27 janeiro 2019


P / INFO: Crónicas & I got a glimpse of the future of women deacons, and it's troubling
Contra os muros, Francisco de Assis e o sultão Al- Kamil, Justiça como tarefa & Hoje mesmo

CONTRA OS MUROS
Frei Bento Domingues, O.P.

1. A fraternidade de horizonte universalista é de origem cristã. Basta abrir o Novo Testamento. O Evangelho de S. Marcos atribui a loucura de fazer família com quem não era da família, ao próprio Jesus de Nazaré. S. Lucas vê no Espírito do Pentecostes, o começo da autêntica união na diferença. Para S. Paulo, os que foram banhados no Espírito de Cristo devem testemunhar que o mundo de separações e privilégios acabou: não há nem judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher. Mais ainda, a humanidade inteira é um só corpo de muitos membros, uma comunidade de muitos carismas. Foi o tema paulino de Domingo passado e é, também, o deste Domingo. As metáforas usadas convergem num ponto: as pessoas precisam todas umas das outras para afirmarem a própria identidade, pois esta é uma identidade de relação e não de isolamento.
Cristo, o Homem Novo, derrubou os muros de separação, estabelecendo a paz e a amizade. Judeus e gentios são concidadãos na família de Deus. Esta afirmação da carta aos Efésios é de alcance universal, para todos os tempos e para todos os povos.
Dir-se-á: são metáforas, artes de falar e não de realizar. De facto, não são receitas, mas não são inócuas. São caminhos, são pontes e devem constituir testemunhos de que outro mundo é possível.
O Papa Francisco ao insistir, com ênfase, na reabilitação da política, toca numa urgência. Quando alguém diz não quero nada com a política, está a tornar-se sua vítima. O melhor talvez seja trabalhar na sua modificação.
No discurso aos participantes do segundo Encontro Mundial dos Movimentos Populares, o Papa observa[1]: queremos uma mudança positiva em benefício de todos os nossos irmãos e irmãs – disto estamos certos! Queremos uma mudança que se enriqueça com o trabalho conjunto entre governos, movimentos populares e outras forças sociais. Também sabemos isto! Mas não é assim tão fácil definir o conteúdo da mudança, ou seja, o programa social que reflicta este projecto de fraternidade e justiça que desejamos; não é fácil de o definir. Neste sentido, não esperem uma receita deste Papa. Nem o Papa nem a Igreja têm o monopólio da interpretação da realidade social e da proposta de soluções para problemas contemporâneos. Atrever-me-ia a dizer que não existe uma receita. A História é construída pelas gerações que se vão sucedendo no horizonte de povos que avançam, fazendo o próprio caminho e respeitando os valores que Deus lhes pôs no coração.
Se não sabe e não recorre à infalibilidade ou ao magistério da Igreja, porque não se cala?
Não só não se cala, como ousa dizer coisas atrevidas. Os seres humanos e a Natureza não devem estar ao serviço do dinheiro. Digamos NÃO a uma economia de exclusão e de desigualdade, em que o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata! Esta economia exclui. Esta economia destrói a mãe Terra.
A economia, continuou o Papa, não deveria ser um mecanismo de acumulação, mas a condigna administração da casa comum. Isto implica cuidar zelosamente da casa e distribuir, de forma adequada, os bens de todos. A sua finalidade não é apenas garantir alimento ou um decoroso sustento. Não é sequer, embora fosse já um grande passo, garantir o acesso aos 3T pelos quais combateis. Uma economia verdadeiramente comunitária – poder-se-ia dizer, uma economia de inspiração cristã – deve garantir aos povos dignidade, prosperidade e civilização nos seus múltiplos aspectos. Implica acesso à educação, à saúde, à inovação, às manifestações artísticas e culturais, à comunicação, ao desporto e à recriação.
2. É uma posição que se prende com a crença no destino universal dos bens. Que o ser humano não tem preço, mas valor, já Kant o disse. Por outro lado, uma sabedoria ética muito antiga propunha: não faças aos outros o que não gostarias que te fizessem a ti, ou até, em sentido positivo, faz aos outros o que gostarias que te fizessem a ti, em idênticas circunstâncias.
Há muita queixa contra Deus por ter o mundo nesta situação. Não poderia Ele com um golpe de vontade resolver todos os problemas e mandar-nos a todos para férias? Não me cabe a mim defender Deus. Parece que não está disposto a substituir os seres humanos.
Acontece que na Bíblia há passagens nas quais é Deus que interroga. No Genesis é Ele que pergunta a Caim: o que fizeste do teu irmão? Na simbólica do juízo final, o senhor da história julga os seres humanos não pelo que fizeram a Deus, mas pelo que fizeram, ou não fizeram, aos outros em situações de precaridade. Deus identifica-se com estes. Tomás de Aquino dirá: ninguém ofende Deus directamente, mas os seus filhos, os nossos irmãos.
A ética cristã é de marca samaritana, não sacerdotal. O sacerdote e o levita não podiam socorrer o próximo para não estarem impuros no divino culto do templo!
3. Em nome da identidade nacional, está a desenvolver-se um espírito de exclusão do outro, como uma ameaça à nossa segurança e bem-estar. Perdeu-se a fraternidade que se começou a ganhar no início do cristianismo, o esforço para não contrapor unidade e diversidade. Tanto a unidade como a diversidade são uma realidade de irmãos, o que não significa que se vão dar sempre como Deus e os Anjos. Mas não há alternativa feliz à união na diferença. Fora desta, só podem existir dominadores e dominados. É a alternativa perversa. Para o aparente bem-estar de uns tem de se fazer a desgraça dos outros.
A proposta cristã de fraternidade exige a conversão do cristianismo. As cruzadas e a inquisição, em nome de Cristo, revelam que o melhor se pode transformar no pior. A conversão das religiões que vivem o mesmo vício: o êxito de uma é a desgraça das outras. A fraternidade exige também a conversão da política, dos seus objectivos e dos seus métodos.
Se a proposta de um mundo fraterno, como já referimos, é de origem cristã, significa que não é propriedade de ninguém, mas um apelo universal. Muitas vezes as “fraternidades”, religiosas ou não, comportam-se como tribos de exclusão: quem é e quem não é da nossa fraternidade.
Na trilogia da revolução francesa Liberdade, Igualdade e Fraternidade, a última parece também a irmã mais esquecida. A Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) afirma que os seres humanos devem agir uns em relação com os outros, num espírito de fraternidade. Só esta os pode salvar.
A febre de construção de muros é um atentado contra a civilização. 
in Público 27. 01. 2019
https://www.publico.pt/2019/01/27/sociedade/opiniao/muros-1859030


[1] Papa Francisco, Terra Casa Trabalho, Temas e Debates, 2018, pp 50-53

● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●
FRANCISCO DE ASSIS E O SULTÃO AL-KAMIL
Anselmo Borges
Padre e Professor de Filosofia

1. Não há dúvida nenhuma de que o cristianismo é actualmente a religião mais perseguida no mundo. Há bastante tempo que se vai concretizando o que parece ser um plano para acabar com a presença dos cristãos no Médio Oriente. Quase desapareceram da Palestina e vão-se extinguindo na Síria e no Iraque e mais lentamente no Egipto e no Líbano. Se em 1950 os cristãos na Palestina representavam à volta de 15 por cento da população, actualmente serão uns 2 por cento.
O relatório da Open Doors (Portas Abertas), com a Lista Mundial da Perseguição referente ao ano de 2018, é dramático, pois a perseguição aos cristãos no mundo continua a crescer. Só na lista dos primeiros 50 países onde os cristãos vêem os seus direitos mais limitados pelo facto de serem cristãos, o seu número eleva-se a 245 milhões, cifra que deve ser muito maior, já que pelo menos em 73 países do mundo os níveis de perseguição são “altos”, “muito altos” ou “extremos”: entre Novembro de 2017 e Outubro de 2018, 3731 cristãos foram mortos por causa de seguirem Jesus e 1847 igrejas foram atacadas.
A Ásia e a África são os continentes mais hostis aos cristãos. Um em cada nove cristãos sofre perseguição em todo o mundo; na Ásia, um em cada três e na África, um em cada seis. Na Lista da Perseguição Mundial, os três primeiros lugares são ocupados pela Coreia do Norte (há 17 anos que ocupa o primeiro lugar), pelo Afeganistão e pela Somália, respectivamente. A Nigéria, onde houve cerca de 2000 cristãos mortos por causa da sua fé, ocupa o décimo quarto lugar da lista dos 50 países com maior perseguição. O Paquistão é considerado o país onde a violência anticristã atinge o seu nível máximo. Causa preocupação o que se passa na Índia por causa do radicalismo hindu e na China sobretudo por causa da posição do Partido Comunista em relação à religião. As novidades na Lista dos 50 países são o Nepal e o Azerbaijão. A situação na Líbia, que ocupa a sétima posição na escala, causa particular preocupação. Com a retirada do autoproclamado Estado Islâmico, os níveis de perseguição no Iraque e na Síria desceram, embora continuem a ocupar lugares muitos altos na Lista: oitavo e décimo quinto lugares, respectivamente.
Entretanto, na Europa impõe-se frequentemente um “secularismo agressivo”, e, com honrosas excepções, para a França e o Reino Unido, é gritante o clamoroso
silêncio do Ocidente democrático face a esta situação. Perante o aumento dramático da perseguição dos cristãos no mundo, o Ministro dos Negócios Estrangeiros britânico impulsionou um Relatório sobre a situação, que será apresentado em Abril. “A perseguição dos cristãos é frequentemente um sinal explícito e alarmante da perseguição das minorias”, assegurou o Ministro Hunt, que reconheceu que “podemos e devemos fazer algo mais”.
2. Neste ano de 2019, há, entre muitas outras, uma data altamente importante: em 1219, Francisco de Assis, em plena quinta cruzada, foi ao encontro do sultão do Egipto, o sultão Al-Kamil, faz este ano 800 anos. Recordando este acontecimento histórico, com a sua mensagem de tolerância, diálogo e compromisso com a paz, o arcebispo de Lahore, no Paquistão, também presidente da Comissão Nacional para o Diálogo Inter-religioso e o Ecumenismo, da Conferência Episcopal do Paquistão, presidiu, no passado dia 12, a um encontro de cristãos e muçulmanos. Aí foi lembrado que Francisco e Al-Kamil “defenderam a paz e a tolerância no meio da atmosfera de guerra e conflito durante as cruzadas. Deram um exemplo de diálogo inter-religioso e de compreensão mútua”.
É neste espírito que o Papa Francisco assumiu como um dos desafios do seu pontificado o compromisso com o diálogo inter-religioso, como mostrou a sua viagem ao Egipto e, imediatamente a seguir ao seu encontro com os jovens nas Jornadas Mundiais da Juventude, no Panamá, onde se encontra, vai deslocar-se à capital dos Estados Árabes Unidos, Abu Dhabi, de 3 a 5 de Fevereiro próximo, para participar num encontro inter-religioso sobre a “Fraternidade Humana”. E repete constantemente que quer visitar o Iraque, por onde em Dezembro passado andou o Secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, que celebrou o Natal com várias comunidades cristãs.
Evidentemente, o diálogo não pode ser unidireccional, tem de haver reciprocidade, sendo, por isso, razoável e legítimo esperar que concretamente os muçulmanos que vivem no Ocidente denunciem as atrocidades cometidas contra os cristãos nomeadamente nos países de maioria islâmica. O que alguns já fazem, felizmente. E a Turquia acaba de anunciar a construção da primeira igreja cristã desde 1923, a começar em Fevereiro.
3. Neste contexto, seja-me permitido, mais uma vez, sublinhar as condições irrenunciáveis para um diálogo tão urgente como difícil, concretamente para o diálogo islâmico-cristão, que aqui tenho repetido.
3. 1. Quando se olha para a situação do mundo, é o teólogo Hans Küng que tem razão: “Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do nosso planeta sem um ethos (atitude ética) global, um ethos mundial”.
3. 2. A religião tem na sua base a experiência do Sagrado. Crente é aquele que se entrega confiadamente ao Mistério, ao Sagrado, Deus, esperando dele sentido último, salvação. De facto, as religiões aparecem num momento segundo: são manifestações e encarnações, necessárias e inevitáveis, da relação das
pessoas com Deus e de Deus com as pessoas. São mediações, construções humanas e, por isso, têm do melhor e do pior, entendendo-se, também a partir daqui, que o diálogo inter-religioso tem de assentar nalguns pilares fundamentais.
Todas as religiões, na medida em que não só não se oponham ao humano, mas, pelo contrário, o dignifiquem e promovam, têm verdade. Outro pilar diz que todas são relativas, num duplo sentido: nasceram e situam-se num determinado contexto histórico e social, e, por outro lado, estão relacionadas com o Sagrado, o Absoluto, Deus. Estão referidas ao Absoluto, Deus, mas nenhuma o possui, pois Deus enquanto Mistério último está sempre para lá do que possamos pensar ou dizer. Precisamente porque nenhuma possui Deus na sua plenitude, devem dialogar, para, todas juntas, tentarem dizer menos mal o Mistério, Deus, que a todas convoca. Assim, por paradoxal que pareça, do diálogo fazem parte também os ateus e os agnósticos, porque, estando de fora, mais facilmente podem ajudar os crentes a ver a superstição e a inumanidade que tantas vezes envenenam as religiões.
Exigência intrínseca da religião na sua verdade é a ética e o compromisso com os direitos humanos e a realização plena de todas as pessoas. A violência em nome da religião contradiz a sua natureza, que é a salvação. Face a um Deus que mandasse matar em seu nome só haveria uma atitude digna: ser ateu.
Dois princípios irrenunciáveis: a leitura não literal, mas histórico-crítica, dos Livros Sagrados, e a laicidade do Estado, que não deve ter nenhuma religião, para garantir a liberdade religiosa de todos. Evidentemente, a laicidade não se pode de modo nenhum confundir com o laicismo. De facto, a religião tem de ter lugar no espaço público, pois é uma dimensão do humano e faz parte da cultura.
in DN 26 de Janeiro de 2019
www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/francisco-de-assis-e-o-sultao-al-kamil-10491844.htm
● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●
QUE COISA SÃO AS NUVENS
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

A JUSTIÇA COMO TAREFA

O PERIGO PARA OS CRENTES SERIA O DE BUSCAR APENAS O CULTO, DESLIGANDO-O DA INEXCUSÁVEL TAREFA DE CONSTRUÇÃO DA JUSTIÇA

Uma inspiradora (e exigente) frase do Livro do Deuteronómio, “Procurarás a justiça, nada além da justiça” (16, 20), foi repetidamente rezada esta semana por milhões de cristãos de confissões diferentes, para rejuvenescer o seu espírito e o seu empenho no mundo, por ocasião do septenário de oração pela unidade dos cristãos. Foram muitas as iniciativas por toda a parte. O Papa Francisco iniciou a semana com uma celebração ecuménica na Basílica de São Paulo extramuros onde fez não só um diagnóstico da ordem social presente (“quando a sociedade deixa de ter como fundamento o princípio da solidariedade e do bem comum, assistimos ao escândalo de pessoas que vivem em extrema pobreza ao lado de... símbolos de incrível riqueza”), mas também do acomodamento que não deixa de ameaçar os próprios cristãos (“também entre nós, cristãos, há o risco de prevalecer essa lógica... e de nos esquecermos dos vulneráveis e dos necessitados”). No fundo, o perigo para os crentes seria o de buscar apenas o culto, desligando-o da inescusável tarefa de construção da justiça, que lhe está associada.

Curiosamente, o tema deste ano da Semana de Oração pela Unidade foi escolhido por cristãos da Indonésia. Um país imenso, sabemos: mais de 17 mil ilhas, 1340 diferentes grupos étnicos e mais de 740 línguas locais, naquela que é a maior nação do sudeste da Ásia. Os cristãos locais, que constituem cerca de 10 por cento, numa população de 265 milhões de habitantes, acompanham com grande esperança o desenvolvimento económico das últimas décadas, mas também registam com preocupação o escalar das assimetrias. É inquietante ver acontecer aquilo que vem metaforicamente descrito num provérbio tradicional indonésio: poder-se “morrer de fome num celeiro cheio de arroz”. Mas como recordou o Papa, na Basílica de São Paulo, isto “não vale só para a Indonésia, pois igual situação se encontra no resto do mundo”.

É inquietante ver acontecer aquilo que vem metaforicamente descrito num provérbio tradicional indonésio: poder-se “morrer de fome num celeiro cheio de arroz”

Estes dias, por exemplo, os jornais europeus têm amplamente referido uma história que dá que pensar. Numa pequena igreja protestante de Haia (Holanda), realiza-se há três meses um cordão ininterrupto de serviços litúrgicos e orações para impedir a deportação de uma família arménia de imigrantes (pai, mãe e três filhos que habitavam na Holanda já há oito anos, com trabalho, escolas, etc.). Até outubro do ano passado, essa família tinha a expectativa que lhe fosse concedido o chamado children’s pardon, que permite às famílias com crianças, residentes no território há mais de cinco anos, obter um visto de residentes. Ora tal foi negado à família Tamrazyan, que pediu então a solidariedade da pequena comunidade de Bethel. Desde o dia 26 de outubro, esta desencadeou, como resposta, um ativíssimo movimento ecuménico. Protegidos pela lei estatal que impede a polícia de entrar numa igreja enquanto se realiza o culto, inúmeros pastores das igrejas reformadas e das várias confissões evangélicas, a par de padres ortodoxos e católicos, têm garantido um ritmo celebrativo contínuo, uma espécie de liturgia infinita que atravessa os dias e as noites. O pastor Derk Stegemen, porta-voz da Igreja de Bethel, declarou: “Enquanto esperamos que o seu pedido de asilo seja reexaminado, continuaremos por diante, até ser necessário.” É certamente um gesto que pode ser lido em angulações diferentes e não consensuais. Mas uma coisa é indesmentível: esta reivindicação, em que as igrejas cristãs estão de tantas maneiras a insistir, para que seja aplicada uma justiça mais humana no tratamento dos imigrantes, mostra bem que o cristianismo não desistiu de ser fermento de justiça.
in Expresso 26.01.2019
https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2413/html/revista-e/que-coisas-sao-as-nuvens/A-Justica-como-tarefa

● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●
À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves
DOMINGO III COMUM Ano C
“Cumpriu-se hoje mesmo
esta passagem da Escritura que acabais de ouvir.”
Lc 4, 21
Hoje mesmo

Não é fácil vivermos o “hoje”. A sabedoria do tempo presente é dificultada pela pressa, pelas preocupações, pelos lamentos e pelos medos. Quantas vezes o passado parece prender-nos e o futuro invadir de luz ou trevas o momento que estamos a viver? É bom recordar a frase de Jesus: “Basta a cada dia o seu problema” (Mt 6, 34). Pois é “hoje” que é o tempo de ser e agir, de colher e partilhar, de fazer encontros que celebram a vida. E os encontros mais importantes de cada um de nós, planeados ou não, fazem a síntese do passado e do futuro num presente que se torna graça de Deus.
Numa celebração na terra onde cresceu, Jesus leu uma profecia de Isaías. Naquele encontro habitual da vida religiosa de Nazaré, as palavras lidas por Jesus revelaram o seu programa de salvação: anunciar a boa nova aos pobres, levar a redenção aos cativos, a vista aos cegos, a liberdade aos oprimidos, o ano da graça do Senhor. O encontro com a Palavra de Deus é encontro com o próprio Deus, e com a vida que Ele deseja liberta e feliz, porque ama em abundância. O passado da profecia e o futuro da sua realização tornam-se presentes na pessoa de Jesus. É assim a liturgia cristã, em que celebramos sempre a dádiva de Deus a nós em Jesus Cristo, e a nossa dádiva com Jesus ao Pai. É encontro “hoje” que nos configura com Jesus em todas as realidades das nossas vidas: nascer, crescer, alimentar, perdoar, curar, amar e servir. Para ser no mundo um sinal vivo da sua presença a dar vida. Jesus acompanha-nos e actua em nós. Ele impulsiona-nos a remover tudo o que impede o homem de ser plenamente humano.
“A liturgia é lugar de encontro com Deus e também da comunidade cristã enquanto Povo de Deus que celebra. Além da beleza dos espaços e dos ritos, da música e do canto, a celebração da fé é chamada a educar para a interioridade, para a comunhão e para o silêncio, criando momentos que disponham à escuta de Deus.” Esta é parte do texto da Constituição Sinodal (n. 47) que dá o mote ao ano pastoral na Diocese de Lisboa: “Viver a liturgia como lugar de encontro”. Encontro de beleza e profundidade, de escuta e diálogo, que exigem conhecimento e experiência, tradição e abertura, para que não se fique na repetição vazia de palavras e gestos, mas renove em todos a alegria e a esperança. Nenhuma celebração pode fechar-se em si mesma, pois o encontro com Deus abre-nos a mente e o coração para compreender o sentido novo da história da humanidade e de cada um de nós. Quando nos oferecemos a Deus, Ele envia-nos ao encontro do mundo e dos irmãos, a inventar mil e um novos gestos de justiça e amor. O “Ide em paz e o Senhor vos acompanhe” não é anestésico tranquilizante nem redoma de protecção, mas torrente de vida e fogo de amor!
“Hoje” é, então, um programa de vida. Como Jesus que não adiava os milagres, nem em dia de sábado, e o bom Papa S. João XXIII terminava o seu decálogo assim: “Hoje, apenas hoje, não terei qualquer medo. De modo especial não terei medo de apreciar o que é belo e de crer na bondade.” Como recebemos “hoje” o Espírito Santo, que nos configura na mesma missão libertadora de Jesus, e torna a liturgia, vida, e a vida, liturgia?
in Voz da Verdade, 27.01.2019
http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=7902&cont_=ver2
● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●
I got a glimpse of the future of women deacons, and it's troubling
Jan 25, 2019
by Jamie Manson Opinion Justice

Last week, two members of the Pontifical Commission for the Study of the Diaconate of Women spoke publicly for the first time since their appointment.

The commission members were Phyllis Zagano, one of the world's leading experts on the history of women deacons (and an NCR columnist and a friend of mine), and Jesuit Fr. Bernard Pottier, a scholar in the early church, philosophy and psychology and a member of the Vatican's International Theological Commission.

As they offered their reflections during a panel discussion at Fordham University, several questions were answered: the commission's report is complete; it is on Pope Francis' desk; no one knows how, or if, or when the report will influence the pope's decision on whether the Roman Catholic Church should restore the diaconate for women.

But even with these new revelations, I came away from the event with even more questions, and some of them rather troubling. Though much was said that evening, just as telling was what was not said and what, apparently, could not be said.

As NCR reported last week, at the conclusion of the question-and-answer period, an audience member, Karen Gargamelli-McCreight, expressed her frustration from the back of the room that none of the pre-selected questions dealt with women's ordination to the priesthood. (Full disclosure, Karen is also a friend of mind.)

Karen asked the panel to "look me in the eye and tell me you do not believe women are called to be priests." The panelists simply responded that the ordination of women as priests was not the topic that they were there to discuss.

The avoidance of the question was no surprise since throughout the course of the two-hour event, the panelists took pains to make it clear that they were in no way suggesting that women should be ordained priests.

And every time I heard a panelist distance herself or himself from the issue, I could not help but wonder, is this what it is going to be like if women do become deacons? Will every woman deacon have to promise that she will never suggest that women should be priests? Will every woman deacon be expected to disassociate herself from the issue like this?

And if that is the case, doesn't it mean that women deacons who actually do support women priests will have to self-censor and keep their convictions hidden, as every male bishop, priest and deacon who secretly supports women priests is expected to do today? And if these women deacons don't keep silent, won't they face the same discipline, or coercions to recant, or threats of expulsion that male advocates for women priests do?

Pope Francis has repeatedly said that the issue of women priests has been decided and the door is closed. Why wouldn't women deacons be compelled to parrot that response or face the same consequences?

Will women deacons be put in the painful situation of having to silence other women who dare to press the issue of women priests?

I can easily envision a situation in which women deacons, having been given a little bit more authority in the church, are then instructed not to complain or push for other roles. Wouldn't these women be told to be grateful for what they've been given and not upset their bishops?

I cannot help but fear that, rather than allowing women to grow into greater roles in their church, this issue will end up dividing and conquering them.

One concern that did not arise during the panel presentation was the very real possibility that an alternative form of the diaconate could be formed for women. In her recent column, titled "It's not about women priests," Zagano described the typical duties of a women deacon:

Women deacons anointed women during baptism; women deacons anointed ill women and brought them the Eucharist; women deacons took charge of women in the assembly; women deacons catechized women and children and they looked after their needs. And, we know of a woman deacon who managed a local church's finances.

Did any of the women deacons of the past preach or witness a wedding ceremony, as male deacons are permitted to do? If they didn't, what would stop Francis from making a sub-diaconate or a new order of deaconess for women? That is, a role that lets women do service work, but without the fullness of authority that male deacons enjoy.

Giving women a "special" role like this would certainly help Francis pacify women while also avoiding the melee that would undoubtedly arise if women were actually granted an ordination equal to that of men. The truth is, that kind of equality really doesn't jibe with Francis' firm belief in gender complementarity anyway.

One of the headlines on the coverage of the women deacons panel declared that "ordaining women deacons is 'about ministry,' not 'power.' " This is a common refrain of advocates for women deacons. And every time it is said, it seems aimed at soothing ordained men who cannot bear the idea of a women having a role equal to theirs. But all it really does is reinforce the corrosive notion that women have no desire or natural ability to lead or have authority in their church. And that simply isn't true.

It also gives the ugly impression that women who are called to be priests are somehow power-hungry and status-seeking — characterizations that are never applied to men who pursue the priesthood.

The papal commission has done a fine job of collecting facts to back up its claim that women did once serve as deacons. But if we relied solely on historical precedent to determine how we are to grow as a people and as a church, where would we be now? Would the Second Vatican Council have even been called?

When Gargamelli-McCreight asked the panel to tell her what they really think about women priests, I believe what she was trying to say was: Don't just give us the facts, give us the truth.

The truth is women should be priests, and we should be unafraid to say so, because allowing women to be priests is simply the just and right thing to do.

The truth is a church that claims to have such a radical commitment human rights and human dignity ought to understand that it has a profoundly influential role in telling the world that women are fully human and truly equal and completely entitled to the rights, roles and responsibilities given to men both in society and in the church.

The truth is a church that claims that God is everywhere and that God works through all of creation should not stand in the way of God's longing to work through the gifts, strengths and power of women as priests.

I appreciate and respect that the commission members believe in good faith that they are taking an incremental approach to getting women inclusion in the church.

But this week we were reminded of the words and witness of Dr. Martin Luther King Jr. who, in time, abandoned the incremental approach to change.

In his "Letter from Birmingham City Jail, he famously criticized the white Christian moderate who "paternalistically believes he can set the timetable for another [person's] freedom" by telling black Americans "to wait for a 'more convenient season.' "

Later in the letter, with language that sounds remarkably like good Catholic theology, King writes:

Human progress never rolls in on wheels of inevitability; it comes through the tireless efforts and persistent work of [people] willing to be co-workers with God, and without this hard work time itself becomes an ally of the forces of social stagnation. We must use time creatively, and forever realize that the time is always ripe to do right.
Amen.

[Jamie Manson is a columnist and the books editor at National Catholic Reporter.]
Editor's note: We can send you an email alert every time Jamie Manson's column, Grace on the Margins, is posted to NCRonline.org. Go to this page and follow directions: Email alert sign-up.
in NCR





Sem comentários:

Publicar um comentário