30 junho 2019


P / INFO: Crónicas & En primicia el Papa en Televisa: “El mundo sin la mujer no funciona”. Entrevista del Papa Francisco con Valentina Alazraki para el medio de comunicación mexicano Televisa.
NOTA: Esta importante entrevista é muito longa pelo que optei por mandar em anexo
Frei Bento – Espiritualidade, mas que espiritualidade?
Padre Anselmo - Confissões do Papa Francisco. 1 
Padre Tolentino - A cicatriz
Padre Vítor – Caminho novo
ESPIRITUALIDADE, MAS QUE ESPIRITUALIDADE?
Frei Bento Domingues, O.P.
Quem anuncia um curso de teologia não pode esperar grande adesão, mas se propõe um curso sobre uma espiritualidade desconhecida terá aos seus pés um mundo de curiosos de todas as novidades esotéricas.
1. Será verdade que, no Ocidente, as religiões com os seus dogmas, catecismos, normas morais, esgotaram o prestígio que lhes atribuíram ao longo dos séculos? Ou será apenas a violência, em nome de Deus, que as desacreditou? Seja como for, a religião ganhou às religiões, a religiosidade ganhou à religião, a espiritualidade parece ganhar à religiosidade. O mercado das espiritualidades ganhou ao das religiões a la carte. As espiritualidades e sabedorias do Oriente tiveram um acolhimento inesperado no Ocidente. Mesmo no campo católico, repete-se que o século XXI ou se torna místico ou está perdido.
Quem anuncia um curso de teologia não pode esperar grande adesão, mas se propõe um curso sobre uma espiritualidade desconhecida, e quanto mais desconhecida melhor, terá aos seus pés um mundo de curiosos de todas as novidades esotéricas.
Existem sabedorias e espiritualidades que não estão ligadas a nenhuma confissão religiosa, mas constituem campos de busca de sentido existencial.
Este Papa encerrou uma época, muito recente, confiada aos Prefeitos da Congregação para a Doutrina da Fé, perfeitos em silenciar a liberdade no seio da Igreja.
Ele próprio não tem boas recordações da teologia que teve de frequentar como estudante, uma teologia de manuais, onde estavam previstas e congeladas as teses, as perguntas e as respostas. Desde a Alegria do Evangelho que sonha com «Faculdades de Teologia onde se viva a convivialidade das diferenças, onde se pratique uma teologia do diálogo e do acolhimento; onde se experimente o modelo do poliedro do saber teológico, em vez de uma esfera estática e desencarnada. Onde a investigação teológica seja capaz de se comprometer com um cativante processo de inculturação».
Está convencido que tanto «os bons teólogos, como os bons pastores, têm o cheiro do povo e da estrada e, com a sua reflexão, derramam óleo e vinho sobre as feridas dos homens». Para ele, a teologia deve ser «a expressão de uma Igreja que é um “hospital de campanha”, que vive a sua missão de salvação e de cura no mundo! A misericórdia não é só uma atitude pastoral, é a própria substância do Evangelho de Jesus».
2. O Papa Francisco incita os professores de teologia a que a centralidade da misericórdia se exprima nas várias disciplinas: na dogmática, na moral, na espiritualidade, no direito e assim por diante. «Sem misericórdia, a nossa teologia, o nosso direito, a nossa pastoral, correm o risco de se afundarem na mesquinhez burocrática ou na ideologia que, por natureza, quer domesticar o mistério».
Defende uma teologia do acolhimento que desenvolva «um diálogo sincero com as instituições sociais e civis, com os centros universitários e de investigação, com os líderes religiosos e com todas as mulheres e homens de boa vontade». A construção na paz de uma sociedade inclusiva e fraterna, assim como a protecção da criação, exige a colaboração de todos.
Está convencido de que este modo de proceder dialógico é a via para chegar até onde se formam os paradigmas, os modos de sentir, os símbolos, as representações das pessoas e dos povos. Importa «chegar até esse ponto – como “etnógrafos espirituais” da alma do povo, digamos assim – para poder dialogar em profundidade e, se possível, contribuir para o seu desenvolvimento». É fruto do anúncio do Evangelho do Reino de Deus o amadurecimento de uma fraternidade cada vez mais dilatada e inclusiva.
Nada disto é possível sem liberdade teológica. «Sem a possibilidade de experimentar estradas novas, não se cria nada de novo, e não se dá espaço à novidade do Espírito do Ressuscitado». A quem sonha com uma doutrina monolítica a ser defendida por todos, sem nuances, isto não lhe sabe bem. No entanto, é «essa variedade que ajuda a manifestar e a desenvolver melhor os diversos aspectos da riqueza inesgotável do Evangelho[1]». Para conseguir este objectivo, é preciso uma revisão adequada da ratio studiorum.
Sobre a liberdade de reflexão, o Papa observa: entre os estudiosos, é preciso avançar com liberdade; depois, em última instância, será o magistério a dizer alguma coisa, mas não se pode fazer uma teologia sem esta liberdade. Na pregação ao Povo de Deus, porém, não se deve ferir a sua fé com questões disputadas. Estas que fiquem entre os teólogos. É a sua tarefa. Ao Povo de Deus é preciso dar a substância que alimente a fé e que não a relativize.
O Papa não está a embarcar numa onda de espiritualismo fácil. Sublinha, pelo contrário, que o “discernimento espiritual” não exclui os contributos de sabedorias humanas, existenciais, psicológicas, sociológicas ou morais, mas transcende-as. «Nem sequer bastam as normas sábias da Igreja. Lembremo-nos sempre de que o discernimento é uma graça. Em suma, o discernimento leva à própria fonte da vida que não morre, isto é, conhecer o Pai, o único Deus verdadeiro, e a quem Ele enviou, Jesus Cristo[2]».
Uma teologia tão alerta só pode gerar uma espiritualidade de olhos bem abertos.
3. A dimensão espiritual, afirmada ou negada, está presente em todas as situações da vida. Como escreve o poeta Carlos Drummond de Andrade: Para isso fomos feitos/ para lembrar e ser lembrados/ para chorar e fazer chorar/ para enterrar os nossos mortos/ para isso temos braços longos para os adeuses/ mãos para colher o que foi dado/ dedos para cavar a terra/ (…) Fomos feitos para a esperança do milagre/ para a participação da poesia/ para ver a face da morte/ de repente nunca mais esperaremos/ hoje a noite é jovem; da morte/ apenas nascemos, imensamente.
Parece que os poetas não acreditam que a vida será regida apenas por super-computadores electrónicos[3]. Também não espero que um dia vá surgir, como pensava Jean Rostand, pílulas (tão obrigatórias como aprender a ler) destinadas a moderar a inveja, a dominar a ambição, a reduzir o desejo de poder, da força, da violência, de predomínio (as verdadeiras calamidades históricas) impondo aos seres humanos um sentido universal de solidariedade.
Isto seria um milagre: o homem tornar-se-ia humano através de um equilíbrio biológico sabiamente conseguido pela química[4]. Mas que teria isso a ver com um ser humano?
in Público 30.06.2019
https://www.publico.pt/2019/06/30/sociedade/opiniao/espiritualidade-espiritualidade-1878053


[1] Evangelii gaudium, 40
[2] Gaudete et exsultate, 170; para todas as questões, desta crónica, relativas à teologia, ver: Papa Francisco, na Pontifícia Faculdade de Teologia da Itália Meridional, Nápoles, 21.6.2019.
[3] São cada vez mais espantosos os benefícios da inteligência artificial, assim como as esperanças e os receios que semeiam. Cf. Arlindo Oliveira, Inteligência artificial, Fund. Francisco Manuel dos Santos, 2019. Ainda não conheço os poemas dessa famosa inteligência.
[4] Cf. Chianca de Garcia, Cartas do Brasil, Edição O Independente, Lisboa, 2004, 19. 23. 132-133

● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●
Confissões do Papa Francisco. 1
Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

1. “O que está em crise são estruturas que formam a Igreja, que têm de cair. Sejamos conscientes. O Estado da Cidade do Vaticano como forma de governo, a Cúria, seja o que for, é a última corte europeia de uma monarquia absoluta. A última. As outras já são monarquias constitucionais, a corte dilui-se, mas aqui há estruturas de corte que são o que tem de cair.” “A reforma não é minha. Foram os cardeais que a pediram”, quando se debatia a sucessão de Bento XVI.
Quem disse isto foi o Papa Francisco numa extensa entrevista à jornalista Valentina Alazraki, de Noticieros Televisa, México. Os temas debatidos, num imenso à-vontade, mesmo quando difíceis e até escaldantes, foram muitos.
2. O que aí fica quer ser um brevíssimo resumo desse longo diálogo leal, onde não faltou o bom humor.
2. 1. Um tema constante nas preocupações de Francisco: os migrantes e refugiados. Não se pode pretender resolver os problemas erguendo muros, como se “essa fosse a defesa. A defesa é o diálogo, o crescimento, o acolhimento e a educação, a integração ou o limite saudável do ‘não é possível acolher  mais’, saudável e humano.” Referindo-se a Trump, disse: “Pode-se defender o território com uma ponte, não com um muro.”
2. 2. Algo não funciona em relação à economia, que se tornou sobretudo economia da especulação financeira: “Já saímos do mundo da economia, estamos no mundo das finanças. Onde as finanças são gasosas. O concreto da riqueza num mundo de finanças é mínimo.” Então, o mal-estar provém desta constatação: “Cada vez há menos ricos, menos ricos com a maior parte da riqueza do mundo. E cada vez há mais pobres com menos do mínimo para viver.”
Francisco pronuncia-se contra uma economia neoliberal de mercado. É favorável a “uma economia social de mercado”.
Aqui, eu acrescentaria: economia social e ecológica de mercado e chamaria a atenção para as tremendas, se não insuperáveis, dificuldades para impô-la, apesar da sua urgência em ordem à sobrevivência. Porquê? Num mundo globalizado, os mercados são globais, mas a política é nacional ou regional. Nesta situação, onde estão as instâncias de regulação dos mercados? Francisco sabe disso e, por isso, acrescenta que é necessário “procurar saídas políticas, eu não as sei dizer, porque não sou político. Não tenho esse ofício. Mas a política é criativa. Não nos esqueçamos que é uma das formas mais altas da caridade, do amor, do amor social.”
Em conexão e interdependência com este mal-estar global da economia está “o maltrato do ambiente”. Francisco tem sido incansável no apelo a uma nova política para a salvaguarda do ambiente, se quisermos ter futuro. E até pergunta: será que ainda vamos a tempo de salvar “a nossa casa comum”? Sobre a ameaça do colapso ecológico, escreveu uma encíclica, Laudato Sí,  que fica para a História como decisiva, propugnando o que chamou justamente “uma ecologia integral”. Neste sentido, o Vaticano acaba de avançar com uma iniciativa ecuménica global de oração e de acção precisamente em ordem à protecção desta nossa casa comum: durante um mês, de 1 de Setembro a 4 de Outubro, chamado o mês do “Tempo da Criação”, os cristãos de todo o mundo são convocados para pôr em prática a Laudato Sí.
2. 3. Sobre o narcotráfico: “É como se eu, para ajudar a evangelização de um país, fizesse um pacto com o diabo..., ou seja, há pactos que não se podem fazer.”
2. 4. Os jovens? “Os jovens não estão corrompidos. Estão debilitados.” “A juventude corre o risco de, se é que o não fez já, perder as raízes.” E cita Zygmund Bauman, num livro escrito em italiano com um seu assistente italiano, com o título: Nati liquidi, nascidos líquidos, isto é, sem consistência. No alemão apareceu com o título: Die Entwurzelten, os desenraizados, os sem raízes. “Os alemães perceberam a mensagem do livro. Isso é muito importante hoje: ir às raízes”, o que nada tem a ver com “ideologia conservadora.” “Assumir as raízes normais, as raízes da tua casa, as raízes da tua pátria, da tua cidade, da tua história, do teu povo..., de ... mil coisas.” Por isso, acrescenta: “Eu aconselho sempre os jovens a falar com os velhos e os velhos a falar com os jovens, porque... uma árvore não pode crescer, se lhe cortarmos as raízes, como também não cresce, se ficarem só as raízes.”
2. 5. As mulheres? Reconhece que a mulher “está ainda em segundo lugar... em segundo lugar.” Mas “sem a mulher, o mundo não funciona. Não por ser ela que gera os filhos, deixemos a procriação de lado... Uma casa sem a mulher não funciona.” Há uma palavra que está a desaparecer dos dicionários, porque “todos têm medo dela: ternura. É património da mulher. Daí ao feminicídio, à escravidão, vai um passo, não? Qual é o ódio, eu não saberia explicar. Talvez algum antropólogo o possa fazer.”
Aqui, o Papa Francisco que me desculpe, mas vou fazer um reparo. E na Igreja? Ele vai repetindo que “a Igreja é feminina” e já na viagem ao Brasil avisou: “Se a Igreja perde as mulheres, na sua dimensão total e real, corre o risco de se tornar estéril.” Então, porquê tanta hesitação em ordenar as mulheres como diáconos? Esse seria um primeiro passo da abertura que se impõe.
Francisco insiste na Igreja sinodal e essa ordenação deverá, tudo indica, acontecer já na sequência do próximo Sínodo para a Amazónia, em Outubro.
2. 6. Sobre os escândalos da pedofilia na Igreja. Aqui, Francisco reconhece que também se equivoca. Equivocou-se nomeadamente no que à questão da pedofilia no Chile se refere. E foram concretamente perguntas dos jornalistas, “feitas com muita educação” no regresso da viagem ao Chile,  que o fizeram perceber que a informação que tinha não era verdadeira. Estava mal informado. E não exclui que tenha havido corrupção na informação prestada: “Nem sempre é corrupção assim... por vezes é estilo da Cúria — sim, no fundo há uma lei de corrupção —, mas é um estilo que é preciso ajudar a corrigir.”
Concretamente quanto ao cardeal McCarrick, a quem acabou por retirar o cardinalato e reduzir ao estado laical, confessa: “De Mc Carrick eu não sabia nada, obviamente, nada, nada.” “O cardeal Pell obviamente que está preso e está condenado, apelou, mas está condenado. O cardeal Errázuriz já não podia continuar, era óbvio”. Conclusão: o grupo de cardeais consultores começou por ser constituído por nove e agora são seis. Quanto às acusações que o ex-Núncio Viganò lhe fez, respondeu, explicando o seu silêncio na altura: “Eu confio na honestidade dos jornalistas e disse-vos: ‘Estudai vós a questão e tirai as conclusões.’ E o trabalho que fizestes foi genial, e três ou quatro meses depois um juiz de Milão condenou-o.”
Mas, indo ao cerne dessa chaga que é a pedofilia na Igreja, concluiu que, com as medidas concretas que estão a ser tomadas, a “tolerância zero” é mesmo para implementar, salvaguardando também o princípio da presunção de inocência: “A tarefa do padre é levar o jovem a Jesus. Com os abusos, sepulta-o. Essa é a grande monstruosidade. Que é mais grave que tudo o resto.” Mas não se pode ignorar os números aterradores de casos de pedofilia no mundo, a maior parte na família, também entre educadores, no desporto, etc., que apresentou no discurso final da Cimeira no Vaticano contra os abusos na Igreja, em Fevereiro passado. “Evidentemente, a percentagem de sacerdotes que caíram nisto faz parte do todo, uma corrupção mundial na pedofilia, é de terror... E por isso quis que todos tivessem as estatísticas da Unicef, das Nações Unidas, as mais sérias, as estatísticas sérias.” “Seria importante aqui referir os dados gerais — na minha opinião, sempre parciais — a nível global e a seguir a nível da Europa, da Ásia, das Américas, da África e da Oceânia, para dar um quadro da gravidade e profundidade deste flagelo nas nossas sociedades. A primeira verdade que resulta dos dados disponíveis é esta: quem comete os abusos, ou seja, as violências (físicas, sexuais ou emocionais) são sobretudo os pais, os parentes, os maridos de esposas-meninas, os treinadores e os educadores. Além disso, segundo os dados Unicef de 2017, relativos a 28 países no mundo, em cada 10 meninas-adolescentes que tiveram relações sexuais forçadas, 9 revelam que foram vítimas de uma pessoa conhecida ou próxima da família.” Um número aterrador, a título de exemplo, no nível global: “Em 2017, a OMS estimou em mil milhões os menores com idade entre os 2 e os 17 anos que sofreram violências ou negligências físicas, emocionais ou sexuais.” (Continua)
in DN, 30.06.2019
https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/confissoes-do-papa-francisco-1-11061377.html 
● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●
QUE COISA SÃO AS NUVENS
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
A Cicatriz
HÁ COISAS QUE SABEMOS QUE NOS DISTINGUEM E DISTINGUIRÃO COMO HUMANOS
Vi estes dias uma fotografia que me comoveu. Conta um episódio simples de uma família simples, do norte de Inglaterra. A fotografia mostra Martin Watts e o seu filho Joey, um miúdo de seis anos de idade, que teve recentemente de passar por uma complexa cirurgia cardíaca. Essa operação deixou no peito da criança uma cicatriz que mede bem um palmo. Quando a viu pela primeira vez, Joey perguntou aos pais se tinha sido ali que o cortaram para lhe consertarem o coração. Os pais explicaram que ele não devia ter medo, que ele era um pequeno grande lutador, que sentiam um orgulho enorme da sua bravura, e que aquela cicatriz simbolizava isso tudo. Mas, mesmo ao mais corajoso lutador, é difícil transportar as próprias feridas, e aos seis anos de idade os olhos desamparados de Joey gritavam isso. Poucos dias depois, Martin Watts — com a cumplicidade da mulher — decide fazer uma coisa que nunca lhe passara pela cabeça: uma tatuagem. Tatuaria no peito o desenho de uma cicatriz, idêntica à do filho. E, de facto, a tatuagem realizada reproduz, com grande realismo, o longo talho vertical avermelhado, em dupla costura, como se pode ver na fotografia em que ambos posam. Nela, o pai abraça o jovem filho convalescente, e o sorriso de um sustenta, protege e expande o sorriso do outro. O amor distingue-se por esta voluntária e interminável capacidade de tornar menos solitários os pesos, os golpes, os contratempos e as feridas com que a vida, em nós, se expressa. E, num tempo como o nosso, em que parece crescer uma incerteza em relação ao humano, e se debatem — como se fossem de todo indefinidas — a natureza e as fronteiras da nossa humanidade, é importante atender à irremovível verdade dos gestos elementares de amor que nos fundam para colhermos o significado disto que somos.
O amor distingue-se por esta capacidade de tornar menos solitários os pesos, os golpes e as feridas com que a vida, em nós, se expressa
Hoje, por exemplo, convivemos e interagimos com muitas máquinas: desde os velhos frigoríficos, aos computadores, aos telemóveis, às máquinas de multibanco, às portas automáticas ou aos drones. Existe um aparato tecnológico imenso integrado nos nossos quotidianos. Mas há um passo próximo, cada vez mais vizinho, que ocorrerá quando as máquinas forem programadas para interagir com os humanos pretensamente do mesmo modo como nós humanos nos relacionamos uns com os outros. Num jargão que força para se tornar língua comum, começa a falar-se dos robôs como “seres viventes não-biológicos” e avança-se experimentalmente para a chamada “robótica social”, com a reivindicação de que esta se desloque do âmbito da engenharia para o campo específico da sociabilidade humana. Não é preciso ser um especialista para perceber que há uma montanha de questões éticas a enfrentar. Mas é curioso como a “nova ecologia social mista” tenta dirimir as dúvidas fundamentais que qualquer um de nós se coloca. A começar por saber se é aceitável confiar pessoas em situação de vulnerabilidade — como crianças, idosos ou doentes — aos cuidados destes “agentes artificiais”, projetados não só para desempenhar meras ações técnicas, mas para criar também uma dependência emocional e afetiva de substituição. Os mais entusiastas falam de uma “empatia artificial”, argumentando que é certo que não se pode pedir (ainda) à máquina que tenha emoções, mas pode-se esperar que o agente artificial registe as emoções do seu interlocutor humano e adeqúe positivamente a sua resposta.

Diz-se que a última frase escrita por Fernando Pessoa terá sido: “I know not what tomorrow will bring.” Nesta encruzilhada epocal, todos podemos dizer o mesmo. Mas há coisas que sabemos que nos distinguem e distinguirão como humanos. Entre elas está a arte de reparar através do amor as cicatrizes mais irreparáveis.
in Semanário Expresso, 29.06.2019 p 160
https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2435/html/_index?p=/semanario/semanario2435/html
● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●
À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves
DOMINGO XIII COMUM Ano C
“As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos;
mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.”
Lc 9, 58
Caminho novo
Conheço cada vez mais pessoas que gostam de caminhar. Porque o médico recomendou, porque é bom fazer exercício físico, porque gostam de descobrir novas paisagens, porque saboreiam o silêncio e abrem os ouvidos para outros sons, porque caminham com outros, porque têm uma meta ou um santuário a alcançar. Há tantos caminhos quanto caminhantes. E cada caminho reclama despojamento, coragem e confiança. Pois quem procura comodidade e segurança, pode até viajar muito mas chegará sempre ao mesmo lugar.
Os evangelhos apresentam-nos Jesus sempre em caminho. Ao chamar os discípulos para “andarem com Ele” imaginariam eles as distâncias que iriam percorrer? Distâncias percorridas com os pés, e outras ainda maiores com a mente e o coração, no conhecimento de Deus e do seu projecto de amor. Nos encontros que tem com pecadores e doentes, pela palavra e pelos milagres, Jesus nunca ninguém deixa na mesma: “vai”, “levanta-te”; há sempre um futuro mais à frente e é preciso caminhar para ele. No caminho para Jerusalém, que ocupa grande parte do evangelho de S. Lucas, os discípulos aprendem lições fundamentais. Que serão para todos os que O quiserem seguir, ao longo dos tempos.
Nenhum caminho está feito à partida. Ainda que haja estradas ou trilhos, são os nossos passos, as pequenas e grandes escolhas de cada um e de cada comunidade que importam. Por isso, a decisão de partir é fundamental. Sabendo que haverá reais dificuldades. Umas por dentro: fadiga, desencanto, saudade do que se deixou. Outras por fora: rejeição, indiferença, perseguição. Logo na primeira etapa os discípulos descobrem que a rejeição acompanha Cristo e o Evangelho: uma aldeia de samaritanos recusa acolhê-los. Não será a violência o sinal dos seguidores de Cristo, mas a humildade.
Os três encontros de Jesus com “candidatos a discípulos” são também desconcertantes. Dois oferecem-se e um é chamado. Ao primeiro, Jesus aponta a confiança no Pai como condição fundamental para O seguir. Toda a instalação, pessoal e comunitária, tende a atrofiar as pernas e os sonhos. E acaba por aprisionar o pensamento, justificar rotinas vazias, limitar os horizontes. Mais do que as raposas e as aves, que nos parecem tão livres, somos chamados a uma liberdade maior. Ao segundo, Jesus propõe o novo sentido da vida que se liberta da morte. Não para desprezar o cuidado por quem faleceu, mas para não ficar preso a um luto que não vê mais além. O amor é a chave que abre um novo caminho. Ao terceiro, Jesus propõe a urgência do desapego. Olhar para trás quando se ara um terreno só produzirá linhas tortas.
Com Jesus percorremos sempre um caminho novo. De trás trazemos sabedoria. Haverá lugar na mente e no coração para o que vamos encontrar pela frente?

in Voz da verdade, 30.06.2019
http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=8281&cont_=ver2

● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●
En primicia el Papa en Televisa: “El mundo sin la mujer no funciona”
Entrevista del Papa Francisco con Valentina Alazraki para el medio de comunicación mexicano Televisa.

Algunos de los asuntos tratados: feminicidio, migraciones, el muro de Trump entre Estados Unidos y México, narcotráfico y abusos por parte de clérigos.

P: Papa Francisco, antes que nada, gracias. Sabemos que el presidente Andrés Manuel López Obrador lo invitó a México, tengo entendido de que no va a ir…
R: Por el momento no…
P: Pero que le ha dicho que con gusto le recibiría…
R: Es verdad. Por el momento tengo que ir a otros lados donde no he ido. Pero me gustaría volver a México, es inolvidable, México.
P: Bueno, usted fue…  en su viaje a México, usted tocó yo creo que realmente los puntos neurálgicos del país ¿no? Estuvo en la frontera norte, y celebró esa misa memorable frente al muro. Desafortunadamente Papa Francisco, en estos cuatro años la situación no ha mejorado nada…  Se sigue hablando de construir más muro, incluso de cerrar la frontera. Hemos visto imágenes desgarradoras de niños separados de sus familias, de sus papás, no sé si usted ha visto esas fotos, esos vídeos, son impresionantes. Yo no sé, me parece algo terrible y que no es digno de nuestros tiempos…
R: Si. Yo no sé qué sucede cuando entra esta nueva cultura de defender territorios haciendo muro ¿no? Ya conocimos uno, el de Berlín, que bastantes dolores de cabeza nos trajo y bastante sufrimiento…   Pero parece que lo que hace el hombre es lo que no hacen los animales ¿no? El hombre es el único animal que cae dos veces en el mismo hoyo ¿no? Volvemos a lo mismo ¿no? El levantar muros como si esa fuera la defensa ¿no? Cuando la defensa es el dialogo, el crecimiento, la acogida y la educación, la integración, o el sano límite del “no se puede más”, pero humano...  En esto no me refiero solo al límite de México, hablo de todas las barreras que hay. Me referí así, en una entrevista no hace mucho, a lo que hay en Ceuta y Melilla es terrible, con las concertinas. Después el gobierno las mando a sacar ¿no?… pero es cruel, es cruel. Y separar a los chicos de los padres va contra el derecho natural, y esos cristianos… no lo pueden ser tampoco. Es cruel. Se cae en la crueldad más grande.  Para defender ¿qué? El territorio, o la economía del país o vaya a saber qué ¿no? Pero son esquemas de pensamiento que se vuelcan al quehacer político, y hacen una política de ese tipo ¿no? Es muy triste ¿no?
P: Si en lugar de estar yo aquí, que usted me conoce, estuviera sentado el presidente Trump, y no hubiera cámaras, ¿qué le diría?
R: Lo mismo. Lo mismo, porque esto lo digo en público ¡eh! Lo he dicho en público. También dije en público que quien construye muros termina prisionero de los muros que construye...
https://www.vaticannews.va/es/papa/news/2019-05/papa-francisco-entrevista-televisa-mexico-migrantes-feminicidio.html

http://nsi-pt.blogspot.com
https://twitter.com/nsi_pt
http://www.facebook.com/nossomosigreja
www.we-are-church.org/

Sem comentários:

Enviar um comentário