20 abril 2019


P / INFO: ESVAZIAMENTO E GLÓRIA

QUE COISA SÃO AS NUVENS
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

ESVAZIAMENTO E GLÓRIA
JESUS VIVEU ENTRE NÓS NUMA PRÁTICA CONTÍNUA DE ABAIXAMENTO, EXPRESSO NA RADICAL OBLAÇÃO DE SI
Há uma primeira palavra-chave para entender a Páscoa do ponto de vista de Cristo. Trata-se do termo grego kenosis, que conheceu uma relevante maturação na história da teologia e da espiritualidade cristãs, e que remonta diretamente a uma invulgar fórmula bíblica, reproduzida na Carta de São Paulo aos Filipenses. Ali se diz que Cristo “se esvaziou a si mesmo” (heauton ekenosenm). É verdade que Paulo utiliza o verbo em outras quatro passagens das suas cartas (1 Cor 1,17; 9,15; 2 Cor 9,3 e Rm 4,14) com matizes diversos de significação que convergem na ideia de “despojar”, “esvaziar”, “privar de força”, “reduzir a nada”, “anular”. Em todas essas passagens o verbo aparece, porém, no interior de uma cláusula de negação: o objetivo é aí o de evitar o “esvaziamento”. Mas em Filipenses 2,7 assistimos a uma clamorosa inversão: é a única vez, em toda a Sagrada Escritura, que o verbo conhece um uso reflexivo. Conta-se então que o próprio Jesus tomou a iniciativa de se esvaziar a si mesmo: “[Cristo Jesus, sendo de condição divina, não se valeu da sua igualdade com Deus], mas esvaziou-se a si mesmo assumindo uma condição de servo...”

No Evangelho de João, numa passagem que a liturgia voltará a apresentar nestes dias, encontramos uma imagem que talvez nos entreabra o sentido profundo do texto paulino. Trata-se do capítulo 13 de João, quando Jesus, no contexto da última ceia com os seus discípulos, se despoja a si mesmo, despe as suas vestes e se põe a lavar-lhes os pés. Aquele que é Mestre e Senhor torna-se servo para deixar um exemplo: “se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros... Como eu vos fiz, fazei vós também” (Jo 13, 14-15). De facto, a kenosis foi uma característica permanente do caminho de Jesus, a ponto de podermos dizer que ele viveu entre nós numa prática contínua de abaixamento, expresso na radical oblação de si. O modo como Jesus assumiu a condição terrena foi, até ao fim, um amoroso serviço à nossa humanidade, relegando-se a si mesmo para o último lugar, dispondo-se a uma progressiva humilhação, sendo fiel até à morte e uma morte de cruz. Esta é uma parte do seu legado.

O modo como Jesus assumiu a condição terrena foi, até ao fim, um amoroso serviço à nossa humanidade, relegando-se a si mesmo para o último lugar

Mas só compreenderemos o sentido global dessa morte se formos além da mera crónica da crucifixão, e reconhecermos que a consequência do autoesvaziamento de Cristo é a anulação do pecado. Utilizando uma linguagem que depois se tornará corrente, o apóstolo Paulo fala de uma redenção, termo do vocabulário comercial que significa uma deslocação da pertença. O homem é “recomprado”. É devolvido a uma pertença plena a Deus e a si mesmo através da destruição do mal operada pela morte de Cristo. E como é que isso é selado? Isso torna-se patente na verdade que somos chamados a acolher, a tatear e a reconhecer: que aquele Cristo crucificado é também o Cristo ressuscitado; que ele é agora o Senhor da Glória, e nos transmite o seu Espírito para tornar-nos participantes da sua vida divina. A Páscoa é, assim, na sua amplitude, mistério de esvaziamento e glória.

Quando aprofundar a sua exposição sobre a ressurreição de Cristo, São Paulo chegará na Primeira Carta aos Coríntios a uma afirmação perentória: em última análise, diz ele, acontece uma só ressurreição, a de Cristo, que se ramifica no tempo e no espaço até chegar a todos. A ressurreição de Cristo estará completa também num sentido distributivo quando, superada toda a forma de mal, e vencido o derradeiro inimigo que é a morte (15,26), toda a criação realizar plenamente o projeto de Deus e for como que impregnada da vitalidade de Cristo. Deus será então tudo em todos (15,28).
in Semanário Expresso 19.04.2019 p150


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