25 novembro 2018

Não há soluções prontas a servir, Sobre Saramago e Deus, “Deus gosta de quem luta com ele” & Archbishop Scicluna says February meeting start of ‘global approach’ to fighting sex abuse

     
     1. Vamo-nos enganando e já não é pouco! Foi o comentário de um amigo à minha homilia de apresentação da Mensagem do Papa para o II Dia Mundial dos Pobres, no passado Domingo. Procurou fazer-me uma breve catequese de bom senso, pois ninguém tem uma receita eficaz para curar a história da nossa desumanidade. Mergulhados no mistério do tempo, cada um de nós vive, apenas, o pequeno intervalo entre o nascimento e a morte. Tanto vale acreditar que o mundo vai mudar para melhor como repetir que irá sempre de mal a pior. Os anúncios do avanço das ciências e das técnicas deixaram, há muito, de o entusiasmar. A quem vão eles servir? Oferecem, aos donos dos grandes negócios, novos instrumentos e condições para desenvolverem a concentração da riqueza e do poder económico, bélico e político. O mundo de todos em mãos de poucos.
Insistiu comigo: aquilo que o Papa diz e tenta fazer não resolve nada. O próprio Cristo, num momento de grande lucidez, arrumou com todas essas veleidades: pobres sempre os tereis entre vós! Estava escrito na Bíblia o que ele bem conhecia: não “haja pobres entre vós” e, no entanto, Jerusalém, a cidade santa tinha-se tornado um grande centro de mendicidade.
Sei que as atitudes, os gestos e as palavras de Bergoglio não resolvem nada, mas também sei que ajudam muitas pessoas a resolverem-se a abandonar o cepticismo estéril e a interrogar-se: que posso eu fazer? Impede-nos de tapar os olhos e os ouvidos e de dizermos que não sabemos bem o que se passa. Recusando ou aceitando somos cúmplices, aliados ou indiferentes. O Papa não consente que forjemos um Deus que nos substitua e, por isso, há crianças, adolescentes, jovens e adultos que para serem felizes optam por hierarquizar as suas necessidades e desenvolver os seus talentos para vencerem a solidão e as situações difíceis de outras pessoas. Descobriram que havia estilos de vida mais divertidos e entusiasmantes do que o culto da estupidez consumista. Um estilo sóbrio de vida pode e deve ser mais divertido do que a peregrinação obrigatória a todos os restaurantes do Guia Michelin.
Jesus Cristo e o Papa Francisco passaram e passam por situações muito difíceis, mas são profundamente felizes ao terem libertado as suas pulsões e desejos tornando-se disponíveis para verem o mundo como a Casa Comum de toda a família humana, nossa família!
Bergoglio já tinha mostrado na Laudato SI que não podemos separar o clamor da devastação do planeta e o dos pobres. A escuta da terra e a dos pobres andam sempre juntas. Pertence, precisamente, à ecologia política mostrar que a crise ambiental e a crise social andam juntas.
A pobreza e a austeridade de S. Francisco não eram um ascetismo puramente exterior. Eram algo de mais radical: a renúncia a converter a realidade em mero objecto de uso e domínio, matando o encanto e a beleza do mundo. Mercantilizar todos os âmbitos da vida é instrumentalizar as relações humanas e a relação com a natureza. Nem tudo na vida humana se pode ou deve comprar e vender.        
 2. O Papa não inventou os factos. Em Setembro de 2015, os países reunidos na Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) comprometeram-se com uma agenda de desenvolvimento até 2030. Nessa agenda havia um compromisso: acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares. Ou seja, os esforços devem apontar para o objectivo de fazer com que o rendimento mínimo diário de cada pessoa supere 1,25 dólares, índice que designa, actualmente, a linha da pobreza extrema.
Como estancar a reprodução das grandes desigualdades e da pobreza? Quando se diz que é o produto de escolhas políticas injustas que reflectem a desigual distribuição do poder na sociedade, não se abordam, de forma clara, as possibilidades concretas de alterar essas escolhas. Se não é possível erradicar a pobreza no mundo sem reduzir drasticamente os níveis de desigualdade, como conseguir esse objectivo? Diz-se que os níveis extremos de desigualdades interferem na capacidade do Estado e da sociedade redistribuírem o rendimento. Erguem barreiras à mobilidade social e mantêm parcelas da população à margem da economia.
Que fazer? Quem sabe não pode e quem pode não quer.
3. Estaremos, então, condenados ao imobilismo e deixar livre o caminho para o abismo?
O relatório da ONU para o Desenvolvimento 2017, afirma que 6,5% da população global continuará na pobreza extrema até 2030, se a actual taxa de crescimento e políticas para o sector permanecerem inalteradas.
Segundo a ONU são necessários novos esforços multilaterais para tirar 550 milhões de pessoas da situação de pobreza.  Se isso não acontecer, os esforços para alcançar os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável serão fortemente prejudicados. Não se vence a pobreza até 2030 e os países menos desenvolvidos vão ficar muito abaixo das metas estabelecidas.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, pediu acção imediata dos países para enfrentar o problema: “apesar dos grandes esforços na luta contra a pobreza, a desigualdade cresceu em todo o mundo. Os conflitos estão a aumentar. Outros problemas como as alterações climáticas, a insegurança alimentar e a escassez de água estão a colocar em risco os progressos alcançados nas últimas décadas”.      
Os cépticos continuarão a dizer que, com ONU ou sem ONU, com o Papa Francisco ou sem o Papa Francisco, a situação dos pobres e dos remendos para a minorar é muito antiga e desencorajante. Os pobres, ao morrerem, continuarão a deixar, como herança aos seus descendentes, apenas a sua pobreza.
A condição humana é histórica, está a caminho, não está irremediavelmente condenada ou salva. Esquecemos que a desigualdade entre os seres humanos começa cedo. Uns nascem em berços de ouro, outros debaixo das pontes. O que lhe é próprio é não se render ao infortúnio, nem a nível individual, nem a nível social. Quando alguém não pode, precisa de quem o ajude e, para se realizar como humano, precisa de ajudar. Mas, sem uma dimensão política em que seja possível procurar uma vida de qualidade, em instituições justas, a nível individual e global, não há manta que chegue para todos.
É verdade que ninguém dispõe de soluções prontas a servir a dignidade humana de todos. Mas ninguém devia dispensar a pergunta: eu não posso mesmo fazer nada?
O Papa Francisco faz o que pode, mas não nos pode substituir.
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público 25.11.2018
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Sobre Saramago e Deus
Padre Anselmo Borges

O Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra e a Câmara Municipal de Coimbra organizaram nos passados dias 8, 9 e 10 de Outubro, no Convento de São Francisco de Coimbra, um Congresso Internacional: "José Saramago: 20 anos com o Prémio Nobel". Carlos Reis e Ana Peixinho pediram-me uma intervenção sobre Saramago e Deus. O que aí fica é uma breve síntese da minha fala nesse Congresso.

1. Numa entrevista dada a João Céu e Silva, uma das últimas, se não a última, Saramago referiu-se-me com admiração por ter lido e gostado do seu livro Caim. "Até fiquei surpreendido quando ouvi um teólogo - uma coisa é um teólogo e outra um padre -, Anselmo Borges, dizer que tinha gostado do livro." Mas na net também se diz, e é verdade, que fui crítico por causa de alguma unilateralidade com que Saramago leu a Bíblia. Assim, a minha intervenção quer ser essencialmente um esclarecimento sobre essa minha dupla visão.

2. Saramago foi à Academia Sueca dizer, no dia 7 de Dezembro de 1998, logo na primeira frase: "O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever."

Quando me expresso sobre o diálogo inter-religioso, digo sempre, com escândalo de alguns, que desse diálogo também fazem parte os ateus, os ateus que sabem o que isso quer dizer - os crentes também só o são verdadeiramente se souberem o que isso quer dizer. Fazem parte, porque são eles que, estando de fora, mais facilmente vêem as superstições, as inumanidades e até as barbaridades que tantas vezes infectam as religiões. Assim, à maneira de Saramago, também digo: foi com dois ateus que aprendi do melhor da Teologia: Ernst Bloch e o nosso homenageado, José Saramago. Mais com Bloch, porque, dada a situação da Teologia na universidade alemã - em todas as universidades, há duas faculdades de Teologia, uma católica e outra protestante -, ele tinha profundos conhecimentos bíblicos. Neste enquadramento, refiro três pontos.

2. 1. Também sou ateu em relação ao deus denunciado por eles. Porque é isso que se deve ser, se se quiser manter a dignidade humana face a um deus brutal, irresponsável, ciumento, mesquinho, tirânico, cruel, sádico, sanguinário... Neste sentido, estou de acordo com Ernst Bloch, quando escreveu que "só um bom ateu pode ser um bom cristão, só um bom cristão pode ser um bom ateu".

Previno que a boa exegese mostra que nem sempre está no texto bíblico aquilo que o puseram a dizer e que passou à tradição. Por exemplo, o caso de Isaac, cujo significado é o contrário daquilo que frequentemente se ensinou: ao aparecer o cordeiro, Deus está a proclamar que não quer o sacrifício de seres humanos. Mas, de facto, muitas vezes foi a outra tradição que passou, aquela a que se referiu o prestigiado biblista católico do século XX Norbert Lohfink quando constatou que a Bíblia judaica é "um dos livros mais cheios de sangue da literatura mundial".

Como aceitar um deus que castigasse a humanidade inteira por causa de os primeiros pais terem comido uma maçã? De qualquer modo, no quadro da evolução, quem foram os primeiros e como é que poderiam ter um acto de liberdade tal que arrastasse consigo todos os males do mundo, incluindo a morte? Que sentido pode ter um pecado original herdado, de tal modo que todas as crianças seriam geradas em pecado, do qual só o baptismo pode libertar?

E Jesus não foi enviado por Deus para ser morto e com a sua morte pagar a dívida infinita da humanidade para com Deus e Deus aplacar a sua ira e reconciliar-se com a humanidade. Que pai decente imporia isso ao seu filho querido, condenando-o à morte?

Caim, segundo Saramago, vai, castigado, pelo mundo, não sem perguntar a deus porque é que o não impediu de matar o irmão, Abel. Deus é, pois, co-responsável por esse acto...

Trata-se de um deus arbitrário, irresponsável, ciumento, pior do que nós.

Ficamos arrepiados, quando lemos que Deus exigiu de Abraão que matasse o seu filho Isaac. O próprio filósofo Sören Kierkegaard, que propunha Abraão como modelo da fé incondicional, viu o horror da situação e diz que o miúdo voltou para casa e deixou de acreditar em deus e Abraão nunca disse uma palavra a Sara sobre o acontecido.

Sodoma e Gomorra. Lá também havia crianças inocentes. E deus não se lembrou delas?

Babel. Deus, em vez de castigar os homens pelo seu feito, deveria honrar-se com o êxito das suas criaturas. É ciumento, invejoso.

Também no Dilúvio, deus não teve compaixão para com os inocentes. A mesma acusação vale para a situação dos filhos primogénitos dos egípcios.

Ah, e, aquando do nascimento de Jesus, houve a matança dos inocentes e José não se preocupou. No regresso do Egipto nem sequer perguntou às mães pela sua dor...

Do pior: as guerras religiosas, pois é deus contra deus, e as vítimas são os homens e as mulheres e as crianças... Como é possível deus mandar matar, haver guerras em nome de deus?

2. 2. Ernst Bloch foi mais longe. Sabendo Teologia e exegese, distinguiu muito bem duas camadas na Bíblia: a do deus dos senhores, do deus dominador, tirânico, imoral e opressor e a do Deus da libertação e dignificação de todos. Em conexão, viu também dois tipos de Igreja: a Igreja dos senhores, a Igreja do poder inquisitorial, opressora, e a Igreja dos pobres, do bem, da justiça, da paz. Para Bloch, há um duplo fio condutor na Bíblia: o sacerdotal, em que domina o deus opressor, dos senhores, e o profético-messiânico-apocalíptico, que anuncia o Reino de Deus, a herdar meta-religiosamente como Reino do Homem: "Esta vida no horizonte do futuro veio ao mundo pela Bíblia."

Jesus agiu como um homem bom, escreve Bloch, "algo que ainda não tinha acontecido". Ele personifica a bondade e o amor e nele exprime-se e realiza-se o melhor da esperança, o ainda não do que a humanidade pode e deve ser. Ele não foi morto por Deus seu Pai, mas pelo religião do Templo, a religião dos sacerdotes, que viviam da exploração dos crentes.

O que devemos ao cristianismo? O próprio conceito de pessoa foi dentro dos debates à volta da tentativa de compreender Jesus Cristo que surgiu. Sabemos que nenhum homem pode ser "tratado como gado": foi através de Jesus que o sabemos, porque nele, por ele e com ele, se proclama a dignidade infinita de todo o ser humano.

Onde é que nasceu a Declaração dos Direitos Humanos? Foi na China? Na Arábia?

Jürgen Habermas, o filósofo mais influente da actualidade, agnóstico, escreveu que a democracia não é senão a tradução para a política da ideia cristã de que cada homem e cada mulher são filhos de Deus. Isso, politicamente traduzido, dá um homem um voto, uma mulher um voto.

Não haveria o horror da pedofilia, também na Igreja, se se ouvisse a maior proclamação de sempre feita por Jesus sobre a dignidade das crianças: "Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o Reino de Deus", acrescentando logo a seguir: "Ai de quem escandalizar uma criança: mais valia atar-lhe uma mó de moinho ao pescoço e ser lançado ao mar."

Tudo isto para repetir o que disse logo no início da minha fala: estou grato, muito grato, a Saramago, mas não aceito a sua afirmação: "A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele." A sua leitura foi unilateral.

3. O que é ser ateu? Quando se diz que se é ateu, é preciso começar por perguntar o que se entende por isso e concretamente em relação a que Deus se é ateu.

Há dois modos de negação de Deus: a negação real e a negação determinada.

Por negação determinada entende-se a negação de um determinado deus, de uma certa imagem de deus. Foi o que Saramago fez. Como podia ele ou alguém intelectualmente honesto aceitar um deus cruel e sanguinário? Daí a inversão da oração de Cristo na Cruz, no Evangelho segundo Jesus Cristo. Onde no Evangelho se diz: "Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem", lê-se em Saramago: "Homens, perdoai-lhe porque ele não sabe o que fez."

A negação determinada não significa negação real. A pergunta é, portanto, se Saramago negou realmente Deus ou se, pelo contrário, na negação do deus arbitrário e sanguinário não está dialecticamente presente o clamor pelo único Deus verdadeiro, o do amor incondicional, o do Antimal.

De qualquer modo, segundo Saramago, "Deus é o silêncio do universo, e o ser humano o grito que dá sentido a esse silêncio". "Esta definição de Saramago é a mais bela que alguma vez li ou ouvi", escreveu o teólogo Juan José Tamayo. "Essa definição está mais perto de um místico do que de um ateu."

4. No final da minha intervenção, a viúva de Saramago, Pilar del Río, aproximou-se, agradeceu e disse-me: sabe qual foi o contexto desse diálogo entre o meu marido e Tamayo? Íamos os três pela Plaza de la Giralda, em Sevilha, e os sinos da catedral repicaram, e Saramago: "Os sinos tocam porque está um teólogo a passar." E Tamayo retorquiu: "Não, os sinos repicam porque um ateu está prestes a converter-se ao cristianismo."
Padre e professor de Filosofia
in DN 24.11.2018
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sexta-feira, 23 de Novembro de 2018
Tomáš Halík: “Deus gosta de quem luta com ele”
Entrevista de António Marujo
Imagem de Maria Wilton (não incluídas)

“Deus não é um problema, é um mistério. E a fé é a coragem de entrar na nuvem do mistério”, diz o teólogo checo Tomáš Halík, que esta semana esteve em Lisboa, a propósito da edição do seu último livro, Diante de Ti os Meus Caminhos (ed. Paulinas). Obra que cruza as memórias e a reflexão teológica e antropológica a que o autor já habituou os seus leitores, Halik percorre, nela, os anos da aproximação à fé cristã durante a sua juventude, a opção pelo catolicismo e pela missão de presbítero, a clandestinidade e as proibições e controlos a que foi sujeito, a morte do colega Jan Palach, a democratização da então Checoslováquia ou a amizade com o primeiro Presidente eleito, Vaclav Havel.
A partir do seu trabalho com jovens estudantes, Halik traça, também, as suas reflexões sobre o papel do cristianismo na contemporaneidade. “Não acredito numa Igreja sem feridas”, diz, para manifestar a sua extrema preocupação com o fenómeno dos populismos contemporâneos: “Comunismo e populismo não se podem comparar. No comunismo, precisamos de coragem. Agora, precisamos de sabedoria.”
Ao longo da entrevista, Tomáš Halík pára por vezes durante largos segundos para pensar na resposta. Noutras, volta atrás, porque a ideia não estava a sair como pretendia. “Escrevo os meus livros para pessoas com mentes e corações abertos”, dirá, a terminar.

P. – Nos seus livros, cita várias vezes Nietzsche e, sobretudo, o seu “Assim Falava Zaratustra”. Neste último, escreve mesmo que começou a ler Nietzsche e volta a ele sempre, em diferentes momentos da sua vida.

Há várias similaridades entre Nietzsche e SørenKierkegaard, que foi um grande cristão, não conformista. Também há semelhanças com Pascal. Todos eles lutam contra um cristianismo superficial e de massa. Nietzsche criticava Jesus mas há também alguns capítulos no seu Anti-Cristo, que é como uma canção de amor e admiração por Jesus. Penso que os críticos perspicazes são sempre bons parceiros para pensar, provocadores do pensamento.

– Termina este novo livro escrevendo: “Acredito que o NADA, ao qual nos dirigimos na morte, é apenas outro nome maravilhoso de Deus.” Isto é uma profissão de fé cristã ou uma declaração ateia?
– É uma citação do grande místico Mestre Eckart: “Deus não é nada das coisas deste mundo.” É uma purificação da idolatria presente em alguns dos nossos conceitos de Deus. Alguns retratos de Deus são humanos e não podemos viver sem eles. Mas, se esquecermos a diferença entre o símbolo e o que ele simboliza, isso é idolatria, fundamentalismo. Mestre Eckart está a dizer: Deus não é nada assim.

Deus não é um problema, é um mistério. E a fé é a coragem de entrar na nuvem do mistério, para viver este mistério, este paradoxo da vida sem medo e com confiança.

– Esse mistério de que fala tem algo a ver com o “horizonte absoluto” de que falava o Presidente Havel?
– Essa expressão de Havel é inspirada em Martin Heidegger e no existencialismo. Sim, há alguma similitude. Penso que é algo muito típico da espiritualidade checa: [muitos checos] não são ateus, são muito sensíveis aos valores espirituais, mas não são capazes de falar de Deus em termos tradicionais.

O “alguma coisa” é a religião mais difundida no nosso tempo: “Não acredito em Deus mas alguma coisa deve existir...” Este é um desafio para os teólogos, para a hermenêutica sobre o que será “alguma coisa”. Deus não é “alguma coisa”, não é um assunto entre outros assuntos, é algo muito diferente, o que nos provoca a meditar e ir mais fundo.

– No seu Paciência Com Deus, recorda a história de uma parede em Praga onde alguém tinha escrito “Jesus é a resposta”, e outra pessoa teria acrescentado “Mas qual era a pergunta?” A Igreja e os cristãos têm demasiadas respostas para perguntas que esqueceram?
– Receio que sim.

– Pode dar um exemplo de uma dessas perguntas mais importantes?
– A pergunta sobre o sentido da vida. Não apenas enquanto questão teórica ou filosófica, mas uma questão prática: em todas as decisões, na nossa vida, estamos a responder de forma concreta à pergunta sobre o sentido da vida. O nosso agir é sempre uma resposta.

– Também escreve que muitas vezes concorda com os ateus, mesmo em quase tudo. É possível um crente dizer isso?
– Muitos ateus não são inimigos de Deus, mas são inimigos de um certo tipo de teísmo, de uma teoria humana sobre Deus. E há vários tipos de teísmo muito problemáticos. O ateísmo pode ajudar-nos a purificar a nossa fé da idolatria.
 
– A secularização é um sinal dos tempos, como o padre Arturo Sosa, o geral dos jesuítas, disse no último Sínodo?
– Foi um sinal dos tempos em décadas anteriores. Agora, vivemos num mundo pós-secular: apesar dos muitos conceitos de secularização, é errada a ideia de que a religião está a desaparecer. A religião não está a desaparecer, apenas desapareceu do ponto de vista de alguns média e de alguns cientistas sociais dos séculos XIX e XX. Hoje em dia, a religião está aqui.
Não diria que Deus e a religião estão de volta, porque nunca desapareceram. Mas estão em transformação. Somos testemunhas da grande transformação da religião. O modo tradicional de viver a religião está cada vez mais débil, está a perder a sua biosfera cultural e social.

– Em que sentidos se está a transformar?
– A religião, por vezes, transforma-se em ideologia política, algo muito perigoso; outras vezes, transforma-se em espiritualidade, que deve ser desenvolvida para não nos tornarmos em alguém que vira costas ao mundo, mas ante alguém que encara o misticismo com olhos abertos.
Contemplação e acção: grandes personalidades como o fundador da comunidade de Taizé, Roger Schutz, falavam da contemplação e acção. E era isso que ele queria dizer: precisamos da teologia pública e de uma religião pública, que esteja no mundo para defender os direitos humanos. Não é preciso ter uma ideologia política para ser activo na vida pública, mas antes ter uma dimensão mais profunda da contemplação e espiritualidade.

– A indiferença é pior que o ateísmo militante?
– Sim. Há um ateísmo militante estúpido e é sempre difícil discutir com gente estúpida. Mas há também o ateísmo de pessoas que têm os seus corações feridos, que estão feridas por algum mal nas suas vidas. Devemos tomar essas pessoas seriamente porque este sentimento de que não há Deus é também um momento que faz parte da nossa fé cristã: é a fé da Páscoa, onde há morte e ressurreição.
Não há ressurreição sem cruz e, por vezes, há crises de fé na nossa vida pessoal ou na História, como uma participação mística no momento em que Jesus, na cruz, disse: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” Devemos entender esta pergunta. A resposta da ressurreição não é regressar ao Jesus do passado, mas abrir para uma nova dimensão. Por vezes, na nossa própria história ou na história da Igreja e da humanidade, algum tipo de fé tem de morrer. Mas, perante isso, o ateísmo não é a única possibilidade, há uma fé mais profunda, um an-ateísmo, um acreditar de novo. É a ressurreição da nossa fé, que é a transformação.

– Ao falar de pessoas feridas, escreve no seu livro O Meu Deus é um Deus Ferido: “Ao tocar nas feridas do mundo, tocamos em Deus.” Significa que no ateísmo e no agnosticismo há também muitas feridas?
– Há pessoas que dizem “eu gostaria de acreditar mas não consigo, porque estou tão ferido por este mal...” Devemos abraçar este tipo de ateísmo para dizer às pessoas esta experiência que é o absurdo do mal e o tempo de escuridão, a experiência da noite escura da alma.
As noites escuras da alma são um momento muito importante. Não devemos anular essas perguntas de modo simplista, devemos abraçar essas pessoas, especialmente nas feridas dos corações humanos.

– É esse o sentido do que o Papa tem referido várias vezes, sobre a Igreja ser um hospital de campanha?
– Absolutamente, é uma grande ideia. Louvo o Papa Francisco por essa ideia. Devemos desenvolver essa metáfora, porque a Igreja deve também fazer prevenção, cura e recuperação das feridas na nossa vida.
Uma das grandes doenças na nossa vida é o populismo, o novo populismo, o racismo, a xenofobia, o medo e o desespero, tão forte no nosso mundo. E não só a Igreja, mas também a imprensa livre, as universidades, devem ser um hospital para curar essa doença. E também trabalhar na prevenção, preparando as pessoas para confrontarem as mentiras, as notícias falsas e todos esses [males].

– O que é pior: o populismo, o racismo, a xenofobia ou um regime comunista, sem liberdade?
– Uma vez, uns americanos disseram-me, numa conferência, que é tudo o mesmo. Contei-lhes uma anedota: numa sinagoga, estava escrito: “se entrar sem o solidéu, é como cometer adultério”. No dia seguinte, alguém tinha acrescentado: “Eu experimentei ambos, mas não tem comparação.” Comunismo e populismo não se podem comparar: no comunismo, precisamos de coragem; agora, precisamos de sabedoria.

– Subscreve a ideia do Papa que diz que estamos já a viver uma nova guerra mundial aos bocados?
– Sou um pouco mais cauteloso com a metáfora da guerra. É um confronto com muitos males no nosso mundo. O populismo é o pior que conheço.

– Era amigo e muito próximo de Vaclav Havel e de outros líderes da transição democrática checa. Qual era a maior virtude de Havel?
– Era ser um defensor da liberdade, da dignidade e dos direitos humanos. Muitas pessoas do nosso mundo buscam a aprovação dos outros. Ele foi muito importante, não só para o nosso país, mas também para o nosso mundo como um político que não era só um jogador com poder, mas um pensador. Era uma inspiração moral e espiritual para o povo, lutando contra preconceitos e estereótipos – o que requeria grande coragem, porque muitos políticos dizem apenas o que as pessoas esperam.
Lembro-me que, uma vez, estive num debate na televisão com um dos nossos políticos no poder. Quando saímos, disse-lhe que o que ele tinha dito era mentira e ele respondeu: “Verdade? O que é a verdade? Eu estou a falar com os meus eleitores e sei o que eles querem ouvir. Não estou interessado na verdade.” Essa é a tragédia.

– Pilatos perguntou “o que é a verdade?” e essa foi a única pergunta que Jesus não respondeu...
– Sim, porque ele era a resposta. Nunca ouvi na vida esta pergunta de Pilatos, mas entendo-a. Foi a mesma resposta desse político: não estou interessado na verdade, mas no poder. O que se pode dizer ou responder? Jesus estava ali como a resposta.

“Tenho medo do populismo. Há muitos monstros que devemos olhar nos olhos; se calhar,  são parecidos connosco.”


– O Presidente Havel sugeriu que lhe sucedesse no cargo. Porque recusou?
– Eu pensei nisso. Mas, como padre e professor, muito próximo dos jovens, tenho possibilidade de dizer o que verdadeiramente penso e o que é a minha consciência. A situação após a revolução [1989-2003] era diferente, mas posso, na posição em que estou, servir a minha nação um pouco melhor. Especialmente hoje, com a atmosfera no nosso país que, como noutros, está tão destruída pelo populismo.
Alguém que lute contra estes estereótipos não tem possibilidade de ganhar as eleições. Devemos preparar a atmosfera moral, devemos ser um hospital de campanha e preparar as mudanças do clima que se instalou na Europa e no resto do mundo. [Os populistas] sabem como expressar o que as pessoas pensam ou os medos e a ansiedade com que vivem. E os políticos são mestres em expressar e usar estes sentimentos das pessoas.

– Porquê?
– Isto está ligado ao processo de globalização. A globalização foi a razão principal da queda do comunismo: a economia estatal planificada e um regime que controlava as ideias e a cultura não podiam aguentar-se num mercado livre de bens e ideias.
Agora, o processo de globalização chegou a um ponto em que testemunhamos o seu lado negro. Há muita gente desapontada, porque não é aceite ou não escutam os seus problemas, e recebem instrumentos muito poderosos nas novas redes sociais, que são bolhas em que as pessoas estão sempre expostas a preconceitos e a ouvir apenas o que querem ouvir, não são confrontados com novas maneiras de ver o mundo. Por vezes, digo que as redes sociais são redes anti-sociais. Nessas bolhas há pessoas que apoiam e desenvolvem a sua ansiedade e agressividade. É um tempo muito difícil.

– Tem medo deste aumento do populismo?
– Claro que tenho. É um grande problema. Estamos a viver tempos difíceis – é um tempo interessante, mas difícil. Toda a gente tem a sua parte de responsabilidade e há muitas pessoas a irradiar medo e agressividade. Por outro lado, pessoas como Vaclav Havel ou o Papa Francisco irradiam confiança, humor, amor, esperança.
Há muitos monstros no nosso mundo. Richard Kearney, um psicanalista, disse: se fores perseguido nos teus sonhos por um monstro, olha o monstro nos olhos; provavelmente reconhecerás que o monstro é um pouco parecido contigo. Devemos ter a coragem de olhar para estes monstros nos olhos. Há tantas demonizações entre grupos de pessoas...

– Estamos a enfrentar os mesmos monstros que nos levaram à Grande Guerra e à Segunda Guerra Mundial?
– Há algumas semelhanças. O fascismo, o nazismo e o bolchevismo nasceram da crise económica, da grande depressão económica, que alimentou esses monstros. Agora, não estamos numa crise económica tão grande – no meu país, estamos muito bem –, é mais uma crise espiritual do que económica, é uma crise de identidade.
Claro que ambas estão ligadas: se há uma crise familiar, a família não tem capacidade de apoiar os jovens para criar a sua própria identidade. As pessoas mais fracas estão à procura de identidades colectivas: as seitas religiosas fundamentalistas, o extremismo político da esquerda e da direita, um novo conservadorismo na Igreja… Conheço muitos padres jovens que têm personalidades tão fracas que procuram uma imagem forte de conservadorismo e a distância em relação às pessoas. E isso é uma tragédia.

– Diz no livro que a sua missão como padre é construir pontes: entre católicos e não católicos, crentes e não crentes, diferentes gerações… Essa é uma experiência também física: muitos diálogos que teve durante a oposição ao comunismo começaram na Ponte Carlos, em Praga. A sua missão continua a ser a de fazer pontes?
– É mais difícil do que era há dez anos atrás: para construir pontes, somos confrontados com agressividade de ambos os lados, da esquerda e da direita. O meu autor preferido, G.K Chesterton, disse: “Se os magros te dizem que és gordo e os gordos dizem que és magro, pode significar que és normal.” Se somos atacados de ambos os lados, pode ser bastante normal, apesar de não ser muito agradável. Mas é parte da nossa missão e de dizer não ao radicalismo.

– Nos últimos anos também se comprometeu no diálogo inter-religioso... Construir pontes no mundo religioso é importante?
– Sim, muito importante.

Os contactos inter-religiosos têm algum risco, que é permanecer apenas do domínio dos académicos – muçulmanos, cristãos ou judeus. Entre eles entendem-se muito bem, mas melhor ainda do que falarem entre si é, por exemplo, colocar juntos jovens de diferentes religiões a dialogar, para entender a perspectiva do outro.

– Expressa no seu livro uma grande admiração pelo Reino Unido. Lamenta o Brexit? Estamos a destruir uma ponte entre europeus?
– Sim, acho o Brexitestúpido e trágico. Eu estava na Universidade de Oxford quando soube [o resultado do referendo] e todos os professores, que achavam que iam ficar dentro da UE, ficaram em choque. É outro tipo de populismo. Agora, muitos britânicos querem corrigir o erro. Seria uma possibilidade haver um segundo referendo, algo que seria lógico, pois precisamos de uma Europa forte e unida.
No leste temos a Rússia de Putin, um país muito perigoso: o bolchevismo acabou mas o mais perigoso foi o nacionalismo e imperialismo russo. Putin tem nas mãos o poder de converter de novo em colónias ou satélites os países à volta, colocando-os sob o seu controlo. As fake news, que agora estão por todo o lado na internet, vêm da Rússia com o propósito de destruir a confiança na UE, são um perigo muito importante. Precisamos de saber distinguir a qualidade da informação quando a vemos.

– Assinou uma carta, no ano passado, de apoio ao Papa. Porque é que ele precisa do apoio das pessoas?
– Porque há uma parte dos teólogos, padres e leigos que estão a lutar contra ele, pois querem voltar a um tempo antigo. Mas não é possível regressar a uma guerra que acabou. Devemos concentrar-nos em enfrentar os problemas do nosso mundo atual.
A oposição ao Papa Francisco é muito semelhante à oposição dos fariseus contra Jesus. Eles queriam leis, queriam prescrições severas e a mensagem do Papa Francisco é redescobrir o verdadeiro coração do Evangelho: o amor, a solidariedade, responsabilidade pelos pobres, responsabilidade pela criação. Isto não interessa a pessoas que têm outra agenda. Ele é um perigo para estas pessoas porque tem novas ideias e cria uma nova atmosfera – e este é o futuro da Igreja.

– Esse futuro depende do Papa?
– O futuro da Igreja depende da habilidade que ela tiver em comunicar com os que buscam. O número de pessoas que se identificam completamente com a Igreja está a diminuir, mas também diminui o número de ateus convictos. Já o número dos que procuram algo, pessoas com mente aberta mas que não estão satisfeitas com esta forma de cristianismo, está a aumentar.
Não devemos empurrar estas pessoas para estruturas existentes, mas abrir as estruturas físicas e mentais da instituição, enriquecendo-as com as experiências de quem anda à procura. O futuro da Igreja depende da maneira como comunicamos com essas pessoas e como os acompanhamos.

– Há limites na reforma desejada pelo Papa Francisco? A questão dos abusos sexuais pode ser um desafio ao ministério do Papa?
– Sim, porque é um grave sinal dos tempos: não só os abusos sexuais, mas também os abusos de poder na Igreja. Quando a Igreja perdeu o poder no mundo, muitos padres viraram este poder para a Igreja em si e converteram-no em poder sobre mulheres e crianças mais fracas.
A experiência desta explosão de escândalos não é só problema de alguns indivíduos, é um grande problema da Igreja. É algo como [depois do] Holocausto: na Alemanha, depois da Guerra, muitos alemães receberam as notícias sobre o Holocausto – porque eles não sabiam o que se passava – e viram-se confrontados com um grande mal que tinha sido feito em nome da nação alemã.
Hoje, estamos a ser confrontados com uma tragédia dentro da Igreja, de que muitos de nós não fazíamos ideia. Temos de refletir acerca destes assuntos, penso que tenha sido o mau uso da sexualidade e do poder. O que o Papa tem dito acerca do clericalismo está correcto, mas é necessária também uma teologia mais profunda, a partir de um ponto de vista antropológico acerca da humanidade e do papel da sexualidade na vida humana.

– São precisos também psicólogos nos seminários para aqueles que querem ser padres?
– Claro. Acho que muitos padres não são muito preparados para o ministério na maioria dos seminários, mesmo sem querer generalizar. Precisamos de melhor preparação espiritual e psicológica.

– Escreve que, por vezes, o seu corpo e a sua alma “doíam com o desejo pela mulher”. Não é habitual padres católicos falarem deste modo, destes assuntos. Os padres deviam expressar mais este tipo de sentimentos?
– Isso é parte da experiência de muitos padres e todas as crises são uma possibilidade de ir mais além. É possível transformar a energia e sentimentos sexuais em energia espiritual. Mas não é fácil e receio que muitos seminaristas o consigam fazer.
O celibato nasceu nos mosteiros, em comunidades com uma preparação espiritual muito grande. Talvez no futuro volte a ser assim. Mas não tenho a certeza se não há um tempo para pensar na possibilidade de viri probati, homens casados, serem ordenados. Devemos falar e pensar no assunto abertamente, criticamente e de maneira responsável.

“Os padres não deviam ser uma casta. É bom ter padres que vivem no meio das pessoas comuns e partilhem o seu modo de vida.”

– O padre Halík e o seu grupo de padres clandestinos defendiam uma terceira via de padres católicos: além dos padres das paróquias e da vida monástica, deveria haver padres a trabalhar no meio das pessoas comuns e isso ser parte da sua identidade. É possível chegar a esse ponto?
– Penso que sim. No futuro será mais normal haver padres trabalhadores, um conceito que já havia em França nos anos 1950. É uma experiência que tive e pela qual estou muito grato: ser padre na paróquia e professor catedrático. É muito importante para não estar tão isolado. Os padres não deviam ser uma casta, para ultrapassar a mentalidade do clericalismo. Haverá sempre padres em paróquias e em mosteiros, mas é bom ter padres que vivem no meio das pessoas comuns e partilhem o seu modo de vida e os seus problemas com maior proximidade.

– O irmão Aloïs, de Taizé, falou, no último Sínodo dos Bispos sobre os jovens, de uma Igreja acolhedora para os jovens. Estamos longe desse desejo?
– É muito importante estar em contacto com os jovens, que nem todas as pessoas da Igreja são capazes de ouvir com paciência e humildade. Estamos habituados a ser mestres e, às vezes, temos de ser os estudantes. Não posso falar no geral. Aloïs, de Taizé, é um grande amigo e eu estive várias vezes em Taizé. A comunidade é um exemplo de como convidar os jovens a partilhar a sua experiência, a estar juntos, a rezar juntos. Tenho a mesma experiência na nossa paróquia académica: baptizei, nestes quase 30 anos, mais de dois mil jovens, após dois anos de catecumenado. A nossa paróquia está sempre cheia de jovens ao domingo, naquele a que chamam o “país mais ateu”.
Isto depende do modo como se comunica com estas pessoas e o que lhes podemos oferecer. Por isso, trabalhamos com artes, retiros espirituais, alguns com filmes e análise desses filmes, arte moderna na igreja barroca... Não é suficiente apenas celebrar a missa. As pessoas querem atmosfera na sua vida para a sua busca espiritual. Se há alguém que consegue fazer e inspirar isso, as pessoas virão. Nada está perdido mas limitar-se apenas a repetir fórmulas ou ter um “aleluia, aleluia” emocional não é suficiente.
Temos de tomar as pessoas a sério e partilhar as suas questões e problemas, termos a mente aberta, conhecendo a sua cultura e valores. É possível trabalhar com os jovens mas tem de ser de modo diferente de antes.

– Pensou em ser padre jesuíta. Porque é que a experiência e a espiritualidade jesuíta são tão importantes para si?
– Há algo de muito corajoso em ir para os lugares mais difíceis. E há uma certa disciplina e liberdade interior em ser jesuíta. Os Exercícios Espirituais são uma obra prima, no sentido de reconhecer como Deus está activo na normal experiência no dia-a-dia.
É algo que ensino aos jovens: não esperem uma grande revelação, cada acontecimento da nossa vida é uma revelação de Deus e ele está presente em todos os momentos, os bons e as crises. Há palavras de Deus em acontecimentos da nossa vida e da nossa sociedade, mas precisamos da cultura para os distinguir e contemplar, indo mais e mais fundo. Para mim, essa é uma espiritualidade muito importante para a Igreja e para o mundo.


“Escrevo os meus livros para pessoas com mentes e corações abertos, que estão à procura e que têm questões e dúvidas.”


– No livro Quero Que Tu Sejas, escreve que a questão “Deus existe?” é semelhante a “O que é o amor?” Os cristãos esqueceram esta ligação entre Deus e o amor?
– Não quero generalizar. Temos de redescobrir esta ligação entre Deus e amor porque Deus é amor. Jesus relativizou muitos valores mas havia algo que, para ele, era absoluto: o amor. Digo por vezes aos jovens que não é tão importante acreditar em Deus, mas amar Deus. E eles dizem “mas eu tenho que acreditar primeiro”. Respondo que não: apenas na experiência do amor se pode perceber o que quer dizer a palavra de Deus. Se não se tiver experiência com o amor ao mundo, aos outros, à natureza, etc., Deus será uma palavra vazia. Só na experiência de amar as pessoas se pode entender o que a palavra Deus quer dizer.

– Lemos nos seus livros muitas referências acerca de muitas outras pessoas: Chesterton, em primeiro lugar, porque é o seu autor favorito. Mas também muitos outros, diferentes, como Kafka, Bonhoeffer, Unamuno, Tillich, Thomas Merton, Rahner, Graham Greene, Fellini, Bergman, Dostoievski, James Jooyce, Jack Kerouac... Como descreveria o seu trabalho de escrita, a partir de todas essas pessoas?
– Há uma tradição na cultura humana, e também na religião e na Igreja, de pessoas que percebem o mundo e a vida como um paradoxo. Vêm os dois lados e não estão satisfeitos com perguntas simples, são capazes de sair dos paradoxos da vida. Podemos falar de São Paulo, Santo Agostinho, Blaise Pascal, Kierkegaard, Chesterton e muitos outros – incluindo o padre Tolentino [Mendonça], com quem partilho muitas semelhanças no modo de pensar.
É importante escrever livros teológicos não só como livros de dogmas e artigos de fé. Escrevo os meus livros para pessoas com mentes e corações abertos, que estão à procura e que têm questões e dúvidas, com sensibilidade espiritual. Não estão satisfeitas com as respostas simples para questões complicadas e muitas delas precisam de alguém que as acompanhe – não que as manipule, mas que as acompanhe. Esse é o sentido da minha literatura e do meu trabalho pastoral.
in Blog http://religionline.blogspot.com

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Exclusive: Archbishop Scicluna says February meeting start of ‘global approach’ to fighting sex abuse
Gerard O’Connell
In a decision highlighting the great importance he gives to next February’s summit meeting on “the protection of minors in the church,” to which he has called the presidents of all the Catholic bishops conferences, Pope Francis has appointed a high-powered steering committee to oversee the project.

The committee is composed of two cardinals, Blase Cupich (Chicago) and Oswald Gracias (Bombay, India), and two of the church’s experts in the field: Archbishop Charles Scicluna (Malta), and Father Hans Zollner, a German Jesuit and president of the Center for Child Protection and Director and professor of psychology at the Gregorian University in Rome, who will serve as coordinator. The Vatican announced this today, November 23.

In this exclusive interview with America, Archbishop Scicluna, whom the pope recently appointed as adjunct secretary of the Congregation for the Doctrine of the Faith and who is also the president of its tribunal for appeals, speaks about the significance and goals of the February meeting, and how it will be conducted.

The Vatican announced today the archbishop will serve on a committee overseeing the Vatican meeting along with Cardinals Blase Cupich and Oswald Gracias and Jesuit Father Hans Zollner.

He described it as “a synodal meeting, the first ever of its kind to address the issue of the sexual abuse of minors in the church.“ It is “quite significant” because it brings together the presidents of over 100 bishops conferences from around the world, and the heads of all the Eastern-rite Catholic churches. Moreover, it is “a very important sign of what we call in technical terms ‘affective collegiality,’ which means the bringing together of bishops from around the world with the Holy Father to discuss important issues and to get them to be on the same page with the Holy Father.”

He said Pope Francis called this summit meeting because “he realizes that this issue,” namely the protection of children and the prevention and addressing of sexual abuse by clergy in the church, “has to be top on the church’s agenda.” The pope realizes that “this is a global issue, it is not a case of geographical or cultural criteria, rather it is a global issue which the church would want to approach with a united front, with respect for the different cultures but with a united resolve and with people being on the same page on it.”

While acknowledging that it is only four days long (Feb. 21-24) and “is certainly not going to solve everything,” Archbishop Scicluna emphasized that “it is a very important start of a global process which will take quite some time to perfect.” As a result of this process he hopes that “a number of initiatives on a continental level will start to happen that will re-create the atmosphere of resolve, determination but also purpose which I hope will mark the Rome meeting,” and will help “to address the issues in a different number of cultures, that have their own restraints, their own important positive aspects but also deficits that have to be discussed on a continental but also local level.”

Archbishop Scicluna described the February meeting as “the beginning of a new approach that I hope will be global, because it concerns the whole church, but it will also have a very important local context because safeguarding is not something up-there, it can’t be abstract, it has to be lived in every parish, in every school, in every diocese, and so it has to have an effect on the local level otherwise it’s not effective at all.”

He explained that the “main goals” of the meeting “are to make bishops realize and discuss together the fact that the sexual abuse of minors is not only an egregious phenomenon in itself and a crime, but it is also a very grave symptom of something deeper, which is actually a crisis in the way we approach ministry. Some call it clericalism, others call it a perversion of the ministry.”

He recalled that Pope Francis “has talked a lot about the way we go on with the stewardship of the community, not only as bishops but also as priests,” and said “the issue not only concerns the individual tragic cases of misconduct and the impact of that crime on the most vulnerable, the children, but also the way stewardship is exercised when we are faced with the issues; so the way we treat perpetrators, the way we treat victims, the way we treat the community.” All this will be discussed in February.

“Accountability is part of stewardship,” the archbishop stated. “Stewardship is not only accountability to God and to our conscience, but also to our community,” he explained; “stewardship means doing your job and doing it properly, especially when it is a question of care,” whereas “cover-up” is “the antithesis of stewardship.” “When you cover-up,” he said, “you are actually not solving a problem, you are deciding not to address it, you are deciding to hide important consequences and avoid the demands of justice, which is certainly not good stewardship.” He emphasized that “we have to move away from panic-driven policies that put the good name of the institution above all other considerations” and “in the end, those policies do reputational damage to the institution; they are actually also counterproductive, and it’s a no-go area.” He insisted that “we need to move forward from any temptation to cover up any crimes. It is only the truth will set us free.”

Archbishop Charles Scicluna of Malta arrives in Osorno, Chile, on June 14, beginning a pastoral mission to promote healing in the wake of a clerical sexual abuse crisis. (CNS photo/courtesy of Archdiocese of Santiago)
    
Archbishop Scicluna declared that “if we have a sickness in the body of the church, we need to face it, not to hide it, because otherwise it will grow and do more damage.” He recalled that Pope Francis “addressed the question of accountability in a law that he promulgated in 2016,” in the decree “As a Loving Mother,” which “creates a procedure whereby bishops who are negligent or not up to standard with their stewardship can be removed.” Indeed, he said, “there is an old tradition according to which, if the bishop is going to cause harm with his stewardship, then the See of Rome has the right and the duty to remove such a bishop.”

In this context, he emphasized that “we cannot avoid the important theological aspect that we bishops are stewards in a hierarchical communion together with the Holy Father, and so there is a jurisdiction of the Holy Father over each and every one of us bishops that we have to respect when we talk of accountability within the context of the Roman Catholic Church.”

He said the February meeting aims to get bishops and religious superiors “to realize the gravity of the situation,” to accept ownership of the issue, and then “to address questions of stewardship,” which means “not only how we care about our children, but also how we deal with cases [of abuse] and so questions of accountability and transparency are of the utmost importance,” and will be discussed at the meeting.

In this context, he said, “we bishops need to approach the issue of the sexual abuse of minors together as churches, and we also need to adopt what Pope Francis is calling ‘a synodal approach,’ that is we cannot do it alone in our community, we need also to empower the lay people, the laity, in order to help us be good stewards.”

He believes the meeting will communicate “the important message” that “the prevention of abuse and protection and safeguarding of our children and young people is not a question only of the bishop, it is a synodal issue; it is something that involves the whole church and everyone in the church around the world; it concerns one and all.”

Insisting on “this synodal aspect,” Archbishop Scicluna said, “it is not only bringing the bishops together but also approaching it on the local level as a community, in a synodal process. It takes a village to educate a child, and it takes a village to prevent abuse and to approach it properly wherever, unfortunately, it happens.”

He said Pope Francis wants the church to move forward on this question in a synodal manner, following the doctrine of the Second Vatican Council. He explained that “synodality means that we appreciate the different charisms and gifts of the laity, their expertise, and that we empower them to join bishops in the role of stewardship.” He added, “it’s not a question of having control over the hierarchy, it is the hierarchy empowering and facilitating the sharing of charisms which the Spirit also gives to the laity, because there are gifts there that will help issues of prevention and safeguarding that we need to bring on board, and we need to facilitate as bishops.”

He recalled that Pope Francis highlighted this synodal aspect in confronting abuse in his “Letter to the People of God” before his visit to Dublin last August; “he wants that to be on the agenda of every conference of bishops around the world” and at the Rome meeting he wants the bishops “to listen to victims, to talk to experts, and to listen to each other and to the concern that this issue brings before them.”

He expects the February meeting in process and structure to be somewhat like a synod in so far as “there are going to be plenary sessions; there are going to be language groups working, and then reporting back; there are going to be prayer groups; there are going to be listening to different stake-holders. It’s going to be a mixture of information, formation, discussion. The idea is that certain values are not only agreed upon, but also that certain priorities are put forward and adopted by the bishops.”

There will be “a penitential liturgy” during the meeting because “Pope Francis wants it,” Archbishop Scicluna said, “and victims are going to be a part of that liturgy too, just as they will be consulted in advance of the meeting, and be listened to during it.”

Some have spoken about the need for changes in Canon Law so as to deal properly with the abuse issue. Commenting on this, Archbishop Scicluna said, “Canon law always follows reality. To a certain extent it does form people in a certain context like the 1983 code of canon law did form a generation in the implementation of Vatican II.” Since canon law follows reality, he said, “it will have to change in response to new issues and new priorities in the church.” He envisaged, for example, the possibility of changes that would give “a stronger role for the metropolitan bishops” and “a bigger role for the victims in canonical penal processes.” He doesn’t think the February meeting “is going to enter into the details of such reforms of canon law” but he expects that “there will be an important input that will start a process that may actually get a reform of canon law.”

Archbishop Scicluna hopes “that the spirit of this meeting will be positive and proactive, and will also help to give a sign of hope to the bishops themselves, to the whole church, to the People of God, and, importantly to leadership at all levels in the church.”

The Vatican announced that in addition to the presidents of the bishops conferences and the heads of the Eastern-rite Catholic churches, there will be other participants too at the February meeting, including the prefects of the C.D.F. and the congregations for the evangelization of peoples, the oriental churches, bishops, the institutes of consecrated life and the societies of apostolic life, and of the dicastery for laity, the family and life. Representatives of the Union of Religious Superiors and of the International Union of Superiors Generals are also invited.

The Maltese archbishop underlined the importance of the presence of these major superiors because “they have hundreds of religious under their care, most of them priests but also even lay religious and they also are important stakeholders in education, in formation and in pastoral care. Superior Generals for women religious will also be present. It is very, very important to have the major superiors present and part of this process.”

In its statement today, the Vatican revealed that besides the four members of the steering committee, many other people are involved in the preparation for the meeting, including lay experts and two lay women who are under-secretaries from the dicastery for the Laity, the Family and Life: Gabriella Gambino and Linda Ghisoni. The Commission for the Protection of Minors, headed by Cardinal Sean O’Malley, is also involved and, most importantly, so too are “some victims of abuse by clergy.”

Referring to the steering committee, Archbishop Scicluna said Pope Francis chose its four members to be “responsible for the organization” and “for advising him” and the Secretariat of States. Their task is to oversee the preparation for the meeting, and to ensure that everything is done properly. He emphasized that the choice of Father Zollner as coordinator of the committee is “an important reminder” that the meeting is “not only about stewardship, it’s also about reflective stewardship”; he brings “the expertise of psychology and best practices in prevention, which have to be part and parcel of the stewardship role of the church.”

He concluded by repeating that the meeting is only “the beginning of a process” and when it ends “we’ll have to leave the Holy Father and his close collaborators any decisions for further meetings on a continental basis, on a more decentralized basis. This is the beginning of a process, it is not the beginning and end of something.”

in America The Jesuit Review, 23.11.2018
/www.americamagazine.org/faith/2018/11/23/exclusive-archbishop-scicluna-says-february-meeting-start-global-approach-fighting?fbclid=IwAR3vNioNA1usYtNTKeNbabE05Fue4cltAcG_z5866-7Up_3tXCzHXVGgtoY

NOTA: Também pode ler em português Papa cria comissão para organizar reunião inédita sobre abusos sexuais, no site da Agência Ecclesia, http://www.agencia.ecclesia.pt/portal/vaticano-papa-cria-comissao-para-organizar-reuniao-inedita-sobre-abusos-sexuais/  



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