13 fevereiro 2014

Prática de Francisco no Rio de Janeiro


      
Atrevo-me a pensar que, não sendo europeu por ser latino-americano, nascido na Argentina e tendo no sangue os sangues europeus da sua família emigrante, o Papa Francisco alarga o mundo estabelecido. Na Europa, em Roma, no Vaticano, há regras definidas nos modos de expressão, nas separações entre classes sociais, nas fórmulas de cortesia, no tempo devido a cada ritual no espaço público, confessional ou não. Não vou comentar aqui a revelação de personalidade já tão amada, como todos os dias a vamos conhecendo. Nem enunciar os temas de reforma que tanto nos fazem pensar, tão desejados na militância de quem espera uma Igreja que cumpra a mensagem revolucionária de Jesus, de amor, de paz, de inclusão.

Desculpem a minha recorrente alusão ao Brasil e aos brasileiros, sempre tão versáteis nos seus atos. Vou contar-vos o que aconteceu no passado dia 20 de janeiro, dia de São Sebastião, padroeiro da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro e feriado de muita religiosidade e devoção. D. Orani Tempesta, 63 anos, “anfitrião” e principal organizador das Jornadas da Juventude, monge cisterciense, 9º arcebispo de Belém do Pará, é arcebispo do Rio de Janeiro desde 2009. Quando foi agora nomeado cardeal pelo Papa Francisco, D. Orani disse que esta nomeação é uma graça divina e é mais responsabilidade na Igreja Católica.

No dia de São Sebastião, a primeira missa foi às 5 horas da manhã na Igreja dos Capuchinhos, dedicada ao padroeiro. Seguiram-se missas às 6,7,8,9, até à missa solene, às dez horas, celebrada por D. Orani. Nos treze dias antes desta data, a imagem de São Sebastião é peregrina, em trezena.

Em Ramos, bairro de samba e religiosidade, na zona norte do Rio, estes acontecimentos têm tradição. Fundado há 53 anos, na sua quadra, que é espaço popular de festas, atabaques e bateria de escola de samba, o Cacique de Ramos tem por símbolo a imagem do índio brasileiro. E a partir de agora, terá a imagem de São Sebastião. No último dia da trezena de São Sebastião, coincidindo com o Santo, Dom Orani visitou o Cacique, benzeu a quadra e deixou a promessa, que vai cumprir. Depois almoçou feijoada, fez fotografias, recebeu presentes.

Bira, o presidente do Cacique, falou: “É uma pessoa que ele é gente da gente. Ele é povão como a gente e a sensibilidade e respeito que ele tem às pessoas é o que ele vai mostrar aqui hoje. Essa dedicação que ele tem com a cultura que a gente ama, que é o samba”.

D. Orani falou: “O Papa tem insistido justamente para isso, para que a Igreja tenha um diálogo com a sociedade, para que todo o mundo se sinta acolhido na Igreja, sinta que o Evangelho é para todos. É que a Igreja transmita a alegria do Evangelho e saia às ruas levando a alegria, levando a cura, levando a vida, levando a paz.”

Sincretismo religioso, as escadarias da Igreja do Bonfim deixaram de poder ser lavadas pelas baianas, digníssimas mães de santo do candomblé, por ordem de Roma, sob João Paulo II. Os brasileiros invocam Nossa Senhora da Conceição, Iemanjá africana das águas salgadas, e Oxum, das águas doces.

D. Orani cumpre os caminhos do Papa Francisco. O que pensará a nossa Conferência Episcopal sobre estes acontecimentos? Serão folclore local? O que pensa o nosso Patriarca D. Manuel? Que austera Europa é esta?

Leonor Xavier

 
 
       

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