01 agosto 2020

P / Info: Crónica & O elogio do tempo livre
Cardeal Tolentino: O  tomista gentil

NOTA: Como é hábito vamos de férias e interrompemos os envios de mails. Claro que, se houvesse alguma notícia mesmo importante, enviá-la-íamos. Muito boas férias para tod@s e até Setembro.

QUE COISA SÃO AS NUVENS
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

O tomista gentil
A TRAJETÓRIA DE FREI MATEUS PERES PESA PARA O LADO DA SINGULARIDADE. ELE FOI TODA A VIDA UM SERENO TECEDOR DE MEDIAÇÕES; UM CONSTRUTOR DE SÍNTESE

Penso que é uma pena se, para lá do círculo da família dominicana, ficar por assinalar a partida dessa notável figura que foi, no Portugal contemporâneo, frei Mateus Peres, O.P. Ele começou por integrar uma geração de intelectuais que, nos anos 50 e 60, viveu o catolicismo de uma forma apaixonada e que, com a exaltação e as amolgadelas próprias dos estados de paixão, trabalhou sobretudo para dotar de cidadania cultural uma fé que tradicionalmente parecia não ter expressão pública fora das manifestações de piedade. Nomes como os de António Alçada Baptista, João Bénard da Costa, Pedro Tamen, Nuno Portas, M. S. Lourenço e do próprio frei Mateus Peres, entre outros, desenharam em torno ao Concílio Vaticano II um inédito e vital espaço de pensamento teológico, debate e aggiornamento que sintonizou Portugal com a novidade e a viragem que se respiravam internacionalmente. À galáxia da editora Morais e das revistas “Concilium” e “O Tempo e o Modo” deve-se não só a introdução de nomes fundamentais da teologia contemporânea (Edward Schillebeeckx, Congar, Balthasar...), mas de textos clássicos da espiritualidade como “Imitação de Cristo”, de Tomás de Kempis, ou os “Fioretti”, de São Francisco de Assis, em traduções exemplares que atestam um desejo de dotar de credibilidade também literária a linguagem da experiência religiosa.
Os mais pessimistas dirão que todo esse movimento redundou num fiasco do ponto de vista eclesial, pois essa geração da Ação Católica Universitária (JUC) se dispersou depois em percursos de dissidência e solidão. Mas, a verdade, é que não podemos não ver que o rótulo de “vencidos do catolicismo”, que lhe ficou colado, alberga, no fundo, trajetórias muito diferenciadas e que obrigam a complexificar o olhar de conjunto a essa geração. Por exemplo, a trajetória de Mateus Peres pesa certamente para o lado da singularidade. Ele foi toda a vida um sereno tecedor de mediações; um construtor de sínteses. E disso fala o seu percurso na vida religiosa, onde foi um instigador teólogo moral, mas também, por mais de uma década, provincial dos padres dominicanos portugueses, e depois assistente do mestre-geral, com a responsabilidade de cuidar da vida intelectual, numa ordem que, há oitocentos anos, vive como sua missão específica associar a pregação a um aturado estudo.
Ouvi-o pregar muitas vezes em contexto litúrgico e fascinava-me o modo como ele avizinhava a comunidade do texto evangélico
Muitos recordarão a figura de frei Mateus Peres por outras razões. A mim, confesso, o seu legado foi a gentileza. Ele mostrou-me o que significa ser sempre gentil; como se pode e deve defender um quinhão de alegria no meio das turbulências; o valor dessa pureza de coração que se traduz em hospitalidade incondicional à vida e em prática fraterna efetiva; o efeito imprevisivelmente seminal que tem a finesse d’esprit ou a delicadeza sem nenhum cálculo. “Desliza, liso/ pé, lisa palma/ sobre a ruga da pedra” — é o conselho sapiencial de um poema de Pedro Tamen que o reflete tanto.
Ouvi-o pregar muitas vezes em contexto litúrgico e fascinava-me o modo como ele avizinhava a comunidade do texto evangélico: nunca entrava às pressas pelo texto dentro, nunca verdadeiramente se apoderava dele, jamais se sobrepunha. Dir-se-ia que contemplava e fazia contemplar a palavra. Falava frequentemente das suas dificuldades de compreensão de um episódio bíblico, partilhava as perguntas que se tinha feito e, não raro, aceitava que só conseguia avistar uma parte do seu sentido. Mas a parte que ele via ganhava, na sua pregação, uma evidência iluminante, onde razão e fé travavam um fértil diálogo. Frei Mateus Peres O.P. permaneceu até ao fim um tomista gentil como, aliás, se diz que São Tomás de Aquino foi.
in Semanário Expresso, 01.08.20210, p 160

P / Info: Crónica & O elogio do tempo livre
Cardeal Tolentino: O  tomista gentil

NOTA: Como é hábito vamos de férias e interrompemos os envios de mails. Claro que, se houvesse alguma notícia mesmo importante., enviá-la-íamos. Muito boas férias para tod@s e até Setembro.

QUE COISA SÃO AS NUVENS
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

O tomista gentil
A TRAJETÓRIA DE FREI MATEUS PERES PESA PARA O LADO DA SINGULARIDADE. ELE FOI TODA A VIDA UM SERENO TECEDOR DE MEDIAÇÕES; UM CONSTRUTOR DE SÍNTESE

Penso que é uma pena se, para lá do círculo da família dominicana, ficar por assinalar a partida dessa notável figura que foi, no Portugal contemporâneo, frei Mateus Peres, O.P. Ele começou por integrar uma geração de intelectuais que, nos anos 50 e 60, viveu o catolicismo de uma forma apaixonada e que, com a exaltação e as amolgadelas próprias dos estados de paixão, trabalhou sobretudo para dotar de cidadania cultural uma fé que tradicionalmente parecia não ter expressão pública fora das manifestações de piedade. Nomes como os de António Alçada Baptista, João Bénard da Costa, Pedro Tamen, Nuno Portas, M. S. Lourenço e do próprio frei Mateus Peres, entre outros, desenharam em torno ao Concílio Vaticano II um inédito e vital espaço de pensamento teológico, debate e aggiornamento que sintonizou Portugal com a novidade e a viragem que se respiravam internacionalmente. À galáxia da editora Morais e das revistas “Concilium” e “O Tempo e o Modo” deve-se não só a introdução de nomes fundamentais da teologia contemporânea (Edward Schillebeeckx, Congar, Balthasar...), mas de textos clássicos da espiritualidade como “Imitação de Cristo”, de Tomás de Kempis, ou os “Fioretti”, de São Francisco de Assis, em traduções exemplares que atestam um desejo de dotar de credibilidade também literária a linguagem da experiência religiosa.
Os mais pessimistas dirão que todo esse movimento redundou num fiasco do ponto de vista eclesial, pois essa geração da Ação Católica Universitária (JUC) se dispersou depois em percursos de dissidência e solidão. Mas, a verdade, é que não podemos não ver que o rótulo de “vencidos do catolicismo”, que lhe ficou colado, alberga, no fundo, trajetórias muito diferenciadas e que obrigam a complexificar o olhar de conjunto a essa geração. Por exemplo, a trajetória de Mateus Peres pesa certamente para o lado da singularidade. Ele foi toda a vida um sereno tecedor de mediações; um construtor de sínteses. E disso fala o seu percurso na vida religiosa, onde foi um instigador teólogo moral, mas também, por mais de uma década, provincial dos padres dominicanos portugueses, e depois assistente do mestre-geral, com a responsabilidade de cuidar da vida intelectual, numa ordem que, há oitocentos anos, vive como sua missão específica associar a pregação a um aturado estudo.
Ouvi-o pregar muitas vezes em contexto litúrgico e fascinava-me o modo como ele avizinhava a comunidade do texto evangélico
Muitos recordarão a figura de frei Mateus Peres por outras razões. A mim, confesso, o seu legado foi a gentileza. Ele mostrou-me o que significa ser sempre gentil; como se pode e deve defender um quinhão de alegria no meio das turbulências; o valor dessa pureza de coração que se traduz em hospitalidade incondicional à vida e em prática fraterna efetiva; o efeito imprevisivelmente seminal que tem a finesse d’esprit ou a delicadeza sem nenhum cálculo. “Desliza, liso/ pé, lisa palma/ sobre a ruga da pedra” — é o conselho sapiencial de um poema de Pedro Tamen que o reflete tanto.
Ouvi-o pregar muitas vezes em contexto litúrgico e fascinava-me o modo como ele avizinhava a comunidade do texto evangélico: nunca entrava às pressas pelo texto dentro, nunca verdadeiramente se apoderava dele, jamais se sobrepunha. Dir-se-ia que contemplava e fazia contemplar a palavra. Falava frequentemente das suas dificuldades de compreensão de um episódio bíblico, partilhava as perguntas que se tinha feito e, não raro, aceitava que só conseguia avistar uma parte do seu sentido. Mas a parte que ele via ganhava, na sua pregação, uma evidência iluminante, onde razão e fé travavam um fértil diálogo. Frei Mateus Peres O.P. permaneceu até ao fim um tomista gentil como, aliás, se diz que São Tomás de Aquino foi.
in Semanário Expresso, 01.08.20210, p 160


O elogio do tempo livre
Alfredo Teixeira
Para quê elogiar tamanho consenso? Talvez seja mais fácil encontrar um discurso cristão acerca da dignidade do trabalho do que uma espiritualidade do tempo livre.

Este título parece bastante inútil. Para quê elogiar tamanho consenso? De facto, à centralidade do homo faber – na versão do capitalismo da produção e do consumo – corresponde uma hiperestimulação do desejo do tempo livre. Talvez seja mais fácil encontrar um discurso cristão acerca da dignidade do trabalho do que uma espiritualidade do tempo livre, mesmo quanto se reconhece que a noção de santidade do tempo é inseparável da experiência bíblica do «sétimo dia» – o «entretanto» da festa de Deus, a irrupção do definitivo na fragilidade dos dias.

O tempo livre é vivido com uma particular intensidade na modalidade moderna das férias. É um tempo plural. Nuns casos, exprime-se a nostalgia do contacto com a nudez do mundo, resistindo a uma cultura de imobilidade e de fechamento face à diversidade do meio. Noutros casos, valoriza-se a experiência de liberdade, procurando paisagens ainda não frequentadas. As férias dão corpo a uma rutura com o tempo metrificado pelo trabalho, alargando o campo da experiência da gratuidade e facilitando novas experiências sensoriais, nas quais o cosmo se descobre como lugar de comunhão e não apenas de exploração. Assim, as férias podem ser lidas como uma dilatação do tempo dominical, o tempo da alegria da criação – a dança de Deus com as criaturas.

Assim, as férias podem ser lidas como uma dilatação do tempo dominical, o tempo da alegria da criação – a dança de Deus com as criaturas.

O tempo livre pode ser um ensaio de reencantamento do mundo, favorecendo a relativização da ordem normalizada do quotidiano tecnológico, produtivo e funcionalizado. Os itinerários de férias permitem, tantas vezes, o corpo a corpo com a natureza – o sol, o vento, o mar, o solo… Esta experiência deveria permitir o aprofundamento de uma ética do cuidado cósmico, uma vez que a nossa fruição do mundo exige a responsabilidade pela manutenção dos seus equilíbrios. Sem ingenuidades, admitamos, as férias industrializadas pressionam significativamente o meio. Mas talvez a experiência da ecologia do tempo livre nos possa tornar mais atentos a outras ecologias, nas quais descobrimos que a preservação das diversidades é, no sentido bíblico, uma responsabilidade partilhada com o Deus criador.

Dizemos que as férias passam depressa. É uma forma de exercitarmos o desejo do tempo livre e exorcizarmos o jugo do tempo da produtividade. Mas as férias podem ser o tempo da lentidão. Ou seja, o tempo em que demoramos sobre as coisas – há coisas que só na lentidão se tornam visíveis. A disseminação de dispositivos portáteis que, entre outras coisas, fotografam o tempo livre, facilitou o cultivo desta suspensão do tempo – o horizonte, o pôr-do-sol, a luz refletida no rio, o mistério do nevoeiro, a surpresa de uma flor, a potência do mar, tudo se imobiliza na fotografia, para ser tatuado como memória e biografia.

Mas as férias podem ser o tempo da lentidão. Ou seja, o tempo em que demoramos sobre as coisas – há coisas que só na lentidão se tornam visíveis.

A experiência das férias, enquanto tempo livre, veicula uma criativa relação entre passado e futuro. Tantas vezes as férias são um regresso aos lugares onde somos felizes. Não se trata de um regresso ao mesmo. Esse solo arável da nossa memória alarga o nosso futuro, uma vez que nesses lugares de felicidade encontramos o que verdadeiramente importa, ao redor de uma mesa, no reconhecimento dos rostos, na troca de afetos, na partilha intergeracional, no tecido das histórias recontadas. Talvez a hospitalidade seja um dos valores mais celebrados na experiência das férias. Ser bem-vindo é aquilo que mais apreciamos no trânsito destes dias. Na generosidade da festa, na alegria da hospitalidade, no bom-humor confiante, na santidade do repouso, dizemos ámen à bondade da vida. Esse é o elogio cristão do tempo livre.
in 29.07.2020
https://pontosj.pt/opiniao/o-elogio-do-tempo-livre/
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
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