28 abril 2019

     
P / INFO: Crónicas de Frei Bento Domingues, O.P., Pe. Anselmo Borges e Padre Tolentino Mendonça & Upcoming trip to Eastern Europe may see pope 'walking on eggs' with Orthodox

OS ESQUECIDOS DA PÁSCOA
Frei Bento Domingues, O.P.
As religiões, quando não enlouquecem — como aconteceu no massacre desta Páscoa —, são uma saudável reacção contra o fatalismo e o niilismo.

1. Os profetas bíblicos foram severos com o culto e os seus rituais por causa da injustiça e da hipocrisia que eles encobriam. Jesus de Nazaré nasceu dentro da mesma tradição religiosa e foi o seu crítico mais radical. No célebre diálogo que abriu com uma mulher samaritana, junto ao poço de Jacob – judeus e samaritanos odiavam-se – atreveu-se a dispensar os respectivos lugares sagrados para a relação com Deus: Mulher, chegou o tempo em que os verdadeiros adoradores não vão procurar nem Jerusalém nem Garizim. O que o meu Pai deseja são adoradores em espírito e verdade[1].
Estaria Jesus a negar valor a todos os rituais do culto? Não é Deus que precisa do culto e dos seus rituais, mas os seres humanos. Ele não precisa que o informemos do que se passa connosco e na sociedade. A oração não modifica a sua santa vontade, modifica-nos a nós. Acorda-nos da indiferença perante o sentido mais profundo da vida. Podemos tentar comover a Deus com os nossos pedidos, mas é o próprio Deus que se comove pelo eterno amor que nos tem. Nós é que não podemos deixar de ser quem somos: seres que, para viver na verdade, reconhecem o seu limite e pedem socorro.
As celebrações litúrgicas católicas estão distribuídas em dois ciclos fundamentais: o do Natal e o da Páscoa. Ao resto chamam-lhe Tempo Comum. Estes arranjos dos liturgistas têm bases bíblicas e uma longa história. São uma forma de organizar a oração oficial da Igreja. Seria ridículo pensar que foi Deus que compôs e impôs esta organização ritual. A verdadeira Igreja, a não confundir com a hierarquia eclesiástica, é o voluntariado do Evangelho. Precisa de rezar para não se descuidar de Deus e do mundo. Uma liturgia sem o imperativo do serviço aos mais necessitados, sem a negação do autoritarismo eclesiástico, isto é, sem a simbólica do lava-pés[2], está condenada a ser nada.
Estamos na oitava da Páscoa, mas as celebrações pascais vão até ao Pentecostes.
Somos irremediavelmente fruto de um tempo, de um lugar, de uma memória e de circunstâncias muito furtuitas. Não estamos, porém, condenados a viver apenas dentro dessas coordenadas. O ser humano é, por essência, possibilidade de entrar em contacto com outras geografias humanas e culturais. Os animais aparecem feitos. O ser humano tem a vida inteira para se fazer, nunca está acabado. Não é, vai sendo. Por outro lado, é capaz de autoconsciência, de linguagem e de sentido. Mas a sua linguagem não é só a do quotidiano ou das ciências. É também a voz de uma interioridade que se exprime através da literatura, da música e de todas as artes. A linguagem simbólica, metafórica, mítica, parabólica não explica. É a forma de exprimir o que não cabe em nenhuma explicação. Sugere o indizível e o infigurável.  
Como ser de relação, os delírios nacionalistas não têm em conta o sentido relativo da história e da cultura. Não podemos viver como um povo eleito ou como um povo condenado. Perder o sentido do relativo da nossa história e da nossa cultura – que não se confunde com o relativismo em que tudo se equivale – é cair na tentação de, falsamente, as absolutizar.
2. I. Kant viu muito bem que a pergunta das perguntas, a que é preciso responder, está condensada numa só: o que é o homem, isto é, o que é o ser humano?
Não é possível responder a essa pergunta sem ter em conta a sua dimensão religiosa. Como diria Fernando Pessoa, o grande mistério é o próprio mistério de existir, que não é algo de provisório que se possa vencer pela ciência ou pela técnica.
Recorrer à palavra mistério por tudo e por nada, é uma forma de preguiçosa ignorância. Existem, de facto, muitas realidades que pareciam um mistério e que, hoje, estão ao alcance de explicações científicas e de realizações tecnológicas. As ciências humanas têm de trabalhar – e cada vez mais – pelo que nos é possível conhecer. Outra coisa é a experiência do inabarcável por qualquer conceito. A experiência do insondável da inteligência e do afecto não é a de uma zona ainda por explorar, mas a da consciência de que não há explicação para as coisas mais simples, para as realidades que não têm porquê. Não há explicação para um poema. Todas as explicações ficam aquém desse milagre de juntar palavras que produzem uma sensação do inefável. A vida simbólica não explica, sugere o que não estava previsto nas estrelas.
3. A morte é o que há de mais fácil de explicar para as ciências da saúde. A palavra defunto é de um miserável latim: “deixou de funcionar”! É uma concepção absolutamente mecanicista do ser humano. As pessoas que fizeram a experiência da morte daqueles que amam não se consolam com uma ausência indesejada. Querer abolir a megalomania do desejo matando o desejo de viver é uma desistência muito pouco humana.
As religiões, quando não enlouquecem – como        aconteceu no massacre desta Páscoa – são uma saudável reacção contra o fatalismo e o niilismo, mas a cedência ao ritualismo deixa a alma inconsolável.
S. Paulo não argumenta a Ressurreição de Cristo como privilégio de Jesus de Nazaré[3]. Pelo contrário, argumentou a partir da ressurreição geral. Para Paulo, não pode haver os esquecidos da ressurreição.
A questão da vida depois da morte é comum a muitas religiões. A expressão “ressurreição” não é a descrição de um fenómeno. É a verificação de um facto. Jesus foi morto e umas mulheres testemunham que ele está vivo e que ele continua connosco.
O iaveísmo sapiencial, ao contrário do nacionalista, é universal: Deus é criador de tudo e de todos, não é apenas o Deus de um povo. Para os que acreditam que a vida humana não acaba com a morte, não pode ser o privilégio de um grupo, de alguns santos, de algumas pessoas excepcionais. Deus não pode abandonar na morte aqueles que ama.
É esta a originalidade da revelação de Jesus de Nazaré, personalidade situada nos limites de um tempo e de um lugar. Não está centrada em si mesma, está polarizada por um Deus que não é propriedade de nenhum povo nem de nenhuma religião. É o Deus que tem, no seu coração, todos os seres humanos e para sempre. Foi esta revelação que comoveu o próprio Jesus e que ele classificou como fonte da nossa verdadeira alegria[4].
Quando fazemos da ressurreição de Cristo um privilégio, esquecemos que ele é o irmão universal. Onde estão os que morreram, aqueles de quem ninguém se lembra? Não estão esquecidos. Confessamos, contra toda a evidência empírica, mas com a mais pura fé e confiança, com a maior fidelidade à vida, que vivem no coração de Deus. Um Deus que se esquecesse das suas criaturas não merecia um minuto de atenção[5].
in Público 28.04.2019
https://www.publico.pt/2019/04/28/sociedade/opiniao/esquecidos-pascoa-1870180


[1] Cf Jo 4, 21-24
[2] Jo 13, 2-20
[3] I Cor 15,13
[4] Lc 10, 17-22
[5] Sobre a questão da morte e da ressurreição ver o magnífico texto de Anselmo Borges, no DN de 20.04.2019.

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A Igreja é uma canoa, não é um museu
Anselmo Borges
Padre e Professor de Filosofia
No Sínodo de Outubro passado, em Roma, um jovem proveniente das ilhas Samoa, disse que a Igreja é "uma canoa, na qual os velhos ajudam a manter a direcção, interpretando a posição das estrelas, e os jovens remam com força, imaginando aquilo que os espera mais além."

Na recente "Exortação Apostólica Pós-Sinodal Cristo Vive aos Jovens e a todo o Povo de Deus", inspirada nas reflexões e diálogos do Sínodo, incluindo opiniões de jovens de todo o mundo, crentes e não crentes, o Papa Francisco retoma a imagem da canoa, para acrescentar: "Não nos deixemos levar nem pelos jovens que pensam que os adultos são um passado que já não conta, que já caducou, nem pelos adultos que julgam saber sempre como é que os jovens se devem comportar. É preferível que todos subamos para a mesma canoa e que entre todos procuremos um mundo melhor, sob o impulso sempre novo do Espírito Santo."

A pastoral só pode ser sinodal, isto é, caminhando juntos, dado que a Igreja somos todos e cada um deve contribuir com os seus carismas e a sua situação. "Ao mundo nunca aproveitou nem aproveitará a ruptura entre gerações." Só com os contributos intergeracionais se poderá construir um mundo novo e uma Igreja aberta. Lá diz o ditado: "Se o jovem soubesse e o velho pudesse, não haveria coisa que não se fizesse."

O Papa apela aos jovens para que não esqueçam as raízes: "É fácil 'sumir-se no ar' quando não há onde agarrar-se, onde apoiar-se." Não devem seguir quem lhes peça que desprezem ou ignorem a história. Quem faz isso "precisa que estejais vazios, desenraizados, desconfiados de tudo, para que só confieis nas suas promessas e vos submetais aos seus planos. Assim funcionam as ideologias de diversas cores". E previne-os contra outro perigo: a adoração da juventude e do corpo. "Os manipuladores utilizam outro recurso: uma adoração da juventude, como se tudo o que não seja jovem se convertesse numa coisa detestável e caduca. O corpo jovem torna-se o símbolo deste novo culto, e, então, tudo o que tiver que ver com esse corpo é idolatrado e desejado sem limites, e o que não for jovem é olhado com desprezo. Queridos jovens, não aceiteis que usem a vossa juventude para fomentar uma vida superficial, que confunde a beleza com a aparência. Há formosura para lá da aparência ou da estética da moda, em cada homem e em cada mulher que vivem com amor a sua vocação pessoal."

Por outro lado, Francisco desafia a hierarquia, bispos e padres, para que dêem protagonismo às novas gerações. "A pastoral juvenil precisa de adquirir outra flexibilidade e de convocar os jovens para eventos, para acontecimentos que de vez em quando lhes ofereçam um lugar onde não só recebam formação, mas que também lhes permitam partilhar a vida, celebrar, cantar, escutar testemunhos e experimentar o encontro comunitário com Deus." Para se renovar, a Igreja precisa de estar atenta aos jovens, aos seus anseios, aos seus traumas, aos seus problemas, às suas dúvidas, aos seus erros, à sua história, à sua busca de identidade, às suas experiências de pecado e todas as suas dificuldades.

Não se pode esquecer que, "para muitos jovens, Deus, a religião e a Igreja são palavras vazias, no entanto, eles são sensíveis à figura de Jesus, quando esta é apresentada de modo atraente e eficaz". O Sínodo reconheceu que "um número consistente de jovens não pede nada à Igreja porque não a consideram significativa para a sua existência. Alguns, inclusive, pedem expressamente que os deixem em paz, visto que sentem a presença da Igreja incómoda e até irritante". Isto implica que a Igreja tem de reconhecer humildemente que muitas coisas têm de mudar e, para isso, "também precisa de ter em conta a visão e também as críticas dos jovens". Eles "reclamam uma Igreja que escute mais, que não passe a vida a condenar o mundo. Não querem ver uma Igreja calada e tímida nem tão-pouco que esteja sempre em guerra por dois ou três temas que são para ela uma obsessão".

A Igreja não pode pôr-se na defensiva, porque "uma Igreja na defensiva, que perde a humildade, que deixa de escutar, que não permite que a ponham em questão, perde a juventude e converte-se num museu". E Francisco dá o exemplo da relação da Igreja com as mulheres: ela precisa de prestar atenção às "legítimas reivindicações das mulheres que pedem mais justiça e igualdade. Pode recordar a história e reconhecer uma longa trama de autoritarismo por parte dos homens, de sujeição, de diversas formas de escravidão, de abuso e de violência machistas. Nesta linha, o Sínodo quis renovar o compromisso da Igreja contra todo o tipo de discriminação e violência sexual. É essa a reacção de uma Igreja que se mantém jovem e que se deixa colocar em questão e impulsionar pela sensibilidade dos jovens".

O Papa não se cansa de clamar: jovens, "vós sois o agora de Deus. Não podemos dizer apenas que os jovens são o futuro do mundo. São o presente, estão a enriquecê-lo com o seu contributo". Deus é "o autor da juventude e actua em cada jovem. A juventude é um tempo abençoado para o jovem e uma bênção para a Igreja e para o mundo. E uma alegria, um cântico de esperança e uma bem-aventurança". Apreciar a juventude implica vê-la como um tempo valioso em si mesmo e não como mera etapa de passagem para a idade adulta. De qualquer modo, "neste período da vida, os jovens são chamados a projectar-se para a frente sem cortarem as suas raízes, a construir autonomia, mas não na solidão". Neste sentido, o Papa adverte-os contra as ofertas desumanizantes: "São muitos os jovens ideologizados, utilizados e aproveitados como carne para canhão ou como força de choque para destruir, amedrontar ou ridicularizar outros. E o pior é que muitos se convertem em seres individualistas, inimigos e desconfiados de todos, que assim se tornam presa fácil de ofertas desumanas e planos destrutivos elaborados por grupos políticos e por poderes económicos." Daí o apelo: "Não deixes que te roubem a esperança e a alegria, que te narcotizem para utilizar-te como escravo dos seus interesses. Atreve-te a ser mais, porque o teu ser é mais importante do que qualquer outra coisa. Não te serve ter ou aparecer. Podes chegar a ser aquilo que Deus, teu Criador, sabe que tu és. Assim não serás fotocópia. Serás plenamente tu próprio."

Francisco reconhece as dificuldades dos jovens no mundo actual: "Ainda mais numerosos são os jovens que padecem formas de marginalização e exclusão social por razões religiosas, étnicas ou económicas. Recordamos a difícil situação de adolescentes e jovens que engravidam e a praga do aborto, bem como a difusão do VIH, as várias formas de dependência (drogas, jogos de azar, pornografia, etc.) e a situação das crianças e jovens da rua, que não têm casa, nem família, nem recursos económicos." Perante estas situações, convida cada um a interrogar-se: "Eu tenho aprendido a chorar?" Porque não podemos ser "uma Igreja que não chora frente a estes dramas dos seus filhos".

Consciente de que "a moral sexual costuma ser, muitas vezes, causa de incompreensão e afastamento da Igreja, visto que é percebida como um espaço de julgamento e de condenação", o Papa não podia deixar de reflectir sobre a problemática do corpo e da sexualidade, que têm "uma importância fundamental para a vida dos jovens e no caminho de crescimento da sua identidade". Chama a atenção para que, "num mundo que enfatiza em excesso a sexualidade, é difícil manter uma boa relação com o próprio corpo e viver serenamente as relações afectivas". "Ao mesmo tempo, os jovens exprimem um desejo explícito de se confrontarem sobre as questões relativas à diferença entre identidade masculina e feminina, à reciprocidade entre homens e mulheres e à homossexualidade." O Papa convida a superar "tabus" sobre o sexo e a sexualidade, que apresenta como "um dom de Deus", com o propósito de "amar-se e gerar vida". E, neste contexto, reflectindo sobre os avanços das ciências e das NBIC (nanotecnologias, biotecnologias, inteligência artificial, ciências cognitivas), lembra as novas interrogações antropológicas e éticas que se levantam e como facilmente se pode ser instrumentalizado por quem detém o poder tecnológico.

Outro desafio é o da digitalização. "A web e as redes sociais criaram um modo novo de comunicação e de vinculação, e são uma praça na qual os jovens passam muito tempo e facilmente se encontram, embora o acesso não seja igual para todos, de modo particular em certas regiões do mundo." O Papa não pode deixar de reconhecer as vantagens da digitalização, mas não deixa de advertir que se trata de uma realidade atravessada por ingentes interesses económicos e por limitações e carências, como, por exemplo, o perigo da perda de sentido crítico. "Não é saudável confundir a comunicação com o mero contacto virtual. Com efeito, o ambiente digital também é um território de solidão, manipulação, exploração e violência, até ao extremo da Dark Web." A imersão no mundo virtual pode tornar-se "uma espécie de migração digital, isto é, um afastamento da família, dos valores culturais e religiosos, que leva muita gente a um mundo de solidão e de autoinvenção, até ao ponto de experimentarem uma falta de raízes, mesmo permanecendo fisicamente no mesmo lugar". Trata-se de um novo desafio: "Interagir com um mundo real e virtual, em que os jovens penetram sozinhos, como num continente global desconhecido. Os jovens de hoje são os primeiros a fazer esta síntese entre a pessoa, o próprio de cada cultura e o global. Isso requer que consigam passar do contacto virtual a uma boa e sã comunicação."

No capítulo quarto, o Papa expõe "três grandes verdades", que todos permanentemente precisamos de escutar. A primeira: "Deus ama-te. Independentemente do que te aconteça na vida, não duvides disso, és sempre infinitamente amado." A segunda: "Cristo entregou-se, por amor, até ao fim para salvar-te." A terceira: "Mataram-no, mas Ele venceu. Ele está vivo. O mal não tem a última palavra." "Cristo vive" é o título da exortação.

Os dois últimos capítulos, oitavo e nono, são dedicados à vocação e ao discernimento. "Somos chamados pelo Senhor a participar na sua obra criadora, prestando o nosso contributo para o bem comum a partir das capacidades que recebemos." Na procura da sua vocação, os jovens não deverão pensar apenas no dinheiro. E lembra o livro bíblico de Ben Sira: "Não há pior do que aquele que é avaro para si mesmo."

Conclui, com um desejo: "Queridos jovens, ficarei feliz vendo-vos correr mais rápido do que os lentos e temerosos. A Igreja precisa do vosso entusiasmo, das vossas intuições, da vossa fé. Fazeis-nos falta. E, quando chegardes aonde nós ainda não chegámos, tende paciência para esperar por nós."
in DN 28.04.2019
https://www.dn.pt/edicao-do-dia/28-abr-2019/interior/a-igreja-e-uma-canoa-nao-e-um-museu-10837615.html?target=conteudo_fechado

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QUE COISA SÃO AS NUVENS
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
AJUDA-ME A VER
AJUDA-ME A VER! PENSO QUE É ISSO QUE PEDIMOS AOS LIVROS, À CULTURA, ÀS HISTÓRIAS QUE OUVIMOS, AOS AMIGOS... E A DEUS

Lembro-me de que, há uns anos, num encontro de narratologia, ouvi um conferencista explicar que a forma simples de sensibilizar o leitor, para o complexo jogo de referentes que uma narrativa põe em ato, era pedir-lhe que contasse, por palavras dele, um relato. Aí, o que parecia uma teoria intrincada (com o seu debate sobre pontos de vista, estatuto do narrador, trama, personagens...), tornava-se acessível de um modo muito direto. Este professor ensinava Novo Testamento numa grande universidade norte-americana, mas mantinha uma presença frequente em faculdades de países africanos. E citava o que acontecia, por exemplo, quando estudantes das duas geografias recontavam um episódio clássico do evangelho de Lucas: a parábola do filho pródigo. Na identificação do motivo pelo qual o filho pródigo se vê precipitado da confortável situação de herdeiro à aspereza de um sem-teto, os norte-americanos apontavam o facto de haver dissipado o seu capital de maneira descontrolada, enquanto que os africanos colocavam em primeiro lugar a devastadora fome que se abateu sobre a região. Tinham ambos sustentação textual, pois o evangelho cita os dois motivos. O que é curioso, porém, é compreender o significado daquilo que nos faz nem nos apercebermos de umas coisas e ver imediatamente outras.

O que é curioso é compreender o significado daquilo que nos faz nem nos apercebermos de umas coisas e ver imediatamente outras

Tenho uma história engraçada com o poeta brasileiro Eucanaã Ferraz. Encontrámo-nos durante uns instantes em Lisboa, não foi mais do que isso. Eucanaã é um dos grandes criadores a escrever na nossa língua. Nesse encontro, breve, denso e comovido, a conversa levou-nos não sei como a Clarice Lispector. E ele contou-me esta história, que teria lido num dos seus livros. A escritora lamentava-se de que nunca lhe aconteciam milagres. Quando ouvia, a outras pessoas, a narração de milagres na primeira pessoa, ficava cheia de esperança, mas também de revolta, pois se perguntava: “E porque não a mim?”. Milagres nunca lhe aconteceram, a dizer a verdade, exceto um. Certo dia, caminhava pela rua, e sentiu-se escolhida por uma folha. Isso apenas: uma folha que, entre os milhões de possibilidades, veio lentamente rodopiando e bateu, ao de leve, nas suas pestanas. Naquele momento, Clarice achou que Deus possuía uma infinita e consoladora delicadeza. Semanas depois, dei por mim a procurar o volume de crónicas de Clarice em busca desse relato. Não foi difícil chegar a ele. Chama-se “O milagre das folhas”. Nesse texto, a autora conta, de facto, que nunca lhe aconteceu nenhum outro milagre, mas o das folhas se repete tanto que ela passou a considerar-se, “a escolhida das folhas”. E que, quando anda pela cidade, sabe que novas folhas virão sempre coincidir com ela. A folha que se embateu contra os seus cílios foi simplesmente mais uma. Contudo, o relato de Eucanaã não deixava de ser agudo e completamente verdadeiro em relação ao original de Clarice. E a isso, acrescentava ainda um prazer que os amigos sabem partilhar: o do reencontro. Talvez ele, de antemão, soubesse que eu iria no encalço daquele texto e que, o confronto com o que me contara, nos permitiria prosseguir, mesmo à distância, um diálogo que não podia ter lugar ali.
Um dos textos de que mais gosto do escritor Eduardo Galeano está em “O Livro dos Abraços”. É a história de um miúdo, Diego, que viaja para o sul com o pai para olhar o mar pela primeira vez. Quando chegam à praia, depois de muito caminhar, o mar está diante dos seus olhos. Era uma azul e contínua imensidão sem palavras. E o filho, colado ao pai, pediu-lhe baixinho: “— Ajuda-me a ver!” Penso que é isso que pedimos aos livros, à cultura, às histórias que ouvimos, aos amigos... e a Deus.
in Semanário Expresso, 27.07.2019 p151
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Upcoming trip to Eastern Europe may see pope 'walking on eggs' with Orthodox
Joshua J. McElwee
Pope Francis' most recent foreign trips have had a decidedly interreligious focus.

In February, he became the first pontiff to travel to the United Arab Emirates, where he made a joint declaration against religious violence with one of Sunni Islam's highest authorities. In March, he went to Morocco, where he met with King Mohammed VI, whose family claim authority and descent from the Muslim prophet himself.

Now, the pope is preparing to embark on a trip to southeastern Europe that will shift attention dramatically — from interreligious matters to the Catholic Church's ecumenical relationships with Eastern Orthodox churches.

Experts who have taken part in the church's official dialogues with the Orthodox say the May 5-7 visit to Bulgaria and North Macedonia could be particularly sensitive, as Francis will be facing individual, historic difficulties with the countries' separate Orthodox communities.

"There's plenty of minefields," said Paulist Fr. Ronald Roberson, an associate director of the U.S. bishops' ecumenical and interreligious secretariat. "In some ways the pope is going to be walking on eggs."

In Bulgaria, Francis will be meeting with the only Orthodox community that has decided not to participate in the most recent meetings of the official Catholic-Orthodox dialogue. In North Macedonia, he will encounter a community that the other Orthodox churches consider to be in a state of schism.

Given the individual sensitives, Roberson suggested the pope might be looking during the trip to focus more on encouraging a kind of personal ecumenical diplomacy than to raise any particular issues.

"I would imagine he would lean towards playing it safe," said the priest.

Msgr. Paul McPartlan, a member of the International Commission for Theological Dialogue between Catholics and Orthodox since 2005, expressed similar sentiments.

"These personal contacts are extremely important just for establishing connections, establishing bonds of respect and healthy interaction," said McPartlan, an ecumenist and theologian at The Catholic University of America. "It is a good thing simply that this visit is taking place."

Francis will be visiting Bulgaria May 5-6 before heading on to western neighbor North Macedonia for a day visit on his way back to Rome May 7. It is the second papal trip to Bulgaria, following John Paul II's visit in 2002, and the first to North Macedonia.

The Bulgarian Orthodox, who count some six million members and are led by Patriarch Neophyte, make up one of 15 Orthodox communities that are considered by the Patriarchate of Constantinople as autocephalous, or not dependent on any other Orthodox community for leadership.

Besides not participating in the most recent Orthodox-Catholic dialogue, held in September 2016, the Bulgarian Orthodox also did not take part in that year's Pan-Orthodox Council, the first such event in 12 centuries.

The Macedonian Orthodox, who count some two million members and are led by Primate Stephen, have been formally separated from other Orthodox communities since they unilaterally declared themselves autocephalous in 1967. No other Orthodox church has recognized the declaration.

In a scheduling choice likely settled upon so as not to upset other Orthodox leaders, Francis will not be greeting Primate Stephen privately while he is in North Macedonia.

The pope is expected to see the Orthodox leader instead twice in group settings: at an ecumenical and interreligious meeting with young people and during a visit to a memorial house to Mother Teresa, who was born in what was then a part of the Ottoman Empire.

In Bulgaria, Francis will visit Patriarch Neophyte on the first day of the trip, and the two are scheduled to pray in silence together at the Patriarchal Cathedral of St. Alexander Nevsky.

Although the joint prayer may seem like a given for a meeting of two Christian leaders, it appears to represent a development on the part of the Bulgarian Orthodox, who have sometimes expressed skepticism about praying with non-Orthodox.

When John Paul II visited then-Patriarch Maxim in 2002, the Vatican described Maxim praying "in the presence" of the pope.

McPartlan said the Bulgarians are "very cautious" on the question of joint prayer with Catholics. Roberson said the moment of prayer will be "something to watch."

Given the Bulgarians' non-participation in Catholic-Orthodox dialogue, McPartlan said their choice to welcome Francis for the visit was notable.

"Obviously, they have various misgivings and reservations," said the monsignor. "In that light, I do think it's significant that nevertheless … they are welcoming Pope Francis to this visit [and] he is going, and I'm sure will be wanting to establish good relations, and to try and lay the groundwork for a fuller dialogue."

'Not on people's radar'
The pope's schedule in Bulgaria and North Macedonia follows a usual format: he will meet with their respective prime ministers and presidents, give speeches to the political authorities, and host meetings with priests and religious.

The pontiff will also visit a refugee camp in Bulgaria, which has hosted tens of thousands of mainly Middle Eastern refugees fleeing violence who have come into the country through neighboring Turkey.

Francis is coming to North Macedonia at a delicate time. The first round of its quinquennial presidential election was held April 21. A run-off is being held May 5, two days before the pope's arrival.

The nation also formally changed its name in February, following a decadeslong dispute with Greece, which protested the previous name of Macedonia, citing the Greek region also referred to by that identifier.

While a September 2018 referendum in what is now North Macedonia approved the change, it has been contentious, with many in the country expressing anger at what they call bullying by Greece in pursuing the matter.

Greece had blocked Macedonia's efforts to join both the European Union and NATO over the naming issue.

Rozita Dimova, a North Macedonian anthropologist who teaches at Belgium's University of Ghent, said people in the country have been focused on their own political issues and are not paying much attention to the pope's coming visit.

"Really, there is nothing about it," said Dimova, whose research has focused on life on the border between North Macedonia and Greece.

The anthropologist said that North Macedonians have seen a large number of visits of Western leaders in recent months because of the process ending the name dispute, and have become indifferent to such trips.

"I think it's not on people's radar," she said. "There is a sense of enough, enough of 'you guys' coming over here to fix us and to tell us how we need to behave."

"I think it will be just a matter of curiosity," Dimova said of the pope's visit.

Victor Friedman, an expert in Slavic languages and a pioneer in the field of Macedonian studies who has spent extensive time in the country, said Francis' visit may at least raise appreciation for the role North Macedonia plays in the international system.

"The pope's coming to visit is a recognition that Macedonia is a country on the map," said Friedman, a professor at the University of Chicago.

[Joshua J. McElwee is NCR Vatican correspondent. His email address is jmcelwee@ncronline.org. Follow him on Twitter: @joshjmac.]
https://www.ncronline.org/news/vatican/upcoming-trip-eastern-europe-may-see-pope-walking-eggs-orthodox


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