20 janeiro 2019

Crónicas

   
P / INFO:  
Quando perder é ganhar, de Frei Bento Domingues,  Terra Justa: Causas e Valores da Humanidade, do Padre Anselmo Borges, Os gestos de cada dia, do Padre José Tolentino Mendonça & O vinho da alegria do Padre Vítor Gonçalves

QUANDO PERDER É GANHAR
       Frei Bento Domingues, O.P.

1. O Sábado é uma instituição da religião bíblica e um grande marco civilizacional. O ser humano não pode viver só para trabalhar. Precisa de ócio, de expressões culturais, lúdicas e cultuais para que o próprio trabalho possa ter sentido criador e não ser apenas uma resignação alienante. A polémica constante de Jesus com as observâncias sabáticas, referida pelos quatro Evangelhos, não era contra essa admirável instituição, mas por ter sido atraiçoado o seu espírito. A instituição da liberdade transformada numa prisão. Daí o protesto de Jesus: o Sábado é para o ser humano e não o ser humano para o Sábado. Enunciou assim um princípio universal acerca da finalidade de todas as instituições, o qual deve vigiar sempre o seu uso e as suas reformas.
Hoje, a quarta revolução industrial, as novas tecnologias, as consequências de algumas formas de globalização e a incerteza de tudo obrigam a alterar o debate sobre o trabalho.    
No calendário cristão, o Domingo não pertence ao fim da semana, mas ao seu começo, celebrando a renovação da esperança, a virtude da não desistência. Como o nome indica, nasceu da vitória de Jesus sobre a morte, proclamado por Deus, Senhor da vida. É o dia em que a Igreja de todos os tempos e lugares, povos e culturas, convoca os cristãos para a festa da alegria.
Já foram adiantadas muitas explicações para a grande baixa na frequência da celebração semanal da Eucaristia, sobretudo na Europa. Para além daquilo que as ciências humanas podem estudar, parece-me que as lideranças católicas esqueceram que, no momento em que os chamados “mandamentos da Igreja” perderam a força de uma convicção interior assumida, era necessária uma pastoral baseada no princípio do próprio Jesus: será que as regras e as formas destas instituições estavam aptas a servir a via cristã num contexto cultural inteiramente novo?
Sem a cultura da criatividade das comunidades, a não confundir com o culto da banalidade, será sempre curta qualquer reforma litúrgica. Ainda há muito pouco tempo, alguém me observou que não se pode continuar a dizer solenemente: meus irmãos, estamos aqui para celebrar a grande festa da nossa fé e, depois, inaugurar apenas uma grande seca. Textos, muitas vezes belos, que morrem ao ser mal lidos, cânticos sem alcance musical envolvente, pessoas sem corpo, estacas que se movimentam apenas para estender a mão em sinal de paz e para receberem a hóstia santa. Entram na Igreja sem se conhecerem e saem só com as relações que já tinham! Qual o caminho, para se perceber que a celebração é um acontecimento de revisão cristã da semana anterior e de relançamento da esperança activa, para uma nova semana mais criativa?
2. A selecção de textos bíblicos para celebrar este Domingo são muito belos, mas encerram vários programas de acção. Isaías não suporta que Jerusalém não seja a festa da paz, baseada na justiça[i]. S. Paulo[ii] obriga-nos, como Igreja que somos, a fazer uma pergunta: como dar, hoje, voz e vez aos que frequentam os seus espaços de culto e de cultura para que possam dar o contributo do seu tempo e das suas competências, não só para reconfigurar as comunidades cristãs como formas de acolhimento, mas também como provocação a saírem para reconfigurar a sociedade?
S. Paulo tem uma concepção da diversidade de dons espirituais na qual nem a diversidade atropela a unidade, nem a unidade suprime a diversidade. Ao dizer isto não está a enunciar um teorema abstracto. Está confrontado com um mundo de conflitos, mas prefere essa agitação a uma paz podre. Não tem o culto do conflito pelo conflito, mas o de transformar a pujança espiritual das comunidades, canalizando-a para todas as formas de serviços e neutralizar as tentações de dominação. Não há carisma do Espírito Santo para abafar os outros. Essa forma de ser Igreja é o contrário de uma administração central com funcionários que dão contas a um patrão. O espírito de Cristo tem outro regime: quem desejar ser o primeiro, seja o primeiro a servir.
Este Domingo é conhecido como o das Bodas de Caná da Galileia. Apresenta uma mulher aflita com a aflição de todos. É uma cena exclusiva do Evangelho de S. João[iii], que tem dado lugar a muitas interpretações e conjecturas. Não me preocupa muito saber se foi um acontecimento histórico tal como vem narrado ou se é um conto exemplar, voz de uma realidade ainda mais bela, profunda e complexa.
Parece ser uma parábola a falar de outra a propósito de um casamento. À primeira vista, a mãe de Jesus foi convidada e Jesus levou com ele os discípulos. A Mãe de Jesus dá-se conta de uma vergonha que se avizinha para o casal. O vinho esgotou-se antes de a festa acabar. Ela não suporta que o casal possa passar por essa situação humilhante e avisa o filho que a sacode de forma bem ríspida. Ela conhece-o e limita-se a recomendar aos serventes que façam de conta que é ele o responsável pela festa.
É conhecido o resultado da intervenção de Jesus. Para espanto de todos, a água foi transformada em abundante vinho e do melhor.
Recomento a leitura do próprio texto na íntegra. A sua beleza enigmática o exige.
Esta história devia acabar aqui, mas o Evangelho diz que foi apenas o começo dos sinais de transformação em que Jesus se iniciou.
  3. Muitos leitores desta narrativa podem não se aperceber de um outro milagre ou sinal, como lhe chama o evangelista, dentro do já referido: a alteração das relações entre mãe e filho. Até por uma razão simples. O texto lido na missa acaba antes de terminar. Se no começo desta história o protagonismo pertence à Mãe de Jesus, depois ela passa a segundo plano e desaparece: Depois disso, desceu a Cafarnaum, Ele, a sua Mãe, os seus irmãos e os seus discípulos e ali ficaram apenas alguns dias[iv].
É espantoso! O 4º Evangelho nunca mais fala da Mãe de Jesus. Só reaparece quase no fim: perto da cruz de Jesus permaneciam de pé a sua Mãe, a irmã da sua Mãe, Maria, mulher de Clopas e Maria Madalena. Jesus, vendo a sua Mãe e, perto dela, o discípulo a quem amava, disse à sua Mãe: Mulher, eis aí o teu filho! Depois disse ao discípulo: eis a tua mãe! E a partir dessa hora, o discípulo recebeu-a na sua casa[v].
Quem perde ganha. Consta que é uma lei do Novo Testamento. A Mãe de Jesus teve de O deixar ir fazer família com quem não era da família. Acabou por ser ela a Mãe da nova família de Jesus.




[i] Is 62, 1-5
[ii] 1Cor 12, 4-11
[iii] Jo 2, 1-11
[iv] Jo 2, 17
[v] Jo 19, 25-27

in Público 20. 01. 2019
www.publico.pt/2019/01/20/sociedade/opiniao/perder-ganhar-1858425

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Terra Justa: Causas e Valores da Humanidade

Anselmo Borges

  Também fora de Lisboa ou do Porto, há iniciativas de relevância mundial, que merecem a atenção de todos, também como exemplo.
Hoje, quero felicitar, muito sinceramente, Fafe, na pessoa do seu ilustre Presidente, Raul Cunha. Porque Fafe já não é símbolo da "justiça de Fafe". É símbolo da justiça, sim, mas da Terra Justa: Encontro internacional de Causas e Valores da Humanidade. Em Fafe, com inexcedível força e dignidade, celebra-se e combate-se pela cidadania universal, na liberdade, na justiça e na paz. Concretamente através dessa iniciativa anual, por onde têm passado grande figuras de renome, como António Guterres, o cardeal Maradiaga, Manuela Eanes, Eduardo Lourenço, Leonor Beleza, Artur Santos Silva... Ali têm sido homenageadas grandes instituições de cultura e solidariedade: a Fundação Calouste Gulbenkian; a Fundação António Champalimaud; o IAC (Instituto de Apoio à Criança); a Agenzia Habeshia, uma ONG fundamental para salvar vidas de refugiados; a UNICEF, uma agência das Nações Unidas, essencial na defesa dos direitos das crianças, tantas vezes espezinhados; Talitha Kum, a organização internacional que trabalha em rede contra o tráfico de pessoas…
Deixo aí algumas chaves de leitura deste prestigiado Encontro Internacional.
1. Terra Justa. Aí está uma utopia. Mas qual é a função da utopia? Ela tem duas funções principais: constatar o ainda não do que deve ser e, ao mesmo tempo, obrigar a lutar pela transformação do presente a caminho de um futuro com a realização desse dever-ser.
2. Porquê? Porque se trata do imperativo de Causas e Valores da Humanidade na Terra. E a Terra há só uma, uma só Terra: a Terra da Humanidade. Há 13.700 milhões de anos foi o Big Bang. A Terra terá uns 5.000 milhões de anos, a vida apareceu há uns 4.000 milhões de anos e, depois, a evolução continuou e há uns 150 mil anos aparecemos nós, o Homo sapiens sapiens — acrescento sempre: e demens demens (sapiente sapiente e demente demente). De qualquer modo, é em nós, seres humanos, auto-conscientes, que este gigantesco processo da evolução sabe de si e toma consciência de si.
O ser humano será sempre objecto de espanto para si próprio. Talvez tenha sido Pascal quem de modo mais pertinente e lúcido “definiu” a condição humana, ao escrever que se situa algures entre “o nada e o infinito” (le néant et l’infini). Por isso, o ser humano é constitutivamente o ser da pergunta e, de pergunta em pergunta, pergunta ao Infinito pelo Infinito, isto é, de um modo ou outro, por Deus. É nesta sua condição que eu vejo o fundamento da dignidade humana. De facto, se o ser humano, finito, frágil, débil, mortal, pergunta ao Infinito pelo Infinito, é porque tem algo de infinito nele e, por isso, não é da ordem das coisas, porque é fim. Na verdade, o que é que há para lá do Infinito? A pessoa humana é fim e não meio. Como escreveu Kant, as coisas são meios para outra coisa e, assim, têm um preço; o ser humano é fim e não meio e, por isso, não tem preço, mas dignidade.
Aí está, pois, a resposta para a pergunta: Porquê o combate pela Terra Justa? Porque é o combate pela dignidade de todas as pessoas.
3. Todos os seres humanos são dignos e a Terra é de todos. E aqui coloca-se para todos um dos problemas maiores: a questão da ecologia, do meio ambiente. E entra a política. Aristóteles definiu o ser humano como “animal político”. Porquê? Porque, ao contrário dos outros animais, que produzem sons, exprimindo prazer ou desprazer, o Homem tem linguagem duplamente articulada, pela qual debate o bom e o mau, o justo e o injusto, o digno e o indigno.
Já se tornou claro que hoje, tomando consciência de que há uma só Terra e uma só Humanidade, sendo todos igualmente dignos, a política tem de ser global, tem de ter o horizonte de um mundo global. Só há, portanto, futuro com uma Governança Global.
4. O ser humano é como uma árvore: somos enraizados, temos um lugar de nascimento, uma história única, estamos situados, mas, ao mesmo tempo, estamos abertos, ilimitadamente abertos aos outros, a todos os outros, a possibilidades sem fim. Nesta abertura, mostra-se que somos constitutivamente em relação. Fazemo-nos uns com os outros. A nossa relação é local e global, nesse enraizamento de uma situação concreta e única e numa abertura sem fim.
5. Característica essencial do ser humano é a neotenia, isto é, nascemos prematuros, sendo esta a condição de possibilidade de sermos o que somos: humanos. Enquanto os outros animais já nascem feitos, o ser humano nasce por fazer. Então, qual é a sua missão e tarefa? Fazer-se a si mesmo. Fazendo o que fazemos, estamos sempre a fazer-nos a nós próprios, de tal modo que no fim pode resultar uma obra de arte ou, permita-se a expressão, uma porcaria.
Como devemos fazer-nos? Uma vez que somos livres — auto-possuímo-nos e somos responsáveis —, devemos fazer-nos bem. Concretamente, fazermo-nos com a interligação da bondade e da razão. De facto, a bondade sozinha não abre horizontes e pode não abrir caminhos; a razão sozinha pode. Concretamente, fazermo-nos com a interligação da bondade e da razão. De facto, a bondade sozinha não abre horizontes e pode não abrir caminhos; a razão sozinha pode ser cruel. Da conexão da razão e da bondade resultará certamente uma Humanidade boa, justa, livre e a viver em paz.
6. Já não há Deus? Deus, ao contrário do que se pensa e diz, existe, o que se passa é que, como reflectiu o filósofo G. Agamben, tornou-se Dinheiro. E o ídolo Dinheiro é o valor que mede todos os outros valores, afirmando-se acima deles. Por isso, o Papa Francisco não se cansa de repetir, na linha do que disse Jesus, que não é possível servir a Deus, Pai-Mãe de todos os homens e mulheres, interessado no bem de todos, e servir o  enquanto o novo único deus. A financeirização especulativa da economia “mata” e faz um número incontável de vítimas. A política tem, pois, de ser acompanhada da ética. E, mais uma vez, precisamos urgentemente de uma Governança Global (não digo um Governo Mundial). De facto, problema maior hoje é que os mercados são globais, mas a política é local, nacional, quando muito, regional. Como se pode regular assim os mercados?
7. Last but not least, é cada vez mais urgente o diálogo inter-religioso, como desde há anos não se cansa de sublinhar o célebre teólogo Hans Küng, autor principal da “Declaração para uma Ética Mundial”, aprovada pelo Parlamento Mundial das Religiões em Chicago, em 1993: “Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do nosso planeta sem um ethos global, um ethos mundial.”
É claro: sem um novo ethos, isto é, sem uma nova atitude ética, concretamente, sem justiça social global, continuará a violência, a guerra, e não haverá paz.
in DN 19.01.2019
www.dn.pt/edicao-do-dia/20-jan-2019/interior/terra-justa-causas-e-valores-da-humanidade--10461080.html?target=conteudo_fechado


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QUE COISA SÃO AS NUVENS
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

OS GESTOS DE CADA DIA
PARA PERCEBER QUANTA GRANDEZA SE ALOJA, AFINAL, NAQUILO QUE NOS PARECE APENAS EXPRESSÃO DE VIDA MÍNIMA

Deveríamos, alguma vez, fazer o elogio dos pequenos gestos de cada dia e perceber quanta grandeza se aloja, afinal, naquilo que nos parece apenas expressão de vida mínima. Sim, são gestos humildes, para mais repetidos como uma elementar rotina que, de tão básica e por vezes tão monótona, nem merece bem ser relatada. Diríamos que a vida começa depois, que esse cúmulo de gestos é apenas a preparação para a vida que aí vem. A maior parte de nós inicia o dia acendendo uma luz, abrindo uma janela, fazendo um cumprimento ou uma oração, cuidando de alguém, olhando a paisagem de sempre (que ao amanhecer, na verdade, parece que nos olha a nós), regando uma planta, passeando um cão, iluminando o ecrã do iPad à procura do mundo externo, sentindo o odor do café, controlando o tempo pelo relógio que está colocado sempre no mesmo lugar. À sua maneira são ritos que nos ajudam a modelar o quotidiano, e que, na sua serena simplicidade, o fortalecem e sustentam. São ritos misturados com o espaço da casa e da intimidade, ritos primeiros capazes de responder às nossas necessidades e fazê-lo com uma respiração silenciosa. Deveríamos, alguma vez, fazer o seu elogio: demorarmo-nos a contemplá-los, refletindo sobre o seu significado profundo e de como eles — porventura mais até do que outros indicadores ostensivos e relevantes — escrevem o nosso romance biográfico, contam a nossa história.
Recordei-me disto ao ler sobre o projeto artístico (mas também social e político, mas também humano) que a coreógrafa francesa Nadia Vadori-Gauthier vem realizando desde 14 de janeiro de 2015, uma semana depois do surto dos atentados de Paris. Todos os dias sem exceção, onde quer que se encontre, Nadia interrompe a sua atividade, coloca a câmara fotográfica num tripé e, por um minuto, dança. O seu projeto tomou um nome que parte dessa literalidade: Une minute de danse par jour. E escolheu para mote uma frase de Friedrich Nietzsche: “Consideremos perdido aquele dia ao longo do qual não dançámos, pelo menos uma vez.”
São ritos misturados com o espaço da casa e da intimidade, ritos primeiros capazes de responder às nossas necessidades e fazê-lo com uma respiração silenciosa
Que diferença faz um minuto de dança? Aparentemente nenhuma. Não altera o mundo, a sua tensa forma ofegante, a sua férrea marcha. E, contudo, a coreógrafa crê que repetindo com deliberada fidelidade o mesmo gesto se pode alcançar o efeito da gota de água de que fala um antigo provérbio chinês: “Gota após gota, a água por fim atravessará a pedra.” Por isso, explica: “Quis agir comprometendo-me eu própria com uma ação quotidiana pequena, mas real e repetida, um trabalho que se desenvolvesse como um poema em ato, entrando eu verdadeiramente em jogo... Danço cada dia, sem outros apetrechos que não os da minha sensibilidade, para não ceder à anestesia, ao medo e ao imobilismo, criando relação com os outros e com o ambiente.”
O primeiro curso de Roland Barthes no Colégio de França tinha este título, “Como viver em comum”, e foi surpreendentemente em grande parte dedicado ao modo como vivem os monges. Barthes era muito crítico quanto à possibilidade ou à oportunidade de modelos comunitários, mas o modo de viver monástico parecia-lhe um horizonte possível de vida partilhada, exatamente porque nele acontece como que uma convergência de opostos. O espírito da comunidade alimenta-se da idiorritmia, isto é, do ritmo próprio de cada um, de ritmos extremamente pessoais e tão invisíveis e singulares como o modo de cada pessoa respirar. Creio que a vida comum se reforça quando prestamos atenção a essas humildes unidades de vida mínima, que contam o risco e o fulgor que a cada um quotidianamente cabe sentir. É verdade: deveríamos, alguma vez, fazer o elogio dos pequenos gestos de cada dia.
in Expresso 19.01.2019
https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2412/html/revista-e/que-coisas-sao-as-nuvens/Os-gestos-de-cada-dia

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À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves
DOMINGO II COMUM Ano C
“Tu guardaste o vinho bom até agora.”
Jo 2, 10

O vinho da alegria
O que Jesus certamente não disse em Caná da Galileia foi um sermão sobre o casamento, ou alguns conselhos aos esposos para a sua vida conjugal. É surpreendente que S. João nos conte que o primeiro “sinal” de Jesus (e não lhe chama milagre) foi a dádiva de mais de 600 litros de vinho (!), numas bodas, onde estava com sua Mãe e os discípulos! Um gesto pouco religioso e certamente criticável por alguns guardiões do sagrado e da decência: “Mais vinho numa festa? Só pode atrair desgraças!” Mas se este é o vinho novo da alegria, o que ele traz é graça abundante, que renova a religião triste e sombria das purificações, das obrigações e dos legalismos! É a festa da vida e do amor abundante de Deus na nossa vida quotidiana que Jesus exalta.
São inúmeras as referências bíblicas a bodas e a vinho. O próprio Deus se foi revelando como Esposo que desposa Israel com um amor incondicional, apesar das suas infidelidades. Não há festa nem alegria sem vinho saboroso, e os profetas anunciavam que seria abundante no tempo da vinda do Messias. S. João escolheu sete “sinais” de Jesus para nos convidar a ir mais fundo no conhecimento de Jesus e da sua missão. Como podia ficar indiferente a este primeiro? No coração da maior festa da vida humana, que celebra o amor como dádiva mútua e total, os esposos e convidados são o povo amado por Deus, que já não conhecia o seu amor, preso numa religião de normas e preceitos, de purificações exteriores (daí tantas talhas de água!), sem alegria nem confiança. As palavras atentas da Mãe de Jesus, “Não têm vinho!” e “Fazei o que Ele vos disser!” são as únicas que ouviremos da sua boca em todo o evangelho de João. Ela é a Mulher, símbolo do Povo de Deus, ícone da Igreja, atenta ao mais importante, que nos convida a unir-nos aos gestos novos e vivificadores do seu Filho. O chefe de mesa assemelha-se às autoridades religiosas e políticas, daquele e de todos os tempos, admirado por algo tão belo e bom, mas indiferente em procurar “donde” viera aquele vinho. Os servos e os discípulos são os únicos que sabem donde veio o vinho bom, e acreditam em Jesus.
Estas bodas anteciparam a “hora” de Jesus: a da sua (que Ele fez nossa) Páscoa. Foi aí que o Amor se entregou plenamente, o “Sim” oferecido por Deus à Esposa-Humanidade. Princípio de uma união profunda e transformadora da vida, como um poema que Sebastião da Gama escreveu: “Aquele ‘sim’ de nós dois, Senhor, / foi tão sincero, / que agora, sempre que eu digo ‘quero’ / já não sou só eu que digo, / -somos nós.” E se vivemos no tempo das bodas eternas, como se vê a festa de amor e esperança em nós? Que imagem de Deus aparece em algumas formas religiosas de observâncias exteriores, de proibições e normas, de ritualismos vazios, distantes da vida e dos problemas dos homens? O “vinho” que “bebemos” e “distribuímos” será o da alegria de Jesus?
in Voz da Verdade 20.01.2019
http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=7875&cont_=ver2


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