02 fevereiro 2014

UMA NOVA VEDETA POUCO APRECIADA NO VATICANO


As sacristias costumam ser mais pequenas e mais reservadas do que as igrejas. Os laicos foram, muitas vezes, acusados de quererem trancar a igreja na sacristia. Era uma forma de dizer que os incréus não gostam de encontrar os padres, os bispos, e os papas no espaço público: a Deus o que é de Deus – os espaços sagrados - e a César o que é de César, tudo o resto. Esta vontade de separar confunde tudo. Agora, a confusão é outra e bendita: o Papa Francisco, sem iniciativas vaticanas, surge como a personalidade do ano na revista Time e é a capa da última revista Rolling Stone.

 No seu interior, e também na edição online, a revista publica um longo perfil do Papa Francisco, com o subtítulo “Por dentro da suave revolução do Papa”. No artigo, o pontífice é descrito como sendo radicalmente diferente do antecessor e responsável por mudanças na forma como católicos e não católicos vêem a igreja.

Depois do papado desastroso de Bento […], o domínio que Francisco tem em competências básicas como sorrir em público pareceram um pequeno milagre para o católico típico. Mas ele tinha mudanças bem mais radicais em mente, escreve o jornalista Mark Binelli, que enumera factos que vão da renúncia ao palácio que tradicionalmente os Papas habitam até à postura muito mais suave em relação aos homossexuais. O texto lembra como Francisco respondeu a uma questão sobre padres homossexuais com uma outra pergunta: “Quem sou eu para julgar?”.

O Vaticano fez constar que não gostou. Como poderia gostar, se não acha graça nenhuma aos atrevimentos do Papa Francisco? O que lhe agradava era a clonagem do anterior.

O que, porém, importa destacar é o seguinte: o que os incréus não gostavam nem gostam é da clericalização da sociedade, onde sejam os papas, os bispos e os padres a mandar até nos costumes e nas consciências: fazer do mundo uma grande sacristia. Como este Papa surge sem vontade de se impor e dominar as consciências, mas apenas como alguém que desperta, com alegria, as pessoas para a solidariedade, passou a dar sentido, em todas as situações, à palavra Evangelho, que, muitas vezes, os comentários nas missas tornavam uma tristeza. Tomás de Aquino, que ele cita bastantes vezes, sustenta que a tristeza é a pior das paixões, a alteração psicológica a que hoje chamamos depressão. O modo do Papa ser Igreja, tornou-se uma alegria disponível para todas as pessoas que precisam de um ombro, de ser acolhidas.

Há 2000 anos havia uma surpreendente criatura que fazia um estranho convite: Vinde a Mim vós todos que andais cansados e oprimidos e Eu vos aliviarei.

Os seus genes não foram perdidos.
              Frei Bento Domingues, O.P.
         01.01.2014

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