23 julho 2017

JESUS NÃO GOSTAVA DE BROA? (1)

        1. A interrogação desta crónica tem raízes ocultadas e persistentes na teologia dos sacramentos. Regressou devido a graves problemas alimentares e simboliza a marginalização de questões abafadas na reflexão e na prática da inculturação da fé cristã. Saltou para aqui por alguma falta de humor.
       O Cardeal Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos dirigiu uma Carta aos Bispos diocesanos – ou àqueles que, por direito, lhe são equiparados – para lhes recordar o dever de vigiarem a qualidade do pão e do vinho destinados à Eucaristia e à idoneidade daqueles que os fabricam. Um amigo, pouco versado na linguagem litúrgica, reagiu: querem ver que a ASAE já chegou à Missa!? Acrescentei: ou será que já andam para aí a celebrar com broa de milho?
      Um padre, muito zeloso, não gostou nada dessas mansas piadas: não admito que se brinque com uma das realidades mais sérias da nossa fé!
        Quando tentei mostrar que a Carta não era sobre a Eucaristia, mas apenas sobre a qualidade do pão e do vinho que lhe são destinados, a indignação não abrandou, pois estaríamos a desrespeitar uma zona sagrada que a protege. Não melhorei o ambiente ao dizer que antes do problema da qualidade do pão destinado à Eucaristia, existe um imperativo mais sagrado e mais cristão: lutar para que todos tenham o pão de cada dia, o alimento suficiente, como consta da mensagem do Papa Francisco ao Presidente da FAO. Lembrou-me, com razão, que essa não era a preocupação do Cardeal Sarah.
      Era preciso regressar a uma pergunta banal: que terá acontecido para motivar um texto cardinalício sem qualquer novidade?[1].
       A explicação é oferecida numa linguagem eclesiástica que alguns julgarão ser altamente ridícula. “Enquanto até agora, de um modo geral, algumas comunidades religiosas dedicavam-se a preparar com cuidado o pão e o vinho para a celebração da Eucaristia, hoje estes vendem-se, também, em supermercados, lojas ou mesmo pela internet. Para que não fiquem dúvidas acerca da validade desta matéria eucarística, este Dicastério sugere aos Ordinários que dêem indicações a este respeito; por exemplo, garantindo a matéria eucarística mediante a concessão de certificados.
       «O Ordinário deve recordar aos sacerdotes, em particular aos párocos e aos reitores das igrejas, a sua responsabilidade em verificar quem é que fabrica o pão e o vinho para a celebração e a conformidade da matéria (…)».
       A Carta funciona como um puro acto de memória. As normas acerca da matéria eucarística já estavam estabelecidas: 
       «O pão que se utiliza no santo Sacrifício da Eucaristia deve ser ázimo, unicamente feito de trigo, confeccionado recentemente, para que não haja nenhum perigo de que se estrague por ultrapassar o prazo de validade. Por conseguinte, não pode constituir matéria válida, para a realização do Sacrifício e do Sacramento eucarístico, o pão elaborado com outras substâncias, embora sejam cereais, nem mesmo levando a mistura de uma substância diversa do trigo, em tal quantidade que, de acordo com a classificação comum, não se possa chamar pão de trigo (…).
       «O vinho que se utiliza na celebração do santo Sacrifício eucarístico deve ser natural, do fruto da videira, puro e dentro da validade, sem mistura de substâncias estranhas… (...) Não se deve admitir, sob nenhum pretexto, outras bebidas de qualquer género, pois não constituem matéria válida»[2].
       2. Esta pureza ritual embate em graves problemas de saúde reconhecidos no citado documento. De facto, a própria Congregação para a Doutrina da Fé já tinha indicado as normas para as pessoas que, por diversos e graves motivos, não podem consumir pão normalmente confeccionado ou vinho normalmente fermentado[3]:
     «As hóstias completamente sem glúten são matéria inválida para a eucaristia. São matéria válida as hóstias parcialmente desprovidas de glúten, de modo que nelas esteja presente uma quantidade de glúten suficiente para obter a panificação, sem acréscimo de substâncias estranhas e sem recorrer a procedimentos tais que desnaturem o pão.
       «O mosto, isto é, o sumo de uva, quer fresco quer conservado, de modo a interromper a fermentação mediante métodos que não lhe alterem a natureza (p. ex., o congelamento), é matéria válida para a eucaristia.
       «Os Ordinários têm competência para conceder a licença de usar pão com baixo teor de glúten ou mosto como matéria da Eucaristia em favor de um fiel ou de um sacerdote»[4].
       3. Quando frequentei a catequese, os cuidados rituais para a comunhão exigiam, além do jejum desde a meia-noite até à hora de comungar, a tortura de engolir a hóstia, sem a mastigar e sem a deixar tocar nos dentes. Supunha que era para não magoar o Senhor, mas estava em oposição ao mandato de Jesus: tomai e comei e, na altura, reservada ao padre: tomai e bebei.
     Esta Carta dispensa essa tortura, mas liga a verdade e a eficácia sacramental da Eucaristia à pureza de um cereal – o trigo – e ao produto da videira, o vinho fermentado ou não.
      Urge uma alteração de paradigma na teologia dos sacramentos e da liturgia. Veio mais do mesmo. Se esquecermos as exigências universais das múltiplas faces da inculturação, continuaremos num beco sem saída.
       Temos de voltar a esta questão
       Frei Bento Domingues, O.P.
       in Público 23.07.2017



[2] Cf. Can. 924 do CIC e nos números 319 a 323 da Institutio generalis Missalis Romani, foram já explicadas na Instrução Redemptionis Sacramentum desta Congregação (25 de Março de 2004)
[4] Cf. Carta ao Perfeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, 9 de Dezembro de 2013, Prot. n. 89/78 – 44897.



MARÍA MAGDALENA Y VIRGINIA WOOLF PIONERAS DE IGUALDAD

       A las filósofas, teólogas, escritoras y artistas feministas, mis maestras y amigas, en sintonía

        No he encontrado otra forma mejor de recordar a María Magdalena en su fiesta religiosa del 22 de julio que haciendo una reflexión sobre su figura bajo la inspiración del magnífico libro La resurrección de María Magdalena. Leyendas, Apócrifos y Testamento cristiano (EVD, Estella, 2008), la teóloga Jane Schaberg, y relacionando a María Magdalena y a Virginia Woolf. La mística escéptica y subversiva de la escritora británica sirve de modelo interpretativo a Schaberg para reconstruir la emblemática figura de María Magdalena en clave feminista. ¿Es ésta una alianza espuria? Creo que no.
Las diferencias entre ambas mujeres son ciertamente notables, pero también lo son las similitudes, al menos en el imaginario colectivo. Las dos son tenidas por “trastornadas” o “enfermas”: la una, “maniaco-depresiva, la otra, posesa; ambas están exorcizadas o autoexorcizadas y confiesan momentos de visión. Las dos resultan extrañas para el círculo patriarcal y ninguna de ellas es miembro del selecto grupo de los “Apóstoles”, o al menos han sido excluidas de dicho grupo por el poder patriarcal. Coinciden hasta en la vida póstuma: Woolf y la Magdalena son figuras para el mito y la leyenda e iconos en la lucha por la emancipación.
        Desde una lectura feminista, Schaberg reconstruye las figuras de Woolf y Magdalena, hasta identificarse con ellas para crear, con su ayuda, una espiritualidad propia no excluyente conforme al ideal woolffiano: “En mi condición de mujer, no tengo patria. Como mujer no quiero patria. Como mujer, mi patria es el mundo entero”. Y Schaberg añade: “Como mujer, no tengo religión. No soy judía o cristiana o musulmana o pagana. Como mujer soy judía y cristiana, musulmana y pagana”. El deseo confesado de la teóloga feminista es haber “encontrado”  a una María Magdalena tan valiente y arrojada como Virginia Woolf o como Ethel Smyth, amiga suya, compositora inglesa y dirigente del movimiento sufragista, a quien Virginia describe de esta guisa: “Pertenece a la raza de las pioneras, de las que van abriendo camino. Ha ido por delante, y talado árboles, y barrenado rocas, y construido puentes, y así ha ido abriendo camino para las que van llegando tras ella”.    
        A través de una rigurosa investigación interdisciplinar de las fuentes cristianas canónicas de la Biblia hebrea y del Testamento cristiano, de los escritos gnósticos y de la arqueología, del arte y de las leyendas, Schabert imagina y recupera la figura de María Magdalena liberada de las imágenes negativas que sobre ella ha construido la ideología patriarcal desde los propios textos canónicos hasta la exégesis actual.
Schaber ve en los textos analizados indicios fragmentados de María Magdalena como continuadora del profetismo hebreo, iniciadora de la creencia cristiana en la resurrección, sucesora de Jesús de Nazaret y heredera de su autoridad espiritual. Los evangelios apócrifos de carácter gnóstico ofrecen elementos importantes para reconstruir la figura de María Magdalena, si bien de manera tentativa y provisional:
- Existe como personaje y como memoria en un mundo cuyos textos acusan un lenguaje androcéntrico y patriarcal.  
- Se expresa con atrevimiento y osadía en un mundo real y simbólico dominado por varones, lo que le da un relieve especial.
- Es una persona preeminente entre los seguidores y las seguidoras de Jesús, ya que posee autoridad espiritual y ejerce un liderazgo en igualdad de condiciones con los discípulos varones.
- Es presentada como compañera íntima de Jesús.
- Entra en conflicto con algunos discípulos varones por la fiabilidad de su testimonio.
- Aparece como consoladora y maestra de los demás discípulos.
- Es elogiada por su inteligencia superior.
La teología feminista cristiana recurre a María Magdalena como fuente de autoridad para llevar a cabo las transformaciones necesarias en el terreno eclesiástico y como pionera de la igualdad para generar cambios culturales y sociales que eliminen en la sociedad las discriminaciones de todo tipo: étnicas, sociales, culturales, religiosas y de género. Discriminaciones estas últimas que o suelen pasar desapercibidas o no cuentan como prioridad para su superación. 
El libro dibuja un sugerente cristianismo en torno a la figura de María Magdalena, vigente durante los dos primeros siglos en algunas iglesias y olvidado por la Iglesia patriarcal hasta hoy: un cristianismo inclusivo de hombres y mujeres bajo el signo de la continuidad profética más que bajo la sucesión apostólica; un cristianismo como posibilidad desconcertante, terriblemente vulnerable, que intentó alcanzar lo imposible. Aquel cristianismo fracasó, o mejor, lo hizo fracasar el patriarcado religioso aliado con el patriarcado político.
Pero no podemos considerar su fracaso por definitivo. Es verdad que ha durado muchos siglos, pero eso no significa caer en el fatalismo histórico que imposibilite su recuperación. Todo lo contrario. Es necesario recuperarlo, reinventarlo, reformularlo y revivirlo en nuestro momento histórico para contribuir en la lucha contra la discriminación de género en intersección con otras discriminaciones que se refuerzan y apoyan entre sí: etnia, clase, sexualidad, religión, procedencia geográfica, etc., y para trabajar por la emancipación y la igualdad en todos los terrenos.
Juan José Tamayo
22 de julio de 2017, fiesta de María Magdalena
Director de la Cátedra de Teología y Ciencias de las Religiones. Universidad Carlos III de Madrid, y autor de Otra teología es posible. Interculturalidad, pluralismo religioso y feminismo (Herder, Barcelona, 2012, 2ª ed.) y director y coautor de Religión, género y violencia (Dykinson, Madrid, 2016, 2ª ed. Próxima obra: Teologías del Sur. El giro descolonizador (Trotta, Madrid, aparecerá en noviembre).

16 julho 2017

LIVRO DE RECLAMAÇÕES NAS IGREJAS

       1. Li, não sei onde, que o Vaticano anda preocupado com a falta de exorcistas em Portugal. Ao comentar essa notícia com um amigo, ele acrescentou logo que, onde faltam, de certeza, é no próprio Vaticano.
Não desejo voltar à conversa dos pseudo-preocupados com o Papa: está velho para poder realizar as reformas em que se meteu e a revolução que tentou desencadear não é tão irreversível como alguns supõem e desejam. Os que se julgam mais realistas e radicais acrescentam: não basta a Bergoglio ter encontrado um refúgio fora dos antigos aposentos dos Papas; ou fecha o Vaticano para longas obras ou continuará a espantar-se com surpresas de onde menos seriam de esperar. 
Há, de facto, rumores de poucas vergonhas, que estão a passar para a imprensa, de que os infiltrados, velhos e novos, são como as baratas: quando se abrem as gavetas, desaparecem rapidamente, mas não morrem. Esperam sempre uma nova oportunidade. Haverá alguma empresa capaz de eliminar, de forma eficaz, esses parasitas da chamada Santa Sé? Ou será que os diabos do Vaticano já se riem da fábrica de ritos dos seus exorcistas?
Tudo isso pode ter sentido, mas não vai além do anedotário romano. Como diz o Papa, os cristãos de parlatório, que conversam sobre como andam as coisas na Igreja e no mundo, sem paixão por transformar as suas vidas, continuam a flutuar nas suas espreguiçadeiras enquanto debitam sentenças sem consequências.
Ele próprio, ainda no mês passado, lembrou aos novos cardeais que o caminho é seguir Jesus que os chama a olhar para a realidade, não se deixando distrair por outros interesses, por outras perspectivas: não vos chamou para vos tornardes «príncipes» na Igreja e para vos «sentardes à sua direita ou à sua esquerda». Chama-vos para servir como Ele e com Ele .
Quem seguir de perto as intervenções do Papa Francisco – homilias, discursos, cartas pastorais, etc. – fica espantado com o grande livro de reclamações, onde vai escrevendo, em nome do Evangelho, o que exige dos padres, dos bispos e dos cardeais. 
Luta por um clero não clerical, confessando-se membro de um povo consagrado a Deus e ao serviço de toda a humanidade pelo sacerdócio comum a todos os baptizados. A função do clero não é a de mandar na Igreja de todos, mas a de ajudar a desenvolver a vocação de todos à santidade. Os padres, os bispos, os cardeais, o papa, centrados em si mesmos e nos seus títulos de carreira eclesiástica, tornam-se traidores da Igreja.
Bergoglio, no dia em que deixasse de lhes pedir contas tornar-se-ia conivente dessa traição. Não é por acaso que ele, em vez de se proclamar infalível e Santo Padre, se confessa pecador e pede a oração dos fiéis.
2. Para quem se reconhece na liderança deste Papa, mas perde o sentido da sua própria responsabilidade na reforma actual e concreta de dioceses, paróquias, movimentos, congregações religiosas, a pretexto de que o governo da Igreja, ao mais alto nível, está bem entregue, ainda não percebeu nada do desígnio de Bergoglio. 
Quando invoco um livro de reclamações nas Igrejas, não é para registar o descontentamento com o funcionamento da cúria diocesana, das secretarias, dos cartórios e dos conselhos paroquiais, da celebração dos mandamentos e da organização da catequese. Por mais importante que seja essa burocracia e o seu bom funcionamento, estaríamos, apenas, no âmbito do que se deve exigir a qualquer outra organização e que a Igreja não pode dispensar. Se assim fosse, a vida eclesial só precisaria de recorrer às escolas de gestão. 
O que pretendo sugerir com o livro de reclamações é uma forma de responsabilização de toda a comunidade. Não é o registo da má-língua. Quem reclama deve estar empenhado na mudança, na reforma da paróquia ou do movimento. Deve reclamar, pois todos os fiéis têm direito à celebração da Palavra, da Eucaristia e dos outros Sacramentos, a não confundir com a leitura escalonada dos livros litúrgicos e de homilias intragáveis ou apenas sofríveis. 
Não se pode esquecer que, hoje, em Portugal, as assembleias litúrgicas são compostas por pessoas com muitas competências profissionais e culturais que nunca tiveram oportunidade de oferecer os seus préstimos para a festa dominical. Outras foram-se afastando. Não conseguem suportar a falta de qualidade das celebrações, a começar pelas homilias e acabar nos cânticos: não tenho nada a ver com aquilo nem aquilo tem nada a ver comigo. Repete-se a cena evangélica: porque estais aí o dia todo sem fazer nada? Porque ninguém nos convocou.
 O livro de reclamações deve registar que há muitas pessoas que podem, querem e devem contribuir para que as celebrações recolham as alegrias, as esperanças, as preocupações, as frustrações e os desejos da assembleia celebrante, mergulhando-a na Palavra, na Eucaristia, no canto, na oração transfiguradoras do passado. O primeiro dia da semana é o Domingo, o renascer da esperança.
3. O livro das reclamações não regista apenas o que falta. Reclama, de cada um, o que pode dar à comunidade para que ela forme pessoas responsáveis pela sociedade, vendo o mundo a partir dos excluídos e não dos instalados. A celebração tem de formar uma Igreja de saída e não um concentrado de beatos e beatas, preocupados em reconduzir as celebrações e as devoções ao estilo pré-Vaticano II. Não passam de sabotadores do movimento desencadeado pelo Bispo de Roma.
Pelo que foi dito, não devia existir nenhum grupo, movimento ou paróquia, sem um livro de reclamações para manter o bom desassossego, a não confundir com o registo dos azedumes, das invejas e, sobretudo, das lutas pelo poder, em nome do serviço, terra de oportunistas. 
As comunidades cristãs devem ser um exemplo de perdão e de misericórdia, o que parece incompatível com um livro de reclamações, caderno de encargos, exigências e avaliações. 
Não esqueçamos, porém, o que escreveu Tomás de Aquino: Iustitia sine misericordia crudelis est, misericordia sine iustitia mater est dissolutionis. A justiça sem misericórdia é cruel, a misericórdia sem justiça é a mãe da degradação .
Talvez haja quem pergunte: como realizar esse livro de reclamações?
A imaginação humana e cristã tem sempre alguns recursos.
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público 16.07.2017




[1] Cf. Alocução do Papa Francisco, 28 de Junho de 2017.
[2] Cf. S.Tomas Aquinas, Expositio in Matthaeum S.Thomas Aquinatis Catena Aurea in quatttuor Evangelia. Roma-Taurini,vol. I, 5, 7

09 julho 2017

O DESEMPREGO ECLESIAL DOS CRISTÃOS

     
1. No passado dia 29 de Junho, foi apresentada, no Convento de S. Domingos (Lisboa), a Obra Seleta do dominicano José Augusto Mourão - O Vento e o Fogo; A Palavra e o Sopro; O Espelho e o Eco[1] - coordenada por J. Eduardo Franco.
Desta selecção resultou um volume de 1590 páginas, primorosamente editado pela Imprensa Nacional, que mostra a abrangência polifacetada e original da sua escrita.
Trata-se de uma realização singular da interacção do trabalho académico e da intervenção cultural, fora dos espaços confessionais, em ligação com a tarefa de alterar as rotinas instaladas, em nome de uma falsa ortodoxia, no campo litúrgico e teológico. O seu empreendimento, na adaptação e criação de expressões poéticas e musicais para as celebrações da fé cristã, resulta de um profundo conhecimento das respectivas tradições orientais e ocidentais. Não se confunde com a ignorância atrevida, nem com o falso respeito do que sempre assim foi e porque sim! Nele, a tradição provocava constantes inovações. A fé era recebida como «alteração alterante». Confessa num poema musicado da juventude: «creio em Ti porque isso mudou a minha vida». Fez, numa entrevista, a sua apresentação: «sou dominicano, antes de mais. Sou Professor Universitário, a seguir. Ensino semiótica e Hiperficção e Cultura, na Universidade Nova de Lisboa. Sou também Presidente do Instituto S. Tomás de Aquino. Mas sou fundamentalmente um leitor que ensina, que investiga e que escreve».
Ao responder à pergunta sobre o que o levou a escrever livros, foi muito directo: «A Academia avalia, e um dos critérios da avaliação é o que se produz em termos de ensaios, conferências, participação em congressos. Escrever, neste caso, é uma obrigação profissional. Escrever textos sobre Deus decorre do meu próprio estatuto de “teólogo”. Tenho uma licenciatura canónica em teologia, antes de mais. Escrevi textos sobre “A enunciação poética de Deus”, por exemplo, mas muitos outros sobre “Liturgia e estética”, “O espaço dos mosteiros”, por exemplo». Como dizia António Machado, a alma do poeta orienta-se para o mistério.
J. A. Mourão escrevia em resposta «a um sopro, a um Dito, a um apelo. Distingue poesia (em absoluto) e “textos para rezar”, que são textos de circunstância, utilizados em ambiente litúrgico».
Sobre o papel da Sagrada Escritura no seu trabalho, como escritor, é luminoso: «A Palavra de Deus é primeira em relação à palavra que trocamos entre nós: não dispomos dela. Não há cristão que não obedeça à Palavra. Não como enunciado morto, mas como provocação, interacção. A Palavra não é monolítica, mas multidiversa: é cada um que, ao recebê-la, a “aplica” a si e ao mundo em que vive. Não escrevo a partir da “angústia da influência”, mas da liberdade dos filhos que entre si partilham o que lhes é comum. A Palavra dissemina-se em nós como um campo que Deus trabalha».
A poesia não procura efeitos práticos: «O poeta escreve por escrever. Como a rosa é sem porquê. Não sou um escritor militantemente cristão. Testemunho no dom que recebi de dar à Palavra um lugar alto, não rotineiro, não vulgar. Nem romano. No caso dos textos para rezar, se os escrevo é para os rezar com. Não é viver, viver com?»[2]
Conheci este poeta em Vila Real, onde fui pregar, em 1962, durante oito dias, na Sé, Igreja de um antigo convento da Ordem dos Pregadores. Ainda seminarista, convidou-me para uma palestra na Academia Missionária. Passou depois pelo Seminário do Porto. Incómodo para o Bispo de Vila Real, foi convidado como missionário leigo pelo Bispo de Nampula, D. Manuel Vieira Pinto. Passados dois anos foi recambiado para Portugal pela PIDE, ao ver que ele não se resignava à situação maltratada da população africana.
      No Porto, sentiu-se reconhecido por frei Bernardo Domingues e por Frei Mateus Peres. Foi estudar para Toulouse, Lyon e Paris. Fui pregar à sua Missa Nova. Morreu em 2011.

2. O acontecimento marcante na reforma da Cúria Romana foi a não recondução do Cardeal Müller, como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Quem andar alheado das movimentações vaticanas reagirá de forma muito displicente: rei morto, rei posto. Desaparece um, vem outro. Não há vazio de poder. Isto significa que ainda não se compreendeu o desígnio do Papa Francisco.
Não tenho de pôr as mãos no lume pelo novo Prefeito, o bispo Ladaria, com uma carreira que tem todas as marcas de um homem do sistema.
O Papa Francisco nunca atribuiu qualquer infabilidade às suas opções. Se as faz, é para realizar um programa que apresentou, de forma clara, a toda a Igreja. Manter, como Prefeito, o cardeal G. Müller – nomeado por Bento XVI - seria mostrar que, para não ferir susceptibilidades, renunciava às reformas que prometeu. Não esperem isso de Bergoglio. Era inteiramente inaceitável que o Prefeito se servisse do seu cargo para desautorizar, sistematicamente, de forma directa ou enviesada, os caminhos do Papa Francisco. Mostrou-se, no mínimo, um funcionário sem ética profissional. A decisão só peca por tardia. É lamentável que não tivesse tido a hombridade de se demitir.
3. Confesso que não acredito nessa Congregação, herdeira do Santo Ofício. Durante o longo mandato do Cardeal Ratzinger, manifestou-se, em nome de Deus, uma instituição esterilizante do pensamento livre na Igreja. Terá de ser substituída por uma instância que estimule a criatividade cultural da fé cristã, em diálogo com as expressões do pensamento laico e inter-religioso. A fé católica dá muito que pensar e realizar como liturgia, estética e ética no respeito e apreço pela investigação científica. Tem de ser uma fé em processo permanente de inculturação. Isto não significa que vale tudo. Significa que os cristãos têm de desenvolver uma atitude de mútua escuta e mútua interpelação. A Igreja, hoje, conta, a nível local e global, com competências em todos os ramos de vida humana e de inteligência da fé, que precisam de ser activadas.
É lamentável o desemprego eclesial dos cristãos, mulheres e homens.
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público 09.07.2017


[1] Direcção e coordenação de José Eduardo Franco, Imprensa Nacional, 2017
[2] Ib., p.1589 1590. O sublinhado é meu. Numa entrevista a Maria João Seixas, que também figura neste volume, explicita as opções do seu itinerário, como cidadão, como investigador e professor, como dominicano com responsabilidades no interior da Ordem dos Pregadores, sem confundir ou anular nenhuma destas dimensões, potenciavam-se umas às outras (cf. Pp.1577-1587).

06 julho 2017

Comunicado de imprensa do Nós Somos Igreja Internacional sobre a nomeação do Cardeal Luis Ladaria como novo Prefeito da Congregação para a Doutrina da Igreja (CDF)

Uma mudança na CDF significa uma importante oportunidade de reorientação
Nós Somos Igreja Internacional saúda a nomeação do Cardeal Luis Ladaria como novo Prefeito da Congregação para a Doutrina da Igreja  (CDF) esperando que introduza transparência, justiça e compaixão na CDF. A decisão de uma mudança no topo da CDF também é vista como um progresso na reforma da cúria.
Contudo, Nós Somos Igreja Internacional afirma: “A cúria do Vaticano dedica demasiada energia na protecção e manutenção do poder institucional. Esta situação só será alterada quando houver um total empenhamento dos leigos e especialmente das mulheres na igreja e na sua missão. É essencial e urgente uma mudança radical na nossa Igreja.”
Nós Somos Igreja Internacional apela ao novo prefeito para que anule todas as sanções contra teólogos como sinal de uma nova era de justiça na Igreja e que abra e apoie um intercâmbio vivo nas posições teológicas sem restrição de pensamento.
Nós Somos Igreja Internacional apelou para a substituição do Cardeal Müller do cargo de Chefe da Congregação para a Doutrina da Igreja (CDF) em 6 de Março de 2017. O Cardeal Müller apoia a cúria conservadora que luta para manter o poder e controle e que estão a bloquear as reformas do Papa Francisco no sentido de tornar a nossa igreja mais compatível com a imagem de Cristo.
O Cardeal Müller:
·         Recusou o pedido feito pela Comissão de Abuso Pontifício para que todas as cartas dos sobreviventes obtivessem uma resposta
·         Recusou permitir que fosse criado um tribunal para investigar e censurar bispos relativamente a abusos sexuais
·         Recusou mudar os processos que utiliza na investigação de padres e religiosos, que são injustos e estão em colisão com o curso normal da justiça
·         Recusou apoiar as mudanças para pessoas divorciadas e que voltaram a casar pudessem comungar/recebessem a Comunhão, de acordo com a  encíclica do Papa Francisco, Amoris Laetitia.


Sigrid Grabmeier, Coordenadora de Nós Somos Igreja Internacional, disse: "É lógico que o Papa Francisco não prorrogue o prazo de cinco anos de nomeação do Cardeal Gerhard Muller. O Cardeal Müller tem-se posicionado repetidamente como se fosse professor do Papa através dos seus ensinamentos e interpretações do Papado, mais recentemente no seu livro «O Papa». Uma mudança na CDF representa igualmente uma valiosa oportunidade para a importante tarefa de perseguição da violência sexual por parte dos padres."

02 julho 2017

NEM LUTERO NEM FRANCISCO

       1. No passado dia 21, o Grémio Literário evocou os 500 anos «dos acontecimentos que abalaram a Europa na sequência do acto simbólico que marcou o início do movimento religioso e cultural na Cristandade e que ficou registado na História sob a designação de Reforma. Foi a 31 de Outubro de 1517 que Martinho Lutero afixou nas portas da igreja de Wittenberg as suas 95 famosas teses, que acabaram por conduzir a um cisma profundo e durável na Igreja de Roma».
       Segundo a tradição, isto aconteceu na véspera da festa de Todos os Santos. A dramatização desta data deu origem à Festa da Reforma, embora a sua fundamentação histórica seja questionada, dado que a narrativa é de Melâncton, em 1546, depois da morte de Lutero.
       O V Centenário da Reforma já foi inaugurado, na Alemanha, em 2008, como a Década de Lutero.
        É uma ocasião para os historiadores da cultura, da política e da teologia reexaminarem cinco séculos de história extremamente complexa e, talvez, colherem algumas lições para o nosso presente de renovados fanatismos políticos e religiosos.
       A Ausência de Lutero em Portugal foi o título da minha intervenção. Portugal não é a pátria de Lutero e os portugueses também não o puderam acolher no séc. XVI, nem com discernimento nem sem discernimento. Além disso, e não só em Portugal, ser bom católico era dizer mal dos protestantes e ser bom protestante eram dizer mal dos papistas.
       Para assinalar os quatrocentos e cinquenta anos da sua morte, o Centro de Estudos de Teologia/Ciência das Religiões, da U. Lusófona, realizou um importante Colóquio, cujos contributos já estão publicados. Merecem reedição. Tentei, no Prefácio, explicar as razões da ausência de Lutero entre nós[i].
      O P. Carreira das Neves com o seu Lutero. Palavra e Fé tenta preencher essa lacuna: «O tema que vamos tratar tem sido objecto de milhares de livros, artigos e pronunciamentos religiosos, políticos, sociológicos, filosóficos. Só estranha o facto de nenhum autor português ter assumido, nestes quinhentos anos que nos separam de Lutero, a responsabilidade de escrever sobre esta pessoa que está na origem do protestantismo luterano e das igrejas evangélicas»[ii].
       Ausente em Portugal, teve mais sorte no Brasil, onde já foram publicados 12 volumes das Obras Seleccionadas de Martinho Lutero[iii].
       O luterano Artur Villares pergunta: «Cinco séculos depois, com a poeira da História a assentar e as polémicas, ódios e extremismos definitivamente encerrados nas prateleiras da apologética de todos os participantes, o que significa, para o homem de hoje, o nome de Martinho Lutero? Para muitos nada; para outros tantos, um mero revoltado, um rebelde, que destruiu a unidade da Igreja do Ocidente; para outros ainda, uma figura histórica, de assinalável grandeza, um dos construtores do mundo moderno. E para os luteranos? Naturalmente que a herança de Lutero é imensa: foi o pai do alemão moderno; foi o autor de uma vasta obra teológica, que hoje abarca cerca de cem volumes; dignificou o casamento, dando ele próprio o exemplo, ao casar em 1525 com a ex-freira Catarina de Bora, de quem teve seis filhos. Compôs dezenas de hinos, reestruturando o canto congregacional na Igreja. Reafirmou o sacerdócio universal de todos os crentes e introduziu o vernáculo como língua litúrgica. Inspirou grandes mestres da música, como Bach e Mendelssohn. E tudo isto, sem dúvida foi entrando no património das igrejas após Lutero»[iv]
       O dominicano, Yves Congar, investigador da obra de Lutero, concluiu que ele «é um dos maiores génios religiosos de toda a história. Coloco-o no mesmo plano que Santo Agostinho, São Tomás de Aquino ou Pascal. (…) Ele repensou todo o cristianismo. Ofereceu-nos uma nova síntese, uma nova interpretação»[v].
       2. Não cabe nesta crónica apresentar todas as razões que fizeram de Lutero um ausente da nossa cultura, da cultura que se desenvolveu em diálogo com a Reforma. Frei Jerónimo de Azambuja (†1562), grande exegeta da Bíblia, declarou no Concílio de Trento que «em Portugal, graças à providência divina e aos cuidados do rei muito cristão, não se vislumbra qualquer sinal da heresia luterana que enche o mundo». De facto, os contactos testemunhados de portugueses com Lutero foram escassos. Os métodos da Inquisição, o controlo dos livros nos portos e nas livrarias construíram adequadas barreiras de protecção contra o contágio luterano.
      No século XVI, quando se queria insultar gravemente alguém, bastava chamar-lhe Lutero. D. Frei Bartolomeu dos Mártires, Arcebispo de Braga, aguentou muitas insolências de alguns cónegos, mas protestou vivamente quando o apelidaram de Lutero[vi].
        3. Muitos passos de aproximação e de entendimento mútuo já foram dados entre católicos e luteranos. Em 1999, foi assinada a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação. O Papa Francisco, na viagem ecuménica à Suécia, entre 31 de Outubro e 1 de Novembro de 2016, no contexto da comemoração católico-luterana dos 500 anos da reforma protestante, assinou uma declaração comum com o presidente da Federação Luterana Mundial.
         A fórmula Ecclesia semper reformanda é antiga. A Igreja quando não vive em processo de contínua reforma, deforma-se. É da sua condição humana e cristã. Somos justificados pela graça de Deus e pecadores pelo mau uso da nossa liberdade. Para não envelhecer, é preciso renascer, deixar-se transformar.
       O que mais me espanta não são os 500 anos de ausência de Lutero em Portugal. O que me desconsola é a nossa resistência passiva à reforma, muito mais abrangente e global, desencadeada pelo Papa Francisco, o segundo Papa dos tempos modernos, verdadeiramente católico, isto é, de abertura universal.           O primeiro foi João XXIII.
A resistência à reforma dos ministérios ordenados está a privar a Igreja Católica dos serviços mínimos sacramentais às comunidades. Os padres, que são cada vez menos, tornaram-se robots de missas, baptizados e casamentos.
       Será que nas resistências às reformas de Bergoglio se esconde a aposta na 4ª Revolução Industrial para seminários de robots mais sofisticados?
        Frei Bento Domingues, O.P.
        in Público, 02.07.2017


[i] Martinho Lutero. Diálogo e Modernidade, Prefácio de Frei Bento Domingues, Edições Universitárias Lusófonas, 1999.
[ii] Pe. Carreira das Neves, Lutero. Palavra e Fé, Presença, Lisboa, 2014, p.17.
[iii] Responsabilidade da Comissão Interluterana de Literatura. São Leopoldo.
[v] Cf. Pe. Carreira das Neves, Op. Cit., pp. 419-422.
[vi] Cf. Martinho Lutero. Diálogo e Modernidade,  pp. 7-12.

25 junho 2017

UM INVESTIGADOR ORIGINAL

       1. Carolina Michaëlis de Vasconcelos (1851-1925) diz que, no período medieval, “a literatura portuguesa, em matéria de traduções bíblicas, é de uma pobreza desesperada”. Esta afirmação tem sido repetida, mas nunca desmentida. A primeira tradução da Bíblia, a partir de hebraico e do grego, foi realizada por João Ferreira d’Almeida que tinha passado, aos catorze anos, do catolicismo ao protestantismo (Igreja Reformada Holandesa). A sua tradução foi publicada e corrigida entre os séculos XVII e XVIII.
       José Nunes Carreira sintetizou a história da Exegese Bíblica em Portugal[1] nos seus momentos altos e baixos.
       Frei Francolino Gonçalves foi um dos seus momentos mais importantes. Fez parte dos grandes investigadores da famosa Escola Bíblica de Jerusalém (EBJ), a responsável, desde os finais do séc. XIX, pelo estudo científico da Bíblia, no campo católico. Para dar a conhecer as dificuldades desse grande salto, aconselhou que fosse editada, em Portugal, uma obra incontornável do seu fundador, Marie-Joseph Lagrange, O.P.[2]
     Frei Francolino morreu, em Jerusalém, no dia 15 de Junho. Nasceu em Curujas, Macedo de Cavaleiros, a 28 de Março de 1943. Professou na Ordem Dominicana em 1960.
      Nunca procurou fazer carreira. Seguiu o caminho de preparação para ser uma testemunha lúcida do Evangelho. Depois dos estudos curriculares, em filosofia e teologia, em Portugal e no Canadá, foi enviado para a EBJ. Aí e durante 43 anos, trabalhou como investigador e professor. Considerou-se, até ao fim, como um estudante. Foi solicitado para fazer cursos e conferências em Paris, Berlim, Salamanca, Roma, Portugal, Tóquio, Quebec, Cusco, Lima, Santiago do Chile, México, mas as suas responsabilidades de investigador, de preparação de novos investigadores e de publicações científicas estiveram sempre ligadas à EBJ. Era a sua casa, de vida e trabalho, num contexto de atentados permanentes contra os direitos humanos.
       Reconhecido nos meios da investigação bíblica como uma das suas grandes figuras, de alcance internacional. Ao ser convidado para Membro da Comissão Bíblica Pontifícia, e reconduzido pelo Papa Francisco, alguns meios de comunicação católica portuguesa acordaram para uma realidade que ignoravam.
Em Portugal, foi premiado, em 2011, pela Academia Pedro Hispano, é membro da Academia Portuguesa de História, do conselho científico de CADMO, da Revista Lusófona Ciências das Religiões, do ISTA e da Associação Bíblica Portuguesa.
       Quem desejar conhecer a sua bibliografia pode recorrer ao site Bibliothèque St Étienne de Jérusalem - École Biblique et Archéologique Française[3]. Em Portugal foi, sobretudo, nos Cadernos ISTA que publicou alguns dos seus estudos mais significativos[4].
       Espero que, em breve, sejam publicados em livros. Todas as vezes que tentei que isso acontecesse, dizia-me sempre que gostaria ainda de rever o conjunto, como obra unificada. A sua insatisfação nada pôde contra a morte.
       2. Frei José Nunes, O.P. na celebração da Eucaristia de evocação de Frei Francolino, referiu-se a um dos seus estudos  decisivos e inovadores sobre as representações de Deus nas duas religiões iaveístas do Antigo Testamento (AT)[5], isto é, a existência de dois iaveísmos diferentes. Esse estudo é muito extenso e muito analítico.
       A eleição de Israel, a sua libertação do Egipto e a aliança que Iavé fez com ele são os artigos fundamentais da fé iaveísta.
      Esta era a opinião comum que fazia das relações entre Iavé e Israel a matriz do iaveísmo. Tornou-se, para vários autores, uma posição insustentável. Era contestada a opinião corrente liderada por uma grande figura da exegese, von Rad. A própria constituição dogmática Dei Verbum, do Vaticano II, deve muito à teologia desse teólogo luterano. Mas, na sequência de outros investigadores, Frei Francolino mostrou, pelo contrário, que o AT contém duas representações diferentes de Iavé. Segundo uma, ele é o Deus criador que abençoa todos os seres vivos; segundo a outra, ele é o Deus que está ligado a Israel, o seu povo, a quem protege e salva.
     Segundo o Fr. Francolino, os exegetas não prestaram a atenção que mereciam estas vozes discordantes.  A esmagadora maioria parece nem as ter ouvido. Por isso, ficaram sem eco, não tendo chegado ao conhecimento dos teólogos, dos pastores nem, por maioria de razão, do público cristão. “As minhas pesquisas, nesta matéria, confirmaram, essencialmente, os resultados dos estudos que referi e, além disso, levaram-me a propor uma hipótese de interpretação do conjunto dos fenómenos religiosos do AT, que é nova. A meu ver, o AT documenta a existência de dois sistemas iaveístas diferentes: um fundamenta-se no mito da criação e o outro, na história da relação de Iavé com Israel. Simplificando, poderia chamar-se iaveísmo cósmico ao primeiro e iaveísmo histórico ao segundo. Contrariamente à opinião comum, a fé na criação não é um elemento recente, mas constitui a vaga de fundo do universo religioso do AT”.
       3. Qual é a importância da descoberta de dois iaveísmos? Julgo-a de grande alcance para todos os leitores do AT e considero-a uma das raízes do universalismo cristão. É a diferença entre um Deus universalista, Deus de todos os seres humanos e da criação, casa comum de todos, e a representação de um Deus nacionalista que confunde o Mundo com os interesses de um povo, capaz não só de o defender, mas de se tornar inimigo dos outros povos, podendo até mandá-los exterminar.
       É esta distinção que nos pode ajudar a compreender o sentido e o absurdo da violência de muitas páginas da biblioteca do povo de Israel. Colocou-se na boca de Deus os interesses de um povo contra os outros povos. Não pode ter sido o Deus do Universo a escrever essas blasfémias.
      Quando tropeçamos nessas passagens, devemos perguntar: que causas e interesses defendem?
       Frei Bento Domingues, O.P.
       in Público, 27.06.2017


      NOTA: Poderá encontrar mais referências a Frei Fracolino e à sua obra no Google
[1] Exegese Bíblica, Dicionário de História Religiosa de Portugal, C-I, Círculo de leitores, 2000, pp 221-229.
[2] Recordações pessoais. O Padre Lagrange ao serviço da Bíblia, Biblioteca Dominicana, Tenacitas, 2017.
[4] http://www.ista.pt/1/upload/ista_25_2012.pdf, pp 92-136; Artigos Fr. Francolino p117.
[5] Iavé, Deus de justiça e de bênção, Deus de amor e salvação, ISTA, nº 22, 2009, pp 107-152, ver, sobretudo, pp 114-115

18 junho 2017

O ECUMENISMO DAS MULHERES

1. Nos finais dos anos 60 do século passado, num curso de cristologia, dediquei algumas aulas a investigar, com os alunos, o contraste entre a atitude de Jesus em relação às mulheres e a sua permanente ausência nas grandes decisões de orientação da Igreja. As mulheres não tinham podido votar os documentos do concílio ecuménico Vaticano II, como também nunca tinham tido voz activa em nenhum outro Concílio. Um estudante, no debate, argumentou que, por isso, era um abuso falar de concílios ecuménicos, porque lhes faltou sempre a voz e o voto das mulheres cristãs. Esse facto era mais grave do que a ausência das Igrejas ortodoxas e protestantes no Vaticano II.
Mesmo sem entrar agora nessa discussão, é preciso ir à raiz de toda a problemática actual na Igreja, sobre o acesso das mulheres aos ministérios ordenados, sobretudo depois da decisão de João Paulo II destinada a abolir, e para sempre, qualquer debate a esse respeito. Invocou para o efeito a sua missão e decidiu que a Igreja não tem qualquer poder para conceder a ordenação sacerdotal às mulheres e que esta posição deve ser mantida por todos os fiéis da Igreja, definitivamente.
A 18 de Novembro de 1995, a Congregação para a Doutrina da Fé declarou que esta Carta Apostólica não é uma definição ex-cathedra[1].
A vontade de suprimir para sempre qualquer debate sobre esta matéria é o desejo do impossível. Há-de haver sempre quem não sinta essa obrigação e teime em discutir, como seu direito.
De facto, esse documento vem na linha da progressiva sacerdotalização dos ministérios ordenados na Igreja com resultados pouco cristãos. Levou a esquecer o principal: a marca sacerdotal do baptismo. Isto sim, que é grave. O principal passou para secundário e o secundário para principal. É uma inversão que atinge a própria raiz do cristianismo.
Por outro lado, não existem dois baptismos, um para homens e outro para mulheres. A identidade cristã é sacerdotal sem distinção de género. No entanto, quando se fala de sacerdotes pensa-se logo nos padres e nos bispos, algo vedado às mulheres.
É por esta deformação que os ministérios ordenados adquiriram uma posição tão relevante e absoluta em relação aos outros ministérios eclesiais, mas sobretudo desvalorizando a dignidade baptismal, comum a todos os cristãos. Esta é anterior e determinante para o exercício de outro qualquer ministério na Igreja. Aquilo que é um serviço expressou-se como um poder que impõe e domina, desfigurando a imagem cristã da Igreja: uns ensinam, mandam e celebram e os outros e as outras escutam, obedecem e assistem.
2. A qualificação do Baptismo, no Espírito Santo, é ontológica. Existe para celebrar um nascimento novo para a fraternidade na Igreja de irmãs e irmãos. Quando Tomás de Aquino pergunta o que há de mais importante, de mais poderoso na lei nova do Evangelho, responde: a graça do Espírito Santo, tudo o resto é para a secundar. Os ministérios pertencem ao âmbito funcional, são da ordem do fazer. A graça do Baptismo é da ordem do ser.
O chamado sacerdócio comum dos baptizados não se identifica com os ministérios ordenados a que se costuma chamar sacerdócio ministerial ou hierárquico. Ao fazer isto, esquece-se que a diferença entre ambos é em benefício do Baptismo e não ao contrário. A verdadeira dignidade de todos os cristãos, masculinos e femininos, provém da graça baptismal.
A desgraça está mesmo neste ponto. Quando se fala do sacerdócio comum, dado pelo Baptismo, fica-se com a ideia, essa sim muito comum, de que este está muito abaixo do sacerdócio ministerial, quando a verdade é completamente inversa. Os chamados ministérios ordenados têm uma história muito complexa que importa conhecer para não se cair em contra-sensos[2], como documentou o teólogo J. Tillard.
Se a celebração do Baptismo é um sacramento da transformação pascal da vida, todos os baptizados, sejam masculinos ou femininos, tornam-se sacerdotes, participantes do sacerdócio de Cristo. Esta participação é o fundamento de tudo o que acontece na Igreja.
Quando se nega a possibilidade das mulheres baptizadas acederem aos ministérios ordenados, são exibidas muitas razões. A particularidade de todas elas é a de terem perdido a razão. É frequente invocar a Última Ceia para falar da instituição da Eucaristia. Por não constarem, nessa narrativa, nomes de mulheres, diz-se que não receberam o sacramento da ordem, o fazei isto em memória de Mim! O uso do argumento da ausência de mulheres nessa Ceia, para não poderem presidir à Eucaristia, deveria ser radicalizado, para se ver o seu absurdo. Se isso fosse verdade, as mulheres ficariam definitivamente impedidas de participarem na Eucaristia. Em termos “pastorais”, as mulheres deveriam ser impedidas de irem à missa!
3. O teólogo valdense italiano, Paolo Ricca[3], depois de analisar a situação da mulher na comunidade cristã nascente, procurou mostrar como «progressivamente foi afastada, de quase todas as funções, até se tornar o proletariado do cristianismo. Tal como na sociedade industrial do século XIX, o proletariado levava as coisas para a frente, as mulheres levam a Igreja para a frente, mas justamente como proletárias, isto é, sem poder.
Parece-me um retrato sugestivo, mas esse caminho pode desvirtuar o que, hoje, está em causa: as mulheres, como no tempo de Jesus, não pretendem, como os discípulos, um poder de dominação, mas o poder de servir.
A regra de Santo Agostinho está certa: Convosco sou cristão, para vós sou bispo. A complementaridade das mulheres nos ministérios ordenados manifestará a originalidade das capacidades femininas de servir as comunidades cristãs, que tradições obsoletas impedem.
O Papa Francisco foi à Suécia para celebrar os 500 anos da Reforma Luterana. Encontrou mulheres e homens ordenados no serviço de uma Igreja cada vez mais democrática nas suas decisões. Não se poderá aprender nada com essa tradição?
As mulheres ordenadas, caminho ou obstáculo ao ecumenismo cristão?
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público 18.06.2017



[1] La Documentation Catholique, 19.06.1994, Nº 2096, pp 551-552;
Ib. 553; Ib 03.07.1994 Nº 2097, pp 611-615
[2] Cf. J. M. R, Tillard, O.P., La “qualité sacerdotale” du ministère chrétien, NRTH, 5, 1973, pp 481-514
[3] Cf. Revista da Associação Oreundici, n. 3, de Junho de 2013



Já respondeu ao nosso inquérito?


14 junho 2017

MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO PARA O I DIA MUNDIAL DOS POBRES

       MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO
PARA O I DIA MUNDIAL DOS POBRES

XXXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM
(19 DE NOVEMBRO DE 2017)



«Não amemos com palavras, mas com obras»



1. «Meus filhinhos, não amemos com palavras nem com a boca, mas com obras e com verdade» (1 Jo 3, 18). Estas palavras do apóstolo João exprimem um imperativo de que nenhum cristão pode prescindir. A importância do mandamento de Jesus, transmitido pelo «discípulo amado» até aos nossos dias, aparece ainda mais acentuada ao contrapor as palavras vazias, que frequentemente se encontram na nossa boca, às obras concretas, as únicas capazes de medir verdadeiramente o que valemos. O amor não admite álibis: quem pretende amar como Jesus amou, deve assumir o seu exemplo, sobretudo quando somos chamados a amar os pobres. Aliás, é bem conhecida a forma de amar do Filho de Deus, e João recorda-a com clareza. Assenta sobre duas colunas mestras: o primeiro a amar foi Deus (cf. 1 Jo 4, 10.19); e amou dando-Se totalmente, incluindo a própria vida (cf. 1 Jo 3, 16).Um amor assim não pode ficar sem resposta. Apesar de ser dado de maneira unilateral, isto é, sem pedir nada em troca, ele abrasa de tal forma o coração, que toda e qualquer pessoa se sente levada a retribuí-lo não obstante as suas limitações e pecados. Isto é possível, se a graça de Deus, a sua caridade misericordiosa, for acolhida no nosso coração a pontos de mover a nossa vontade e os nossos afectos para o amor ao próprio Deus e ao próximo. Deste modo a misericórdia, que brota por assim dizer do coração da Trindade, pode chegar a pôr em movimento a nossa vida e gerar compaixão e obras de misericórdia em prol dos irmãos e irmãs que se encontram em necessidade.

2. «Quando um pobre invoca o Senhor, Ele atende-o» (Sl 34/33, 7). A Igreja compreendeu, desde sempre, a importância de tal invocação. Possuímos um grande testemunho já nas primeiras páginas do Atos dos Apóstolos, quando Pedro pede para se escolher sete homens «cheios do Espírito e de sabedoria» (6, 3), que assumam o serviço de assistência aos pobres. Este é, sem dúvida, um dos primeiros sinais com que a comunidade cristã se apresentou no palco do mundo: o serviço aos mais pobres. Tudo isto foi possível, por ela ter compreendido que a vida dos discípulos de Jesus se devia exprimir numa fraternidade e numa solidariedade tais, que correspondesse ao ensinamento principal do Mestre que tinha proclamado os pobres bem-aventurados e herdeiros do Reino dos céus (cf. Mt 5, 3).

«Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um» (Act 2, 45). Esta frase mostra, com clareza, como estava viva nos primeiros cristãos tal preocupação. O evangelista Lucas – o autor sagrado que deu mais espaço à misericórdia do que qualquer outro – não está a fazer retórica, quando descreve a prática da partilha na primeira comunidade. Antes pelo contrário, com a sua narração, pretende falar aos fiéis de todas as gerações (e, por conseguinte, também à nossa), procurando sustentá-los no seu testemunho e incentivá-los à acção concreta a favor dos mais necessitados. E o mesmo ensinamento é dado, com igual convicção, pelo apóstolo Tiago, usando expressões fortes e incisivas na sua Carta: «Ouvi, meus amados irmãos: porventura não escolheu Deus os pobres segundo o mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que O amam? Mas vós desonrais o pobre. Porventura não são os ricos que vos oprimem e vos arrastam aos tribunais? (…) De que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras de fé? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhes disser: “Ide em paz, tratai de vos aquecer e matar a fome”, mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta» (2, 5-6.14-17).

3. Contudo, houve momentos em que os cristãos não escutaram profundamente este apelo, deixando-se contagiar pela mentalidade mundana. Mas o Espírito Santo não deixou de os chamar a manterem o olhar fixo no essencial. Com efeito, fez surgir homens e mulheres que, de vários modos, ofereceram a sua vida ao serviço dos pobres. Nestes dois mil anos, quantas páginas de história foram escritas por cristãos que, com toda a simplicidade e humildade, serviram os seus irmãos mais pobres, animados por uma generosa fantasia da caridade!

Dentre todos, destaca-se o exemplo de Francisco de Assis, que foi seguido por tantos outros homens e mulheres santos, ao longo dos séculos. Não se contentou com abraçar e dar esmola aos leprosos, mas decidiu ir a Gúbio para estar junto com eles. Ele mesmo identificou neste encontro a viragem da sua conversão: «Quando estava nos meus pecados, parecia-me deveras insuportável ver os leprosos. E o próprio Senhor levou-me para o meio deles e usei de misericórdia para com eles. E, ao afastar-me deles, aquilo que antes me parecia amargo converteu-se para mim em doçura da alma e do corpo» (Test 1-3: FF 110). Este testemunho mostra a força transformadora da caridade e o estilo de vida dos cristãos.

Não pensemos nos pobres apenas como destinatários duma boa obra de voluntariado, que se pratica uma vez por semana, ou, menos ainda, de gestos improvisados de boa vontade para pôr a consciência em paz. Estas experiências, embora válidas e úteis a fim de sensibilizar para as necessidades de tantos irmãos e para as injustiças que frequentemente são a sua causa, deveriam abrir a um verdadeiro encontro com os pobres e dar lugar a uma partilha que se torne estilo de vida. Na verdade, a oração, o caminho do discipulado e a conversão encontram, na caridade que se torna partilha, a prova da sua autenticidade evangélica. E deste modo de viver derivam alegria e serenidade de espírito, porque se toca com as mãos a carne de Cristo. Se realmente queremos encontrar Cristo, é preciso que toquemos o seu corpo no corpo chagado dos pobres, como resposta à comunhão sacramental recebida na Eucaristia. O Corpo de Cristo, partido na sagrada liturgia, deixa-se encontrar pela caridade partilhada no rosto e na pessoa dos irmãos e irmãs mais frágeis. Continuam a ressoar de grande actualidade estas palavras do santo bispo Crisóstomo: «Queres honrar o corpo de Cristo? Não permitas que seja desprezado nos seus membros, isto é, nos pobres que não têm que vestir, nem O honres aqui no tempo com vestes de seda, enquanto lá fora O abandonas ao frio e à nudez» (Hom. in Matthaeum, 50, 3: PG 58).

Portanto somos chamados a estender a mão aos pobres, a encontrá-los, fixá-los nos olhos, abraçá-los, para lhes fazer sentir o calor do amor que rompe o círculo da solidão. A sua mão estendida para nós é também um convite a sairmos das nossas certezas e comodidades e a reconhecermos o valor que a pobreza encerra em si mesma.

4. Não esqueçamos que, para os discípulos de Cristo, a pobreza é, antes de mais, uma vocação a seguir Jesus pobre. É um caminho atrás d’Ele e com Ele: um caminho que conduz à bem-aventurança do Reino dos céus (cf. Mt 5, 3; Lc 6, 20). Pobreza significa um coração humilde, que sabe acolher a sua condição de criatura limitada e pecadora, vencendo a tentação de omnipotência que cria em nós a ilusão de ser imortal. A pobreza é uma atitude do coração que impede de conceber como objectivo de vida e condição para a felicidade o dinheiro, a carreira e o luxo. Mais, é a pobreza que cria as condições para assumir livremente as responsabilidades pessoais e sociais, não obstante as próprias limitações, confiando na proximidade de Deus e vivendo apoiados pela sua graça. Assim entendida, a pobreza é o metro que permite avaliar o uso correto dos bens materiais e também viver de modo não egoísta nem possessivo os laços e os afectos (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 25-45).

Assumamos, pois, o exemplo de São Francisco, testemunha da pobreza genuína. Ele, precisamente por ter os olhos fixos em Cristo, soube reconhecê-Lo e servi-Lo nos pobres. Por conseguinte, se desejamos dar o nosso contributo eficaz para a mudança da história, gerando verdadeiro desenvolvimento, é necessário escutar o grito dos pobres e comprometermo-nos a erguê-los do seu estado de marginalização. Ao mesmo tempo recordo, aos pobres que vivem nas nossas cidades e nas nossas comunidades, para não perderem o sentido da pobreza evangélica que trazem impresso na sua vida.

5. Conhecemos a grande dificuldade que há, no mundo contemporâneo, de poder identificar claramente a pobreza. E todavia esta interpela-nos todos os dias com os seus inúmeros rostos marcados pelo sofrimento, pela marginalização, pela opressão, pela violência, pelas torturas e a prisão, pela guerra, pela privação da liberdade e da dignidade, pela ignorância e pelo analfabetismo, pela emergência sanitária e pela falta de trabalho, pelo tráfico de pessoas e pela escravidão, pelo exílio e a miséria, pela migração forçada. A pobreza tem o rosto de mulheres, homens e crianças explorados para vis interesses, espezinhados pelas lógicas perversas do poder e do dinheiro. Como é impiedoso e nunca completo o elenco que se é constrangido a elaborar à vista da pobreza, fruto da injustiça social, da miséria moral, da avidez de poucos e da indiferença generalizada!

Infelizmente, nos nossos dias, enquanto sobressai cada vez mais a riqueza descarada que se acumula nas mãos de poucos privilegiados, frequentemente acompanhada pela ilegalidade e a exploração ofensiva da dignidade humana, causa escândalo a extensão da pobreza a grandes sectores da sociedade no mundo inteiro. Perante este cenário, não se pode permanecer inerte e, menos ainda, resignado. À pobreza que inibe o espírito de iniciativa de tantos jovens, impedindo-os de encontrar um trabalho, à pobreza que anestesia o sentido de responsabilidade, induzindo a preferir a abdicação e a busca de favoritismos, à pobreza que envenena os poços da participação e restringe os espaços do profissionalismo, humilhando assim o mérito de quem trabalha e produz: a tudo isso é preciso responder com uma nova visão da vida e da sociedade.

Todos estes pobres – como gostava de dizer o Beato Paulo VI – pertencem à Igreja por «direito evangélico» (Discurso de abertura na II Sessão do Concílio Ecuménico Vaticano II, 29/IX/1963) e obrigam à opção fundamental por eles. Por isso, benditas as mãos que se abrem para acolher os pobres e socorrê-los: são mãos que levam esperança. Benditas as mãos que superam toda a barreira de cultura, religião e nacionalidade, derramando óleo de consolação nas chagas da humanidade. Benditas as mãos que se abrem sem pedir nada em troca, sem «se» nem «mas», nem «talvez»: são mãos que fazem descer sobre os irmãos a bênção de Deus.

6. No termo do Jubileu da Misericórdia, quis oferecer à Igreja o Dia Mundial dos Pobres, para que as comunidades cristãs se tornem, em todo o mundo, cada vez mais e melhor sinal concreto da caridade de Cristo pelos últimos e os mais carenciados. Quero que, aos outros Dias Mundiais instituídos pelos meus Predecessores e sendo já tradição na vida das nossas comunidades, se acrescente este, que completa o conjunto de tais Dias com um elemento requintadamente evangélico, isto é, a predilecção de Jesus pelos pobres.

Convido a Igreja inteira e os homens e mulheres de boa vontade a fixar o olhar, neste dia, em todos aqueles que estendem as suas mãos invocando ajuda e pedindo a nossa solidariedade. São nossos irmãos e irmãs, criados e amados pelo único Pai celeste. Este Dia pretende estimular, em primeiro lugar, os crentes, para que reajam à cultura do descarte e do desperdício, assumindo a cultura do encontro. Ao mesmo tempo, o convite é dirigido a todos, independentemente da sua pertença religiosa, para que se abram à partilha com os pobres em todas as formas de solidariedade, como sinal concreto de fraternidade. Deus criou o céu e a terra para todos; foram os homens que, infelizmente, ergueram fronteiras, muros e recintos, traindo o dom originário destinado à humanidade sem qualquer exclusão.

7. Desejo que, na semana anterior ao Dia Mundial dos Pobres – que este ano será no dia 19 de Novembro, XXXIII domingo do Tempo Comum –, as comunidades cristãs se empenhem na criação de muitos momentos de encontro e amizade, de solidariedade e ajuda concreta. Poderão ainda convidar os pobres e os voluntários para participarem, juntos, na Eucaristia deste domingo, de modo que, no domingo seguinte, a celebração da Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo resulte ainda mais autêntica. Na verdade, a realeza de Cristo aparece em todo o seu significado precisamente no Gólgota, quando o Inocente, pregado na cruz, pobre, nu e privado de tudo, encarna e revela a plenitude do amor de Deus. O seu completo abandono ao Pai, ao mesmo tempo que exprime a sua pobreza total, torna evidente a força deste Amor, que O ressuscita para uma vida nova no dia de Páscoa.

Neste domingo, se viverem no nosso bairro pobres que buscam protecção e ajuda, aproximemo-nos deles: será um momento propício para encontrar o Deus que buscamos. Como ensina a Sagrada Escritura (cf. Gn 18, 3-5; Heb 13, 2), acolhamo-los como hóspedes privilegiados à nossa mesa; poderão ser mestres, que nos ajudam a viver de maneira mais coerente a fé. Com a sua confiança e a disponibilidade para aceitar ajuda, mostram-nos, de forma sóbria e muitas vezes feliz, como é decisivo vivermos do essencial e abandonarmo-nos à providência do Pai.

8. Na base das múltiplas iniciativas concretas que se poderão realizar neste Dia, esteja sempre a oração. Não esqueçamos que o Pai Nosso é a oração dos pobres. De facto, o pedido do pão exprime o abandono a Deus nas necessidades primárias da nossa vida. Tudo o que Jesus nos ensinou com esta oração exprime e recolhe o grito de quem sofre pela precariedade da existência e a falta do necessário. Aos discípulos que Lhe pediam para os ensinar a rezar, Jesus respondeu com as palavras dos pobres que se dirigem ao único Pai, em quem todos se reconhecem como irmãos. O Pai Nosso é uma oração que se exprime no plural: o pão que se pede é «nosso», e isto implica partilha, comparticipação e responsabilidade comum. Nesta oração, todos reconhecemos a exigência de superar qualquer forma de egoísmo, para termos acesso à alegria do acolhimento recíproco.

9. Aos irmãos bispos, aos sacerdotes, aos diáconos – que, por vocação, têm a missão de apoiar os pobres –, às pessoas consagradas, às associações, aos movimentos e ao vasto mundo do voluntariado, peço que se comprometam para que, com este Dia Mundial dos Pobres, se instaure uma tradição que seja contribuição concreta para a evangelização no mundo contemporâneo.

Que este novo Dia Mundial se torne, pois, um forte apelo à nossa consciência crente, para ficarmos cada vez mais convictos de que partilhar com os pobres permite-nos compreender o Evangelho na sua verdade mais profunda. Os pobres não são um problema: são um recurso de que lançar mão para acolher e viver a essência do Evangelho.

Vaticano, Memória de Santo António de Lisboa, 13 de Junho de 2017.

Franciscus