31 março 2019

   
P/ INFO: Crónicas &  Francis tells Morocco's tiny Catholic minority to 'generate change, awaken wonder'
Estive a ver e penso que não vos enviei o mail da semana passada. Podem lê-lo no nosso blogue ou dizer-me para vo-lo enviar. Pelo lapso peço desculpa.

CONFESSAR-SE, PELO MENOS, UMA VEZ POR ANO
Frei Bento Domingues, O.P.
Confessar-se, pelo menos, uma vez por ano
A queixa actual é contra a obrigação de se confessar antes de comungar. Tanta gente a comungar e tão pouca a confessar-se.

1. O título deste texto pode parecer ridículo por anacrónico. Quem desejar conhecer as posições oficiais da Igreja sobre os Sacramentos deve ler os textos do Vaticano II, o Código de Direito Canónico (1984) e as orientações de reforma da Igreja do Papa Francisco, expressas nos documentos por ele assinados. Se mantenho este título, é porque ele serviu para dar cobertura a uma história de terror, para distorcer a prática sacramental da Igreja e ocultar a própria essência do cristianismo. Por outro lado, a discussão actual, em torno dos ministérios ordenados, não se deve deixar polarizar, apenas, por carências funcionais da pastoral actual da Igreja, embora a situação seja calamitosa.
O título desta crónica tem uma história. O IV Concílio de Latrão é assim chamado porque foi realizado em Roma, na Basílica de S. João de Latrão, a cátedra do Papa. Aconteceu entre 11 e 30 de Novembro de 1215.
 Esta iniciativa de Inocêncio III teve a maior participação de bispos de toda a Antiguidade, Idade Média e Idade Moderna. É considerado, pelos historiadores, como o ponto mais alto e importante do papado do século XI ao século XIII[1].
Compareceram 404 bispos, 71 primazes e metropolitas, 800 abades e priores. Além disso, cada bispo possuía uma numerosa comitiva. Os patriarcas orientais, embora convidados, não compareceram, mas todos os reinos cristãos enviaram representantes.
Este concílio confirmou as magníficas orientações de reforma da Igreja do grande Papa Inocêncio III, deixou-se, porém, enredar nas obsessões da Quinta Cruzada e das medidas violentas contra os albigenses. Deu, no entanto, amplo espaço à doutrina sobre a Eucaristia e o sacerdócio ministerial, acolhendo o conceito de transubstanciação, cunhado pela primeira escolástica. A obrigação da confissão anual e da comunhão pela Páscoa foram as ordenações mais notadas do concílio e mais duradoiras.
O historiador Jean Delumeau estudou o imenso problema histórico da confissão em países católicos[2]. Foi, durante séculos, um tema central da Quaresma. A confissão sacramental, uma vez por ano, era o mínimo dos mínimos, em regime de cristandade. A maior ou menor frequência dependia das diversas correntes de ascética e mística. Teve uma boa aliança na devoção ao Sagrado Coração de Jesus, expressa na recomendação e nas garantias espirituais das primeiras sextas-feiras. Mas a desobriga, para poder comungar pela Páscoa da Ressurreição, enchia as Igrejas com filas intermináveis. Era mesmo, apenas, uma desobriga.
2. A queixa actual é contra a obrigação de se confessar antes de comungar. Tanta gente a comungar e tão pouca a confessar-se.
Parece-me que estamos perante um grande equívoco. A celebração da Eucaristia é, do começo ao fim, o grande sacramento da confissão dos pecados e da misericórdia de Deus. Só há Eucaristia, como acção de graças, por Deus não ter deixado Jesus de Nazaré vítima de um assassinato. O testemunho que as mulheres receberam é que, afinal, a morte não foi a última palavra sobre a figura mais extraordinária de toda a história conhecida da humanidade. Sem o reconhecimento de que Jesus continua nosso contemporâneo, não é possível celebrar a Eucaristia.
O assassinato do Nazareno teve responsáveis entre os seus adversários e, pelo medo, abandono dos seus discípulos. Esse problema ficou resolvido antes do último momento do crucificado: Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem. É evidente que os discípulos reconheceram o seu erro e o seu pecado.
Quando celebramos a Eucaristia, damos graças a Deus por Jesus Cristo e por tudo o que de magnífico realizaram tantas pessoas ao longo da história, antes e depois do seu aparecimento histórico.
Se nas celebrações fôssemos capazes de reconhecer a beleza e a bondade do mundo, testemunhada de mil maneiras, mas evidente em pessoas que passaram a vida ao serviço da alegria dos outros, teríamos muitos evangelhos para contar, muita alegria a transmitir e a partilhar. Poderíamos mostrar que Deus é a nossa festa e nós a tornamo-nos uma festa para Deus e uns para os outros. Se no coração da própria Eucaristia proclamamos que ela é pela remissão dos pecados de todos, porque não aceitar que somos pecadores, que estragamos a nossa vida e a vida dos outros, quando a misericórdia nos é oferecida para alterar o rumo que demos e damos à nossa vida? Uma celebração eucarística é o espaço de uma revolução espiritual. Quem não quer entrar nessa aventura pode ir à Igreja, receber a hóstia, beber do cálice, mas não foi à Missa real. Participou num ritual, mas não entrou na sua alma.
3. É por tudo isso que não posso aceitar que a confissão dos pecados, ao longo da celebração, seja um faz de conta, não valha nada. É uma oferta de absolvição geral para quem a acolhe como pura graça de Deus e com o desejo de a deixar frutificar na sua vida.
Neste momento, estão a reunir-se duas grandes tragédias espirituais. Por um lado, não se quer rever a presidência das celebrações eucarísticas, para a qual, homens casados e mulheres estão excluídos. Por outro, os padres são cada vez menos e, segundo o regime actual, em muito países, tornam-se uma espécie em extinção: é a lógica da natureza. Entretanto, em muitas zonas do país e em muitas famílias, tradicionalmente católicas, as novas gerações nem à Missa vão nem apresentam ao baptismo os seus filhos.
Tudo isto deve ajudar-nos a voltar a questões essenciais. A primeira é a do pensamento interrogativo e da oração. As lideranças da Igreja não podem continuar presas a épocas de cristandade, que já não existem, nem tentar a ficção de que existem porque ainda subsistem minorias rituais.
Impõe-se uma iniciação à descoberta do próprio sentido da vida. Sem esse trabalho, não nos damos conta daquilo que Paulo descobriu em Atenas, pela via de autores gentios: na divindade vivemos, nos movemos e existimos[3]. Ao tomar consciência do fundo da realidade em que vivemos, pode nascer a oração, isto é, a abertura ao mistério infinito que nos envolve e nos vivifica.
É dentro desse questionamento que podemos acolher a revelação que comoveu o próprio Jesus: somos amados, estamos no coração de Deus[4], aconteça o que acontecer.
in Público 31.03.2019
https://www.publico.pt/2019/03/31/sociedade/opiniao/confessarse-menos-ano-1867197


[1] Cf. Hubert Jedin, Manual de Historia de la Iglesia IV, Herder, Barcelona, 1973.
[2] Aquilo em que acredito, Círculo de Leitores, Le Péché et la peur, Fayard, 1983; L’aveu et le pardon. Les difficultés de la confession. XIIIe-XVIIIe siècle, Fayard, 1990.
[3] Act 17, 28
[4] Lc 10, 17-22
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O que queremos? Ser felizes.
Decálogo para a felicidade   
Anselmo Borges
Padre e Professor de Filosofia 

1. Agora, há dias de tudo e para tudo. Certamente o dia mais universal é o dia 20 de Março, porque nele se celebra o Dia Mundial da Felicidade. Sim. O que é que verdadeiramente queremos? Não há dúvida sobre isso. Queremos todos ser felizes. O Papa Francisco acaba também de o reconhecer e dizer: “A busca da felicidade é algo comum em todas as pessoas, de todos os tempos e idades”, pois foi Deus que colocou “no coração de todo o homem e mulher um desejo irreprimível da felicidade, da plenitude”. “Os nossos corações estão inquietos e em contínua busca de um bem-estar que possa saciar a nossa sede de infinito”, desejo dAquele que nos criou e que é, Ele mesmo, o amor, a alegria, a paz, a verdade e a beleza.
2. Precisamente por ocasião desse dia a celebrar a felicidade, Vatican News propôs, a partir de textos e declarações de Francisco, uma espécie de decálogo para a alegria e a felicidade.
Ficam aí, em síntese, dez pontos sobre o tema, esse Decálogo.
2. 1. O início da alegria é começar a pensar nos outros
O caminho da felicidade começa pela necessidade de passar do egoísmo ao pensar nos outros. “Quando a vida interior se encerra nos próprios interesses”, sem “espaço para os outros”, não se goza da “doce alegria” do amor. Não se pode ser “feliz sozinho”. É necessário redescobrir a generosidade, porque, como disse São Paulo aos Coríntios, “Deus ama quem dá com alegria”. Jesus também disse: “Dá mais alegria dar do que receber”. “Se conseguir ajudar uma só pessoa que seja a viver melhor, isso já é suficiente para justificar o dom da minha vida”.
2. 2. Afastar a melancolia
Francisco gosta de citar o livro bíblico de Ben Sira: “Meu filho, se tens com quê, trata-te bem. Não te prives da felicidade presente, e não deixes perder nenhuma parcela de um legítimo desejo que se te apresente no caminho”. “Deus deseja a felicidade dos seus filhos também nesta terra, embora estejam chamados à plenitude eterna, porque Ele criou todas as coisas ‘para que’ todos possam desfrutá-las”. “O cristianismo não consiste, lembra, não consiste numa série de proibições que reprimem os nossos desejos de felicidade, mas num projecto de vida que pode fascinar os nossos corações”. Deus não é invejoso da nossa alegria e felicidade, o seu único interesse é que sejamos felizes, todos, para isso nos criou.  Portanto, “quer que sejamos positivos” e não prisioneiros de “complicações intermináveis” e pensamentos negativos. Lá está o dito, que não se deve esquecer nunca: “Por cada minuto que nos zangamos, perdemos 60 segundos de felicidade”.
2. 3. Não são o poder, o dinheiro ou os prazeres efémeros que dão alegria, mas o amor
“A felicidade não é algo que se compra no supermercado, a felicidade vem apenas de amar e deixar-se amar”. “Quando procuramos o êxito, o prazer, o ter de forma egoísta e fazemos ídolos, também podemos experimentar momentos de intoxicação, uma falsa sensação de satisfação; mas, no final, convertemo-nos em escravos, nunca satisfeitos, vemo-nos obrigados a procurar mais e mais, sempre mais”. A alegria verdadeira “não vem das coisas, do ter; nasce do encontro, da relação com os outros, do sentir-se aceite, compreendido, amado e do aceitar, do compreender e do amar”.
2. 4. Ter sentido de humor
O caminho da alegria também tem um sentido do humor: saber como rir-se das coisas, dos outros e de si mesmo é profundamente humano, é uma atitude “próxima da graça”. O contrário de graça não é desgraça? É preciso dar particular importância à auto-ironia, para vencer a tentação do narcisismo: os narcisistas, diz Francisco, “olham-se ao espelho, compõem o cabelo”. Dá este conselho: quando te vires ao espelho, “ri-te de ti mesmo, far-te-á bem”.
2. 5. Saber agradecer
A alegria também consiste em poder ver os presentes que todos os dias a vida nos oferece. Estar vivo, a maravilha da beleza da vida e das coisas grandes e pequenas que preenchem os nossos dias. Por vezes, a tristeza está relacionada com a ingratidão, com “a incapacidade de reconhecer os dons de Deus”. É preciso seguir o exemplo de São Francisco de Assis, “capaz de sentir-se emocionado com gratidão diante de um pedaço de pão duro ou louvar a Deus com alegria pela simples brisa que acariciava o seu rosto”. Viver com alegria também é “a capacidade de saborear o essencial” com sobriedade e partilhar o que se tem, renovando “em cada dia o maravilhamento pela bondade das coisas, sem se afundar na opacidade do consumo voraz”. Um coração que sabe ver e como agradecer e louvar é um coração que sabe regozijar-se.
2. 6. Saber perdoar e pedir perdão
Num coração devastado pela ira, pelo ódio e pelo rancor, não há lugar para a felicidade. Quem não perdoa causa dano, prejudica-se, antes de mais, a si mesmo. O ódio é causa de tristeza e autodestruição. É preciso perdoar como Deus nos perdoa. Perdoar inclusivamente a si mesmo. Infelizmente, observa Francisco, por vezes “não somos conscientes do perdão de Deus”, e isto vê-se nas caras tristes dos cristãos. E recorda um filósofo que disse: “Os cristãos dizem que têm um Salvador; eu acreditarei, acreditarei no Salvador, quando tiverem o rosto de gente salva, de redimidos, felizes por estarem salvos”. O que faz o perdão? “Engrandece o coração, gera a partilha, dá serenidade e paz”. 
2. 7. A alegria do compromisso e o descanso
Francisco convida a experienciar a alegria de trabalhar  com outros e pelos outros na construção de um mundo mais justo, fraterno e livre. E, “contra o pensamento dominante”, apela para o espírito das Bem-aventuranças, que são “o caminho da verdadeira felicidade”. São felizes “os simples, os humildes que deixam espaço para Deus, que sabem chorar pelos outros e pelos seus erros, continuam tranquilos e serenos, lutam pelo justiça, são misericordiosos com todos, mantêm a pureza do coração, trabalham continuamente pela paz e permanecem na alegria, não odeiam e até, quando sofrem, respondem ao mal com o bem”. As Bem-aventuranças não são comportamentos e virtudes para heróis, mas um estilo de vida para aqueles que se reconhecem necessitados de Deus. Não perdem “nunca de vista o caminho de Jesus”: estão sempre com Ele no trabalho e sabem descansar com Ele para empreender o percurso com alegria.
2. 8. Oração e fraternidade
Pelo caminho da felicidade também há provações e fracassos que podem levar ao desalento. Contra isso, duas indicações, para não perder a esperança e não se render: perseverar na oração e nunca caminhar sozinho. “A oração muda a realidade, não o esqueçamos. Muda as coisas ou muda o nosso coração, mas muda sempre a situação. Rezar é agora a vitória contra a solidão e o desespero”. E Francisco adverte contra a tentação do individualismo: “Sim, podes ter êxito na vida, mas não, sem amor, sem companheiros, sem essa experiência tão bela que é o arriscar juntos. Não se pode caminhar sozinho”.
2. 9. Abandonar-se nas mãos de Deus
Na vida, há o tempo da cruz, da noite e da dúvida, momentos tenebrosos em que nos sentimos abandonados por Deus, e é nesse silêncio de Deus que precisamos ainda mais de nos abandonarmos confiadamente nas suas mãos. Aí, encontramos a paz, na certeza de que “as graças do Senhor não terminaram, as suas misericórdias não se esgotam”. Como diz Jesus: “A tua tristeza transformar-se-á em alegria ‘e’ ninguém poderá tirar-te a tua alegria”. “A Boa Nova é a alegria de um Pai que não quer que nem um dos seus filhos se perca”.
2. 10. Saber que és amado
A alegria autêntica provém do encontro com Jesus, de acreditar que Ele nos amou a ponto de dar a sua vida por nós. Fonte da alegria verdadeira é saber que somos amados por Deus, que é Pai e Mãe. Fundamento inabalável da alegria é escutar Deus que nos diz: “Tu és importante para mim, amo-te, conto contigo”. Para Deus, “não somos números, mas pessoas” que Ele ama. “Nascemos para nunca morrer, nascemos para desfrutar eternamente da felicidade de Deus”.
3. Este é o segredo do Papa Francisco: “Sou amado, logo existo”. Por isso, “não tem medo de nada”.
Aqui, permita-se-me uma confissão pessoal. Tentei um dia dizer isso numa palestra em Maputo: que valemos para Deus, temos valor para Ele, e isto é que justifica a vida, na perspectiva da doutrina célebre da justificação em Lutero. Vim depois a saber que um moçambicano tinha feito uma caminhada de mais de 10 quilómetros a pé, para ir dizer a uma irmã: “Sabes? Agora percebi: valemos para Deus, temos valor para Ele. Esta é a fonte da nossa alegria. Tinha de vir dizer-to.”
in DN 31.03.2019
www.dn.pt/edicao-do-dia/31-mar-2019/interior/o-que-queremos-ser-felizes-decalogo-para-a-felicidade-10743693.html?target=conteudo_fechado
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QUE COISA SÃO AS NUVENS
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
VOLTAREMOS ÀS ALDEIAS?
A ESFERA DO SUJEITO, MESMO AQUELA PRIVADA, É CADA VEZ MAIS ABSORVIDA PELO IMPERATIVO DE PRODUZIR E CONSUMIR, E SÓ POR ESSE
A primeira coisa a reconhecer é que a compreensão do tempo presente, deste tempo que as nossas instituições e nós próprios habitámos, não é tarefa fácil. Como escreve o filósofo Roberto Mancini, “parece claro que a nossa sociedade é constituída por uma humanidade que não se vê a si mesma, que não tem uma autoconsciência”, mas facilmente atua a partir das solicitações do imediato e movida por paixões como o medo, a angústia, o prazer ou a raiva. Penso, a esse propósito, em títulos de ensaios importantes que saíram nos últimos anos e que tentam uma radiografia da época que vivemos. Recordo especialmente três obras. O texto dos sociólogos Anthony Elliott e Charles Lemert, “O novo individualismo: o custo emocional da globalização”, que mostra como o processo de globalização não tem apenas implicações do ponto de vista económico e político, como se poderia superficialmente pensar, mas atua de uma forma condicionante sobre a subjetividade e a existência social de cada um de nós. A esfera do sujeito, mesmo aquela privada, é cada vez mais absorvida pelo imperativo de produzir e consumir, e só por esse. Somos enquadrados como produtores e consumidores, e a esse ditame todas as outras dimensões (pensemos na interioridade, na vida emocional, nas relações interpessoais, na família...) se devem submeter. A globalização está a operar, desta maneira, transformações identitárias de peso. O espaço da nossa liberdade diminui e o novo individualismo que emerge é completamente dependente das redes de comunicação e de estilos de vida onde o elemento da compulsão, da incerteza e da solidão são dominantes.
O segundo ensaio que gostaria de referir é “Os novos medos”, do antropólogo Marc Augé, que se organiza em torno a esta pergunta: “Não teremos nós substituído o ancestral medo da morte pelo medo contemporâneo que experimentámos em relação à vida?” Segundo Augé, o mundo teve sempre de lidar com o medo, mas o hodierno emaranhado de medos que influi sobre nós tem fatores que o agravam, como a rutura da coesão social, o enfraquecimento do poder simbólico das instituições ou a acelerada capacidade de comunicação que permite que o medo se difunda instantaneamente e por toda a parte. E caímos nesta situação paradoxal: por um lado, pertencemos a uma das gerações mais seguras da história da humanidade (pelos menos, aqueles de nós que vivem nas regiões modernizadas do mundo), e, por outro, parecemos condenados a viver num estado de alerta e de pesadelo constante. Cada dia que passa não cessa de crescer o inventário dos nossos medos.
Cresce uma atmosfera tóxica, onde a tentação da violência civil e o horizonte de um colapso ecológico global parecem cada vez mais próximos e coincidentes
O terceiro e último ensaio é o de Pankaj Mishra, “Tempo de Raiva: Uma História do Presente”, onde se descreve o nosso tempo como uma pandemia global do ressentimento. As devastadoras consequências no campo laboral trazidas pelo surto tecnológico, a redução do homem a homo economicus, a promessa não cumprida de um progresso garantido e irreversível estão a empurrar literalmente centenas de milhões de pessoas para um sentimento de falência, exclusão e revolta. As estruturas tradicionais como a família, a escola, a comunidade, o sistema de proteção social por parte dos Estados foram alvo de processos de erosão e estão hoje muito mais vulneráveis. Aquilo que vemos crescer é uma atmosfera tóxica de impotência, humilhação e raiva, onde a tentação da violência civil e o horizonte de um colapso ecológico global parecem cada vez mais próximos e coincidentes. Mas a raiva não basta: precisamos, sim, de repensar o que é o homem e o mundo. E Mishra lança um desafio contracorrente: “Tornar a construir aldeias na malha de um mundo globalizado.”
in Semanário Expresso 30.03.2019

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À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves
Domingo IV da Quaresma
“Tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos,
porque este teu irmão estava morto e voltou à vida,
estava perdido e foi reencontrado.”
Lc 15, 32
A surpresa da festa
Se me perguntassem qual é, para mim, a parábola mais bela contada por Jesus, creio que não hesitava e diria: “a do pai e dos dois filhos, contada por S. Lucas”! No coração da Quaresma deste ano, no domingo “laetare”, da alegria, em que os sorrisos afloram aos rostos, habitualmente sisudos, dos fiéis, quando vêm o padre entrar com paramentos cor-de-rosa, entramos nela de corpo inteiro. Porque nela estamos todos nós e está a nossa história, já e ainda a caminho da festa que o Pai nos oferece.
Há um ambiente de tragédia que a percorre. Um pai que deseja a comunhão com os filhos e não consegue. Começa por ser tratado como se tivesse morrido pelo mais novo que pede a sua parte da herança e abandona a casa. Não desiste de esperar o seu regresso, e tem de travar o coração para não o ir buscar à força. Descobre que o outro filho tudo cumpria mas com pouco amor e não é capaz de aceitar o regresso do irmão. É a descrição da realidade do nosso mundo: todos chamados a viver uma mesma felicidade, mas divididos e em guerras por ganâncias e egoísmos, incapazes de nos acolhermos como irmãos.
O pai é aquele que está sempre em movimento: faz a vontade ao filho mais novo, o coração segue os passos atribulados do filho, corre ao seu encontro quando o vê vir ao longe, manda revesti-lo com as vestes de filho, dá ordens para que a festa comece, vem ouvir e falar ao coração do filho mais velho, para que entre na festa. É um pai que ouve e só fala para dizer a alegria da passagem da morte à vida dos seus filhos. Dos dois, pois o segundo, se se não entrar na festa ficará na morte.
Jesus contou esta parábola aos “filhos mais velhos”, os escribas e fariseus, (talvez sejamos nós!), que murmuravam por Jesus acolher os pecadores, os “filhos mais novos” (quantas vezes nós e tantos outros!). Os filhos parecem comportar-se como assalariados e olham o pai como patrão: assim pede para ser tratado o mais novo, consciente do mal que fez; e assim descreve o mais velho o seu trabalho na casa do pai. Mas não se cansa o pai de os tratar como filhos e de lembrar que são irmãos. Curiosamente, ambos falam ao pai, mas nunca falam entre si! Seremos parecidos com eles, anos pós anos a rezar ao mesmo Pai, lado a lado, sem nos conhecermos, sem “termos nada a ver uns com os outros”?
Ficamos sem saber se o irmão mais velho entrou na festa. Porque cabe a cada um de nós responder. Ainda mais, uma festa em dia de trabalho, na surpresa e na abundância de um Pai que tudo gasta por amor dos filhos. Onde não contam os méritos nem se apontam os deméritos de ninguém. O que vale é o “vitelo gordo” da surpresa do amor do Pai, oferecido a quem se alegra por ser filho e irmão. Que pena não serem os cristãos conhecidos pelos “da Festa”, como já fomos conhecidos pelos “do Caminho”!
in Voz da Verdade 31.03.2019
http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=8065&cont_=ver2

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Francis tells Morocco's tiny Catholic minority to 'generate change, awaken wonder'
RABAT, MOROCCO — Pope Francis sought to encourage Morocco's tiny Catholic community March 31, reassuring them that their effectiveness is not determined by their size but their ability to "generate change and awaken wonder and compassion."
In a meeting with Catholic and Christian clergy at Rabat's Cathedral of St. Peter toward the end of his two-day visit to this overwhelmingly Muslim North African nation, the pontiff called being a small fraction of the population "not a problem."
"What are Christians like, in these lands?" Francis asked the dozens of priests and religious taking part in the encounter, before answering: "They are like a little yeast … to mix in with a great quantity of flour until all of it is leavened."
"Jesus did not choose us and send us forth to become more numerous!" the pope exhorted. "He called us to a mission. He put us in the midst of society like a handful of yeast: the yeast of the Beatitudes and … fraternal love."
"Our mission as baptized persons, priests and consecrated men and women, is not really determined by the number or size of spaces that we occupy," said Francis.
"I believe we should worry whenever we Christians are troubled by the thought we are only significant if we are the flour, if we occupy all the spaces," the pope continued. "You know very well that our lives are meant to be 'yeast,' wherever and with whomever we find ourselves, even if this appears to bring no tangible or immediate benefits."
Francis was visiting Morocco in a trip that has primarily focused on highlighting efforts for Christian-Muslim dialogue and calling attention to the continuing crisis of refugees who risk dangerous voyages across the Mediterranean hoping to enter Europe after fleeing violence and famine.
The pontiff began his visit March 30 with a call for a global "change of attitude" toward migrants, warning that the crisis will "never be resolved by raising barriers [or] fomenting fear of others."
But during the final day of the trip, Francis' schedule was focused on encouraging Catholics in Morocco, who number about 23,000 among a population of some 34.9 million and are mainly foreign-born workers. After the morning meeting at the cathedral, the pontiff led what the Vatican said was likely the most attended Mass ever celebrated in the country.
Both events were marked by the participation of members of other Christian denominations.
Attending the cathedral meeting were the three leaders of the Council of Christian Churches of Morocco, an ecumenical group that facilitates dialogue between the Catholic, Anglican, Evangelical, Greek Orthodox and Russian Orthodox communities in the country.
Francis thanked the council for its work at the opening of his address, calling it a "clear sign of the communion" experienced in the country.
Also at the meeting were Catholic bishops from across the territory of the Regional Episcopal Conference of North Africa, which includes Morocco, Algeria, Tunisia and Libya.
In his remarks, Francis reflected on how priests and religious pray and care not only for Catholics but all entrusted to them. The pope recalled meeting with one priest who had discussed with him the power of the words "give us this day our daily bread" in the Our Father prayer.
Francis said the priest's prayer "expanded to that people which was in some way entrusted to him, not to govern but to love, and this led him to pray this prayer with special feeling."
"Consecrated persons and priests bring to the altar and to their prayer the lives of all those around them; they keep alive, as if through a small window, the life-giving power of the Holy Spirit," said the pontiff.

"How beautiful it is to know that, in different parts of this land, through your voices, all creation can constantly pray: 'Our Father,' " the pope added.
Despite its small size, the Catholic Church in Morocco runs 34 schools across the country that educate some 12,000 children. The church also maintains ten orphanages and one hospital.
Among the religious attending the meeting was 95-year-old Trappist Br. Jean-Pierre Schumacher, the last survivor of the 1996 killings of the monks of Tibhirine in Algeria. Before speaking, Francis greeted Schumacher, who now lives in Morocco, and kissed his hand.
At the later Mass at Rabat's Prince Moulay Abdellah sports complex, the pope reflected on the parable of the prodigal son and called on Moroccan Catholics to confront any tensions they feel amongst themselves.
Earlier in the day Francis visited a social service center in nearby Temara run by Vincentian sisters that offers free meals to about 150 children each day and trains women in tailoring. As he left, the pontiff paused for a photo surrounded dozens of people and children assisted by the center, smiling as they waved small Vatican and Moroccan flags.
Joshua J. McElwee
[Joshua J. McElwee is NCR Vatican correspondent. His email address is jmcelwee@ncronline.org. Follow him on Twitter @joshjmac.]
in NCR, 31.03.2019
https://www.ncronline.org/news/vatican/francis-tells-moroccos-tiny-catholic-minority-generate-change-awaken-wonder?clickSource=email
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