21 junho 2020

Crónicas, Bispo Ornelas na CEP & Capela do Rato


P / INFO: Crónicas, Tornar o catolicismo português mais franciscano, a tarefa do bispo Ornelas na CEP & Em memória dos defuntos falecidos em tempo de pandemia, na Capela do Rato
Frei Bento: Continuidade e ruptura
Pe. Anselmo: A pandemia. Onde está Deus?
Cardeal Tolentino: O santo António de Augustina
Pe. Vítor: Ultrapassar o medo

CONTINUIDADE E RUPTURA
Frei Bento Domingues, O.P.
O recurso à diferença histórica não pode significar o culto da indiferença perante a violência, seja de que época for.
1. Os incitamentos à violência em nome de Deus, no chamado Antigo Testamento (AT), espantam-nos por boas e ambíguas razões. Por boas razões, porque a voz que pode ser escutada, em todos os tempos e lugares, no íntimo da consciência humana, consciência ética, não desresponsabiliza ninguém. O bem é para fazer e o mal para evitar, como o próprio S. Paulo lembrou[1]. Por outro lado, o poema que abre a actual organização da biblioteca do povo de Israel é um hino à bondade e à beleza do universo coroado pela harmonia do ser humano, masculino e feminino. É o fruto da bênção criadora de Deus extasiado com o seu próprio poema cósmico[2].
 Nesta perspectiva, dizer Deus é evocar a infinita generosidade de fazer ser e de nos fazer uns para os outros, segundo o carisma de cada um, incompatível com a força demoníaca da destruição. O recurso à diferença histórica não pode significar o culto da indiferença perante a violência seja de que época for.
Mas a violência actuante no AT pode espantar-nos por ambíguas razões. A mais ambígua de todas é a proclamação comunitária de salmos que invocam Deus para massacres diabólicos. É também ambígua, porque uma desejável selecção dos salmos ou de parte de alguns salmos, para a oração comunitária – o que me parece desejável –, poderia sugerir o projecto de uma Bíblia expurgada, mutilada. Seria uma violência contra a história e um atentado contra a biblioteca de um povo.
Por outro, a presença da violência no AT é inquietante porque não gostamos de nos ver ao espelho: a violência percorre a história dos povos. As matanças e as escravaturas, devido à vontade de dominação económica e política, podem fazer-se em nome de Deus, da negação de Deus, do ateísmo ou da indiferença em relação ao valor da vida humana que não tem preço. A tentação da inveja, do desprezo e do ódio à diferença do outro toma facilmente conta dos nossos desejos distorcidos.
2. Foi por isso que, para enquadrar a crónica do passado Domingo[3], fiz uma alusão rápida a um longo estudo de Frei Francolino Gonçalves, O.P., que distingue dois iaveísmos no AT, o cósmico e o histórico baseado numa exacerbada política nacionalista que mata e manta matar.
Esse estudo exige outros textos fundamentais do mesmo autor acerca da importância que o método histórico-crítico introduziu nos estudos bíblicos que exige, por sua vez, outras abordagens ao serviço de uma interpretação que não seja nem míope, nem onde vale tudo[4]. 
Durante muitos séculos, a leitura teológica da Bíblia foi, praticamente, a única. Até meados do século XIII, não se distinguia exegese e teologia. Formavam uma só disciplina. Na segunda metade do século XVII, assiste-se ao aparecimento de uma nova leitura que começou por centrar-se no AT. Entre os seus pioneiros, devem mencionar-se o judeu de Amesterdão, de origem portuguesa, Bento Spinoza (1632-1677) e o católico francês Richard Simon (1638-1712). Sem duvidar de que a Bíblia fosse a expressão da palavra de Deus em linguagem humana, a nova abordagem não se confundia com a utilização que dela se fazia na elaboração da teologia sistemática.
Entretanto, muita água correu, debaixo e por cima das pontes, até ao dia de hoje. Francolino Gonçalves exerceu a abordagem histórico-crítica, condição para não se fazer do texto um pretexto para arbitrariedade das interpretações. Em que consiste essa abordagem?
«O único objectivo da exegese histórico-critica é a inteligência do sentido originário dos textos. Não pretende mais nada nem se arroga qualquer outra competência. Estuda os textos bíblicos como estudaria qualquer outro texto antigo, sem ter em conta o estatuto religioso que os cristãos, os judeus e até os muçulmanos lhes reconhecem»[5].
Para o cristão, resta a tarefa indispensável da hermenêutica desses textos.
«O hermeneuta cristão aferirá o sentido dos textos pela bitola da coerência do conjunto das suas Escrituras e da sua Tradição. Por exemplo, não poderá aceitar, sem mais, a ordem divina de exterminar os habitantes do país de Canaã (Dt 7, 1-6) nem a misoginia do que algumas exegetas chamam a “pornografia profética” (cf. Ez 16 e 23) para dar só dois exemplos»[6].
A Comissão Pontifícia Bíblica, à qual Frei Francolino também pertenceu, publicou um documento notável sobre A interpretação da Bíblia na Igreja (15/04/1993). Esse documento, além do método histórico-crítico, que depois de vencer muitos obstáculos conseguiu direito de cidadania na exegese, abre-se a outros métodos e abordagens que foram e vão surgindo na análise dos textos literários. Recusa as leituras fundamentalistas porque, em nome de uma fidelidade total à palavra de Deus, esquecem que esta se encarnou numa época precisa da história, num ambiente social e cultural bem determinado. Quem desejar entendê-la deve aceitar a ajuda das ciências humanas disponíveis.
3. Terminei a referida crónica com um correctivo: Jesus repudiou a violência do AT: Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem[7]. Preferiu ser morto a matar.
A Carta aos Efésios, atribuída a S. Paulo, mas de estilo muito diferente, afirma que somos poema de Deus em Cristo Jesus. Ele é a nossa paz. Destruiu o muro de separação, o muro da inimizade. Anulou, na sua carne, a Lei que contém os mandamentos em forma de prescrições. A partir do judeu e do gentio, criou em si próprio um só homem novo, fazendo a paz. Reconciliou-os com Deus, num só Corpo, por meio da cruz. (…) Os gentios são admitidos à mesma herança, membros do mesmo Corpo e participantes da mesma promessa, em Cristo Jesus, por meio do Evangelho[8].
Estas referências, a que se podiam juntar muitas outras, apresentam o cristianismo em continuidade e em ruptura com o AT.
O interessante é que se tenha atribuído a Jesus de Nazaré, um judeu, a continuidade e a ruptura. A investigação de Frei Francolino sobre os dois iaveísmos, no AT, a que já me referi, permite perceber a razão que levou Jesus a não aceitar nem rejeitar tudo em bloco.
Tagore «tal como o seu amigo Gandhi, que sabia de cor e recitava todos os dias as Bem-aventuranças, foi atraído pelo cristianismo e ambos consideravam que os Evangelhos deveriam ser considerados património universal da Humanidade»[9].
Não posso estar mais de acordo. Outra coisa foram os usos santos e perversos que os Evangelhos tiveram na história das Igrejas.
in Público, 21.06.2020





[1] Rm 2, 12-16
[2] Gn 1 – 2
[3] A Bíblia, Trump e a violência (14/06/2020)
[4] Cadernos ISTA: Estudos bíblicos hoje, nº 17, ano IX (2004), pp. 5-45; Mundos Bíblicos, nº 18, ano X (2005), pp. 7-34; A Dei Verbum, nº 24, ano XVI (2011), pp. 61-88.
[5] Cadernos ISTA, Nº 24, p. 78
[6] Ib., p. 79
[7] Mt 5, 43-44
[8] Cf. Ef 2, 8-16; 3, 3-8. É importante ler estes textos na íntegra.
[9] Cf. Maria Eugénia Abrunhosa, 7Margens, 6 Abril 2020


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A pandemia. Onde está Deus?
Anselmo Borges
A Universidade de Viena investigou a relação da religiosidade com a pandemia. Os resultados mostraram que as pessoas mais religiosas utilizam estratégias mais activas para dominar a crise. Enquanto as pessoas menos religiosas tendem a reprimi-la ou a negá-la, as mais religiosas procuram apoio social e lidam com ela de modo mais forte, mais optimista e com mais serenidade.
São dados significativos. Não houve, creio, nenhum estudo sobre o outro lado, mas estou convencido de que dele resultaria que muitos, esmagados pela pandemia, pelo sofrimento, se perguntaram: onde está Deus?
A história é um autêntico calvário. Hegel referiu-se-lhe como um Schlachtbank: um açougue, um matadouro. E lá está o famoso dilema de Epicuro: Deus tem de ser todo-poderoso e infinitamente bom. Ou Deus pôde evitar o mal e não quis, e não é bom; ou quis e não pôde, e não é omnipotente. Ou quis e pôde; então, donde vem o mal?
Mesmo teólogos de renome sentiram-se atenazados pelo dilema, de tal modo que alguns, como Jürgen Moltmann, falaram de um Deus impotente, que sofre connosco; outros, como Romano Guardini, chegaram a exclamar que "pediriam contas" a Deus pelo sofrimento dos inocentes; Karl Rahner disse que, "num tribunal humano, não sairia absolvido"; Karl Barth afirmou que, no Jardim das Oliveiras, quando Jesus rezava, suando sangue, Deus "se portou como Judas"; e Hans Urs von Balthasar disse que "se deve falar de uma descarga de ira de Deus sobre aquele que lutava no Jardim das Oliveiras." Nestas posições, a pergunta ergue-se talvez ainda mais veemente: acreditar como e para quê num Deus irado ou impotente?
A filosofia e a teologia ficarão historicamente devedoras ao filósofo-teólogo Andrés Torres Queiruga por ter desfeito o preconceito em que assenta o dilema (ver a sua obra marcante, Repensar o Mal). De facto, como escreveu, "enquanto permanecer o preconceito de que Deus poderia acabar com todo o mal do mundo, se quisesse, ninguém pode crer na bondade de Deus, sem se ver obrigado a negar o seu poder; ninguém acreditaria na bondade de um cientista insigne que, podendo acabar hoje com os estragos do coronavírus, não quisesse fazê-lo, por altos e ocultos que fossem os seus motivos".
O crente, nomeadamente o crente cristão, acredita no Deus Pai-Mãe, infinitamente poderoso e bondade infinita, que ama os seus filhos e filhas e só quer o seu maior bem. Donde vem o mal? Do mundo, que é finito e no qual há inevitavelmente mal. Não é possível um mundo finito, em evolução, perfeito e sem mal, porque isso é uma contradição; como se não pode reivindicar a autonomia criatural da liberdade humana finita e a perfeição. "Afirmar hoje que Deus não é bom ou omnipotente, porque não cria um mundo perfeito, é o mesmo que argumentar que não o é, porque não quer criar círculos-quadrados ou não pode fazer ferros-de-madeira." A primeira coisa que é, portanto, preciso clarificar é que o mundo produz mal, o finito não pode ser perfeito, tem falhas, carências, nele haverá choques, becos sem saída...
Desfeito o equívoco de um mundo finito perfeito e sem mal, avança-se para uma ponerologia (do grego, ponerós, mau): tratar do mal, antes de qualquer referência a Deus. De facto, o mal atinge a todos, crentes e não crentes, todos sofrem ao nascer, todos passam pela dor, todos morrem. E devemos todos estar unidos solidariamente na defesa da vida e na procura do real alívio do sofrimento de todos. A pergunta, agora, é outra: se o mal é inevitável, porque é que Deus criou o mundo? "Não posso responder ao ateu que diz que o mundo é absurdo, que não vale a pena. Eu não sou pessimista: creio que vale a pena e que há um referendo na humanidade: todos, no fundo, sabemos que vale a pena. Por isso, continuamos a trazer filhos ao mundo."
Aqui, começa a pisteodiceia (de pistis e dikê, justificação da fé). Há diferentes pisteodiceias, pois todos, ateus, agnósticos, crentes, têm de enfrentar-se com o mal e cada um tem, dentro de uma cosmovisão, a sua resposta para o problema, a sua fé. O crente religioso crê e pensa que é razoável crer em Deus e até pode perguntar, com o famoso teólogo Hans Küng: "O ateísmo explica melhor o mundo? A sua grandeza e a sua miséria? Como se também a razão descrente não encontrasse o seu limite no sofrimento inocente, incompreensível, sem sentido!" E crê que Deus não teria criado o mundo, se não fosse possível libertar-nos do mal. O que se passa é que o que não é possível num dado momento pode sê-lo mais tarde. A mãe sabe matemática, mas não pode ensinar matemática ao seu bebé enquanto bebé; fá-lo-á mais tarde. Alguém pode conceber-se a aparecer já adulto no mundo? A realidade é processual, e o crente em Deus como amor e anti-mal espera a salvação definitiva e plena para lá da morte.
Aqui, ergue-se outra objecção: depois da morte, não continuamos finitos? Os crentes confiam em Deus e podem mostrar, com razões, que a salvação eterna não é contraditória, pelo contrário. Sim, a pessoa é finita, mas com uma abertura infinita. Este é o mistério do homem. Nunca estamos acabados, nenhum ser humano morre definitivamente feito. Não há nada finito que possa preencher a abertura humana, não há nada finito que possa realizar a nossa capacidade de conhecer e amar. Esta é a possibilidade que se abre ao crente a partir da fé: já para lá dos limites do espaço e do tempo, Deus mesmo entrega-se-nos nesta abertura infinita e finalmente seremos nós com Ele e nEle.
Padre e professor de Filosofia. Escreve de acordo com a antiga ortografia
in DN, 21.06.2020
www.dn.pt/edicao-do-dia/20-jun-2020/a-pandemia-onde-esta-deus-12328663.html

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QUE COISA SÃO AS NUVENS
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

É MAIS COM PERGUNTAS DO QUE COM RESPOSTAS — E ESSA É TAMBÉM A RADICAL EXPRESSÃO DO PODER DA LITERATURA — QUE NASCE UMA DAS NARRATIVAS MAIS ORIGINAIS E INCLASSIFICÁVEIS

Portugal tem destas excentricidades: que um espírito crítico, torrencial e iluminador como o de Agustina Bessa-Luís se confronte com a nossa mais extraordinária figura de fronteira que é Santo António de Lisboa (ao mesmo tempo medieval e moderno; popular e cultíssimo; português e a cooperar numa mudança epocal que, segundo Jacques Le Goff “vai sacudir a religião, a civilização e a sociedade”), não parece empresa suficiente para ativar paixões. De facto, o seu “Santo António” (agora reeditado pela Relógio D’Água) é, no conjunto da sua obra, um livro injustamente esquecido. O curioso é que a escritora não contorna esta perturbadora excentricidade, antes a toma como explícito ponto de partida. Ela sabe que há duas perceções afirmadas: aquela maioritária que reduz António a “santo fácil e caseiro”, mais para ser festejado do que propriamente compreendido; e aquela marginal, ligada ao estudo da espiritualidade franciscana e ao ambiente universitário, que o perscruta, sim e bem, mas sem chegar a uma síntese amplamente partilhável pelo seu tempo.
A pergunta que Agustina neste impasse se faz é sobre o poder da literatura. E poucas vezes ela o aceitou pensar, diante do leitor, com esta disponibilidade e risco. Que pode a literatura? Que recursos específicos um romancista ativa para iluminar as faces de poliedro de uma personagem que a receção tende a tornar plana? Que inteligência aplica às passagens inexplicáveis, sejam interiores ou de conjuntura histórica, e às mil modulações, desfocagens e diatribes próprias dos processos de transmissão? No fundo, será mais com perguntas do que com respostas — mas essa é também a radical expressão do poder da literatura — que Agustina constrói uma das suas narrativas mais originais e inclassificáveis, que é uma mistura de ensaio e romance, de texto documental e relato de viagem, de filme metafísico e de making-of sobre as condições de produção, de minucioso comentário filológico do passado e de exercício fulgurante e amplo de pensamento sobre a vida.
Quem era Santo António? Um pregador inflamado e discutido, apostado num “processo moralizador” que não poucos teriam recebido como agressivo ou era o difusor entusiasta do ‘sermo humilis’, que procurava alcançar a inteligência de todos?
No Livro XI das “Confissões”, Santo Agostinho argumenta que os tempos são três: “O presente das coisas passadas, o presente das coisas presentes, o presente das coisas futuras.” Não admira que a escritora apresente o seu projeto como uma “biografia conduzida pela meditação”. Recorde-se que a mesma etimologia latina acomuna a palavra meditação e termos como medicina ou medicamento. Meditar é, por isso, curar o presente.
Quem era efetivamente Santo António? Era um pregador inflamado e discutido, apostado num “processo moralizador” que não poucos teriam recebido como agressivo ou era, ao contrário, o difusor entusiasta do sermo humilis, que procurava alcançar a inteligência de todos, doutos e não doutos? Que transformação aconteceu para que Santo António tenha chegado até nós, sobretudo sob a forma do afeto ao nível do rito quotidiano e das suas mediações, como “piedoso confidente de razões práticas”? E essa transformação foi o fruto de uma crescente maturação psicológica que se explica ou uma experiência mística que é da ordem do indizível? Mesmo defendendo que “António é um afetivo e não um místico”, consumando-se mais na compaixão do que no puro abandono do arrebatamento, Agustina ajuda-nos a mergulhar na fascinante complexidade do santo que, segundo ela, vivia “a condição metafísica dessa treva em que o conhecimento dos seres não é mais um pacto vital, mas um enigma que se respeita pela sua analogia, ou aptidão para receber o divino”.
in Semanário Expresso, 20.06.2020
https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2486/html/revista-e/que-coisa-sao-as-nuvens/o-santo-antonio-de-agustina
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À PROCURA DA PALAVRA
PE. VITOR GONÇALVES
DOMINGO XII COMUM
“Não temais os que matam o corpo,
mas não podem matar a alma.”
Mt 10, 28
Ultrapassar o medo
De entre as muitas imagens de celebrações em tempo de confinamento, certamente alguns vimos aquela em que o padre subiu a um terraço da igreja e, rodeado de prédios, com as pessoas em suas casas, celebrou a eucaristia, “à luz do dia e sobre os telhados”. Semelhantes iniciativas manifestaram inúmeros dotes musicais, jogos, saudações, e festas em varandas. Era preciso vencer o isolamento e não ficar reduzidos a écrans cheios de imagens.
Se o distanciamento social é uma forma de evitar o contágio deste vírus perigoso e de proteger a vida dos mais frágeis, não podemos ceder ao medo. É com prudência e responsabilidade que devemos caminhar. Com novos ritos de cuidado comuns, e redescobrindo a felicidade das pequenas coisas. Alguma insaciabilidade e uma certa soberba perante o mundo e os outros pode dar lugar à humildade e à solidariedade. Não é uma pandemia que termina com a violência nem com problemas mais fundos da sociedade, como os conflitos em torno do racismo e do julgamento da história trouxeram à tona da vida.
São frequentes os apelos de Jesus a não termos medo. Afinal, ele é o maior obstáculo ao amor, que supõe confiança, e incita à entrega e à coragem. O medo fecha, o amor abre; o medo isola, o amor faz encontro; o medo antecipa o pior, o amor tem esperança; o medo é egoísta, o amor é confiante; o medo prende, o amor liberta; o medo mata, o amor dá vida. Dizia Clarice Lispector: “Agora preciso de tua mão, não para que eu não tenha medo, mas para que tu não tenhas medo. Sei que acreditar em tudo isso será, no começo, a tua grande solidão. Mas chegará o instante em que me darás a mão, não mais por solidão, mas como eu agora: por amor.”
De três medos previne Jesus os discípulos ao enviá-los em missão. O medo do fracasso, e que a violência dos homens reduza a nada o esforço em levar a boa notícia do amor de Deus. Jesus pede-lhes a coragem de O anunciar em todas as circunstâncias; afinal, o Reino germina a partir do que é frágil e cresce onde menos se espera. Só fracassa quem não tenta, e o cristão tem sempre diante si o risco de não ver germinar as sementes que lançou. Adverte-os para o medo dos maus tratos e da morte. Só a confiança na vida maior que Deus dá aos seus filhos é mais forte. E se o medo do sofrimento que pode atingir os que mais queremos também é real, Jesus lembra a fragilidade dos passarinhos e a caducidade dos cabelos para falar do cuidado e do carinho de Deus. Não promete que não irá acontecer nada, ou que fará milagres para evitar o que é difícil. Simplesmente diz que valemos mais do que muitos passarinhos. E com a nossa entrega e confiança, Ele fará o que for necessário. A última palavra é sempre de Deus e é uma palavra de vitória e vida plena.
in Voz da Verdade, 21.06.2020
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Tornar o catolicismo português mais franciscano, a tarefa do bispo Ornelas na CEP (análise)
António Marujo
No dia 16 de Junho, 28 bispos elegeram os novos titulares dos órgãos da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), escolhendo o bispo de Setúbal, José Ornelas, como presidente. Até hoje, a CEP não foi muito capaz liderar dinamismos significativos de renovação da Igreja Católica em Portugal. Podem eleições como estas mudar alguma coisa? Podem, mas para tal é preciso reunir a vontade colectiva dos bispos.
A escolha da CEP foi feliz: o bispo de Setúbal é, no actual quadro, um dos poucos com capacidade de imprimir um ritmo diferente à Conferência, libertando-a de vários espartilhos históricos. Para isso, terá de conseguir que o organismo seja mais do que uma mera assembleia de partilha de reflexão e produção de documentos – apesar de ela integrar bispos empenhados em dar o seu melhor, sinceramente interessados na renovação.
Há um pecado original na criação da CEP: nascida na década de 1960, a conferência era nesse tempo liderada pelo cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, patriarca de Lisboa e personalidade forte e carismática. Mas, formado 50 anos antes, já não conseguiu, ou não quis, adaptar-se às mudanças que o II Concílio do Vaticano traçou. O que ficou, numa Igreja também sujeita à ditadura, à censura e à perseguição da discordância, foi a imagem de uma hierarquia cinzenta, com tiques de autoritarismo e monolitismo, muito próxima do ditador e do salazarismo – mesmo se este é um retrato incompleto, pois sempre houve quem quisesse um outro catolicismo para Portugal.
Desde aí, a CEP viveu quase sempre na sombra dos bispos da capital (no senso comum, quem “manda” na Igreja é o patriarca de Lisboa, ao contrário do que acontece noutros países, em que vários outros bispos se destacam). Mais grave ainda, a Conferência continuou enferma de falta de ousadia, criatividade e espírito colectivo, factores agravados pelo monolitismo vivido em Portugal durante décadas.
Timidez
Excepções? Alguns rostos dos últimos 40 anos e, sobretudo, alguns momentos: a plena adesão, liderada pelo cardeal Ribeiro e pelo então bispo do Porto, António Ferreira Gomes, à democracia implantada em 1974; a dinâmica da pastoral do domingo (finais de 1970-início de 1980), os congressos nacional e diocesanos dos leigos; o relançamento das semanas sociais; o congresso da família… Mas, se revisitarmos as conclusões dessas iniciativas, percebemos que a esmagadora maioria delas ficou no papel. O catolicismo português, preso à falta de debate interno, tem a mesma incapacidade do país de ficar muitas vezes por bons diagnósticos, sem consequências.
De fora, houve ainda um sopro de frescura em 2004, com o encontro de jovens promovido pela comunidade ecuménica de Taizé, pouco aproveitado na atenção aos jovens, espiritualidade, diálogo ecuménico e compromisso social que poderia ter provocado. E, na quarentena de que saímos, o bispo de Leiria e o patriarca de Lisboa foram assertivos na decisão de suspender celebrações comunitárias (incluindo o risco absurdo que seria o 13 de Maio, em Fátima) e de afirmar o essencial da fé.
A renovação sugerida pelo Concílio (1962-65) deu passos tímidos depois do 25 de Abril, até à mudança de século. Os bispos de então não eram muito arrojados, mas estavam alinhados com o Vaticano II e davam espaço à iniciativa de pessoas e grupos. Esses tempos esfumaram-se e os passos no sentido da renovação não foram muito longe.
Há 55 anos, a 6 de Agosto de 1965 (a poucos meses do encerramento, em Dezembro, do Vaticano II), o episcopado português publicava uma nota pastoral sobre o Concílio, onde escrevia que “reforma sem disciplina e actualização sem ordem resultariam em anarquia destruidora.” Essa tem sido, grosso modo, a atitude do episcopado em Portugal: nada de sujar as mãos e arriscar, como tem pedido o Papa Francisco, mesmo que isso implique depois repensar e corrigir. Antes manter a disciplina e a ordem – ou seja, “prudência” e “receio”, manter o que está, não dar espaço à criatividade, não enfrentar problemas sociais graves. Como diz a expressão usada em âmbitos católicos quando se quer dizer delicadamente que algo/alguém não existe, a CEP tem sido demasiado “apagada”…
Ausências
Alguns exemplos: nenhum inquérito sociológico ou da prática dominical originou dinâmicas pastorais diferentes ou opções por prioridades; não há perspectivas de uma pastoral de conjunto nas cidades; a participação dos leigos, mulheres e jovens nos processos de decisão é, muitas vezes, apenas retórica, sujeita ao poder frequentemente autoritário do bispo ou do padre; ignoram-se problemas como a solidão do clero, da profunda crise de identidade da vida religiosa ou da regressão na formação dos seminários para um modelo clerical e de “casta”, no qual a formação humana, cultural e espiritual é deficiente, e nem sequer entusiasma os seminaristas por conhecer o pensamento de teólogos ou investigadores fora dos manuais.
Olhando para o que se passa na sociedade, a voz da hierarquia quase só se faz ouvir para falar de temas como o aborto e eutanásia. E peca pelo silêncio em realidades como a violência doméstica, o desemprego, o racismo e populismo crescentes (por vezes protagonizado por quem se faz fotografar em igrejas ou faz profissões genéricas de fé)? Falta diálogo cultural (com excepção de iniciativas pontuais, como a página da Pastoral da Cultura), falta presença na questão da emergência ambiental, ainda mais tendo um “manual de instruções” espantoso como é a encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, falta formação católica de lideranças económicas, políticas e financeiras para uma economia que não mate…
Se este diagnóstico fosse exagerado, possivelmente alguns dos indicadores católicos estariam hoje melhor do que há 20 ou 40 anos e haveria mais pessoas nas missas, mais baptizados e matrimónios, universos intelectuais, políticos e sociais mais próximos e interessados no diálogo com os católicos… O catolicismo sofre uma erosão a vários níveis e não só porque o mundo mudou. Também (sobretudo?) porque a Igreja Católica não tem tido arrojo, criatividade, ousadia, nas propostas que faz, limitando-se quase só a repetir o que já se sabe, o que já se faz, o que já se pensa. Escasseiam as vozes que reflectem, debatem e propõem caminhos alternativos. E as poucas que há são olhadas de lado. Há muito.
Urgência
Este é um diagnóstico cáustico? Sim, porque há factores positivos que aqui não são referidos; num momento em que volta a haver uma nova liderança no episcopado, este é o momento de olhar para o muito que falta fazer. E as primeiras declarações do bispo José Ornelas indiciam essa vontade.
Na Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho), a sua exortação apostólica programática, o Papa Francisco diz que “a vida comunitária e o compromisso com os outros” são o “coração do evangelho” (nº 177). Na Laudato Si’, acrescenta que se devem considerar “inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior” – ou seja, as dimensões mística e espiritual (nº 10).
No primeiro destes textos, o Papa sugere consequências da renovação: recusa do clericalismo (e do narcisismo, acrescentou ele em diversas ocasiões, a propósito dos abusos sexuais), apelo à criatividade a ousadia (não serve o argumento de que “sempre se fez assim”), não querer ver inimigos em todo o lado, chamar pessoas que pensem diferente e não se limitem a lisonjear os bispos ou padres, não ficar pela moral; e, pelo contrário, propor a misericórdia, a atenção a todas as periferias, ter atenção às novas dinâmicas urbanas, aceitar o pluralismo e o debate, dar protagonismo aos leigos, às mulheres e aos jovens…
D. José Ornelas já referiu a necessidade de coordenar “solidariamente” actividades conjuntas, de dialogar com a sociedade de que a Igreja Católia faz parte, de dar atenção aos múltiplos problemas sociais. Mas nada disso serão tarefas fáceis, até porque já outras vezes houve intenções semelhantes, que esbarraram na inércia da CEP enquanto conjunto. As mudanças não se fazem com poucas pessoas, mas com uma vontade colectiva e o facto de a liderança da CEP (presidência e conselho permanente) estar, no fundamental, alinhada com o pensamento e modo de agir do Papa Francisco é uma ajuda importante para começar a mudar o rumo.
É necessária, no entanto, uma liderança firme, que rompa a sensação de que a adesão de uma boa parte do clero português ao Papa é apenas epidérmica, sem grandes consequências de ordem prática. Quando Francisco quis convencer José Ornelas a vir para Setúbal (o então superior geral dos padres dehonianos preparava-se para uma missão em Angola) disse-lhe que Setúbal também é terra de missão para um clérigo católico. E Portugal, poderia acrescentar-se. Com uma urgência: trazer “franciscanismo” ao catolicismo português. Essa é a missão, a tarefa que o novo presidente da CEP tem pela frente.
in 7Margens
https://setemargens.com/tornar-o-catolicismo-portugues-mais-franciscano-a-tarefa-do-bispo-ornelas-na-cep-analise/
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 Capela Do Rato
Em memória dos defuntos falecidos em tempo de pandemia

O Senhor D. Manuel Clemente presidirá no dia 28 de junho, na Capela do Rato, à eucaristia do XIII Domingo do Tempo Comum.  
Nesta celebração faremos memória dos irmãos e irmãs falecidos durante este tempo de pandemia, muitos deles numa profunda solidão.  

Confortam-nos e consolam-nos as palavras oportunas de Paulo, na segunda leitura: «Se morremos com Cristo, também com Ele viveremos».  
Convidamos as famílias enlutadas a indicar o nome do familiar que se quer lembrar durante a eucaristia, enviando essa informação previamente para capeladorato@gmail.com, até ao dia 26 de junho. Sugerimos também que se possam acrescentar alguns traços biográficos de modo a pessoalizar a celebração (ex. nome, idade, circunstância do falecimento…).  
No limite da presença das 40 pessoas, priorizamos a inscrição de pessoas e famílias enlutadas ( inscrição disponível aqui). Convidamos as pessoas e famílias que, por razões várias, não podem estar presentes, a seguir a transmissão da eucaristia on line, através do site da Capela e do facebook.  

Sugerimos que, em casa, se possa preparar um pequeno altar com a foto da pessoa falecida, uma vela acesa e uma pequena flor.
Inscrições para a eucaristia do XIII Domingo do Tempo Comum

Já está disponível o formulário para inscrição nas eucaristias que se irão realizar na Capela do Rato, nos dias 27 e 28 de junho. 
Em relação à eucaristia de domingo, dia 28 de junho, caso pertença a uma família em luto, agradecemos que nos indique o nome da pessoa falecida. Ver mais informações sobre a esta celebração de domingo aqui


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