17 fevereiro 2019

       
 P / INFO: Crónicas & Coluna
Os outros estão a mais? (1), Frei Bento
Islamofobia e Cristianofobia, P. Anselmo
A beleza da Família, P. Tolentino
Mudar os corações, P. Vitor Gonçalves
&
From Where I Stand
Coluna mensal da Irmã Joan Chittister
Our differences will make the difference in our future

OS OUTROS ESTÃO A MAIS? (1)
Frei Bento Domingues, O.P.

1. Nietzsche (1844-1900), um dos primeiros filósofos que estudei, é uma figura de contrastes desmedidos. Tem tanto de visionário fascinante como de classificador irritante. Disse o pior do Sermão da Montanha, uma das peças mais belas e revolucionárias do Novo Testamento[1], proposto, hoje, como desafio às comunidades eucarísticas. Classificou-o como um atentado contra a natureza: a vida acaba quando começa o Reino de Deus e a prática da Igreja aí está para o confirmar[2].
Deixemos, para já, o sermão de Nietzsche, sermão da morte de Deus em nome da exaltação da vida e do Super- Homem, aproveitado pelos nazis para a glorificação do crime nacionalista, anti-semita e racista.
 No entanto, as religiões estão em maus lençóis por razões mais óbvias e imediatas. A embriaguez criada pelas revoluções, agrícola, científica, industrial e cultural ainda não serenou. Tornou-se mais aguda. Entrou em delírio. O império da tecnociência em todos os domínios e, agora, as promessas do reino prometido da inteligência artificial, nas suas infindáveis aplicações, estariam a deixar Deus cada vez mais desempregado. Por outro lado, diz-se que a extensão da robótica se encarregará de dispensar aqueles que a criaram. Depois da morte de Deus viria, não a emancipação, mas a morte do ser humano. Já há muito tempo que desconfio de tanta promessa e de tanta ameaça.
Yuval Noah Harari escreveu um livro sedutor[3]. Termina o posfácio de um modo pouco entusiasmante: «Estamos mais poderosos do que alguma vez estivemos, mas não fazemos a mínima ideia do que fazer com todo esse poder. Mas pior ainda é que os humanos parecem mais irresponsáveis do que nunca. Deuses autoproclamados, com apenas as leis da física para nos fazerem companhia, não somos responsabilizados por ninguém. Estamos, assim, a espalhar o caos sobre os nossos companheiros animais e o ecossistema envolvente, em busca de pouco mais do que o nosso próprio conforto e divertimento, sem, no entanto, nos darmos por satisfeitos».
Estar insatisfeito é a maior graça humana. Significa que o ser humano ainda não está acabado. Mas pergunta o citado autor: «Existirá algo mais perigoso do que deuses insatisfeitos e irresponsáveis que não sabem o que querem?»
2. Há várias formulações para esses entusiasmos e medos. Nesse primeiro ponto, fica a ideia de uma rivalidade radical entre Deus e o ser humano. Antigamente, essa rivalidade tinha a formulação de uma espiritualidade conflitual: se damos muito a Deus, tiramos ao ser humano; se damos muito ao ser humano, roubamos a Deus. Esta forma de falar de Deus nada tem a ver com a que S. Paulo descobriu em poetas gentios: na divindade temos a vida, o movimento e o ser[4]. Nessa perspectiva, os dois entendem-se bem: um recebe o outro como pura graça existencial. Não há clima para um antagonismo entre as descobertas e criações humanas e a presença divina vivificante. Estão mutuamente implicados com regozijo recíproco. Ao pensar num, surge a apreciada diferença do outro.
A persistência da ideia de rivalidade tem razões históricas bem documentadas, resultado de uma antropologia e de uma teologia que não podiam conviver. A beleza da própria ética de que fala o Génesis[5]não vale tudo – é diabolicamente interpretada como a ordem de um deus assustado com o alargamento da ciência humana. É o índice de uma persistente e falsa rivalidade entre o divino e o humano. Não são capazes de viver na alegria recíproca.
Com a simbólica narrativa da morte de Abel pela inveja do seu irmão Caim alarga-se o mito da rivalidade. Este mundo, na diferença humana, é de todos e para todos, de todos os povos e culturas, é a vocação de irmãos. Não há duas humanidades, a nossa e a dos outros! A ficção narrada pretende mostrar que uns são de Deus e outros do diabo. O outro, se não nos ajudar, é o nosso inferno que é preciso destruir.
Nessa concepção não há lugar para todos. Ao falar de Abel e Caim como irmãos, o conto fratricida do Génesis não perdeu actualidade. O mundo de hoje é completamente diferente daquela sociedade de pastores e agricultores, mas a tentação de julgar que este mundo não dá para todos é a mesma.
Os avanços científicos e técnicos dos últimos tempos conseguiram resultados espectaculares em todos os âmbitos do progresso aplicável ao ser humano e ao seu ambiente. Apesar dos conflitos locais e globais, de guerras declaradas e latentes, seria ridículo não reconhecer os avanços espectaculares alcançados.
Existe um pequenino senão: as desigualdades entre países e continentes, e dentro de muitos países, acentuaram-se. Não se pensa na arte de construir pontes entre os seres humanos, mas no dinheiro que é preciso para levantar muros físicos ou simbólicos. O destino universal de todos os bens do planeta é uma afirmação de generosidade.
Entretanto, as vítimas das guerras, da pobreza imposta, da miséria e das doenças que provoca, não manifestam grande vontade de filosofar ou de fazer exercícios de espiritualidade zen.
As obras que se escreveram e escrevem a anunciar as datas do fim da pobreza imposta, com certo aparato científico, parecem seguir a lógicas das Testemunhas de Jeová a anunciar o fim do mundo.
Como apontámos, as estatísticas vão mostrando avanços e recuos, segundo os países e os continentes, das medidas para erradicar essa vergonha. As estatísticas não podem contabilizar os pobres que vão tendo a morte, antes de tempo, como solução.
Para além disto, as desigualdades entre ricos e pobres acentuam-se. A distância entre o que certas pessoas ganham e o mínimo que outras conseguem para sobreviver, no seu dia-a-dia, poderia ser um pecado que bradaria aos céus se neles acreditassem.
Consta que existe uma espiritualidade para consumidores neoliberais. Diz-se que os seus exercícios espirituais são engenhosos. Usam receitas de marca individualista/consumista, corporativa/capitalista.
A homilia que o Papa Francisco fez em Abu Dhabi diz que há outras formas de ser feliz. São paradoxais como as do Evangelho, mas nunca tornaram ninguém desgraçado. Assinou com o Grão Imame de Al-Azhar um notável documento sobre a Fraternidade Humana.
Que fazer para o não deixar nos arquivos religiosos?
Fica para a próxima crónica.
in Público17.02.2019


[1] Lc 6, 17-26; Mt 5, 1-12 (ver os contrastes entre as duas versões)
[2] A moral como contra-natureza, in Nietzsche. O Crepúsculo dos Ídolos, Prisa Innova, 2008, 511-518
[3] Sapiens. De Animais a Deuses. História Breve da Humanidade, Elsinore, uma chancela da 20/20 Editora, 2018. Depois deste já saiu o Homo Deus. História Breve do Amanhã.
[4] Actos 17, 27-28
[5] Gn 3

● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●
ISLAMOFOBIA E CRISTIANOFOBIA

A BELEZA DA FAMÍLIA
Anselmo Borges



1. Não há dúvida de que a visita do Papa Francisco aos Emiratos Árabes Unidos de 3 a 5 deste mês constituiu uma visita para a História, como aqui procurei mostrar na semana passada. O próprio Francisco caracterizou a sua viagem como “uma nova página no diálogo entre Cristianismo e Islão”. É preciso ler e estudar o “Documento sobre a Fraternidade Humana”, então assinado por ele e pelo Grande Imã de Al-Azhar. Também foi a primeira vez que um Papa celebrou Missa para 150.000 cristãos na Península Arábica, berço do islão, num espaço público.
Já de regresso ao Vaticano, na habitual conferência de imprensa no avião, um jornalista perguntou-lhe que “consequências terá também entre os católicos o Documento, considerando que há uma parte dos católicos que o acusam de deixar-se instrumentalizar pelos muçulmanos...” E Francisco: “E não só pelos muçulmanos... (riu-se). Acusam-me de me deixar instrumentalizar por todos, incluindo os jornalistas. É parte do trabalho, mas gostaria de dizer uma coisa. Do ponto de vista católico, o Documento não se separou nem um milímetro do Vaticano II, que até é citado várias vezes. Se alguém se sentir mal, eu compreendo-o, pois não é algo de todos os dias..., mas não é um passo atrás, é um passo para diante... É um processo e os processos amadurecem.”
Outro jornalista observou: “O Imã de Al-Azhar, Ahmed al-Tayeb, denunciou a islamofobia. Porque é que não se disse nada sobre a cristianofobia, sobre a perseguição aos cristãos?” E o Papa Francisco: “Falei sobre a perseguição aos cristãos. Também falo sobre ela frequentemente. Inclusive nesta viagem falei sobre isso. Também o Documento condena a violência, e alguns grupos que se dizem islâmicos (os Sábios dizem que não é o islão) perseguem os cristãos.” E, aqui, Francisco relembrou uma história absolutamente comovente, que já contara com mais pormenores em 2017. Em 22 de Abril de 2017, na Basílica de São Bartolomeu na Ilha Tiberina em Roma, o Papa Francisco, com a Comunidade de Santo Egídio, presidiu a uma Liturgia da Palavra em memória dos novos mártires dos séculos XX e XXI. E ficaram estas palavras de profundidade incomensurável, apontando, com comoção que nos abala, para a religião na sua verdade humana e divina: “Eu quero, hoje, acrescentar mais um ícone a esta igreja. Uma mulher. Não sei o seu nome. Mas ela olha para nós lá do Céu. Eu estava em Lesbos, saudava os refugiados e encontrei um homem de 30 anos, com três crianças. Olhou para mim e disse-me: ‘Padre, eu sou muçulmano. A minha mulher era cristã. Os terroristas chegaram ao nosso país, olharam para nós e perguntaram-nos qual era a nossa religião e viram-na a ela com um crucifixo. Disseram-lhe que o atirasse ao chão. Ela recusou, não o fez. E degolaram-na diante de mim. Amávamo-nos muito, gostávamos muito um do outro.” “Este é, continuou Francisco, o ícone que trago aqui como presente. Não sei se esse homem ainda está em Lesbos ou se conseguiu ir para outro lado. Não sei se conseguiu sair desse campo de concentração, porque os campos de refugiados — muitos — são de concentração, devido à quantidade de gente que ali é deixada (...). E este homem não tinha rancor: ele, muçulmano, tinha esta cruz da dor que levava sem rancor. Refugiava-se no amor da mulher, salva pelo martírio.”
2. Precisamente no contexto do magno acontecimento histórico que foi esta visita, quero relembrar que, entre os pressupostos para um diálogo inter-religioso autêntico, há dois que são imprescindíveis. Refiro-me concretamente a uma leitura histórico-crítica dos textos sagrados e à laicidade do Estado.
Estes pressupostos são universais, mas têm particular importância para o cristianismo e o islão (deve-se distinguir entre islão e islamismo, este já com o sentido de islão extremista), pois o número dos cristãos e dos muçulmanos é superior a mais de metade da Humanidade, o que significa que o entendimento entre eles é essencial para o futuro.
A Igreja Católica nomeadamente teve dificuldade em aplicar estes pressupostos, que aceitou plenamente apenas no Concílio Vaticano II. De qualquer forma, já havia indicações no Novo Testamento e no fundador. Assim, nunca os teólogos católicos referiram a Bíblia como ditada por Deus, mas como Palavra de Deus em palavras humanas, o que implica a exigência de interpretação. Jesus disse: “Dai a César o que de César e a Deus o que é de Deus”. E, chegado a Jerusalém, foi morto, manifestando-se contra toda a violência, dizendo a Pedro: “Mete a espada na bainha, pois quem com ferros mata com ferros morre”. Isto significa que, quando os cristãos olham para os horrores cometidos por eles ao longo da História, têm de reconhecê-los e pedir perdão, pois atraiçoaram Jesus, o fundador.
O que para a Igreja católica foi difícil vai sê-lo ainda mais para o islão. De facto, muitos defendem que o Corão foi ditado por Deus ou que é cópia do Corão eterno, e, por isso, lêem-no à letra, com todos os riscos de barbárie. E o fundador, Maomé, foi ao mesmo tempo um profeta, um chefe de Estado e um combatente em várias batalhas. Com razão, escreveu o filósofo Slavoj Zizek, citando M. Safouan: “A marca distintiva do islão é ser uma religião que não se institucionaliza a si mesma e que, ao contrário do cristianismo, não se equipa com uma Igreja. Na verdade, a Igreja Islâmica é o Estado Islâmico: foi o Estado que inventou a chamada ‘mais alta autoridade religiosa’ e é o chefe de Estado quem nomeia o homem que deve ocupar esse cargo; é o Estado que manda construir as grandes mesquitas, que supervisiona a educação religiosa; é ainda o Estado que cria as universidades, que exerce a censura em todos os domínios da cultura e que se considera ser o guardião da moralidade”.
Evidentemente, a laicidade não é laicismo, que seria a religião da não religião, no sentido de remeter a religião para o espaço privado ou íntimo, sem lugar no espaço público. Sendo a religião uma dimensão constitutiva do ser humano e estruturante da cultura, é evidente que tem de ter lugar também no espaço público, e as religiões têm o direito de debater as grandes questões das sociedades, concretamente as referentes à bioética, e tentar fazer triunfar as suas posições. Qual é a diferença, quando há laicidade, separação da(s) Igreja(s) e do Estado, da religião e da política? Neste caso, a lei não é a lei religiosa, mas a lei votada democraticamente, em democracia pluralista, no Parlamento.
in DN, 17 de Fevereiro de 2019
www.dn.pt/edicao-do-dia/17-fev-2019/interior/islamofobia-e-cristianofobia--10585118.html?target=conteudo_fechado

● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●
QUE COISA SÃO AS NUVENS
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

A BELEZA DA FAMÍLIA
A FAMÍLIA É, CERTAMENTE, O LUGAR ONDE NOS ENCONTRAMOS, MAS TAMBÉM AQUELE ONDE NOS PERDEMOS

A família não é apenas uma invenção cultural, nem é simplesmente um formato que a civilização emprestou à vida comum. Compete-lhe um papel e, com isso, também uma dignidade que é anterior à própria cultura — porque ela emerge como raiz da existência. Muitas vezes, só nos apercebemos de tal muito depois, quando rememoramos o significado desses laços vividos onde o amor incondicional circula, quando medimos a desmesura da sua gratuitidade e apreendemos, assim, a grandeza do dom que a família põe em ato. Por alguma razão vital cada um de nós precisa de uma família, é fruto e consequência de um ambiente familiar concreto, e é, até ao fim, um seu construtor.

A família não é uma coisa estática e preexistente, mas um dinamismo. Não vive da nostalgia de um mapa idealizado, mas é um chamamento objetivo, uma estrada que se identifica à medida que vem percorrida, um estaleiro permanente, plástico, cheio de possibilidades. Não pode ser o piloto automático a comandar o destino de uma família: esta é uma tarefa na qual a possibilidade de sermos felizes se joga, uma aventura que se descobre e redescobre em continuação, que nos empenha com esforço, que pede um investimento total das nossas forças e, em algumas situações, mesmo daquilo que está para lá das nossas forças, mas que nos qualifica de uma forma humana decisiva.

A família é um laboratório do presente que se arrisca, onde todos são protagonistas, num exercício efetivo de corresponsabilidade

Não basta o conhecimento de ontem para viver bem a família: é preciso o amor atualizado de hoje e o movimento que ele de novo gera (e recostura, e recompõe, e repara). Não basta a grata memória passada: é preciso o humilde gesto de hoje; é indispensável a esperança de hoje com o seu gosto de vida recomeçada, mesmo se frágil e imprecisa; a entrega mais uma vez repetida. Não, não basta o pão dos dias anteriores, nem as migalhas reluzentes do que foi. A família é um laboratório do presente que se arrisca, onde todos são protagonistas, num exercício efetivo de corresponsabilidade. Não há simplesmente um que dá e outro que recebe. A família não é lugar para esquemas unidirecionais, e ninguém é deixado de fora. A atenção, a paixão e o cuidado, de que cada um é capaz, urdem silenciosamente a força misteriosa que no conjunto se experimenta.

O Evangelho de Lucas, em relação à sagrada família de Nazaré, relata um episódio desconcertante: Maria e José perdem de vista Jesus, procuram-no em vão entre parentes e familiares e acabam por encontrá-lo, com espanto, num contexto que não esperavam (no templo, a discutir com os doutores da lei). Quando o interpelam, não chegam a entender a explicação que ele lhes dá. Mas regressam os três para casa. Este é, no fundo, um episódio menos enigmático do que parece, pois a família é o espaço onde acolhemos, uns dos outros, a verdade que nem sempre conseguimos compreender. A família é, certamente, o lugar onde nos encontramos, mas também aquele onde nos perdemos. Por isso, na comunidade familiar, temos sempre de nos buscar, pois, na verdade, não sabemos onde o outro está. É uma ilusão pensar que se o outro está próximo sabemos onde está! A beleza da família é esta aprendizagem serena da diferença, a arte de guardar aquilo que não se entende, aquilo que, porventura, não é o sonho inicial. Não devemos supor que a família seja um horizonte de fusão, onde nunca ocorrerão problemas ou feridas. Pelo contrário. É, talvez, a propósito da família que correrão, no nosso rosto, as lágrimas mais difíceis que cada um de nós tem para chorar. Mas o segredo é abraçar tudo isto sem desanimar, sentindo-se dentro de uma espécie de dança, que, mesmo se nos esvazia, também enche a nossa taça até ao cimo, até ela transbordar.
in Semanário Expresso, 16.02.2019
http://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2416/html/revista-e/que-coisas-sao-as-nuvens/A-beleza-da-familia

● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●
À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves
DOMINGO VI COMUM Ano C
"Bem-aventurados vós, os pobres,
porque é vosso o reino de Deus.”
Lc 6, 20

Mudar os corações

Gosto muito de “road movies”. Não só pelas belas paisagens que habitualmente oferecem, mas principalmente pelo efeito da viagem na vida dos viajantes. Há um sabor de peregrinação, que tem origem no latim “per agros”, “pelos campos”, nestas narrativas em que o caminho é também pelos campos largos das almas. Neles regresso também ao convite de Jesus, que chamou os discípulos para andarem com Ele, numa viagem de 3 anos até à Páscoa. Assim gostei de ver o filme “Green Book – Um guia para a vida”, de Peter Farrelly, com Viggo Mortensen e Mahershala Ali, que interpretam a história verídica de uma amizade improvável entre um condutor branco e um célebre pianista negro, numa viagem por terras do sul norte-americano nos anos 60. A planura da paisagem contrasta com os abismos interiores onde surge a nu a hipocrisia e as consequências do racismo e do preconceito. Como é dito: “com violência nunca se ganha, só se ganha quando se mantém a dignidade”; e também, “é preciso coragem para mudar o coração das pessoas”.
Conhecemos dois relatos de “bem-aventuranças” ditas por Jesus. Em Mateus e em Lucas. As primeiras, sete, têm um sabor religioso e sapiencial, Jesus di-las num monte (como “novo Moisés”), sentado (em atitude de ensino). As que escutamos hoje são quatro, seguidas de quatro “Ai de vós…” (em advertência), ditas numa planície (onde os pobres e os doentes podem ir mais facilmente), com Jesus de pé (num tom profético), a falar da indigência e dos sofrimentos dos pobres. Certamente relatam dois momentos diferentes na pregação de Jesus, captados pela sensibilidade própria dos evangelistas. Não são elogio à pobreza e miserabilismo, nem ódio às riquezas e aos bens. Vejo nelas a coragem de Jesus “para mudar os corações”, e propor a verdadeira felicidade dos que confiam em Deus (e não nas riquezas ou na fama), e tudo põem ao serviço dos outros, na justiça e na paz.
A predilecção de Jesus pelos mais necessitados e aflitos é um traço comum em Lucas. A advertência aos ricos desmascara os auto-suficientes, indiferentes e gananciosos, que endeusam os bens. Geram infelicidade os bens que não servem para promover e partilhar vida. Os que vivem saciados, indiferentes à injustiça que provoca miséria, também são advertidos. Se ao menos distribuíssem o que lhes sobra! Assim também a alegria egoísta e alienante, de quem não olha à sua volta, nem se deixa tocar pelas tristezas do mundo. Gasta-se depressa a alegria que não é multiplicada.
Comecei com viagens e volto a elas. Não se muda o coração de um dia para o outro. Sem caminhos comuns, conhecimento mútuo, respeito pelas diferenças, mútua necessidade, alegrias e tristezas partilhadas, bens dados e recebidos, por maior que pareça a felicidade, estaremos sempre enganados. Só quando desejo e contribuo para a felicidade de outros e com outros, é que sou feliz. Aí começarei a entender o próprio coração de Deus!
in Voz da Verdade, 2019.02.17

https://www.facebook.com/vitor.goncalves.56884?fref=hovercard&hc_location=chat

● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●
Our differences will make the difference in our future

Benedict's second principle is crucial for nourishing a better tomorrow

Differences are a big thing in the United States. And always have been. We love to say that human beings are all equal, all alike, all welcome, all free to participate in the purpose and fulfillment of life. And that's true — but not totally true. In fact, we have never, all of us, been anything close to that.
Whole populations have been excluded from American society and or citizenship at any given time in our history. Ask the Native Americans, African-Americans, or women.
Ask Catholics whether they got a warm welcome here in the 19th century. Ask the Chinese who were allowed to build our transcontinental railroads but were not free to seek citizenship.
Ask Eastern Europeans how it felt to integrate into the United States. Ask the Japanese what they went through trying to be seen as Americans — even to this day. Ask Central Americans and other Hispanics who have picked our fruit and vegetables for decades now how American they feel yet. How welcome. How cared for — even if they were born here in a country with a birthright clause that it is now seeking to ignore.
No doubt about it: Differences are a big thing. They keep a society alive. They are a well of creativity, a signal of new possibilities. They are the resources that nourish a new future for us all. Which is exactly where Benedict's second principle of life comes in.
We are told, first, to be aware of the overarching presence of God in life. Then, the second principle of humility proceeds logically from the first: If God is the driving force in our life, then the will of that Loving God will, of course, be best for us, for everyone.
If, that is, we do not try to substitute our will for the will of the Creator for creation.
But what exactly is the will of God for humankind? The answer comes back clear and simple through the Prophet Jeremiah: "I wish you well," says God, "and not woe."
God's will for creation, according to the second degree of humility in the Rule of Benedict, is the fullness of creation, all of creation. And if you really believe that the One God created us all, then you must realize that God's will for us is God's will for everyone: It is "well and not woe."
Then our current mantra "America first" topples over with a thud heard round the world. Then we wonder why we never feel really secure now. Then we figure out that in order "to win, win, win," we must, of course, pit ourselves against the rest of the world. Which really means that America will never be great again. As in greatly peaceful, greatly caring, greatly trusting, greatly at peace in the world.
I can understand that for some it might feel like a stretch to use a spirituality of the sixth century as a mirror of the 21st. But the fact is that though history has changed in the interim, humanity has not.
The same emotions, assumptions, values and attitudes in one century simply keep appearing in situation after situation because they are endemic to human nature. They are the stuff of human growth — and of human deterioration, as well. The same feelings, fears, desires and aspirations appear again and again, sometimes to the glory of the human race, sometimes to our shame.
For instance, Alexander the Great set out to build the empire to end all empires and so did Hitler, but neither of them succeeded. Caesar fell out with his advisers and so did Churchill. People sent their sons to die in the French Revolution centuries ago, just as we did in ours. The Reformation churches struggled with how to honor the dogmas of the church and still renew it — and so have we.
The truth is that it's no stretch at all to compare how the human profile is still built on body and mind, matter and spirit, reason and feeling. Or as the Jewish character Shylock in Shakespeare's The Merchant of Venice puts it in his claims to be part of universal humanity in antisemitic Venice by saying,

Hath not a Jew
hands, organs, dimensions, senses, affections, passions? …
If you prick us, do we not bleed?
If you tickle us, do we not laugh?
If you poison us, do we not die?

Are we not all the same? Indeed, on the second degree of humility — to want "well and not woe" for everyone — rests the indestructible bond of human relations.
Heraclitus writes, "Character is fate." Are human dignity, the decency of respect, and delight in the things of creation not the real answer to human contentment, to world peace, to honorable and holy human relations?
From where I stand, that does not mean that we will have less. It does mean that we will wish for others what we need for ourselves and, with incontestable Christian character, join them in their right to have it.

[Joan Chittister is a Benedictine sister of Erie, Pennsylvania.]

Editor's note: We can send you an email alert every time Joan Chittister's column, From Where I Stand, is posted to NCRonline.org. Go to this page and follow directions: Email alert sign-up.
in NCR, 13.02.2019
https://www.ncronline.org/news/opinion/where-i-stand/our-differences-will-make-difference-our-future


10 fevereiro 2019

   P / INFO: Crónicas & If religious freedom’s a process, why not name the elephant in the room?, deJohn L. Allen Jr.

NÃO NOS PREOCUPEMOS COM OS ANJOS
Frei Bento Domingues, O.P.

Foi para mim um anjo ! São muitas as pessoas, todos conhecem algumas, a quem apetece dizer esta bendita oração.

1. Não escolhemos as perguntas que nos fazem. Na semana passada, uma senhora muito idosa perguntou-me aflita: os anjos existem ou não? Toda a vida rezei ao meu anjo da guarda, mas a minha neta disse-me que, agora, já nem os padres acreditam nisso.
Deduzi que não era a sua crença que estava abalada, mas a dificuldade em transmiti-la à nova geração. Não vem ao caso a conversa que tivemos. O imaginário da luta entre os anjos bons a quererem salvar as nossas almas e os demónios a fazerem tudo para nos perderem era a representação religiosa da nossa infância. Lembrei-lhe que, na Eucaristia, o louvor divino é sempre associado à música dos anjos e dos santos!
  Quando a ansiedade serenou, lembrei-lhe duas histórias que me divertiram. Em 1961, à saída de Liège, à espera de uma boleia para Colónia, li, no Assimile de alemão, que um pároco pediu a um pintor que enchesse de anjos as paredes de uma capela recém-construída. Quando foi ver as pinturas ficou irritado: quando é que se viram anjos com tamancos? O pintor observou-lhe: e sem tamancos?
Em 1962, era assistente da Juventude da Igreja de Cristo Rei (Porto) – a primeira associação católica mista de jovens, em Portugal – quando um rapaz interessado por teologia veio dizer-me que tinha descoberto as razões do mundo andar tão desorientado. Os Anjos não se reproduzem e os seres humanos são cada vez mais. Resultado: há muita gente sem anjo da guarda!
Os meus anjos preferidos são as criaturas da pura beleza de Fra Angélico, mas há dias, numa celebração da Eucaristia, deparei com uma passagem da Carta aos Hebreus que desloca todas as preocupações com a angelolatria. Reza assim: «Uma vez que os filhos dos homens têm o mesmo sangue e a mesma carne, também Jesus participou igualmente da mesma natureza para destruir, pela sua morte, aquele que tinha poder sobre a morte, isto é, o diabo, e libertar aqueles que estavam a vida inteira sujeitos à servidão, pelo temor da morte. Porque Ele não veio em auxílio dos anjos, mas dos descendentes de Abraão. Por isso, devia tornar-se semelhante, em tudo, aos seus irmãos, para ser um sumo sacerdote misericordioso e fiel no serviço de Deus e assim expiar os pecados do povo. De facto, porque Ele próprio foi provado pelo sofrimento, pode socorrer aqueles que sofrem de provação»[1].
S. Paulo, na Missa deste Domingo, lembra-nos que, pela ressurreição, Jesus venceu a morte. É esse o Evangelho que ele anuncia, fonte de toda a esperança. Não tem explicação para o facto. Usa analogias para dizer que essa Fé está em consonância com os ritmos da natureza. É anti niilista. Por isso, exclama: morte, onde está tua vitória?[2].
O prefácio da impropriamente dita Missa de defuntos é de uma beleza extraordinária: a vida não acaba, apenas se transforma.
2. O medo da morte é absolutamente natural. Há muitos anos que administro a santa unção e celebro missas ditas de corpo presente e de funeral. Lamento vários aspectos do ritual e sobretudo as celebrações nas capelas mortuárias, mas mais ainda os funerais transformados numa competição comercial.
O que me espanta é a recusa de não se fazer ritual nenhum, sejam de crentes ou descrentes. Se fosse o fim de tudo, não tinha sentido qualquer celebração. Morreu, acabou. Usamos uma linguagem simbólica e rituais para evocar o que não podemos descrever. Ninguém sabe nada do que acontece depois da morte. Esquecemos que sabemos pouco do que é mais importante antes da morte. A vida! O mais significativo escapa à linguagem factual e à das ciências. Como disse Nélida Piñon, «tudo o que preside ao humano provém do mistério. Amor, vida, morte, nada disto se explica. O mistério é puro encanto. (…). O que me define talvez seja a teologia do mistério, sim. O mistério roça em Deus, no pecado, em tudo. Não sabemos o que é, sei que somos filhos dele. Deus está sempre presente na minha vida, mas sem questionamentos. Não batalhamos. Deus foi um senhor maravilhoso, gentil, que não me incomodou, porque desde cedo descobri, como Dostoiévski, o peso da consciência. (…). Estive atenta, enquanto pude, aos mistérios da fé. Sorri e chorei diante das adversidades. Amei e fui amada. Deixei que Deus pousasse no meu regaço. Resta-me agora dizer Amém»[3].
3. Precisamos de anjos e de muitos. Acerca das referências do Novo Testamento (NT) recomendo o exegeta Xavier Léon-Dufour[4]. Não são essas referências, essenciais, que importa convocar para esta crónica. Os anjos são mensageiros de boas notícias, mensageiros de esperança.
Foi para mim um anjo! São muitas as pessoas, todos conhecem algumas, a quem apetece dizer esta bendita oração. Muitas famílias têm doentes em casa, que só elas conhecem. Mas nos hospitais, nos lares de idosos, nas cadeias, debaixo das pontes, sem abrigo, sem amigos, imigrantes, mutilados da guerra existem mundos que precisam de quem lhes acuda. De facto, existe também um mundo dos que visitam, atendem, sorriem, ajudam, socorrem pela única razão que essas pessoas precisam. Não fazem propaganda, não aparecem nos meios de comunicação nem nas redes sociais. Não são condecorados. São os anjos da música silenciosa da pura gratuidade.
Essas pessoas, com ou sem referências aos textos NT, seguem a ordem de Jesus: não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita[5]. A nossa vocação humana e divina é a de sermos anjos uns dos outros, mas sem esquecer o aviso do Mestre.
A publicidade, mesmo a do bem, pode não ser um apelo à generosidade de todos, mas apenas um grande negócio da vaidade e do lucro. Uma coisa é o método de envolver cada vez mais pessoas na prática gratuita da generosidade criativa, outra é a táctica hipócrita da autopromoção em nome da virtude.
Não é por acaso que a Bíblia fala de anjos bons e anjos maus.
in Público, 10.02.19.
https://www.publico.pt/2019/02/10/sociedade/opiniao/nao-preocupemos-anjos-1860940#gs.5PO5La5G


[1] Hb 2, 14-18
[2] Cor 1Cor 15,1-11
[3] Nélida Piñon, A vida e a literatura, in JL, págs. 14-18
[4] Cf. Dictionnaire du Nouveau Testament, Seuil, 1975, entrada Anje
[5] Mt.6, 3-4

● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●
Encontros para a História
Anselmo Borges
1. “Deus, o Todo-Poderoso, não precisa de ser defendido por ninguém e não quer que o seu nome seja usado para matar e aterrorizar as pessoas”.
Quando li este passo no “Documento sobre a Fraternidade Humana” a favor da paz mundial e da convivência humana, assinado no início desta semana em Abu Dhabi, pelo Papa Francisco e pelo Grande Imã de Al Azhar, Ahmed al-Tayeb, lembrei-me da mesma afirmação que há anos ouvi ao então Bispo de Nampula e que transcrevi na abertura do livro que coordenei, “D. Manuel Vieira Pinto. Cristianismo: Política e Mística”:  “Porque é que Você, que é Bispo, quando vem falar comigo, nunca me fala de Deus e da religião, mas do povo, da defesa dos seus direitos e da sua dignidade?”, perguntou o Presidente Samora Machel a D. Manuel Vieira Pinto. “Porque um deus que precisasse da minha defesa seria um deus que não é Deus. Deus não precisa que O defendam. O Homem sim.”, respondeu D. Manuel.
Este é um princípio decisivo para quem queira estar na religião/religiões com dignidade: Deus não precisa que O defendam; as pessoas sim. Porque é isso que Deus quer, o seu único interesse são as pessoas. Já Santo Ireneu o disse: “Gloria Dei homo vivens”: a glória de Deus é o homem vivo, realizado, pleno, feliz. Quantas vezes a pretensa defesa de Deus e da sua glória levou à humilhação, ao espezinhamento, à brutalidade sobre outros homens, a guerras, a terrorismos... Em nome de Deus!
2. De 3 a 5 deste mês de Fevereiro, quando se celebram os 800 anos do encontro entre Francisco de Assis e o sultão Al-Malik, o Papa Francisco, recebido com as maiores honras de Estado pelo príncipe herdeiro de Abu Dhabi, esteve nos Emiratos Árabes Unidos para uma visita que também fica para a História. Dois acontecimentos fundamentais ocuparam as 48 horas da visita: promover e fortalecer o diálogo inter-religioso, especialmente com os muçulmanos, e uma Missa para os católicos, que serão uns 900.000 no país.
2. 1. É nos Emiratos Árabes Unidos, que o Secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, definiu como “uma ponte entre Oriente e Ocidente bem como uma terra multicultural, multiétnica e multirreligiosa”, que tem a sua sede o Conselho Muçulmano de Anciãos ou Conselho de Sábios Muçulmanos, um grupo internacional que visa combater o fanatismo religioso e que é presidido pelo Grande Imã da Mesquita e Universidade islâmica do Cairo Al Azhar. Foi a seu convite que se realizou o encontro inter-religioso sob a designação de “Fraternidade Humana”.
Francisco, que já na vídeo-mensagem enviada ao povo dos Emiratos advogara o “respeito pela diversidade”, foi contundente no seu discurso programático durante o encontro inter-religioso: “Ou construímos o futuro juntos ou não haverá futuro”. Onde se fundamenta a fraternidade? Claro: no Deus criador, que “quer que vivamos como irmãos e irmãs, habitando na casa comum da criação que Ele nos deu”; portanto, “temos todos a mesma dignidade” e “ninguém pode ser senhor ou escravo dos outros”. A fraternidade implica igualdade e diferença e, assim, ao mesmo tempo que elogiou “a coragem da alteridade” lembrou o pressuposto da “identidade própria”: identidade e alteridade co-implicam-se, exigindo o reconhecimento do outro como igual e diferente, com direitos fundamentais, entre os quais, o da liberdade religiosa, que “se não limita só à liberdade de culto,  pois vê no outro um verdadeiro irmão, um filho da minha própria humanidade que Deus deixa livre e que, portanto, nenhuma instituição humana pode forçar, nem sequer em seu nome”. “A coragem da alteridade é a alma do diálogo”, que tem também a sua base na oração: “feita com o coração, a oração é regeneradora de fraternidade”; com elas —oração e fraternidade —, construiremos o futuro juntos.
O símbolo da viagem papal era a pomba com o ramo de oliveira, símbolo bíblico da paz. Por isso, disse que, sendo a tarefa das religiões construir pontes, elas precisam, como a pomba, de duas asas para voar: a educação e a justiça. A educação, para “formar identidades abertas”, em ordem a afastar o ódio, dialogar e “defender os direitos dos outros com o mesmo vigor com que se defende os seus”. A outra asa é a justiça, justiça universal. “Que as religiões sejam a voz dos últimos, que não são estatísticas mas irmãos, e estejam do lado dos pobres.”
Francisco elogiou o país que o acolheu como exemplo de inclusão, que quereria ver reproduzido “em toda a amada e nevrálgica região do Médio Oriente”, para a qual pediu “oportunidades concretas de encontro”: “uma sociedade onde pessoas de diferentes religiões tenham o mesmo direito de cidadania”. Suplicou a “desmilitarização do coração”, porque “a guerra só sabe criar miséria e as armas nada mais do que a morte”. Citou o Iémen, a Síria, o Iraque, a Líbia. Concluiu, convidando à não rendição perante “os dilúvios da violência e da desertificação do altruísmo”. “Deus está com o homem que procura a paz. E do Céu abençoa cada passo que, neste caminho, se realiza na Terra.”
Foi também neste encontro que foi publicado o “Documento sobre a Fraternidade Humana”, já referido. Uma Declaração verdadeiramente histórica, elaborada ao longo de um ano de diálogos e debates entre Al Azhar e o Vaticano até alcançar a sua redacção final. “Em nome de Deus, Al Azhar al-Sharif, com os muçulmanos de Oriente e Ocidente, e a Igreja Católica, com os católicos de Oriente e Ocidente, declaram assumir a cultura do diálogo como caminho, a colaboração comum como conduta, o conhecimento recíproco como método e critério”. “Pedimos a nós mesmos e aos líderes do mundo, aos artífices da política internacional e da economia mundial, que nos comprometamos seriamente para difundir a cultura da tolerância, da convivência e da paz, intervir o mais depressa possível para parar o derramamento de sangue inocente e pôr fim às guerras, aos conflitos, à degradação ambiental e à decadência cultural e moral que o mundo vive actualmente.” De facto, “entre as causas mais importantes da crise do mundo actual estão uma consciência humana anestesiada e um afastamento dos valores religiosos, a que se junta o predomínio do individualismo e das filosofias materialistas”. Para a explicação das raízes do terrorismo niilista, o Documento insiste na “deterioração da ética, que afecta a acção internacional, e na debilitação dos valores espirituais e do sentido da responsabilidade”, elementos que favorecem a frustração e o desespero, “levando muitos a cair na voragem do extremismo ateu e agnóstico ou no fundamentalismo religioso, no extremismo e no fundamentalismo cego”.
De modo mais concreto, declara-se veementemente que “as religiões por si nunca incitam à guerra, à violência ou derramamento de sangue. Estas desgraças são fruto do desvio dos ensinamentos religiosos, da utilização política das religiões e também das interpretações de grupos religiosos que abusaram do sentimento religioso nos corações dos homens para levá-los a realizar algo que não tem nada a ver com a verdade da religião, mas com alcançar fins políticos e económicos mundanos e míopes.” Exige-se, portanto, uma leitura histórico-crítica dos textos sagrados. As outras condições em ordem à paz entre as religiões e os povos são o respeito pelos direitos humanos, entre os quais sobressai o da liberdade religiosa e a cidadania plena: “A liberdade é um direito de toda a pessoa: todos gozam da liberdade de crença, de pensamento, de expressão e de acção. O pluralismo e a diversidade de religião, cor, sexo, raça e língua são expressão de uma sábia vontade divina.” “O conceito de cidadania plena baseia-se na igualdade de direitos e deveres sob cuja protecção todos desfrutam da justiça. Por isso, é necessário comprometermo-nos em estabelecer na nossa sociedade o conceito de cidadania plena e renunciar ao uso discriminatório da palavra minorias, que arrasta consigo as sementes de sentir-se isolado e inferior, prepara o terreno para a hostilidade e a discórdia e retira os direitos religiosos e civis de alguns cidadãos, ao discriminá-los.”
Al Azhar e a Igreja Católica consideram de tal importância esta Declaração que “exigem que este Documento seja objecto de investigação e reflexão em todas as escolas, universidades e institutos de educação e formação”, esperando que se transforme num “símbolo do abraço entre Oriente e Ocidente, entre o Norte e o Sul.”
3.        Como já referido, há nos Emiratos cerca de 900.000 cristãos, sendo a quase totalidade constituída por imigrantes (filipinos, indianos, paquistaneses, do Sri Lanka, Bangladesh e outras nacionalidades), que vieram para trabalhar. Assim, outro acontecimento histórico foi a celebração da Missa no estádio Zayed, na qual participaram, dentro e fora do estádio, 150.000 pessoas de 45 nacionalidades, incluindo 5.000 muçulmanos. Vários bispos concelebraram, entre eles os Patriarcas do Oriente, nomeadamente o do Líbano e o do Iraque — este, cardeal L. R. Sako, lembrou que “houve um tempo em que éramos 20% da população, mas o número desceu repentinamente e hoje somos à volta de 2%”, esperando que esta visita do Papa ajude também a situação dos cristãos iraquianos.
Foram horas de indescritível entusiasmo e de recolhimento e profunda oração. O Evangelho foi o das Bem-aventuranças. E ficaram estas palavras da homilia papal: “Não é fácil viver longe de casa. Mas o Senhor está perto e caminha ao nosso lado.” “Olhemos para Jesus: não deixou nada escrito, não construiu nada imponente. E, quando nos disse como devemos viver, não nos pediu que ergamos grandes obras ou que nos destaquemos pela realização de façanhas extraordinárias. Pediu-nos que levemos a cabo uma só obra de arte, ao alcance de todos: a obra de arte da nossa vida”. No final da celebração, saudou cordialmente todos os participantes: “fiéis caldeus, coptas, greco-católicos, greco-melquitas, latinos, maronitas, sírio-católicos, siro-malabares, siro-malankares”. E, como sempre: “Não vos esqueçais de rezar por mim”.
4. Há quem acuse Francisco de se deixar manipular pelo mundo islâmico. Será assim? É claro que a Igreja Católica não está no mesmo nível que Al Azhar nem o Papa no mesmo nível que o Grande Imã. O diálogo não pode ser unidireccional. É verdade que, apesar de toda a cordialidade indesmentível da recepção, mesmo os Emiratos Árabes Unidos são um Estado no qual o islão é religião oficial; ora, sem laicidade, não se evitará a “capitis diminutio”, isto é, a não cidadania plena dos cidadãos que não têm aquela religião. E também é verdade que se denuncia mais a islamofobia do que a cristianofobia, embora o cristianismo seja hoje a religião mais perseguida...
Mas o que é facto é que foi a primeira vez que um Papa visitou um país da Península Arábica, berço do islão, e que celebrou a primeira Missa pública na história da Península. Francisco ousou denunciar os horrores da guerra do Iémen na qual os Emiratos  também estão implicados e fez apelos aos líderes políticos islâmicos a favor do respeito pelos direitos fundamentais de todos e, nomeadamente, o da liberdade religiosa. E é indizível a alegria dos cristãos que puderam encontrá-lo. E deu-se mais um passo para a paz e para a tolerância entre as pessoas.
Pequeno? Mas um passo, que todos os beneficiários agradecerão e que Deus abençoa.
Padre e Professor de Filosofia
in DN, 09.02.2019
www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/encontros-para-a-historia-10559617.html

● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●
QUE COISA SÃO AS NUVENS
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

O QUE É ESCUTAR?
ANTES DE SEREM SENTIDO, E PARA CHEGAREM A SER SENTIDO, TODAS AS PALAVRAS DITAS TIVERAM DE SER SOM

Num dos escritos de Jean-Luc Nancy, aquele filósofo recorda-nos uma coisa em que não pensamos: como a sonoridade tem, afinal, um papel decisivo não apenas na comunicação, mas também na semântica das palavras. É uma verdade: antes de serem sentido, e para chegarem a ser sentido, todas as palavras ditas tiveram de ser som. Um exemplo que Nancy avança é o do próprio termo francês para palavra, mot. Mot deriva do latino muttum, que significa grunhido, e que está também na origem de “murmúrio”, esse efeito sonoro que assinala a passagem de um sopro entre os lábios. No termo mot podemos, por isso, escutar aquele mesmo “mu” que surge duplicado no termo murmúrio, como que a dizer-nos que a nossa linguagem oral é indissociável da intimidade extrema de uma voz e que tudo o que temos para escutar está nesse sopro, nesse jogar fragilíssimo de vida. Mesmo na etimologia do nosso termo português “palavra” podemos anotar esse vestígio. “Palavra” provém do termo latino parabola, contudo a sua sonoridade não está distante de labrum/labra, que significa lábios. Em todas as palavras que proferimos a marca dessa primordial passagem continua a persistir, portanto.

Sendo assim, o que é escutar? O que é gerir a torrente de palavras que captamos a cada momento? Certamente passa por ativar os códigos de decifração de sentido. Mas não devemos esquecer que as palavras não se descobrem apenas no que designamos por sentido. Não as compreenderemos verdadeiramente se formos indiferentes ao seu som, se não aproximarmos o ouvido desse estremecimento que cada ser humano gera movendo os lábios, desse infinitesimal sopro que emite o tremido (fortuito, vacilante, vibrante) e as suas modulações, pois dessa maneira as palavras narram a resiliência, o sofrimento, a reparação, a alegria e o segredo daqueles que as pronunciam.

Precisamos de desenvolver uma sensibilidade ao acontecimento do dizer em si, essa espécie de respiração sem mais, onde a vida se colhe numa nudez e numa intensidade originais

Nancy defende que a nossa razão de falantes é, no fundo, dar a razão do mundo. Mas — não nos iludamos — é no precário da voz que a razão que damos do mundo ressoa; é na fricção que a voz desenvolve contra si mesma que essa razão se mostra; é nesse audível quase inaudível que essa razão se descola; é no murmúrio, no sussurro, no suspiro, no vagido, no gemido que ela se torna acessível. Claro que é importante o que dizemos. Mas precisamos também de desenvolver uma sensibilidade ao acontecimento do dizer em si, essa espécie de respiração sem mais, onde a vida se colhe numa nudez e numa intensidade originais.

A psicanalista Françoise Dolto recorria, por exemplo, a um método curioso no acompanhamento que fazia de crianças: não se limitava a propor-lhes desenhos ou jogos, como é o habitual, mas praticava, interessada, a escuta e a interlocução com a linguagem infantil. Porque dizia: quando fica simplesmente chalreando, numa emissão sonora toda particular, a criança imagina/deseja a presença de outra pessoa. E imita o que lhe parece ser a linguagem dos adultos, repetindo-a de uma forma tão modificada que a semântica se torna abstrata: só o som permanece. O que se pode registar é a vibração. Mas, com isso, não deixa de exprimir-se e de esperar uma resposta para aquilo que emitiu... Muitas vezes os adultos ignoram que a criança está em busca de um intercâmbio. Os balbucios e fonemas são um modo de prolongar a presença dos outros. Servem à criança não só para comunicar, mas para comunicar-se. Mais tarde, muito mais tarde, no nosso percurso de falantes, continua a ser assim, mesmo quando nos sentimos a naufragar num mar de palavras suspensas e numa comunicação que nos parece inevitavelmente inacabada.

in Semanário Expresso, 09.02.2019
http://leitor.expresso.pt/semanario/SEMANARIO2415/html/revista-e/que-coisas-sao-as-nuvens-1/O-que-e-escutar-
● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●
À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves
DOMINGO V COMUM Ano C
“Jesus subiu para um barco, que era de Simão,
e pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra.”
Lc 5, 3

Em que barca vamos?

O mar da Galileia é um grande lago. Também tem tempestades e ainda se pesca nele como no tempo de Jesus. Quem visita Israel não se cansa de recordar o encanto do passeio no lago e de quando param os motores e só se ouve a brisa e se sente a ondulação a balouçar o barco. É impossível não recordar aqueles dias de Jesus com os primeiros discípulos que eram pescadores. Foi ali, numa barca que se encheu de peixes em pleno dia, que foram inventados novos pescadores e uma surpreendente pesca.
A beira do lago e uma barca como púlpito foram lugares escolhidos por Jesus para ensinar. Mais do que a sinagoga e os ambientes e lugares sagrados, a palavra de Deus veio ao quotidiano, em dia comum, ao que antes se dizia profano, onde estava quem queria ouvir. Veio para todos, à realidade humana, pessoas boas e menos boas, sem critérios de exclusividade. Da beira do mar ao mar largo onde pede se se lancem de novo as redes, descobre-se o desejo que Jesus tem de chegar a todos, aproximando-se de periferias e encurtando distâncias. Não se pescava em pleno dia, mas este pescador tem uma palavra maior que hábitos e tradições, e é sempre hora para salvar, para trazer à vida quem se afoga em mares de indiferença e desespero. A melhor rede para a arte de pescar que Jesus inaugurou é a sua Palavra; que liberta e salva, transforma e realiza plenamente, compromete e faz presente o reino já aqui.
Símbolo da Igreja, a barca de Pedro e dos primeiros discípulos, pode ser tristemente comparada a outros tipos de navios. Ela não é um “navio de cruzeiros”, cidade flutuante de passeio pelo mundo para privilegiados, com tudo incluído e vista para o mar, escalas turísticas para comprar “souvenirs” e tirar “selfies”, sem mergulhar na vida real de terras e povos, e muita animação constante. Não é “navio de guerra”, com guarnições sempre alerta para a defesa ou o ataque, de armas apontadas aos inimigos, vários, pois há tantos que não são nem pensam como nós, dispostas a morrer para garantir tradições ancestrais. Também não é “barquinho de recreio” para passeios domingueiros, à vela e a motor mas sem se afastar muito da costa, com amigos e membros do clube náutico, com quem se vê a paisagem e se discutem possíveis transformações em terra que raramente se põem em prática.
A barca de Pedro é um instrumento de trabalho, que tem vela para acolher o vento do Espírito e remos para quando são precisos os braços dos pescadores. Não faz pesca à linha mas vai ao encontro de todos e a todos oferece vida nova e em abundância. Nela todos são corresponsáveis, confiantes de que a sua fragilidade e os seus pecados não são obstáculo ao amor de Deus. Não teme avançar mar adentro. É escola onde se aprende a alegria do reino, que tem a força e a surpresa das sementes, e concretiza em terra a comunhão e serviço que as tempestades proporcionam. Tem a sua confiança em Jesus, que até ensina a caminhar sobre as águas, e nunca falta com a Palavra e o pão e os peixes na beira do mar. Afinal, em que barca vamos?
in Voz da Verdade
http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=7935&cont_=ver2

● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●
If religious freedom’s a process, why not name the elephant in the room?
John L. Allen Jr.Feb 6, 2019 EDITOR

ROME - One way to measure the real nature of struggles over religious freedom in the Islamic world is by the kind of person who would show up in the United Arab Emirates over the last three days, joining Pope Francis and the Grand Imam of Al-Azhar in Egypt for a massive interreligious paean to peace, love and tolerance.

There were more than 700 religious leaders on hand, and Tahir Mahmood Ashrafi, a well-known Muslim cleric from Pakistan, is a good example of the kind of crowd the event drew.

Ashrafi is known as a “liberal” cleric in his native country, the kind of religious leader who condemns extremism and stands for tolerance and acceptance and who’s been awarded a presidential honor for the defense of peace and human rights. So real are those commitments that there was recently a push in the Pakistan Ulema Council, the main body of Islamic clerics in the country, to expel him and replace him with someone more traditional.

Certainly, Ashrafi said all the right things in Abu Dhabi in terms of the event’s official talking points.

“All religious leaders today are saying that religion doesn’t have anything to do with extremism and terrorism,” he said.

“I think the UAE has achieved a great victory, because today a message is going from the UAE to the whole world that we are Muslims, Christians, Jews and other religious people, united for brotherhood of human beings against those using the name of religion for his personal cause and personal needs,” he said.

All that is encouraging, offering a classic example of the “other face” of Islam.

Yet even such an enlightened cleric as Ashrafi defended his nation’s notorious blasphemy laws, which envisions death sentences for perceived outrages against religious figures, texts and beliefs - and what’s most telling is why.

“Because of the blasphemy laws, thousands of people have been saved,” Ashrafi insisted. “If the law weren’t there, I tell you, it’s possible that I speak blasphemy you’ll kill me, or if you do it I’ll kill you.”

He cited the well-known 2012 case of a Christian girl named Rishma, who was 14 years old at the time and who suffers from a mental disability. She was arrested under the blasphemy laws after reports that she had burned pages from a Koran, and theoretically faced execution. After the case was reviewed, and in light of her condition, she was released.

“With the law, there can be negotiations,” Ashrafi said. “She was released because of the blasphemy law.”

That, in a nutshell, is the problem: A respected and clearly moderate Islamic cleric - the kind of guy, after all, happy to be seen with a pope - nevertheless is saying that in one of the world’s flagship Muslim nations, religious sensitivities are so extreme that if the civil law didn’t punish perceived acts of blasphemy, vigilante violence would be ungovernable.

Pakistan is hardly the only example of a place where enlightened religious leadership struggles to gain traction on the ground.

From where Francis was in Abu Dhabi over the last three days, for instance, it’s only about an hour by car to Saudi Arabia, where the Koran is officially the national constitution, apostasy is punishable by death and honor killings aren’t uncommon when a family member converts from Islam to another faith.

Public expressions of non-Islamic belief aren’t tolerated, and the Kingdom’s Muttawa, the religious secret police, sometimes harass and detain Christians even for gathering for worship in private homes.

In the UAE itself the same pattern exists, albeit generally in more benign form. Last year, the UAE ranked 45th among the world’s top 50 nations in terms of a lack of religious freedom according to Open Doors, a Protestant watchdog group that tracks anti-Christian persecution around the world.

Granted, Francis used the occasion to lay down a couple of markers on religious freedom, insisting that it’s more than freedom to worship but involves the right to be public about the faith one professes.

“I would like to emphasize religious freedom,” he said Monday. “Without freedom, we are no longer children [of God] but slaves.”

Some observers see the joint declaration Francis signed with Sheikh Ahmed al-Tayeb of Al-Azhar as an important text that could have important consequences, perhaps especially in Egyptian schools most influenced by Al-Azhar.

“We resolutely declare that religions must never incite war, hateful attitudes, hostility and extremism, nor must they incite violence or the shedding of blood,” it reads.

Still, that sort of rhetoric has been heard before. What we didn’t hear in the UAE was a specific papal challenge to the impediments in many Islamic societies to realizing that vision, with blasphemy laws being one clear example.

Perhaps the reality is that nothing a pope could say or do would have much impact on the social realities described by leaders such as Pakistan’s Ashrafi. However, we won’t know until it’s tried. Francis said on the plane coming back to Rome that achieving full religious freedom is a “process” - and, perhaps, a slightly more robust papal capacity to name the elephant in the room with his Muslim hosts could be part of that process.
in Crux, Feb 6, 2019
https://cruxnow.com/news-analysis/2019/02/06/if-religious-freedoms-a-process-why-not-name-the-elephant-in-the-room/

 

03 fevereiro 2019

Crónicas


P / INFO: Do Panamá para Portugal, O infinito tornou-se a única medida comercialmente significativa & Sabem, querem, e fazem…!
Do Panamá para Portugal
Pe. Anselmo Borges
1. Nesta sua presença de 5 dias nas Jornadas Mundiais da Juventude no Panamá, o Papa Francisco também visitou um centro de detenção de jovens, que é modelar, pois, com a ajuda de assistentes sociais, psicólogos e peritos de várias especialidades, prepara os jovens para a sua integração na sociedade, sendo também obrigatória a sua participação em cursos de formação profissional e de desenvolvimento humano. Francisco animou-os: “Que ninguém vos diga nunca: ‘não vais conseguir’. Deus não vê rótulos nem condenações, vê filhos.”
Foi ali que um jovem preso contou ao Papa a sua história: que desde pequeno sempre sentira um vazio interior, a falta de um olhar carinhoso de pai; um dia, encontrou esse olhar em Deus, mas, depois, caiu e agora encontrava-se ali cumprindo uma pena; e disse-lhe, do fundo do seu contentamento, que havia de ser um grande chefe. Francisco ouviu com atenção e carinho, como só ele sabe escutar. E o jovem comentou enternecida e admirativamente: “... Que alguém como você tenha arranjado tempo para ouvir alguém como eu, um jovem privado da liberdade!... Não sabe a liberdade que sinto neste momento!” O jesuíta Diego Fares comentou: “Talvez tenha que ser um preso para valorar quem o Papa é e o que faz.”
Ao longo desta sua viagem, Francisco encontrou-se com políticos, bispos, padres, religiosos e religiosas, fez discursos para as centenas de milhares de jovens, vindos de 155 países, mas encontrou tempo para escutar a história deste rapaz e assim escreveu mais um capítulo da sua encíclica, que não é de palavras, mas de gestos, encíclica que dá sentido a todas as suas encíclicas e discursos. Jesus também assim procedeu.
2. Neste contexto, Francisco tem autoridade para falar duro aos bispos. Arremetendo contra “o funcionalismo e o clericalismo eclesial, tão tristemente generalizado e que representa uma caricatura e uma perversão do ministério”, pediu-lhes conversão. Invocando o exemplo do bispo Óscar Romero, assassinado e recentemente canonizado por ele, atirou: “Não inventámos a Igreja, ela não nasce connosco e continuará sem nós. Uma Igreja autosuficiente não é a Igreja de Deus. É importante, irmãos, que não tenhamos medo de nos aproximar e de tocar as feridas da nossa gente, que também são feridas nossas, e fazê-lo segundo o estilo do Senhor. O pastor não pode estar longe do sofrimento do seu povo; mais: poderíamos dizer que o coração do pastor se mede pela sua capacidade de se deixar comover perante tantas vidas doridas e ameaçadas.”
A Igreja de Cristo “não quer que a sua força esteja no apoio dos poderosos ou da política”, a sua força vem-lhe do Crucificado”. A Igreja de Cristo “é a Igreja da compaixão, e isso começa por casa, pelos sacerdotes, pelos fiéis, e o que não podemos delegar é ‘o ouvido’, o que não podemos delegar é a capacidade de escutar”; os bispos devem, em primeiro lugar, ouvir os seus padres, e “é importante que o padre encontre no bispo o pai, o pastor em quem se revê e não o administrador que quer ´passar revista às tropas’.” “No pastor, a autoridade radica especialmente em ajudar a crescer, em promover os seus padres, mais do que em promover-se a si mesmo: promover-se a si mesmo fá-lo um solteirão”.
E, lembrando o acontecimento das Jornadas, chamou a atenção dos bispos para “irem ao encontro e aproximar-se ainda mais da realidade dos nossos jovens, cheia de esperanças e desejos, mas também profundamente marcada por tantas feridas”. Os jovens “levam com eles uma inquietação que devemos valorar, respeitar, acompanhar, e que tão bem nos faz a nós todos porque desinstala e recorda-nos que o pastor nunca deixa de ser discípulo e está a caminho. Como não agradecer ter jovens inquietos pelo Evangelho!”, acrescentou. “Exorto-vos a que promovais programas e centros educativos que saibam acompanhar, apoiar e potenciar os vossos jovens; ‘roubai-os’ à rua antes que seja a cultura de morte, ‘vendendo-lhes’ fantasias e soluções mágicas, a apoderar-se e a aproveitar a sua imaginação. E fazei-o, não com paternalismo, de cima para baixo, porque isso não é o que o Senhor nos pede, mas como pais, como irmãos para irmãos.” “Há lares alquebrados tantas vezes por um sistema económico que não tem como prioridade as pessoas e o bem comum e que fez da especulação o seu ´paraíso’, a partir do qual continuar a ‘engordar’, sem se importar à custa de quem, e, assim, os nossos jovens sem lar, sem família, sem comunidade, sem pertença, ficam à intempérie do primeiro vigarista.”
3. Evidentemente, o centro tinha de ser ocupado pelos jovens. Francisco conhece bem as suas dificuldades e os seus dramas e, por isso, já na mensagem de preparação das Jornadas lhes tinha dado ânimo. “Convido-vos a todos a olhar para dentro de vós próprios e a ‘dar nome’ aos vossos medos. Perguntai-vos: hoje, na situação concreta que estou a viver, o que é que me angustia, o que é que mais temo? Porque é que não tenho a coragem de abraçar as decisões importantes que deveria tomar?”. Continuou: “O medo nunca deve ter a última palavra, mas ser ocasião para realizar um acto de fé em Deus... e também na vida. Isto significa acreditar na bondade fundamental da existência que Deus nos deu, confiar que ele conduz a um fim bom, mesmo através de circunstâncias e vicissitudes muitas vezes misteriosas para nós.”
Logo à chegada, nas boas vindas, avisou: “O cristianismo não é um conjunto de verdades nas quais se tem de acreditar, de leis que se tem de cumprir ou de proibições. Assim, é repugnante. O cristianismo é uma Pessoa que me amou tanto que reclama e pede o meu amor. O cristianismo é Cristo e é amar com o mesmo amor com que ele nos amou.” E, utilizando linguagem digital, ele que não tem computador nem smartphone, como lembrou A. Tornielli, director dos média do Vaticano: A mensagem de Cristo “não é uma salvação armazenada na ‘cloud’ (nuvem) nem uma aplicação descarregável”; “a vida não espera ser descarregada, não é uma ‘aplicação’ nova a descobrir, a salvação é uma história de amor que se entretece com as nossas histórias.” Quanto às redes sociais alertou: “As redes servem para criar vínculos, mas não raízes, são incapazes de nos dar pertença, de fazer-nos sentir parte de um mesmo povo.”
No final da Via-Sacra, Francisco fez um reflexão sobre “o caminho de sofrimento e solidão” que Jesus já padeceu e que “continua nos nossos dias”. “Ele caminha e sofre em tantos rostos que sofrem a indiferença satisfeita e anestesiante da nossa sociedade que consome e se consome, que ignora e se ignora na dor dos seus irmãos.” A via-sacra da Humanidade prolonga a de Jesus “no grito sufocado das crianças que se impede de nascer e de tantas outras às quais se nega o direito de ter uma infância, família, educação, que não podem brincar, cantar; nas mulheres maltratadas, exploradas e abandonadas, despojadas e coisificadas na sua dignidade; nos olhos tristes dos jovens que vêem arrebatadas as suas esperanças de futuro pela falta de educação e trabalho digno; na angústia de rostos jovens que caem nas redes de gente sem escrúpulos — entre elas também se encontram pessoas que dizem servir-te, Senhor, redes de exploração, de criminalidade e de abuso, que se alimentam das suas vidas; na espiral de morte por causa da droga, do álcool, da prostituição e do tráfico; na dor oculta e indignante daqueles que, em vez de solidariedade por parte de uma sociedade repleta de abundância, encontram rejeição, dor e miséria, e mais: são tratados como os portadores e responsáveis por todo o mal social; na resignada solidão dos velhos abandonados e descartados; no grito da nossa mãe Terra, numa sociedade que perdeu a capacidade de chorar e comover-se perante a dor.”
Pediu aos jovens que continuem a sonhar e que sejam os “influencers do século XXI”: “ser ‘influencers’ no século XXI é ser guardiães das raízes, guardiães de tudo aquilo que impede que a nossa vida se torne gasosa, se evapore no nada. Sede guardiães de tudo aquilo que nos permite sentirmo-nos parte uns dos outros. Que pertencemos uns aos outros.” Avisou: “Não se está a dar raízes e alicerces à juventude”. “Sem educação, é difícil sonhar com um futuro. Sem trabalho, é muito difícil ter futuro, família e estar em comunidade.”
4. Já de regresso ao Vaticano, deu, como é hábito, uma conferência de imprensa no avião.
4.1. Renovou o pedido suplicante de “uma solução justa e pacífica” para a situação dramática da Venezuela, “respeitando os direitos humanos e desejando exclusivamente o bem de todos os seus habitantes”. E preveniu para o risco da violência: “O que mais me custa? O derramamento de sangue, e aí também peço grandeza aos que podem ajudar a resolver o problema”.
4.2. Quanto à cimeira anti-pedofilia, com os Presidentes de todas as Conferências Episcopais do mundo, convocada para os dias 21-24 de Fevereiro em Roma, disse que deve ser, em primeiro lugar e essencialmente, uma tomada de consciência da tragédia, “uma catequese para que se tome consciência do drama que é uma menina ou um menino abusados. Eu recebo com regularidade pessoas abusadas, e recordo uma que passou 40 anos sem conseguir rezar. É terrível o sofrimento.” Como disse, durante as Jornadas, Alessandro Gisotti, director de imprensa da Santa Sé, “A questão dos abusos está no centro, no coração e na mente de Francisco”, que quer que se adopte, durante a próxima cimeira de bispos, “medidas concretas” para combater esta “terrível chaga”. “Será uma ocasião sem precedentes para enfrentar, como dissemos muitas vezes, o problema e encontrar realmente medidas concretas para que, quando os bispos regressem de Roma às suas dioceses, possam combater este flagelo da Igreja.”
4.3. Francisco também foi dizendo que é contra o fim da lei do celibato obrigatório: “Pessoalmente, creio que o celibato é um dom à Igreja e eu não estou de acordo com a permissão do celibato opcional.” Mas está aberto à possibilidade, que está a ser estudada, de ordenar homens casados que deram e dão exemplo de maturidade humana e cristã. Como tenho escrito aqui, estou convencido de que isso vai tornar-se realidade já no Sínodo sobre a Amazónia, em Outubro próximo. Quanto à lei do celibato e ao seu fim, também estou convencido de que é uma questão de tempo. Francisco também saberá disso, mas está como João Paulo II: “Eu sei que os padres hão-de vir a poder casar, mas isso não acontecerá no meu pontificado.”
5. Já após o anúncio de que a sede das próximas Jornadas será Portugal, Francisco agradeceu a todos, sobretudo aos jovens: “A vossa fé e alegria fizeram vibrar o Panamá, a América e o mundo inteiro. Somos peregrinos, continuai a caminhar, continuai a viver a fé e a partilhá-la; vós, queridos jovens, não sois o futuro nem o ‘entretanto’, mas o agora de Deus. Peço-vos que não deixeis esfriar o que vivestes durante estes dias.” Uma expressão belíssima, plena de sentido: sois “o agora” de Deus.
Em 2022, pensa-se que poderão participar 2 milhões de jovens de todo o mundo no acontecimento com mais representatividade de sempre em Portugal, precisamente as Jornadas Mundiais da Juventude. Reunidos na alegria da juventude, da festa, do encontro de culturas e histórias diferentes, estabelecendo pontes — o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa e o Patriarca de Lisboa Manuel Clemente lembraram concretamente as pontes com o mundo lusófono, sobretudo na África, o único continente que ainda não recebeu as Jornadas —, sabem que o ponto de confluência e união é a fé em Jesus Cristo.

in DN 03 Fevereiro 2019
● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●

O INFINITO TORNOU-SE A ÚNICA MEDIDA COMERCIALMENTE SIGNIFICATIVA
Pe. JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Até há pouco, até este trânsito epocal que se vem convencionando chamar “revolução digital”, o todo era a designação que se dava a uma grandeza apenas hipotética, uma grandeza que se sabia inalcançável. A revolução digital transformou o todo (ou, por assim dizer, o infinito) numa quantidade mensurável e que se pode doravante possuir. Mas não só: o infinito tornou-se a única medida comercialmente significativa. Se uma determinada realidade não arrisca apresentar-se em termos de totalidade, passa imediatamente a estar circunscrita a uma proporção mínima e, logo, insignificante. Um dos mil exemplos que a transição digital fornece é o Spotify. Um disco é um repositório de dez ou doze canções. O Spotify é (em teoria) o repositório de toda a música do mundo. Ora, o caudal de aplicações, que hoje circulam em turbilhão, busca esse efeito, que na opinião de alguns é simplesmente tecnológico, mas que segundo outros tem inevitáveis consequências culturais e antropológicas: procura-se desativar a ideia de infinito. Recordo o que foi escrito por Alessandro Barrico num recente ensaio, intitulado “The Game”: “Se conseguires elevar o todo a unidade de medida, a épico objetivo de qualquer tarefa e a mercadoria perfeita, fazes uma vítima ilustre: o infinito. De facto, se puderes abarcar o todo, o infinito não existe.”
A revolução digital transformou o todo (ou, por assim dizer, o infinito) numa quantidade mensurável e que se pode doravante possuir
Por coincidência, neste 2019, está a comemorar-se o segundo centenário do poema ‘O Infinito’, de Giacomo Leopardi, certamente uma das líricas mais amadas do cânone ocidental, e que ele escreveu quando tinha vinte anos de idade. Apenas um ano antes, aquele miúdo macambúzio de Recanati, um lugarejo nos confins do Estado Pontifício, atreveu-se a escrever a Pietro Giordani, um dos intelectuais mais famosos daquela época. Contava que tinha visto a primavera, que tinha ficado soterrado de espanto com a primavera e que sentia, desde aí, o imperativo de se tornar poeta. Giordani dá-lhe então um conselho prudente, que Leopardi evidentemente não segue: recomendou-lhe que escrevesse ainda, durante um período longo, prosa apenas, antes de enfrentar a poesia. Pouco tempo foi necessário para que Leopardi chegasse a essa composição fulgurante, essa espécie de milagre verbal construído por 100 palavras, distribuídas em 15 versos inesquecíveis. “Sempre cara me foi esta colina deserta,/ e a sebe, que de tantos lados/ me exclui a visão do último horizonte./ Mas sentado aqui, olhando intermináveis/ espaços para além dela, e sobre-humanos/ silêncios, e a quietude mais profunda,/ no pensamento eu finjo; então por pouco/ o coração não se apavora. E o vento/ ouço gemer nas ervas, e àquele/ infinito silêncio esta voz/ vou comparando: e sobrevém-me o eterno,/ e as estações já mortas, e esta presente/ viva, com o seu ruído… É assim, que nesta/ imensidão se afoga o meu pensamento:/ E o naufrágio me é doce neste mar.” O fascínio do poema liga-se provavelmente ao seu carácter enigmático, acentuado por um balanço sucessivo de contradições que cartografam o ser do homem no mundo: há uma sebe a impedir o horizonte, mas o horizonte entra como um dique que se rompe; há um infinito silêncio descrito, porém, como uma voz; há uma experiência da imensidão avaliada como um afogamento e um naufrágio que, ao mesmo tempo, se dizem serem doces... O poema coloca-nos no interior da luta que todos provamos na carne e na alma, dentro do combate entre a finitude humana e o infinito entrevisto, isso que não conseguimos domesticar nunca numa representação, mas que não deixa de constituir um fator determinante do mistério que somos. Leopardi tem razão. O infinito não é uma mercadoria.
in Semanário  Expresso 02.02.2019

● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●
À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves
DOMINGO IV COMUM Ano C
“Jesus, passando pelo meio deles,
seguiu o seu caminho.”
Lc 4, 30

Sabem, querem, e fazem…!

Podemos reconhecer estes atributos nas pessoas decididas e promotoras de desenvolvimento. “Saber”, “querer” e “fazer” não são ideais que nos motivam como humanos? Contudo, aplicados aos conterrâneos de Jesus, na sua apresentação como profeta na terra que o viu crescer, foram sinal de atrofia e dureza de coração e pensamento. Ao longo da história e em tantos lugares, com outros homens e mulheres, revestidos de espírito profético, conscientes ou não do projecto de Deus, agindo para libertar e salvar a humanidade, a mesma arrogância tem-se manifestado.
É grande a tentação de julgar que se sabe tudo. Que se conhece bem quem cresceu ao nosso lado. A passagem da admiração diante das palavras da Jesus à convicção de que o conheciam muito bem é surpreendente. Fecharam a mente e o coração à novidade com os ferrolhos da presunção. Como Jesus desafiava os habituais esquemas religiosos e pedia um suplemento de coração, era mais fácil contestar a sua origem. Assim aconteceria durante a sua vida pública: os mais letrados, os especialistas das Escrituras, os que esperavam um Messias justiceiro e vingador, os satisfeitos da religião, os que tinham negócio montado com o Templo e com os governantes, os que “fiscalizavam” a religião dos outros, “sabiam” que Jesus não podia vir da parte de Deus! É o saber que não admite interrogação, abertura, maravilhamento perante a absoluta novidade do amor gratuito de Deus!
Queriam sinais extraordinários para acreditar. Milagres para alimentar uma “fé” que não nos transforma nem compromete, mas põe Deus ao nosso serviço. Não vai ser essa a última tentação feita a Jesus? “Salvou os outros; salve-se a si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito” (Lc 23, 35), dirá o povo no calvário. Queriam, e não queremos nós, sinais extraordinários que dissipem as dúvidas, ponham ordem em tudo o que nos dá trabalho, resolvam as imperfeições, nos façam pedir “bis, bis”? O que não queriam, nem queremos (?): acolher a palavra e a pessoa de Jesus, a ser Deus-connosco, a fazer-nos profetas que vivem e anunciam um mundo novo de irmãos, que não pactuam com a injustiça e a falta de amor, e aprendem a dar a vida.
Por isso, fizeram o que é costume: expulsaram-no da cidade, e tentaram precipitá-l’O de um monte. É a Páscoa anunciada, e repetida nos profetas de todos os tempos. Aos filhos ilustres de uma terra costuma oferecer-se as chaves da cidade, por entre homenagens várias. A Jesus, apontaram a porta de saída, e já agora, do mundo, “porque estamos bem, obrigado, e o deus que nos trazes vem pôr em causa esta vida a que nos habituámos”!
É importante “saber” mas o que sabemos e como sabemos? É importante “querer” mas o que que queremos e quem queremos? É importante “fazer” mas o que fazemos e porque fazemos? Jesus que passou no meio deles e seguiu o seu caminho, como continua a interpelar-nos?

in Voz da Verdade, 03.02.2019