2013 - Na periferia



Querido/as Amigo/as de mais perto ou de mais longe

Desculpareis que, porventura, vos retribua com uma mensagem de feição menos personalizada. Todos e todas a mereceriam. Até só pelo facto de se lembrarem que eu ainda existo. Na fragilidade das condições técnicas em que vos escrevo e na felicidade da abundância daqueles e daquelas que se me fizeram presentes nestes dias, no quadro de afazeres pastorais em que me envolvo, difícil seria responder a cada um/a.

Hoje é dia 23. Partilho convosco o que têm sido estes dias de introito para o Natal, celebrado, como nos alerta O Papa Francisco, na periferia do mundo.

Toda a manhã de hoje foi ocupada com uma visita a uma comunidade da Paróquia, situada na área da intervenção dos chineses que aqui exploram areias pesadas e já trazem perturbações várias à pacatez destas comunidades: Disso falaremos noutro dia.

Tudo estava preparado para "ter missa". Uma hora teria sido suficiente, e tudo ficaria despachado e arrumado. Todos ficariam contentes e o padre voltaria a casa com a consciência tranquila e satisfeita!

Mas foi diferente. Ao chegar, apesar do friso festivo que me aguardava, logo intuí que era preciso ir mais fundo. À raiz! Não fiquei na epiderme das insistentes cantaroladas saudações à visita que chegava. Com a preciosa ajuda do Animador Paroquial (que já me acompanhava desde casa) mais a do Animador de Zona (que entretanto a nós se juntara, tratámos de fazer um diagnóstico da comunidade tão numerosa, mas carente: carente de organização, a contrastar com outras. Com algumas pessoas com competências a desenvolver, mas ainda sub-aproveitadas.

Teríamos umas 200 pessoas adultas. Muitas crianças e adolescentes. Havia que dar o toque da conversão que o desafio do nascimento de Jesus, neste nosso mundo, implica.

Assim se construiu uma linda conversa com a comunidades sobre as fraquezas e os pecados a corrigir. Felizmente, um quadro preto, feito numa parede interna da própria capela, numa comunidade com 90% (se não mais) de iletrados, serviu de ícone. Uma jovem mãe, desejosa de ser alfabetizada foi, sim, o ícone vivo, nesta nossa conversa de mais de 1 hora, precedendo a celebração penitencial seguida de eucaristia.

Vislumbrei, sem surpresa, o intenso trabalho que temos de fazer para que esta Igreja, integrada por tanta gente, rodeada de muçulmanos/as, apareça, como dizemos na noite de Natal, um sinal de que "O Povo que andava nas trevas viu uma grande Luz!". Antes de mais luz para dentro de si mesma, para que possa aparecer como Luz para a imensa maioria muçulmana que a envolve!

No dia 21 tive outra celebração com outra comunidade: a nota mais saliente foi ter conseguido vencer o "braço de ferro" com gente que parecia teimar em não arranjar esteiras para atapetar o espaço celebrativo, e se sentava no chão (por acaso já de cimento e não de terra) como se fosse cabrito. Desde que eu cheguei, há 19 meses, que isso era ponto assente. A beleza das esteiras locais tem de emprestar aos nossos espaços litúrgicos, dentro das capelas, ou debaixo das árvores, ou ao luar, como aconteceu na noite de Natal de há 1 ano, a dignidade de filhos de Deus que somos a título privilegiado. Parece que não teriam entendido à primeira. Foram 2 horas de paciente explicação em que se misturou a catequese, a noção de dignidade e as noções de saúde. E, assim, quem morava mais perto ou tinha biciclete, correu a casa buscar as esteiras necessárias. Excelente!

Xonte! Apwiya! Munlevelele!

Perdão! Senhor!

Terminaria muito bem, também com a celebração penitencial e a confissão dos pecados em comunidade (como ilustra a imagem) seguida de eucaristia.

No dia 22, ontem, estava programada uma "inauguração" noutra comunidade. Inauguração de quê: da nova cobertura da capela, agora de chapas de zinco. Havia convidados das comunidades vizinhas e, pela 1ª vez, vi o "governante" local, o chefe de posto, por sinal um católico que, dir-me-ia ele ao apresentar-se, foi batizado nesta nossa missão nos idos anos 60. Talvez seja um filho regressado… Vamos ver.

Nesta caso, foi espantoso como tão rapidamente pudemos transformar a liturgia, pondo a ênfase numa aturada celebração penitencial que abriu caminho para uma magnífica celebração da eucaristia, à sombra de uma majestosa mangueira (que não deixou cair nenhuma manga na cabeça de ninguém) e, finalmente, para a "bênção" da capela com nova cobertura, satisfazendo os anseios justificados desta comunidade que, a custo, conseguiu juntar umas dezenas de milhares de meticais e, assim, resolver o problema à sua própria custa!

Foram, todas elas, celebrações inteiramente contextualizadas, pacientes, indo ao fundo das raízes, tanto antropológicas como éticas e morais. Encantador, ainda, como os grupos corais, que até tinham preparado o seu canto noutra direcção, tão facilmente se readaptaram, tanto no canto penitencial como da exultação de acção de graças, no fim.

Em cada um destes dias, terminamos com uma deliciosa refeição de exima (massa de farinha de milho que os italianos chamarão polenta), acompanhada, a meu pedido expresso, não de galinha ou cabrito ou porco, mas de mathapa: agora de folha de mandioca por ser, neste tempo, a mais comum, enriquecida com um pouco de feijão pequeno, ou ervilha) e com saborosíssimo tempero de amendoim e/ou de coco. É, assim, um Natal na periferia do mundo, vislumbrando, nestas pobrezas e nesta riquezas, a plenitude de José e Maria encantados com as maravilhas que vislumbravam e não entendiam por completo! Guardavam no coração!

Já vos cansei, enquanto escrevia este abrir de coração, à beira do Índico, aqui a meus pés, ao fundo da larguíssima avenida principal de Angoche que teve por nome colonial "António Enes" e, desde há dias, tem um presidente reeleito, não temos dúvidas, com gritantes ilícitos eleitorais. Porque os Herodes ainda não foram varridos da face da terra!

Que o vosso Natal seja tão genuíno como o meu, vo-lo desejo do coração!

Que o novo ano de 2014 seja, para cada um/a de nós, mais abençoado do que este que agora terminamos em que os desafios à Fé e à Esperança só o Papa Francisco - a surpresa de Deus para todos neste ano - conseguiu dispor-nos, mais uma vez, a acolher.

Zé Luzia
NOTA: Recebi este mail do Padre José Luzia e, como gostei imenso deste Natal tão enriquecedor, pedi-lhe para o partilhar no nosso blogue, ao que ele acedeu prontamente. Lamentavelmente o blogue não aceitas as fotos que vinham incluídas.

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