01 setembro 2019

P / INFO: Crónicas do Padre Anselmo de Agosto a 01.09
NOTA: Falta a crónica de 11.08 que eu já tinha postado
 Deus aos ricos: “Insensatos!”, 01.09
Religião e espiritualidade, 25.08
 Francisco: a Europa, a Amazónia, as migrações, 18.08         
O Homem: trabalhador e festivo, 04.08

Deus aos ricos: “Insensatos!”             
Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
                                                         
1. É mau ser rico? Não, de maneira nenhuma. Ai de nós, se não houvesse ricos, com iniciativa e capacidade para investir, criar riqueza, dar emprego a tanta gente, fazer progredir um país e o mundo! A riqueza, diz a Bíblia, é uma bênção. A pobreza, essa é uma maldição. O que é que podemos fazer sem algum dinheiro? Mesmo para fazer o bem e ajudar outros precisamos também de dinheiro. A expressão “Igreja dos pobres”  pode levar a equívocos, pois não se trata de realizar “o ideal” de todos serem pobres. Pelo contrário: “Igreja dos pobres e para os pobres”, para acabar com um mundo de pobres que não têm aquele mínimo que lhes permita realizar a sua dignidade humana e cristã.
Pense-se na “parábola dos talentos”. Um dos contemplados foi condenado porque nada fez com o seu talento. Cada um de nós é ele, é ela, o que a família e a natureza nos deram gratuitamente e também o resultado do que conquistámos com o nosso trabalho e o nosso esforço...
2. Então porque é que a Bíblia condena os ricos: “Ai de vós, os ricos!”, proclama Jesus no Evangelho. Porque há a riqueza que é preciso condenar.
2. 1. Em primeiro lugar, é maldita a riqueza roubada, a que provém do roubo, da exploração. E, meu Deus!, o que se rouba, também neste país! Aos milhões e milhões! Uma desgraça! Por exemplo, há Bancos que se afundam e o Estado, isto é, nós, os contribuintes (alguém viu o Estado?), pagamos milhares de milhões e não acontece nada, nem sequer um julgamento. Foi a antiga Procuradora-Geral da República, Joana Marques Vidal que afirmou  recentemente que o Estado está “capturado” por redes de corrupção e compadrio: “Há efectivamente algumas redes que capturaram o Estado e que utilizam o aparelho do Estado para a prática de actos ilícitos... Se nós pensarmos um pouco naquilo que são as redes de corrupção e de compadrio, nas áreas da contratação pública, que se espalham às vezes por vários organismos de vários ministérios, autarquias e serviços directos ou indirectos do Estado, infelizmente nós estamos sempre a verificar isso.” E há os pequenos e os grandes ladrões, como já Lutero se queixava: “Quando olhamos para o mundo de hoje através de todas as camadas sociais, constatamos que não passa de um grande, enorme covil cheio de ladrões... Aqui, seria necessário calar quanto aos pequenos ladrões particulares, para atacar os grandes e violentos, que diariamente roubam não uma ou duas cidades, mas a Alemanha inteira... Assim vai o mundo: quem pode roubar pública e notoriamente vai em paz e livre e recebe aplausos. Em contraposição, os pequenos ladrões, se são apanhados, têm de carregar com a culpa, o castigo e a vergonha. Os grandes ladrões públicos devem, porém, saber que perante Deus são isso mesmo: os grandes ladrões.” O que Lutero disse há quinhentos anos para a Alemanha de então, desgraçadamente vale hoje para o mundo todo, incluindo Portugal.
2. 2. É amaldiçoada a riqueza insolidária, também com a Natureza (veja-se o que se passa, por exemplo, com a Amazónia). Não se trata, portanto, de acabar com a riqueza, mas de tornar solidários os ricos. Ai dos ricos que exploram os trabalhadores, que fogem aos impostos, que esmagam os pobres, que só pensam neles mesmos, abandonando à miséria os desgraçados e tantos que morrem à fome.  Uma das vergonhas maiores da Humanidade é que há hoje comida suficiente no mundo para que todos pudessem viver e não somos capazes de erguer um sistema de distribuição que impeça a morte à fome ou em consequência dela de 40.000 pessoas por dia, segundo algumas estatísticas. E alguns dos maiores fluxos financeiros do mundo têm a ver com matar: pense-se no armamento, nas drogas, na prostituição...
2. 3. A maldição maior provém do facto de se fazer do dinheiro um ídolo.
Jesus foi claro: “Não podeis servir a Deus e a Dinheiro”, com maiúscula, Mammôn, um deus a quem entregais a vossa vida e salvação. E contou uma parábola: “Havia um homem rico, a quem as terras deram uma grande colheita. E pôs-se a discorrer, dizendo consigo: ‘Que hei-de fazer?, uma vez que não tenho onde guardar a minha colheita?’ Depois continuou: ‘Já sei o que vou fazer: deito abaixo os meus celeiros, construo uns maiores e guardarei lá o meu trigo e todos os meus bens. Depois, direi a mim mesmo: Tens muitos bens em depósito para muitos anos, descansa, come, bebe e regala-te’. Deus, porém, disse-lhe: ‘Insensato! Nesta mesma noite, vais morrer; e o que acumulaste para quem será?”
Está aquele rico, de noite, deitado na cama, sozinho, não tem ninguém, apenas aquele pensamento soberbo e auto-satisfeito de que tem riqueza suficiente para muitos anos. Não tem uma mulher amiga, não tem amigos, não pensa nos familiares, nos pobres e desgraçados, nos seus trabalhadores a quem talvez explore, não tem ninguém, é só ele, exaltado e exultante: “Descansa, come, bebe e regala-te!” Mas, de repente, assalta-o o terror da morte: “Esta noite vais morrer!” Afinal, tudo o que acumulou para quem será? Está angustiado. “Insensato!”, diz-lhe Deus. Para que foi a sua vida? Quem vai salvá-lo? Todas as suas riquezas acabam ali. Como escreve o grande exegeta Xabier Pikaza, ”este rico néscio, insensato, imagina céus de dinheiro e sofre terrores de morte.” Não lhe resta nada.
3. Por muito dinheiro que tenhamos, é necessário perceber (e não é preciso pensar muito) que há âmbitos essenciais da vida, o essencial, em que seremos sempre pobres, porque o dinheiro não compra tudo. A amizade não se compra. A alegria interior verdadeira não se compra. A honra não se compra. A dignidade também não. A salvação eterna não se compra. Deus, sim, Deus, não se compra. Ele há a graça, o gratuito.
in DN 01.09.2019
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RELIGIÃO E ESPIRITUALIDADE
Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
1. Não haja dúvidas. A religião, concretamente na Europa, também entre nós, está em queda. O número de agnósticos e ateus aumenta, para não falar na chamada “prática religiosa”, que desce a olhos vistos. O padre José Antonio Pagola escreveu recentemente um texto subordinado ao título: “Depois de séculos de ‘imperialismo cristão’, os discípulos de Jesus têm de aprender a viver em minoria.”
Significa isto o triunfo do materialismo crasso ou o que está em causa é mesmo a religião institucional, mas não a espiritualidade? O que é facto é que tenho encontrado cada vez mais grupos interessados na espiritualidade e no aprofundamento da vida interior. Multiplicam-se esses grupos e também a bibliografia sobre o tema. Por exemplo, com sucesso escreveu recentemente o teólogo Francesc Torralba uma obra: La interioridad habitada, onde se pode ler: “A educação da interioridade não é, em caso algum, um luxo nem uma questão menor, pois tem como objectivo final o cuidar de si mesmo, e, para isso, desenvolver todas as potencialidades latentes no ser humano, como a memória, a imaginação, a vontade, a inteligência e a emotividade, mas também o fundo último do seu ser: a espiritualidade, admitindo que esta pode adquirir formas, expressões e modos muito diversos em virtude dos contextos educativos e dos momentos históricos. No modelo da interioridade habitada reconhecem-se dois magistérios: o exercício do mestre humano que fala e actua a partir de fora e o do Mestre interior que habita lá no íntimo.”
2. Hoje, quero referir-me concretamente a Pablo D’Ors, padre e escritor. Numa recente entrevista a José Manuel Vidal, Director de Religión Digital, disse: “As formas tradicionais da Igreja não respondem à sensibilidade e à linguagem contemporâneas”. Numa outra entrevista, a “La Razón”, declarou: “Boa parte do descrédito da Igreja deve-se a ela sucumbir ao ritualismo”. Pablo D’Ors publicou um livro célebre do qual se venderam já mais de 150.000 exemplares, com o título Biografia do Silêncio. E é o fundador da associação “Amigos do Deserto”, que conta com uma rede de meditadores com mais de 500 membros, porque, como afirmou: “Há uma ânsia espiritual muito grande nesta sociedade secularizada.” Deixo aí, a partir destas duas entrevistas, pensamentos que julgo ser urgente meditar.
Porque é que o livro teve tanto sucesso? “Uma das razões do êxito é precisamente a sua oportunidade. Surgiu num momento em que aumentava claramente o interesse pela meditação. O seu prestígio construiu-se sobre o desprestígio da religião. O facto de muitas pessoas terem abandonado as formas religiosas não quer dizer que a sua sede espiritual esteja saciada ou se tenha anulado. Persiste e é preciso procurar novas formas de alimentá-la. A meditação é uma delas. Costumo dizer que a religião é o copo e a espiritualidade é o vinho, e o que nos sacia verdadeiramente é o vinho. A religião tem de estar ao serviço de suscitar a experiência espiritual, e nós, os cristãos, contentámo-nos com o copo.
As formas, para ir ao fundo da questão, deixaram de ser formas para o conteúdo e encerraram-se em si mesmas. O mal não está no rito, mas no ritualismo. As pessoas não sentem que isso as alimente. A isto junta-se que a linguagem tanto verbal como gestual do cristianismo não responde à sensibilidade nem à cultura contemporâneas.” Não podemos esquecer que tão importantes como o património que recebemos, o Evangelho, são o homem e a mulher de hoje. Por isso, “a nossa fidelidade não é só ao Evangelho, é a este homem e a esta mulher de hoje. Se estivermos longe deles, dificilmente entramos em relação.” Impõe-se que se perceba que “as formas têm que estar ao serviço do fundo, e muitas vezes as formas perdem-nos, pois ficamos no formalismo e privamo-nos de ir ao núcleo da questão. Qual é a urgência fundamental para a Igreja de hoje? Uma renovação espiritual; que estejamos verdadeiramente no nosso centro.”
Para Pablo D’Ors, o silenciamento interior é uma necessidade de primeira ordem. “A meditação é uma prática de silenciamento e quietude. É um trabalho que se faz com o corpo e com a mente e cujo propósito fundamental é o autoconhecimento.” Quando muitas coisas exteriores se foram afundando, ele descobriu a aventura interior, que é um processo de higiene da mente e do coração: “Normalmente temos uma grande confusão intelectual e sentimental.
Criámos uma cultura da exterioridade, representada fundamentalmente pelo telemóvel. Quanto maior conexão fora, menor conexão dentro. Perde-se a dimensão interior, porque a nossa cultura nos impulsiona e estimula para estar sempre fora.” Então, nas crises existenciais, as pessoas ficam desamparadas por dentro, pois nem sequer sabem se há “um dentro”. Por isso, “boa parte do êxito de muitas escolas de meditação radica nesta busca. Hoje, não falamos tanto de espiritualidade como de interioridade, que é o modo laico de dizer o mesmo.”
Precisamos de arrumar o nosso interior, para que haja mais espaço, pois, desse modo, distinguimos melhor. É como quando numa casa repleta de coisas começas a tirar o não necessário e começas a ver. Daí surge, paradoxalmente, o segundo fruto: a humildade. “Saber quem és, ter uma visão realista de ti mesmo, essa humildade, esse saber qual é o teu lugar, isso é o que te dá a paz interior.”
Pergunta-se se não há o perigo de estas correntes de espiritualidade serem um pouco individualistas, egocêntricas, ignorando a transformação do mundo.
Responde: “Creio que a meditação autêntica não se afasta de Deus. Mesmo que isso se não verbalize de maneira explícita. Quem verdadeiramente se conhece a si mesmo, mais cedo ou mais tarde, aponta para o mistério. Esse mistério poderá chamá-lo Deus ou não, mas Ele está lá. Em ti gerou-se uma atitude espiritual.”
Quanto à denúncia e ao compromisso com a mudança das estruturas: Sim, há o perigo de grupos espirituais caírem num espiritualismo desencarnado, mas a questão é de prioridades: “A justiça social, a denúncia, tudo isso, vem por acréscimo, é o fruto de estarmos centrados. Primeiro, vamos transformando a nossa própria vida. A oração, o nosso próprio espírito transforma-nos e, simultaneamente, vai transformando a vida à nossa volta, a vida familiar, a vida social, a vida do bairro. A vida da Nação.”
Deve-se prescindir das religiões? De modo algum. “O ‘mindfulness’ não é puramente laico, mesmo que os termos e as práticas se apresentem numa linguagem puramente secular. Isto é o que, modestamente, os “Amigos do Deserto” e eu queremos fazer com o cristianismo. Que seja uma tradução secular, para o mundo de hoje, da mensagem cristã. Para o Ocidente, a figura de Cristo é muito mais próxima do que a de Buda, e por isso o salto cultural que é preciso dar para ser meditador cristão é muito menor. Julgo que prescindir das religiões é um suicídio, porque isso significaria prescindir do nosso passado. Ora, quem prescinde do seu passado não sabe qual é o seu presente.” Não, não há o perigo de obsessão pelo “aqui e agora”. Porque “o sublinhado no presente não deveria fazer-nos perder de vista a importância do passado e do futuro. Recordar é passar a história pelo coração e ajuda-nos a compreender quem somos. Uma árvore sem raiz não se aguenta, o passado é a nossa raiz e é preciso cuidar dela. O mesmo digo do futuro.
O homem não é sem projecção e projecto de si. A espiritualidade cristã sempre sublinhou o futuro, o horizonte, e a budista, o presente. Penso que estamos num tempo de síntese.”
A propósito, como se relacionam em Pablo D’Ors “o ego do escritor e o ‘nãoego’ do meditador?” “Devo dizer que para mim silêncio e palavra são duas faces da mesma moeda. O segredo da palavra é o silêncio e o do silêncio, a palavra. Uma palavra nasce matinal no coração do leitor na medida em que foi preparada no silêncio. Para que a palavra seja fecunda, tem de nascer do silêncio. Com o tempo, fui descobrindo que a minha dupla vocação, sacerdotal e literária, é a mesma.”
Então, não existe realmente o perigo maior, que consiste em ficar encerrado em si mesmo, no egocentrismo? “O ego (o eu), que não é outra coisa senão a tendência para auto-afirmar-se, é necessário para viver. Não se trata de matar o ego, mas de colocá-lo no seu lugar.” Por isso, quanto a escutar-se a si mesmo ou escutar o outro, “é como perguntar o que é que é mais complicado: amar-se a si mesmo ou aos outros. É exactamente a mesma coisa. Por isso digo que a meditação é uma escola de escuta. Se aprenderes a escutar-te a ti mesmo poderás escutar os outros. Ninguém pode dar o que não tem.” Quanto ao egocentrismo: “Eu vejo-me agora a mim mesmo menos egocêntrico do que há uns anos. Mais magnânimo, com a alma maior. O critério para verificar que um caminho de meditação é autêntico é se te torna mais compassivo, mais justo e caritativo. Se o outro tem um papel mais importante na tua vida. A meditação corre o risco de perverter-te, se esquece a dimensão transcendente e se fica pela busca utilitarista de benefícios pessoais.”
O jornalista: “Chama-me a atenção que diga que é mais importante ser si mesmo do que alguém ‘bom’.” Pablo D’Ors: “Refiro-me a que o essencial é o indicativo da graça e não o imperativo moral. O decisivo para a construção de uma pessoa é experienciar o que é, e, na medida em que o fizer, comportar-se-á de uma maneira ou outra. Não temos de estar tão preocupados em ser bons, pela dimensão moral, como pela metafísica do ser. Sermos quem estamos chamados a ser. Se o formos, se na verdade fores tu, serás bom.” Objecção: “Haverá gente que seja ela mesma e seja egoísta.” Resposta: “Isso baseia-se numa visão do mundo, que é a minha, segundo a qual a luta entre a luz e a sombra não é paritária. O que há fundamentalmente é luz. Este ponto de partida não é subjectivo, é contrastável.
Por exemplo, se contares quantos comboios descarrilaram hoje no mundo e quantos chegaram ao destino verás que a imensa maioria chegou bem. Se fizermos o mesmo com tudo, vemos que o bem é significativamente mais. O que acontece é que os meios de comunicação social fazem-nos crer que o que existe é o mal, quando é o contrário. É como o céu e as nuvens: as nuvens podem tapar o céu, mas o que na realidade há é um céu. Estamos bem feitos.” Neste contexto, sobre a sua vocação: “Aos 18 anos. É como quando alguém se enamora e sabe que é a pessoa adequada quando a conhece. Foi uma experiência de encontro com o mistério, com a graça de Jesus Cristo. É uma sedução, um fascínio, um sentir que é o eixo vertebrador da tua vida, que lhe dá sentido, força. Foi a experiência do entusiasmo. Estar habitado pelos deuses, pelo espírito. A experiência de que havia algo substancial que tudo sustenta. Dessa experiência, a mais decisiva da minha vida, nunca duvidei.”
Qual é então o sentido da vida? “Redimir o mundo. Colocar luz onde há trevas, amor onde há desamor, esperança onde há inesperança e desespero, claridade na dúvida. Na medida em que fizermos isso, estamos bem e semeamos o bem.”
3. Está aí, bem à vista, a chave para entender a crise da religião e perceber a conversão de que a Igreja urgentemente precisa para ser o que Jesus quer. Ele passava noites na montanha a rezar e fez a experiência inexcedível do mistério de Deus como Abbá, Papá, querida Mamã. A consequência: amou a todos, por palavras e obras, a começar por aqueles e aquelas que ninguém ama, porque Deus é o sentido último da existência, não caminhamos para o nada, porque Deus é Amor. Tomás Muro disse-o, numa síntese perfeita: “O fundamento da religião é o medo. O fundamento do cristianismo é o amor”.
in DN 25.08.2019
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Francisco: a Europa, a Amazónia, as migrações
Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
                                                         
1. O Papa Francisco deu no passado dia 9 uma longa entrevista ao diário italiano “La Stampa” sobre os temas anunciados no título. Dada a sua importância, fica aí uma síntese, acrescentando algumas reflexões pessoais, referentes concretamente à possibilidade da ordenação de homens casados, um dos temas na agenda dos trabalhos do próximo Sínodo para a Amazónia, a realizar em Roma no próximo mês de Outubro, e ao problema imenso e dramático das migrações.
Francisco constata que o sonho dos pais fundadores da Europa unida “se debilitou com os anos”, sendo “necessário salvá-lo”. Quando se fala dos pais fundadores, trata-se nomeadamente dos políticos franceses Robert Schuman e Jean Monnet, do alemão Konrad Adenauer e do italiano Alcide De Gasperi. Eles perceberam que era urgente superar as feridas deixadas pela Segunda Guerra Mundial e “o seu sonho teve consistência porque foi uma consequência desta unidade”. É esta unidade que está fragilizada e que é preciso valorizar e realçar. Sem renunciar, evidentemente, à própria identidade, mas sem cair nos extremos do soberanismo nem no populismo. A Europa não pode nem deve fragmentar-se. “É uma unidade não só geográfica, mas também histórica e cultural.” Apesar das dificuldades, Francisco mostra-se confiante em que, com um novo Parlamento e novos órgãos de governo, “se inicie  um processo de impulso nesse sentido, que avance sem interrupções”.
Para isso, impõe-se o diálogo, pois “na União Europeia deve-se falar, argumentar, conhecer. Muitas vezes só se ouve monólogos de compromisso. Não, é preciso escutar.” Este diálogo deve ter como “mecanismo mental” o lema: “Primeiro a Europa e depois cada um de nós”. Evidentemente, este “cada um de nós não é secundário, mas a Europa conta mais”. Para um autêntico diálogo, “é necessário partir da identidade própria; a identidade própria não se negoceia, integra-se. A identidade é uma riqueza — cultural, nacional, histórica, artística — e cada país tem a sua, mas que seja integrada com o diálogo.” “Isto é decisivo: desde a identidade própria é necessário abrir-se ao diálogo para receber da identidade dos outros algumas coisas maiores. Nunca se pode esquecer que o todo é superior às partes. Cada povo conserva a sua própria identidade na unidade com os outros.”
É neste enquadramento que se deve atender aos perigos e enfrentá-los: o soberanismo e o populismo. “O soberanismo é uma atitude de isolamento. Estou preocupado porque se ouvem discursos que se parecem com os de Hitler em 1934. ´Primeiro nós. Nós... nós...’: estes são pensamentos aterradores. O soberanismo é fechar-se. Um país deve ser soberano, mas não fechado. A soberania deve ser defendida, mas as relações com outros países e com a Comunidade Europeia também devem ser protegidas e promovidas. O soberanismo é um exagero que acaba sempre mal: leva a guerras”. Acrescentou: O populismo também “fecha as nações” como o soberanismo. “O povo é soberano (tem uma maneira de pensar, de exprimir-se e de sentir, de avaliar); pelo contrário, os populismos levam-nos aos soberanismos: esse sufixo, ‘ismos’, nunca acaba bem.”
Sobre a identidade cristã da Europa, sublinhou que “a Europa tem raízes humanistas e cristãs, é a História que o diz. E quando digo isto, não separo católicos, ortodoxos e protestantes.”
Um dos desafios maiores para a Europa é a imigração. Acentuou, à partida,  que não se pode perder de vista o direito à vida. “Os imigrantes chegam, principalmente, para fugir da guerra ou escapar à fome, do Médio Oriente e da África. Quanto à guerra, devemos comprometer-nos e lutar pela paz. A fome afecta principalmente a África.” Lembrou que, chegados às costas europeias, “acolher também é uma missão cristã, evangélica. As portas devem estar abertas, não fechadas.” Recebidos, apelou a que sejam acompanhados, promovidos e integrados. Ao mesmo tempo pediu prudência por parte dos governos, sublinhando que “quem governa é chamado a reflectir sobre quantos imigrantes podem ser acolhidos.”
Na entrevista, também falou do meio ambiente e, nesse contexto, do Sínodo para a Amazónia em Outubro próximo. Pediu que se leia a sua encíclica Laudato si’, “porque quem não a leu não compreenderá nunca o Sínodo sobre a Amazónia. A Laudato si’ não é uma encíclica verde, é uma encíclica social que se baseia sobre uma ‘realidade verde’, a protecção da Criação”. Para Francisco, é esta a justificação deste Sínodo: A Amazónia é “um lugar representativo e decisivo. Juntamente com os oceanos contribui de maneira determinante para a sobrevivência do planeta. Grande parte do oxigénio que respiramos vem-nos de lá. Por isso, a desflorestação significa matar a Humanidade.”  Criticando os danos causados pelos interesses dos “sectores dominantes” sobre a região, desafiou a classe política a eliminar “os compadrios e corrupções” e a assumir as suas responsabilidades, “responsabilidades concretas”, para salvar a Amazónia e a Humanidade.
Ainda neste contexto, uma vez que no “Instrumento de trabalho” para o Sínodo se fala da possibilidade da ordenação de homens casados, por causa da falta de clero numa região tão extensa, foi-lhe perguntado se este será um dos temas principais do Sínodo. Resposta: “Não, de modo nenhum. Trata-se apenas de um número do “Instrumento de trabalho”. O importante serão os ministros da evangelização e os diferentes modos de evangelizar.”
2. Algumas reflexões.
2. 1. O Papa Francisco moderou o tom ao falar da possibilidade da ordenação de homens casados. Também porque sabe que os ultraconservadores, liderados pelo cardeal Gerhard Müller, ex-Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que acusou de “herético” o documento preparatório do Sínodo, se lhe opõem também neste tema. Pessoalmente, estou convicto de que essa possibilidade se concretizará precisamente neste Sínodo, abrindo lentamente a porta ao fim da lei do celibato obrigatório e da discriminação das mulheres na Igreja. Note-se a observação de agrado de Francisco pela eleição de Úrsula von der Leyen para presidir à Comissão Europeia: “Porque uma mulher pode ser adequada para voltar a pôr em marcha a força dos pais fundadores.” As mulheres “têm a capacidade de acompanhar, unir”. Pergunta-se: Porque não também na Igreja?
2. 2. Quero sublinhar a lucidez com que o porta-voz da Conferência Episcopal Espanhola, Luis Argüello, depois de constatar e lamentar que “continuam os barcos à deriva e mortos no Mediterrâneo e noutros lugares de cruzamento entre morte e esperança, opressão e liberdade, fome e segurança”, apresentou o que se poderia e deveria considerar os eixos da política migratória: “Afirmar a dignidade sagrada da vida, organizar a hospitalidade, combater as máfias e estudar as causas económicas e políticas das migrações forçadas podem ser elementos de um programa de governo para o bem comum.” O que está em causa é a nossa humanidade.
Neste contexto, eu que há muito tempo defendo algo de parecido com um “Plano Marshall” para África, quero igualmente sublinhar a lucidez das declarações do Presidente da República Portuguesa na sua recente visita oficial à Alemanha. Marcelo Rebelo de Sousa defendeu que a União Europeia tem de ir “muito mais longe” na cooperação e apoio ao desenvolvimento em África: isso faz parte substancial de uma resposta “duradoura” ao “drama das migrações”. Quem emigra? “Quem não tem condições para viver onde vive”, cabendo, por isso, à União Europeia como um todo encontrar formas de ajudar a “criar essas condições”. Não se trata de “tentar resolver a questão no ponto de chegada, mas de resolvê-lo no ponto de partida”. “A Europa tem de apostar em África porque, sendo importante o relacionamento da Europa com todo o mundo, há aqui este continente vizinho, que tem muitas afinidades com a Europa desde sempre, e só isso poderá efectivamente criar condições para duradouramente não existir o drama das migrações.” O Presidente português disse ainda que a Alemanha e Portugal coincidem na necessidade de mais colaboração “entre a união Europeia e África”.
Ainda no quadro das migrações, o próprio Papa Francisco tem chamado a atenção para a necessidade de integrar os migrantes. Mas, aqui, acrescento eu, também eles terão de fazer um esforço para se integrar. Neste contexto, não posso aceitar os protestos de islamistas e feministas na Holanda contra a lei que proíbe a burka (não deixa ver nenhuma parte do rosto) e o niqab (cobre o corpo e a cara, exceptuando os olhos), lei que entrou em vigor no passado dia 1. Desde há muito tempo que me manifestei contra o uso da burka e do niqab, não por motivos religiosos, mas cívicos. De facto, no espaço público, todo o cidadão deve poder ser reconhecido.
in DN 18.08.2019
https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/francisco-a-europa-a-amazonia-as-migracoes-11216239.html 
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https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/o-homem-trabalhador-e-festivo-11178631.html?target=conteudo_fechado 
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O Homem: trabalhador e festivo
Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
                                                         
1. Andam enganados aqueles e aquelas que, no decurso do tempo, fizeram uma leitura literal do  Génesis, o primeiro livro da Bíblia. Porque, concretamente nos primeiros três capítulos, não se trata de uma narrativa histórica, mas de um mito, uma estória. O filósofo Hegel, um dos cumes do pensamento, embora não fosse exegeta, viu mais, mais fundo e de modo mais penetrante do que muitos exegetas, quando leu essas primeiras páginas sobre a criação, Adão e Eva e o chamado “pecado original”.
No princípio, Deus fez a Terra e os céus. E criou Adão e Eva, que viviam no Éden, o paraíso terreal. Não podiam comer da árvore que estava no meio do jardim, a árvore da ciência do bem e do mal. Comeram e foram expulsos do paraíso. O que aqui está, diz Hegel, é a passagem da animalidade à humanidade e à grandeza de ser ser humano, mas também ao seu carácter dramático e mesmo trágico. Souberam que estavam nus. Comeram da árvore da ciência do bem e do mal e ficaram a saber que são seres humanos, portanto, conscientes de si mesmos, conscientes de que são conscientes, com consciência reflexiva, que os outros animais não têm. Essa é a nudez humana, na solidão metafísica: cada um está só, é si  mesmo de modo único e intransferível.
Deus também tinha dito que, se comessem, morreriam. Comeram e souberam que o ser humano é mortal, o que o animal não sabe. Quando dizemos — cada um e cada uma — “eu”, cada uma e cada um di-lo de modo exclusivo e único e sabe que há-de morrer e angustia-se face à morte: “Ai, que me roubam o meu eu”, gritava Unamuno. Esta é a constituição do ser humano. E não é possível voltar atrás, porque a entrada do jardim do Éden, símbolo da inconsciência animal, é guardada por querubins com a espada flamejante.
E o Homem também tem de trabalhar, disse Deus. O trabalho é constitutivo do ser humano. É transformando o mundo, mundanizando-se, que o Homem vem a si como sujeito e se humaniza. No mundo, está de algum modo fora do mundo; na natureza, está fora e acima da natureza. Pelo trabalho realiza-se e projecta-se e toma consciência de que é social, pois é em comum que nos realizamos, contribuindo para a obra comum que é o bem comum, na síntese de presente, passado e futuro.
Uma das minhas reflexões diárias, quando tomo o pequeno-almoço: estou ali, só, e com tantos! Quem semeou o trigo ou o centeio e cozeu o pão que estou a comer? Quem colheu o café, quem o transportou de partes longínquas, quem o preparou? E assim sucessivamente. Por exemplo, ensinaram-me a ler e pude ler obras da grande filosofia e da grande literatura, que outros, autores de há pouco tempo ou de há séculos, ergueram!!! E quem produziu os livros e quem traduziu essas obras? E assim sucessivamente..., desde o carro que me transporta da casa onde vivo e que eu não construí à cidade onde se encontra a minha universidade, que eu também não construí, passando pela auto-estrada que existe pelo trabalhos de tantos que eu não sei quem são...  Estamos sempre unidos com tantos, com todos, pelo trabalho comum!
2. Mas o Homem não se define apenas pelo trabalho. Porque é igualmente um ser festivo. Até Deus se lembrou disso, também na Bíblia: que haveria um dia consagrado ao descanso e à festa: o Sábado, depois, o Domingo (o dia do Senhor e do encontro da família e da alegria).
O que fez Jesus durante a maior parte da sua vida? Trabalhou, e trabalhou no duro. Infelizmente, quase nunca se ouve falar disso nas homilias dos padres. Dizemos normalmente que Jesus foi, como o seu pai, José, carpinteiro: “Não é este o filho do carpinteiro?”, perguntaram os seus vizinhos de Nazaré, quando voltou à sua aldeia para anunciar a Boa Nova do Reino de Deus. Segundo os Evangelhos, escritos em grego, diz-se mais, pois escrevem que era tektôn, isto é, era o que se dizia antigamente: um “faz tudo”, que tanto era capaz de levantar uma casa como de preparar alfaias agrícolas. E pode ter trabalhado também na Decápole, sabendo, por isso, algo de grego e de latim, para lá da língua materna, o aramaico e o hebraico. Porque trabalhou, para ganhar a vida, ele sabia o valor e a importância do dinheiro, mas também o seu perigo, quando se faz dele o objectivo da vida e se explora: Jesus percebeu perfeitamente a relação que tão frequentemente se estabelece entre quem tem muito dinheiro e quer enriquecer a todo o preço, e os trabalhadores que são explorados. Por isso, pregou constantemente: “Não podeis servir a Deus, que é Pai e Mãe e cujo único interesse é o bem de todos os seus filhos e filhas, e a Dinheiro — não ao dinheiro, mas a Dinheiro, como se fosse um nome próprio, Dinheiro enquanto um deus ao qual se entrega vida e a quem se confia a existência e o seu sentido.
Mas Jesus também descansou, porque se deve ter sentido muitas vezes esgotado. Já durante a chamada  “vida pública”, dizem também os Evangelhos, era tanto o trabalho e o cansaço, pois as multidões não o largavam, que convocava por vezes os Apóstolos para um lugar ermo, tranquilo, onde pudessem descansar e conversar sobre o essencial. E  deslumbrou-se com a alegria da beleza: “Contemplai o esplendor dos lírios do campo e das searas!”. Alegrou-se em festas de casamento e dançou. E passava noites na montanha a rezar, na maior intimidade com Deus, a quem chamava querido Papá, querida Mamã. Exaltou-se com o milagre da vida.
Agora, estão aí as férias. E é preciso gozá-las com gáudio, de tal maneira que delas não se venha mais cansado do que quando se partiu para elas, que é o que tantas vezes acontece. É importante sublinhar, até do ponto de vista etimológico, o carácter festivo associado às férias e aos dias feriados. A palavra latina feria, no plural feriae, tem o sentido de “descanso, repouso, paz, dias de festa.” O mesmo se observa noutras línguas: vacances, vacaciones, em francês e espanhol, respectivamente, têm o seu étimo também no latim: vacatio, com o significado de isenção, dispensa de serviço. Os ingleses em férias dizem que estão on holidays, isto é, em dias santos. Os alemães têm duas palavras: Ferien e Urlaub, sendo o étimo da primeira feriae e a raiz da segunda, Urlaub, Erlaubnis, com o sentido de dias livres de serviço e trabalho.
Portanto, as férias não podem ser de modo nenhum um mero interregno no trabalho para, depois, repondo as forças, se poder trabalhar ainda mais. As férias têm o seu fim em si mesmas: retomar as alegrias simples e a experiência funda de que o ser humano é um ser festivo e fim em si mesmo. Então? Apanhar Sol na praia, no campo, na montanha, ler e escrever poesia, aventurar-se num grande romance da literatura, dançar, ouvir o silêncio e ouvir música, a grande música que nos remete para origens imemoriais, lá onde nunca estivemos, e para a transcendência toda, o lá onde verdadeiramente queremos estar, o indizível, lá onde verdadeiramente seremos nós. Reaprender a ver o Sol a nascer no oriente e a pôr-se no ocidente. E se for no oceano!... Contemplar e acolher o perfume de uma rosa, “que é sem porquê”, como observou o místico Angelus Silesius. Ter a alegria de estar com os amigos e a família, com o tempo todo, à volta de uma mesa. Dar-se conta do milagre do Ser e de se ser. Há maravilha que nos abale mais na raiz de nós do que esta? Antes de ser isto ou aquilo, professor ou médico ou operário, muito ou menos culto, mais baixo ou mais alto, com mais dinheiro ou menos dinheiro, eu sou. Eu.
P. S.: Não costumo responder às críticas que me fazem. Mas, aqui, estão ideias em causa. O Padre Gonçalo Portocarrero de Almada terminou o seu recente texto no Observador, “Obviamente demito-o”, com este parágrafo: “Enquanto em Portugal há ‘católicos’ que, como o P. Anselmo Borges e José Manuel Pureza, respectivamente negam o dogma da virgindade de Maria e promovem a eutanásia, do Papa Francisco chega, em boa hora, um sinal inequívoco de coerência doutrinal e de coragem pastoral.”
Como a formulação pode ser manhosa e, dada a pressa com que presentemente se vive e lê, se pode não atender ao “respectivamente” do texto, corro o risco de ser incluído na dupla condenação. Por isso, esclareço que, quanto à virgindade de Maria, continuo a sublinhar que a teologia não é um tratado de anatomia e, em ordem a mais esclarecimentos, remeto para o meu texto longo, também no Observador, “Narrativas evangélicas do Natal”. Quanto à minha posição sobre a eutanásia, remeto concretamente — peço desculpa pela publicidade —  para o meu próximo livro, a sair em Setembro: Conversas com Anselmo Borges. A Vida, as Religiões, Deus.
in DN 04.08.2019
https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/o-homem-trabalhador-e-festivo-11178631.html?target=conteudo_fechado 






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