23 setembro 2018

NÃO VARRER A CASA AO DIABO (1)

     
1. As narrativas do Novo Testamento insistem em dizer que a linguagem que o Nazareno preferia era a das parábolas. É muito incómoda porque não se lhe pode fixar um sentido único. Muitos cristãos lamentaram, e ainda lamentam, que os autores dos textos dos Evangelhos tenham perdido tempo com histórias enigmáticas. Seria preferível um catecismo, com uma mensagem bem precisa e um catálogo de deveres e proibições, válidos para todos os tempos e lugares. A história da Igreja seria construída de forma linear, sem altos nem baixos, serena como uma pedra. O zero seria o seu único número.
Não foi assim que aconteceu. Jesus abriu uma nova Era de criatividade. Não fechou a história dos povos e das culturas. As parábolas são contra a clausura do sentido dos gestos e das palavras. Todas, porém, encerram inesgotáveis possibilidades de construir a vida humana, individual e social, no horizonte da busca da felicidade, encontrando-a não só na alegria que se recebe, mas, sobretudo, na que se dá. Os Actos dos Apóstolos atribuíram a Jesus uma expressão incrível: há mais alegria em dar do que em receber. Nos Evangelhos já existia uma lei paradoxal: quem ganha (à custa dos outros), perde e quem perde para que os outros possam viver, ganha.
Vem isto a propósito de uma parábola sobre a reforma das diversas cúrias eclesiásticas: «Quando o espírito maligno sai de um homem, vagueia por sítios áridos, em busca de repouso e não o encontra. Diz então: ‘Voltarei para a minha casa, donde saí. Ao chegar, encontra-a livre, varrida e arrumada. Vai, toma outros sete espíritos piores do que ele e, entrando, instalam-se nela. O estado final daquele homem torna-se pior do que o primeiro. Assim acontecerá também a esta geração má[i]
Ao ler e ouvir certas propostas para o Papa limpar o Vaticano, de uma vez por todas, lembro-me desta parábola. Bergoglio chegaria com toda a sua energia e, como grande inquisidor, punha na rua, de alto a baixo e de baixo ao alto, toda a gente do Vaticano e fechava-o para obras. Depois, usando da sua infalibilidade, povoaria aquele Estado só de gente santa e fiel. A sua infalibilidade seria o equivalente à inteligência artificial de robots.
De facto, continuou numa história de humanos, mas com o intuito incontornável de tornar tudo diferente. Não era uma renúncia à reforma nem uma cedência perante as resistências e oposições, de dentro e de fora da Igreja. Em vez de invocar a infalibilidade pontifícia e de pedir que lhe chamassem Santo Padre, optou por propor o estudo e a análise de todas as situações e considerou-se membro de uma Igreja sempre a reformar, feita de santos e pecadores. Situou-se sempre entre estes últimos. Nada disto significava um processo de inibição. Era uma nova forma de coragem: a Igreja não é minha, eu sou da Igreja de todos e eleito Papa para a Igreja de todos. Nem quero que ela continue na mesma, nem eu. Estamos na mesma barca de conversão.
Conhecia e conhece o que foram os trabalhos de Jesus com os seus discípulos. A glória do Crucificado não foi a de ter êxito, mas a de não trair, mesmo diante das piores ameaças.
Não estou a comparar o Papa a Jesus Cristo. Ele próprio acharia isso ridículo. Pretendo sublinhar, apenas, que o caminho seguido pelo Papa Francisco exige o envolvimento de toda a Igreja.
2. Não se pode negar que os adversários e opositores dos caminhos de Bergoglio, em relação à sociedade e à vida interna da Igreja, não o tenham ajudado a sentir a necessidade urgente de estudar métodos que responsabilizem toda a Igreja pelo seu futuro, como sinal e instrumento de transformação da sociedade. Igreja-Sacramento.
Estava a tornar-se perigosa uma convicção falsa e muito divulgada: a reforma da Igreja e das cúrias é uma utopia do Argentino desenraizado. Cresceu com ele e com ele morrerá.
Se havia muitos católicos impacientes com o silêncio dos seus bispos, outros, conscientes de que a Igreja é de todos,  a responsabilidade pelo seu presente e pelo seu futuro não precisa de ser delegada. Alguns começaram a manifestar, de diversas formas, o que lhes ia na alma.
Entre vários textos, importa referir, pelo seu carácter colectivo, a carta da Conferência dos Baptizados/as[ii] aos bispos da Igreja de França.
Destaco uma passagem onde existe um apelo à convocatória de um congresso, cujo objectivo seria, ao nível da França, «passar de uma participação facultativa e consultiva dos leigos – homens e mulheres evidentemente! – a uma presença efectiva nos locais de tomada de decisão, de acordo com modalidades a discutir. É o sacerdócio comum dos fiéis, o único citado no Novo Testamento que deve ser não apenas reabilitado, mas no futuro, colocado no próprio centro de decisão ».  
Em paralelo, considera que um "Concílio do Povo de Deus" é incontornável para rever, em profundidade, as relações entre sacerdotes e leigos, para reformular o ministério ordenado que, nas condições disciplinares em que é actualmente exercido, levou aos excessos que conhecemos[iii].
3. Falta, em Portugal, um estudo sobre as atitudes e o comportamento dos católicos portugueses em relação ao Papa Francisco e aos seus desígnios. Conhecemos a clara posição do Nós Somos Igreja e de algumas personalidades. Entretanto, há novidades em curso para o governo da Igreja. No passado dia 18, o Papa publicou a constituição apostólica Episcopalis Communio (Comunhão Episcopal) com a qual reforça o papel do Sínodo dos Bispos, sublinhando a importância de continuar a dinâmica do Vaticano II.
O Papa tem o cuidado de sublinhar: apesar de se configurar como um organismo essencialmente episcopal, o Sínodo dos Bispos não vive separado do resto dos fiéis, mas pelo contrário deve ser um instrumento adequado para dar voz a todo o povo de Deus.
O Papa não é o diabo como os tradicionalistas pensam, nem vai deixar o diabo à solta na Igreja, como desejam. Como?
É assunto para o próximo Domingo.
Frei Bento Domingues, O.P.
23.09.2018


[i] Mt 12, 43-45
[ii] Conférence des baptisé-e-s, Anne Soupa, presidente
[iii] Cf também Lettre au pape François de 31 Agosto 2018,

Sem comentários:

Publicar um comentário