27 maio 2018

TERCEIRA ROSA DE OURO PARA FÁTIMA?


P / INFO: TERCEIRA ROSA DE OURO PARA FÁTIMA? & “A Religião dos Portugueses”: Reabrir portas que frei Bento abriu

 A TERCEIRA ROSA DE OURO

1. No Concílio de Trento (1545-1563), Frei Bartolomeu dos Mártires, Arcebispo de Braga, teria afirmado que os eminentíssimos cardeais precisavam de uma eminentíssima reforma. Esta custou muito a chegar e, no nosso tempo, foi o Papa Francisco que se empenhou na reforma da Cúria com uma coragem e desenvoltura que não fica nada a dever à do nosso Bracarense. Perante as resistências activas e passivas que encontrou, já terá desistido? Há quem assim julgue e há quem assim espere. Creio que estão enganados.

Em 2017, pelo quarto ano consecutivo, Bergoglio voltou a usar a mensagem de Natal à Cúria Romana para sublinhar, com muita dureza: para servir a missão da Igreja na sociedade continuam a ser indispensáveis mudanças profundas na assembleia dos cardeais e na mentalidade de muitos elementos da hierarquia eclesiástica.

Destacou que alguns dos que formam o aparelho burocrático do Vaticano usam-no para formar grupos de pressão e de intriga, para impedir as reformas que ele próprio desencadeou. São um cancro que gera egoísmo e está infiltrado nos organismos eclesiásticos e nas pessoas que lá trabalham. A permanente denúncia que o Papa faz do clericalismo e do carreirismo destina-se a libertar a criatividade das comunidades cristãs, frutos da graça do Pentecostes, em saída para todas as periferias existenciais e prontas para todos os socorros como um hospital de campanha.

Estas expressões só não se tornaram lugares comuns porque a imaginação de Bergoglio surpreende-nos todos os dias e o desejo de dominar renasce em todas as gerações. Em nome de banalidades sacralizadas, o Papa é apelidado de herético e o sempre assim foi serve os sinais da restauração do catolicismo convencional. Pelo contrário, a santidade é fonte de criatividade de novas expressões do Evangelho no mundo caótico e niilista da nossa actualidade.

Desde que foi eleito, em 2013, não abandonou a sua obsessão de reforma da Cúria, dominada por italianos. Era inadiável acabar com os escândalos financeiros e os comportamentos de ocultação da pedofilia de eclesiásticos que tornavam a imagem da Igreja, nos meios de comunicação social, como irrecuperável.

As resistências foram muitas e não desarmaram. O Papa destacou: até os que foram incumbidos de realizar as reformas traíram a confiança, deixando-se corromper pela ambição e vã glória. Quando são afastados, declaram-se, erradamente, mártires do sistema... em vez de fazerem o mea culpa.

Quando se fala na reforma da Cúria, convém ter em conta a sua história e os debates actuais em torno de questões de ordem sociológica, política, teológica e pastoral. Isto não cabe nos limites de uma crónica. Sugiro, por isso, a leitura de um bem informado artigo de Massimo Faggioli[1]
2. A reforma da Cúria é um trabalho em andamento. Este Papa não quer fazer dela um processo burocrático dependente de uma nova constituição apostólica, como disse Dom Semeraro. Segue os princípios da flexibilidade gradual, da tradição como fidelidade à história, da inovação e da simplificação.
Na visão de Bergoglio, a Igreja, o papado e a Cúria Romana estão interligados. A Cúria não existe apenas para transmitir mensagens para o resto da Igreja, mas também para receber mensagens de uma Igreja sinodal.
Além disso, a existência da Cúria é vital para que o génio romano, isto é, a aspiração de Roma a ser a síntese, seja o ponto de encontro da dimensão universal e local da Igreja. O Papa leva a sério a ideia de reforma de Yves Congar: o primado da caridade e da pastoralidade; a preservação da comunhão; a paciência e respeito pelos atrasos; a renovação através de um retorno ao princípio da tradição, a não confundir com as tradições.
Para M. Faggioli não existe nenhuma alternativa real à proposta do dominicano Y. Congar para uma reforma da Igreja, excepto aquela que levaria a um cisma. Mas, do ponto de vista das actuais políticas eclesiais, a questão é muito mais complicada. A ideia de Congar sobre a reforma da Igreja pode ser frustrante para aqueles que perderam a paciência que o teólogo francês invocava há 50 anos.
Muitos católicos esperavam que Francisco já tivesse implementado uma reforma institucional visível da Cúria depois de cinco anos no cargo. Mas, como já dissemos, o Papa não acredita numa reforma burocrática.
Apesar das esperanças dos liberais e dos temores dos conservadores do status-quo, o Papa Francisco não governa por decreto, nem mesmo a Cúria.
Para ele, a reforma é, em primeiro lugar, movimento e não apenas a mudança estrutural das instituições. É uma mudança de mentalidade, que não começa com uma mudança na lei. É uma descentralização, o que significa que as periferias devem assumir mais responsabilidades. Ela faz parte do caminho para uma Igreja mais colegial e sinodal, que é salvaguardada através do papel universal do bispo de Roma.
O Papa deseja a Cúria Romana como um pequeno modelo de Igreja, que procura ser sério e, quotidianamente, mais vivo, mais saudável, mais harmonioso e mais unido entre si e a Cristo[2] . Não aceita a Cúria para um lado, a Igreja para outro e em luta permanente.
3. No Domingo passado, o Papa anunciou que a 29 de Junho haverá um Consistório para a nomeação de 14 novos cardeais. A proveniência destas nomeações procuram exprimir a universalidade da Igreja. Entre os novos cardeais surge o bispo de Leiria-Fátima, António Marto. Daqui o saúdo pelos motivos que foi nomeado e pelos que aceitou.
O Papa não precisa de aumentar o número de cardeais que resistem, de forma activa e passiva, às reformas que ele anunciou desde a primeira hora e que procuram que essas reformas não lhe sobrevivam. A Igreja precisa de cardeais que ajudem este Papa e que sejam uma garantia de que estas reformas se tornem, de forma criativa, irreversíveis.
Não se pode deixar de realçar as declarações do bispo António Marto: O Santo Padre conhece bem o que eu penso e sabe que tem em mim um apoiante.
Não o move a atracção pelas caudas vermelhas e os chapéus cardinalícios. A simplicidade do Papa e as suas causas bastam-lhe. Não aceitou a sua escolha em termos de meritocracia, mas como um serviço que lhe é pedido. Não é um prémio, uma terceira Rosa de Ouro ao Santuário de Fátima.
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público, 27. 05. 2018


[1] Uma ''reforma da reforma'' diferente: Papa Francisco e a Cúria Romana, artigo publicado por La Croix International, 05-02-2018. Ver tradução em: http://www.ihu.unisinos.br/575885-uma-reforma-da-reforma-diferente-papa-francisco-e-a-curia-romana-artigo-de-massimo-faggioli
[2] Encontro pré-Natal em 2014

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 “A Religião dos Portugueses”: Reabrir portas que frei Bento abriu

Foi hoje posto à venda o livro A Religião dos Portugueses – Testemunhos do Tempo Presente, da autoria de frei Bento Domingues, com organização de Maria Julieta Mendes Dias e de mim próprio (ed. Temas e Debates/Círculo de Leitores). Publicado inicialmente em 1987/88, A Religião dos Portugueses tornou-se uma referência, nestas três últimas décadas, nos estudos religiosos em Portugal, em diferentes âmbitos. Essa marca, aliada ao facto de o livro estar há muito esgotado, impunham a sua reedição. Foi o que aconteceu com o livro agora disponível que, além da edição original, acrescenta vários textos de frei Bento Domingues sobre o mesmo tema, incluindo um capítulo escrito propositadamente para esta edição.
O livro será apresentado terça-feira próxima, dia 29, a partir das 18h30, pelo padre José Tolentino Mendonça. A sessão decorre na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa (R. Camilo Castelo Branco, ao Marquês de Pombal).
Fica a seguir o meu texto de apresentação:


“A questão da ‘religião dos portugueses’ precisa de ser reaberta”, escrevia frei Bento Domingues, em 1987. Foi o que acabou por conseguir fazer este seu texto, que viria a tornar-se marcante na reflexão contemporânea sobre a religiosidade portuguesa e as interpenetrações mútuas entre espiritualidade e cultura.
Em rigor, acrescente-se, A Religião dos Portugueses não é apenas um texto sobre o fenómeno relativo a Portugal. O seu autor faz um percurso sobre a pesquisa recente (e, por vezes, também com pequenas incursões históricas) acerca da questão espiritual e religiosa, sobre as características e definições de religião e a relação desta(s) com a cultura.
Nesse percurso, frei Bento Domingues percorre as definições de religião e do que cada um dos diversos conceitos comporta dentro de si. E questiona mesmo análises superficialmente sociológicas que ora decreta(va)m a morte de Deus, ora levanta(va)m a bandeira do retorno do religioso. A sua leitura propõe chaves bem mais profundas e complexas, que procuram radicar-se na natureza humana e numa realidade que não se esgota em chavões prontos a usar. E que procura, sobretudo, entender que deus é que a realidade e as pessoas mataram e a que deus(es) elas regressam. Aliás, a própria própria sociologia actual – James A. Beckford, Grace Davie, Zygmunt Bauman, José Casanova, Danièle Hervieu-Léger, Sabina Acquaviva ou Enzo Pace, entre outros– tem privilegiado uma leitura complexa dessa mesma realidade, procurando fugir a leituras simplistas que pouco ajudam a pensar e compreender o que se passa.
Frei Bento contesta as “frases bombásticas” e as “sentenças de morte ou ressurreição, tentações da publicidade”. Critica as ambiguidades quer da “ideologia da secularização dos anos 1960” quer da ideia do “retorno do religioso”, que seria promessa de um século XXI religioso. E conclui: “A situação actual é bem mais complexa do que a clara divisão entre Terceiro Mundo religioso e Europa Ocidental secularizada e a-religiosa. A indiferença religiosa nem sempre é tão indiferente como se diz e a religião não tem só o sentido que as Igrejas lhe costumam dar. (...) Nem sempre é fácil distinguir sintomas e causas, correntes de fundo e agitações de superfície, actualidade que desenha o futuro e ecos de um passado sem retorno. Com isto não se pretende propor a renúncia a entender o mundo em que vivemos. Mas renunciamos a fazer da religião o reflexo de um passado obscurantista e da secularização a luz beatificante da modernidade.”
O “fim da religião” de que tanto se falou é, para frei Bento, outra coisa: “[O] papel de estruturação do espaço social que o princípio de dependência desempenhou, no conjunto das sociedades conhecidas até à nossa, chegou ao seu termo. A religião não se explica historicamente, nos seus conteúdos e nas suas formas, senão pelo exercício de uma função exactamente definida. Ora, essa função não só já não existe, como se tornou no seu contrário, mediante uma transformação que, longe de lhe abolir os elementos, os integrou no funcionamento colectivo, sinal seguro da sua reabsorção. A sociedade moderna não é uma sociedade sem religião, é uma sociedade que se constituiu nas suas articulações principais pela metabolização da função religiosa.”
Sair e voltar ao cais, sempre em viagem
Neste caminho de reflexão, frei Bento dá um outro passo: a sua humildade intelectual leva-o a considerar que a reflexão que propõe nunca está terminada e que outros podem continuá-la; ao mesmo tempo, a empatia que mostra para com a fé das pessoas leva-o a considerar o perigo de “determinar, no concreto, o que é religião e o que é a magia, o que é idolatria e o que é mediação simbólica inerente à religião, o que é religião da fé cristã e o que é perversão do Evangelho”. Mesmo pugnando uma religiosidade e uma fé cristã mais purificadas, o nosso Autor não ignora as dificuldades desse processo e admite que até a mais autêntica experiência cristã “não consegue passar sem mediações, sem expressões simbólicas”. Há uma razão, explica: “O dom da revelação, ou a revelação como dom de Deus, é sempre feito a seres humanos, histórica, social e culturalmente marcados. E religiosamente marcados!”
Se se fala de um caminho, devemos assumir que é mesmo uma viagem aquela que frei Bento Domingues propõe – e não será por acaso que ele fala de Fátima como o cais dos portugueses ou que dizia, numa conversa preparatória deste livro, que “um místico está sempre em viagem”.  Uma caminhada que sai e volta ao cais, para ir ao fundo dos tempos buscar elementos da obra de António Leite de Vasconcelos As religiões da Lusitânia, que passa por S. Martinho de Dume e o seu De Correctione Rusticorum(séc. VI), passa pela presença muçulmana e pelo padre António Vieira, até chegar ao fenómeno em que Fátima se transformou, com todas as suas cambiantes, interpelações e paradoxos.
Nesse itinerário, frei Bento leva-nos também na companhia das reflexões de Lúcio de Azevedo, António José Saraiva e Eduardo Lourenço, Teixeira de Pascoaes, Natália Correia, Agustina Bessa-Luís ou Fernando Pessoa, entre tantos outros. Sempre com o objectivo de procurar entender se há uma “arte de ser católico português”, reciclando a expressão de Pascoaes. E propondo uma síntese da religião dos portugueses, que se pode definir por um “complexo judaico”, por causa da ideia do “povo escolhido” e por um “misticismo vago” e “difuso”. É uma religião que se define ainda pelo seu carácter “nem muito alegre nem muito triste”, com personagens que temperam os sofrimentos dos “Cristos dolorosos e Virgens dolorosas, ensanguentados”, que se vêem em Espanha; e por ser uma religião anticlerical, não só por parte dos não-católicos, mas também pelo facto de não “poder passar sem a Igreja e sem o padre, mas em não consentir que o padre confisque só para ele a direcção da vida religiosa”, na linha da caracterização de Agustina Bessa-Luís.
O nosso Autor aponta ainda, com insistência – quer neste, quer em outros textos e pronunciamentos – a incapacidade de a religião dos portugueses se pensar teologicamente. “Não deixa de ser curioso que um País quase maciçamente religioso e católico, como acusam as estatísticas, não conte, a nível de ensino superior e da investigação nas Ciências Humanas, com o fenómeno religioso”, observa, a dado passo.
Fátima, a vergonha e o coração
É nesta etapa da sua viagem que frei Bento se detém em Fátima. Para, de novo, se espantar com o alheamento ou desprezo com que, durante décadas, o país (seja no âmbito cultural ou religioso) se relacionou com um fenómeno crescente e mobilizador. Primeiro, por causa do conflito entre República e Igreja; logo em seguida, pelas relações de proximidade pessoal entre o ditador Salazar e o patriarca Cerejeira. Finalmente, pela Guerra Colonial, quando Fátima era olhada fosse como um anestésico (pelo regime do Estado Novo), fosse como adormecedor de consciências (por quem se opunha ao conflito), ou ainda como a única tábua de salvação e de refúgio, além da possibilidade da emigração (por parte de muitas pessoas com as vidas destroçadas e sofridas).
Neste contexto, Bento Domingues cita Vitorino Nemésio que, na véspera da visita do Papa Paulo VI a Fátima (13 de Maio de 1967), dizia: “Fátima foi, para o que se chama ‘os intelectuais’ portugueses, um episódio de massas, de que não se quiseram dar conta. (...) nós, os intelectuais, aprofundamos pouco e não estranhamos nada... (...) O espírito sopra onde quer. Fátima aí está, no volume mundial de um contágio de fé, como uma transcendência. Um fenómeno de multidões atesta uma qualidade.”
Pode acrescentar-se à observação de Nemésio que os diversos poderes – incluindo o do Estado Novo, que queria usar Fátima em seu proveito – olharam também com desdém, durante décadas, para o lugar e as pessoas. Foi isso que permitiu que só bem recentemente a localidade passasse a estar servida por um acesso digno em autoestrada (mas não nas estradas secundárias nem na ferrovia). Como também foi esse desprezo que levou a que só nos últimos três anos, em vista do centenário, a localidade tenha começado a lavar a cara dos espaços públicos, criando passeios e zonas pedonais, melhorando a iluminação pública e promovendo outras melhorias do casco urbano, que tentam corrigir os erros da tremenda falta de planificação urbana, que durou quase um século. Se pensarmos que ali acorrem mais de cinco milhões de pessoas por ano (fazendo a média dos últimos anos) e que Fátima é um dos principais destinos turísticos do país, essa é uma situação que nos deveria envergonhar como país.
Só o novo quadro democrático surgido após 25 de Abril de 1974 permitiu – apesar dos preconceitos que perdura(ra)m ainda, seja no âmbito social e académico, seja na instituição católica – passar a olhar para Fátima de outra maneira. Uma sucessão de congressos, debates e conferências; a publicação da Documentação Crítica de Fátimae de dezenas de obras de história, análise e contextualização, mesmo numa perspectiva crítica; e várias realizações teológicas, pastorais, culturais, académicas, científicas e artísticas, na década que antecedeu o centenário de Fátima, permitiram começar a fazer aquilo que há muito deveria ter acontecido: olhar para um lugar que atrai milhões de pessoas em cada ano, de forma crescente, e estudar quais são as razões que fazem mover tanta gente.
Seja no âmbito da sociologia, da história, da antropologia, dos estudos teológicos ou de outros âmbitos do saber, há finalmente clima para se olhar de outro modo para o que se passa em Fátima – independentemente de se acreditar ou não na história original; aliás, a decifração e contextualização do que se passou em 1917 tem sido um dos trabalhos importantes deste movimento.
A Religião dos Portugueses foi, em 1987-1988, um contributo fundador neste processo, em vários aspectos: procurando entender as razões e especificidades do catolicismo português; lançando o debate sobre as causas do alheamento académico e social acerca de Fátima e acerca da ignorância e falta de aprofundamento teológico e pastoral com que o próprio catolicismo português se debruçava sobre o fenómeno; e procurando, ao mesmo tempo, entender as razões da perseverança do fenómeno, para lá das tensões políticas, controlos clericais e outras ambiguidades.
“Movimento de crianças transformado em movimento popular”, Fátima não é uma terra de milagres, mas de refúgio para dores e sofrimentos, onde as pessoas escutam uma mensagem que lhes diz que tudo acabará “no fogo do amor” e onde se produz “um estremecimento da alma”, observa frei Bento. Para acrescentar, noutro passo: “É neste inferno mundial, neste mundo sem coração, que se ouve o céu chorar a terra e pedir aos homens que não se consagrem mais à guerra, mas às obras do amor, ao Coração não manchado, mas ferido pelos pecados de um mundo desumanizado e desumanizante. Por isso, conclui ainda: “Se para o português «o coração é a medida de todas as coisas», é normal que se dê com a «revelação» da religião do Coração num mundo sem coração. Por outro lado, a religião do Coração não se pode fechar sobre si mesma. Neste sentido, é feliz a fórmula do irmão Roger, monge protestante e fundador de Taizé: Maria é a catolicidade do coração.”
Viagem de insatisfação
Claro que o fenómeno de Fátima está cheio de contradições, paradoxos, histórias por contar ou mal contadas. Mas ele traduz também, para muitas pessoas (e não apenas pessoas “do povo”, incultas ou ignorantes, como tantas vezes se pensa) uma experiência de aproximação ao essencial ou de possibilidade do refúgio num colo que frei Bento identifica com a ideia do coração: “Em Fátima, onde se viram fogueiras do inferno, nunca foi dito que ia tudo acabar numa fogueira. Isto vai acabar tudo no fogo do amor. É uma vitória, não do ódio do mundo ou ao mundo, mas do coração. Antes de perguntar pelo coração da mensagem de Fátima é preciso escutar esta mensagem do coração. «Para o português, o coração é a medida de todas as coisas» (Jorge Dias).”
Como não entender isso quando se olha para os dois momentos mágicos que são as procissões das Velas ou do Adeus, e que frei Bento caracteriza como um “estremecimento da alma”, como “esse intenso momento de saudade que resgata Fátima da repetição do mesmo cerimonial e, de forma triste e doce, compensa, um pouco, a perda das tradicionais e criadoras manifestações da religião popular”. Aliás, nesta mesma linha, Bento Domingues fala de Fátima como um fenómeno onde cabem milhares (milhões, em rigor) de experiências diferentes – tantas quantas as das pessoas que ali acorrem. Porque, sendo um espaço enquadrado pela instituição católica, cada pessoa encontra nele aquilo que entende e encontra-se nele com a expressão de Deus que entende.
Na conversa recente que já referi, frei Bento acrescentava outra ideia a este propósito: em Fátima, houve a capacidade ou possibilidade de não sufocar, dando um enquadramento litúrgico e estético às pessoas que lá vão, mas permitindo que elas façam “uma viagem de insatisfação”, à procura de formas de mitigar as suas sedes. Num quadro de uma religião que se fazia de múltiplas obrigações, Fátima impôs-se também porque não era obrigatório lá ir – ou seja, paradoxalmente, impôs-se como espaço de liberdade perante a instituição religiosa.
Refira-se ainda a coincidência de esta nova edição de A Religião dos Portugueses aparecer cinco anos depois da eleição do Papa Francisco e um ano depois da sua viagem-peregrinação a Fátima. O facto de ele ter reformulado completamente a tradicional oração da Salve Rainha ou de se ter insurgido contra a imagem de uma “santinha a quem se pedem favores a baixo preço”, e de o ter feito naquele lugar concreto, não é de somenos.
Faz sentido, por isso, incluirmos neste livro algumas das crónicas dominicais de frei Bento alusivas a Fátima e que ainda não estavam publicadas nas antologias editadas nos últimos anos (Um Mundo que Falta Fazer, A Insurreição de Jesus, O Bom Humor de Deus e Outras Histórias e Francisco – O Papa que põe a Igreja a Mexer, todos organizados por Maria Julieta M. Dias e António Marujo, ed. Temas e Debates/Círculo de Leitores). Nelas se procura entender, sempre a propósito de Fátima e do catolicismo popular, a articulação com algumas das intuições do Papa Francisco acerca da Igreja Católica, das expressões da fé e do papel dos cristãos no mundo contemporâneo.
Francisco, como referia frei Bento na conversa já citada, acaba com a idolatria das fórmulas (pode dizer-se que foi isso que também fez, ao recriar o texto da Salvé Rainha), preenchendo com humor, a valorização da consciência e do discernimento, a experiência crente. O Papa, acrescentava o nosso autor, “não está contra as fórmulas”, mas, “aos marcos da viagem, prefere a própria viagem”. O que ele quer é uma Igreja peregrina, já que essa é a sua característica ontológica, e peregrina em direcção à única coisa que não passa, segundo a expressão de São Paulo na Carta aos Coríntios (I Cor 13): “A fé passa, a esperança passa, a única coisa que fica é o amor.”
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Esgotadas há muito as duas primeiras edições de A Religião dos Portugueses, nem por isso o texto de frei Bento Domingues deixou de ser continuamente citado em debates, artigos, conferências, seminários... Por isso se impunha a sua reedição e actualização. É isso que esta nova edição procura fazer, acrescentando aos capítulos que compunham a edição original novos contributos que pretendem enriquecer a reflexão que esta obra fundadora já continha – todos eles, aliás, sugeridos e escolhidos pelo Autor, de entre a vasta arca da sua produção.
Neste livro, inclui-se mesmo um texto inédito – o terceiro capítulo, com o título A Religião dos Portugueses: uma religião do coração?–, escrito expressamente para esta edição, e uma extensa bibliografia que, sem pretender esgotar o tema, remete para obras que frei Bento considera indispensáveis nos estudos que se façam sobre este tema – e que elas próprias, por sua vez, indicam listas bibliográficas importantes.
Procurámos manter os textos originais tal qual foram publicados na sua primeira versão, corrigindo apenas algumas gralhas ou pequenos detalhes; nos casos em que se regista uma diferença grande com a situação recenseada há três décadas, isso fica registado em nota.
Tendo em conta os novos textos que aqui são incluídos, a ordenação dos capítulos procurou, em primeiro lugar, uma coerência interna, mesmo se há questões que se abrem num capítulo e se voltam a abrir vários capítulos à frente – porque Bento Domingues nunca é de fechar ou arrumar debates, antes volta a eles em permanência, com essa ideia da viagem sempre a marcar o seu território reflexivo. Por isso, dois dos capítulos publicados nas anteriores edições – sobre a Igreja na transição para a democracia e acerca da primeira década do Concílio Vaticano II em Portugal – surgem, nesta edição, na parte final. Esses dois textos são também marcantes pois, situando-se no campo mais estrito da reflexão teológica e pastoral, fazem uma leitura do catolicismo português num outro âmbito – o das suas tensões e dinâmicas internas ao longo do último século, que muito ajudam a entender o ponto em que estamos hoje.
Antes desses dois capítulos, há um conjunto de textos mais centrados na questão da “religião dos portugueses” e em Fátima, incluindo dois publicados nas duas anteriores edições e o texto inédito já referido. Um outro artigo, sobre o medo e a segurança na religião, inclui-se aqui também, pela proximidade de análise com vários dos temas aqui tratados.
Finalmente, incluímos como posfácio um artigo escrito como recensão de A Religião dos Portugueses, da autoria de Moisés Lemos Martins, a quem se expressa aqui profunda gratidão pela sua generosidade. Registe-se ainda a gratidão dos organizadores a frei José Filipe Rodrigues, O.P., e a Paulo Farinha, pela colaboração prestada em momentos decisivos da preparação desta obra, bem como à equipa da Temas e Debates, na pessoa da sua editora, Guilhermina Gomes, pelo acolhimento e benignidade demonstradas na concretização de mais este projecto.
Trazer à praça pública a perseverança de frei Bento é um contributo pelo qual apenas se pode estar grato. Porque a sua estimulante forma de pensar é essencial para nos entendermos enquanto povo, enquanto sociedade ou, se é o caso, enquanto comunidade crente.

Lisboa, 12 de Maio de 2018
(dia litúrgico de Santa Joana Princesa,
monja dominicana no mosteiro de Jesus, em Aveiro)
in Religionline, sexta-feira, 25 de maio de 2018


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