17 março 2019

      P / INFO: Crónicas de fim de semana

NOTA: Além das crónicas, publicámos vários artigos na nossa página do FB:

Cardinal Marx: church needs to seriously discuss celibacy, role of women and sexual morality;
French bishop backs ordination of married men;
Abusos sexuais. Cardeal de Boston esteve em Fátima e falou de tolerância zero aos bispos portugueses
Women's authority can help heal our church's broken governance
Airbrushed out of Church…. – Elephant in the Church,
Society profits from the power of patience
Etc.

O IMPOSSÍVEL PODE ACONTECER
Frei Bento Domingues, O.P.

Passar de um mundo de afrontamentos para uma época de cooperação é o grande sonho de quem não é louco.

1. Em Guimarães, de 7 a 12 de Março deste ano, além de outros programas, a Biblioteca Municipal dedicou o Festival Literário, Húmus, a estudar Raul Brandão, uma das suas glórias. Participei, no dia 9, com Alberto S. Silva, numa Mesa de Debate sobre As Cruzadas vistas dos dois lados, moderada por Pedro Vieira. Estava anunciada nestes termos: “Durante séculos, cristãos e muçulmanos lutaram pela posse do território. Da época do Al-Andalus, seguido do período da Reconquista, às Cruzadas dos séculos XI a XIII, estes movimentos influenciaram em muito a história de Portugal e da Península Ibérica. Mas todas as histórias têm dois lados. Como são interpretados os factos históricos dos dois lados da barricada?”
Esta interrogação envolve séculos de grandes realizações, destruições, confrontos, períodos de entendimentos e muita violência. As religiões foram texto e pretexto para alternadas dominações políticas, económicas e culturais. Não se pode esperar muito de uma mesa de diálogo amistoso com um tempo necessariamente limitado. Mas o tema devia tornar-se incontornável. António Borges Coelho ajudou-me a vencer a minha ignorância[1].
Apesar de tudo o que permanece oculto, até os mais cépticos concedem que o passado quanto mais estudado, mais desmitificado. Esta é a tarefa dos historiadores, com os seus métodos de investigação e interpretação. O proveito é para todos os interessados em saber donde viemos[2].
Não podemos deixar que os confrontos entre religiões durmam o sono dos arquivos, memórias de outras épocas enterradas. Somos hoje testemunhas de tragédias que continuam a desenhar mapas de sangue e crueldade. Podemos e devemos admirar castelos, fortalezas e prisões de tempos guerreiros por razões de ordem estética, científica e moral. Mas agrada-me sempre mais ver, nas relações de Portugal com os reinos de Espanha, castelos e fortalezas transformados em pousadas, do que apenas testemunhos de ignorâncias e ressentimentos não resolvidos.
        É preferível deixar para os vindouros gestos, monumentos, tratados de paz, do que a tristeza de não nos reconhecermos nas nossas irredutíveis diferenças. Passar de um mundo de afrontamentos para uma época de cooperação é o grande sonho de quem não é louco. À epidemia ideológica de vários nacionalismos é preciso responder com realidades e gestos criadores de esperança activa. No momento, em que as narrativas de corrupção tendem a criar a ideia do inevitável, importa encontrar os meios, as práticas e a cultura de que o normal, o mais corrente, é a honestidade pessoal e a observância das boas regras nas instituições públicas e privadas.
Nesse caminho, deparamos com pequenos e grandes sinais. No campo católico, nunca poderei esquecer os gestos e as atitudes de coragem de Papa João XXIII que desejava, dentro e fora das Igrejas, suscitar uma corrente universal de seres humanos de boa vontade. Enquanto europeus, como podemos esquecer os confrontos monstruosos de duas guerras mundiais, os muros levantados, os muros caídos e os reerguidos? A situação actual dá a impressão de que os europeus se cansaram de 74 anos de paz e, agora, dão passos para barrar os caminhos da cooperação no desenvolvimento de todos. Parecem apostados em regressar, com novos moldes, a uma época de insensatez, em nome de um nacionalismo vesgo.
2. O que me interessou em Guimarães, e que sempre me acompanha, é procurar entender um grande tema da Quaresma: as tentações que assaltaram o projecto libertário de Jesus[3]. S. Lucas observa que a condição humana, reafirmada em Jesus, é uma condição sempre tentada. Estamos sempre a ser solicitados para caminhos cegos. Não bastam uns exercícios espirituais para nos julgarmos confirmados em graça.
É uma banalidade dizer que só cada um sabe aquilo que o tenta, o que o leva a enganar-se acerca do que é melhor para a sua vida e para a felicidade dos outros. Se a natureza, como dizia Tomás de Aquino, na maior parte dos casos, bate certo, o ser humano parece que, na maior parte dos casos, segue a rota dos seus apetites desorientados, sem cuidar do que interessa à sua realização verdadeiramente humana[4]. As grandes tentações que percorrem a história humana são do tipo das que envolveram Jesus Cristo, na sua vontade de virar o mundo do avesso. A figura do Diabo, como sabemos, é a expressão da ruptura com os grandes sonhos da humanidade. Troca o desejo de servir, o desenvolvimento harmónico de todos pela vontade de dominar. Seja na família, na escola, na freguesia, na empresa, no conjunto do país o que muitos procuram é o poder de dominar, de submeter os outros aos seus interesses mais ridículos. Importa ter boas leis, ter um bom sistema de saúde, de educação, de regime político, mas se aqueles que devem servir o interesse comum se aproveitam para fins privados o que é de todos, quem manda é o poder de corromper ou de se deixar corromper.
3. Neste século XXI revelou-se no mundo do sagrado, ou assim julgado, algo de muito banal: nas religiões, nas Igrejas e no interior de cada religião e de cada igreja, a vontade de dominação continua a corromper o que, em cada uma, há de melhor. Em nome de causas sagradas sacralizam-se as astúcias da corrupção, muitas vezes, dentro de uma congregação religiosa, de uma comunidade, de uma paróquia, de uma diocese e até dentro do Vaticano se desvia o rumo para que estas instituições nasceram. Mas não há só crimes a lamentar!
Aconteceu o que nunca se julgou possível. Já toda a gente ouviu falar dos diálogos ecuménicos entre as Igrejas cristãs e de diálogo inter-religioso entre as diversas configurações religiosas, quer a nível local, quer global. Nesses acontecimentos de diálogo inter-religioso o mais frequente é o aproveitamento para cada um dos intervenientes mostrar a excelência da sua organização. São todas tão boas que nem se percebe porque é que não dialogam mais. Esquece-se que esses encontros deviam ser também de autocrítica e de procura de caminhos de cooperação, não para prestígio dessas organizações, mas para bem dos que mais precisam.
O que parecia inacreditável aconteceu! Em Abu Dabhi, o Papa Francisco e o Grão Imame de Al-Azhar Ahmad  Al-Tayyeb assinaram um compromisso de desenvolver um processo que leve católicos e muçulmanos a lutarem pela defesa da Casa-Comum e de toda a humanidade. Que as religiões cuidem das religiões nem sempre acontece, mas seria o normal. Agora, que as religiões digam que não é para cuidar delas que existem, vai obrigar crentes e não crentes a perguntar: então para que é a religião?
in Público 17.03.2019
https://www.publico.pt/2019/03/17/sociedade/opiniao/impossivel-acontecer-1865181



[1] Portugal na Espanha Árabe, 3ª edição revista, Caminho, 2008
[2] António Borges Coelho, Donde Viemos - História de Portugal I, Caminho 2010
[3] Mt 4, 1-11; Mc 1, 12s; Lc 4, 1-13; 1Pd 5, 8-11
[4] Summa Theologiae, I q.49, a.3 ad 5

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SEIS ANOS DEPOIS: DESAFIOS PARA FRANCISCO
Anselmo Borges

1. Fez no passado dia 13 seis anos que Francisco, ao anoitecer em Roma, compareceu como novo Papa perante a multidão que o aguardava, saudando-a com um “boa noite” e pedindo-lhe a bênção, antes de ele próprio a abençoar. Que os cardeais o tinham ido buscar ao “fim do mundo”.
Pelo nome, Francisco, lembrando Francisco de Assis, a quem Jesus crucificado tinha pedido que restaurasse a sua Igreja em ruínas, pelo novo estilo, pela humildade e simplicidade, ficou a percepção nítida de que iria estar a
caminho um modo novo de pontificado papal: nem sequer se chamou Papa, mas Bispo de Roma, e era um pontífice, no sentido etimológico da palavra: alguém que quer estabelecer pontes.
E o povo cristão e o mundo não se enganaram. O nome de Deus, foi dizendo Francisco ao longo destes anos, é Misericórdia. É necessário perceber que o princípio primeiro não é o cartesiano “penso, logo existo”, mas outro, mais essencial: “sou amado, logo existo”. E agir em consequência, e Francisco tem estado, por palavras e obras, junto de todos, a começar pelos mais frágeis, pelos abandonados, marginalizados, migrantes, pobres, pelos menos amados ou pura e simplesmente sem amor. Um cristão, que põe no centro Jesus Cristo e o seu Evangelho, notícia boa e felicitante, contra “a globalização da indiferença”.
A Igreja não pode entender-se em auto-referencialidade, pois tem de estar permanentemente “em saída”, ao serviço da Humanidade, como “hospital de campanha”. A Igreja “somos nós todos” e, por isso, é preciso que caminhemos juntos, “em sinodalidade”. O poder só se legitima enquanto serviço e, assim, não se cansa de denunciar os bispos “príncipes e de aeroporto”. O clericalismo e o carreirismo são uma “peste” na Igreja, repete permanentemente. A Cúria, cujas doenças gravíssimas denuncia, precisa de uma reforma radical, tal como se impõe a transparência no Banco do Vaticano. A Igreja não pode viver obcecada com o sexo, havendo uma nova orientação neste domínio: pense-se na possibilidade da comunhão para os recasados, na nova atitude face aos homossexuais, na nova compreensão para as novas formas de casamento. A Igreja tem de praticar no seu seio os direitos humanos que prega aos outros e,
portanto, nunca mais houve condenação de teólogos; pelo contrário, escreveu a vários, que tinham sido condenados, elogiando e agradecendo o seu trabalho, como aconteceu, por exemplo, com Hans Küng ou José Maria Castillo.
Francisco publicou uma encíclica de relevância global sobre o cuidado da casa comum, a ecologia e a salvaguarda da criação, Laudato sí, impulsionou o diálogo ecuménico com as outras Igreja cristãs, aprofundou o diálogo inter-religioso, concretamente com o islão moderado, sendo exemplar a sua recente viagem histórica aos Emiratos Árabes Unidos, com a assinatura do “Documento sobre a Fraternidade Humana”, que aqui já referi. Como líder político-moral global, tem desempenhado papel relevante em processos de paz internacional. Não sem razão, Francisco é o líder mundial mais apreciado e estimado do mundo, segundo a Sondagem Mundial Anual de Gallup International, realizada em 57 países e publicada nos inícios de Fevereiro.
Devo esta última informação a um texto de Hernán Reys Alcaide, subordinado ao tema dos desafios para Francisco neste seu sétimo ano como Papa, precisamente o ano que teve início no passado dia 13.
2. Que desafios? Enuncio alguns.
2.1. Perante o abismo da chaga da pedofilia do clero, Francisco tomou a iniciativa que se impunha: como dei amplo conhecimento aqui, convocou para o Vaticano os responsáveis máximos da Igreja, concretamente os presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo, membros da Cúria, representantes das Igrejas católicas do Oriente, representantes dos superiores e das superioras gerais de Congregações e Ordens religiosas. Homens e mulheres foram confrontados com testemunhos vivos de antigas vítimas, para que tomassem consciência da situação terrível que destruiu vidas e a fé de tantos e colocou a Igreja no fosso da descredibilização.
A tragédia era inimaginável. Quem suporia que um cardeal, a terceira figura do topo da Igreja, o cardeal australiano George Pell, havia de estar condenado e preso na cadeia, por abuso de menores? Neste momento, 37% dos católicos norte-americanos põem a questão de abandonar a Igreja, por causa da pedofilia... Francisco prometeu que todos os acusados serão entregues à justiça. O abuso de menores e adultos vulneráveis é não só um pecado mas também um crime, que é obrigatório denunciar. Já não haverá lugar para os encobridores... Operou-se uma verdadeira revolução copernicana, no sentido de que agora o centro será ocupado pelas vítimas e a sua defesa e apoio sem tréguas.
Desafio maior para Francisco neste novo ano de pontificado é o cumprimento da promessa da formação de um grupo de peritos multidisciplinar, de um novo “Motu Proprio”, decreto papal, para reforçar a prevenção e a luta contra a pedofilia e a protecção dos menores e pessoas vulneráveis, com medidas concretas, e de um “vade-mecum”, isto é, uma espécie de manual para orientação dos procedimentos dos bispos neste domínio. É imperioso e urgente que a Igreja se torne um lugar seguro para os menores, inclusivamente para ir ao encontro da vontade explícita e dramática de Jesus: “Ai de quem
escandalizar uma criança. Era melhor atar-lhe a mó de um moinho à volta de pescoço e lançá-lo ao fundo do mar”. A Igreja tem de tornar-se exemplar, também para poder tornar-se credível na denúncia e na ajuda para a libertação de tantas crianças e adolescentes (centenas de milhões) que no mundo são vítimas de abusos sexuais, físicos e psicológicos, da fome e da guerra.
Se não forem tomadas todas as medidas necessárias para acabar com esta brutalidade da pedofilia clerical, a Igreja caminhará não só para a sua irrelevância mas também para a sua autodestruição.
2.2. Desafios ético-diplomático-políticos, concretamente em relação à China e à Venezuela.
A situação na Venezuela é pura e simplesmente insuportável, a ponto de me perguntar como é possível, face à tragédia — não há de comer, não há remédios, não há electricidade, a fome campeia, não há liberdade... —, haver partidos que ainda apoiam e defendem Maduro. Que vai Francisco fazer, para intermediar o intolerável?
Como vai Francisco conseguir implementar, em casos concretos, o acordo assinado com a China em Setembro passado para a nomeação conjunta dos bispos, depois de 60 anos de desencontros entre Roma e Pequim quanto a esta questão essencial para a Igreja? Xi Jinping passará por Roma em finais deste mês de Março. Será recebido pelo Papa?
2.3. Está em processo de redacção uma nova Constituição Apostólica, Praedicate Evangelium (Pregai o Evangelho), para a Cúria Romana, governo central da Igreja. Que novas estruturas, que divisão de competências? Qual a presença e a participação de leigos, incluindo mulheres? Que descentralização, que relação com as Conferências Episcopais do mundo, com que competências para a participação no governo da Igreja universal? De qualquer modo, as Conferências Episcopais serão consultadas para a nova Constituição.
2.4. Provavelmente, haverá um novo Consistório cardinalício, para a nomeação de novos cardeais. Quem? Com que orientação? E se o sucessor de Francisco, em vez de ser escolhido só por cardeais, o fosse por um colégio de representantes semelhante ao da Cimeira que se reuniu em Roma para pôr termo à pedofilia, portanto, mais representativo da Igreja universal, com a presença inclusivamente de mulheres?
Aliás, um dos desafios para o novo ano tem a ver precisamente com a justa reivindicação de maior presença e participação das mulheres na Igreja nos seus vários níveis, incluindo na formação dos candidatos a padres. Francisco tem afirmado que a Igreja não pode continuar “machista”.
2.5. Acontecimento de enorme relevância será o Sínodo para a Amazónia, de 6 a 27 de Outubro próximo, que não será fácil também por causa do novo Governo do Brasil com Jair Bolsonaro.
De qualquer forma, é em conexão com este Sínodo que são referidas questões tão importantes como o lugar e a participação das mulheres nas decisões da vida da Igreja ou a possibilidade da ordenação de homens casados.
É neste contexto que é necessário repensar a formação dos novos padres e a questão da lei do celibato obrigatório.
Precisamente neste quadro e voltando à Igreja clerical e aos abusos sexuais e ao clericalismo, “peste” na Igreja, deixo aí, para reflexão final, um texto duro do teólogo José Arregi, que, depois de citar aquele dito de Francisco, pouco feliz, se não for entendido no seu contexto, de que “todo o feminismo é um machismo com saias”, escreveu: “Sim, o problema talvez tenha que ver com saias, mas com as saias do clero com sotaina. Tem muito que ver com o clericalismo que sacraliza e enaltece os clérigos, que exalta a figura desencarnada de Maria Mãe e Virgem para assim humilhar a mulher de carne e osso, que impõe o celibato como estado mais perfeito e sagrado, que ‘sacrifica’ o sexo a troco de poder sagrado e hierárquico, que reprime e por isso exacerba a sexualidade. O clericalismo é um sistema patogénico. E, enquanto não se libertar dele, esta Igreja não será crível nem um lugar habitável, por mais liturgia penitencial que ostente.”
Entretanto, a Conferência Episcopal Alemã acaba de anunciar um debate interno sobre o celibato, o abuso de poder e a moral sexual na Igreja Católica, com base na Cimeira sobre a pederastia, há pouco realizada no Vaticano.
Padre e Professor

in DN 17.03.2019
https://www.dn.pt/edicao-do-dia/17-mar-2019/interior/seis-anos-depois-desafios-para-francisco-10687035.html?target=conteudo_fechado
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Que coisa são as nuvens
José Tolentino Mendonça

O CONHECIMENTO DA DOR
A CULTURA DOMINANTE FAZ DA DOENÇA, DA VELHICE, DA DEFICIÊNCIA E DO LIMITE UM COMPLETO TABU
O místico medieval Ricardo de São Vítor escreveu: “Onde há amor há um olhar.” Não raro, esse olhar que o amor nos pede acontece no contexto de um sofrimento que preferíamos absolutamente não viver, mas do qual aprendemos alguma coisa — e alguma coisa preciosa — a que sem ele não chegaríamos. O mundo da dor é vasto e bem mais próximo do que supomos. Quando menos pensamos, damos por nós a habitar o seu território. E os sentimentos que, então, nos sobrevêm são tantos: entramos em negação, em revolta, em depressão, em ressentimento; apetece-nos fugir para longe; perguntamo-nos: “porquê?”, “porquê a mim?”, “porquê agora?”; a impressão que temos é que tudo em nosso redor naufraga e nós também; sentimo-nos impreparados para essa empresa exigente. E, relativamente a este último ponto, temos razão. A cultura dominante faz da doença, da velhice, da deficiência e do limite um completo tabu. Persiste uma espécie de interdito a respeito da vida vulnerável: não se fala dela socialmente, cada um deve viver essas situações em estrita solidão, não nos ajudamos a aprofundar essa experiência como um recurso e não como uma fatalidade. Contudo, a verdadeira realidade é tão diferente do desenho traçado pelo egoísmo ou pelo medo. Escutava há dias um pai, falando do seu filho afetado pelo Síndrome de Down, e ele dizia, sem esconder a comoção: “Este meu filho é o membro mais importante da nossa família. É o nosso elo de união. Fez de nós pessoas diferentes, mais humanas e atentas aos outros. Ampliou a nossa capacidade de amar. O que recebemos dele não tem preço.” E, na mesma linha, ouvia de uma amiga que, tendo começado a viver independente dos pais muito cedo, lhe coube depois acompanhar a mãe numa velhice muito sofrida. A vida desta amiga mudou da noite para um dia. De repente, dava por si em trabalhos e preocupações completamente diferentes, em que a mãe era o centro. A princípio, ainda pensava naquilo que estava a perder com esta mudança, mas assumiu-a depois como uma oportunidade de se reencontrar com a vida. Não é que tivesse grandes conversas com a mãe. Passavam, sim, tempo juntas. Caminhavam devagar, de braço dado, nos longos corredores do hospital ou quando desciam ao parque, vizinho da sua casa, para olhar as flores. Massajava com creme a cara, as mãos, os pés da mãe todas as noites. Tinham mil ocasiões para dizer “amo-te” ou “obrigado pelo teu amor”.
Recordo a peça de teatro de Romeo Castellucci, intitulada “Sobre a Definição do Rosto do Filho de Deus”, que esteve em cena em Lisboa, há uns anos atrás. A peça propõe uma reflexão em torno de duas imagens, e a primeira é esta: um filho que trata do pai, de um pai idoso, com muitas limitações de saúde. É até, para os espectadores, uma coisa dura de ver, porque um dos problemas daquele pai é uma incontinência fecal. De maneira que o filho tem de estar sempre a limpá-lo. E muitas vezes nos parece que vai soçobrar, que já não será capaz, porque está sempre a acontecer a mesma coisa. Apercebemo-nos do seu esforço extremo: é extenuante amparar as necessidades de outro ser humano. Mas ao mesmo tempo, com que delicadeza, com que transparente amor aquele filho se debruça para o pai e o sustenta. E há um momento belíssimo no meio daquele combate interminável em que ambos são aliados: agarram-se um ao outro e, abraçados, choram. Pai e filho choram perante o irremediável da própria vida, sentindo que já não vão conseguir resolver nada senão amar-se, senão perdoar-se, senão acompanhar-se até ao fim. Por paradoxal que possa ser, um dia apercebemo-nos que poucas coisas no mundo são tão importantes como essa.
in Semanário Expresso, 16.03.2019
https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2420/html/revista-e/que-coisas-sao-as-nuvens/o-conhecimento-da-dor
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À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves
Domingo II da Quaresma
“Da nuvem saiu uma voz, que dizia:
«Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O”
Lc 9, 35

Mandar à frente o coração

Sempre os montes atraíram os homens para o alto. Mais perto do céu, mais horizonte a conhecer, melhor visão da planície onde a vida acontece, mais silêncio para contemplar: tudo pode atrair e convidar a uma caminhada. No ritmo mecânico e apressado em que a vida nos engole, fazer subir o pensamento e o coração para o silêncio e a luz, para ouvir e ver melhor, é desejo de muitos. É verdade que pode ser difícil a subida, mas talvez o segredo esteja na lição do velho alpinista: “Para subir uma montanha começo por mandar à frente, lá para o alto, o meu coração, e depois é fazer com que o corpo o siga!”
Por estes dias quaresmais há quem consiga fazer um tempo de retiro. Até o Papa Francisco celebrou o 6º aniversário do seu pontificado em retiro. Penso em tantos que gostariam tanto de uma pausa assim, com o sabor de subir ao monte como Jesus, Pedro, Tiago e João. Não para fugir da vida, mas para vê-la e abraçá-la de um modo novo. Para orar, como S. Lucas refere que foi a intenção de Jesus. Para escutar melhor o Filho amado, como o Pai pede aos discípulos antes da descida. Na impossibilidade de um retiro de alguns dias, e não tendo nenhum monte à mão, não seria possível “criar” alguns “oásis” de serenidade, contemplação e escuta por entre os dias tão cheios? Com poucas coisas ou nenhumas, para que o coração, às vezes, perdido no caminho nos volte a encontrar? Assim diziam os índios brasileiros ao P. José de Anchieta que os incitara a caminhar rápido para o interior do Brasil: “Agora temos de parar, porque viemos tão rápido que temos de esperar pelos nossos corações que ficaram para trás!”
Perante a transfiguração de Jesus, esse vislumbre antecipado da sua divindade, é curiosa a referência ao sono dos discípulos. Não são os mesmos que vão adormecer quando Jesus reza no Horto das Oliveiras, antes da sua prisão e Paixão? Será um sono de cansaço ou a dificuldade de aceitar a Páscoa com o que ela implica de entrega e amor até ao fim? É a sonolência de fecharmos os olhos à verdade, de anestesiarmos o coração ao “parece tudo bem”, de passar ao lado do que é importante? No monte despertam a tempo de entrar na nuvem, de sentir medo e ouvir a voz do Pai. No Horto, Jesus despertá-los-á a tempo de também entrarem na sua Páscoa. O que nos despertará de algum sono acumulado?
A tentação de “ficar no monte” é grande. Assistir à vida sem nos comprometermos, deixar acontecer sem procurar fazer melhor, ter a fé suficiente para uma vida religiosa “pura”, “perto de Deus”, mas distante dos homens, parecem aliciantes. Mas se verdadeiramente queremos “escutar o Filho”, é preciso descer, ir ao encontro dos outros, aceitar a fragilidade e o desamparo dos nossos gestos, descobrir a alegria de criar juntos, dar oportunidades à esperança. É verdade que precisamos de descansar um pouco melhor. E também podemos ser mais simples, mais amigos da verdade, mais pacíficos. Se não mandarmos à frente o coração, como sairemos do mesmo lugar?
in Voz da Verdade, 17.03.2019
http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=8032&cont_=ver2

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