24 março 2019


Deus não sabia o seu nome?, de Frei Bento, Uma Quaresma para o mundo, do P. Anselmo, O humor do Cardeal, do P. Tolentino e Fazer a diferença, do P. Vitor  Gonçalves

DEUS NÃO SABIA O SEU NOME?
Frei Bento Domingues, O.P.

1. Se Deus fala, é porque tem boca e diz coisas com sentido. Se tem boca, tem de ter um rosto. Se tem um rosto, tem uma cabeça. Quem já viu essa boca a pronunciar palavras? Numa reunião de catequese, a catequista viu-se surpreendida com essa pergunta de uma criança, já não tão criança. Ela própria ficou tão embaraçada que lhe disse: ó menina, isso não é pergunta que se faça, é uma maneira de dizer. A criança insistiu: mas Deus fala ou não fala?
No ambiente litúrgico e catequético, e até na linguagem corrente, os líderes das comunidades cristãs não se dão conta, pelo hábito de falar sem se explicarem, dando por sabido o que nem eles sabem, de que estão a preparar pessoas para confessar um credo e praticar rituais, mas sem a mínima inteligência do que dizem e fazem. Com o tempo, estão a preparar descrentes.
Já na Idade Média, Tomás de Aquino afirmava que, quando se pretende levar alguém à inteligência da raiz da verdade que confessa, tem muito que investigar para responder à pergunta: como é que é verdade aquilo que confessas ser verdade? Não basta recorrer a argumentos de autoridade. Nesse caso, o ouvinte fica sem ciência nenhuma e vai-se embora de cabeça vazia. Não é boa recomendação a fé ignorante.
No âmbito religioso, estamos tão habituados a um certo uso da linguagem que julgamos estar sempre perante comunidades que merecem o elogio de S. Paulo: «tendo recebido a palavra de Deus, que nós vos anunciámos, vós a acolhestes não como palavra de seres humanos, mas como ela é verdadeiramente: palavra de Deus, a qual também actua em vós que acreditais» .
A criança a que nos referimos diria ao apóstolo: e como é que sabes que é palavra de Deus, se todas essas palavras são humanas, criadas por seres humanos?
Responder que, na Bíblia, o uso de gestos simbólicos, de parábolas e de metáforas, é a forma de dizer o indizível não basta, pois, se é indizível porque é andam sempre a esforçar-se por dizer? Mas cuidado, esse é o belo ofício dos poetas.
Estamos perante um tema imenso, mas não nos podemos esquecer que Jesus também não confiou no amontoado de explicações dos sábios e entendidos que deixavam nas trevas os que mais precisavam de uma nova luz. Como filho de Deus, agradece o advento de uma nova época que varre séculos e séculos de ignorância, como já disse numa destas crónicas . O que importa é libertar a catequese, as homilias, a teologia de rotinas que impedem a alegria do Evangelho para os dias de hoje, isto é, nas mudanças culturais. 
2. A liturgia de hoje oferece um dos textos bíblicos que mais tem dado que falar em todos os tempos . O cenário é de uma experiência do sagrado, do intocável, do tremendo e fascinante .
Moisés quer aproximar-se de um espectáculo que o atrai, mas há uma voz que lhe diz: não te aproximes. Tira as sandálias dos pés porque o lugar que pisas é terra sagrada. E acrescentou, eu sou o Deus dos teus pais, Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob. Com o receio de olhar para Deus, Moisés cobriu o rosto.
Mas Deus olhou para o povo oprimido e manifestou a Moisés as suas intenções libertadoras. No final, Moisés quer saber mais do que lhe está a ser comunicado e atreve-se: Eis que eu vou ter com os filhos de Israel e digo-lhes: o Deus dos vossos pais enviou-me a vós. Eles dir-me-ão: qual é o nome dele? Que lhes direi eu?
Resposta de Deus: Eu sou aquele que sou, yhwh (Iavé). Assim dirás aos filhos de Israel: Eu sou enviou-me a vós!
De facto, as frases, Eu sou aquele que sou (‘ehyeh ‘axer ‘ehyeh) e Eu sou (‘ehyeh) são explicações etimológicas do tetragrama, yhwh. O verbo ‘ehyeh, ser/estar, tanto pode ser dito no presente como no futuro (eu sou-serei/eu estou-estarei).
Usado mais de 6800 vezes no AT, YHWH (Iavé), o chamado tetragrama (literalmente, quatro letras), é o mais frequente nome próprio do Deus Bíblico e está documentado em várias inscrições extra-bíblicas.
Como escreveu o grande exegeta, Francolino J. Gonçalves , judeus e cristãos crêem que as suas respectivas sagradas Escrituras são palavra de Deus. Os próprios muçulmanos reconhecem a origem divina das ditas Escrituras. Para o leitor que não usa o projector da fé, porque não o tem ou não se serve dele, Deus não é o único locutor na Bíblia. No entanto, é o seu protagonista. Deus desempenha na Bíblia um papel incomparavelmente mais importante do que qualquer uma outra das numerosíssimas personagens humanas. É sujeito de muitos discursos e objecto ou destinatário de muitos outros. É um dos narradores e, com muito mais frequência, objecto das narrativas.
Se, de facto, Deus fala na Bíblia de uma ponta a outra, só pode fazê-lo pela boca das pessoas humanas que nela intervêm, falando todas elas, explícita ou implicitamente, em seu nome. Para os leitores crentes, há uma sinergia entre Deus e os locutores humanos. A Bíblia é ao mesmo tempo palavra divina e palavra humana ou, melhor dito, palavra divina em palavras humanas. Nela está em acção o princípio da encarnação, que culmina no Verbo de Deus feito homem. Para os crentes, a Bíblia não é só palavra de Deus, mas também palavra sobre Deus. Directa ou indirectamente, ela fala de Deus de uma ponta a outra. Em geral, não fala de Deus por si mesmo, mas em relação com a criação e/ou com o seu povo.
3. Quando se diz, como no título desta crónica, Deus não sabia o seu nome, não é fazer dele um ignorante. Em certas culturas, conhecer o nome é tomar posse de uma pessoa, de um animal ou de uma coisa. Tive um professor de exegese que era alérgico à metafísica elaborada a partir da Bíblia. Não gostava nada de ouvir falar de metafísica sagrada do Êxodo, incluída na expressão, Eu sou.
A resposta que Moisés recebeu é uma forma de afirmação da transcendência divina. Deus não cabe em conceitos, em representações que, facilmente, resvalam para a idolatria e, por seu lado, a linguagem simbólica não diz, sugere. O célebre Mestre Eckhart rezava: Deus livra-me de Deus, de representações que pretendem substituí-lo. Outros místicos falam de Deus como nuvem luminosa, a luz misteriosa do mundo.
O Deus da Bíblia não é o Deus do silêncio nem o Deus das definições, mas precisamos de muito silêncio para O escutar nas suas mil vozes.

in Público, 24. 03. 2019
https://www.publico.pt/2019/03/24/sociedade/opiniao/deus-nao-sabia-nome-1866332
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Uma Quaresma para o mundo
Anselmo Borges
Padre e Professor de Filosofia 

1. Uma ilustre Catedrática da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto entrou em contacto comigo, porque queria saber algo sobre a relação entre o jejum e a espiritualidade.
Lembrei-me então de que estamos na Quaresma. Ela é mais para os católicos, que durante 40 dias se preparam, pelo menos, deveriam fazê-lo, para a festa que constitui o centro do cristianismo, a Páscoa.  De qualquer forma, animam-na ou devem animá-la valores que são universais, de tal modo que poderíamos fazer a pergunta: Como seria o mundo, se tivesse anualmente a sua Quaresma, tendo na sua base esses valores: jejum, abstinência, oração, silêncio, esmola, sacrifício, conversão?
2. O que se segue é uma breve reflexão que tenta responder a esta pergunta. Começando pela urgência de um retiro. De facto, a Quaresma refere-se aos 40 anos que os judeus passaram no deserto a caminho da Terra Prometida e aos 40 dias que Jesus esteve no deserto, em retiro, preparando-se para a sua vida pública, na qual o centro seria a proclamação, por palavras e obras, do Evangelho, a mensagem da salvação de Deus para todos os homens e mulheres.
Aí está: retirar-se para meditar e reflectir. O que mais falta faz hoje. Quem se retira para fora do barulho e da confusão do mundo, para meditar e reflectir, ir mais fundo e mais longe, ao essencial? O sentido dos 40 anos e dos 40 dias: a libertação da opressão e da escravidão, a caminho da liberdade e, consequentemente, da dignidade. Para a felicidade, evidentemente.
Neste contexto, os valores da Quaresma.
2. 1. Aí está o jejum. Diz o Evangelho que Jesus jejuou durante 40 dias e 40 noites e teve fome. O diabo — é uma maneira de figurar a tentação — tentou-o. Jesus respondeu-lhe: “Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que vem de Deus”.
Jejum e espiritualidade? Quem é que, andando em permanentes comezainas e bebedeiras, se vai sentar para meditar e continuar a escrever ou de outro modo qualquer realizar uma obra, entregar-se às coisas do espírito? São Paulo preveniu, na Carta aos Filipenses, contra aqueles cujo “fim é a perdição, o seu Deus é o ventre e gloriam-se da sua vergonha”. E alerta contra os beberrões e a sua degradação.
Mas o jejum não tem que ver apenas com a temperança no comer e no beber. Tem de haver jejum de tanta vaidade ridícula, jejum de tanta insensatez falaz, de tanta cobardia envergonhada, de tanta voracidade egoísta... Ao jejum está ligada a abstinência, que não é só da carne. É preciso abster-se da injustiça, das mentiras, dos interesses partidários e pessoais colocados acima dos interesses do bem comum, abster-se das medidas e dos programas político-partidários eleitoralistas com promessas que se sabe não vão ser cumpridas, de programas televisivos sem sentido e deletérios que degradam nomeadamente a mulher. E aí está uma das contradições brutais do nosso tempo, por causa das audiências e, em última análise, da idolatrização do deus Dinheiro: por um lado, e bem, há toda uma campanha para defender a mulher, mas, por outro lado, ela é humilhada concretamente nesses programas...
 Abster-se da corrupção... O Papa Francisco acaba de pedir uma “política sã”, alertando contra a corrupção: “A corrupção degrada a dignidade do indivíduo e destrói todos os ideais bons e belos. Com a ânsia de lucros rápidos e fáceis, na realidade empobrece a todos, minando a confiança, a transparência e a fiabilidade de todo o sistema”. A receita: “transparência e honestidade” para reconstruir “a relação de confiança entre o cidadão e as instituições, cuja dissolução é uma das manifestações mais sérias da crise da democracia.”
Hoje, sabemos que o jejum e a abstinência contribuem em grande medida para a saúde e até para a beleza. Quanto à espiritualidade, não há dúvida. Significativamente, a sabedoria de todas as religiões esteve sempre aberta ao jejum sadio.
2. 2. A oração. Para colocar o ser humano em contacto com o Mistério último da realidade e da vida. Dialogar com o mais fundo da Vida. Estar ligado ao Fundamento, à Fonte, ao Sentido último. Para se não perder na dispersão, completamente desorientado, desorientada, sem referências, perigo maior do nosso tempo.
2. 3. Mas a oração e o que é essencial exigem o salto para fora do barulho ensurdecedor. Que se faça silêncio. Num tempo em que se é invadido e esmagado pelo tsunami das informações, entrando no mundo caótico da dispersão e da fragmentação, da “agitação paralisante e da paralisia agitante”, segundo a expressão do famoso bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, é urgente parar, fazer pausa. Para ouvir o silêncio. Sim, ouvir o silêncio. No meio da vertigem dos vendavais de palavras em que vivemos, que nos atordoam e paralisam, ouvir outra coisa. Ouvir o quê? Isso: o silêncio. Só depois de ouvir o silêncio será possível falar, falar com sentido e palavras novas, seminais e iluminantes, criadoras. De verdade. Onde se acendem as palavras novas, seminais, iluminadas e iluminantes, criadoras, e a Poesia, senão no silêncio, talvez melhor, na Palavra originária que fala no silêncio? Ouvir o quê? Ouvir a voz da consciência, que sussurra ou grita no silêncio. Quem a ouve? Ouvir o quê? Ouvir música, a grande música, aquela que diz o indizível e nos transporta lá, lá, ao donde somos e para onde verdadeiramente queremos ir: a nossa morada. Ouvir o quê? Ouvir a sabedoria. Sócrates, o mártir da Filosofia, que só sabia que não sabia, consagrou a vida a confrontar a retórica sofística  com a arrogância da ignorância e a urgência da busca da verdade. Falava, mas só depois de ouvir o seu daímon, a voz do divino e da consciência.
O grande filósofo A. Comte-Sponville é partidário de um “ateísmo místico”, no quadro de “uma espiritualidade sem Deus”. Constituinte dessa espiritualidade é precisamente o silêncio. “Silêncio do mar. Silêncio do vento. Silêncio do sábio, mesmo quando fala. Basta calar-se, ou, melhor, fazer silêncio em si (calar-se é fácil, fazer silêncio é outra coisa), para que só haja verdade, que todo o discurso supõe, verdade que os contém a todos e que nenhum contém. Verdade do silêncio: silêncio da verdade.”
O problema está em que já Pascal, nos Pensamentos, se queixava: “Toda a desgraça dos homens provém de uma só coisa, que é não saber permanecer  em repouso num quarto.” Hoje é ainda pior do que no tempo de Pascal. Ninguém suporta o silêncio. Por isso, é preciso constantemente pedir com Sophia de Mello Breyner: “Deixai-me com as coisas/Fundadas no silêncio.”
2. 4. Outra característica da Quaresma era a esmola.
Cá está. Quem fizer silêncio para ouvir o silêncio, também ouvirá os gemidos dos pobres, os gritos dos explorados, dos abandonados, dos que não podem falar, das vítimas das injustiças. E perceberá que se não pode dar como esmola o que pertence fazer como justiça.
E volta-se  à  corrupção e ao roubo e às injustiças estruturais e aos Bancos que abriram falência e que mataram vidas inteiras de gente que trabalhou e que se sacrificou e que poupou o que pôde e o que não podia e que, no fim, ficou espoliada do pouco que tinha... E, tirando o facto de os contribuintes continuarem a pagar até essas falências e roubos, mesmo que se minta dizendo que não custará aos contribuintes um cêntimo (afinal, quem é o Estado?), não acontece nada. Alguém mete a mão na consciência? Não. Porque já não há consciência... Onde estão os valores da honra e da dignidade?
E ainda perguntam para que poderia servir uma Quaresma para o mundo, incluindo para políticos e banqueiros?
2. 5. O sacrifício. Digo sempre: o sacrifício pelo sacrifício não vale nada. Mas é preciso, a seguir, gritar bem alto, num tempo em que parece que só resta o hedonismo, o prazer imediato, confundindo a felicidade com a soma de prazeres: Nada de grande, de valioso, de humanamente digno se consegue sem sacrifício. Quem quiser realizar uma obra valiosa, viver um grande amor, realizar-se a si mesmo na dignidade livre e na liberdade com dignidade tem de saber que isso não é possível sem sacrifício. Aliás a palavra sacrifício di-lo no seu étimo: sacrum facere: fazer algo sagrado.
3. O que seria o mundo depois de uma Quaresma autêntica? O nosso mundo, o mundo de cada uma e de cada um? Dar-se-ia uma conversão, palavra-chave da Quaresma, que significa mudança de vida, com um novo horizonte de compreensão da existência, do mundo e da transcendência.
in DN 24.03.2019
https://www.dn.pt/edicao-do-dia/24-mar-2019/interior/uma-quaresma-para-o-mundo--10717817.html?target=conteudo_fechado 
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QUE COISA SÃO AS NUVENS
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

O HUMOR DO CARDEAL
O HUMOR QUE SEAN O’MALLEY, CARDEAL DE BOSTON, EMPREGA NÃO É FEITO PARA SER DELICIOSO
Este ano coube ao cardeal de Boston, Sean O’Malley, a pregação do retiro quaresmal aos bispos portugueses. O conjunto das meditações acaba de ser editado num volume, com um título curioso: “Procura-se amigos e lavadores de pés” (Paulinas: 2019). E é um livro que se lê e não se esquece: antes de tudo pela certeira intensidade espiritual, mas também por um elemento, porventura, marginal e inesperado: o humor.

O filósofo Emil Cioran explicou-o bem quando escreveu que “as lágrimas são aquilo que nos pode tornar santos, depois de termos sido humanos”

Se numa sondagem for perguntado a que se deve associar o esforço de conversão, a resposta esmagadora será: ao arrependimento e à tristeza pelos erros praticados. O filósofo Emil Cioran explicou-o bem quando escreveu que “as lágrimas são aquilo que nos pode tornar santos, depois de termos sido humanos”. Ora, ninguém poderá dizer que o propósito do cardeal O’Malley seja outro que não inspirar uma genuína conversão, mas o instrumento escolhido é o humor. E tal mostra a originalidade e a sabedoria deste antigo frade capuchinho que é uma das grandes vozes espirituais do nosso tempo. Não se trata daquele humor de sacristia que se cola, como um cliché, aos eclesiásticos. Basta recordar o primeiro gag do livro para perceber a natureza do cómico que ele põe em jogo: um bispo, quando saía da sua catedral, deparava-se invariavelmente com um homem, de nome Santiago, prostrado num banco, coberto de cartões usados e jornais. O pobre tresandava a álcool, mas levantava-se, cambaleante e afetuoso, para cumprimentar o bispo. Um dia, ao atravessar a praça, o prelado não o viu e passaram-se semanas para que, com surpresa, o reencontrasse, agora descendo a rua, quase irreconhecível. Tinha a barba feita, um fato limpo, sapatos que brilhavam e uma Bíblia debaixo do braço. Perguntou-lhe o bispo, atónito: “Que te aconteceu, homem?” Respondeu Santiago: “Fui salvo.” O bispo felicitou-o e despediu-se. Um mês depois, sai o prelado da catedral e vê Santiago no banco, no velho estado deplorável. Interroga-o o bispo: “Que te aconteceu, Santiago?”, “Monsenhor, voltei para a única verdadeira Igreja.” É um humor assim que que faz implodir as nossas injunções sonâmbulas, removendo os chavões a que reduzimos tantas vezes a experiência religiosa. O humor que o cardeal Sean O’Malley emprega não é feito para ser delicioso. O seu objetivo é escancarar-nos, mostrar-nos como somos, levar-nos a renunciar à tentação gnóstica ou maniqueia que separa a ação sobrenatural da nossa realidade como ela é, com as suas rugosidades e infâmias, desmontar criticamente o discurso autojustificativo. Do ponto de vista das influências podemos colocar O’Malley — que começou a sua carreira por fazer um doutoramento em literatura portuguesa e hispânica — na peugada de importantes autores católicos, dos quais G. K. Chesterton ou a romancista Flannery O’Connor são, certamente, emblemas. Flannery dizia que “quanto mais um escritor deseja tornar manifesto o sobrenatural, mais deve tornar real o mundo natural, pois se os leitores não aceitam o mundo natural, certamente não aceitarão nenhum outro”. Mas, no caso do cardeal, acrescentaria ainda uma segunda influência: a tradição humorística do chamado risus paschalis, recuperando o antigo costume segundo o qual, na homilia do dia de Páscoa, o pregador devia literalmente divertir os fiéis, e fazê-los rir com anedotas e histórias, para que a alegria chegasse a todos. Há, de facto, um sopro pascal que atravessa a obra de Sean O’Malley. Ele insiste em que a dinâmica pascal de Cristo opera uma radical inversão no nosso modo de compreender a fé e a história, como o exprime aquele pequeno diálogo místico: Certo homem perguntou: “Cometi muitos pecados. Se me arrepender, Deus perdoar-me-á?”; O místico respondeu-lhe: “Não. Tu arrepender-te-ás, se Ele te perdoar.”

in Revista do Semanário Expresso, 23.03.2019
https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2421/html/revista-e/que-coisas-sao-as-nuvens/o-humor-do-cardeal

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À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves
Domingo III da Quaresma
“Vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo.
Talvez venha a dar frutos.”
Lc 13, 8-9

Fazer a diferença
São constantes as notícias de sofrimento e mal. Das tragédias naturais, como a do ciclone no centro de Moçambique e o mar imenso de destruição e sofrimento, às violências e indiferenças que são fruto de actos humanos, ou melhor, desumanos, a lista é imensa. E como o longe faz-se perto sobressalta-se-nos o coração a cada instante. Entre a atenção e algum desejo de “desligar” não conseguimos ficar indiferentes à humanidade que sofre. Por isso, começamos a fazer diferença quando vencemos a indiferença e nos empenhamos na mudança. Não é isso que significa “conversão”?
Há sofrimento inevitável que convive com aquele que é evitável. E ainda que se passe do primeiro ao segundo com muita facilidade, é este que está nas nossas mãos transformar. Se não podemos mudar as causas do primeiro, podemos intervir naquelas que provocam o segundo. Podemos voltar-nos para Deus e interrogá-l’O pela sua aparente passividade. Mas não se revelou Ele a Moisés como aquele que “vê, escuta, desce, para levar o seu povo a uma terra boa e espaçosa” (cf. Ex. 3, 7-8)? A grande diferença é que Deus “não gosta” de fazer sozinho o que pode fazer connosco. Conhece-nos bem e sabe como aprendemos e apreciamos melhor aquilo em que trabalhamos. Por isso nos fez responsáveis pela criação e anda também connosco a “fazer novas todas as coisas” (cf. Ap 21, 5)!
Continuamos a considerar o mal que não entendemos como um castigo ou uma distracção de Deus? Gastamos mais tempo e energias a procurar as “culpas” ou a transformar os corações e as situações da vida? Jesus liberta de uma imagem de Deus a contabilizar pecados e méritos para distribuir castigos e recompensas. A nossa responsabilidade está ligada aos sofrimentos inúteis e destruidores, fruto de escolhas egoístas e atitudes violentas, que propagam o mal em todas as direcções. Sim, o amor de Deus abraça tudo e todos, e é esse amor que nos responsabiliza em tudo o fazemos.
A diferença da atitude do vinhateiro é a que nos é pedida. Perante a justa pretensão do dono da vinha que, ao longo de três anos, não encontra frutos na figueira, o vinhateiro joga tudo na esperança. Pede mais um ano. Oferece mais trabalho a cavar a terra em seu redor e a adubá-la. Mostra um carinho inesperado e uma atitude diferente. Se a figueira nos representa e o vinhateiro é Cristo, como havemos de não frutificar? Começando por não ficar indiferentes a tanto cuidado, mais atentos à dor dos outros, arriscando reparar injustiças e trabalhar para o bem de quem precisa, em vezes de ficar por discursos ou análises. A diferença que vence a indiferença é a surpresa de uma esperança activa. Se Deus a tem connosco, não a podemos ter com todos os que nos rodeiam?
in Voz da Verdade, 24.03.2019
http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=8044&cont_=ver2
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Senhores Bispos
Leonor Xavier
Abusos sexuais na Igreja? Pedofilia? Já sabemos. A Comunicação Social anuncia, disserta, desenvolve. A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) já se pronunciou. Alguns bispos evocaram, nos seus documentos quaresmais. O assunto não morreu, o tema ressuscita a cada dia. É mais que universal. Monstruoso.
Tomando outro enfoque, centro-me na nossa concreta sociedade, em que, sem distinção de classes, a tradição, o costume, a prática de violência doméstica são hoje notícia constante. Os números cortam-me: doze mulheres assassinadas nas primeiras dez semanas do ano. Nas primeiras doze semanas, 131 suspeitos de crimes de violência doméstica por violação, lenocínio, agressão grave. Por dia, duas pessoas, homens e mulheres, detidas por violência doméstica, neste primeiro trimestre do ano. Falam os magistrados em “números negros”, a procuradora-geral da República classifica “este cenário desolador”.
Mais meios de responsabilizar, menos penas suspensas, são considerados, ganham espaço de debate. Soubemos que, em 2018,  a PSP e a GNR receberam 26.439 queixas de violência doméstica. “Mais luta e menos luto” foi frase pronunciada no Parlamento, que aprovou maior transversalidade entre ministérios para a prevenção e o combate contra a dita violência doméstica.
E tomo, assim, a liberdade de questionar a nossa respeitável Conferência Episcopal sobre o seu silêncio em face desta   realidade. Um número crescente de católicos atentos espera uma palavra, uma posição, uma proposta de ação. Espera que a nossa CEP aplique o discernimento à avaliação dos sofrimentos nas grandes cidades e nas aldeias remotas. Existe uma rede paroquial que poderá, lúcida e concretamente, atenuar estes sofrimentos. Considerando a dignidade dos mais frágeis, mais pobres, mais vulneráveis, mais dependentes. Transformando mentalidades, corrigindo conceitos de poder e submissão, debilidade e força, simplesmente cumprindo a Palavra de Jesus. Neste tempo de retirada de Quaresma e meditação sobre as desordens e desgraças da nossa condição humana, vou desfiando perguntas que se encadeiam sem parar.
O que têm comum os consultórios dos médicos e os confessionários dos padres? O corpo despido e a alma exposta? O espaço de liberdade? O desabafo? A queixa? O ouvido que escuta? A misericórdia que perdoa? Tanto quanto os médicos, os padres são ainda sabedores dos segredos de nós e dos outros? Mesmo neste ambiente de desabafo anónimo em redes sociais?
E por aí fora, sem parar, chegaríamos ao infinito da associação de ideias, no invisível das grandes perguntas, na imaginação das rotinas, na imensidão de casos e gente que ao longo de uma vida vai desfilando por nós. Na Comédia Humana a que assistimos, e em todas as classes sociais, talvez hoje exista mais infelicidade clandestina do que o sucesso que se quer afirmar, aparente.   
Senhores Bispos: esperamos.
in 7Margens, 23.03.2019  
https://setemargens.com/senhores-bispos/
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Des femmes catholiques allemandes lancent un appel à « la grève »
Anne-Bénédicte Hoffner
Que se passerait-il dans l’Église catholique si les femmes n’étaient pas là? Pour faire « entendre l’autre moitié de l’Église », des paroissiennes de Münster, en Allemagne, lancent un appel à la grève du 11 au 18 mai.

Du 11 au 18 mai, les catholiques allemandes sont invitées à « ne pas mettre les pieds dans une église », à s’habiller de « blanc », et à arrêter « tout service volontaire ».

« Nous, les femmes, voulons un véritable renouveau de notre Église. Nous voulons y contribuer et avoir notre mot à dire. Sur un pied d’égalité, femmes et hommes, nous voulons suivre notre vocation et avancer fraternellement dans la même direction: celle de Jésus-Christ, qui nous a TOUS demandé de rendre visible son amour pour le monde. »

Du 11 au 18 mai, les catholiques allemandes sont invitées à « ne pas mettre les pieds dans une église », à s’habiller de « blanc », et à arrêter « tout service volontaire ». « Nous célébrerons la messe dehors, sur le parvis », affirment-elles crânement.
L’opération a été imaginée depuis la paroisse Sainte-Croix de Münster (Rhénanie du Nord), lors d’une réunion mensuelle de réflexion sur l’encyclique Laudato si’. L’ambiance était morose. « Nous étions déprimées par les révélations d’agressions sexuelles commises par des prêtres et par cette exclusion persistante des femmes, qui en est l’une des causes », raconte Elisabeth Kötter dans la presse catholique allemande.
Malaise grandissant
Avec les autres membres de ce groupe de lecture, femmes et engagées comme elle au sein de l’Église catholique, elles ont eu une idée: montrer concrètement ce se passerait si elles se mettaient en grève! L’opération a trouvé son nom, « Maria 2.0 », et un logo: un portrait de femme, un autocollant posé sur la bouche…
« Nous voulions donner une direction au malaise grandissant et ressenti de longue date en chacune de nous », a expliqué Ruth Koch, interrogée par le site Internet « Église et Vie ».
Grâce aux médias sociaux, l’appel a vite franchi les frontières du diocèse. Une cinquantaine d’internautes ont déposé un message de soutien sur leur page Facebook. « Enfin! Une opération utile, que nous attendions depuis longtemps! » « Ne plus se taire, c’est l’urgence aujourd’hui. » Parmi les soutiens, beaucoup de femmes, mais aussi des hommes, de tous âges. « Il est plus que temps. J’en suis », écrit Harald. « Tout le monde devrait soutenir cet appel », ajoute Holger. Quant à Michaël, il s’interroge« La dignité de l’homme est sacro-sainte… Pourquoi l’Église catholique autorise-t-elle (cette inégalité)? »
Lettre au pape François
La Communauté des femmes catholiques allemandes (KFD) a assuré de son soutien. Même l’évêque d’Essen (Rhénanie du Nord), Mgr Franz-Josef Overbeck, et son vicaire général, le père Klaus Pfeffer, se seraient abonnés à la page Facebook, assurent les organisatrices.
« L’appel s'adresse également à tous ceux qui souffrent de l’Église et qui l’ont quittée », précise Elisabeth Kötter.
Les initiatrices ont formulé une lettre au pape François, que le cardinal Reinhard Marx, archevêque de Munich et président de la Conférence des évêques allemands, devait lui remettre lors du sommet sur les abus sexuels. Elles y demandent pêle-mêle l’adaptation de la morale sexuelle « avec la réalité de la vie humaine », la levée du célibat obligatoire pour les prêtres et l’accès des femmes à tous les ministères.
Anne-Bénédicte Hoffner
in La Croix, 22/03/2019

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