[4] Summa Theologiae, I q.49, a.3 ad 5
● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●
SEIS
ANOS DEPOIS: DESAFIOS PARA FRANCISCO
Anselmo Borges
1. Fez no passado dia 13 seis anos que
Francisco, ao anoitecer em Roma, compareceu como novo Papa perante a multidão
que o aguardava, saudando-a com um “boa noite” e pedindo-lhe a bênção, antes de
ele próprio a abençoar. Que os cardeais o tinham ido buscar ao “fim do mundo”.
Pelo nome, Francisco, lembrando
Francisco de Assis, a quem Jesus crucificado tinha pedido que restaurasse a sua
Igreja em ruínas, pelo novo estilo, pela humildade e simplicidade, ficou a percepção
nítida de que iria estar a
caminho um modo novo de pontificado
papal: nem sequer se chamou Papa, mas Bispo de Roma, e era um pontífice, no
sentido etimológico da palavra: alguém que quer estabelecer pontes.
E o povo cristão e o mundo não se
enganaram. O nome de Deus, foi dizendo Francisco ao longo destes anos, é
Misericórdia. É necessário perceber que o princípio primeiro não é o cartesiano
“penso, logo existo”, mas outro, mais essencial: “sou amado, logo existo”. E
agir em consequência, e Francisco tem estado, por palavras e obras, junto de
todos, a começar pelos mais frágeis, pelos abandonados, marginalizados,
migrantes, pobres, pelos menos amados ou pura e simplesmente sem amor. Um
cristão, que põe no centro Jesus Cristo e o seu Evangelho, notícia boa e
felicitante, contra “a globalização da indiferença”.
A Igreja não pode entender-se em
auto-referencialidade, pois tem de estar permanentemente “em saída”, ao serviço
da Humanidade, como “hospital de campanha”. A Igreja “somos nós todos” e, por
isso, é preciso que caminhemos juntos, “em sinodalidade”. O poder só se
legitima enquanto serviço e, assim, não se cansa de denunciar os bispos
“príncipes e de aeroporto”. O clericalismo e o carreirismo são uma “peste” na
Igreja, repete permanentemente. A Cúria, cujas doenças gravíssimas denuncia,
precisa de uma reforma radical, tal como se impõe a transparência no Banco do
Vaticano. A Igreja não pode viver obcecada com o sexo, havendo uma nova
orientação neste domínio: pense-se na possibilidade da comunhão para os
recasados, na nova atitude face aos homossexuais, na nova compreensão para as
novas formas de casamento. A Igreja tem de praticar no seu seio os direitos
humanos que prega aos outros e,
portanto, nunca mais houve condenação
de teólogos; pelo contrário, escreveu a vários, que tinham sido condenados,
elogiando e agradecendo o seu trabalho, como aconteceu, por exemplo, com Hans
Küng ou José Maria Castillo.
Francisco publicou uma encíclica de
relevância global sobre o cuidado da casa comum, a ecologia e a salvaguarda da
criação, Laudato sí, impulsionou o diálogo ecuménico com as outras Igreja
cristãs, aprofundou o diálogo inter-religioso, concretamente com o islão
moderado, sendo exemplar a sua recente viagem histórica aos Emiratos Árabes
Unidos, com a assinatura do “Documento sobre a Fraternidade Humana”, que aqui
já referi. Como líder político-moral global, tem desempenhado papel relevante
em processos de paz internacional. Não sem razão, Francisco é o líder mundial mais
apreciado e estimado do mundo, segundo a Sondagem Mundial Anual de Gallup
International, realizada em 57 países e publicada nos inícios de Fevereiro.
Devo esta última informação a um texto
de Hernán Reys Alcaide, subordinado ao tema dos desafios para Francisco neste
seu sétimo ano como Papa, precisamente o ano que teve início no passado dia 13.
2. Que desafios? Enuncio alguns.
2.1. Perante o abismo da chaga da
pedofilia do clero, Francisco tomou a iniciativa que se impunha: como dei amplo
conhecimento aqui, convocou para o Vaticano os responsáveis máximos da Igreja,
concretamente os presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo,
membros da Cúria, representantes das Igrejas católicas do Oriente,
representantes dos superiores e das superioras gerais de Congregações e Ordens
religiosas. Homens e mulheres foram confrontados com testemunhos vivos de
antigas vítimas, para que tomassem consciência da situação terrível que
destruiu vidas e a fé de tantos e colocou a Igreja no fosso da descredibilização.
A tragédia era inimaginável. Quem
suporia que um cardeal, a terceira figura do topo da Igreja, o cardeal
australiano George Pell, havia de estar condenado e preso na cadeia, por abuso
de menores? Neste momento, 37% dos católicos norte-americanos põem a questão de
abandonar a Igreja, por causa da pedofilia... Francisco prometeu que todos os
acusados serão entregues à justiça. O abuso de menores e adultos vulneráveis é
não só um pecado mas também um crime, que é obrigatório denunciar. Já não
haverá lugar para os encobridores... Operou-se uma verdadeira revolução
copernicana, no sentido de que agora o centro será ocupado pelas vítimas e a
sua defesa e apoio sem tréguas.
Desafio maior para Francisco neste novo
ano de pontificado é o cumprimento da promessa da formação de um grupo de
peritos multidisciplinar, de um novo “Motu Proprio”, decreto papal, para
reforçar a prevenção e a luta contra a pedofilia e a protecção dos menores e
pessoas vulneráveis, com medidas concretas, e de um “vade-mecum”, isto é, uma
espécie de manual para orientação dos procedimentos dos bispos neste domínio. É
imperioso e urgente que a Igreja se torne um lugar seguro para os menores,
inclusivamente para ir ao encontro da vontade explícita e dramática de Jesus:
“Ai de quem
escandalizar uma criança. Era melhor
atar-lhe a mó de um moinho à volta de pescoço e lançá-lo ao fundo do mar”. A
Igreja tem de tornar-se exemplar, também para poder tornar-se credível na
denúncia e na ajuda para a libertação de tantas crianças e adolescentes
(centenas de milhões) que no mundo são vítimas de abusos sexuais, físicos e
psicológicos, da fome e da guerra.
Se não forem tomadas todas as medidas
necessárias para acabar com esta brutalidade da pedofilia clerical, a Igreja
caminhará não só para a sua irrelevância mas também para a sua autodestruição.
2.2. Desafios
ético-diplomático-políticos, concretamente em relação à China e à Venezuela.
A situação na Venezuela é pura e
simplesmente insuportável, a ponto de me perguntar como é possível, face à
tragédia — não há de comer, não há remédios, não há electricidade, a fome
campeia, não há liberdade... —, haver partidos que ainda apoiam e defendem
Maduro. Que vai Francisco fazer, para intermediar o intolerável?
Como vai Francisco conseguir
implementar, em casos concretos, o acordo assinado com a China em Setembro
passado para a nomeação conjunta dos bispos, depois de 60 anos de desencontros
entre Roma e Pequim quanto a esta questão essencial para a Igreja? Xi Jinping
passará por Roma em finais deste mês de Março. Será recebido pelo Papa?
2.3. Está em processo de redacção uma
nova Constituição Apostólica, Praedicate Evangelium (Pregai o Evangelho), para
a Cúria Romana, governo central da Igreja. Que novas estruturas, que divisão de
competências? Qual a presença e a participação de leigos, incluindo mulheres?
Que descentralização, que relação com as Conferências Episcopais do mundo, com
que competências para a participação no governo da Igreja universal? De
qualquer modo, as Conferências Episcopais serão consultadas para a nova
Constituição.
2.4. Provavelmente, haverá um novo
Consistório cardinalício, para a nomeação de novos cardeais. Quem? Com que
orientação? E se o sucessor de Francisco, em vez de ser escolhido só por
cardeais, o fosse por um colégio de representantes semelhante ao da Cimeira que
se reuniu em Roma para pôr termo à pedofilia, portanto, mais representativo da
Igreja universal, com a presença inclusivamente de mulheres?
Aliás, um dos desafios para o novo ano
tem a ver precisamente com a justa reivindicação de maior presença e
participação das mulheres na Igreja nos seus vários níveis, incluindo na
formação dos candidatos a padres. Francisco tem afirmado que a Igreja não pode
continuar “machista”.
2.5. Acontecimento de enorme relevância
será o Sínodo para a Amazónia, de 6 a 27 de Outubro próximo, que não será fácil
também por causa do novo Governo do Brasil com Jair Bolsonaro.
De qualquer forma, é em conexão com
este Sínodo que são referidas questões tão importantes como o lugar e a
participação das mulheres nas decisões da vida da Igreja ou a possibilidade da
ordenação de homens casados.
É neste contexto que é necessário
repensar a formação dos novos padres e a questão da lei do celibato
obrigatório.
Precisamente neste quadro e voltando à
Igreja clerical e aos abusos sexuais e ao clericalismo, “peste” na Igreja,
deixo aí, para reflexão final, um texto duro do teólogo José Arregi, que,
depois de citar aquele dito de Francisco, pouco feliz, se não for entendido no
seu contexto, de que “todo o feminismo é um machismo com saias”, escreveu:
“Sim, o problema talvez tenha que ver com saias, mas com as saias do clero com
sotaina. Tem muito que ver com o clericalismo que sacraliza e enaltece os
clérigos, que exalta a figura desencarnada de Maria Mãe e Virgem para assim
humilhar a mulher de carne e osso, que impõe o celibato como estado mais
perfeito e sagrado, que ‘sacrifica’ o sexo a troco de poder sagrado e
hierárquico, que reprime e por isso exacerba a sexualidade. O clericalismo é um
sistema patogénico. E, enquanto não se libertar dele, esta Igreja não será
crível nem um lugar habitável, por mais liturgia penitencial que ostente.”
Entretanto, a Conferência Episcopal
Alemã acaba de anunciar um debate interno sobre o celibato, o abuso de poder e
a moral sexual na Igreja Católica, com base na Cimeira sobre a pederastia, há
pouco realizada no Vaticano.
Padre e Professor
in DN
17.03.2019
https://www.dn.pt/edicao-do-dia/17-mar-2019/interior/seis-anos-depois-desafios-para-francisco-10687035.html?target=conteudo_fechado
● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●
Que
coisa são as nuvens
José
Tolentino Mendonça
O CONHECIMENTO DA DOR
A CULTURA DOMINANTE FAZ DA DOENÇA, DA VELHICE, DA
DEFICIÊNCIA E DO LIMITE UM COMPLETO TABU
O místico medieval Ricardo
de São Vítor escreveu: “Onde há amor há um olhar.” Não raro, esse olhar que o
amor nos pede acontece no contexto de um sofrimento que preferíamos
absolutamente não viver, mas do qual aprendemos alguma coisa — e alguma coisa
preciosa — a que sem ele não chegaríamos. O mundo da dor é vasto e bem mais
próximo do que supomos. Quando menos pensamos, damos por nós a habitar o seu
território. E os sentimentos que, então, nos sobrevêm são tantos: entramos em
negação, em revolta, em depressão, em ressentimento; apetece-nos fugir para
longe; perguntamo-nos: “porquê?”, “porquê a mim?”, “porquê agora?”; a impressão
que temos é que tudo em nosso redor naufraga e nós também; sentimo-nos
impreparados para essa empresa exigente. E, relativamente a este último ponto,
temos razão. A cultura dominante faz da doença, da velhice, da deficiência e do
limite um completo tabu. Persiste uma espécie de interdito a respeito da vida
vulnerável: não se fala dela socialmente, cada um deve viver essas situações em
estrita solidão, não nos ajudamos a aprofundar essa experiência como um recurso
e não como uma fatalidade. Contudo, a verdadeira realidade é tão diferente do
desenho traçado pelo egoísmo ou pelo medo. Escutava há dias um pai, falando do
seu filho afetado pelo Síndrome de Down, e ele dizia, sem esconder a comoção:
“Este meu filho é o membro mais importante da nossa família. É o nosso elo de
união. Fez de nós pessoas diferentes, mais humanas e atentas aos outros.
Ampliou a nossa capacidade de amar. O que recebemos dele não tem preço.” E, na
mesma linha, ouvia de uma amiga que, tendo começado a viver independente dos
pais muito cedo, lhe coube depois acompanhar a mãe numa velhice muito sofrida.
A vida desta amiga mudou da noite para um dia. De repente, dava por si em
trabalhos e preocupações completamente diferentes, em que a mãe era o centro. A
princípio, ainda pensava naquilo que estava a perder com esta mudança, mas
assumiu-a depois como uma oportunidade de se reencontrar com a vida. Não é que
tivesse grandes conversas com a mãe. Passavam, sim, tempo juntas. Caminhavam
devagar, de braço dado, nos longos corredores do hospital ou quando desciam ao
parque, vizinho da sua casa, para olhar as flores. Massajava com creme a cara,
as mãos, os pés da mãe todas as noites. Tinham mil ocasiões para dizer “amo-te”
ou “obrigado pelo teu amor”.
Recordo a peça de teatro de Romeo Castellucci,
intitulada “Sobre a Definição do Rosto do Filho de Deus”, que esteve em cena em
Lisboa, há uns anos atrás. A peça propõe uma reflexão em torno de duas imagens,
e a primeira é esta: um filho que trata do pai, de um pai idoso, com muitas
limitações de saúde. É até, para os espectadores, uma coisa dura de ver, porque
um dos problemas daquele pai é uma incontinência fecal. De maneira que o filho
tem de estar sempre a limpá-lo. E muitas vezes nos parece que vai soçobrar, que
já não será capaz, porque está sempre a acontecer a mesma coisa. Apercebemo-nos
do seu esforço extremo: é extenuante amparar as necessidades de outro ser
humano. Mas ao mesmo tempo, com que delicadeza, com que transparente amor
aquele filho se debruça para o pai e o sustenta. E há um momento belíssimo no
meio daquele combate interminável em que ambos são aliados: agarram-se um ao
outro e, abraçados, choram. Pai e filho choram perante o irremediável da
própria vida, sentindo que já não vão conseguir resolver nada senão amar-se,
senão perdoar-se, senão acompanhar-se até ao fim. Por paradoxal que possa ser,
um dia apercebemo-nos que poucas coisas no mundo são tão importantes como essa.
in Semanário
Expresso, 16.03.2019
https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2420/html/revista-e/que-coisas-sao-as-nuvens/o-conhecimento-da-dor
● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●
À
PROCURA DA PALAVRA
P.
Vítor Gonçalves
Domingo
II da Quaresma
“Da
nuvem saiu uma voz, que dizia:
«Este
é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O”
Lc
9, 35
Mandar à
frente o coração
Sempre os montes atraíram
os homens para o alto. Mais perto do céu, mais horizonte a conhecer, melhor
visão da planície onde a vida acontece, mais silêncio para contemplar: tudo
pode atrair e convidar a uma caminhada. No ritmo mecânico e apressado em que a
vida nos engole, fazer subir o pensamento e o coração para o silêncio e a luz, para
ouvir e ver melhor, é desejo de muitos. É verdade que pode ser difícil a
subida, mas talvez o segredo esteja na lição do velho alpinista: “Para subir
uma montanha começo por mandar à frente, lá para o alto, o meu coração, e
depois é fazer com que o corpo o siga!”
Por estes dias quaresmais
há quem consiga fazer um tempo de retiro. Até o Papa Francisco celebrou o 6º
aniversário do seu pontificado em retiro. Penso em tantos que gostariam tanto
de uma pausa assim, com o sabor de subir ao monte como Jesus, Pedro, Tiago e
João. Não para fugir da vida, mas para vê-la e abraçá-la de um modo novo. Para
orar, como S. Lucas refere que foi a intenção de Jesus. Para escutar melhor o
Filho amado, como o Pai pede aos discípulos antes da descida. Na
impossibilidade de um retiro de alguns dias, e não tendo nenhum monte à mão,
não seria possível “criar” alguns “oásis” de serenidade, contemplação e escuta
por entre os dias tão cheios? Com poucas coisas ou nenhumas, para que o
coração, às vezes, perdido no caminho nos volte a encontrar? Assim diziam os
índios brasileiros ao P. José de Anchieta que os incitara a caminhar rápido
para o interior do Brasil: “Agora temos de parar, porque viemos tão rápido que
temos de esperar pelos nossos corações que ficaram para trás!”
Perante a transfiguração
de Jesus, esse vislumbre antecipado da sua divindade, é curiosa a referência ao
sono dos discípulos. Não são os mesmos que vão adormecer quando Jesus reza no
Horto das Oliveiras, antes da sua prisão e Paixão? Será um sono de cansaço ou a
dificuldade de aceitar a Páscoa com o que ela implica de entrega e amor até ao
fim? É a sonolência de fecharmos os olhos à verdade, de anestesiarmos o coração
ao “parece tudo bem”, de passar ao lado do que é importante? No monte despertam
a tempo de entrar na nuvem, de sentir medo e ouvir a voz do Pai. No Horto,
Jesus despertá-los-á a tempo de também entrarem na sua Páscoa. O que nos
despertará de algum sono acumulado?
A tentação de “ficar no
monte” é grande. Assistir à vida sem nos comprometermos, deixar acontecer sem
procurar fazer melhor, ter a fé suficiente para uma vida religiosa “pura”,
“perto de Deus”, mas distante dos homens, parecem aliciantes. Mas se
verdadeiramente queremos “escutar o Filho”, é preciso descer, ir ao encontro
dos outros, aceitar a fragilidade e o desamparo dos nossos gestos, descobrir a
alegria de criar juntos, dar oportunidades à esperança. É verdade que
precisamos de descansar um pouco melhor. E também podemos ser mais simples,
mais amigos da verdade, mais pacíficos. Se não mandarmos à frente o coração,
como sairemos do mesmo lugar?
in
Voz da Verdade, 17.03.2019
http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=8032&cont_=ver2