09 fevereiro 2014

À PROCURA DA PALAVRA,


DOMINGO V COMUM   Ano A

"Vós sois a luz do mundo.

Não se pode esconder uma cidade situada num monte.”

Mt 5, 13

 O sal e a luz não se guardam

       Porque a sede de felicidade é de todos, Jesus iniciou o sermão da montanha com a proposta surpreendente das bem-aventuranças. Pequenos-grandes segredos para uma vida que se abre aos outros e que faz dos obstáculos oportunidades de crescimento. Palavras que ecoaram no coração dos que as escutaram, e pelas quais Jesus pautou a sua vida e a dos seus discípulos. Pronunciadas no presente não são ideais impossíveis de alcançar mas o modo como Deus já olha para cada um de nós. "Sal da terra" e "luz do mundo" não são títulos que se hão-de obter num futuro longínquo, depois de provas realizadas, mas realidades que Jesus reconhece já na multidão de "ovelhas sem pastor", de gente pobre e simples que o segue e escuta. Deus ama-nos no tempo presente, e é no presente que revela a grandeza do dom de cada um.

Recentes dados de um estudo europeu revelam um aumento generalizado da corrupção que afecta também o nosso país: "a corrupção está generalizada, piorou nos últimos três anos e afecta o dia-a-dia de mais um terço da população" (Público 03.02.2014). Surpreendente é também a conclusão de Stanton Samenow que tem procurado entender como funciona o cérebro de ladrões, assassinos e burlões: "os criminosos julgam-se íntegros (...). Um homem pode cometer centenas de crimes brutais, mas na sua mente é uma pessoa boa e decente." (Sábado 30.01.2014). Os ouvintes de Jesus e nós entendemos que o sal não só realça o sabor da comida mas também impede a corrupção dos alimentos. Mas para isso é necessário que se misture com os alimentos, assim como os valores de nada servem se permanecem como um ideal que não se põe em prática. Tanto o pensar como o agir se corrompem quando os valores éticos e morais se ficam nas boas intenções, e quando a própria fé se adapta à perda do sentido do valor da vida e dos outros. Creio que foi Gabriel Marcel, um filósofo existencialista cristão, que escreveu: "quem não vive como pensa, acaba por pensar como vive."

 Aprendemos que a luz "viaja" a mais de 300.000 quilómetros por segundo. E que, segundo o Génesis foi a primeira obra da criação. Mas é na sua falta para ver e para pensar, e para tudo o que diz respeito à vida que nos damos conta de como tudo depende dela. Que significa sermos "luz do mundo" e que responsabilidade nos confia Jesus? Primeiro que tudo é urgente revelar a abundância de vida nova e amor que Deus oferece para levar a todos, e que tantas vezes guardamos sem saborear, possuímos sem nos deixarmos contagiar. Depois sermos simples e pobres para descobrir a luz que existe em todos, que dignifica todos e a todos eleva como farol no meio das tempestades. Por fim, que acaba por ser um novo princípio, concretizar a luz em obras boas, pequenos gestos cheios de um grande amor (como dizia Madre Teresa de Calcutá), que iluminam e incendeiam os caminhos do mundo. Pouca luz vêm os que teimam em fechar os olhos (e candidatam-se a uns belos trambolhões)!

P. Vitor Gonçalves

in Voz da Verdade 09.02.2014

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