26 outubro 2020

P / INFO: Crónicas, As declarações do Papa mudam (…), Grupos de estudo da Encíclica Fratelli Tutti & Capela do Rato, horários das celebrações

Frei Bento: Ninguém pode salvar-se sozinho

Pe. Anselmo: Fratelli tutti (3). Uma política sã

Cardeal Tolentino: O livro como património

Pe. Vítor Gonçalves: O amor é um projecto

 

NINGUÉM PODE SALVAR-SE SOZINHO

Frei Bento Domingues, O.P.

 

Neste tempo de desorientação não é nada enganosa a publicidade que repete: cuidar de si é cuidar de todos!

 

1. Estes não são tempos de euforia. As festas que a pretendem imitar acabam sempre em redobrada tristeza. Às loucuras das guerras e novas ameaças de guerras veio juntar-se a devastação mundial provocada pela Covid-19 que, além das pessoas que mata e dos recursos que consome, vai deixar muita gente abandonada à miséria. Por isso, não é nada enganosa a publicidade que repete: cuidar de si é cuidar de todos!

É verdade que o incómodo da máscara, da etiqueta respiratória, da limpeza das mãos, da distância física, etc. é muito irritante. Recorrer a sofismas, para dizer que não está cientificamente demonstrada a eficácia desses cuidados, não passa de um exercício de banal e oca retórica.

     Ver em todas as medidas governamentais, que tentam impedir o alastramento da pandemia, um atentado à liberdade e aos direitos humanos é uma reacção que roça a paranóia. O coronavírus não costuma respeitar as nossas reais ou fictícias arrelias.

O bom senso, que não precisa de receita médica, aconselha a boa distância entre o pânico imobilizador e o desleixo fatal. O sentido da responsabilidade, pessoal e social, fica mais barato do que o confinamento ou o internamento hospitalar.

Resta um desafio para a nossa imaginação: como reinventar e multiplicar as manifestações de afecto e de bom humor que anulem o mau distanciamento e a indiferença, sobretudo em datas de reunião familiar, como as do Natal religioso ou agnóstico?

Não está bem atribuir sempre à Covid-19 o mau costume de substituir razões e argumentos pela agressividade assassina nos meios de comunicação social e na própria Assembleia da República, considerada a pátria da democracia.

O diálogo vigoroso não precisa nem de ser açucarado nem azedo. A amizade política favorece a verdade da informação e o rigor da argumentação, nos debates que visam o bem comum entre os proponentes de projectos diferentes de sociedade. O dissenso entre esses projectos não deveria impedir os consensos, sobretudo, quando calamidades impostas geram graves crises sociais que afectam os mais pobres e débeis.

Com diz M. Correia Fernandes, director da Voz Portucalense, «a nossa imprensa, quer a mais vista lida quer a mais lida (o que não é bem a mesma coisa) tem vindo a assumir um vocabulário que pretende ser apelativo ou pretensamente expressivo, mas que apenas esconde uma mentalidade eivada de violência escondida ou disfarçada. (…) Com palavras construímos e com elas aniquilamos. Com elas apaziguamos e com elas criamos conflitos e guerras. Com o seu mau uso, podemos destruir tanto trabalho feito, tanta proximidade aniquilada, tantas relações construtivas. Quanto relacionamento humano se perdeu por palavras mal ditas!»[1].

Francisco Louçã mostra que, nos dias de hoje, a necropolítica condiciona e transforma a razão democrática de várias formas: «porventura a mais poderosa e que tenho vindo a sublinhar, é a que levanta uma cultura de ódio para se sobrepor à experiência da vida das pessoas. É a necropolítica no sentido puro: o racismo (…) Esta cultura de ódio é social quando é racial, e é sempre social mesmo quando não é racial. O racismo pode ser o seu enunciado mais poderoso, porque mobiliza o recalcado e fornece uma autodesculpabilização dos cúmplices, mas todo o discurso odioso tem por objectivo criar medo e instalar o impensável»[2].

2. A liturgia deste Domingo começa com um eloquente texto do Antigo Testamento, cheio de lições para o nosso tempo de xenofobia: «Não usarás de violência contra o estrangeiro residente nem o oprimirás, porque foste estrangeiro residente na terra do Egipto. Não maltratarás nenhuma viúva nem nenhum órfão. Se tu o maltratares, e se ele clamar por mim, hei-de ouvir o seu clamor (…). Se emprestares dinheiro a alguém do meu povo, ao indigente que está contigo, não serás para ele como um usurário: não lhe imporás juros. Se penhorares o manto do teu próximo, devolver-lho-ás até ao pôr-do-sol, porque a capa é tudo o que ele tem para cobrir a pele. Com que dormiria? E se vier a clamar por mim, ouvi-lo-ei, porque Eu sou misericordioso»[3].

Através de gerações e gerações, esquecemos algo elementar: o mundo todo foi e é feito de migrantes. Não fomos os primeiros a ocupar o território em que hoje vivemos. O desprezo ou o ódio pelo estrangeiro, em nome de um nacionalismo cego, tem tanto de antigo como de errado.

Ao pôr limites às fronteiras que o mundo ergueu, o Papa Francisco repete que os nossos esforços, a favor das pessoas migrantes que chegam, podem resumir-se em quatro verbos: acolher, proteger, promover e integrar. Devemos oferecer aos migrantes a possibilidade dum novo desenvolvimento pois, se forem ajudados a integrar-se, eles são uma bênção, uma riqueza e um novo dom que convida a sociedade a crescer.

A paz social é muito trabalhosa, artesanal. Integrar realidades diferentes é muito difícil e lento, embora seja a garantia de uma paz real e sólida. O que conta é gerar processos de encontro, processos que possam construir um povo capaz de recolher as diferenças. Armemos os nossos filhos com as armas do diálogo. Ensinemos-lhes a boa batalha do encontro[4]!

3. Da Segunda Guerra Mundial, Franz Kafka deixou-nos o seu testemunho: «A guerra, a revolução russa e a miséria do mundo inteiro, afiguram-se-me uma espécie de dilúvio do Mal. É uma inundação. A guerra abriu as comportas do Mal. As escoras, que sustentavam a existência humana, partiram-se. O porvir histórico já não repousa no indivíduo e sim nas massas. Atropelam-nos, empurram-nos, varrem-nos. Sofremos a história… Perdemos o conhecimento sem perdermos a vida. O marquês de Sade é o verdadeiro patrono da nossa época, pois não pode alcançar a alegria de viver a não ser através do sofrimento alheio, do mesmo modo que o luxo dos ricos tem de ser pago pela miséria dos pobres»[5].

No Encontro internacional em prol da paz no espírito de Assis, realizado na Praça do Capitólio (Roma), no dia 20 deste mês, foi lido um grande Apelo de Paz:

Nesta Praça do Capitólio, pouco tempo depois do maior conflito bélico de que há memória na história, as nações que se guerrearam estabeleceram um Pacto, fundado sobre um sonho de unidade que em seguida se realizou: uma Europa unida. Hoje, neste tempo de desorientação, açoitados pelas consequências da pandemia Covid-19, que ameaça a paz ao aumentar as desigualdades e os medos, digamos com força: Ninguém pode salvar-se sozinho, nenhum povo, ninguém!

Os que pensam que se podem salvar sozinhos perderam a memória desse Pacto histórico.

in Público 25.10.2020



[1] Voz Portucalense de 07.10.2020

[2] Cf. Francisco Louça, Choque e pavor serão o futuro da política? Revista Expresso de 17.10.2020

[3] Ex 22, 20-26

[4] Cf. Fratelli Tutti, nº 129-135 e 217

[5] Cf. Charles Mœller, Literatura do século XX e cristianismo, Vol. III, Esperança dos Homens, Flamboyant, São Paulo, 1959, pp. 346-347

 

 

 

Premium Fratelli tutti (3). Uma política sã

Anselmo Borges

1 É evidente que é necessário defender o princípio essencial da liberdade, mas é igualmente necessário defender os outros dois princípios, o da igualdade e o da fraternidade. É a tríade que tem de estar sempre vinculada: liberdade, igualdade, fraternidade.

Se toda a pessoa tem dignidade inviolável e, portanto, o direito de viver com dignidade e desenvolver-se e realizar-se integralmente, impõe-se que o Estado não seja apenas o garante da liberdade, nomeadamente da liberdade de empresa e de mercado. Quem nasceu em boas condições económicas, quem recebeu uma boa educação, quem é bem alimentado, quem possui por natureza grandes capacidades... esses "seguramente não precisarão de um Estado activo, e apenas pedirão liberdade. Mas, obviamente, não se aplica a mesma regra a uma pessoa com deficiência, a alguém que nasceu num lar extremamente pobre, a alguém que cresceu com uma educação de baixa qualidade e com reduzidas possibilidades para cuidar adequadamente das suas enfermidades. Se a sociedade se reger primariamente pelos critérios da liberdade de mercado e da eficiência, não há lugar para essas pessoas, e a fraternidade não passará de uma palavra romântica".

2. Aí está, portanto, a necessidade de uma política sã e melhor. Quando hoje muitos têm uma má ideia da politica, e isso também por causa da corrupção, das mentiras, da ineficiência de muitos políticos, Francisco pergunta: “Mas poderá o mundo funcionar sem política?”, para insistir que não é possível “encontrar um caminho eficaz para a fraternidade universal e a paz social sem uma boa política”, e uma política transnacional, verdadeiramente global, para defesa do bem comum, salvaguarda da paz, preservação da natureza. Aliás, “hoje nenhum Estado nacional isolado é capaz de garantir o bem comum da própria população.” Exige-se pensar numa possível forma de autoridade mundial regulada pelo direito, que “deveria prever pelo menos a criação de organizações mundiais mais eficazes, dotadas de autoridade para assegurar o bem comum mundial, a erradicação da fome e da miséria e a justa defesa dos direitos humanos fundamentais”. Neste sentido, “é necessária uma reforma quer das Nações Unidas quer da arquitectura económica e financeira internacional, para que seja possível uma real concretização do conceito de família de nações.”

3. Neste quadro, Francisco apela ao exercício da grande  caridade, “a caridade política”, que  gera processos sociais de fraternidade e justiça para todos: “Convido uma vez mais a revalorizar a política, que é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas de caridade, porque busca o bem comum.” O amor não se exprime só nas relações íntimas e de proximidade, “também nas macrorrelações como relacionamentos sociais, económicos e políticos”. O amor implica a amabilidade no trato, que leva alguém a dizer uma palavra de ânimo e também palavras como “com licença”, “desculpe”, “obrigado”; o amor está vivo na proximidade de “alguém que ajuda um idoso a atravessar um rio, e isto é caridade primorosa; mas o politico constrói-lhe uma ponte, e isto é também caridade. É caridade se alguém ajuda outra pessoa fornecendo-lhe comida, mas o político cria-lhe um emprego, exercendo uma forma sublime de caridade que enobrece a sua acção política.” 

Para honrarem actividade tão nobre, os políticos não podem pensar só nas sondagens e numa mera busca de poder. Precisam de amor, coragem, lucidez, a favor de uma política da “globalização dos direitos humanos mais essenciais”, para uma humanidade justa, livre, num mundo onde todos possam viver em paz e realizar adequadamente a sua dignidade. Para isso, ajudará também que façam a si mesmos “estas perguntas, talvez dolorosas: Quanto amor coloquei no meu trabalho? Em que fiz progredir o povo? Que marcas deixei na vida da sociedade? Quanta paz social semeei? Que produzi no lugar que me foi confiado?”

4. Na impossibilidade de apresentar todos os domínios sobre os quais deve incidir esta actividade da “amizade social” universal, indico sumariamente alguns.

4. 1. Francisco não se cansa de insistir na necessidade primeira de “assinar um pacto educativo global para fazer frente à virulenta pandemia do descarte”.

4. 2. Não se assegura a dignidade das pessoas através de subsídios. “Ajudar os pobres com dinheiro deve ser sempre uma solução provisória para resolver uma urgência. O grande objectivo deveria ser sempre permitir-lhes uma vida digna através do trabalho”. Porque “não existe pior pobreza do que a que priva do trabalho e da dignidade do trabalho”. O verdadeiro caminho para a paz: terra, tecto e trabalho para todos.

4. 3. Contra a lógica da guerra, impõe-se um “diálogo perseverante e corajoso”. “É muito difícil hoje defender  critérios racionais, amadurecidos noutros tempos, para falar de uma possível ‘guerra justa’”. Com Paulo VI na ONU Francisco clama: “Nunca mais a guerra!”. E pede que com o dinheiro gasto em armas se crie um Fundo Mundial contra a fome, que é uma tragédia e uma vergonha. A pena de morte deve ser abolida em todo o mundo.

4. 4. “O ideal seria evitar as migrações inúteis e, para isso, seria necessário criar nos países de origem a possibilidade efectiva de viver e realizar-se na dignidade.” Quando isso não é possível, é necessário avançar com os quatro verbos: “acolher, proteger, promover e integrar”.

4. 5. É essencial o conceito de ecologia integral, para entender a conexão desta encíclica com a Laudato Sí. (Continua).

Padre e Professor de Filosofia

in DN 24.10.2020

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/17-out-2020/fratelli-tutti-2-uma-outra-economia-12926786.html

As declarações do Papa mudam a posição da Igreja sobre a homossexualidade?

Anselmo Borges

Padre e Professor de Filosofia

 

SIM 1. Dá que pensar: Francisco publicou uma encíclica histórica, “Fratelli Tutti” (todos irmãos), com orientações proféticas para o futuro de uma Humanidade ameaçada e desorientada, e ela passou quase despercebida; veio agora declarar que os casais homossexuais têm direito a uma cobertura legal, e isso é uma das maiores notícias. Entre outras coisas, isto revela bem a obsessão sexual com que a Igreja tem vivido e, por isso, a necessidade de pôr fim a essa obsessão, para deixar de ser notícia fundamentalmente por causa do sexo: o celibato (quando acaba essa lei que não vem de Jesus?), a misoginia (como se pode continuar a negar a igualdade de direitos às mulheres?), divorciados recasados (felizmente, Francisco abriu já a porta à possibilidade da comunhão), pedofilia (como foi possível tolerar essa infâmia?). É claro que não vale tudo, mas, com o fim desta obsessão, a Igreja ficará liberta para o anúncio e prática do essencial: o Evangelho, a maior mensagem de felicidade, libertação e dignificação.

 

2. Para mim, não foi notícia inesperada esta defesa de proteção legal da união civil de pessoas do mesmo sexo. Francisco quer uma Igreja de inclusão, que não discrimina, mas acolhe e alivia no sofrimento. Aliás, trata-se de união civil, não do sacramento católico do matrimónio. E penso que Francisco não é, em princípio, favorável à adoção por casais homossexuais, muito menos, a ter filhos através de barrigas de aluguer.

 

3. Não fiquei surpreendido, mas reconheço que foi uma notícia que trouxe grande alegria e felicidade a muitos com essa tendência, porque se sentiam excluídos, sem lugar na Igreja. Também são filhos de Deus e muitos pais vão sentir-se mais confortados.

 

Trata-se de um passo gigantesco, quando se pensa na doutrina oficial da Igreja, expressa no Catecismo e no Direito Canónico e no que disseram Papas anteriores, excluindo explicitamente a legalização das uniões homossexuais. É claro que as declarações de Francisco mudam e ajudarão a mudar a posição da Igreja em relação a este tema, nomeadamente quando se pensa em Conferências Episcopais que pretendem a cura homossexual com pseudoterapias ou em bispos, como na Polónia, duríssimos contra os homossexuais ou, pior, no Uganda, onde bispos estão ao lado de leis que penalizam a homossexualidade...

Julgo que, com os bispos alemães, se deveria pensar numa bênção da Igreja para estas uniões civis.

 

José Maria Brito

Padre jesuíta

 

NÃO Vendo as reações ao que o Papa disse sobre as uniões civis homossexuais, recordava o paradoxo do elixir da eterna juventude cantado por Sérgio Godinho: “Esse que quer que tudo mude para que tudo fique igual.”

 

Pensava ainda que talvez se passe algo inverso com o elixir da tradição cristã, que entende que nada deve mudar para que nem tudo fique igual.

 

O que é que não muda? Não muda o pensamento do Papa Francisco, nem a doutrina da Igreja. Como arcebispo de Buenos Aires, Bergoglio admitiu que fossem reguladas as “convivências civis”. Tal expressão foi usada no contexto da discussão da lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo e com o intuito de marcar uma diferença entre aquelas uniões e o casamento civil ou religioso, garantindo proteção a essas pessoas.

 

Bergoglio era claro: o casamento deveria ficar reservado para a relação entre homem e mulher. Já como Papa reafirmou o mesmo numa entrevista ao sociólogo Dominique Wolton publicada em livro (“Um Futuro de Fé”, 2018). Francisco mostra-se também contrário à adoção por parte de uniões homossexuais.

 

E o que é que não fica igual? Na entrevista a Wolton, Francisco refere-se à forma como avança a doutrina: “Na tradição dinâmica, o essencial permanece, não se altera, antes cresce. Cresce na explicitação e na compreensão.” Para o Papa esse crescimento dá-se através do diálogo. O diálogo tem passado no seu pontificado por uma intencional atitude de acolhimento que não é mera simpatia. Acolher implica expor a proposta da Igreja à realidade, deixando-se interpelar por ela, promovendo em cada situação o bem possível. Não é um exercício teórico, é uma prática, um modo de proceder que o Papa encarna nos seus gestos.

 

No documentário “Francesco” em que surgem as declarações de Francisco, é dada a conhecer a história de Andrea Rubera que com o parceiro adotou três crianças.

 

Numa carta entregue ao Papa, Andrea expôs o desejo de educar as crianças como católicas na paróquia e o seu receio de não serem acolhidos. Francisco telefonou-lhe comovido pedindo que levassem as crianças à paróquia. Segundo a experiência de Rubera, não mudando a doutrina, o Papa convida a uma mudança de olhar sobre os homossexuais, não os metendo numa categoria. O Papa expõe assim a proposta da Igreja à realidade das pessoas, permitindo que a doutrina toque essa realidade e seja tocada por ela. É neste diálogo que a doutrina cresce e nem tudo fica igual.

É um passo gigantesco, quando se pensa na doutrina da Igreja e no que disseram Papas anteriores

Não muda o pensamento do Papa Francisco nem a doutrina da Igreja

in Expresso, 24.10.2020 pg2

pdf.leitor.expresso.pt/html5/reader/production/default.aspx?pubname=&pubid=225434b9-290e-4627-9341-cffb4d1fc475

 

 

QUE COISA
SÃO AS NUVENS

JOSÉ
TOLENTINO
MENDONÇA

O LIVRO COMO PATRIMÓNIO

QUEM INVENTOU O LIVRO INVENTOU UMA CERTA FORMA DE PRODUZIR HISTÓRIA E TAMBÉM A FIGURA DE LEITOR QUE AINDA SOMOS

Estamos, diz-se, a chegar ao fim da era do livro. E não porque os livros deixaram ou deixarão de existir de uma hora para outra, no período histórico das nossas vidas: esperamos que eles se continuem a escrever e a ler, a publicar, a apoiar e a conservar por longo tempo. O que acontece, porém, é que, quer como artefactos, quer como transmissores de uma determinada conceptualização moral da vida, os livros deixaram de representar, como defendia George Steiner já nos anos 60 do século passado, o principal foco de energia da nossa civilização. Nessa função, o livro foi substituído pelo ecrã. Efetivamente, cada um de nós passa hoje mais tempo diante de um ecrã que diante de um livro. E são múltiplos os ecrãs que massivamente se disseminam nos nossos quotidianos e os moldam, veiculando assim o impacto da revolução digital na nossa época e a interferência, sempre maior, da tecnologia na comunicação humana. Ora, esse foi o lugar que, por séculos, esteve reservado à página e ao texto, manuscrito ou impresso. Na autorrepresentação que o mundo contemporâneo faz de si, o livro, por exemplo, já não é a grande metáfora, como era no século XII, quando o teólogo e místico Hugo de São Vítor defendia que toda a criatura deste mundo é como um livro; ou como era ainda no final do século XIX, quando Mallarmé imaginava o livro como uma estrutura omnicompreensiva, uma espécie de coágulo total das escrituras decifráveis e indecifráveis do homem e do universo.

Uma bicicleta acaba por ter duas rodas e um eixo. Do mesmo modo, por mais variações que se introduzam, o que teremos entre as mãos continuará a ser um livro

É verdade que há quem diga que mais do que falar em crepúsculo, deveríamos falar de transformação, pois o que está em ato é simplesmente uma alteração do suporte em que o livro é transmitido e não do livro propriamente dito. A forma atual do livro em papel é uma etapa de uma história mais longa que começou pelos textos gravados em pedras, em tábuas de argila e em rótulos, história que continuará o seu caminho. Nesse sentido, Umberto Eco mostrava-se confiante dizendo que o livro integrava aquela tecnologia irremovível representada pela roda, pela faca, pela colher, pelo martelo, pela panela ou pela bicicleta. Por mais que os designers invistam em transformar este ou aquele particular será sempre possível reconhecer o que é uma faca ou o que é uma colher. Uma bicicleta acaba por ter duas rodas e um eixo. Do mesmo modo, por mais variações que se introduzam, o que teremos entre as mãos continuará a ser um livro.

Não podemos esquecer, porém, que a civilização que inventou o livro tal como até aqui o conhecemos, inventou também as condições requeridas para a sua leitura e que essas nos modelaram antropologicamente durante séculos e constituem um património cultural que precisamos de preservar. Pois quem inventou o livro inventou o silêncio da leitura; inventou essa forma íntima de temporalidade que torna o encontro com o livro indissociável do encontro connosco próprios; inventou a atenção e a curiosidade; inventou um regime social onde a atividade intelectual era admitida; inventou o direito universal à alfabetização; inventou o indivíduo e a vida privada; inventou a confiança na consistência da linguagem e as bibliotecas; inventou os sistemas críticos e hermenêuticos que garantem não só a legibilidade dos livros, mas a compreensão do mundo; inventou o humanismo e a liberdade de expressão, que é sempre inseparável da liberdade de ser. O livro acompanhou o nascimento e expansão das línguas modernas do Ocidente, e assistiu ao desenvolvimento das suas possibilidades expressivas. Quem inventou o livro inventou uma certa forma de produzir história e também a figura de leitor que ainda somos. Temo-nos de perguntar o que podemos fazer para valorizar este extraordinário património.

in semanário Expresso, 24.10.2020 Pg 170

https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2504/html/revista-e/que-coisa-sao-as-nuvens/o-livro-como-patrimonio

 

 

À PROCURA DA PALAVRA

Pe. Vítor Gonçalves

DOMINGO XXX COMUM

“Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração…

Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”

Mt 22, 37.39

 

O amor é um projecto

 

Há um diálogo no musical “Um violino no telhado”, entre um casal judeu a propósito das suas filhas porem em causa a tradição dos casamentos, que os leva a descobrir, passados 25 anos, que se amam. Nunca é tarde para descobrir que os gestos simples de cada dia, a fidelidade nos bons e nos maus momentos, são o amor em acto; que podíamos dizer mais frequentemente, mas o importante viver constantemente. De facto, o amor como palavra e como ideia pode ser bonita, contudo, ele só existe como verbo, feito dádiva e entrega, corpo e alma que sai de quem ama para quem é amado. Como dizia Pedro Casaldáliga, o bispo brasileiro recentemente falecido: “No final do caminho perguntar-me-ão: “Viveste?”, “Amaste?”… E eu, sem dizer nada, abrirei o coração cheio de nomes…”.

Não encontraremos no mais fundo de cada pessoa infeliz a falta de sentir-se amado e de amar? E se a primeira experiência nos unifica e fortalece, ela não depende substancialmente de nós. É dom daqueles que nos rodeiam, do nascer ao morrer, de muitas circunstâncias que não dominamos. Mas quanto a amar, essa é uma escolha que depende de cada um, por vezes natural como respirar, ou encantarmo-nos com a beleza que nos rodeia, mas por vezes a exigir escolhas difíceis e comprometedoras. Pode educar-se para amar? Sim, e não será esse o maior objectivo da educação? E quem não é amado não é capaz de amar? Não; porque o amor é semeado no íntimo de todos. É mesmo o maior dom que é oferecido a todos, capaz de se multiplicar sempre que o damos a outros.

Jesus ao unir o amor a Deus ao amor ao próximo, sintetizando a extensa lista de mandamentos e preceitos judaicos, ainda hoje nos interpela. Amar o próximo que vemos é o modo de amar Deus que não vemos. É aprender com o próprio Jesus que deu cada instante da sua vida ao Pai e aos irmãos, até no-la dar totalmente na cruz. Como Ele não podemos ficar numa atitude de indiferença, despreocupação ou esquecimento dos outros. Diante de qualquer pessoa a atitude fundamental é amá-la. O amor do próximo é um apelo, uma necessidade, uma urgência. Sem perder tempo em estabelecer uma “lista de próximos”, como nos desafia o “bom samaritano”; antes, criando disponibilidade para “os mais pequeninos” com quem Jesus se identifica.

Mais do que um “slogan”, o amor é um projecto. É o maior projecto de Deus, que é a fonte do Amor. Aprovado na generalidade e na especialidade, com todos os meios para se erguer em cada dia e em cada situação. Basta que nos demos a ele. E recordo outra imagem cinéfila: o discurso de Charlie Chaplin no final do filme “O Grande Ditador”. Sem nunca falar de amor, concretiza-o repetidamente: “Todos nos queremos ajudar uns aos outros. O ser humano é assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo — não para seu sofrimento.[…] Mais do que de inteligência, precisamos de gentileza e bondade.[…]Você tem o amor da humanidade no coração.”

in Voz da Verdade, 25.10.2020

http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=9285&cont_=ver2

 

Grupos de estudo da Encíclica Fratelli Tutti

 

Uma comunidade feita de pequenas comunidades

O tempo que vivemos foi propício ao afastamento e isolamento das pessoas que, em virtude do confinamento, se recolheram nas suas casas e famílias, defendendo-se e protegendo-se de um vírus que viria a impor uma mudança tão radical nas nossas vidas.

Esta situação inesperada teve um impacto directo nas comunidades, nomeadamente na nossa, com consequências ao nível do crescimento da solidão, dispersão e aparecimento de muitas mais fragilidades…

O surgimento da Encíclica Fratelli Tutti veio no momento certo: início do ano pastoral, apresentando-se assim como proposta de trabalho, ótimo programa, não só pelo conteúdo em si, a fraternidade, mas também porque poderá ser um potencial projeto de crescimento pessoal/ comunitário.

Nesta conjuntura, e na tentativa de nos adaptarmos aos tempos que vivemos, procurando ultrapassar a dificuldade de nos juntarmos em grande grupo, e tendo em mão uma nova Encíclica, surgiu a ideia de nos organizarmos de uma outra forma, para refletir sobre este documento que tão oportunamente nos é oferecido.

Uma vida mais fraterna para todos é a proposta do Papa Francisco. Uma tarefa tão importante requer da nossa parte um tempo de leitura e de maturação diferentes.

Numa tentativa de fazermos o caminho certo, podemos adotar um modelo de trabalho mais adequado, o de Círculos de Estudo, baseado na formação de pequenos grupos que se organizam com o propósito de reflexão conjunta, mais ativa.

Sabendo da importância desta carta, para uma reavaliação do modo como temos vivido, os Círculos de Estudo são uma metodologia de funcionamento que pode permitir uma melhor apropriação do seu conteúdo, através de uma reflexão mais aprofundada, no sentido de um processo de mudança interior. Acresce dizer que este modelo possibilita em simultâneo o desenvolvimento pessoal e o envolvimento de toda a comunidade, não deixando ninguém de fora, e ajudando ao seu crescimento.

Nos tempos atuais, este modo de organização pode ter uma importância acrescida porque promove a aproximação das pessoas que se encontram mais isoladas, ajudando a criar um sentido de pertença…

Não será esse um dos objetivos da Encíclica? Apresentar novos caminhos, mais voltados para os outros e mais inclusivos, começando pelos que nos são mais próximos, porque não tentar?

Para facilitar a organização dos grupos apresentam-se algumas sugestões:

Os grupos podem ter entre 4 a 8 participantes. A sua formação pode ser feita pelos próprios elementos, de forma espontânea. No caso de haver dificuldade de encontro, pede-se o envio do nome, assim como respetivo contacto, para o email da Capela (capeladorato@gmail.com), para que se possa apoiar na formação dos grupos. Importante mesmo é que ninguém fique de fora…

Finalmente, pede-se a informação da existência do grupo, para contacto futuro.

Inscreva-se aqui para receber as notícias da Capela do Rato no seu email. | Consulte aqui a nossa Política de Proteção de Dados.

Inscrições para as Eucaristias da Solenidade de

Todos os Santos

 Para permitir uma maior participação de fiéis, passam a ser celebradas, na Capela do Rato, duas eucaristias na manhã de domingo. 

A primeira eucaristia é celebrada às 11h; a segunda às 12.30h. 

Para melhor controle do número de presenças, pede-se que se faça uma inscrição prévia no formulário disponível aqui, para as celebrações na Capela do Rato (11h00 e 12h30) no próximo dia 1 de novembro.


www.capeladorato.org/2020/10/25/inscricoes-para-as-eucaristias-da-solenidade-de-todos-os-santos/?utm_term=Inscricoes+para+as+Eucaristias+da+Solenidade+de+Todos+os+Santos&utm_campaign=Capela+do+Rato&utm_source=e-goi&utm_medium=email&eg_sub=5f23d43415&eg_cam=3176fac683a26c2e56ef3b9ad320caf7&eg_list=4

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                       www.we-are-church.org/ 

28 setembro 2020

                P/INFO: Crónicas & Capela do Rato

Frei Bento: Deus onde está?

Pe. Anselmo Borges:  Os prazeres da comida e do sexo

Cardeal Tolentino: O interruptor

Pe. Vítor Gonçalves: É preciso mudar

 

DEUS ONDE ESTÁ?

Frei Bento Domingues, O.P.

 

1. De Fátima a Meca ou a Jerusalém, o desconsolo é evidente em quem deseja e não consegue participar nas grandes celebrações da fé a que se estava habituado. As assembleias reduzidas, com observância rigorosa do novo ritual que impõe distâncias, uso obrigatório de máscara e um ritmo marcado de purificações das mãos, acentuam um clima de desconfiança mútua num cenário de catacumba.

Não é por causa de qualquer medida contra a liberdade religiosa, mas para defesa das ameaças de um vírus que não pergunta aos seus hóspedes se são crentes, agnósticos ou ateus.

A ciência tem-se mostrado muito lenta, como é normal, a encontrar remédios para o vencer e não surgem milagres disponíveis para a substituir. A oração intensa – nas suas inumeráveis formas – pode ajudar-nos a criar em nós um espírito de resistência e de esperança. Precisamos de abrir os olhos para todas as possibilidades de trabalhar por um mundo, onde a busca da justiça, banhada de sabedoria política dos cidadãos, se torne o nosso pão de cada dia.  

O director executivo do Programa Alimentar Mundial, David Beasley informou, perante o Conselho de Segurança das Nações Unidas, que há 138 milhões de pessoas a passar fome, mas em breve serão 270 milhões a precisar de ajuda alimentar e 30 milhões morrerão se não receberem auxílio de emergência. Este Programa não tem recursos para continuar o seu trabalho. Por contraste, no mundo inteiro há mais de dois mil multimilionários que, até com a própria pandemia, ganham milhões de dólares[1].

Como não pertencemos aos multimilionários nem sabemos como os convencer a partilhar o seu grande roubo à humanidade, a informação sobre esse horror pode indignar-nos, mas deixa-nos paralisados.

2. Não tem que ser assim[2]. Há ricos que podem ouvir a voz da consciência – voz de Deus silencioso – e, em vez de se servirem do dinheiro da iniquidade para aprofundarem os abismos sociais, usem o seu talento para abrir novos caminhos para uma economia solidária. Como diz o Evangelho, é raro, mas não é impossível. Por outro lado, como esquecer as pessoas que a nível familiar, profissional, político, associativo, cultural, lúdico, resistem à mentira, à corrupção, à maldade e se prontificam a ajudar, sem alarde, quem é vítima de tantas formas de exclusão? É essa santidade anónima que é a alma do mundo.

Os crentes continuarão a pedir a Deus que não se esqueça dos esquecidos de todos, mas faziam melhor se pedissem à assembleia orante que não se esqueça da primeira e última pergunta de Deus[3]: Que fizeste do teu irmão? É pela resposta prática a esta questão que nos tornamos humanos e divinos, responsáveis uns pelos outros, ou inumanos, quando nos auto-excluímos da verdadeira humanidade.

Cristo não sacralizou a pobreza. Pelo contrário. Ao centrar o seu olhar e os seus cuidados nos marginalizados, abriu o caminho aos seus discípulos: fazei tudo para eliminar as periferias, trazendo as suas vítimas para o centro das vossas preocupações.

Não é pedir o impossível à imaginação económica e política que não suporte ver uns poucos à mesa e a maioria à porta. Cristo deixou-nos uma parábola de fogo sobre esse escândalo[4]. Segundo o Papa Francisco, as desigualdades brotam de um sistema que tem o capital como prioridade e não os direitos humanos.

Não me parece boa ideia reservar o encontro com Deus apenas para as celebrações litúrgicas. Cristo avisou-nos: Nem todo o que me diz Senhor, Senhor entrará no Reino de Deus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai. (…) Afastai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade[5]. S. Tiago não podia ser mais sintético: a fé sem obras não é nada[6].

Para S. Paulo, o verdadeiro culto é a vida inconformada com a situação desumana do mundo: Por isso, vos exorto, irmãos, pela misericórdia de Deus, a que vos ofereçais como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus. Este é que é o verdadeiro culto segundo o Espírito: Não vos acomodeis a este mundo. Pelo contrário, deixai-vos transformar, adquirindo uma nova mentalidade, para poderdes discernir qual é a vontade de Deus: o que é bom, o que lhe é agradável, o que é perfeito[7].

Jesus, em conversa com a samaritana, altera os lugares do culto: não é em Jerusalém nem em Garizim, mas chega a hora – e é já – em que os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são assim os adoradores que o Pai pretende[8].

Quando fui professor de Teologia das Realidades Terrestres, procurei, com os alunos, descobrir a significação divina, cristã, das tarefas – ditas profanas – nas quais, as pessoas gastam a maior parte do seu tempo. Não se podia continuar a desvalorizar a vida doméstica, profissional, cultural, lúdica, social e política. Era necessário encontrar a alteração que Jesus Cristo introduziu na questão das relações entre sagrado e profano.

       3. O Papa Francisco[9] não me parece muito assustado com os agnósticos, que tanto podem significar uma atitude humilde, em face do mistério do mundo, como uma interrupção apressada da pergunta essencial. Denunciou, pelo contrário, uma espiritualidade desencarnada: os gnósticos concebem uma mente sem encarnação, incapaz de tocar a carne sofredora de Cristo nos outros, engessada numa enciclopédia de abstracções. Ao desencarnar o mistério, em última análise, preferem um Deus sem Cristo, um Cristo sem Igreja, uma Igreja sem povo.

Se quisermos saber onde está Deus, um bom caminho talvez seja o de perguntar onde estão os seres humanos: Deus é sempre novidade, que nos impele a partir sem cessar e a mover-nos para ir mais além do conhecido, rumo às periferias e aos confins. Leva-nos aonde se encontra a humanidade mais ferida e aonde os seres humanos, sob a aparência da superficialidade e do conformismo, continuam à procura de resposta para a questão do sentido da vida.

Deus não tem medo! Não tem medo! Ultrapassa sempre os nossos esquemas e não Lhe metem medo as periferias. Ele próprio Se fez periferia[10].

Por isso, se ousarmos ir às periferias, lá O encontraremos. Jesus antecipa-nos no coração daquele irmão, na sua carne ferida, na sua vida oprimida, na sua alma sombria. Ele já está lá.

É difícil e incómodo acolher essa presença real. Pensávamos que era um exclusivo da Missa.

in Público 27.09.2020

https://www.publico.pt/2020/09/27/opiniao/opiniao/deus-onde-1932881



[1] Cf. 7Margens, 19.09.2020

[2] Cf. Gaudete et exsultate, Exortação Apostólica, 2018, nº 137

[3] Gn 4, 9-10; Mt 25, 31-46

[4] Lc 16,19-31

[5] Mt 7, 21-23

[6] Tg 2

[7] Rm 12, 1-2

[8] Jo 4, 23

[9] Cf. Gaudete et exsultate, Exortação Apostólica, 2018.

[10] Cf. Flp 2, 6-8; Jo 1, 14 e nota 2

OS PRAZERES DA COMIDA E DO SEXO: “DIVINOS”

Anselmo Borges

Padre e Professor de Filosofia

 

1. Quando se fala da Igreja e do sexo, entra-se numa história muito complexa e pouco edificante.

Significativamente, não é com a Bíblia que há dificuldades. De facto, no Antigo Testamento, lê-se, logo no primeiro livro, o Génesis, que Deus criou também a sexualidade e viu que era boa. Do mesmo Antigo Testamento faz parte um dos livros mais belos a cantar o amor erótico: o Cântico dos Cânticos.

Já no Novo Testamento, Jesus raramente se referiu ao sexo, aliás nunca por iniciativa própria, mas para responder a perguntas que lhe foram feitas a propósito do divórcio e para defender a mulher.

2. Factor decisivo para o envenenamento da relação foi a gnose, a primeira grande heresia com que o cristianismo teve de confrontar-se e que, desgraçadamente, não terminou. Segundo a gnose ou gnosticismo, a salvação não se alcança pela fé, mas pelo conhecimento, que é secreto e, em última análise, acessível apenas aos iniciados. Elemento essencial desta doutrina é que o Deus do Antigo Testamento, que é o criador do mundo, não é o mesmo que o Pai de Jesus Cristo. Este mundo, que é o mundo material, procede de uma queda e é mau. Os membros desta heresia insistiam concretamente, na continuação do platonismo, num dualismo radical de alma e corpo, matéria e espírito, sendo o corpo apenas uma espécie de “contentor” da alma: necessário, mas sempre inferior e indesejável.

A gnose pretendia essencialmente explicar a existência do mal no mundo. O maniqueísmo situa-se neste mesmo quadro de compreensão, distinguindo no fundamento de tudo um duplo princípio, um princípio do bem e um princípio do mal; a História é uma luta entre estes dois princípios, com a esperança do triunfo final do Bem. Santo Agostinho era maniqueu, mas, ao tornar-se cristão, teve de abandonar o maniqueísmo, pois, segundo o cristianismo, Deus é o único princípio e fundamento de tudo e tudo fez bem. Ficava um problema gigantesco: como explicar o mal no mundo, se Deus é bom? Santo Agostinho, a partir de uma experiência pessoal negativa da sexualidade e de uma exegese errada — ele não sabia grego e, por isso, seguiu a tradução latina de um passo célebre da Carta de São Paulo aos Romanos, capítulo V, versículo 12: Adão, “no qual” todos pecaram, quando o original grego diz “porque” todos pecaram —, apresentou como solução para o problema do mal a doutrina do pecado original, embora os Evangelhos não falem dele. O que é facto é que, com esta doutrina, Santo Agostinho, que é, por outro lado, um dos maiores génios da Humanidade, envenenou a sexualidade e tudo quanto de um modo ou outro com ela se relaciona. De facto, esse pecado foi entendido não como o primeiro de todos os pecados, porque todos os seres humanos são pecadores, mas como um pecado herdado de Adão e transmitido por geração, portanto, no acto sexual.

A lei do celibato obrigatório para o clero e sobretudo a misoginia têm também aqui assento. As mulheres são, por um lado, fonte da tentação e, por outro, devem ter filhos, mas sabendo que durante nove meses transportam consigo o pecado. A confissão dos pecados ficou quase exclusivamente centrada no sexo, de tal modo que o confessionário em vez de ser o lugar da libertação se transformou na realidade em câmara de tortura. Segundo o historiador Guy Bechtel na sua obra A carne, o diabo e o confessor, desde o século XVIII muitos terão iniciado o abandono da Igreja, precisamente porque a confissão, patologicamente centrada no pecado sexual, esmiuçado até à exaustão, começou a ser sentida como invasão indevida da intimidade de cada um, ferindo inclusivamente os direitos humanos, de que se começava a ter uma consciência mais viva.

3. Foi neste contexto que provocaram a merecida atenção da opinião pública mundial declarações do Papa Francisco sobre o tema do prazer da comida e do sexo, que vem de Deus, feitas a Carlo Petrini, um jornalista e gastrónomo italiano, e publicadas recentemente no seu livro Terrafutura. Dialoghi con Papa Francesco sull’ecologia integrale (Terra futura. Diálogos com o Papa Francisco sobre a ecologia integral).

O jornalista provocou o Papa, dizendo-lhe que “a Igreja católica sempre anulou o prazer, como se fosse algo a evitar”. Francisco não está de acordo e respondeu que “a Igreja condenou os prazeres desumanos, grosseiros e vulgares, mas sempre aceitou os prazeres humanos, sóbrios, morais”. Francisco opõe-se a “uma moralidade beata, fanática”, que rejeita o prazer. Essa rejeição existiu na história da Igreja, mas constitui “uma má interpretação da mensagem cristã” e “causou enormes danos, que ainda hoje se fazem sentir fortemente em alguns casos.” E, para que não houvesse equívocos, declarou textualmente: ”O prazer vem directamente de Deus. Não é católico, não é cristão ou outra coisa, é simplesmente divino. O prazer de comer serve para que ao comer se mantenha uma boa saúde, tal como o prazer sexual existe para tornar o amor mais belo e garantir a continuação da espécie.”

4. Não nos vivemos dualisticamente: de um lado o corpo, do outro a alma; mesmo se em tensão, o ser humano é uma unidade corpóreo-espiritual. Dada a complexidade do Homem, que pode até levar a confundir a felicidade com a soma de prazeres e a anomia, não é fácil levar uma vida humana na dignidade livre e na liberdade com dignidade para todos. Mas saúda-se a intervenção de Francisco, abençoando o prazer, que não pode ser nem  tabu nem ídolo, um deus falso e enganador. “Simplesmente divino”.

in DN 26.09.2020

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/26-set-2020/os-prazeres-da-comida-e-do-sexo-divinos--12755950.html?target=conteudo_fechado

     

QUE COISA SÃO AS NUVENS

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

O Interruptor

O MEDO FAZ PARTE DE TODA A CONSTRUÇÃO VERDADEIRA DA ESPERANÇA. COMO ESCREVEU SÉNECA, “SE EU CESSAR DE TEMER, CESSAREI TAMBÉM DE ESPERAR”

A diferença entre a esperança e o desânimo é mínima: é como ligar um interruptor. Coisa tão estranha, a esperança! Por um processo surpreendente de vida interna, aquilo que antes parecia apenas um copo já meio vazio nós conseguimos vê-lo como um copo meio cheio. Quem o diz é a filósofa Martha C. Nussbaum, que não se conforma que, sendo a esperança uma experiência humana decisiva, seja tão pouco conversada e refletida.

Segundo Nussbaum, há três coisas essenciais que todos temos a aprender (ou a reaprender) sobre a esperança. A primeira é que ela não é um discurso sobre probabilidades. Nem podemos fazer depender a legitimidade da esperança do facto de ter um desfecho provável. Pelo contrário, quando aumenta a probabilidade de um resultado positivo, falar de esperança torna-se supérfluo. Melhor seria, nesse caso, falar de expectativas, e de boas expectativas. É quando nada parece garantido que a esperança joga um papel fundamental, mobilizando-nos para não cruzarmos os braços nem nos darmos por derrotados. Renunciar à esperança é aceitar coincidir com a realidade sem mais, enquanto agarrar-se a ela é introduzir uma tensão inconformada entre nós e a morfologia do presente. Essa tensão insufla no tempo uma coragem que desconhecíamos; motiva-nos a uma ousadia e resiliência inéditas; coloca em marcha estratégias que, contra todas as expectativas, se revelam acertadas.

Renunciar à esperança é aceitar coincidir com a realidade sem mais, enquanto agarrar-se a ela é introduzir uma tensão inconformada entre nós e a morfologia do presente

 

A segunda coisa é que a esperança não é um discurso sobre desejos. Um dos erros frequentes é associar a esperança à satisfação de desejos imediatos, não raro tremendamente banais e infantis. Ora, só podemos falar de esperança quando estão em causa coisas grandes, superiores às nossas possibilidades; quando há uma confirmada incerteza sobre os resultados; e, por fim, quando face ao objeto da esperança percebemos uma impotência e uma falta de controlo da nossa parte. Além disso, a esperança não é uma experiência existencialmente neutra. Ter esperança não nos isenta de experimentar o medo, de sofrer violentamente com o abalo de terra de certos confrontos nossos com a fragilidade, de atravessar o ordálio das dúvidas. Numa das cenas mais extraordinárias dos evangelhos, Jesus consegue que também Pedro caminhe sobre as águas. É verdade que este depois se enche de medo e começa a afundar-se no lago. Mas o espantoso não é este facto. O espantoso é Jesus ter dito “Vem” e Pedro ter ido (Mateus, 14:22-36). Aliás, o medo faz parte de toda a construção verdadeira da esperança. Como escreveu Séneca, “se eu cessar de temer, cessarei também de esperar”.

 

A terceira coisa é que a esperança não é apenas um discurso dirigido à prática. Na verdade, mais do que uma simples atitude ou um estado emocional delimitado, a esperança é semelhante a uma síndrome. Inclui tudo: lógica e imaginação, preparativos práticos para a ação e fantasia criativa, racionalidade e fé. Existe uma “esperança prática” mas inseparável daquela que Martha C. Nussbaum chama uma “esperança ociosa”. A primeira é aquela que nos serve de combustível para a ação concreta e que nos cola a um objetivo determinado como um prego à parede. Essa modalidade, porém, não esgota a esperança. Acontece, por vezes, que censuramos a esperança por ela se parecer a uma miragem lenta e indulgente que nos deixa como que a pairar. Contudo, não nos convém ser demasiado rígidos nesta avaliação: mesmo quando a esperança se desenha como uma viagem solitária num fio de arame, ela acaba por ter um papel mais determinante do que supomos nesta nossa travessia.

in Semanário Expresso, 26.09.2020 pg. 188

https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2500/html/revista-e/que-coisa-sao-as-nuvens/o-interruptor

À PROCURA DA PALAVRA

DOMINGO XXVI COMUM

“Os publicanos e as mulheres de má vida

irão diante de vós para o reino de Deus.”

 

Mt 21, 31

 

É preciso mudar

As escolas e as vindimas parecem andar de mãos-dadas: as primeiras iniciam, por estes dias, o grande tempo de sementeira e adubagem do conhecimento para que chegue o tempo dos frutos lá para o Verão; as segundas reclamam a colheita rápida dos frutos rubros e dourados para o trabalho escondido que produzirá néctares deliciosos. Entramos num novo ano escolar com prudência e responsabilidade que a pandemia obriga. A dureza do último confinamento exige avaliação constante sobre as melhores opções escolares, e capacidade de rever objectivamente as decisões tomadas. E como nas vindimas é preciso um esforço conjunto para que o maior bem, que são as pessoas, seja salvaguardado.

Regressamos às vindimas como imagem do Reino e ao trabalho como compromisso humano, numa pequena parábola de Jesus. Na figura de dois irmãos, nas suas respostas e atitudes revemo-nos na coerência entre o que dizemos e fazemos. E se o importante é o trabalho da vinha, a lição maior é a possibilidade de mudança; em termos evangélicos, de conversão. Para lá da tentação imediata de dividir o mundo entre justos e injustos, bons e maus, somos convidados a olhar a realidade humana na sua complexidade, nos muitos matizes que cada pessoa pode tomar. Afinal, o mundo é a cores, e quem vê tudo a preto e branco é quase cego.

Um reino comparado ao trabalho na vinha e necessitado de trabalhadores apaixonados fala-nos muito do coração de Deus. Mais do que a eficácia da produção, o que parece alegrar o Pai é o entusiasmo dos trabalhadores. Não as boas intenções nem as aparências. O entusiasmo que nasce até do arrependimento, da consciência de que é sempre possível mudar as escolhas erradas, dará ao vinho um sabor renovado. E por isso, porque todos somos filhos, ninguém é excluído da vindima e do trabalho que irá produzir o bom vinho da alegria e da festa.

No mundo que “é composto de mudança” como escrevia Camões, é importante nunca perder a esperança, nem desistir de tentar. Não seremos julgados por nos termos enganado, mas pelas vezes em que não quisemos, nem tentámos, mudar de caminho. É talvez uma espiritualidade da mudança, aquela que Cristo oferece à sua Igreja. Mudança porque o hábito e a instalação apagam o ardor evangelizador; mudança porque o Espírito Santo é vento que sopra e não se pode engaiolar; mudança porque quem disse “não” pode vir a fazer “sim”; mudança porque só Deus não muda, mas tudo o resto pode ser melhor!

in Voz da Verdade, 27.09.2020

http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=9222&cont_=ver2

Inscrições para a Eucaristia do XXVII Domingo do Tempo Comum

Já estão disponíveis as inscrições para a Eucaristia na Capela do Rato no dia 4 de outubro.  

O atual contexto de contingência sanitária vai continuar a condicionar as nossas atividades e relações; não se prevê, nem é desejável, aligeiramento. Vamos aprendendo a viver assim em família, em sociedade e em Igreja, aliando risco e a prudência, numa tensão que nos pode inibir mas também suscitar criatividade.Recomeçámos as celebrações dominicais da eucaristia no dia 13 de setembro. Vamos manter o sistema de inscrições prévias, através do site da Capela, para controle de lugares, dadas as nossas limitações espaciais.

 

Para melhor controle do número de presenças, pede-se que se faça uma inscrição prévia no formulário em baixo.

 

INSCRIÇÃO PARA A EUCARISTIA - 4 DE OUTUBRO DE 2020


https://www.capeladorato.org/2020/09/25/inscricoes-para-a-eucaristia-do-xxvii-domingo-do-tempo-comum/