04 março 2019

Crónicas & As medidas anunciadas pelo Papa são suficientes para prevenir os abusos no seio da Igreja católica?

     
P / INFO: Crónicas & As medidas anunciadas pelo Papa são suficientes para prevenir os abusos no seio da Igreja católica?

VITA MUTATUR NON TOLLITUR[1]
Frei Bento Domingues, O.P.

1. Para o filósofo L. Wittgenstein, acreditar em Deus significa reconhecer que a vida tem sentido. Hoje, vivemos obcecados pelo futuro que a ascensão da inteligência artificial e a biotecnologia nos desenham. O filósofo tem uma observação que, segundo me parece, conserva toda a pertinência: «sentimos que, mesmo que todas as possíveis questões científicas obtivessem resposta, os nossos problemas vitais não teriam ainda sido sequer tocados».
Concelebro, muitas vezes, a Eucaristia. Para mim, não é uma rotina devocional nem uma obrigação. Implica uma comunidade agradecida por acreditar que a morte não é a última palavra sobre o itinerário de uma existência humana. Essa convicção não é da ordem da razão, não é a conclusão de qualquer elaboração científica. Muitos chamam-lhe “fé na ressurreição”. São tantos os equívocos acerca do uso dessa palavra que não insisto muito nela.
Jesus Cristo teve um percurso breve, atribulado e que terminou cravado numa cruz, a morte mais cruel da antiguidade. Não morreu, foi assassinado mediante um julgamento iníquo. Sentiu-se abandonado pelo céu e pela terra e, sobretudo, sentiu o fracasso da sua luta. No entanto, teve folgo para perdoar aos autores da sua morte e para prometer o paraíso a um companheiro de infortúnio. Foi morto, mas, se estivermos atentos às narrativas da Paixão, a sua morte ia carregada com a vida de todos, com esperança para os próprios inimigos. Queixando-se do abandono de Deus, foi nas Suas mãos que lhe entregou o seu destino. A esperança contra toda a esperança foi o seu último suspiro.
Depois, as mulheres vieram dizer, não apenas que ele não estava no sepulcro, onde fora colocado, mas que as convocou para anunciar aos discípulos que estava vivo e era preciso continuar o caminho por ele aberto. As mulheres estão na origem do movimento cristão. São elas as pregadoras do Evangelho na sua novidade contra a morte.
Frei José Augusto Mourão escreveu um belo poema para uma música do Convento de La Tourette, o célebre convento de Corbusier. É cantado muitas vezes na minha comunidade dominicana: «…Ao pé de Deus hei-de sempre viver/ com Deus cheguei e com ele vou partir»[2].
2. Quando, mais tarde, foram escritos os textos do Novo Testamento, aparecem neles palavras extraordinárias atribuídas ao próprio Jesus: «Aquele que quiser salvar a sua vida há-de perdê-la, mas aquele que perder a sua vida por causa de mim e do evangelho há-de salvá-la»[3].
Ser discípulo de Cristo é empregar todas as energias para continuar a aventura da transformação da vida que a morte parece derrotar. Quem procura centrar a sua vida em si mesmo, nos seus projectos de êxito pessoal, muitas vezes à custa dos pobres, está perdido. Em todas as épocas e circunstâncias, o que caracteriza o cristão autêntico é cuidar de quem não pode cuidar de si. A história está carregada de figuras que gastaram as suas energias para que os outros pudessem viver com dignidade. O Papa Francisco veio relançar a criatividade do movimento das primeiras gerações. Os cépticos dizem que é um esforço perdido, pois a Igreja está morta na opinião pública por causa dos escândalos divulgados, dia a dia, na comunicação social.
O importante não é saber se o Papa vai vencer ou vai ser derrotado, mas se vamos ter ou não quem se apaixone pela paixão do Nazareno.
3. Houve muitas épocas nas quais se procurou exaltar o papel histórico da Igreja. Não é difícil fazer uma lista enorme dos seus contributos para o bem da humanidade. Tarefa inútil. Outros contam o rol de crimes que ela cometeu contra os direitos humanos, no seu interior e contra povos que dizia evangelizar.
Quando celebro a Eucaristia é para dar graças por toda a bondade do mundo e para pedir perdão pelos crimes acumulados ao longo dos séculos. Mas é, sobretudo, para reerguer a figura do Ressuscitado, o testemunho de que vale a pena, contra ventos e marés, acreditar na vida de todas as épocas da história. Uma vez, Jesus sentiu que os seus discípulos, não só procuravam honra e glória, como punham a sua esperança nos êxitos que iam conseguindo, em nome do próprio Nazareno. Este, porém, advertiu-os: «Não vos alegreis porque os espíritos se submetem a vós; alegrai-vos antes porque os vossos nomes estão inscritos nos céus»[4].
Para não profanar o nome de Deus (Iavé), os judeus usavam outras expressões de substituição. Daí falar-se de céu, de reino dos céus, que a ignorância confundiu com espaços astrais ou abstracções prometidas aos pobres. Quando Jesus declara alegrai-vos porque os vossos nomes estão inscritos nos céus, diz: a vossa vida está inscrita no coração de Deus e ninguém vos poderá arrancar desse infinito amor. Isto é tão verdade que o narrador acrescenta que o próprio Jesus se sentiu comovido, no Espírito Santo, pelo que tinha dito. Tanta interpretação e reinterpretação das Escrituras, por rabinos bem letrados, tinham ocultado o coração da realidade divina e da nossa esperança: somos amados e para sempre. Não por causa dos nossos méritos, mas por Deus ser quem é: pura expansão da gratuidade do amor. Finalmente, as artimanhas desses pretensiosos inteligentes e bem informados das Escrituras foram desmascaradas. Não se coíbe de ser enfático perante os discípulos: estamos a vencer séculos de ignorância.
Quando alguém morre, seja sepultado, seja cremado, a maneira de falar é horrorosa: enterrou ou cremou o pai, a mãe, o filho, o irmão, etc.. Se isso fosse verdade, era um caso de polícia. Aquilo que é enterrado ou cremado não é a pessoa, não é o corpo, são os restos mortais. Haverá muitas interpretações sobre este facto, mas nos cemitérios só existem as pessoas que os visitam. Pergunta-se: e as pessoas onde estão? S. Paulo responde com palavras de um gentio, anterior a Cristo, «é na divindade que temos a vida, o movimento e o ser»[5]. A fé cristã diz-nos que as pessoas, que já não vemos, andam por onde sempre andaram, estão onde sempre estiveram, vivem onde sempre viveram, em Deus. Dizer em Deus é dizer que são nossa companhia, que participam nos cuidados de Deus por nós e por todo o universo.
Concelebrei a Eucaristia do funeral do Frei Bernardo Domingues. É meu irmão de sangue e da Ordem dos Pregadores. Quando ele fez 80 anos, D. Manuel Clemente era Bispo do Porto. Escreveu uma síntese luminosa da vida do meu irmão: Os anos que o Frei Bernardo viveu, multiplicam-se nas vidas dos outros que ele ajudou a viver. São tantos, que só em Deus se podem contar e cantar.
Foram alguns amigos que juntaram meios, para ele viver mais 8 anos, quando já estava sob a sentença de morte.
in Público, 03.03.2019
https://www.publico.pt/2019/03/03/sociedade/opiniao/vita-mutatur-non-tollitur-1-1863757#gs.iEO7rVgq


[1] A vida é mudada, não é suprimida (Prefácio da Missa)
[2] Não pode a morte reter-me na cruz
[3] Mc 8, 35
[4] Lc 10, 17-24
[5] Act 17, 28

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Revolução copernicana na Igreja
Anselmo Borges
1. Foi uma verdadeira revolução copernicana. Com Copérnico, ficámos a saber que não é o Sol que gira à volta da Terra, é a Terra que gira à volta do Sol. Com a Cimeira no Vaticano, de 21 a 24 de Fevereiro passado, para se tomar consciência da monstruosidade da pedofilia na Igreja e pôr-lhe termo, convocada, num gesto inédito, corajoso e histórico, que se impunha, do Papa Francisco, ficámos a saber que, de agora em diante, o centro não continuará a ser ocupado pela Igreja enquanto instituição, mas pelas vítimas, que serão defendidas com toda a seriedade.

No encerramento, perante os 190 participantes, entre os quais 114 presidentes das conferências episcopais de todo o mundo, membros da Cúria, superiores e superioras-gerais de ordens e congregações religiosas, peritos e alguns leigos, Francisco, num discurso histórico, muito bem elaborado e com dados arrepiantes sobre o abuso físico e psicológico de menores e adultos vulneráveis não só dentro da Igreja mas transversalmente na sociedade global, incluindo as famílias e outras instituições (nesta abrangência, as vítimas são muitos milhões), comprometeu-se a que a Igreja "não se cansará de fazer tudo o que é necessário para levar à justiça seja quem for que tenha cometido abusos de tipo sexual" e que nunca "tentará encobrir ou subestimar nenhum caso".

Perante o horror da pedofilia, afirmou que ela lhe fazia lembrar "a prática religiosa cruel, difundida no passado em algumas culturas, de oferecer seres humanos (muitas vezes crianças) como sacrifício às divindades nos ritos pagãos". Perante a "monstruosidade da pedofilia" na Igreja, assegurou: "Quero reafirmar com clareza: se na Igreja se descobrir nem que seja um único caso (que representa em si mesmo uma monstruosidade), esse caso será enfrentado com a máxima seriedade." Prova inequívoca disso foi, ainda antes da Cimeira, a redução ao estado laical do ex-cardeal norte-americano Theodore McCarrick e, depois, no passado dia 26, a sanção imposta ao cardeal australiano George Pell, a terceira figura do topo da Igreja, ex-superministro das finanças do Vaticano, condenado por abuso sexual de menores: enquanto decorre o recurso nos tribunais, está suspenso e impedido de contactar, seja de que modo for, com menores.

2. No discurso de encerramento, Francisco deixou oito directivas para o futuro, de que deixo aí uma síntese:
2. 1. A protecção dos menores. "O objectivo principal de qualquer medida é proteger os menores e impedir que sejam vítimas de qualquer abuso psicológico e físico." Assim, é preciso mudar a mentalidade, para "combater a atitude defensivo-reactiva de salvaguardar a instituição, dando prioridade às vítimas dos abusos em todos os sentidos". Ouvir o Mestre Jesus: "Ai de quem escandalizar um destes pequenos. Mais lhe valeria que lhe atassem a mó de um moinho ao pescoço e o lançassem ao fundo do mar."
2. 2. Seriedade impecável. "Desejo reiterar agora que a Igreja não se cansará de fazer tudo o que for necessário para levar à justiça seja quem for que tenha cometido estes crimes. A Igreja nunca tentará encobrir ou subestimar nenhum caso."
2. 3. Uma verdadeira purificação. Os pastores (bispos, padres...) devem empenhar-se renovadamente no seu compromisso de santidade, "cuja configuração com Cristo Bom Pastor é um direito do Povo de Deus". A Igreja perguntar-se-á "como proteger os menores, como evitar essas desgraças, como tratar e reintegrar as vítimas, como fortalecer a formação nos seminários. Procurar-se-á transformar os erros cometidos em oportunidades para erradicar este flagelo não só do corpo da Igreja mas também da sociedade".
2. 4. A formação do clero. "A exigência da selecção e da formação dos candidatos ao sacerdócio, com critérios não só negativos, preocupados principalmente com excluir as pessoas problemáticas, mas também positivos, para oferecer um caminho de formação equilibrado aos candidatos idóneos, orientado para a santidade e no qual se contemple a virtude da castidade."
Note-se que, em propostas anteriores, Francisco já tinha exigido "avaliação psicológica dos candidatos através de peritos credenciados".
2. 5. Reforçar e verificar as directrizes das conferências episcopais. Isto, para que se perceba que há "a exigência da unidade dos bispos na aplicação de parâmetros que tenham valor de normas e não só de orientação". Explicitando: as normas são para aplicar universalmente em toda a Igreja, sem os subterfúgios da sua aplicação segundo as culturas.
2. 6. Acompanhar as pessoas abusadas. "O mal que viveram deixa nelas feridas indeléveis que se manifestam em rancor e tendência para a autodestruição. Portanto, a Igreja tem o dever de oferecer-lhes todo o apoio necessário, valendo-se de peritos nesta matéria. Escutar, deixai-me dizer "perder tempo" a escutar."
2. 7. O mundo digital. "A protecção dos menores deve ter em conta as novas formas de abuso sexual", através das novas tecnologias. "É preciso animar os países e as autoridades a aplicar todas as medidas necessárias para limitar os sítios da internet que ameaçam a dignidade da pessoa humana, do homem, da mulher e, de modo particular, dos menores: o delito não goza do direito à liberdade." E lembra novas normas "sobre os delitos mais graves" aprovadas pelo Papa Bento XVI em 2010, em que foram acrescentados como novos casos de delitos "a aquisição, a retenção ou divulgação" realizada por um clérigo, "em qualquer forma e com qualquer tipo de meio, de imagens pornográficas de menores".
2. 8. O turismo sexual. "A conduta, o olhar, a atitude dos discípulos e dos servidores de Jesus há-de saber reconhecer a imagem de Deus em cada criatura humana, a começar pelos mais inocentes." "As autoridades governamentais devem dar prioridade e agir com urgência para combater o tráfico e a exploração económica dos menores."

3. Houve analistas e vítimas que protestaram, clamando que, afinal, segundo a expressão corrente, a montanha pariu um rato.
Embora os compreenda, não têm razão. Esquecem que se trata de directivas. As normas, a dar-lhes conteúdo, com opções e acções concretas e eficazes, virão em breve. De facto, tem de haver um "antes" e um "depois" desta cimeira. Caso contrário, isto é, se, como se comprometeu o Papa Francisco, "não voltar a ser absolutamente credível e digna de confiança", a Igreja caminhará, concretamente no Ocidente, para a sua autodestruição.

P. S.: Foi a sepultar, no passado dia 23, Frei Bernardo Domingues. Pude ver, no funeral, várias centenas de pessoas e muitas lágrimas sentidas. Afinal, também há padres que se dedicam generosamente aos outros, apoiando muitas vidas e iluminando caminhos.
Por mim, gostava de deixar um testemunho pessoal. Se não estou enganado, foi em 1972. Eu era um jovem professor no ISET (Instituto Superior de Estudos Teológicos), Porto, de que ele era o director. Também regia uma cadeira de Humanismo Ateu e Humanismo Cristão. E houve um bispo que me foi acusar de herético... Frei Bernardo disse-lhe: "Senhor bispo, primeiro mande-nos por escrito as heresias dele. Depois, vamos analisar se são heresias ou não. Só então podemos tirar as consequências." O bispo não escreveu.
Fica aqui a minha sentida homenagem a um homem bom e intelectualmente honesto e livre.
Padre e professor de Filosofia
in DN 03.03.2019
https://www.dn.pt/edicao-do-dia/03-mar-2019/interior/revolucao-copernicana-na-igreja-10638445.html?target=conteudo_fechado
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QUE COISA SÃO AS NUVENS
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
O SABOR DE DEUS

É VERDADE QUE A CULTURA CONTEMPORÂNEA SE MANTÉM AMBIVALENTE NA LEITURA QUE FAZ DA OPÇÃO MONÁSTICA

Um dia, quando se contar a história destes anos, talvez o nome destas mulheres saia do escondimento voluntário em que escolheram viver e compreendamos então quanto a sua irreverente experiência de fé e de liberdade inspirou uma estação do catolicismo português, e inclusive das suas margens: falo das monjas dominicanas do mosteiro do Lumiar (Lisboa), a poucos dias do encerramento do mosteiro e da transferência delas para Fátima.
É verdade que a cultura contemporânea se mantém ambivalente na leitura que faz da opção monástica: por um lado, mostra-se sensível ao monaquismo como alternativa utópica e valoriza, por exemplo, as suas práticas de hospitalidade; mas não deixa, porém, e de modo vincado, de considerá-la uma opção de vida anacrónica e inadequada, com um carácter feudal, um modelo ilegível e pouco operativo no confronto com a realidade. Ora, a vitalidade destas quatro décadas do mosteiro do Lumiar testemunha bem a importância de que se pode revestir a vida monástica e como ela profeticamente se inscreve no tempo.
A vitalidade destas quatro décadas do mosteiro do Lumiar testemunha bem a importância de que se pode revestir a vida monástica e como ela profeticamente se inscreve no tempo
O mosteiro de Santa Maria foi fundado nos inícios dos anos 80, num período em que a visão reformadora do Concílio Vaticano II estimulava as várias formas de vida religiosa (tanto as de linha apostólica como as de perfil contemplativo) a ousar novos caminhos. O repto foi aceite por um pequeno número de monjas de clausura que decidiu começar uma comunidade aberta, arriscando a transparência de uma vida simples, segundo o Evangelho. Procuravam guardar o essencial da tradição monástica dominicana, mas ensaiando uma nova proximidade ao laicado cristão e a todos os anónimos buscadores de Deus. Claro que quem transpunha os portões do mosteiro sabia que entrava em contacto com um claustro, e que aquelas mulheres viviam um distanciamento voluntário do mundo. Mas o seu contemptus mundi não pretendia denegrir ou acusar o mundo, nem instaurar uma relação dicotómica entre ação e contemplação, entre vida interior e exterior, entre sagrado e quotidiano. Pelo contrário: o silêncio do mosteiro tornou-se a possibilidade inesperada do encontro do uno e do diverso; tornou-se para tantos uma experiência de acolhimento integral da existência e da própria história; uma imersão numa liturgia cuidada, preocupada com a beleza dos símbolos e da linguagem; uma aprendizagem comum de esvaziamento, de relançamento e de plenitude.
Para a afirmação do projeto foi preciosa a colaboração dos frades dominicanos, de modo especial dois protagonistas a que o cristianismo do futuro há de voltar: Frei Mateus Peres (um nome central da geração de “O tempo e o modo”, que optou pela vocação religiosa) e Frei José Augusto Mourão, que, depois do Padre Manuel Antunes, foi certamente o intelectual mais irrequieto e inventivo que o nosso catolicismo gerou. Eles foram os cúmplices certos das monjas para fazer do mosteiro um ativo laboratório de vida espiritual, implicado com as questões mais nodais (e também as mais de fronteira) que se colocam ao presente. No chamado “Salão do Quintal” realizaram-se as conferências dos segundos sábados, dirigidas a um público heterogéneo de crentes e não crentes, onde foi possível escutar teólogos e psiquiatras, sociólogos e vozes dos estudos literários, historiadores, como José Mattoso ou homens do teatro, como Luís Miguel Cintra.
O que foi o mosteiro do Lumiar? A aventura espiritual de um punhado de mulheres que nos explicou, sem ruído, que a liberdade é o sabor de Deus. E isso, queridas Irmãs Maria Domingos, Teresa e Mary John, não acaba: é uma alegria para sempre.
in Semanário Expresso 02.03.2019
https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2418/html/revista-e-1/que-coisas-sao-as-nuvens/o-sabor-de-deus

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À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves
DOMINGO VIII COMUM Ano C
“O homem bom, do bom tesouro do seu coração
tira o bem.” Lc 6, 45


A abundância do coração

Muitas ideias e demasiados propósitos conduzem a pouca prática. É como se diz: “De boas intenções está o inferno cheio.” “Inferno” em sentido metafórico, claro, também como representação do bem que podia ter sido feito e não se fez. Um publicitário espanhol, Joaquín Lorente, apresenta o êxito com esta fórmula: “Uma ideia, bastante olfacto e muita coragem”. E o fracasso com a sua antítese: “Muitas ideias, bastante olfacto e nenhuma coragem”. Percebemos assim melhor a etimologia de “coragem”: um coração que actua. Apesar do medo e das dificuldades, age!
Em três comparações tiradas do quotidiano, Jesus concretiza a exigência de vida que nos propõe para sermos seus discípulos. Na primeira mostra a desgraça de um cego conduzir outro cego. Nos primeiros tempos do cristianismo, o baptismo era também chamado “iluminação”, porque à luz de Cristo, os baptizados viam os verdadeiros valores da vida, escolhiam-nos e podiam indicar a outros o caminho recto. Bem dizemos que a pior cegueira não é “não ver” mas sim, “não querer ver”. Quanto mal, quantas injustiças e atrocidades persistem por tantas cegueiras voluntárias! A advertência aos discípulos alerta para a presunção em que podemos cair de nos julgarmos “donos da verdade”, de propagar critérios que não são os do evangelho de Jesus, e deixarmos de querer “ser como o Mestre”, para nos julgarmos superiores, ilusoriamente mais “iluminados”. Como se deixássemos de olhar o mundo, a vida, as glórias e misérias, e até os olhos dos homens e mulheres nossos irmãos, com o olhar amoroso do Pai que Jesus oferece.
Na segunda comparação é posta em causa a facilidade dos juízos imediatos dos outros. Entre um argueiro e uma trave há uma enorme diferença. O primeiro pode produzir alguma irritação mas a segunda não nos torna cegos? Vemos os pequenos defeitos dos outros e fechamos os olhos aos grandes que nos dominam. E fazemos de pequenas falhas, grandes dramas! A hipocrisia é a representação de um papel falso, faz alguém parecer aquilo que não é. E como no fim de uma peça, também as vestes se despem diante de Deus. A exigência de autenticidade começa primeiro em cada um, despojando-se de máscaras, limpando o coração e os olhos com a água cristalina do Evangelho. Quem sabe não poderíamos chegar à sabedoria de Henry Ford: “Não encontre defeitos, encontre soluções. Qualquer um sabe queixar-se.”
A árvore boa e a árvore má lembram que é do interior, do coração de cada um que tudo procede. A liberdade dada ao homem cresce na sua orientação para o amor e para a verdade. Quando se faz o mal, se destrói a vida, a liberdade contradiz-se. Não se trata apenas de poder escolher; o que se escolhe promove ou aniquila a liberdade. A maior coragem é a que ajuda a mudar os corações. Que abundância manifesta o nosso coração e que frutos damos em palavras e obras?
in Voz da Verdade 03.03.2019
http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=7991&cont_=ver2

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DUELO
A cimeira sobre proteção de menores é um marco na vida da Igreja. O Papa apresentou 21 medidas para combater abusos

As medidas anunciadas pelo Papa são suficientes para prevenir os abusos no seio da Igreja católica?

TERESA TOLDY
SIM A complexidade da questão torna difícil responder “sim” ou “não” de forma taxativa. Contudo, e porque, por vezes, se invoca a “complexidade” para não responder e para não agir, julgo que se pode responder “sim” à pergunta, acrescentando-lhe condições ou requisitos. As medidas anunciadas pelo Papa constituem, sobretudo, o reconhecimento da necessidade de pôr cobro àquilo que se torna uma cumplicidade da hierarquia eclesial com o crime. Porque o abuso sexual é um crime. Internamente à Igreja, poder-se-á considerar legítima a utilização do termo “pecado” para classificar estas situações, mas a Igreja tem a obrigação de reconhecer que, tratando-se de um crime, as pessoas que o cometem não só terão de sofrer consequências “eclesiásticas”, como também consequências legais. A Igreja não é uma instituição acima da lei. Uma das medidas previstas consiste precisamente em “informar as autoridades civis e as autoridades eclesiásticas superiores respeitando as normas civis e canónicas.”

É muito relevante o reconhecimento de que a Igreja tem de prestar contas aos seus fiéis, especialmente aos que foram vítimas de abuso, mas também à sociedade em geral, bem como o reconhecimento da importância dos meios de comunicação social na denúncia destas situações. É muito importante que uma freira tenha falado na reunião em Roma, tornando visível a abominável ideia de que os padres abusarem sexualmente de freiras seria uma garantia de safe sex (não falo do recurso a preservativos, mas sim à ideia inqualificável de que, por serem freiras, não existiria o perigo de contrair sida). É relevante que esteja previsto “o acompanhamento e a proteção das vítimas,” em vez de apenas se tentar calá-las, descredibilizando-as. É relevante a intenção de “incluir especialistas leigos nas investigações e nos vários níveis de juízo dos processos canónicos concernentes aos abusos sexuais e/ou de poder,” algo pedido há muitos anos por muitas vítimas e não só. A existência de “programas de formação inicial e permanente para consolidar a maturidade humana, espiritual e psicossexual dos seminaristas é também crucial, já que a ausência de uma formação que leve a sexualidade a sério, como algo que faz parte do ser humano, associada a uma fobia “programada” contra as mulheres e a um celibato imposto podem contribuir para uma visão infantil ou de uma arrogância ignorante acerca do tema da identidade corpórea de todos os seres humanos.
“É muito relevante o reconhecimento de que a Igreja tem de prestar contas aos fiéis, especialmente às vítimas de abuso”
Contudo, tal como acontece com todos os crimes, a lei, em si, não põe cobro à sua existência. Por isso, nada se alterará se as conferências episcopais dos diversos países, não passarem à prática as medidas propostas pelo Papa, quer o façam por indolência, conivência, ou por uma teimosa soberba relativamente ao reconhecimento da validade jurídica das instituições laicas às quais estas situações devem ser levadas. Isto seria terrível, porque a conclusão a tirar desta reunião, para as vítimas e para a própria Igreja, não poderá ser que a mesma constituiu uma “experiência de beleza diante da proclamação da verdade”: para as vítimas, para a Igreja, para a sociedade, não há beleza num crime nem no seu encobrimento. O crime tem de ser punido e a denúncia das situações tem de acontecer. Sem medos de perda de poder. Infâncias ou adolescências roubadas não podem ser encobertas. É que, para os milhares de vítimas, a Igreja, em vez de constituir um sinal de reconhecimento da dignidade de todos os seres humanos, constituiu-se numa instituição que roubou a muitos a confiança naquilo que ela própria anuncia. Esta é a questão.
Investigadora do Centro de Estudos Sociais e professora da Universidade Fernando Pessoa

LUÍSA COSTA GOMES

NÃO  Os sucessivos escândalos sobre casos provados de pedofilia dentro da Igreja envergonham-nos a todos, não como católicos, nem como cristãos, mas como simples pessoas, obrigadas a assistir a um espectáculo de encobrimento corporativo sistemático e de realpolitik. Que se arrasta há pelo menos 70 anos, desde os primeiros casos relatados em meados do século XX. A bolha autodefensiva em que a Igreja há muito vive não a separa só da humanidade comum, mas mais infernalmente do cristianismo que ela prega. E parece que quanto mais nos entranhamos nessa bolha cristalizada de privilégio, silêncio e opacidade, mais se dissipa a originária mensagem de Luz. O Papa reconhece a cultura do encobrimento, a subavaliação dos envolvidos e dos estragos feitos. Diz que tem de acabar. Demonstra a sua sagacidade: sabe que hoje escândalos desta natureza são algodão-doce para os media e ele precisa do apoio da opinião pública como do pão para a boca. Porque estes podem ser os escândalos que põem em causa o poder temporal da Igreja.

“Há pecadores de primeira, os pedófilos dentro da Igreja e os seus cúmplices. E há os outros, julgados nos tribunais civis”

O que se desprende da atitude do Papa é uma quase obrigação (refere o “dever”) de ter de remexer em questão tão insalubre: na porcaria ancestral que vive afundada no silêncio colectivo a que a obediência e o interesse próprio obrigam. Por pressão da opinião pública, por tomada de consciência das vítimas, por incapacidade tecnológica de esconder as denúncias, os factos, os processos, de queimar dossiês. Daí o início do discurso pela jesuítica contextualização histórica da pedofilia (em dado passo comparado ao “crime de aborto”), e a noção da pedofilia como flagelo global e estatisticamente mais relevante no seio da família. Olha quem fala! Mas é o tal “mistério do mal”, é o demónio em ação. Pequenas diferenças: os pedófilos comuns não são religiosos que pregam o amor universal e não são julgados em tribunais eclesiásticos. As medidas propõem uma acção sempre colaborativa e conjunta entre o poder eclesiástico e civil. Essa é a diferença: há pecadores de primeira, os pedófilos dentro da Igreja e os seus cúmplices. E há os outros, julgados nos tribunais civis e recebidos nas prisões com as devidas honras. Em 2019, portanto, pela primeira vez, um Papa reuniu um sínodo para lhes “pedir” que “reflectissem” sobre isto. Propôs-lhes uma série de “pontos de partida para a reflexão” que eles próprios lhe tinham sugerido e que ele “elencou”. As 21 indicações são tecnicalidades que se fazem passar por “medidas concretas”, escritas nesta linguagem escolar da pedagogia por objectivos (elaborar, estabelecer, aplicar, informar, organizar, etc.) e tão burocráticas que se perdem no éter do jargão protojurídico. Faz pena. Não há nada que soe a verdadeiro no seu discurso. O que dali se tira é pouco, mas para atrair os media e aplacar as iras do “povo de Deus” o esquema funciona. Ele é o reformador, há cinco anos que anda a falar nisto. A palavra a reter é “falar”. Tem que crescer na sociedade civil a consciência de que se trata de uma pandemia. De que se trata de um crime contra a Humanidade. De que a Igreja está longe de querer realmente, ou mesmo de poder agir sem se reformar profunda e estruturalmente.
(Este texto saiu de uma conversa com Sergio Pantalena, a quem agradeço a disponibilidade e as boas ideias.)
Escritora (A autora escreve de acordo com a antiga ortografia)
in Semanário Expresso
https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2418/html/primeiro-caderno/a-abrir/duelo/duelo



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