16 dezembro 2018

Tudo por cauda da alegria, Globalização e ética global, É possível a alegria


TUDO POR CAUSA DA ALEGRIA
Frei Bento Domingues, O.P.

1. Não sei se Bergoglio conhece a literatura portuguesa. Espero que Tolentino Mendonça não deixe de lhe recomendar algumas leituras essenciais antes de voltar a Portugal, pátria dos antepassados do argentino J. L. Borges. O Cardeal G. Ravasi, esse conhece, de certeza, Fernando Pessoa. Não pode ignorar o sonho piedosamente blasfemo de Alberto Caeiro. Este viu Jesus Cristo aproveitar o dia em que Deus estava a dormir, o Espírito Santo andava a voar e a Virgem Maria a fazer meia, para fugir do céu, onde tudo é convencional e aborrecido, e tornar-se outra vez menino, uma criança tão humana que é divina, a Eterna Criança, o Deus que faltava, que sorri e brinca, o Menino Jesus verdadeiro que veio viver para aldeia com o nosso poeta.
Lembrei-me desse sonho ao ler a mensagem que o Papa Francisco enviou ao referido Cardeal italiano, manifestando o seu agrado por verificar que a eternidade, o outro lado da vida, tivesse sido escolhida para tema da XXIII Sessão das Academias Pontifícias. Confesso que, no primeiro momento, achei algo despropositada aquela mensagem. Terá a recitação dominical do Credo, por milhões de fiéis, perdido a sua esperada eficácia? Será verdade que, nos últimos tempos, a convicção central da fé cristã terá sido negligenciada, tanto na investigação teológica como no anúncio e na formação dos fiéis?[1]. Poderá a teologia universitária e dos seminários, a doutrina dos catecismos, da pastoral e da nova evangelização esquecer-se do Céu?
A observação do Papa é, no entanto, mais do que um desabafo de circunstância. Ele próprio colocou o dedo na ferida: «ao proclamar, hoje, essa verdade de fé, ela pode parecer quase incompreensível e, às vezes, transmitir uma imagem pouco positiva e "atraente” da vida eterna.  O outro lado da vida pode ser percebido como monótono e repetitivo, chato, triste ou totalmente insignificante e irrelevante para o presente». Esta descrição papal não está longe do sonho de Alberto Caeiro, heterónimo de F. Pessoa. Nem o menino Jesus pode aguentar esse aborrecimento.
Muitas das representações homiléticas e rituais acerca da vida eterna encenam uma eterna chatice e as especulações sobre a visão beatífica são uma cegueira teológica. Só por medo do inferno se podia suportar aquela interminável monotonia. O que mata a esperança de uma juventude eternamente renovada, coração da fé cristã, é a lenga-lenga ritual dos funerais e das missas de corpo presente, do sétimo dia, do trigésimo dia, etc.
As preocupações farisaicas com a ortodoxia das fórmulas e dos gestos levam, muitas vezes, a esquecer, nas horas enlutadas e dolorosas, a esperança da vida exuberante sugerida pela simbólica da tradição cristã. A linguagem religiosa não se destina a dar informações sobre as ocupações depois da morte, mas a criar ilhas de resistência ao niilismo. É preciso ir até ao fim da noite para encontrar outra aurora, escreveu Bernanos. Quem senão Deus nos poderá dar a mão? A Palavra de Deus não é um som, mas a pura voz do amor que nos chama. É preciso continuar a dizer e a cantar com frei José Augusto Mourão: Ao pé de Deus hei-de sempre viver, com Deus cheguei e com Ele vou partir!
O Deus escondido, da pura gratuidade, da infinita misericórdia, não pode ser profanado pela ideia mundana da meritocracia e dos seus tribunais. Deus é servido ou ofendido apenas pelas nossas atitudes quotidianas de serviço ou desprezo, em relação aos que se encontram em necessidade[2].
2. Dada a descontinuidade entre a linguagem dos rituais, que procuram mostrar que a morte não é a última palavra sobre a vida humana, e os novos fenómenos culturais e sociais, como será possível responder às preocupações manifestadas pelo Papa Francisco? Como transmitir a certeza de que os mortos vivem hoje na memória viva e criadora de Deus?
Importa, antes de mais, dar-se conta das dificuldades e saber que não há soluções prontas a servir. Os teólogos, os catequistas, os pregadores precisam de trabalhar com os praticantes das ciências humanas para avaliar as atitudes, os gestos e a linguagem que configuraram as expressões litúrgicas do passado e os caminhos para as alterações mais adequadas[3].
Tendo isso em conta, é preciso não esquecer que o coração da fé cristã é irrigado pelo desejo, alma da esperança. No fim da viagem Alguém, mais forte do que o abismo da morte, nos acolherá. A megalomania do desejo é tão essencial ao psiquismo humano que é dela que todas as outras faculdades recebem a energia. A missão dos cristãos consiste em tornar a vida eterna o horizonte mais desejado de tudo quanto vivemos e fazemos. Estamos polarizados por novos céus e nova terra. O olhar não vê, mas Deus transborda em tudo. Em Deus vivemos, nos movemos e existimos em liberdade criadora, pois é falsa a rivalidade entre o humano e o divino. Como diz Santo Agostinho, em Cristo, caminhamos no Caminho. Não há  separação entre a viagem e o encontro com o infinito do amor.  
3. As celebrações do Advento vivem da convicção de que não estamos condenados a repetir o passado. Quando os costumes nos dizem que sempre assim foi, é sinal de que já é tempo de mudar de rumo. Tudo o que vem nas Escrituras cristãs, nos sacramentos, na liturgia, na pregação, na organização da Igreja, é para que a nossa alegria seja completa[4]. Esta afirmação, da 1ª Carta de João, devia ser o critério de avaliação dos nossos investimentos vitais.
Conheço alguns testemunhos de cristãos, testemunhos de pura fé, escritos pouco antes da morte, a serem lidos às famílias e aos amigos, para lhes dizerem que não toquem a Finados. Já chegaram a Porto Seguro.
Escrevi este texto a pensar naqueles que, na noite de Natal, vão sentir a falta de quem, nessa noite, esteve sempre à mesa, a trocar presentes, alegrias e gargalhadas. Era a noite das boas memórias.
Pensando no que recebemos de Jesus Cristo, tenho de supor que do Oriente e do Ocidente, do Norte e no Sul, de todos os tempos, de todas as religiões e sem religião, cada um com os seus sonhos, ou sem sonhos nenhuns, os que morreram apenas partiram e encontraram na memória e no coração de Deus a mesa posta para a festa de todos. Nada menos é digno do ser humano e muito menos da louca alegria de Deus de continuar a ver os seus filhos reunidos dos dois lados da vida. Ele que é Deus dos vivos não da morte.
in Público, 16. 12. 2018


[1] Mensagem do Papa Francisco ao Cardeal G. Ravasi por ocasião da XXIII sessão pública solene das Academias Pontifícias, 04. 12. 2018
[2] Mt 25
[3] Por analogia com o Baptismo e a Eucaristia, cf. Joris Geldhof, Être et devenir chrétien dans les cultures postmodernes, in «La Maison-Dieu», 278, 2014/2, 13-50 ; ver também Revue des sciences philosophiques et théologiques 95, 2011,129-145.
[4] 1Jo 1, 1-4

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Globalização e ética global
Padre Anselmo Borges



1. Muitas das graves convulsões sociais em curso têm na sua base a globalização, que arrasta consigo inevitavelmente questões gigantescas e desperta paixões que nem sempre permitem um debate sereno e racional. Hans Küng, o famoso teólogo dito heterodoxo, mas que Francisco recuperou, deu um contributo para esse debate, que assenta em quatro teses. Segundo ele, a globalização é inevitável, ambivalente (com ganhadores e perdedores), e não calculável (pode levar ao milagre económico ou ao descalabro), mas também - e isto é o mais importante - dirigível. Isto significa que a globalização económica exige uma globalização no domínio ético. Impõe-se um consenso ético mínimo quanto a valores, atitudes e critérios, um ethos mundial para uma sociedade e uma economia mundiais. É o próprio mercado global que exige um ethos global, também para salvaguardar as diferentes tradições culturais da lógica global e avassaladora de uma espécie de "metafísica do mercado" e de uma sociedade de mercado total.

2. Neste sentido, em Setembro de 1993, teve lugar em Chicago o Parlamento das Religiões, com a presença de uns 6500 participantes e onde 150 pessoas qualificadas, representando as diferentes religiões e movimentos de tipo religioso do mundo inteiro, assinaram o Manifesto ou Declaração de Princípios para Uma Ética Mundial. O texto fora preparado essencialmente por Hans Küng.

Ainda no contexto das celebrações dos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, vale a pena retornar a esses princípios. Como escreveu Küng, não se trata de uma duplicação da Declaração dos Direitos Humanos, nem de uma declaração política, nem de uma prédica casuística, nem de um tratado filosófico, nem de uma idealização religiosa ou da busca de uma religião universal unitária. Trata-se exactamente desse consenso de base, mínimo, referente a valores vinculantes, a critérios e normas inamovíveis e a atitudes morais fundamentais. Supõe-se que estes mínimos éticos, que assentam na constatação de uma convergência já existente nas tradições religiosas, podem ser assumidos por todos os seres humanos, independentemente da sua relação com a religião.

Neste consenso mínimo de base, a exigência fundamental é: todo o ser humano deve ser tratado humanamente, de modo humano. Porquê? Porque todo o ser humano, sem distinção de sexo, idade, raça, classe, cor, língua, religião, ideias políticas, condição social, possui dignidade inviolável e inalienável.

Por outro lado, para agir de forma verdadeiramente humana, vale, antes de mais, a regra de ouro: "Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti" (formulada positivamente: faz aos outros o que queres que te façam a ti). "Esta deveria ser a norma incondicionada, absoluta, para todas as esferas da vida, para a família e para as comunidades, para raças, nações e religiões." Esta regra de ouro concretiza-se em quatro directrizes ou orientações antiquíssimas e inalteráveis: comprometimento com uma cultura da não-violência e do respeito pela vida (não matarás: respeita toda a vida); comprometimento com uma cultura da solidariedade e com uma ordem económica justa (não roubarás: age com justiça); comprometimento com uma cultura da tolerância e uma vida vivida com veracidade (não mentirás: fala e age com verdade); comprometimento com uma cultura da igualdade de direitos e com uma irmandade entre homem e mulher (não prostituirás nem te prostituirás, não abusarás da sexualidade: respeitai-vos e amai-vos mutuamente).

Trata-se de uma Declaração assinada por "pessoas religiosas", que têm a convicção de que "o mundo empírico dado não é a realidade e a verdade última, suprema", que, portanto, fundamentam o seu viver na realidade última e dela extraem, em atitude de confiança, na oração e na meditação, na palavra e no silêncio, a sua força espiritual e a sua esperança. Na presente crise de valores, "estamos convencidos de que são precisamente as religiões que, apesar de todos os abusos e frequentes fracassos históricos, podem assumir a responsabilidade de que as esperanças, objectivos, ideais e critérios de que a humanidade precisa para a convivência na paz sejam mantidos, fundamentados e vividos".

3. Estou profundamente convencido de que é neste espírito que o Papa Francisco viajará em Fevereiro próximo (3-5) para Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes. A finalidade da visita, correspondendo a um convite do príncipe herdeiro, Mohammed bin Zayed, e da Igreja, é precisamente participar num encontro inter-religioso internacional sobre a "Irmandade humana", na convicção de que o diálogo inter-religioso é essencial para evitar a violência e abrir caminho para a paz.

Padre e professor de Filosofia. Escreve de acordo com a antiga ortografia
in DN, 15.12.2018

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À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves
DOMINGO III DO ADVENTO Ano C
“As multidões perguntavam a João Baptista:
«Que devemos fazer?»”
Lc 3, 10
É possível a alegria
Há alguns anos atrás alguém fez uma tentativa de restauro das imagens do presépio da Igreja de S. Domingos e, na esperança de conseguir um tom rosado para as mãos de José e de Maria, pintou-as de um rosa bem vivo. Sim, aquele tom da “Pantera-cor-de-rosa” que alguns se lembram dos desenhos animados! Todos os anos pensamos em restaurá-las melhor, mas até a essa imperfeição nos vamos afeiçoando. E neste domingo da alegria, a meio do Advento, ficam mesmo a condizer com a cor dos paramentos! E quase sempre obtêm um sorriso de quem passa diante delas!

A alegria pode ter muitas fontes e pode ser passageira ou duradoura. Desde sempre foi procurada mas também temida, apanágio de inconsciente e loucos, a sua expressão no riso e no humor punha (põe) em causa a ordem e a seriedade. Não é um pretenso livro de Aristóteles sobre o Riso a causa dos crimes em “O Nome da Rosa” de Umberto Eco? Almada Negreiros dizia: “A alegria é a coisa mais séria deste mundo”. Dostoiévsky pedia: “Amigos meus, não peçam a Deus o dinheiro, o triunfo ou o poder. Peçam-lhe a única coisa importante: a alegria.” E Clarice Lispector, insistia: “Recuso-me a ficar triste. Sejamos alegres. Quem não tiver medo de ficar alegre e experimentar uma só vez sequer a alegria doida e profunda terá o melhor de nossa verdade.”

Não é fácil imaginar João Baptista como um porta-voz da alegria. Mas foi o salto de felicidade dado no seio de sua mãe que foi sinal para Isabel se maravilhar com a visita de Maria. E na sua pregação exigente germina a alegria da vinda do Salvador. A conversão pede mudanças importantes na rotina medíocre da vida. A todos convida à alegria de partilhar, de não dar simplesmente o que sobra mas o próprio dom de si, e a fazer a experiência da felicidade que não vem das coisas mas da abertura ao outro. Aos que manuseiam o dinheiro, que não o usem com ganância e explorando os outros, mas o utilizem com justiça. Aos que detêm algum poder, que não violentem nem roubem ninguém. O baptismo no Espírito Santo e no fogo é a abundância do amor que a Páscoa derrama no mundo. Queima a palha da tristeza e da angústia e recolhe o trigo da alegria e da paz.

Chesterton escreveu: “A alegria, que era a pequena publicidade do pagão, é o gigantesco segredo do cristão.” Mas Nietzsche lamentava: “Acreditaria no seu Salvador, se visse os cristãos com rostos mais alegres”. S. Paulo VI escreveu em 1975 uma Carta sobre a Alegria cristã em que perguntava: “não será normal que a alegria habite dentro de nós, quando os nossos corações contemplam e descobrem de novo, na fé, os seus motivos fundamentais?” E o Papa Francisco deu-nos a Carta “A Alegria do Evangelho” como verdadeiro programa de renovação. Que caminhos de alegria é possível abrir em nós e no mundo?
in Voz da Verdade, 16.12.2018

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09 dezembro 2018

Desistir da Paz?, Direitos e deveres humanos, Que luz para as nossas ruas? Que luz para as nossas ruas? & Vatican appears likely to empower archbishops


       DESISTIR DA PAZ?

Frei Bento Domingues, O.P.

1. A exuberância poética do profeta Isaías distribuída pelas celebrações diárias do Advento exibe uma tal confiança no futuro que mais parece um delírio do desejo que gosta de se iludir, do que uma esperança razoável. Logo no 3º dia, e nunca se cansará, garante que os povos vão dispensar os exércitos e as suas manobras. Os instrumentos de guerra vão ser reciclados e confiados aos ministérios da agricultura: converterão as espadas em relhas de arado e as lanças em foices[i]. O Deus dos exércitos vai para o desemprego.
Tempos virão em que nem sequer será preciso pensar na reciclagem do exército. A justiça estará ao serviço dos infelizes do povo. Aos violentos e aos ímpios a própria palavra de Deus os modificará. A justiça e a lealdade serão a lei.
Até toda a natureza que se modificará. O lobo viverá com o cordeiro e a pantera dormirá com o cabrito; o bezerro e o leãozinho andarão juntos e um menino os poderá conduzir. A vitela e a ursa pastarão juntamente, as suas crias dormirão lado a lado; o leão comerá feno como o boi. A criança de leite brincará junto ao ninho da cobra e o menino meterá a mão na toca da víbora.
Não mais praticarão o mal nem a destruição em todo o meu santo monte: o conhecimento do Senhor encherá o país, como as águas o leito do mar. Nesse dia, a raiz de Jessé surgira como a bandeira dos povos; as nações virão procurá-la e a sua morada será gloriosa[ii].
O profeta quer que Deus seja o Senhor do universo e prepare para todos os povos um banquete de manjares suculentos, um banquete de vinhos deliciosos: comida de boa gordura, vinhos puríssimos. Destruirá a morte para sempre. Enxugará as lágrimas de todas as faces. Alegremo-nos e rejubilemos porque nos salvou[iii].
O profeta Baruc não anda longe destes delírios: Jerusalém, deixa a tua veste de luto e aflição e reveste para sempre a beleza da glória que vem de Deus. Cobre-te com o manto da justiça. Deus te dará para sempre este nome: Paz da justiça e glória da piedade. Levanta-te, Jerusalém, sobe ao alto e olha para o Oriente: vê os teus filhos reunidos desde o poente ao nascente. Deus decidiu abater todos os altos montes, as colinas seculares e encher os vales para se aplanar a pedra, a fim de que Israel possa caminhar em segurança. Os bosques e todas as árvores aromáticas darão sombra a Israel. Deus o conduzirá na alegria, com a misericórdia e a justiça[iv].
Esta selecção mostra o que abundava e o que faltava. Abundava a guerra, a injustiça e a fome que geravam a morte, a tristeza. Faltava a paz, o acesso à justiça para todos, a comida e a alegria. Dizer as coisas assim prosaicamente é não dizer nada. É a linguagem dos relatórios e das estatísticas. O próprio da linguagem simbólica, poética é incendiar a imaginação, tornar possível o inalcançável. Dir-se-á que é uma forma de resvalar para a ilusão. Não creio que seja a linguagem do ópio. Não há ninguém que seja enganado pela literatura e, sobretudo, pela poesia. Esta é a linguagem humana que nenhuma riqueza ou pobreza poderá substituir. Fazer sonhar é o primeiro passo para a necessidade de agir.
2. Os autores do Novo Testamento, cada um com a sua originalidade, procuram mostrar que em Jesus Cristo o passado é assumido, reinterpretado e transformado. Não é reproduzido. Atribuem-lhe a expressão: disseram-vos, mas eu digo-vos.
A religião em que foi educado não abafou a sua criatividade, a sua liberdade, sobretudo quando essa religião matava a esperança dos mais pobres e criava toda a espécie de exclusões. Os evangelistas pretendem mostrar que Jesus incarnava, de forma inovadora, o anti–fatalismo dos profetas. Quando se dizia sempre assim foi, significava para o Mestre: tem de mudar!
No Antigo Testamento, apesar da corrente sapiencial, universalista, a corrente nacionalista, xenófoba era a que prevalecia. A carta aos Efésios não pode ser mais clara: lembrai-vos de que nesse tempo estáveis sem Cristo, excluídos da cidadania de Israel e estranhos às alianças da promessa, sem esperança e sem Deus no mundo. (…) Em Cristo Jesus, vós, que outrora estáveis longe, agora, estais perto, pelo sangue de Cristo. Ele é a nossa paz, de dois povos fez um só e destruiu o muro de separação, a inimizade. Na sua carne, anulou a lei, que contém os mandamentos em forma de prescrições, para, a partir do judeu e do pagão, criar em si próprio um só homem novo[v]
O versículo 10, que antecede esta passagem, faz uma declaração absolutamente espantosa: nós somos poema de Deus[vi]. Não estraguemos a dignidade deste poema, escrita divina.
3. Segundo o panorama actual, verificamos que, em vários continentes, há dirigentes políticos que não desistem da guerra e que todos os pretextos são bons para declarações ameaçadoras. As pessoas podem morrer e morrem das formas mais inesperadas, mas o comércio das armas é que não pode morrer. É a lógica da centralidade absurda do dinheiro. Deixa de ser um instrumento para uma vida humana de qualidade, para se transformar no dono da vida e da morte. Aquilo que deveria ser um meio de desenvolvimento da ciência e da técnica para a felicidade de todos, transforma-se no poder de decidir a sorte da humanidade.
A Europa conheceu, num único século, guerras horrorosas,  mas parece cansada da paz que conseguiu.
Está mais do que demonstrada a ferocidade que pode ser desencadeada entre pessoas, nações e povos. Essa todos os dias é patenteada, em diversos cenários de crueldade, com meios de comunicação que a celebram e a incitam ao seu motor: o ódio do outro. 
Importa investigar os mecanismos psicológicos, sociais, económicos e políticos que incitam à guerra e à paz. Foi possível subscrever a carta dos Direitos Humanos. Nunca se conseguiu assinar a dos Deveres.
O Papa Francisco enviou uma carta à Universidade Lateranense sobre ciclos de estudos interdisciplinares para multiplicar o número de pessoas especializadas nas Ciências da Paz. Havendo tantos meios para criar incitamentos ao ódio e à violência é fundamental preparar pessoas, grupos, instituições que tenham como objectivo a promoção da cultura da paz.
A Igreja dispõe de movimentos, de paróquias, de colégios, de universidades dedicadas à educação. Poderá desistir de fazer de todos esses meios centros de educação activa, interveniente na cultura da paz? Ou irá dispensar o Natal este ano?
in Público 09.12.2018


[i] Is 2, 1-5
[ii] Is 11, 1-10
[iii] Is 25, 6-10
[iv] Br 5, 1-9
[v] Cf Ef 2, 11-19
[vi] Frederico Lourenço, em nota 2, 10 diz que, à letra, a tradução do grego é «nós somos poema d’Ele», Carta aos Efésios, Bíblia, vol II

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Direitos e deveres humanos
Padre Anselmo Borges
1. A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi adoptada pela Assembleia Geral das Nações Unidas a 10 de Dezembro de 1948, em Paris: "A Assembleia Geral proclama a presente Declaração Universal dos Direitos Humanos como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações, com o objectivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre em mente esta declaração, se esforce, através do ensino e da educação, por promover o respeito por esses direitos e liberdades, e, pela adopção de medidas progressivas de carácter nacional e internacional, por assegurar o seu reconhecimento e a sua observância universal e efectiva." Nos artigos 1 e 2, lê-se: "Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos" e podem invocar os direitos e liberdades desta declaração, "sem distinção alguma de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião politica ou outra, origem nacional ou social, fortuna, nascimento ou qualquer outra situação". Numa vinheta de 1998, no jornal El País, referindo-se ao preâmbulo, aparece o próprio Deus a exclamar: "Que preâmbulo! Não tinha lido nada de tão bom desde o Sermão da Montanha."

2. Lembrando os 70 anos da Declaração dos Direitos Humanos, retomo uma síntese de outra declaração, infelizmente menos conhecida e invocada: a célebre Declaração Universal dos Deveres Humanos, de que há tradução em português. Para superar a crise e para que a esperança não seja mera ilusão, wishful thinking, precisamos todos de ser fiéis às nossas responsabilidades e cumprir os nossos deveres.

Já na discussão do Parlamento revolucionário de Paris sobre os direitos humanos, em 1789, se tinha visto que "direitos e deveres têm de estar vinculados", pois "a tendência para fixar-se nos direitos e esquecer os deveres" tem "consequências devastadoras".

Foi assim que, em 1997 e após debates durante dez anos, o Interaction Council (Conselho Interacção) de antigos chefes de Estado e de governo, como Maria de Lourdes Pintasilgo, V. Giscard d'Estaing, Kenneth Kaunda, Felipe González, Mikhail Gorbachev, Shimon Peres, fundado em 1983 pelo primeiro-ministro japonês Takeo Fukuda, sob a presidência do antigo chanceler alemão Helmut Schmidt, propôs a Declaração Universal dos Deveres Humanos. Na sua redacção, teve lugar destacado o famoso teólogo Hans Küng.

O preâmbulo sublinha que: o reconhecimento da dignidade e dos direitos iguais e inalienáveis de todos implica obrigações e deveres; a insistência exclusiva nos direitos pode acarretar conflitos, divisões e litígios intermináveis, e o desrespeito pelos deveres humanos pode levar à ilegalidade e ao caos; os problemas globais exigem soluções globais, que só podem ser alcançadas mediante ideias, valores e normas respeitados por todas as culturas e sociedades; todos têm o dever de promover uma ordem social melhor, tanto no seu país como globalmente, mas este objectivo não pode ser alcançado apenas com leis, prescrições e convenções. Nestes termos, a Assembleia Geral proclama esta declaração, a que está subjacente "a plena aceitação da dignidade de todas as pessoas, a sua liberdade e igualdade inalienáveis, e a solidariedade de todos", seguindo-se os seus 19 artigos, de que se apresenta uma síntese.

2. 1. Princípios fundamentais para a humanidade. Cada um, cada uma e todos têm o dever de tratar todas as pessoas de modo humano, lutar pela dignidade e auto-estima de todos os outros, promover o bem e evitar o mal em todas as ocasiões, assumir os deveres para com cada um, cada uma e todos, para com as famílias e comunidades, raças, nações e religiões, num espírito de solidariedade: não faças aos outros o que não queres que te façam a ti.

2. 2. Não violência e respeito pela vida. Todos têm o dever de respeitar a vida. Todo o cidadão e toda a autoridade pública têm o dever de agir de forma pacífica e não violenta. Todas as pessoas têm o dever de proteger o ar, a água e o solo da terra para bem dos habitantes actuais e das gerações futuras.

2. 3. Justiça e solidariedade. Todos têm o dever de comportar-se com integridade, honestidade e equidade. Dispondo dos meios necessários, todos têm o dever de fazer esforços sérios para vencer a pobreza, a subnutrição, a ignorância e a desigualdade, e prestar apoio aos necessitados, aos desfavorecidos, aos deficientes e às vítimas de discriminação. Todos os bens e riquezas devem ser usados de modo responsável, de acordo com a justiça e para o progresso da raça humana.

2. 4. Verdade e tolerância. Todos têm o dever de falar e agir com verdade. Os códigos profissionais e outros códigos de ética devem reflectir a prioridade de padrões gerais como a verdade e a justiça. A liberdade dos media acarreta o dever especial de uma informação precisa e verdadeira. Os representantes das religiões têm o dever especial de evitar manifestações de preconceito e actos de discriminação contra as pessoas de outras crenças.

2. 5. Respeito mútuo e companheirismo. Todos os homens e todas mulheres têm o dever de demonstrar respeito uns para com os outros e compreensão no seu relacionamento. Em todas as suas variedades culturais e religiosas, o casamento requer amor, lealdade e perdão e deve procurar garantir segurança e apoio mútuo. O planeamento familiar é um dever de todos os casais. O relacionamento entre os pais e os filhos deve reflectir o amor mútuo, o respeito, a consideração e o cuidado.
Padre e professor de Filosofia
in DN 07.12.2018
Escreve de acordo com a antiga ortografia
www.dn.pt/edicao-do-dia/08-dez-2018/interior/direitos-e-deveres-humanos-10288935.html?target=conteudo_fechado
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À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves
DOMINGO II DO ADVENTO Ano C
“Preparai o caminho do Senhor,
 endireitai as suas veredas.”
Lc 3, 4
Que luz para as nossas ruas?

Sempre foi uma tradição lisboeta ir ver as luzes de Natal à Baixa e a outras ruas que se iluminam em Dezembro. Percorro-as também e invade-me, aos poucos, uma tristeza. Há luzes e muitas luzes, bolas e figuras geométricas, fachadas com faixas de alto a baixo, uma e outra árvore de Natal, árvores vestidas de luzes e estalactites luminosas a cair delas. Das imagens do presépio, só se salvou a estrela. E presépios de rua, para além dos que estão lá todo o ano, sob beirais e entre cartões, ainda não vi nenhum. Será que as estrelas poderão indicar o caminho para Aquele que deu origem ao Natal?
De caminhos a preparar e veredas a endireitar, de montes e vales a aplanar se faz o anúncio inicial de João Baptista. Parece um ministro de obras públicas, atento às vias de comunicação que aproximam as pessoas e libertam do isolamento. O percursor retoma o apelo antigo e sempre novo de Isaías: Deus vem até nós por caminhos novos, e eles também dependem de nós. As vias abertas para passar os poderosos de todos os tempos, por onde desfilam os exércitos da guerra e o progresso dos privilegiados, e onde hoje correm os rios do dinheiro e a embriaguez do consumo, não levam ao encontro das pessoas. Os grandes da política e da religião daquele tempo já têm os seus caminhos habituais; João Baptista fala do caminho que vai direito ao coração, aquele em que a salvação pode ser oferecida.
Com mais ou menos presépios, luzes e presentes, interessa perguntarmo-nos pela presença de Jesus na vida dos que acreditamos n’Ele. Não como uma história bonita, ou uma mensagem moral. Nem como um hábito que se repete ou um dogma que se impõe. Que caminho fazemos com Ele e como O acolhemos nas nossas veredas? Saboreamos a sua salvação, que é dizer, o seu amor, e isso vê-se naquilo que fazemos? Não podemos alimentar-nos de uma doutrina religiosa; seríamos “funcionários” mas não amigos, nem irmãos! É preciso tempo e espaço para experimentar a sua presença em mim e nos outros. É Jesus, e com Jesus, que tudo se transforma!
Dá trabalho o Advento. E não é a azáfama de procurar os presentes nem de preparar a ceia. Trata-se de levar mais luz aos caminhos que ainda deixam as margens na escuridão e não se aventuram às periferias. Levar mais luz às trevas de isolamento e exclusão, dos que vivem sós, dos que são descartados do trabalho e duma dignidade de vida. Assumir a conversão que interpela o excesso de uns com a miséria de outros e compromete em mudanças significativas. Quantas ruas iluminadas ocultam montanhas de escuridão? Como vai lá chegar a luz que se chama Jesus?
in Voz da Verdade 08.12.2018
http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=7778&cont_=ver2
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Vatican appears likely to empower archbishops on abuse claims against bishops

Proposal on metropolitan archbishop review of abuse claims against prelates likely to garner approval
by Joshua J. McElwee
ROME — One of the proposals made at last month's meeting of U.S. Catholic bishops for investigating future allegations of misconduct by prelates appears likely to receive Vatican approval, according to several eminent canon lawyers and theologians.
The suggestion to empower the nation's metropolitan archbishops to examine accusations made against bishops in their regions of the country corresponds both with the way the church handled such issues in earlier centuries and the current Code of Canon Law, they say.
Nicholas Cafardi, a respected civil and canon lawyer, noted that the current version of the code already says the Vatican can give archbishops "special functions and power" in their regions "where circumstances demand it."
"This function could be to receive and investigate accusations of sexual impropriety ... and then to report to the Holy See on the results," said Cafardi, who has advised bishops and dioceses on canonical issues for decades.
Richard Gaillardetz, a theologian who has written several books on the practice of authority in Catholicism, said simply: "It's just good ecclesiology."
"It wouldn't be too hard to envision the Holy See granting metropolitans special functions, and I could imagine that being done," he said.
In the Catholic Church, metropolitan archbishops are those who are tasked with both leading an archdiocese and presiding over the bishops in their wider ecclesiastical province. While their role in their provinces has been largely honorific in recent centuries, it was much more expanded in the earlier church.
"It would be an interesting move," Jesuit Fr. Steven Schoenig, a historian who has focused his research on the role of archbishops in the Middle Ages, said of the proposal. "It would kind of restore things to an earlier stage in the church's history."
The possibility of empowering archbishops to investigate allegations made in their provinces was raised at the annual meeting of the bishops' conference in November, when the prelates were considering a number of proposals to respond to this year's spate of revelations of clergy sexual abuse.
Chicago Cardinal Blase Cupich, a metropolitan archbishop himself, formally submitted the proposal at the end of the Nov. 12-15 meeting. Galveston-Houston Cardinal Daniel DiNardo, the president of the conference, said it would now be evaluated alongside a separate suggestion for the creation of a new nonprofit commission to investigate accusations against bishops.
There are 34 metropolitan archbishops in the U.S. One example is Seattle Archbishop Peter Sartain, who presides over a province that includes the dioceses of Spokane and Yakima in Washington State.
Cupich's proposal gained the backing of bishops across the ideological spectrum at the November meeting, with others such as Philadelphia Archbishop Charles Chaput and San Francisco Archbishop Salvatore Cordileone expressing support.
Cafardi, an original member and chair of the conference's National Review Board, set up in 2002 to monitor the prelates' procedures to protect children, referenced Canons 435-438, which lay out the authority of metropolitan archbishops.
Among the tasks given to metropolitans in the first part of Canon 436 is to "exercise vigilance" in the observance of the faith in their regions.
The second part of the canon goes further, stating: "Where circumstances demand it, the Apostolic See can endow a metropolitan with special functions and power to be determined in particular law."
Cafardi said he could envision a scenario in which the U.S. bishops use that language to ask the Vatican to give the country's metropolitans power to conduct abuse investigations, and that it could be granted.
The U.S. bishops have already announced creation of a new third-party reporting system for receiving allegations of misconduct by prelates. The system is to consist of a toll-free number and a website where people can report accusations, and is to be active by July 2019.
Under Cupich's proposal, the third-party system would then send to the various metropolitan archbishops any allegations that a bishop in their province had sexually abused a minor, an adult, or had been negligent in their handling of abuse cases.
In the case where it was the metropolitan himself accused, the allegation would be sent to the most senior bishop in the province.
The proposal makes clear that the allegation is also to be sent to the bishop or archbishop's clergy abuse review board, a structure every diocese is required to have under the 2002 Charter for the Protection of Children and Young People.
Gaillardetz, a former president of the Catholic Theological Association of America, said he thought the proposal "thickens the exercise of subsidiarity" in the church, referring to a principle in Catholic social teaching that problems should be dealt with at the lowest level where they can be effectively handled.
"In general, I'm in favor of ... strengthening any kind of intermediate collegial authority," said Gaillardetz," the Joseph Professor of Catholic Systematic Theology at Boston College.
Schoenig, an associate professor at St. Louis University, said the proposal reflected the role metropolitans played in the church from about the year 700 to about the year 1,200, when popes began to limit their authority.
The Jesuit said that metropolitans used to have responsibility for confirming the election of bishops in their provinces, more freely investigating any allegations of misconduct, and presiding over a court of appeal that could reconsider canonical decisions made by local prelates.
Schoenig said the proposal sounded like "a return to the early Middle Ages in certain ways, when Rome was just not as much involved."
"If we could restore some of these old rights of these metropolitans ... it would make a more agile church that could respond more quickly and with greater familiarity to local circumstances," he said.
While Gaillardetz expressed approval for the idea of empowering metropolitans, he said he was also hoping for further measures to more deeply examine the roots of the clergy sexual abuse crisis.
Referencing Pope Francis' upcoming February summit with the presidents of the world's conferences of bishops, the theologian said it was his "fantasy" that the pontiff would encourage the bishop presidents leaving the meeting to go home and convoke nation-wide plenary councils to consider the crisis.
A plenary council is a special gathering of a national church territory that involves the participation of bishops, heads of religious orders and universities, and laypeople. The U.S. last held such a council in 1884.
"That goes back to the whole problem of you're asking an episcopal structure to address a problem of episcopal malfeasance," said Gaillardetz, adding that plenary councils are "by law, a gathering not of the bishops but of the entire Christian faithful."
Holding a council, he said, "takes much longer to do, but it's more likely to ... allow the people of God to feel like they're part of the process, which kind of addresses the sense of impotence that so many people have in this situation."
"You're also more likely to get a much more comprehensive assessment of what got us in this situation," said Gaillardetz.

[Joshua J. McElwee is NCR Vatican correspondent. His email address is jmcelwee@ncronline.org. Follow him on Twitter @joshjmac.]

in NCR 05.12.2018

[Joshua J. McElwee is NCR Vatican correspondent. His email address is jmcelwee@ncronline.org. Follow him on Twitter @joshjmac.]
/www.ncronline.org/news/accountability/vatican-appears-likely-empower-archbishops-abuse-claims-against-bishops?utm_source=DEC_5_NEWS_MCELWEE+archbishops&utm_campaign=cc&utm_medium=email




02 dezembro 2018


1. Comecemos pelo mais elementar, pois custa-me ver a milenar herança cristã esquecida ou ignorada. É muito provável que a intervenção pública de Jesus de Nazaré se tenha exercido, em contexto judaico, entre os anos 28 e 33 da nossa era. Foi, porém, em Antioquia que, pela primeira vez, os seus seguidores começaram a ser chamados cristãos, isto é, discípulos de Cristo, o Messias esperado. Devido à mesma significação, foi aportuguesada tanto a palavra da tradução grega da Bíblia como a de origem hebraica. A expressão Jesus Cristo exprime a condição humana e divina do Nazareno. Por cristianismo entende-se o movimento dos seguidores de Cristo, através dos séculos, embora com uma história muito plural e cheia de tensões, desde o começo[i].
Por ter sido recusada uma ruptura total com o judaísmo, como alguns cristãos propunham, usamos, na Liturgia, passagens do Antigo e do Novo Testamento (NT). Hoje, ao reunir numa celebração de Domingo, textos desses dois mundos, não se consegue satisfazer nenhum deles e torna complicada uma homilia que tem de ser breve. Com tantas referências a explicar e a interpretar é a deriva moralista que acaba por ganhar. Os responsáveis dessa selecção confundem uma comunidade paroquial com um mosteiro de biblistas, embora a iniciação à leitura inteligente dos textos sagrados seja uma das suas necessidades básicas. A celebração do culto divino é virtude, não de anjos, mas de seres humanos de formações muito diversas. Enquanto comunitárias, as celebrações precisam de obedecer a um rito para marcar o seu ritmo e combater o ritualismo. Os Evangelhos atribuem ao próprio Jesus, o grande orante, críticas severas às formas imbecis de rezar.   
Segundo S. Mateus, Jesus pede sobriedade para não imitarmos os gentios que julgam que é pelo muito palavreado que vão convencer a divindade. Deus não anda mal informado acerca da nossa história[ii]. S. Lucas pode dar a ideia de que é pela muita insistência que Deus acabará por ceder aos nossos pedidos. No entanto, a sua parábola admirável acaba por destruir as expectativas criadas pelos nossos desejos mais imediatos e urgentes. A oração garante que o Pai dos céus dará o Espírito Santo aos que o pedirem[iii]. A oração não se destina a mudar a vontade de Deus que nunca pode ser melhor, mas a alterar as nossas atitudes.
Sobre o culto divino, encontramos no quarto Evangelho um diálogo insólito entre Jesus, judeu, e uma samaritana, mulher de moral pouco recomendável e apóstata. É um bom prólogo para todas as iniciações à liturgia cristã.
 A samaritana pergunta ao galileu onde é que se deve adorar: no Templo de Jerusalém ou no do monte Garizim? Resposta de Jesus: acredita em mim, mulher, chegou a hora em que, nem neste monte nem em Jerusalém, haveis de adorar o Pai. (…) Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade[iv].
Jesus não procura a destruição das expressões religiosas, mas a sua radical transformação. Viveu num judaísmo de sinagogas onde sempre criou problemas, conheceu bem as grandes celebrações de Jerusalém e o comércio do Templo que o indignava. Para ele, é incompatível o culto a Deus e a opressão do ser humano. A religião ou é libertadora ou é uma degradação. Não suportava que, no sagrado dia de Sábado, os burros tivessem mais sorte do que as pessoas doentes.
Quando os textos do NT são escritos, já estavam em curso polémicas viragens cristãs do culto. Os apelos à interioridade e à relação entre culto e transformação da vida iriam centrar-se em Cristo que enfrentou a morte e a venceu e nas celebrações do Baptismo e da Eucaristia, fonte e alimento da vida nova.
2. No passado Domingo, com a festa de Cristo Rei, os padres, nas missas, tiveram de repetir que um Ano Litúrgico chegava ao fim e começava outro com o Advento. No fim da missa, perguntaram-me: o que é isso de ano litúrgico? Deixei a questão para a próxima celebração, mas recomendei uma leitura essencial[v], pois o ano civil e a marcação cristã do tempo não coincidem. Chamamos ano litúrgico à programação anual das celebrações da fé cristã.
Seria possível viver sem marcar o tempo, mesmo sem saber muito bem o que é essa realidade fugaz? Hoje, temos tudo resolvido no relógio, no telemóvel, no computador, etc.. Nem sequer nos apercebemos dos esforços que, desde a Antiguidade, os povos tiveram para organizar a contagem dos dias, das noites, das semanas, dos meses e do ano. É normal que o Sol, a Lua, as estrelas e os seus ciclos servissem como primeiras referências, para organizar a vida nas suas diversas expressões agrícolas e religiosas.
A palavra calendário vem do latim calo. Os romanos orientavam-se por meses lunares. O primeiro dia da lua nova era chamado dia das calendas. O Pontífice chamava o povo, ao Capitólio, para o informar das celebrações religiosas daquele mês.
Há grande diversidade de calendários. gregoriano foi promulgado pelo Papa Gregório XIII, em 1582, em substituição do  juliano fixado por Júlio César em 46 a.C.. Por convenção e por razões práticas, o calendário gregoriano, de origem europeia, não suprimiu os outros, mas é  utilizado oficialmente pela maioria dos países.
3. Importa não esquecer que o culto cristão está sempre marcado pela história e pela natureza, perante as pouco acauteladas ameaças de secas, fomes e inundações, catástrofes. É cósmico.
Por outro lado, as celebrações sacramentais, ainda não dispensam o azeite, o pão, a água e o vinho, muitas vezes reduzidos a amostras insignificantes, como se fossem indiferentes ao recheio da Casa Comum a salvaguardar.
A simbólica da Criação implica a vitória sobre o caos, sempre ameaçada. Com a publicação da encíclica Laudato Si, o Papa Francisco tentou estabelecer uma ponte entre a Ecologia e a Liturgia, para que o uso das descobertas científicas, das novas tecnologias, o exercício das actividades económicas, financeiras e políticas se inscrevam no destino universal de todos os bens.

in Público 02. 12. 2018


[i] Acerca do ambiente em que nasceu e se desenvolveu o cristianismo, cf. Simon Claude Mimouni, Le Judaïsme ancien et les origines du Christianisme, Bayard 2017, apreciação crítica da vasta literatura sobre o tema.
[ii] Mt 6, 3-15; 7, 7-11.
[iii] Lc 11, 1-13
[iv] Jo 4, 10-26; Em Lc 17, 20-21, é dentro de nós que está o reino de Deus.
[v] José Manuel Bernal, Para viver o ano litúrgico, 2001

25 novembro 2018

Não há soluções prontas a servir, Sobre Saramago e Deus, “Deus gosta de quem luta com ele” & Archbishop Scicluna says February meeting start of ‘global approach’ to fighting sex abuse

     
     1. Vamo-nos enganando e já não é pouco! Foi o comentário de um amigo à minha homilia de apresentação da Mensagem do Papa para o II Dia Mundial dos Pobres, no passado Domingo. Procurou fazer-me uma breve catequese de bom senso, pois ninguém tem uma receita eficaz para curar a história da nossa desumanidade. Mergulhados no mistério do tempo, cada um de nós vive, apenas, o pequeno intervalo entre o nascimento e a morte. Tanto vale acreditar que o mundo vai mudar para melhor como repetir que irá sempre de mal a pior. Os anúncios do avanço das ciências e das técnicas deixaram, há muito, de o entusiasmar. A quem vão eles servir? Oferecem, aos donos dos grandes negócios, novos instrumentos e condições para desenvolverem a concentração da riqueza e do poder económico, bélico e político. O mundo de todos em mãos de poucos.
Insistiu comigo: aquilo que o Papa diz e tenta fazer não resolve nada. O próprio Cristo, num momento de grande lucidez, arrumou com todas essas veleidades: pobres sempre os tereis entre vós! Estava escrito na Bíblia o que ele bem conhecia: não “haja pobres entre vós” e, no entanto, Jerusalém, a cidade santa tinha-se tornado um grande centro de mendicidade.
Sei que as atitudes, os gestos e as palavras de Bergoglio não resolvem nada, mas também sei que ajudam muitas pessoas a resolverem-se a abandonar o cepticismo estéril e a interrogar-se: que posso eu fazer? Impede-nos de tapar os olhos e os ouvidos e de dizermos que não sabemos bem o que se passa. Recusando ou aceitando somos cúmplices, aliados ou indiferentes. O Papa não consente que forjemos um Deus que nos substitua e, por isso, há crianças, adolescentes, jovens e adultos que para serem felizes optam por hierarquizar as suas necessidades e desenvolver os seus talentos para vencerem a solidão e as situações difíceis de outras pessoas. Descobriram que havia estilos de vida mais divertidos e entusiasmantes do que o culto da estupidez consumista. Um estilo sóbrio de vida pode e deve ser mais divertido do que a peregrinação obrigatória a todos os restaurantes do Guia Michelin.
Jesus Cristo e o Papa Francisco passaram e passam por situações muito difíceis, mas são profundamente felizes ao terem libertado as suas pulsões e desejos tornando-se disponíveis para verem o mundo como a Casa Comum de toda a família humana, nossa família!
Bergoglio já tinha mostrado na Laudato SI que não podemos separar o clamor da devastação do planeta e o dos pobres. A escuta da terra e a dos pobres andam sempre juntas. Pertence, precisamente, à ecologia política mostrar que a crise ambiental e a crise social andam juntas.
A pobreza e a austeridade de S. Francisco não eram um ascetismo puramente exterior. Eram algo de mais radical: a renúncia a converter a realidade em mero objecto de uso e domínio, matando o encanto e a beleza do mundo. Mercantilizar todos os âmbitos da vida é instrumentalizar as relações humanas e a relação com a natureza. Nem tudo na vida humana se pode ou deve comprar e vender.        
 2. O Papa não inventou os factos. Em Setembro de 2015, os países reunidos na Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) comprometeram-se com uma agenda de desenvolvimento até 2030. Nessa agenda havia um compromisso: acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares. Ou seja, os esforços devem apontar para o objectivo de fazer com que o rendimento mínimo diário de cada pessoa supere 1,25 dólares, índice que designa, actualmente, a linha da pobreza extrema.
Como estancar a reprodução das grandes desigualdades e da pobreza? Quando se diz que é o produto de escolhas políticas injustas que reflectem a desigual distribuição do poder na sociedade, não se abordam, de forma clara, as possibilidades concretas de alterar essas escolhas. Se não é possível erradicar a pobreza no mundo sem reduzir drasticamente os níveis de desigualdade, como conseguir esse objectivo? Diz-se que os níveis extremos de desigualdades interferem na capacidade do Estado e da sociedade redistribuírem o rendimento. Erguem barreiras à mobilidade social e mantêm parcelas da população à margem da economia.
Que fazer? Quem sabe não pode e quem pode não quer.
3. Estaremos, então, condenados ao imobilismo e deixar livre o caminho para o abismo?
O relatório da ONU para o Desenvolvimento 2017, afirma que 6,5% da população global continuará na pobreza extrema até 2030, se a actual taxa de crescimento e políticas para o sector permanecerem inalteradas.
Segundo a ONU são necessários novos esforços multilaterais para tirar 550 milhões de pessoas da situação de pobreza.  Se isso não acontecer, os esforços para alcançar os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável serão fortemente prejudicados. Não se vence a pobreza até 2030 e os países menos desenvolvidos vão ficar muito abaixo das metas estabelecidas.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, pediu acção imediata dos países para enfrentar o problema: “apesar dos grandes esforços na luta contra a pobreza, a desigualdade cresceu em todo o mundo. Os conflitos estão a aumentar. Outros problemas como as alterações climáticas, a insegurança alimentar e a escassez de água estão a colocar em risco os progressos alcançados nas últimas décadas”.      
Os cépticos continuarão a dizer que, com ONU ou sem ONU, com o Papa Francisco ou sem o Papa Francisco, a situação dos pobres e dos remendos para a minorar é muito antiga e desencorajante. Os pobres, ao morrerem, continuarão a deixar, como herança aos seus descendentes, apenas a sua pobreza.
A condição humana é histórica, está a caminho, não está irremediavelmente condenada ou salva. Esquecemos que a desigualdade entre os seres humanos começa cedo. Uns nascem em berços de ouro, outros debaixo das pontes. O que lhe é próprio é não se render ao infortúnio, nem a nível individual, nem a nível social. Quando alguém não pode, precisa de quem o ajude e, para se realizar como humano, precisa de ajudar. Mas, sem uma dimensão política em que seja possível procurar uma vida de qualidade, em instituições justas, a nível individual e global, não há manta que chegue para todos.
É verdade que ninguém dispõe de soluções prontas a servir a dignidade humana de todos. Mas ninguém devia dispensar a pergunta: eu não posso mesmo fazer nada?
O Papa Francisco faz o que pode, mas não nos pode substituir.
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público 25.11.2018
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Sobre Saramago e Deus
Padre Anselmo Borges

O Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra e a Câmara Municipal de Coimbra organizaram nos passados dias 8, 9 e 10 de Outubro, no Convento de São Francisco de Coimbra, um Congresso Internacional: "José Saramago: 20 anos com o Prémio Nobel". Carlos Reis e Ana Peixinho pediram-me uma intervenção sobre Saramago e Deus. O que aí fica é uma breve síntese da minha fala nesse Congresso.

1. Numa entrevista dada a João Céu e Silva, uma das últimas, se não a última, Saramago referiu-se-me com admiração por ter lido e gostado do seu livro Caim. "Até fiquei surpreendido quando ouvi um teólogo - uma coisa é um teólogo e outra um padre -, Anselmo Borges, dizer que tinha gostado do livro." Mas na net também se diz, e é verdade, que fui crítico por causa de alguma unilateralidade com que Saramago leu a Bíblia. Assim, a minha intervenção quer ser essencialmente um esclarecimento sobre essa minha dupla visão.

2. Saramago foi à Academia Sueca dizer, no dia 7 de Dezembro de 1998, logo na primeira frase: "O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever."

Quando me expresso sobre o diálogo inter-religioso, digo sempre, com escândalo de alguns, que desse diálogo também fazem parte os ateus, os ateus que sabem o que isso quer dizer - os crentes também só o são verdadeiramente se souberem o que isso quer dizer. Fazem parte, porque são eles que, estando de fora, mais facilmente vêem as superstições, as inumanidades e até as barbaridades que tantas vezes infectam as religiões. Assim, à maneira de Saramago, também digo: foi com dois ateus que aprendi do melhor da Teologia: Ernst Bloch e o nosso homenageado, José Saramago. Mais com Bloch, porque, dada a situação da Teologia na universidade alemã - em todas as universidades, há duas faculdades de Teologia, uma católica e outra protestante -, ele tinha profundos conhecimentos bíblicos. Neste enquadramento, refiro três pontos.

2. 1. Também sou ateu em relação ao deus denunciado por eles. Porque é isso que se deve ser, se se quiser manter a dignidade humana face a um deus brutal, irresponsável, ciumento, mesquinho, tirânico, cruel, sádico, sanguinário... Neste sentido, estou de acordo com Ernst Bloch, quando escreveu que "só um bom ateu pode ser um bom cristão, só um bom cristão pode ser um bom ateu".

Previno que a boa exegese mostra que nem sempre está no texto bíblico aquilo que o puseram a dizer e que passou à tradição. Por exemplo, o caso de Isaac, cujo significado é o contrário daquilo que frequentemente se ensinou: ao aparecer o cordeiro, Deus está a proclamar que não quer o sacrifício de seres humanos. Mas, de facto, muitas vezes foi a outra tradição que passou, aquela a que se referiu o prestigiado biblista católico do século XX Norbert Lohfink quando constatou que a Bíblia judaica é "um dos livros mais cheios de sangue da literatura mundial".

Como aceitar um deus que castigasse a humanidade inteira por causa de os primeiros pais terem comido uma maçã? De qualquer modo, no quadro da evolução, quem foram os primeiros e como é que poderiam ter um acto de liberdade tal que arrastasse consigo todos os males do mundo, incluindo a morte? Que sentido pode ter um pecado original herdado, de tal modo que todas as crianças seriam geradas em pecado, do qual só o baptismo pode libertar?

E Jesus não foi enviado por Deus para ser morto e com a sua morte pagar a dívida infinita da humanidade para com Deus e Deus aplacar a sua ira e reconciliar-se com a humanidade. Que pai decente imporia isso ao seu filho querido, condenando-o à morte?

Caim, segundo Saramago, vai, castigado, pelo mundo, não sem perguntar a deus porque é que o não impediu de matar o irmão, Abel. Deus é, pois, co-responsável por esse acto...

Trata-se de um deus arbitrário, irresponsável, ciumento, pior do que nós.

Ficamos arrepiados, quando lemos que Deus exigiu de Abraão que matasse o seu filho Isaac. O próprio filósofo Sören Kierkegaard, que propunha Abraão como modelo da fé incondicional, viu o horror da situação e diz que o miúdo voltou para casa e deixou de acreditar em deus e Abraão nunca disse uma palavra a Sara sobre o acontecido.

Sodoma e Gomorra. Lá também havia crianças inocentes. E deus não se lembrou delas?

Babel. Deus, em vez de castigar os homens pelo seu feito, deveria honrar-se com o êxito das suas criaturas. É ciumento, invejoso.

Também no Dilúvio, deus não teve compaixão para com os inocentes. A mesma acusação vale para a situação dos filhos primogénitos dos egípcios.

Ah, e, aquando do nascimento de Jesus, houve a matança dos inocentes e José não se preocupou. No regresso do Egipto nem sequer perguntou às mães pela sua dor...

Do pior: as guerras religiosas, pois é deus contra deus, e as vítimas são os homens e as mulheres e as crianças... Como é possível deus mandar matar, haver guerras em nome de deus?

2. 2. Ernst Bloch foi mais longe. Sabendo Teologia e exegese, distinguiu muito bem duas camadas na Bíblia: a do deus dos senhores, do deus dominador, tirânico, imoral e opressor e a do Deus da libertação e dignificação de todos. Em conexão, viu também dois tipos de Igreja: a Igreja dos senhores, a Igreja do poder inquisitorial, opressora, e a Igreja dos pobres, do bem, da justiça, da paz. Para Bloch, há um duplo fio condutor na Bíblia: o sacerdotal, em que domina o deus opressor, dos senhores, e o profético-messiânico-apocalíptico, que anuncia o Reino de Deus, a herdar meta-religiosamente como Reino do Homem: "Esta vida no horizonte do futuro veio ao mundo pela Bíblia."

Jesus agiu como um homem bom, escreve Bloch, "algo que ainda não tinha acontecido". Ele personifica a bondade e o amor e nele exprime-se e realiza-se o melhor da esperança, o ainda não do que a humanidade pode e deve ser. Ele não foi morto por Deus seu Pai, mas pelo religião do Templo, a religião dos sacerdotes, que viviam da exploração dos crentes.

O que devemos ao cristianismo? O próprio conceito de pessoa foi dentro dos debates à volta da tentativa de compreender Jesus Cristo que surgiu. Sabemos que nenhum homem pode ser "tratado como gado": foi através de Jesus que o sabemos, porque nele, por ele e com ele, se proclama a dignidade infinita de todo o ser humano.

Onde é que nasceu a Declaração dos Direitos Humanos? Foi na China? Na Arábia?

Jürgen Habermas, o filósofo mais influente da actualidade, agnóstico, escreveu que a democracia não é senão a tradução para a política da ideia cristã de que cada homem e cada mulher são filhos de Deus. Isso, politicamente traduzido, dá um homem um voto, uma mulher um voto.

Não haveria o horror da pedofilia, também na Igreja, se se ouvisse a maior proclamação de sempre feita por Jesus sobre a dignidade das crianças: "Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o Reino de Deus", acrescentando logo a seguir: "Ai de quem escandalizar uma criança: mais valia atar-lhe uma mó de moinho ao pescoço e ser lançado ao mar."

Tudo isto para repetir o que disse logo no início da minha fala: estou grato, muito grato, a Saramago, mas não aceito a sua afirmação: "A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele." A sua leitura foi unilateral.

3. O que é ser ateu? Quando se diz que se é ateu, é preciso começar por perguntar o que se entende por isso e concretamente em relação a que Deus se é ateu.

Há dois modos de negação de Deus: a negação real e a negação determinada.

Por negação determinada entende-se a negação de um determinado deus, de uma certa imagem de deus. Foi o que Saramago fez. Como podia ele ou alguém intelectualmente honesto aceitar um deus cruel e sanguinário? Daí a inversão da oração de Cristo na Cruz, no Evangelho segundo Jesus Cristo. Onde no Evangelho se diz: "Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem", lê-se em Saramago: "Homens, perdoai-lhe porque ele não sabe o que fez."

A negação determinada não significa negação real. A pergunta é, portanto, se Saramago negou realmente Deus ou se, pelo contrário, na negação do deus arbitrário e sanguinário não está dialecticamente presente o clamor pelo único Deus verdadeiro, o do amor incondicional, o do Antimal.

De qualquer modo, segundo Saramago, "Deus é o silêncio do universo, e o ser humano o grito que dá sentido a esse silêncio". "Esta definição de Saramago é a mais bela que alguma vez li ou ouvi", escreveu o teólogo Juan José Tamayo. "Essa definição está mais perto de um místico do que de um ateu."

4. No final da minha intervenção, a viúva de Saramago, Pilar del Río, aproximou-se, agradeceu e disse-me: sabe qual foi o contexto desse diálogo entre o meu marido e Tamayo? Íamos os três pela Plaza de la Giralda, em Sevilha, e os sinos da catedral repicaram, e Saramago: "Os sinos tocam porque está um teólogo a passar." E Tamayo retorquiu: "Não, os sinos repicam porque um ateu está prestes a converter-se ao cristianismo."
Padre e professor de Filosofia
in DN 24.11.2018
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sexta-feira, 23 de Novembro de 2018
Tomáš Halík: “Deus gosta de quem luta com ele”
Entrevista de António Marujo
Imagem de Maria Wilton (não incluídas)

“Deus não é um problema, é um mistério. E a fé é a coragem de entrar na nuvem do mistério”, diz o teólogo checo Tomáš Halík, que esta semana esteve em Lisboa, a propósito da edição do seu último livro, Diante de Ti os Meus Caminhos (ed. Paulinas). Obra que cruza as memórias e a reflexão teológica e antropológica a que o autor já habituou os seus leitores, Halik percorre, nela, os anos da aproximação à fé cristã durante a sua juventude, a opção pelo catolicismo e pela missão de presbítero, a clandestinidade e as proibições e controlos a que foi sujeito, a morte do colega Jan Palach, a democratização da então Checoslováquia ou a amizade com o primeiro Presidente eleito, Vaclav Havel.
A partir do seu trabalho com jovens estudantes, Halik traça, também, as suas reflexões sobre o papel do cristianismo na contemporaneidade. “Não acredito numa Igreja sem feridas”, diz, para manifestar a sua extrema preocupação com o fenómeno dos populismos contemporâneos: “Comunismo e populismo não se podem comparar. No comunismo, precisamos de coragem. Agora, precisamos de sabedoria.”
Ao longo da entrevista, Tomáš Halík pára por vezes durante largos segundos para pensar na resposta. Noutras, volta atrás, porque a ideia não estava a sair como pretendia. “Escrevo os meus livros para pessoas com mentes e corações abertos”, dirá, a terminar.

P. – Nos seus livros, cita várias vezes Nietzsche e, sobretudo, o seu “Assim Falava Zaratustra”. Neste último, escreve mesmo que começou a ler Nietzsche e volta a ele sempre, em diferentes momentos da sua vida.

Há várias similaridades entre Nietzsche e SørenKierkegaard, que foi um grande cristão, não conformista. Também há semelhanças com Pascal. Todos eles lutam contra um cristianismo superficial e de massa. Nietzsche criticava Jesus mas há também alguns capítulos no seu Anti-Cristo, que é como uma canção de amor e admiração por Jesus. Penso que os críticos perspicazes são sempre bons parceiros para pensar, provocadores do pensamento.

– Termina este novo livro escrevendo: “Acredito que o NADA, ao qual nos dirigimos na morte, é apenas outro nome maravilhoso de Deus.” Isto é uma profissão de fé cristã ou uma declaração ateia?
– É uma citação do grande místico Mestre Eckart: “Deus não é nada das coisas deste mundo.” É uma purificação da idolatria presente em alguns dos nossos conceitos de Deus. Alguns retratos de Deus são humanos e não podemos viver sem eles. Mas, se esquecermos a diferença entre o símbolo e o que ele simboliza, isso é idolatria, fundamentalismo. Mestre Eckart está a dizer: Deus não é nada assim.

Deus não é um problema, é um mistério. E a fé é a coragem de entrar na nuvem do mistério, para viver este mistério, este paradoxo da vida sem medo e com confiança.

– Esse mistério de que fala tem algo a ver com o “horizonte absoluto” de que falava o Presidente Havel?
– Essa expressão de Havel é inspirada em Martin Heidegger e no existencialismo. Sim, há alguma similitude. Penso que é algo muito típico da espiritualidade checa: [muitos checos] não são ateus, são muito sensíveis aos valores espirituais, mas não são capazes de falar de Deus em termos tradicionais.

O “alguma coisa” é a religião mais difundida no nosso tempo: “Não acredito em Deus mas alguma coisa deve existir...” Este é um desafio para os teólogos, para a hermenêutica sobre o que será “alguma coisa”. Deus não é “alguma coisa”, não é um assunto entre outros assuntos, é algo muito diferente, o que nos provoca a meditar e ir mais fundo.

– No seu Paciência Com Deus, recorda a história de uma parede em Praga onde alguém tinha escrito “Jesus é a resposta”, e outra pessoa teria acrescentado “Mas qual era a pergunta?” A Igreja e os cristãos têm demasiadas respostas para perguntas que esqueceram?
– Receio que sim.

– Pode dar um exemplo de uma dessas perguntas mais importantes?
– A pergunta sobre o sentido da vida. Não apenas enquanto questão teórica ou filosófica, mas uma questão prática: em todas as decisões, na nossa vida, estamos a responder de forma concreta à pergunta sobre o sentido da vida. O nosso agir é sempre uma resposta.

– Também escreve que muitas vezes concorda com os ateus, mesmo em quase tudo. É possível um crente dizer isso?
– Muitos ateus não são inimigos de Deus, mas são inimigos de um certo tipo de teísmo, de uma teoria humana sobre Deus. E há vários tipos de teísmo muito problemáticos. O ateísmo pode ajudar-nos a purificar a nossa fé da idolatria.
 
– A secularização é um sinal dos tempos, como o padre Arturo Sosa, o geral dos jesuítas, disse no último Sínodo?
– Foi um sinal dos tempos em décadas anteriores. Agora, vivemos num mundo pós-secular: apesar dos muitos conceitos de secularização, é errada a ideia de que a religião está a desaparecer. A religião não está a desaparecer, apenas desapareceu do ponto de vista de alguns média e de alguns cientistas sociais dos séculos XIX e XX. Hoje em dia, a religião está aqui.
Não diria que Deus e a religião estão de volta, porque nunca desapareceram. Mas estão em transformação. Somos testemunhas da grande transformação da religião. O modo tradicional de viver a religião está cada vez mais débil, está a perder a sua biosfera cultural e social.

– Em que sentidos se está a transformar?
– A religião, por vezes, transforma-se em ideologia política, algo muito perigoso; outras vezes, transforma-se em espiritualidade, que deve ser desenvolvida para não nos tornarmos em alguém que vira costas ao mundo, mas ante alguém que encara o misticismo com olhos abertos.
Contemplação e acção: grandes personalidades como o fundador da comunidade de Taizé, Roger Schutz, falavam da contemplação e acção. E era isso que ele queria dizer: precisamos da teologia pública e de uma religião pública, que esteja no mundo para defender os direitos humanos. Não é preciso ter uma ideologia política para ser activo na vida pública, mas antes ter uma dimensão mais profunda da contemplação e espiritualidade.

– A indiferença é pior que o ateísmo militante?
– Sim. Há um ateísmo militante estúpido e é sempre difícil discutir com gente estúpida. Mas há também o ateísmo de pessoas que têm os seus corações feridos, que estão feridas por algum mal nas suas vidas. Devemos tomar essas pessoas seriamente porque este sentimento de que não há Deus é também um momento que faz parte da nossa fé cristã: é a fé da Páscoa, onde há morte e ressurreição.
Não há ressurreição sem cruz e, por vezes, há crises de fé na nossa vida pessoal ou na História, como uma participação mística no momento em que Jesus, na cruz, disse: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” Devemos entender esta pergunta. A resposta da ressurreição não é regressar ao Jesus do passado, mas abrir para uma nova dimensão. Por vezes, na nossa própria história ou na história da Igreja e da humanidade, algum tipo de fé tem de morrer. Mas, perante isso, o ateísmo não é a única possibilidade, há uma fé mais profunda, um an-ateísmo, um acreditar de novo. É a ressurreição da nossa fé, que é a transformação.

– Ao falar de pessoas feridas, escreve no seu livro O Meu Deus é um Deus Ferido: “Ao tocar nas feridas do mundo, tocamos em Deus.” Significa que no ateísmo e no agnosticismo há também muitas feridas?
– Há pessoas que dizem “eu gostaria de acreditar mas não consigo, porque estou tão ferido por este mal...” Devemos abraçar este tipo de ateísmo para dizer às pessoas esta experiência que é o absurdo do mal e o tempo de escuridão, a experiência da noite escura da alma.
As noites escuras da alma são um momento muito importante. Não devemos anular essas perguntas de modo simplista, devemos abraçar essas pessoas, especialmente nas feridas dos corações humanos.

– É esse o sentido do que o Papa tem referido várias vezes, sobre a Igreja ser um hospital de campanha?
– Absolutamente, é uma grande ideia. Louvo o Papa Francisco por essa ideia. Devemos desenvolver essa metáfora, porque a Igreja deve também fazer prevenção, cura e recuperação das feridas na nossa vida.
Uma das grandes doenças na nossa vida é o populismo, o novo populismo, o racismo, a xenofobia, o medo e o desespero, tão forte no nosso mundo. E não só a Igreja, mas também a imprensa livre, as universidades, devem ser um hospital para curar essa doença. E também trabalhar na prevenção, preparando as pessoas para confrontarem as mentiras, as notícias falsas e todos esses [males].

– O que é pior: o populismo, o racismo, a xenofobia ou um regime comunista, sem liberdade?
– Uma vez, uns americanos disseram-me, numa conferência, que é tudo o mesmo. Contei-lhes uma anedota: numa sinagoga, estava escrito: “se entrar sem o solidéu, é como cometer adultério”. No dia seguinte, alguém tinha acrescentado: “Eu experimentei ambos, mas não tem comparação.” Comunismo e populismo não se podem comparar: no comunismo, precisamos de coragem; agora, precisamos de sabedoria.

– Subscreve a ideia do Papa que diz que estamos já a viver uma nova guerra mundial aos bocados?
– Sou um pouco mais cauteloso com a metáfora da guerra. É um confronto com muitos males no nosso mundo. O populismo é o pior que conheço.

– Era amigo e muito próximo de Vaclav Havel e de outros líderes da transição democrática checa. Qual era a maior virtude de Havel?
– Era ser um defensor da liberdade, da dignidade e dos direitos humanos. Muitas pessoas do nosso mundo buscam a aprovação dos outros. Ele foi muito importante, não só para o nosso país, mas também para o nosso mundo como um político que não era só um jogador com poder, mas um pensador. Era uma inspiração moral e espiritual para o povo, lutando contra preconceitos e estereótipos – o que requeria grande coragem, porque muitos políticos dizem apenas o que as pessoas esperam.
Lembro-me que, uma vez, estive num debate na televisão com um dos nossos políticos no poder. Quando saímos, disse-lhe que o que ele tinha dito era mentira e ele respondeu: “Verdade? O que é a verdade? Eu estou a falar com os meus eleitores e sei o que eles querem ouvir. Não estou interessado na verdade.” Essa é a tragédia.

– Pilatos perguntou “o que é a verdade?” e essa foi a única pergunta que Jesus não respondeu...
– Sim, porque ele era a resposta. Nunca ouvi na vida esta pergunta de Pilatos, mas entendo-a. Foi a mesma resposta desse político: não estou interessado na verdade, mas no poder. O que se pode dizer ou responder? Jesus estava ali como a resposta.

“Tenho medo do populismo. Há muitos monstros que devemos olhar nos olhos; se calhar,  são parecidos connosco.”


– O Presidente Havel sugeriu que lhe sucedesse no cargo. Porque recusou?
– Eu pensei nisso. Mas, como padre e professor, muito próximo dos jovens, tenho possibilidade de dizer o que verdadeiramente penso e o que é a minha consciência. A situação após a revolução [1989-2003] era diferente, mas posso, na posição em que estou, servir a minha nação um pouco melhor. Especialmente hoje, com a atmosfera no nosso país que, como noutros, está tão destruída pelo populismo.
Alguém que lute contra estes estereótipos não tem possibilidade de ganhar as eleições. Devemos preparar a atmosfera moral, devemos ser um hospital de campanha e preparar as mudanças do clima que se instalou na Europa e no resto do mundo. [Os populistas] sabem como expressar o que as pessoas pensam ou os medos e a ansiedade com que vivem. E os políticos são mestres em expressar e usar estes sentimentos das pessoas.

– Porquê?
– Isto está ligado ao processo de globalização. A globalização foi a razão principal da queda do comunismo: a economia estatal planificada e um regime que controlava as ideias e a cultura não podiam aguentar-se num mercado livre de bens e ideias.
Agora, o processo de globalização chegou a um ponto em que testemunhamos o seu lado negro. Há muita gente desapontada, porque não é aceite ou não escutam os seus problemas, e recebem instrumentos muito poderosos nas novas redes sociais, que são bolhas em que as pessoas estão sempre expostas a preconceitos e a ouvir apenas o que querem ouvir, não são confrontados com novas maneiras de ver o mundo. Por vezes, digo que as redes sociais são redes anti-sociais. Nessas bolhas há pessoas que apoiam e desenvolvem a sua ansiedade e agressividade. É um tempo muito difícil.

– Tem medo deste aumento do populismo?
– Claro que tenho. É um grande problema. Estamos a viver tempos difíceis – é um tempo interessante, mas difícil. Toda a gente tem a sua parte de responsabilidade e há muitas pessoas a irradiar medo e agressividade. Por outro lado, pessoas como Vaclav Havel ou o Papa Francisco irradiam confiança, humor, amor, esperança.
Há muitos monstros no nosso mundo. Richard Kearney, um psicanalista, disse: se fores perseguido nos teus sonhos por um monstro, olha o monstro nos olhos; provavelmente reconhecerás que o monstro é um pouco parecido contigo. Devemos ter a coragem de olhar para estes monstros nos olhos. Há tantas demonizações entre grupos de pessoas...

– Estamos a enfrentar os mesmos monstros que nos levaram à Grande Guerra e à Segunda Guerra Mundial?
– Há algumas semelhanças. O fascismo, o nazismo e o bolchevismo nasceram da crise económica, da grande depressão económica, que alimentou esses monstros. Agora, não estamos numa crise económica tão grande – no meu país, estamos muito bem –, é mais uma crise espiritual do que económica, é uma crise de identidade.
Claro que ambas estão ligadas: se há uma crise familiar, a família não tem capacidade de apoiar os jovens para criar a sua própria identidade. As pessoas mais fracas estão à procura de identidades colectivas: as seitas religiosas fundamentalistas, o extremismo político da esquerda e da direita, um novo conservadorismo na Igreja… Conheço muitos padres jovens que têm personalidades tão fracas que procuram uma imagem forte de conservadorismo e a distância em relação às pessoas. E isso é uma tragédia.

– Diz no livro que a sua missão como padre é construir pontes: entre católicos e não católicos, crentes e não crentes, diferentes gerações… Essa é uma experiência também física: muitos diálogos que teve durante a oposição ao comunismo começaram na Ponte Carlos, em Praga. A sua missão continua a ser a de fazer pontes?
– É mais difícil do que era há dez anos atrás: para construir pontes, somos confrontados com agressividade de ambos os lados, da esquerda e da direita. O meu autor preferido, G.K Chesterton, disse: “Se os magros te dizem que és gordo e os gordos dizem que és magro, pode significar que és normal.” Se somos atacados de ambos os lados, pode ser bastante normal, apesar de não ser muito agradável. Mas é parte da nossa missão e de dizer não ao radicalismo.

– Nos últimos anos também se comprometeu no diálogo inter-religioso... Construir pontes no mundo religioso é importante?
– Sim, muito importante.

Os contactos inter-religiosos têm algum risco, que é permanecer apenas do domínio dos académicos – muçulmanos, cristãos ou judeus. Entre eles entendem-se muito bem, mas melhor ainda do que falarem entre si é, por exemplo, colocar juntos jovens de diferentes religiões a dialogar, para entender a perspectiva do outro.

– Expressa no seu livro uma grande admiração pelo Reino Unido. Lamenta o Brexit? Estamos a destruir uma ponte entre europeus?
– Sim, acho o Brexitestúpido e trágico. Eu estava na Universidade de Oxford quando soube [o resultado do referendo] e todos os professores, que achavam que iam ficar dentro da UE, ficaram em choque. É outro tipo de populismo. Agora, muitos britânicos querem corrigir o erro. Seria uma possibilidade haver um segundo referendo, algo que seria lógico, pois precisamos de uma Europa forte e unida.
No leste temos a Rússia de Putin, um país muito perigoso: o bolchevismo acabou mas o mais perigoso foi o nacionalismo e imperialismo russo. Putin tem nas mãos o poder de converter de novo em colónias ou satélites os países à volta, colocando-os sob o seu controlo. As fake news, que agora estão por todo o lado na internet, vêm da Rússia com o propósito de destruir a confiança na UE, são um perigo muito importante. Precisamos de saber distinguir a qualidade da informação quando a vemos.

– Assinou uma carta, no ano passado, de apoio ao Papa. Porque é que ele precisa do apoio das pessoas?
– Porque há uma parte dos teólogos, padres e leigos que estão a lutar contra ele, pois querem voltar a um tempo antigo. Mas não é possível regressar a uma guerra que acabou. Devemos concentrar-nos em enfrentar os problemas do nosso mundo atual.
A oposição ao Papa Francisco é muito semelhante à oposição dos fariseus contra Jesus. Eles queriam leis, queriam prescrições severas e a mensagem do Papa Francisco é redescobrir o verdadeiro coração do Evangelho: o amor, a solidariedade, responsabilidade pelos pobres, responsabilidade pela criação. Isto não interessa a pessoas que têm outra agenda. Ele é um perigo para estas pessoas porque tem novas ideias e cria uma nova atmosfera – e este é o futuro da Igreja.

– Esse futuro depende do Papa?
– O futuro da Igreja depende da habilidade que ela tiver em comunicar com os que buscam. O número de pessoas que se identificam completamente com a Igreja está a diminuir, mas também diminui o número de ateus convictos. Já o número dos que procuram algo, pessoas com mente aberta mas que não estão satisfeitas com esta forma de cristianismo, está a aumentar.
Não devemos empurrar estas pessoas para estruturas existentes, mas abrir as estruturas físicas e mentais da instituição, enriquecendo-as com as experiências de quem anda à procura. O futuro da Igreja depende da maneira como comunicamos com essas pessoas e como os acompanhamos.

– Há limites na reforma desejada pelo Papa Francisco? A questão dos abusos sexuais pode ser um desafio ao ministério do Papa?
– Sim, porque é um grave sinal dos tempos: não só os abusos sexuais, mas também os abusos de poder na Igreja. Quando a Igreja perdeu o poder no mundo, muitos padres viraram este poder para a Igreja em si e converteram-no em poder sobre mulheres e crianças mais fracas.
A experiência desta explosão de escândalos não é só problema de alguns indivíduos, é um grande problema da Igreja. É algo como [depois do] Holocausto: na Alemanha, depois da Guerra, muitos alemães receberam as notícias sobre o Holocausto – porque eles não sabiam o que se passava – e viram-se confrontados com um grande mal que tinha sido feito em nome da nação alemã.
Hoje, estamos a ser confrontados com uma tragédia dentro da Igreja, de que muitos de nós não fazíamos ideia. Temos de refletir acerca destes assuntos, penso que tenha sido o mau uso da sexualidade e do poder. O que o Papa tem dito acerca do clericalismo está correcto, mas é necessária também uma teologia mais profunda, a partir de um ponto de vista antropológico acerca da humanidade e do papel da sexualidade na vida humana.

– São precisos também psicólogos nos seminários para aqueles que querem ser padres?
– Claro. Acho que muitos padres não são muito preparados para o ministério na maioria dos seminários, mesmo sem querer generalizar. Precisamos de melhor preparação espiritual e psicológica.

– Escreve que, por vezes, o seu corpo e a sua alma “doíam com o desejo pela mulher”. Não é habitual padres católicos falarem deste modo, destes assuntos. Os padres deviam expressar mais este tipo de sentimentos?
– Isso é parte da experiência de muitos padres e todas as crises são uma possibilidade de ir mais além. É possível transformar a energia e sentimentos sexuais em energia espiritual. Mas não é fácil e receio que muitos seminaristas o consigam fazer.
O celibato nasceu nos mosteiros, em comunidades com uma preparação espiritual muito grande. Talvez no futuro volte a ser assim. Mas não tenho a certeza se não há um tempo para pensar na possibilidade de viri probati, homens casados, serem ordenados. Devemos falar e pensar no assunto abertamente, criticamente e de maneira responsável.

“Os padres não deviam ser uma casta. É bom ter padres que vivem no meio das pessoas comuns e partilhem o seu modo de vida.”

– O padre Halík e o seu grupo de padres clandestinos defendiam uma terceira via de padres católicos: além dos padres das paróquias e da vida monástica, deveria haver padres a trabalhar no meio das pessoas comuns e isso ser parte da sua identidade. É possível chegar a esse ponto?
– Penso que sim. No futuro será mais normal haver padres trabalhadores, um conceito que já havia em França nos anos 1950. É uma experiência que tive e pela qual estou muito grato: ser padre na paróquia e professor catedrático. É muito importante para não estar tão isolado. Os padres não deviam ser uma casta, para ultrapassar a mentalidade do clericalismo. Haverá sempre padres em paróquias e em mosteiros, mas é bom ter padres que vivem no meio das pessoas comuns e partilhem o seu modo de vida e os seus problemas com maior proximidade.

– O irmão Aloïs, de Taizé, falou, no último Sínodo dos Bispos sobre os jovens, de uma Igreja acolhedora para os jovens. Estamos longe desse desejo?
– É muito importante estar em contacto com os jovens, que nem todas as pessoas da Igreja são capazes de ouvir com paciência e humildade. Estamos habituados a ser mestres e, às vezes, temos de ser os estudantes. Não posso falar no geral. Aloïs, de Taizé, é um grande amigo e eu estive várias vezes em Taizé. A comunidade é um exemplo de como convidar os jovens a partilhar a sua experiência, a estar juntos, a rezar juntos. Tenho a mesma experiência na nossa paróquia académica: baptizei, nestes quase 30 anos, mais de dois mil jovens, após dois anos de catecumenado. A nossa paróquia está sempre cheia de jovens ao domingo, naquele a que chamam o “país mais ateu”.
Isto depende do modo como se comunica com estas pessoas e o que lhes podemos oferecer. Por isso, trabalhamos com artes, retiros espirituais, alguns com filmes e análise desses filmes, arte moderna na igreja barroca... Não é suficiente apenas celebrar a missa. As pessoas querem atmosfera na sua vida para a sua busca espiritual. Se há alguém que consegue fazer e inspirar isso, as pessoas virão. Nada está perdido mas limitar-se apenas a repetir fórmulas ou ter um “aleluia, aleluia” emocional não é suficiente.
Temos de tomar as pessoas a sério e partilhar as suas questões e problemas, termos a mente aberta, conhecendo a sua cultura e valores. É possível trabalhar com os jovens mas tem de ser de modo diferente de antes.

– Pensou em ser padre jesuíta. Porque é que a experiência e a espiritualidade jesuíta são tão importantes para si?
– Há algo de muito corajoso em ir para os lugares mais difíceis. E há uma certa disciplina e liberdade interior em ser jesuíta. Os Exercícios Espirituais são uma obra prima, no sentido de reconhecer como Deus está activo na normal experiência no dia-a-dia.
É algo que ensino aos jovens: não esperem uma grande revelação, cada acontecimento da nossa vida é uma revelação de Deus e ele está presente em todos os momentos, os bons e as crises. Há palavras de Deus em acontecimentos da nossa vida e da nossa sociedade, mas precisamos da cultura para os distinguir e contemplar, indo mais e mais fundo. Para mim, essa é uma espiritualidade muito importante para a Igreja e para o mundo.


“Escrevo os meus livros para pessoas com mentes e corações abertos, que estão à procura e que têm questões e dúvidas.”


– No livro Quero Que Tu Sejas, escreve que a questão “Deus existe?” é semelhante a “O que é o amor?” Os cristãos esqueceram esta ligação entre Deus e o amor?
– Não quero generalizar. Temos de redescobrir esta ligação entre Deus e amor porque Deus é amor. Jesus relativizou muitos valores mas havia algo que, para ele, era absoluto: o amor. Digo por vezes aos jovens que não é tão importante acreditar em Deus, mas amar Deus. E eles dizem “mas eu tenho que acreditar primeiro”. Respondo que não: apenas na experiência do amor se pode perceber o que quer dizer a palavra de Deus. Se não se tiver experiência com o amor ao mundo, aos outros, à natureza, etc., Deus será uma palavra vazia. Só na experiência de amar as pessoas se pode entender o que a palavra Deus quer dizer.

– Lemos nos seus livros muitas referências acerca de muitas outras pessoas: Chesterton, em primeiro lugar, porque é o seu autor favorito. Mas também muitos outros, diferentes, como Kafka, Bonhoeffer, Unamuno, Tillich, Thomas Merton, Rahner, Graham Greene, Fellini, Bergman, Dostoievski, James Jooyce, Jack Kerouac... Como descreveria o seu trabalho de escrita, a partir de todas essas pessoas?
– Há uma tradição na cultura humana, e também na religião e na Igreja, de pessoas que percebem o mundo e a vida como um paradoxo. Vêm os dois lados e não estão satisfeitos com perguntas simples, são capazes de sair dos paradoxos da vida. Podemos falar de São Paulo, Santo Agostinho, Blaise Pascal, Kierkegaard, Chesterton e muitos outros – incluindo o padre Tolentino [Mendonça], com quem partilho muitas semelhanças no modo de pensar.
É importante escrever livros teológicos não só como livros de dogmas e artigos de fé. Escrevo os meus livros para pessoas com mentes e corações abertos, que estão à procura e que têm questões e dúvidas, com sensibilidade espiritual. Não estão satisfeitas com as respostas simples para questões complicadas e muitas delas precisam de alguém que as acompanhe – não que as manipule, mas que as acompanhe. Esse é o sentido da minha literatura e do meu trabalho pastoral.
in Blog http://religionline.blogspot.com

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Exclusive: Archbishop Scicluna says February meeting start of ‘global approach’ to fighting sex abuse
Gerard O’Connell
In a decision highlighting the great importance he gives to next February’s summit meeting on “the protection of minors in the church,” to which he has called the presidents of all the Catholic bishops conferences, Pope Francis has appointed a high-powered steering committee to oversee the project.

The committee is composed of two cardinals, Blase Cupich (Chicago) and Oswald Gracias (Bombay, India), and two of the church’s experts in the field: Archbishop Charles Scicluna (Malta), and Father Hans Zollner, a German Jesuit and president of the Center for Child Protection and Director and professor of psychology at the Gregorian University in Rome, who will serve as coordinator. The Vatican announced this today, November 23.

In this exclusive interview with America, Archbishop Scicluna, whom the pope recently appointed as adjunct secretary of the Congregation for the Doctrine of the Faith and who is also the president of its tribunal for appeals, speaks about the significance and goals of the February meeting, and how it will be conducted.

The Vatican announced today the archbishop will serve on a committee overseeing the Vatican meeting along with Cardinals Blase Cupich and Oswald Gracias and Jesuit Father Hans Zollner.

He described it as “a synodal meeting, the first ever of its kind to address the issue of the sexual abuse of minors in the church.“ It is “quite significant” because it brings together the presidents of over 100 bishops conferences from around the world, and the heads of all the Eastern-rite Catholic churches. Moreover, it is “a very important sign of what we call in technical terms ‘affective collegiality,’ which means the bringing together of bishops from around the world with the Holy Father to discuss important issues and to get them to be on the same page with the Holy Father.”

He said Pope Francis called this summit meeting because “he realizes that this issue,” namely the protection of children and the prevention and addressing of sexual abuse by clergy in the church, “has to be top on the church’s agenda.” The pope realizes that “this is a global issue, it is not a case of geographical or cultural criteria, rather it is a global issue which the church would want to approach with a united front, with respect for the different cultures but with a united resolve and with people being on the same page on it.”

While acknowledging that it is only four days long (Feb. 21-24) and “is certainly not going to solve everything,” Archbishop Scicluna emphasized that “it is a very important start of a global process which will take quite some time to perfect.” As a result of this process he hopes that “a number of initiatives on a continental level will start to happen that will re-create the atmosphere of resolve, determination but also purpose which I hope will mark the Rome meeting,” and will help “to address the issues in a different number of cultures, that have their own restraints, their own important positive aspects but also deficits that have to be discussed on a continental but also local level.”

Archbishop Scicluna described the February meeting as “the beginning of a new approach that I hope will be global, because it concerns the whole church, but it will also have a very important local context because safeguarding is not something up-there, it can’t be abstract, it has to be lived in every parish, in every school, in every diocese, and so it has to have an effect on the local level otherwise it’s not effective at all.”

He explained that the “main goals” of the meeting “are to make bishops realize and discuss together the fact that the sexual abuse of minors is not only an egregious phenomenon in itself and a crime, but it is also a very grave symptom of something deeper, which is actually a crisis in the way we approach ministry. Some call it clericalism, others call it a perversion of the ministry.”

He recalled that Pope Francis “has talked a lot about the way we go on with the stewardship of the community, not only as bishops but also as priests,” and said “the issue not only concerns the individual tragic cases of misconduct and the impact of that crime on the most vulnerable, the children, but also the way stewardship is exercised when we are faced with the issues; so the way we treat perpetrators, the way we treat victims, the way we treat the community.” All this will be discussed in February.

“Accountability is part of stewardship,” the archbishop stated. “Stewardship is not only accountability to God and to our conscience, but also to our community,” he explained; “stewardship means doing your job and doing it properly, especially when it is a question of care,” whereas “cover-up” is “the antithesis of stewardship.” “When you cover-up,” he said, “you are actually not solving a problem, you are deciding not to address it, you are deciding to hide important consequences and avoid the demands of justice, which is certainly not good stewardship.” He emphasized that “we have to move away from panic-driven policies that put the good name of the institution above all other considerations” and “in the end, those policies do reputational damage to the institution; they are actually also counterproductive, and it’s a no-go area.” He insisted that “we need to move forward from any temptation to cover up any crimes. It is only the truth will set us free.”

Archbishop Charles Scicluna of Malta arrives in Osorno, Chile, on June 14, beginning a pastoral mission to promote healing in the wake of a clerical sexual abuse crisis. (CNS photo/courtesy of Archdiocese of Santiago)
    
Archbishop Scicluna declared that “if we have a sickness in the body of the church, we need to face it, not to hide it, because otherwise it will grow and do more damage.” He recalled that Pope Francis “addressed the question of accountability in a law that he promulgated in 2016,” in the decree “As a Loving Mother,” which “creates a procedure whereby bishops who are negligent or not up to standard with their stewardship can be removed.” Indeed, he said, “there is an old tradition according to which, if the bishop is going to cause harm with his stewardship, then the See of Rome has the right and the duty to remove such a bishop.”

In this context, he emphasized that “we cannot avoid the important theological aspect that we bishops are stewards in a hierarchical communion together with the Holy Father, and so there is a jurisdiction of the Holy Father over each and every one of us bishops that we have to respect when we talk of accountability within the context of the Roman Catholic Church.”

He said the February meeting aims to get bishops and religious superiors “to realize the gravity of the situation,” to accept ownership of the issue, and then “to address questions of stewardship,” which means “not only how we care about our children, but also how we deal with cases [of abuse] and so questions of accountability and transparency are of the utmost importance,” and will be discussed at the meeting.

In this context, he said, “we bishops need to approach the issue of the sexual abuse of minors together as churches, and we also need to adopt what Pope Francis is calling ‘a synodal approach,’ that is we cannot do it alone in our community, we need also to empower the lay people, the laity, in order to help us be good stewards.”

He believes the meeting will communicate “the important message” that “the prevention of abuse and protection and safeguarding of our children and young people is not a question only of the bishop, it is a synodal issue; it is something that involves the whole church and everyone in the church around the world; it concerns one and all.”

Insisting on “this synodal aspect,” Archbishop Scicluna said, “it is not only bringing the bishops together but also approaching it on the local level as a community, in a synodal process. It takes a village to educate a child, and it takes a village to prevent abuse and to approach it properly wherever, unfortunately, it happens.”

He said Pope Francis wants the church to move forward on this question in a synodal manner, following the doctrine of the Second Vatican Council. He explained that “synodality means that we appreciate the different charisms and gifts of the laity, their expertise, and that we empower them to join bishops in the role of stewardship.” He added, “it’s not a question of having control over the hierarchy, it is the hierarchy empowering and facilitating the sharing of charisms which the Spirit also gives to the laity, because there are gifts there that will help issues of prevention and safeguarding that we need to bring on board, and we need to facilitate as bishops.”

He recalled that Pope Francis highlighted this synodal aspect in confronting abuse in his “Letter to the People of God” before his visit to Dublin last August; “he wants that to be on the agenda of every conference of bishops around the world” and at the Rome meeting he wants the bishops “to listen to victims, to talk to experts, and to listen to each other and to the concern that this issue brings before them.”

He expects the February meeting in process and structure to be somewhat like a synod in so far as “there are going to be plenary sessions; there are going to be language groups working, and then reporting back; there are going to be prayer groups; there are going to be listening to different stake-holders. It’s going to be a mixture of information, formation, discussion. The idea is that certain values are not only agreed upon, but also that certain priorities are put forward and adopted by the bishops.”

There will be “a penitential liturgy” during the meeting because “Pope Francis wants it,” Archbishop Scicluna said, “and victims are going to be a part of that liturgy too, just as they will be consulted in advance of the meeting, and be listened to during it.”

Some have spoken about the need for changes in Canon Law so as to deal properly with the abuse issue. Commenting on this, Archbishop Scicluna said, “Canon law always follows reality. To a certain extent it does form people in a certain context like the 1983 code of canon law did form a generation in the implementation of Vatican II.” Since canon law follows reality, he said, “it will have to change in response to new issues and new priorities in the church.” He envisaged, for example, the possibility of changes that would give “a stronger role for the metropolitan bishops” and “a bigger role for the victims in canonical penal processes.” He doesn’t think the February meeting “is going to enter into the details of such reforms of canon law” but he expects that “there will be an important input that will start a process that may actually get a reform of canon law.”

Archbishop Scicluna hopes “that the spirit of this meeting will be positive and proactive, and will also help to give a sign of hope to the bishops themselves, to the whole church, to the People of God, and, importantly to leadership at all levels in the church.”

The Vatican announced that in addition to the presidents of the bishops conferences and the heads of the Eastern-rite Catholic churches, there will be other participants too at the February meeting, including the prefects of the C.D.F. and the congregations for the evangelization of peoples, the oriental churches, bishops, the institutes of consecrated life and the societies of apostolic life, and of the dicastery for laity, the family and life. Representatives of the Union of Religious Superiors and of the International Union of Superiors Generals are also invited.

The Maltese archbishop underlined the importance of the presence of these major superiors because “they have hundreds of religious under their care, most of them priests but also even lay religious and they also are important stakeholders in education, in formation and in pastoral care. Superior Generals for women religious will also be present. It is very, very important to have the major superiors present and part of this process.”

In its statement today, the Vatican revealed that besides the four members of the steering committee, many other people are involved in the preparation for the meeting, including lay experts and two lay women who are under-secretaries from the dicastery for the Laity, the Family and Life: Gabriella Gambino and Linda Ghisoni. The Commission for the Protection of Minors, headed by Cardinal Sean O’Malley, is also involved and, most importantly, so too are “some victims of abuse by clergy.”

Referring to the steering committee, Archbishop Scicluna said Pope Francis chose its four members to be “responsible for the organization” and “for advising him” and the Secretariat of States. Their task is to oversee the preparation for the meeting, and to ensure that everything is done properly. He emphasized that the choice of Father Zollner as coordinator of the committee is “an important reminder” that the meeting is “not only about stewardship, it’s also about reflective stewardship”; he brings “the expertise of psychology and best practices in prevention, which have to be part and parcel of the stewardship role of the church.”

He concluded by repeating that the meeting is only “the beginning of a process” and when it ends “we’ll have to leave the Holy Father and his close collaborators any decisions for further meetings on a continental basis, on a more decentralized basis. This is the beginning of a process, it is not the beginning and end of something.”

in America The Jesuit Review, 23.11.2018
/www.americamagazine.org/faith/2018/11/23/exclusive-archbishop-scicluna-says-february-meeting-start-global-approach-fighting?fbclid=IwAR3vNioNA1usYtNTKeNbabE05Fue4cltAcG_z5866-7Up_3tXCzHXVGgtoY

NOTA: Também pode ler em português Papa cria comissão para organizar reunião inédita sobre abusos sexuais, no site da Agência Ecclesia, http://www.agencia.ecclesia.pt/portal/vaticano-papa-cria-comissao-para-organizar-reuniao-inedita-sobre-abusos-sexuais/