17 fevereiro 2019

       
 P / INFO: Crónicas & Coluna
Os outros estão a mais? (1), Frei Bento
Islamofobia e Cristianofobia, P. Anselmo
A beleza da Família, P. Tolentino
Mudar os corações, P. Vitor Gonçalves
&
From Where I Stand
Coluna mensal da Irmã Joan Chittister
Our differences will make the difference in our future

OS OUTROS ESTÃO A MAIS? (1)
Frei Bento Domingues, O.P.

1. Nietzsche (1844-1900), um dos primeiros filósofos que estudei, é uma figura de contrastes desmedidos. Tem tanto de visionário fascinante como de classificador irritante. Disse o pior do Sermão da Montanha, uma das peças mais belas e revolucionárias do Novo Testamento[1], proposto, hoje, como desafio às comunidades eucarísticas. Classificou-o como um atentado contra a natureza: a vida acaba quando começa o Reino de Deus e a prática da Igreja aí está para o confirmar[2].
Deixemos, para já, o sermão de Nietzsche, sermão da morte de Deus em nome da exaltação da vida e do Super- Homem, aproveitado pelos nazis para a glorificação do crime nacionalista, anti-semita e racista.
 No entanto, as religiões estão em maus lençóis por razões mais óbvias e imediatas. A embriaguez criada pelas revoluções, agrícola, científica, industrial e cultural ainda não serenou. Tornou-se mais aguda. Entrou em delírio. O império da tecnociência em todos os domínios e, agora, as promessas do reino prometido da inteligência artificial, nas suas infindáveis aplicações, estariam a deixar Deus cada vez mais desempregado. Por outro lado, diz-se que a extensão da robótica se encarregará de dispensar aqueles que a criaram. Depois da morte de Deus viria, não a emancipação, mas a morte do ser humano. Já há muito tempo que desconfio de tanta promessa e de tanta ameaça.
Yuval Noah Harari escreveu um livro sedutor[3]. Termina o posfácio de um modo pouco entusiasmante: «Estamos mais poderosos do que alguma vez estivemos, mas não fazemos a mínima ideia do que fazer com todo esse poder. Mas pior ainda é que os humanos parecem mais irresponsáveis do que nunca. Deuses autoproclamados, com apenas as leis da física para nos fazerem companhia, não somos responsabilizados por ninguém. Estamos, assim, a espalhar o caos sobre os nossos companheiros animais e o ecossistema envolvente, em busca de pouco mais do que o nosso próprio conforto e divertimento, sem, no entanto, nos darmos por satisfeitos».
Estar insatisfeito é a maior graça humana. Significa que o ser humano ainda não está acabado. Mas pergunta o citado autor: «Existirá algo mais perigoso do que deuses insatisfeitos e irresponsáveis que não sabem o que querem?»
2. Há várias formulações para esses entusiasmos e medos. Nesse primeiro ponto, fica a ideia de uma rivalidade radical entre Deus e o ser humano. Antigamente, essa rivalidade tinha a formulação de uma espiritualidade conflitual: se damos muito a Deus, tiramos ao ser humano; se damos muito ao ser humano, roubamos a Deus. Esta forma de falar de Deus nada tem a ver com a que S. Paulo descobriu em poetas gentios: na divindade temos a vida, o movimento e o ser[4]. Nessa perspectiva, os dois entendem-se bem: um recebe o outro como pura graça existencial. Não há clima para um antagonismo entre as descobertas e criações humanas e a presença divina vivificante. Estão mutuamente implicados com regozijo recíproco. Ao pensar num, surge a apreciada diferença do outro.
A persistência da ideia de rivalidade tem razões históricas bem documentadas, resultado de uma antropologia e de uma teologia que não podiam conviver. A beleza da própria ética de que fala o Génesis[5]não vale tudo – é diabolicamente interpretada como a ordem de um deus assustado com o alargamento da ciência humana. É o índice de uma persistente e falsa rivalidade entre o divino e o humano. Não são capazes de viver na alegria recíproca.
Com a simbólica narrativa da morte de Abel pela inveja do seu irmão Caim alarga-se o mito da rivalidade. Este mundo, na diferença humana, é de todos e para todos, de todos os povos e culturas, é a vocação de irmãos. Não há duas humanidades, a nossa e a dos outros! A ficção narrada pretende mostrar que uns são de Deus e outros do diabo. O outro, se não nos ajudar, é o nosso inferno que é preciso destruir.
Nessa concepção não há lugar para todos. Ao falar de Abel e Caim como irmãos, o conto fratricida do Génesis não perdeu actualidade. O mundo de hoje é completamente diferente daquela sociedade de pastores e agricultores, mas a tentação de julgar que este mundo não dá para todos é a mesma.
Os avanços científicos e técnicos dos últimos tempos conseguiram resultados espectaculares em todos os âmbitos do progresso aplicável ao ser humano e ao seu ambiente. Apesar dos conflitos locais e globais, de guerras declaradas e latentes, seria ridículo não reconhecer os avanços espectaculares alcançados.
Existe um pequenino senão: as desigualdades entre países e continentes, e dentro de muitos países, acentuaram-se. Não se pensa na arte de construir pontes entre os seres humanos, mas no dinheiro que é preciso para levantar muros físicos ou simbólicos. O destino universal de todos os bens do planeta é uma afirmação de generosidade.
Entretanto, as vítimas das guerras, da pobreza imposta, da miséria e das doenças que provoca, não manifestam grande vontade de filosofar ou de fazer exercícios de espiritualidade zen.
As obras que se escreveram e escrevem a anunciar as datas do fim da pobreza imposta, com certo aparato científico, parecem seguir a lógicas das Testemunhas de Jeová a anunciar o fim do mundo.
Como apontámos, as estatísticas vão mostrando avanços e recuos, segundo os países e os continentes, das medidas para erradicar essa vergonha. As estatísticas não podem contabilizar os pobres que vão tendo a morte, antes de tempo, como solução.
Para além disto, as desigualdades entre ricos e pobres acentuam-se. A distância entre o que certas pessoas ganham e o mínimo que outras conseguem para sobreviver, no seu dia-a-dia, poderia ser um pecado que bradaria aos céus se neles acreditassem.
Consta que existe uma espiritualidade para consumidores neoliberais. Diz-se que os seus exercícios espirituais são engenhosos. Usam receitas de marca individualista/consumista, corporativa/capitalista.
A homilia que o Papa Francisco fez em Abu Dhabi diz que há outras formas de ser feliz. São paradoxais como as do Evangelho, mas nunca tornaram ninguém desgraçado. Assinou com o Grão Imame de Al-Azhar um notável documento sobre a Fraternidade Humana.
Que fazer para o não deixar nos arquivos religiosos?
Fica para a próxima crónica.
in Público17.02.2019


[1] Lc 6, 17-26; Mt 5, 1-12 (ver os contrastes entre as duas versões)
[2] A moral como contra-natureza, in Nietzsche. O Crepúsculo dos Ídolos, Prisa Innova, 2008, 511-518
[3] Sapiens. De Animais a Deuses. História Breve da Humanidade, Elsinore, uma chancela da 20/20 Editora, 2018. Depois deste já saiu o Homo Deus. História Breve do Amanhã.
[4] Actos 17, 27-28
[5] Gn 3

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ISLAMOFOBIA E CRISTIANOFOBIA

A BELEZA DA FAMÍLIA
Anselmo Borges



1. Não há dúvida de que a visita do Papa Francisco aos Emiratos Árabes Unidos de 3 a 5 deste mês constituiu uma visita para a História, como aqui procurei mostrar na semana passada. O próprio Francisco caracterizou a sua viagem como “uma nova página no diálogo entre Cristianismo e Islão”. É preciso ler e estudar o “Documento sobre a Fraternidade Humana”, então assinado por ele e pelo Grande Imã de Al-Azhar. Também foi a primeira vez que um Papa celebrou Missa para 150.000 cristãos na Península Arábica, berço do islão, num espaço público.
Já de regresso ao Vaticano, na habitual conferência de imprensa no avião, um jornalista perguntou-lhe que “consequências terá também entre os católicos o Documento, considerando que há uma parte dos católicos que o acusam de deixar-se instrumentalizar pelos muçulmanos...” E Francisco: “E não só pelos muçulmanos... (riu-se). Acusam-me de me deixar instrumentalizar por todos, incluindo os jornalistas. É parte do trabalho, mas gostaria de dizer uma coisa. Do ponto de vista católico, o Documento não se separou nem um milímetro do Vaticano II, que até é citado várias vezes. Se alguém se sentir mal, eu compreendo-o, pois não é algo de todos os dias..., mas não é um passo atrás, é um passo para diante... É um processo e os processos amadurecem.”
Outro jornalista observou: “O Imã de Al-Azhar, Ahmed al-Tayeb, denunciou a islamofobia. Porque é que não se disse nada sobre a cristianofobia, sobre a perseguição aos cristãos?” E o Papa Francisco: “Falei sobre a perseguição aos cristãos. Também falo sobre ela frequentemente. Inclusive nesta viagem falei sobre isso. Também o Documento condena a violência, e alguns grupos que se dizem islâmicos (os Sábios dizem que não é o islão) perseguem os cristãos.” E, aqui, Francisco relembrou uma história absolutamente comovente, que já contara com mais pormenores em 2017. Em 22 de Abril de 2017, na Basílica de São Bartolomeu na Ilha Tiberina em Roma, o Papa Francisco, com a Comunidade de Santo Egídio, presidiu a uma Liturgia da Palavra em memória dos novos mártires dos séculos XX e XXI. E ficaram estas palavras de profundidade incomensurável, apontando, com comoção que nos abala, para a religião na sua verdade humana e divina: “Eu quero, hoje, acrescentar mais um ícone a esta igreja. Uma mulher. Não sei o seu nome. Mas ela olha para nós lá do Céu. Eu estava em Lesbos, saudava os refugiados e encontrei um homem de 30 anos, com três crianças. Olhou para mim e disse-me: ‘Padre, eu sou muçulmano. A minha mulher era cristã. Os terroristas chegaram ao nosso país, olharam para nós e perguntaram-nos qual era a nossa religião e viram-na a ela com um crucifixo. Disseram-lhe que o atirasse ao chão. Ela recusou, não o fez. E degolaram-na diante de mim. Amávamo-nos muito, gostávamos muito um do outro.” “Este é, continuou Francisco, o ícone que trago aqui como presente. Não sei se esse homem ainda está em Lesbos ou se conseguiu ir para outro lado. Não sei se conseguiu sair desse campo de concentração, porque os campos de refugiados — muitos — são de concentração, devido à quantidade de gente que ali é deixada (...). E este homem não tinha rancor: ele, muçulmano, tinha esta cruz da dor que levava sem rancor. Refugiava-se no amor da mulher, salva pelo martírio.”
2. Precisamente no contexto do magno acontecimento histórico que foi esta visita, quero relembrar que, entre os pressupostos para um diálogo inter-religioso autêntico, há dois que são imprescindíveis. Refiro-me concretamente a uma leitura histórico-crítica dos textos sagrados e à laicidade do Estado.
Estes pressupostos são universais, mas têm particular importância para o cristianismo e o islão (deve-se distinguir entre islão e islamismo, este já com o sentido de islão extremista), pois o número dos cristãos e dos muçulmanos é superior a mais de metade da Humanidade, o que significa que o entendimento entre eles é essencial para o futuro.
A Igreja Católica nomeadamente teve dificuldade em aplicar estes pressupostos, que aceitou plenamente apenas no Concílio Vaticano II. De qualquer forma, já havia indicações no Novo Testamento e no fundador. Assim, nunca os teólogos católicos referiram a Bíblia como ditada por Deus, mas como Palavra de Deus em palavras humanas, o que implica a exigência de interpretação. Jesus disse: “Dai a César o que de César e a Deus o que é de Deus”. E, chegado a Jerusalém, foi morto, manifestando-se contra toda a violência, dizendo a Pedro: “Mete a espada na bainha, pois quem com ferros mata com ferros morre”. Isto significa que, quando os cristãos olham para os horrores cometidos por eles ao longo da História, têm de reconhecê-los e pedir perdão, pois atraiçoaram Jesus, o fundador.
O que para a Igreja católica foi difícil vai sê-lo ainda mais para o islão. De facto, muitos defendem que o Corão foi ditado por Deus ou que é cópia do Corão eterno, e, por isso, lêem-no à letra, com todos os riscos de barbárie. E o fundador, Maomé, foi ao mesmo tempo um profeta, um chefe de Estado e um combatente em várias batalhas. Com razão, escreveu o filósofo Slavoj Zizek, citando M. Safouan: “A marca distintiva do islão é ser uma religião que não se institucionaliza a si mesma e que, ao contrário do cristianismo, não se equipa com uma Igreja. Na verdade, a Igreja Islâmica é o Estado Islâmico: foi o Estado que inventou a chamada ‘mais alta autoridade religiosa’ e é o chefe de Estado quem nomeia o homem que deve ocupar esse cargo; é o Estado que manda construir as grandes mesquitas, que supervisiona a educação religiosa; é ainda o Estado que cria as universidades, que exerce a censura em todos os domínios da cultura e que se considera ser o guardião da moralidade”.
Evidentemente, a laicidade não é laicismo, que seria a religião da não religião, no sentido de remeter a religião para o espaço privado ou íntimo, sem lugar no espaço público. Sendo a religião uma dimensão constitutiva do ser humano e estruturante da cultura, é evidente que tem de ter lugar também no espaço público, e as religiões têm o direito de debater as grandes questões das sociedades, concretamente as referentes à bioética, e tentar fazer triunfar as suas posições. Qual é a diferença, quando há laicidade, separação da(s) Igreja(s) e do Estado, da religião e da política? Neste caso, a lei não é a lei religiosa, mas a lei votada democraticamente, em democracia pluralista, no Parlamento.
in DN, 17 de Fevereiro de 2019
www.dn.pt/edicao-do-dia/17-fev-2019/interior/islamofobia-e-cristianofobia--10585118.html?target=conteudo_fechado

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QUE COISA SÃO AS NUVENS
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

A BELEZA DA FAMÍLIA
A FAMÍLIA É, CERTAMENTE, O LUGAR ONDE NOS ENCONTRAMOS, MAS TAMBÉM AQUELE ONDE NOS PERDEMOS

A família não é apenas uma invenção cultural, nem é simplesmente um formato que a civilização emprestou à vida comum. Compete-lhe um papel e, com isso, também uma dignidade que é anterior à própria cultura — porque ela emerge como raiz da existência. Muitas vezes, só nos apercebemos de tal muito depois, quando rememoramos o significado desses laços vividos onde o amor incondicional circula, quando medimos a desmesura da sua gratuitidade e apreendemos, assim, a grandeza do dom que a família põe em ato. Por alguma razão vital cada um de nós precisa de uma família, é fruto e consequência de um ambiente familiar concreto, e é, até ao fim, um seu construtor.

A família não é uma coisa estática e preexistente, mas um dinamismo. Não vive da nostalgia de um mapa idealizado, mas é um chamamento objetivo, uma estrada que se identifica à medida que vem percorrida, um estaleiro permanente, plástico, cheio de possibilidades. Não pode ser o piloto automático a comandar o destino de uma família: esta é uma tarefa na qual a possibilidade de sermos felizes se joga, uma aventura que se descobre e redescobre em continuação, que nos empenha com esforço, que pede um investimento total das nossas forças e, em algumas situações, mesmo daquilo que está para lá das nossas forças, mas que nos qualifica de uma forma humana decisiva.

A família é um laboratório do presente que se arrisca, onde todos são protagonistas, num exercício efetivo de corresponsabilidade

Não basta o conhecimento de ontem para viver bem a família: é preciso o amor atualizado de hoje e o movimento que ele de novo gera (e recostura, e recompõe, e repara). Não basta a grata memória passada: é preciso o humilde gesto de hoje; é indispensável a esperança de hoje com o seu gosto de vida recomeçada, mesmo se frágil e imprecisa; a entrega mais uma vez repetida. Não, não basta o pão dos dias anteriores, nem as migalhas reluzentes do que foi. A família é um laboratório do presente que se arrisca, onde todos são protagonistas, num exercício efetivo de corresponsabilidade. Não há simplesmente um que dá e outro que recebe. A família não é lugar para esquemas unidirecionais, e ninguém é deixado de fora. A atenção, a paixão e o cuidado, de que cada um é capaz, urdem silenciosamente a força misteriosa que no conjunto se experimenta.

O Evangelho de Lucas, em relação à sagrada família de Nazaré, relata um episódio desconcertante: Maria e José perdem de vista Jesus, procuram-no em vão entre parentes e familiares e acabam por encontrá-lo, com espanto, num contexto que não esperavam (no templo, a discutir com os doutores da lei). Quando o interpelam, não chegam a entender a explicação que ele lhes dá. Mas regressam os três para casa. Este é, no fundo, um episódio menos enigmático do que parece, pois a família é o espaço onde acolhemos, uns dos outros, a verdade que nem sempre conseguimos compreender. A família é, certamente, o lugar onde nos encontramos, mas também aquele onde nos perdemos. Por isso, na comunidade familiar, temos sempre de nos buscar, pois, na verdade, não sabemos onde o outro está. É uma ilusão pensar que se o outro está próximo sabemos onde está! A beleza da família é esta aprendizagem serena da diferença, a arte de guardar aquilo que não se entende, aquilo que, porventura, não é o sonho inicial. Não devemos supor que a família seja um horizonte de fusão, onde nunca ocorrerão problemas ou feridas. Pelo contrário. É, talvez, a propósito da família que correrão, no nosso rosto, as lágrimas mais difíceis que cada um de nós tem para chorar. Mas o segredo é abraçar tudo isto sem desanimar, sentindo-se dentro de uma espécie de dança, que, mesmo se nos esvazia, também enche a nossa taça até ao cimo, até ela transbordar.
in Semanário Expresso, 16.02.2019
http://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2416/html/revista-e/que-coisas-sao-as-nuvens/A-beleza-da-familia

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À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves
DOMINGO VI COMUM Ano C
"Bem-aventurados vós, os pobres,
porque é vosso o reino de Deus.”
Lc 6, 20

Mudar os corações

Gosto muito de “road movies”. Não só pelas belas paisagens que habitualmente oferecem, mas principalmente pelo efeito da viagem na vida dos viajantes. Há um sabor de peregrinação, que tem origem no latim “per agros”, “pelos campos”, nestas narrativas em que o caminho é também pelos campos largos das almas. Neles regresso também ao convite de Jesus, que chamou os discípulos para andarem com Ele, numa viagem de 3 anos até à Páscoa. Assim gostei de ver o filme “Green Book – Um guia para a vida”, de Peter Farrelly, com Viggo Mortensen e Mahershala Ali, que interpretam a história verídica de uma amizade improvável entre um condutor branco e um célebre pianista negro, numa viagem por terras do sul norte-americano nos anos 60. A planura da paisagem contrasta com os abismos interiores onde surge a nu a hipocrisia e as consequências do racismo e do preconceito. Como é dito: “com violência nunca se ganha, só se ganha quando se mantém a dignidade”; e também, “é preciso coragem para mudar o coração das pessoas”.
Conhecemos dois relatos de “bem-aventuranças” ditas por Jesus. Em Mateus e em Lucas. As primeiras, sete, têm um sabor religioso e sapiencial, Jesus di-las num monte (como “novo Moisés”), sentado (em atitude de ensino). As que escutamos hoje são quatro, seguidas de quatro “Ai de vós…” (em advertência), ditas numa planície (onde os pobres e os doentes podem ir mais facilmente), com Jesus de pé (num tom profético), a falar da indigência e dos sofrimentos dos pobres. Certamente relatam dois momentos diferentes na pregação de Jesus, captados pela sensibilidade própria dos evangelistas. Não são elogio à pobreza e miserabilismo, nem ódio às riquezas e aos bens. Vejo nelas a coragem de Jesus “para mudar os corações”, e propor a verdadeira felicidade dos que confiam em Deus (e não nas riquezas ou na fama), e tudo põem ao serviço dos outros, na justiça e na paz.
A predilecção de Jesus pelos mais necessitados e aflitos é um traço comum em Lucas. A advertência aos ricos desmascara os auto-suficientes, indiferentes e gananciosos, que endeusam os bens. Geram infelicidade os bens que não servem para promover e partilhar vida. Os que vivem saciados, indiferentes à injustiça que provoca miséria, também são advertidos. Se ao menos distribuíssem o que lhes sobra! Assim também a alegria egoísta e alienante, de quem não olha à sua volta, nem se deixa tocar pelas tristezas do mundo. Gasta-se depressa a alegria que não é multiplicada.
Comecei com viagens e volto a elas. Não se muda o coração de um dia para o outro. Sem caminhos comuns, conhecimento mútuo, respeito pelas diferenças, mútua necessidade, alegrias e tristezas partilhadas, bens dados e recebidos, por maior que pareça a felicidade, estaremos sempre enganados. Só quando desejo e contribuo para a felicidade de outros e com outros, é que sou feliz. Aí começarei a entender o próprio coração de Deus!
in Voz da Verdade, 2019.02.17

https://www.facebook.com/vitor.goncalves.56884?fref=hovercard&hc_location=chat

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Our differences will make the difference in our future

Benedict's second principle is crucial for nourishing a better tomorrow

Differences are a big thing in the United States. And always have been. We love to say that human beings are all equal, all alike, all welcome, all free to participate in the purpose and fulfillment of life. And that's true — but not totally true. In fact, we have never, all of us, been anything close to that.
Whole populations have been excluded from American society and or citizenship at any given time in our history. Ask the Native Americans, African-Americans, or women.
Ask Catholics whether they got a warm welcome here in the 19th century. Ask the Chinese who were allowed to build our transcontinental railroads but were not free to seek citizenship.
Ask Eastern Europeans how it felt to integrate into the United States. Ask the Japanese what they went through trying to be seen as Americans — even to this day. Ask Central Americans and other Hispanics who have picked our fruit and vegetables for decades now how American they feel yet. How welcome. How cared for — even if they were born here in a country with a birthright clause that it is now seeking to ignore.
No doubt about it: Differences are a big thing. They keep a society alive. They are a well of creativity, a signal of new possibilities. They are the resources that nourish a new future for us all. Which is exactly where Benedict's second principle of life comes in.
We are told, first, to be aware of the overarching presence of God in life. Then, the second principle of humility proceeds logically from the first: If God is the driving force in our life, then the will of that Loving God will, of course, be best for us, for everyone.
If, that is, we do not try to substitute our will for the will of the Creator for creation.
But what exactly is the will of God for humankind? The answer comes back clear and simple through the Prophet Jeremiah: "I wish you well," says God, "and not woe."
God's will for creation, according to the second degree of humility in the Rule of Benedict, is the fullness of creation, all of creation. And if you really believe that the One God created us all, then you must realize that God's will for us is God's will for everyone: It is "well and not woe."
Then our current mantra "America first" topples over with a thud heard round the world. Then we wonder why we never feel really secure now. Then we figure out that in order "to win, win, win," we must, of course, pit ourselves against the rest of the world. Which really means that America will never be great again. As in greatly peaceful, greatly caring, greatly trusting, greatly at peace in the world.
I can understand that for some it might feel like a stretch to use a spirituality of the sixth century as a mirror of the 21st. But the fact is that though history has changed in the interim, humanity has not.
The same emotions, assumptions, values and attitudes in one century simply keep appearing in situation after situation because they are endemic to human nature. They are the stuff of human growth — and of human deterioration, as well. The same feelings, fears, desires and aspirations appear again and again, sometimes to the glory of the human race, sometimes to our shame.
For instance, Alexander the Great set out to build the empire to end all empires and so did Hitler, but neither of them succeeded. Caesar fell out with his advisers and so did Churchill. People sent their sons to die in the French Revolution centuries ago, just as we did in ours. The Reformation churches struggled with how to honor the dogmas of the church and still renew it — and so have we.
The truth is that it's no stretch at all to compare how the human profile is still built on body and mind, matter and spirit, reason and feeling. Or as the Jewish character Shylock in Shakespeare's The Merchant of Venice puts it in his claims to be part of universal humanity in antisemitic Venice by saying,

Hath not a Jew
hands, organs, dimensions, senses, affections, passions? …
If you prick us, do we not bleed?
If you tickle us, do we not laugh?
If you poison us, do we not die?

Are we not all the same? Indeed, on the second degree of humility — to want "well and not woe" for everyone — rests the indestructible bond of human relations.
Heraclitus writes, "Character is fate." Are human dignity, the decency of respect, and delight in the things of creation not the real answer to human contentment, to world peace, to honorable and holy human relations?
From where I stand, that does not mean that we will have less. It does mean that we will wish for others what we need for ourselves and, with incontestable Christian character, join them in their right to have it.

[Joan Chittister is a Benedictine sister of Erie, Pennsylvania.]

Editor's note: We can send you an email alert every time Joan Chittister's column, From Where I Stand, is posted to NCRonline.org. Go to this page and follow directions: Email alert sign-up.
in NCR, 13.02.2019
https://www.ncronline.org/news/opinion/where-i-stand/our-differences-will-make-difference-our-future


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